15 de jan de 2013

Como e porque Gilmar Mendes e o PSDB mantêm Marcos Valério refém

Movimentação de Habeas Corpus no STF comprova que Gilmar Mendes, independente da condenação no Mensalão, mantém Marcos Valério refém do PSDB
“Relatório Reservado” entregue aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em final de julho de 2012 informa que chegara às mãos do senador Aécio Neves, através de Álvaro Rezende, cópia do depoimento que Marcos Valério pretendia fazer perante a Procuradoria Geral da República (PGR). Na mesma oportunidade, Valério entregaria documentos que comprovavam como funcionou o esquema de arrecadação ilícita no Governo de Minas após 2002, através da gestora das verbas de publicidade, sua irmã, Andréa Neves.
Interlocutor de Marcos Valério, Álvaro Rezende, dono da R&C Propaganda, agência que acompanha Aécio Neves desde quando, na década de 80, após a morte de seu avô, ocupou o cargo de diretor de loterias da Caixa Econômica Federal, sob a presidência de Danilo de Castro. Mesma época do escândalo da Ghetec e da abafada morte da filha de um diretor da Caixa, afogada em uma piscina em função de uso excessivo de droga.
Rezende informara ainda à Aécio que Valério estaria desesperado e revoltado, pois tinha certeza que seria condenado pelo STF por pressão da mídia aliada do PSDB e que teria sido abandonado, estando passando dificuldades financeiras. Logo depois deste encontro, “Carta Capital” publicaria a “Lista do Mourão”. Investigações anteriores da Polícia Federal concluíram que o documento teria sido entregue por Mourão a Nilton Monteiro.
A repercussão da publicação de “Carta Capital” da “Lista do Mourão” e outros documentos mostrando como operou o esquema criminoso em Minas Gerais assustaram Aécio, que teria decidido agir para evitar que Valério cumprisse o prometido, determinando que fosse feito acordo.  Na condução deste acordo, segundo o “Relatório Reservado”, estariam Danilo de Castro e o advogado de Marcos Valério.
Contratos do Governo de Minas Gerais celebrados com as empresas de Marcos Valério, além do aval de Danilo de Castro em empréstimos considerados simulados pelo STF, foram investigados pela PF. Castro confessou que realmente havia avalizado o empréstimo, porém as justificativas não convenceram os investigadores.
Através de parecer do então Procurador Geral Antônio Fernando e decisão do Ministro Joaquim Barbosa determinaram-se maior aprofundamento nas investigações pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Os resultados destas investigações, se ocorreram, jamais vieram a público.
Segundo um ex-ministro do STF, pouco depois de “Carta Capital” divulgar (27/07/2012) a lista contendo o nome de Gilmar Mendes como um os beneficiados pelo esquema do “Mensalão”, circulou entre os ministros do STF o “Relatório Reservado”.
Teria sido combinado que Valério não narraria fatos envolvendo o PSDB e se condenado ele cumpriria sua condenação em Minas Gerais, recebendo em troca de declarações contra Lula perante a PGR regalias no cumprimento da pena de prisão, além da retirado de mesa, para julgamento perante a 1ª Turma do STF, o Hábeas Corpus nº. 97.416 concedido liminarmente por Gilmar Mendes que possibilitou sua liberdade após prisão na “Operação Avalanche”, da Polícia Federal.
Trata-se de uma decisão monocrática quando Mendes exercia a presidência do STF e, seguindo parecer da PGR e da relatora Ministra Carmem Lúcia, a mesma deveria ser revogada, restabelecendo a prisão. Em sua decisão, Gilmar Mendes afirmou que o juiz que determinou a prisão de Valério utilizou argumentos “fortemente especulativos”.
Para ele, o juiz que decretou a prisão preventiva expôs “simples convicção íntima, supondo que Rogério e Marcos poderão tumultuar as investigações com base em suspeitas sobre fatos passados, sem necessária indicação de ato concreto, atual, que indique a necessidade de encarceramento ou manutenção no cárcere em caráter provisório”. Os “fatos passados” a que Gilmar Mendes fundamentou sua decisão é a participação de Valério e Tolentino no esquema do Mensalão.
Consta do relatório cópia da movimentação processual comprovando a retirada do HC de mesa da 1ª Turma do STF em 06 de Setembro de 2012, em pleno julgamento do Mensalão e cinco dias antes de proferida a primeira condenação contra Marcos Valério. O HC estava em mesa pronto para julgamento há dois anos, desde 08 de Junho de 2010.
A data da retirada do HC 97.416 de mesa da 1ª Turma coincide com a data do novo depoimento prestado por Marcos Valério perante a PGR acusando Lula.
Também acompanha o relatório cópia da ata de reunião do conselho de administração da Copasa, mostrando a aprovação de um termo aditivo em contrato de publicidade com a R&C Propaganda, origem dos recursos que teriam sido repassados a Marcos Valério. A Copasa foi uma das fontes de recurso público que abasteceu, em 1998, o esquema montado por Eduardo Azeredo, denominado “Mensalão do PSDB”.
Minas Gerais, Estado governado pelo PSDB desde 2002, mantém controle absoluto sobre o Poder Judiciário e Ministério Público, onde às execuções das penas privativas de liberdade só ocorrem de acordo com sua vontade. Exemplo disto é a permanência em liberdade do ex-detetive Reinaldo Pacífico de Oliveira Filho, condenado em janeiro de 2009 a 14 anos de prisão, pelo assassinato da modelo Cristiana Aparecida Ferreira, na época com 24 anos.
O corpo da modelo foi encontrado num flat no Bairro de Lourdes, Centro-Sul de Belo Horizonte, em agosto de 2000 e ainda encontra-se pendente de investigação a acusação de crime de mando, contra o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e de diversas autoridades do governo mineiro.  
Segundo o “Relatório Reservado”, fora em função e após o acordo que, através de um advogado de FHC, Gilmar Mendes teria recebido cópia das hoje comprovadas perícias fraudadas realizadas pela Polícia Civil de Minas Gerais, conduzidas pelo delegado Nabak a mando de Danilo de Castro, juntada na denúncia contra “Carta Capital”.
O único resultado prático do “Relatório Reservado” teria sido o de abortar o esquema montado, obrigando que Gilmar Mendes e o Procurador Geral, Roberto Gurgel, afirmassem à imprensa que tinha pouca importância às declarações prestadas por Marcos Valério contra Lula.
Segundo o ex-ministro do STF, embora sem identificação de autoria e timbre, saiba-se que o constante no “Relatório Reservado” seria fruto de investigações da ABIN, que vem acompanhando de perto toda movimentação em torno do processo do Mensalão, principalmente na defesa da integridade física do ministro Joaquim Barbosa.
Conforme noticiado por Novojornal, o Relatório da Polícia Federal relativo às investigações do “Mensalão” encaminhado ao STF, cita que as investigações se basearam em uma lista aprendida, também conhecida como “Lista do Mourão”.
Encontra-se com o ministro Joaquim Barbosa o inquérito nº. 3530 e no mesmo foi juntado denúncia sobre o esquema montado para forjar a perícia apresentada na acusação de Gilmar Mendes contra “Carta Capital”, atestando ser falsa a “Lista do Mourão”.
Como dito anteriormente, a “Lista do Mourão” foi apreendida anos antes e considerada autêntica no Relatório da Polícia Federal.
Acompanhando a denúncia estão documentos que comprovam como operou a organização criminosa junto ao Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia Civil de Minas Gerais, além das transcrições de gravações de reuniões da organização criminosa feitas pelo advogado J.Engler, narrando assassinatos, fraude processual, falsificação de documentos, suborno de promotores, juizes, desembargadores, peritos e delegados da Polícia Civil mineira.
Segundo o ex-ministro do STF, “este é o resultado de uma década de governo alienígena, descomprometido com a ética, moral e tradições mineiras, onde as instituições e a sociedade foram levadas a mais baixa degradação”.
Fatos e documentos comprovam o narrado no “Relatório Reservado”, cabendo agora ao ministro Gilmar Mendes e a seus colegas do STF explicar a sociedade, que assistiu e acompanhou o julgamento do “Mensalão”, os motivos que os levaram a permitir que Marcos Valério permanecesse solto, através de uma liminar concedida e mantida pela manobra regimental de retirada do HC de mesa perante a 1ª Turma.
Para a opinião pública, através da imprensa, ao contrário do ocorrido, Gilmar Mendes e os demais ministros reclamam que a prisão de Marcos Valério demorará, tendo em vista diversos recursos que estão sendo e serão utilizados por sua defesa.
Caso Gilmar Mendes não apresente uma justificativa plausível, estará comprovada a tese de que Marcos Valério agiu a serviço do PSDB ao denunciar Lula e por trás estava não o ministro do STF e sim o homem de confiança do PSDB, que antes de ser ministro foi Advogado Geral da União do governo tucano de FHC, que o indicou para o STF.
Consultados através de suas assessorias, o governo de Minas Gerais, o senador Aécio Neves e o Ministro Gilmar Mendes optaram por nada comentar. A Copasa, consultada, informou ser normal a celebração de aditivos ao contrato de publicidade.
Documentos que fundamentaram a matéria:
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Macaco, olha o teu rabo

Dificilmente alguém poderá exagerar as dificuldades criadas para a Venezuela (e para Cuba) pelo agravamento do estado de saúde do presidente Hugo Chávez. A Venezuela está dividida. E não apenas entre chavismo e oposicionismo. Há basicamente quatro correntes do chavismo em luta pelo poder pós-Chávez: a dos militares, a do Partido Socialista Unificado da Venezuela, representada por Nicolás Maduro, presidente em exercício, a da economia e a do setor de energia (petróleo e gás, responsáveis por 95% das exportações venezuelanas).
E tem Cuba. Um primeiro-ministro cubano, Carlos Lage, disse em 2005 que a ilha tinha dois presidentes, Fidel Castro e Chávez. Hoje tem um só, Raúl, que por sinal defenestrou Lage em 2009. Mas talvez a Venezuela tenha dois governos: o chavista e o castrista.
O envolvimento de cubanos na Venezuela vai muito além do fornecimento de dezenas de milhares de médicos para o principal programa social criado por Chávez, Barrio Adentro. Um dissidente cubano, o escritor Orlando Luis Pardo Lazo, diz que “os serviços secretos da ilha atuam na equipe de assessoria e segurança do presidente moribundo, e infiltrados na oposição venezuelana” (O Estado de S. Paulo, caderno “Aliás”, 13/1). É grave.
A oposição venezuelana não tem do que se orgulhar. No presente, mal levantou a cabeça na eleição presidencial em que Chávez conquistou seu quarto mandato presidencial (7 de outubro de 2012). No passado, era governo e conduziu o país ao estado lastimável em que o encontrou o coronel Chávez.
O professor Antonio Carlos Peixoto (1940-2012) dizia que o esfacelamento da oposição a Chávez tinha levado a mídia a tentar substituí-la (veja aqui entrevista de Peixoto ao Observatório da Imprensa).
Golpe com a maioria
Talvez por solidariedade a seus homólogos venezuelanos, os mais influentes meios jornalísticos brasileiros fizeram eco aos protestos da oposição venezuelana contra o golpe constitucional que adiou a posse de Chávez para novo mandato. Ao pé da letra, golpe, mas com o apoio do eleitorado, da Assembleia Nacional, da Justiça e dos governos do continente.
Levando-se em conta com um mínimo de realismo o quadro político venezuelano, provavelmente a solução menos ruim. Tal como a posse de José Sarney em 1985, que não chegou a ser um golpe, porque feita com a concordância do poder que se retirava do proscênio (mas não da cena) – os militares. Foi um acordo político. Benéfico, a despeito de tudo que se possa criticar no governo Sarney.
Golpe contra o golpe
Na história recente do Brasil houve um golpe militar benéfico. Foi o que permitiu a posse de Juscelino Kubitschek, eleito em 3 de outubro de 1955. O mandato dele coincide com o período que se chama, não sem razão, de “anos dourados”. A JK podem ser creditados a plena vigência da democracia nos moldes definidos pela Constituição de 1946 (e estreitados no governo do general Eurico Dutra), o primeiro grande – e decisivo – impulso de industrialização do país, obras estratégicas de infraestrutura, notadamente na área energética e rodoviária (não na ferroviária), a abertura do caminho para o oeste do país (a construção de Brasília suscita polêmica), o maior salário mínimo da história, o de 1959, que equivaleria hoje a três vezes o que está em vigência. Nenhum dos grandes jornais ou revistas manifesta antipatia pelo período JK.
Em 11 de novembro de 1955, o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, liderou um “golpe antigolpe”. Um resumo do episódio mostra que o Brasil não tem como dar lição de moral à Venezuela. (Sem mencionar que a última ditadura venezuelana terminou em 1958.)
A candidatura de JK
Getúlio Vargas, acossado por uma campanha política e de agitação militar e jornalística para derrubar seu governo, comete suicídio em agosto de 1954. Assume o vice, João Café Filho, que nomeia ministros conservadores e muda a política econômica e social.
No final de 1954, JK, do PSD, governador de Minas Gerais, lança sua candidatura à presidência da República. Os ministros militares dizem a Café Filho que Kubitschek não pode ser candidato. Ele transmite o recado a Juscelino, que não aceita a injunção.
Carlos Lacerda, jornalista e deputado pela UDN, prega abertamente um golpe: o adiamento das eleições marcadas para 3 de outubro de 1955. Em seu jornal, a Tribuna da Imprensa, multiplicam-se artigos e editoriais de apoio à tese, escreve Carlos Chagas em O Brasil sem retoque, 1808-1964: A História contada por jornais e jornalistas (vol. 2).
Mídia apoia a proposta golpista
No Rio, a campanha golpista é apoia pelos jornais O Globo, O Jornal e Diário de Notícias. Em São Paulo, pelo O Estado de S.Paulo. A TV Tupi, de Assis Chateaubriand, a TV Rio e a TV Record, de Paulo Machado de Carvalho e Pipa Amaral, engrossam o coro. Assim como a Rádio Globo, franqueada à pregação lacerdista.
Qual é a tese da feroz batalha contra JK? Palavras de Chagas:
“Lacerda encabeçava a subversão explícita sustentando a necessidade de ser estabelecido um regime de emergência, um governo-tampão, para ele capaz de ‘desintoxicar o povo inoculado pelo vírus da demagogia getulista’.”
Lacerda escreve na Tribuna da Imprensa: “Kubitschek não será candidato; se for, não será eleito; se for eleito, não tomará posse, se tomar posse, não governará”. Para aumentar um pouco a confusão, o governador de São Paulo, Jânio Quadros, ensaia sair candidato.
Mas JK é eleito em 3 de outubro. Com 36% dos votos válidos. Maioria relativa. A oposição a ele agita novamente (já o havia feito na eleição de Getúlio, em 1950) a tese da maioria absoluta, que seria necessária para sagrar o presidente. Mas isso não está escrito nem na Constituição, nem em qualquer legislação infraconstitucional.
A crise está aberta. Os ministros da Marinha e da Aeronáutica querem anular a eleição com base no argumento de que comunistas haviam votado em JK. Como não era possível separar os votos do eleitorado vermelho, a solução seria anular tudo.
A provocação do coronel
 
Um coronel, Jurandir Bizarria Mamede, faz no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, em 1 de novembro, um discurso a favor do golpe para impedir a posse de JK. É uma afronta ao ministro da Guerra. O general Lott quer punir Mamede, mas este serve no Estado-Maior das Forças Armadas, subordinado à Presidência da República. Lott terá que pedir licença a Café Filho para punir o coronel.
No dia 3, Café Filho tem um infarto, verdadeiro ou fingido, e baixa ao hospital. Assume o segundo na linha de sucessão, o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, do PSD mineiro, mas a favor do golpe. No dia 10, ele nega a Lott a licença para punir Mamede. Lott pede demissão e quer marcar imediatamente a posse do sucessor, já escolhido por Luz, o general Álvaro Fiúza de Castro, do pelotão golpista. Mas Luz diz que pode ser no dia seguinte.
À noite, aconselhado pelo comandante da 1ª Região Militar, general Odílio Denys, Lott decide depor Carlos Luz. Na madrugada de 11 de novembro, o Exército cerca instalações da Marinha e da Aeronáutica no país inteiro e cerca o Palácio do Catete, sede da Presidência da República. Carlos Luz foge num navio de guerra. Tenta apoio em São Paulo, mas as forças do Exército leais a Lott dominam a situação no território paulista . O navio volta para o Rio.
Redações censuradas
Foi golpe, sim: Lott e seus auxiliares mandam coronéis para as redações censurar os jornais. Proibido dar notícia a favor dos golpistas anti-Juscelino.
No decorrer do dia 11, o Congresso Nacional vota o impedimento de Luz e dá posse ao terceiro na linha sucessória, o presidente do Senado, Nereu Ramos.
Café Filho sai do hospital e diz que quer reassumir o cargo. Seu apartamento em Copacabana é cercado por tropas do Exército, que ocupam várias ruas adjacentes. É dada a ordem: ninguém entra, ninguém sai. No dia 22, o Congresso vota o impedimento de Café Filho. O STF recusa um mandado de segurança contra a decisão impetrado pelo ministro da Justiça de Café Filho, Prado Kelly.
Nereu Ramos pede a decretação do estado de sítio, que só será levantado após a posse de Kubitschek, em 31 de janeiro de 1956. E o Brasil vive feliz por cinco anos. Depois vem Jânio Quadros, a renúncia, o parlamentarismo, João Goulart... Até que os golpistas de 1954-55 conseguem ganhar a parada, com total apoio dos mesmos jornais que hoje criticam a solução venezuelana. Em 1964, começam vinte anos de regime militar, cujas marcas estão aí.
Mauro Malin
No Observatório da Imprensa
Leia também: O Contra-Golpe de 11 de novembro
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Moradores do assentamento Milton Santos vivem a angústia do despejo iminente

No dia 9 de janeiro, o Incra foi notificado judicialmente sobre a reintegração de posse da área. Oficialmente, as famílias têm agora até o dia 24 de janeiro para sair de suas casas 
Nilton constrói sua casa no assentamento pouco a pouco há mais de três anos
Foto: J. R. Penteado
Na sala de estar, Nilton trabalha nos interruptores. Manuseia a chave de fenda por um emaranhado de fios no afã de fazer funcionar as lâmpadas recém-compradas. Termina o trabalho e faz o teste. As luzes acendem, mas depois não se apagam. Nilton ruma então para um jogo de interruptores em outra parede da mesma sala. Dessa vez o teste dá certo. “Aqui está funcionando, mas ali não ficou legal. Vou ter que comprar mais fio e refazer o circuito”, assevera resignado.
Há mais de três anos, Nilton constrói a sua casa pouco a pouco. É uma casa grande, espaçosa, com cerca de 100 metros quadrados e mais de uma dezena de cômodos, capaz de abrigar confortavelmente ele próprio, sua mulher Anália, e ainda a netinha Maria Eduarda, de oito anos. Falta, porém, cumprir algumas etapas: as paredes não estão pintadas, instalações elétricas precisam ser concluídas, além de todo um segundo andar da casa que só deve sair “em algum dia no futuro”. Nilton conta já ter gasto cerca de 60 mil reais na obra. “Sempre que sobra um dinheiro vou à loja de material de construção e compro alguma coisa. E assim a casa vai saindo”, conta.
Mas apesar de todo o esforço, tempo e dinheiro empreendidos, a casa de Nilton pode ser demolida a qualquer momento. Ele, sua mulher e netinha, compõem uma das 68 famílias camponesas que moram no assentamento Milton Santos, localizado em Americana, cidade que fica a 126 quilômetros de São Paulo. Em julho de 2012, o desembargador Luiz Stefanini, da 2ª Vara de Piracicaba da Justiça Federal, concedeu reintegração de posse às partes que reivindicam a área de mais de dois mil hectares. Uma das partes é a família Abdalla, bastante tradicional pelos negócios que possui na região, e a outra é a Usina Ester, que trabalha com o plantio de cana-de-açúcar.
Entrada do assentamento Milton Santos, em Americana - Foto: J.R. Penteado
“Esta área já havia sido desapropriada em 1976 pela ditadura militar, pelo fato de os antigos proprietários (a família Abdalla) estarem em dívida com a União. A área foi então registrada no nome do INPS, hoje INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), mas continuou sendo usada pela Usina Ester, que era arrendatária da terra”, diz Janete Peruca da Silva, uma das advogadas do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que ajuda na coordenação dos rumos do assentamento. “Entretanto, durante essa desapropriação, havia uma cláusula que dizia que, caso os bens confiscados fossem maiores que as dívidas da família, o bem seria devolvido. A família Abdalla entrou com uma prestação de contas e provou judicialmente que os bens eram maiores que a dívida, ganhando o direito sobre a área do assentamento novamente. Essa ação transitou em julgado em 1990, só que a empresa não foi ao cartório registrar a propriedade no seu nome, para ocultar patrimônio. Por isso, a área continuou registrada no nome do INSS, ou seja, era uma área pública”, explica a advogada.
A área foi transferida ao Incra, que a destinou para a reforma agrária. No dia 23 de dezembro de 2005, as 68 famílias se mudaram para lá, dando origem ao assentamento Milton Santos. Sete anos mais tarde, com a decisão do desembargador federal, todos agora vivem na iminência de serem obrigados a deixar suas casas. “Já participei de várias desocupações antes, inclusive algumas com muita truculência policial. Mas todas ocorreram em acampamentos, onde a estrutura é muito mais precária”, conta Eunice, membro da coordenação do MST no assentamento. “Mas o Milton Santos já é um assentamento estabelecido, com inclusive dinheiro público investido aqui por meio do Incra. Não me lembro de reintegração de posse em um assentamento”, afirma.
Angústia
O medo de perder tudo teve o efeito de disseminar o desestímulo pelo assentamento. Eleni, gaúcha de Tenente Portela, planta abóbora, milho, mandioca, entre outros alimentos, em uma horta comunitária. “Eu vim para cá com meu marido, mas ele já faleceu há um tempo. Hoje moro sozinha mesmo, só com uns animais que crio”, conta. Vestindo uma camiseta envelhecida do PSB (Partido Socialista Brasileiro), um lenço na cabeça e carregando um olhar anuviado, ela fala que o desgaste gerado por conta do imbróglio jurídico envolvendo a posse da área a tem impedido de realizar o trabalho com o mesmo vigor de antes. “Eu até precisava ter plantado milho esses dias, mas essa história de que podemos ser expulsos acaba deixando a gente sem ânimo, sabe”, relata.
Muitos dos que moram no Milton Santos são pessoas que já moraram no campo em algum momento de suas vidas, mas que depois tiveram que migrar para as periferias das cidades. Quando deparadas com a oportunidade de terem seu próprio pedaço de terra, por meio da atuação em conjunto com o MST, acabaram deixando a vida urbana e se ligaram ao movimento para tentar a sorte. É o caso de Seu Jânio, natural de Paratinga, na Bahia. Ele já participava do MST desde antes do Milton Santos e, em 2005, quando o assentamento foi oficialmente estabelecido, se mudou com a família toda. “Trabalhava com carreto e mudança em Campinas. Hoje planto abacaxi, abóbora, mas meu forte é mexer com criação, como vaca, porco e galinha”, diz o agricultor enquanto ajeita o chapéu e cofia o bigode pronunciado. Tudo o que ele produz, assim como a produção do resto do assentamento, abastece escolas, asilos e entidades sociais, em contratos fechados por meio de parcerias com o poder público.
“Mas toda essa desinformação sobre se teremos que sair ou não vem gerando muita angústia em todos aqui”, diz o agricultor, pouco antes de se dirigir para reunião com outros agricultores em que se discutiria a situação do assentamento.
A mineira Anália, mulher de Nilton, o personagem do primeiro parágrafo do texto, conta que até deixou de viajar no réveillon por conta das incertezas que pairam sobre o destino da área onde vive. “Queria viajar para o Rio de Janeiro com minha filha, mas não fui porque estamos preocupados. Para onde a gente vai se vierem tirar todo mundo aqui? Se isso acontecer, vamos resistir”, afirma.
“Estamos em uma adrenalina danada”, assegura Nilton. Perguntado sobre o que fará caso seja forçado a abandonar sua terra, ele responde de forma categórica. “Vão ter que plantar cana sobre meu cadáver. Não vou sair daqui não”, assegura.
A nossa Margaret Thatcher”
“Se não estivéssemos lutando, tenho certeza que já teríamos sido expulsos.” Quem afirma é Gilmar, que divide um dos hectares do assentamento com a mulher, Irene, e mais dois filhos, Dafne e Douglas. Assim como outros, a incerteza acerca do futuro do Milton Santos também afetou seu trabalho. “Tive até que parar de mexer na minha casa para acompanhar a mobilização”, relata.
Segundo o MST, não há mais como buscar uma solução para o caso mediante o Judiciário. A estratégia agora é pressionar diretamente a Presidência da República para que intervenha no caso. “A única chance agora é que a Dilma desaproprie a área por interesse social”, diz a advogada do movimento Janete.
Marcha realizada em dezembro de 2012 pela permanência das famílias na área
Foto: João Zinclar
Dessa forma, no início de dezembro de 2012, militantes do MST fecharam 10 rodovias do estado de São Paulo para chamar a atenção para a desocupação iminente do assentamento. Logo depois, um grupo foi até a capital paulista e ocupou a sede da Presidência. A ação pedia atitude da presidenta Dilma Rousseff (PT).
Para além dos protestos, uma audiência pública ocorreu no assentamento no dia 23 de dezembro de 2012, exatamente no seu aniversário de sete anos. Participaram o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), além de outros parlamentares petistas da região. “Eles ficaram encarregados de mandar uma mensagem para a Dilma, tentando sensibilizá-la”, conta Janete.
As opiniões sobre se Dilma assinará a desapropriação da área por interesse social divergem. “Para o capital, as coisas são mais fáceis, mas para o trabalhador, não. Se fosse para desapropriar para uma obra da Copa, já teria feito rapidinho”, diz Nilton.
“Eu acho que ela vai desapropriar porque ela é mulher, tem mais sensibilidade”, diz Irene, mulher de Gilmar.
“Eu acho que ela não vai desapropriar. Mesmo sendo mulher, ela é insensível para esses temas. A Dilma é a nossa Margaret Thatcher”, diz Janete, se referindo à ex-primeira-ministra do Reino Unido conhecida como “dama de ferro”. “Só acho que ela assinará se houver uma pressão tamanha a ponto de afetar a imagem do PT. Uma mobilização popular como a que aconteceu no caso dos Guarani-Kaiowá”, opina a advogada.
Até a menina Dafne, de 9 anos, filha de Gilmar e Irene, resolveu fazer sua parte. Envolta a certa timidez, com jeito de quem nunca deu entrevista a um jornalista, ela disse que escreveu uma carta endereçada diretamente à presidenta. “O que você pediu a ela?”, lhe pergunto. “Escrevi pedindo socorro porque estão querendo derrubar nossas casas. E eu não quero morar debaixo do viaduto. Tem gente que mora. Eu não quero”, respondeu a menina.
Nota da reportagem: Após este texto ter sido escrito, o Incra foi notificado judicialmente, no dia 9 de janeiro, sobre a reintegração de posse da área. Oficialmente, os moradores do Milton Santos têm agora até o dia 24 de janeiro para abandonar suas casas.
J. R. Penteado
No Brasil de Fato
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Por que o governo deve apoiar a mídia alternativa

 
Em audiência pública na Comissão de Ciência & Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, realizada em 12 de dezembro último, o presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), Renato Rovai, defendeu que 30% das verbas publicitárias do governo federal sejam destinadas às pequenas empresas de mídia.
Dirigentes da Altercom também estiveram em audiência com a ministra da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom-PR), Helena Chagas, para tratar da questão da publicidade governamental.
Eles argumentam que o investimento publicitário em veículos de pequenas empresas aquece toda a cadeia produtiva do setor. Quem contrata a pequena empresa de assessoria de imprensa, a pequena agência publicitária, a pequena produtora de vídeo, são os veículos que não estão vinculados aos oligopólios de mídia.
Além disso, ao reivindicar que 30% das verbas publicitárias sejam dirigidas às pequenas empresas de mídia, a Altercom lembra que o tratamento diferenciado já existe para outras atividades, inclusive está previsto na própria lei de licitações (Lei nº 8.666/1993).
Dois exemplos:
1. Na compra de alimentos para a merenda escolar, desde a Lei nº 11.947/2009, no mínimo 30% do valor destinado por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, do Fundo de Desenvolvimento da Educação, do Ministério da Educação, gestor dessa política, deve ser utilizado na aquisição “de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas”.
2. No Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), destinado ao desenvolvimento da atividade audiovisual, criado pela Lei nº 11.437/2006 e regulamentado pelo Decreto nº 6.299/2007, a distribuição de recursos prevê cota de participação para as regiões onde o setor é mais frágil. Do total de recursos do FSA, 30% precisam ser destinados ao Norte, Nordeste e Centro Oeste. Vale dizer, não se podem destinar todos os recursos apenas aos estados que já estão mais bem estruturados (ver aqui, acesso em 11/1/2013).
A regionalização das verbas oficiais
A reivindicação da Altercom é consequência da aparente alteração do comportamento da Secom-PR em relação à chamada mídia alternativa.
A regionalização constitui diretriz de comunicação da Secom-PR, instituída pelo Decreto n° 4.799/2003 e reiterada pelo Decreto n° 6.555/ 2008, conforme seu art. 2°, X:
“Art. 2º – No desenvolvimento e na execução das ações de comunicação previstas neste Decreto, serão observadas as seguintes diretrizes, de acordo com as características da ação:
“X – Valorização de estratégias de comunicação regionalizada.”
Dentre outros, a regionalização tem como objetivos “diversificar e desconcentrar os investimentos em mídia”.
De fato, seguindo essa orientação a Secom-PRtem ampliado continuamente o número de veículos e de municípios aptos a serem incluídos nos seus planos de mídia. Os quadros abaixo mostram essa evolução.

(Fonte: Núcleo de Mídia da Secom, acesso em 11/1/2013)

Trata-se certamente de uma importante reorientação histórica na alocação dos recursos publicitários oficiais, de vez que o número de municípios potencialmente cobertos pulou de 182, em 2003, para 3.450, em 2011, e o número de veículos de comunicação que podem ser programados subiu de 499 para 8.519, no mesmo período.
Duas observações, todavia, precisam ser feitas.
Primeiro, há de se lembrar que “estar cadastrado” não é a mesma coisa que “ser programado”. Em apresentação que fez na Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), São Paulo, em 16 de julho de 2009, o ex-secretário executivo da Secom-PR Ottoni Fernandes Júnior, recentemente falecido, citou como exemplo de regionalização campanha publicitária em que chegaram a ser programados 1.220 jornais e 2.593 emissoras de rádio – 64% e 92%, respectivamente, dos veículos cadastrados.
Segundo e, mais importante, levantamento realizado pelo jornal Folha de S.Paulo, a partir de dados da própria Secom-PR, publicado em setembro de 2012, revela que nos primeiros 18 meses de governo Dilma Rousseff (entre janeiro de 2011 e julho de 2012), apesar da distribuição dos investimentos de mídia ter sido feita para mais de 3.000 veículos, 70% do total dos recursos foram destinados a apenas dez grupos empresariais (ver “Globo concentra verba publicitária federal”, CartaCapital, 13/9/2012, acesso em 12/1/2013).
Vale dizer, o aumento no número de veículos programados não corresponde, pelo menos neste período, a uma real descentralização dos recursos. Ao contrário, os investimentos oficiais fortalecem e consolidam os oligopólios do setor em afronta direta ao parágrafo 5º do artigo 220 da Constituição Federal de 1988, que reza:
“Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de oligopólio ou monopólio”.
Democracia em jogo
A mídia alternativa, por óbvio, não tem condições de competir com a grande mídia se aplicados apenas os chamados “critérios técnicos” de audiência e CPM (custo por mil). A prevalecerem esses critérios, ela estará sufocada financeiramente, no curto prazo.
Trata-se, na verdade, da observância (ou não) dos princípios liberais da pluralidadee da diversidadeimplícitos na Constituição por intermédio do direito universal à liberdade de expressão, condição para a existência de uma opinião pública republicana e democrática.
Se cumpridos esses princípios (muitos ainda não regulamentados), o critério de investimentos publicitários por parte da Secom-PR deve ser “a máxima dispersão da propriedade” (Edwin Baker), isto é, a garantia de que mais vozes sejam ouvidas e participem ativamente do espaço público.
Como diz a Altercom, há justiça em tratar os desiguais de forma desigual e há de se aplicar, nas comunicações, práticas que já vêm sendo adotadas com sucesso em outros setores. Considerada a centralidade social e política da mídia, todavia, o que está em jogo é a própria democracia na qual vivemos.
Não seria essa uma razão suficiente para o governo federal apoiar a mídia alternativa?
Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros
No Observatório da Imprensa
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Simpatia pelo mal

Responsável por alguns dos mais nefastos episódios do século XX, o nazismo disseminou sua influência para além do continente europeu. O Brasil, infelizmente, não ficou de fora de seu alcance. A reportagem especial “Entre a suástica e a palmatória”, publicada em janeiro de 2013 na Revista de História da Biblioteca Nacional, e que virou também vídeo homônimo disponível no nosso canal do Youtube [veja abaixo], é um exemplo de como o pensamento político autoritário se manifestou no país.
Nos anos 1930 e 1940, uma fazenda do interior paulista adotou abertamente símbolos nazistas para marcar gados, documentos e até os próprios tijolos. Por sua vez, a propriedade vizinha, da mesma família, colocou em prática teorias racistas e eugênicas: recrutou 50 crianças órfãs, a maioria negras, para trabalhar em suas terras. A história ficou esquecida durante décadas. Em 1990, um fazendeiro descobriu uma dessas peças com a cruz suásticas e a história começou a ser revelada. Posteriormente o pesquisador Sidney Aguilar Filho, em tese de doutorado defendida em 2011 na Unicamp, a estudou mais profundamente.
A reportagem da Revista de História viajou a Campina do Monte Alegre, no estado de São Paulo, e a Foz do Iguaçu, no Paraná, para entrevistar as últimas testemunhas vivas e conhecidas desta história. Aloísio Silva, chamado durante a adolescência de Vinte e Três, trabalhou no local e aguentou a situação de exploração até a sua “liberação”, como ele próprio diz, em 1945. E Argemiro Santos, que fugiu da fazenda quando tinha apenas 14 anos, enfrentando uma vida difícil nas ruas de São Paulo até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, momento em que decidiu ingressar na Marinha para servir o país.
Apesar de lidarem com o passado de forma diferente, seu Aloísio e seu Argemiro são fontes dos fatos. Seus depoimentos se complementam e a vida posterior ao episódio reforçam ainda mais a ideia já levantada na abertura do dossiê desta edição da Revista de História: “Em vez de pensar que ‘o trabalho liberta’, como os nazistas estampavam em seus campos de concentração, é melhor afirmar que a memória salva”.
Revista de História
No Blog do Mario
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MPF impede demolição de antigo Museu do Índio no Rio

 
Demolição é contestada pelo Iphan e pelo Crea
O MPF (Ministério Público Federal) entrou nesta segunda-feira (14) com um novo recurso na Justiça Federal para impedir a demolição do antigo Museu do Índio, localizado ao lado do Maracanã, na zona norte do Rio. O governo do Estado quer demolir o prédio, de 1866, para dar lugar a um estacionamento e um centro de compras anexo ao estádio para a Copa do Mundo de 2014. No sábado (12), o prédio foi cercado pela Polícia Militar, à espera de um mandado de reintegração de posse.
O recurso proposto pelo MPF ao Tribunal Regional Federal questiona a derrubada de duas liminares, em novembro, que impediam a demolição do prédio. De acordo com o recurso, "não se pode, com uma decisão de efeito provisório, gerar a perda definitiva de um valor histórico, cultural e arquitetônico impossível de ser resgatado". O MPF argumenta ainda que a demolição é contestada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) e pelo Crea (Conselho Regional de Arquitetura e Urbanismo).
O museu está ocupado por 23 famílias indígenas e diversos ativistas contrários à demolição. Desde sábado, quando o prédio foi cercado pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar para a reintegração de posse, o grupo vive na apreensão e expectativa de uma nova operação. Nesta segunda, dois operários da reforma do Maracanã que furaram o cerco policial e entraram no museu em apoio aos índios foram demitidos da obra. Os carpinteiros José Antonio dos Santos, 47, e Francisco de Souza Batista, 33, contaram que deixaram o turno de trabalho no estádio e foram para o museu por serem contra a derrubada do prédio. Nesta segunda, eles foram homenageados pelos índios e ativistas que ocupam o prédio.
Cerca de cem pessoas estão acampadas no espaço, à espera de uma decisão judicial sobre a reintegração de posse. Em nota, o consórcio responsável pela reforma informou que os operários foram desligados pois deixaram as funções no horário de trabalho.
Histórico
No sábado, a Defensoria Pública do Rio já havia conseguido uma liminar impedindo a ação. Segundo Eduardo Newton, responsável pela ação, "a polícia cercou o prédio sem qualquer respaldo legal, sem os trâmites previstos em lei para remoções". A batalha jurídica começou em outubro, quando o governo estadual anunciou a compra do prédio e o projeto de demolição.
De acordo com o governo do Rio, já há uma licitação aprovada para a demolição do prédio, orçada em R$ 586 mil. O contrato, entretanto, ainda não foi assinado - a previsão é que a demolição aconteça antes da Copa das Confederações. O governo informou ainda que está fazendo, desde sábado, o cadastramento dos moradores do prédio para o recebimento de aluguel social.
A proposta, entretanto, é rejeitada pelos indígenas. As famílias de diferentes etnias ocupam o prédio desde 2007 com a proposta de transformar o prédio em um centro de memória e cultura indígena chamado "Aldeia Maracanã." Um dos líderes do movimento, Dauã Puri, de 59 anos, avalia que a ação do último sábado foi uma intimidação aos índios.
— O que estão querendo fazer é um processo de invisibilidade da cultura indígena. Isso aqui é um espaço sagrado e que precisa ser respeitado.
No R7
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Jornalista de 'Zero Hora' tiraria nota zero no vestibular de Redação


O primeiro parágrafo (assinalado em vermelho, no fac-símile acima) está incompreensível. O sujeito da oração (o côco) vai aparecer somente na 11ª linha do texto. Confusão mental gera barafunda textual, empana a clareza e a fluidez da leitura.
Texto ruim, jornal péssimo.
No Diário Gauche
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Casos de doping provocam demissão de preparador físico do Grêmio

Atletas do sub-20 foram flagrados usando mesma substância proibida na Copa do Brasil
Diego Mello, à frente, comemora ao lado de Mabília a conquista do título gaúcho sub-19<br /><b>Crédito: </b> Lucas Uebel / Grêmio FBPA / Divulgação CP
Diego Mello, à frente, comemora ao lado de
Mabília a conquista do título gaúcho sub-19
Lucas Uebel / Grêmio FBPA / Divulgação CP
A princípio tratava-se apenas de um caso de doping. No entanto, ter dois atletas da base flagrados no mesmo jogo da Copa do Brasil sub-20 e com a mesma substância proibida acendeu o sinal de alerta no Grêmio. De um lado, o clube responsabiliza o preparador físico Diego Mello, demitido nessa segunda-feira por justa causa. Do outro, o profissional defende-se da acusação.
O assunto fez a própria diretoria abrir uma investigação interna. A versão apurada é que Diego Mello teria sido o responsável por ministrar substância proibida ao time inteiro para o primeiro confronto da semifinal com o Vitória sem ter ideia de que haveria a realização de exames antidoping. "Foi culpa exclusiva deste rapaz", salienta uma pessoa sem se identificar. Assim, ao serem sorteados, Mateus Oliveira e Felipe Ferreira não escaparam do resultado positivo.
O preparador físico nega a versão. Em tom de desabafo, refuta que tenha dado medicamentos proibidos para o elenco. "Todos os produtos que eu usei vinham do departamento médico e da nutrição. Quantos jogadores já trabalhei, inclusive de Seleção, que nunca atestaram positivo", destaca. A substância encontrada serve de estimulante, porém também é encontrada em alguns descongestionantes nasais.
Publicamente, ninguém do Grêmio se manifesta. O executivo jurídico, Celso Rodriguez, é a única pessoa autorizada a falar, mas somente responde a questões envolvendo o processo. Como está em andamento, o advogado não dá detalhes sobre a defesa, mas confirma que os atletas não foram pegos por utilizarem descongestionante nasal. "Não foi isso," relata.
A versão gremista dá conta de que o preparador físico, ao descobrir que existiria o antidoping, mandou os jogadores beberem líquido para expelirem a medicação. "Qualquer um sabe que o doping não sai antes de 24 horas. Estão colocando toda a culpa em mim por uma briga que tive com o Mabília. Meus advogados já estão atentos sobre tudo que sai. A minha imagem está em jogo", defende-se Diego Mello.
Caso vai parar no STJD
O Grêmio irá protocolar hoje no Superior Tribunal de Justiça Desportiva, no último dia do prazo estipulado, a defesa dos dois jogadores pegos no exame antidoping pela Copa do Brasil sub-20. Ao mesmo tempo, o clube tenta revogar a punição preventiva de 30 dias para Mateus Oliveira e Felipe Ferreira, tirando a dupla da disputa da Copa São Paulo.
O assunto atraiu praticamente todas as atenções do departamento jurídico neste final de semana. Caberá, agora, à procuradoria do tribunal definir se oferece a denúncia ou arquiva o caso dos dois jogadores. "Em média, essa decisão leva cinco dias. Se for arquivado, os garotos estão liberados para jogar. Se for oferecida a denúncia, será marcada a data para um julgamento", explica o executivo jurídico gremista, Celso Rodriguez.
No Ficha Corrida
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O Grande Negócio da Saúde

 
Não há melhor negócio no mundo do que a saúde. Não há maior prova de humanismo do que o exercício honrado da medicina. São duas visões conflitantes da mesma idéia, a que une a vontade de viver e o medo permanente da morte.
O negócio da saúde envolve a indústria do ensino, a atividade médica, as pesquisas biológicas e bioquímicas, o desenvolvimento técnico e científico, a produção e a venda dos medicamentos, os hospitais e as empresas de seguro médico, as chamadas operadoras.
Desde o governo militar a proliferação de universidades privadas no Brasil tem sido grande negócio político-empresarial. Muitas das licenças para o seu funcionamento foram concedidas aos políticos ou a parceiros de políticos. Essas licenças são renovadas, ainda que a qualidade do ensino seja cada vez mais deplorável. Sem laboratórios, sem lições práticas de anatomia e patologia, sem professores capacitados, surgiu o sistema em que médicos incompetentes ensinam alunos despreparados a se tornarem também médicos incompetentes e novos mestres de médicos ainda mais incompetentes.
Contrastando com esse quadro desolador temos alguns dos melhores hospitais do mundo, estatais e privados, que servem de referência internacional. Mas esses, embora muitos deles reservem leitos para o atendimento universal, pelo SUS, são de difícil acesso aos pobres.
A classe média se vale dos planos de saúde, que se têm revelado dos maiores e mais lucrativos negócios do Brasil, cobiçados pelos consórcios internacionais. A Amil, conforme se noticiou, está sendo adquirida por capitais norte-americanos. Essas instituições foram, em seu início, cooperativas de médicos e se transformaram em empresas mercantis comuns.
No passado tínhamos menos recursos técnicos, mas os médicos, de modo geral, possuíam melhor formação. A maioria dos médicos brasileiros, felizmente, é constituída de homens e mulheres dedicados, com alta qualificação e profundo sentimento humanista. Muitos deles conseguiram superar as falhas do ensino, empenhando-se no aprimoramento constante.
As operadoras dos planos de saúde poderiam deixar de existir, se os recursos que arrecadam – grande parte deles destinados só a remunerar seus controladores - fossem administrados diretamente pelo Estado.
Talvez o governo pudesse enfrentar a ganância dos donos dos planos de saúde de forma corajosa e radical, e não só suspendendo a ampliação do número de segurados, como decidiu agora a ANVISA. É preciso todo o rigor contra os que violam a lei e, na alteração unilateral dos contratos, lesam os segurados – sobretudo os mais idosos – depois de os terem escalpelado ao longo dos anos.
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Ex-militante do PCB revela tortura fora do período da ditadura militar à CNV

Boris Tabacof foi preso durante o período de repressão ao PCB no Brasil
Em depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade (CNV) em novembro de 2012, mas somente revelado nesta sexta-feira, o empresário Boris Tabacof levou 60 anos para revelar as agressões pelas quais passou ao ser preso, por motivos políticos, em 1952, em plena Era Vargas. Tabacof revelou à Comissão:
– Me obrigaram a tirar a roupa e a ficar nu durante vários dias e a única coisa que tinha nesse cubículo era um balde para as necessidades e esse balde não era retirado. Então, tinha que dormir no chão e, de vez em quando, chegava um soldado e jogava água – descreveu.
No primeiro depoimento à CNV de uma vítima de violação de direitos humanos fora do período da ditadura militar (1964-1985), Tabacof foi vítima da intolerância política do regime.
– O único que falou que está dentro do período da comissão (de 1946 a 1988), mas que não foi torturado na ditadura, foi no governo Getúlio Vargas (de 1951 a 1954) – ressaltou a psicanalista Maria Rita Kehl, um dos membros da comissão presentes ao depoimento de Tabacof.
Aos 84 anos, atualmente, Tabacof era à época membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e dava suporte a militantes que atuavam dentro das Forças Armadas.
– Fui secretário de organização do Comitê do PCB na Bahia, o segundo cargo do partido no Estado. É aí que entra como eu tenho a ver com todo esse movimento, que foi um movimento dentro da esfera militar. Eu só tinha contato com uma pessoa, um cabo do Exército cujo nome de guerra era Plínio – explica o empresário que fornecia material ideológico para os militares comunistas.
Em 20 de outubro de 1952, Tabacof foi preso dentro de um ônibus.
– Foram bofetadas de todo jeito e me arrancaram do ônibus, me colocaram em uma caminhonete e essa caminhonete foi direto para o Forte do Barbalho (em Salvador) – relembra.
No local, começou o período de 400 dias de prisão ao qual foi submetido. Segundo o empresário, as grades das celas do forte eram cobertas com tábuas, “para ninguém ver o que estava acontecendo”.
Além de Tabacof, foram presos na operação para desarticular a presença comunista nas Forças Armadas mais um civil e 28 militares. De acordo com o empresário, os agentes do governo de Getúlio queriam provar que havia um complô comunista simpático à União Soviética para assumir o poder no Brasil.
– Como eu não estava contando nada que eles queriam, nem queria assinar, eles foram piorando as coisas. Eu fiquei alguns dias de pé com um soldado, de baioneta calada, ao meu lado que não deixava que eu me sentasse – lembra sobre o período de cárcere que também incluiu 50 dias de isolamento em uma penitenciária em Sergipe.
Ao final, o empresário acabou assinando uma confissão, junto com os demais presos. Ele respondeu a processo até julho de 1954, quando foi solto após o julgamento. O trauma impediu que Tabacof revelasse sua história até mesmo para a família, que só recentemente soube desses eventos.
– Até a família não sabia, era uma coisa de humilhação que ele não conseguia contar – ressalta Maria Rita Kehl.
Militância política
Filho de imigrantes judeus russos, Boris Tabacof nasceu em 28 de julho de 1929, na Bahia. Sua juventude foi marcada pela militância política no Partido Comunista do Brasil (PCB). Em meados dos anos 1950, Tabacof formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade da Bahia. Iniciou então sua carreira empresarial, logrando rápido sucesso no ramo da construção. Participou de governos e hoje, Boris Tabacof segue atuando como presidente do Conselho de Administração da Suzano Papel e Celulose.
No Correio do Brasil
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Foto do presidente do Uruguai, José Mujica, vira hit na internet

Mujica e sua mulher, fotografados por um fã em um restaurante uruguaio, sem guarda-costas e feliz da vida
Presidente do Uruguai, José Mujica foi sensação nas redes sociais, durante as últimas horas, logo após o compartilhamento de uma foto onde ele aparece com sua mulher, Lucia Topolansky, durante as férias na cidade de Carmelo. Vestido de maneira casual e aproveitando um restinho de luz do dia, sem guarda-costas e com seu habitual e simpático sorriso, Mujica foi fotografado por um fã, Oscar Cassini, que compartilhou o momento na rede social Facebook.
Segundo o portal de notícias argentino La Voz, o internauta que compartilhou a foto deixou ainda a seguinte mensagem:
“Debemos ser el único País en el Mundo donde el Presidente sale a comer con su “Primera Dama” sin custodia y donde se le canta por el respeto que le ofrece su gente. Bendito Uruguay”. (“Nós devemos ser o único país no mundo onde o presidente sai para jantar com a sua ‘primeira-dama’, sem guarda-costas, e onde se canta o respeito oferecido por seu povo. Bendito Uruguai”, em tradução livre).
Mujica é um dos líderes latino-americanos mais prestigiados em seu país. Mesmo com ampla maioria no Congresso, ele determinou que o projeto de lei, no qual o consumo e o plantio de maconha ficam assegurados pelo governo, fosse retirado de pauta até que houvesse a aprovação popular de mais de 80% dos uruguaios. Após uma ampla campanha de conscientização, pesquisas de opinião mostram que o presidente está prestes a conseguir seu objetivo.
No Correio do Brasil
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Depois do pito do indígena, Rede Globo pede desculpas

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