2 de jan de 2013

Quem acusa tem de provar

Leio por aí que o Ministério Público de Minas Gerais acusa CartaCapital de forjar documentos do processo do “mensalão tucano”. Repito: a revista teria sido acusada pelo MP mineiro de criar e publicar papéis falsos de uma ação judicial, segundo os relatos na internet. O autor de acusação tão grave terá de provar em juízo suas palavras.
Aos sites que se apressam em reproduzir a “informação” sem ouvir a revista, lembro que CartaCapital não publica fichas policiais nem documentos falsos, não acusa sem provas, não transforma bandidos em heróis da pátria, não se associa a meliantes da estirpe de Carlinhos Cachoeira nem recorre aos serviços de arapongas (que se converteram nos verdadeiros “repórteres investigativos” de Brasília). Não fazemos parte deste clube e é patético o afã de tentar nos misturar a esta gente. O jornalismo de esgoto corre por outras bandas.
Quanto ao processo do “mensalão tucano”, a exemplo do episódio da famosa Lista de Furnas, mais uma vez fica claro o poder de quem se esforça para desmoralizá-lo. E, desta feita, impressiona a participação do MP mineiro nesta empreitada. A Lista de Furnas também foi descrita como falsa. Até hoje, aliás, o ex-governador e deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB) usa este argumento (a de que a lista foi forjada) para responder a textos que descrevem como o valerioduto funcionava em seu quintal. Parte da mídia “isenta e independente” repete a tese de Azeredo para ver se cola. Mas uma perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Federal comprovou que a lista não foi adulterada e que as assinaturas são verdadeiras.
A reportagem de Leandro Fortes, como de hábito, baseou-se em documentos obtidos com fontes seguras, participantes ativos do esquema que serviu de laboratório para a tecnologia de caixa 2 desenvolvida pelo publicitário Marcos Valério de Souza e mais tarde adotada pelo PT. Estamos absolutamente tranquilos.
Para refrescar a memória dos leitores, reproduzimos a seguir a reportagem publicada na edição número 723, de 11 de novembro de 2012.
Sergio Lirio

De volta à origem


Como na saga Guerra nas Estrelas, a história dos “mensalões” nacionais foi contada, até agora, de trás para frente. Assim como no clássico de George Lucas, a TV Justiça, no caso do “mensalão do PT”, apresentou ao público o enredo final de um psicodrama político sem antes informar o contexto da tragédia providencialmente encenada antes do segundo turno das recentes eleições municipais. A origem do épico mensaleiro espera, contudo, a hora de entrar em cartaz, assim que acabar o dilema da dosimetria dos 25 condenados do escândalo petista. Teremos, finalmente, caso a série realmente chegue ao final, a explicação sobre como Marcos Valério de Souza foi essencial no derrame de 100 milhões de reais no caixa 2 do PSDB com o apoio de empresas estatais mineiras comandadas pelo então governador do estado, o atual deputado federal Eduardo Azeredo.
Vem aí (vem?) o “mensalão tucano”, a origem de tudo. Chamado de “mensalão mineiro” por setores condescendentes da mídia, foi formalmente classificado como “tucanoduto” e “valerioduto tucano” pelos agentes federais que o investigaram. Para quem assistiu ao julgamento do caso do PT no Supremo Tribunal Federal, ninho de inovadoras teses de domínio de fato e a condenações baseadas em percepções sensoriais, o “mensalão tucano” será ainda mais surpreendente por ter em abundância aquilo que muita falta fez no caso de agora: provas contundentes.
Marcos Valério, na gênese do valerioduto
A certidão de nascimento do milionário esquema de lavagem de dinheiro montado por Marcos Valério em Minas e depois exportado ao PT é uma lista de pagamentos elaborada por Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha de Azeredo, em 1998. Revelada em 2007, a lista trata de um total de repasses equivalente a 10,8 milhões de reais a parlamentares de 11 partidos, inclusive do PT, mas onde reinam soberanos o PSDB e o PFL, atual DEM. Mourão tentou negar a veracidade da lista, mas foi obrigado a reconhecer sua assinatura no papel depois de ser desmentido por uma perícia da Polícia Federal.
Em julho deste ano, CartaCapital trouxe à baila outra lista, desta feita assinada por Marcos Valério, entregue à Polícia Federal e ao ministro Joaquim Barbosa pelo advogado Dino Miraglia, de Belo Horizonte. Miraglia conseguiu a lista com um cliente famoso, o lobista Nilton Monteiro, antigo operador das hostes tucanas em Minas, também responsável pela divulgação de uma terceira lista, em 2002, com doações clandestinas desviadas dos cofres da estatal Furnas Centrais Elétricas, a famosa “Lista de Furnas”, onde novamente o PSDB aparece no comando da farra do caixa 2.
Na lista de Marcos Valério, na qual os valores chegam a mais de 100 milhões de reais, a novidade foi o aparecimento do nome do ministro Gilmar Mendes, do STF, supostamente beneficiado com uma bolada de 185 mil. Na época da publicação da reportagem, Marcos Valério negou ter registrado pagamentos em uma lista. Mas neste início de novembro, o advogado dele, Marcelo Leonardo, desmentiu o cliente.
Na quarta-feira 7, em um texto no pé de uma página do jornal O Estado de S. Paulo, Leonardo revelou ter entregue à Procuradoria-Geral da República, em 2007, uma lista com nomes de 79 políticos beneficiados com recursos do “mensalão tucano”. Sobre o fato, o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza, destinatário da lista, desconversou: “Faz tanto tempo que saí de lá, quase quatro anos, que sinceramente não tenho lembrança”. Na verdade, Souza ignorou a denúncia com a desculpa de que, como se tratava de crime eleitoral, a punibilidade estaria prescrita.
Leonardo estranhou o fato de Souza ter ignorado a lista de Marcos Valério, pois, ao contrário das listas de Mourão e de Furnas, esta foi acompanhada de comprovantes do Banco Rural e do Banco de Crédito Nacional (BCN) de depósitos nominais feitos a 79 dos mais de 300 nomes listados no documento. Conforme havia sido noticiado por CartaCapital há três meses, os pagamentos foram feitos pela SMPB Comunicação. Além disso, todas as 26 páginas da lista são rubricadas pelo publicitário mineiro, com assinatura reconhecida em cartório no final do documento datado de 28 de março de 1999. Há ainda uma declaração assinada por Valério, de 12 de setembro de 2007, na qual apresenta a lista à Justiça de Minas e informa ter repassado 4,5 milhões de reais ao ex-governador Azeredo.
Miraglia conheceu Nilton Monteiro enquanto atuava como assistente de acusação da família de Cristiana Aparecida Ferreira, morta aos 24 anos por envenenamento seguido de estrangulamento em um flat da capital mineira, em agosto de 2000. Filha de um funcionário aposentado da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Cristiana tinha ligações com diversos políticos mineiros. No inquérito policial sobre o crime, é descrita como garota de programa, mas os investigadores desconfiam que a sua principal ocupação fosse entregar malas de dinheiro aos beneficiários do esquema. Na lista assinada por Marcos Valério, ela aparece como destinatária de 1,8 milhão de reais. “Foi queima de arquivo”, acredita o advogado.
Também graças a Miraglia, a Polícia Federal, a Corregedoria de Polícia Civil de Minas, o Conselho Nacional de Justiça e o ministro Joaquim Barbosa receberam, há dois meses, um calhamaço de informações retiradas de um CD apreendido pela polícia mineira na casa de Monteiro. Trata-se de uma série de diálogos gravados clandestinamente por Joaquim Egler Filho, ex-advogado do lobista.
O auto de apreensão, datado de 21 de outubro de 2011, é assinado pelo delegado Márcio Simões Nabak, então chefe da Divisão Especializada de Operações Especiais da Polícia Civil mineira. No registro que se seguiu ao cumprimento do mandado na casa de Monteiro, Nabak afirma ter encontrado um “CD-R marca Multilaser” com diálogos entre seis pessoas, entre as quais estavam Marcos Valério e Cláudio Mourão. Nas transcrições se fala de tudo: planos de assassinato, corrupção policial, fraudes periciais, aventuras sexuais de autoridades tucanas, relato de uso de drogas, tráfico de influência e propina.
Em um trecho, supostamente gravado em outubro de 2011, Marcos Valério informa a Mourão ter sabido que “a velha cúpula do PSDB”, segundo ele formada por FHC, os ex-senadores Tasso Jereissati (CE) e Arthur Virgílio Neto (AM), além do senador Álvaro Dias (PR), teria convencido alguns ministros do STF “a julgar o processo do mensalão do PT primeiro, e somente depois o do tucanoduto de seu amigão Eduardo Azeredo” – exatamente como ocorre agora. O publicitário teria citado nominalmente quatro ministros.
Em outro trecho, Mourão afirma que o delegado Nabak grampeou os telefones de Monteiro e, em seguida, faz uma revelação bombástica: Nabak teria fechado um acordo “com o diretor da Veja, um tal de Policarpo e (Nabak) vai receber pelos serviços 250 mil reais para passar informações sigilosas do inquérito do Dimas Toledo (Lista de Furnas) e do espólio e da prisão de Nilton Monteiro”. O “tal Policarpo” é Policarpo Junior, diretor da Veja em Brasília, também apontado como colaborador do bicheiro Carlinhos Cachoeira, atualmente preso no presídio da Papuda, na capital federal, acusado de comandar o crime organizado em Goiás.
CartaCapital enviou à Secretaria de Defesa Social de Minas Gerais, à qual a Polícia Civil local está subordinada, uma cópia do auto de apreensão, a fim de checar a veracidade do documento. Na terça-feira 6, por telefone, o delegado Nabak deu uma explicação caótica sobre o tema. Nervoso, o policial alegou que o documento enviado apresentava “indícios de falsificação”. Em seguida, afirmou que a informação sobre o CD teria sido inserida no documento para justificar a existência das degravações de Egler Filho. O delegado informou que a papelada foi submetida a uma perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, onde se teria constatado tratar-se de uma montagem. Mas não soube dizer quando foi feita a tal perícia nem muito menos quem a fez.
O delegado Nabak recusou-se a fornecer o auto de apreensão original e, em seguida, ameaçou abrir um inquérito para forçar o repórter a informar a origem da cópia enviada a ele. Alterado, aconselhou a busca do documento original diretamente no fórum de Belo Horizonte. Nem precisava do conselho: o auto de apreensão que mexeu com os nervos do delegado é um documento público e pode ser acessado, a qualquer momento, na 2ª e na 11ª Vara Criminal de Belo Horizonte, e consta dos autos do inquérito 3.530 do STF, do “mensalão tucano”. Está assinado por Nabak, por um escrivão da polícia, por Monteiro, pelo promotor Adriano Botelho Estrela e pelo advogado Raul Almada. Todas as assinaturas tiveram reconhecimento de firma em cartório, inclusive a do delegado.
Na quinta-feira 8, a Central de Imprensa da Secretaria de Governo de Minas Gerais enviou, por e-mail, cópia de outro auto de apreensão supostamente feito na casa de Monteiro em 20 de outubro de 2011, mas assinado por outro delegado, Éric Flávio de Freitas, no qual não consta o CD com as gravações de Egler Filho. O documento não tem, porém, assinatura do advogado de Monteiro, nem do próprio, nem do representante do Ministério Público. A assessoria não enviou a cópia do suposto laudo das degravações. Apenas informou que ele foi concluído em 6 de dezembro de 2011 pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil sob o número 54175-1.
Para entender todo o caso é preciso, primeiro, compreender o que se passava em 1998, quando o PSDB ainda sonhava com um projeto de ao menos duas décadas no poder central. Naquele ano, o presidente Fernando Henrique Cardoso derrotaria Lula e seria reeleito para um segundo mandato, graças a um expediente constitucional aprovado em meio a um comprovado esquema de compra de votos no Congresso Nacional. Em Minas, o discreto Azeredo se empenhava na mesma luta, mas numa briga difícil contra o falecido ex-presidente Itamar Franco, do PMDB.
Ciente dos custos financeiros de uma campanha acirrada, os tucanos decidiram montar uma máquina clandestina para arrecadar fundos de campanha longe da vigilância da Justiça Eleitoral e da Receita Federal. É esperar para ver o que virá à tona quando o mesmo ministro Joaquim Barbosa, caso continue a ser o relator do “mensalão tucano” no STF, começar a descrever o que a turma de Azeredo aprontou em Minas enquanto Marcos Valério se especializava nas artes dos empréstimos falsos, notas frias e lavagem de dinheiro.
Ocorrido há 14 anos, o esquema tucano foi descoberto apenas sete anos depois, em 2005, quando a oposição enchia o Congresso de CPIs para fazer sangrar o primeiro governo Lula com o escândalo do “mensalão”. Na época, Azeredo era senador e presidia o PSDB. Como muitos correligionários, sabia que, ao menos em Minas, a súbita notoriedade de Marcos Valério era um prenúncio de desastre. Protegido pelo noticiário, inteiramente engajado na luta pelo afastamento de Lula, o partido tirou Azeredo da presidência e se fingiu de morto.
A denúncia sobre o “mensalão tucano” foi feita há cinco anos por Antonio Fernando de Souza. E aí começariam as diferenças de tratamento em relação ao caso do PT. Algoz de Dirceu na denúncia do “mensalão petista”, a quem chamou de “chefe de quadrilha” responsável pelo comando da compra de votos no Congresso, Souza viu a questão do PSDB com outros olhos. Acatou, por exemplo, a tese do caixa 2. No Supremo, outra discrepância: o processo foi desmembrado para que somente os acusados com foro privilegiado, Azeredo e o senador Clésio Andrade (PMDB), fossem julgados na Corte. Os outros 14 envolvidos passaram a ser responsabilidade da 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Na denúncia apresentada ao STF, em novembro de 2007, Azeredo é acusado de ser “um dos principais mentores e principal beneficiário” do esquema clandestino de arrecadação montado para a fracassada campanha de 1998. O ex-governador foi denunciado por peculato (apropriação de dinheiro por funcionário público) e lavagem de dinheiro. O ex-procurador-geral detectou uma série de telefonemas entre o tucano e Marcos Valério. Para Souza, o esquema de Minas serviu de “laboratório do mensalão nacional”.
O outro réu no STF, Clésio Andrade, é presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e foi vice-governador do estado no primeiro governo do atual senador Aécio Neves. No processo, Andrade aparece como um dos principais distribuidores de recursos de caixa 2 arrecadados por Mourão para políticos, empresários, jornalistas, “laranjas” e correligionários tucanos registrados na lista assinada por Marcos Valério.
A denúncia do ex-procurador-geral informa que a campanha de Azeredo arrecadou ilegalmente mais de 100 milhões de reais, embora o PSDB, à época, tenha informado oficialmente 8 milhões de reais. Toda a operação do esquema de arrecadação e pagamentos, assim como no caso do “mensalão do PT”, ficou por conta da SMPB, de Marcos Valério, por meio da emissão de notas fiscais frias. Segundo Antônio Fernando, constatou-se em Minas Gerais a existência de uma “complexa organização criminosa que atuava a partir de uma divisão muito aprofundada de tarefas”.
Embora tenha tentado, ainda durante as investigações da PF, negar sua vinculação direta com a campanha de Azeredo, da qual foi o principal coordenador, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, então no PTB, teria muito a explicar sobre o tucanoduto, mas está prestes a escapar do processo. Mares Guia vai completar 70 anos dia 24 de novembro. Com essa idade, poderá requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, pelos quais foi denunciado pelo Ministério Público Federal. O prazo de prescrição é de 16 anos, mas cai pela metade para um réu septuagenário.
Uma das provas materiais mais contundentes colhidas pela PF é um conjunto de quatro folhas manuscritas na qual Mares Guia registrou uma série de valores de arrecadação e pagamento do esquema. O coordenador da campanha de Azeredo admitiu, ao depor para o delegado federal Luiz Flávio Zampronha, que, de fato, era o autor do arrazoado de nomes de empreiteiras, siglas, abreviações de nomes e valores em reais. Foi por meio desse documento que a PF descobriu, por exemplo, que o apoio da ex-senadora Júnia Marise à candidatura de Azeredo custou exatos 175 mil reais. O dinheiro foi transferido, via depósito bancário, pela SMPB para uma conta de uma assessora da parlamentar.
Tanto o relatório da Polícia Federal quanto a denúncia da PGR apontam Clésio Andrade, supostamente o verdadeiro dono da SMPB, como o homem que colocou Valério na jogada. Em 1998, Andrade era candidato a vice-governador pelo PFL na chapa de Azeredo, cargo que só conseguiria ocupar em 2002, no primeiro mandato de Aécio. Como operador da quadrilha, Marcos Valério criou uma complexa cadeia de fluxo financeiro a partir de empréstimos fraudulentos feitos com por meio de três bancos: Rural, Cidade e o de Crédito Nacional. A maior parte dos recursos foi desviada, segundo a PF, da Companhia de Saneamento (Copasa), Companhia Mineradora (Comig), Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge) e da Companhia Energética do estado (Cemig).
Embora tenha sido praticamente ignorado pela Procuradoria-Geral da República, o relatório do delegado Zampronha concluiu que o esquema de lavagem de dinheiro em Minas funcionava exatamente como no “mensalão do PT”, com uma ressalva importante: no caso do tucanoduto, os desvios de recursos públicos são explícitos. O mais emblemático deles diz respeito a um tradicional evento estadual, o Enduro da Independência, uma prova de motocross pelas trilhas da antiga Estrada Real de Minas. Para patrocinar a corrida, o governo Azeredo jogou pesado e usou descaradamente a máquina estatal para drenar dinheiro para a campanha. Ao todo, seis estatais foram mobilizadas para doar 10,7 milhões de reais ao Enduro, tudo registrado na lista contábil de Mourão.
No relatório de Zampronha ficou demonstrado que, apesar dos repasses milionários do governo mineiro via Cemig, Copasa e Comig, a SMPB repassou apenas 98 mil reais à Confederação Brasileira de Motociclismo, organizadora oficial do evento. A diferença serviu para alimentar o esquema de caixa 2 e pagar os empréstimos que o publicitário fazia em nome do PSDB. De acordo com a lista de Mourão, a sangria de dinheiro público da campanha de Azeredo, contudo, era só parte de um esquema que iria arrecadar outros 90 milhões de reais entre empréstimos fraudulentos e doações privadas feitas em contrapartida por serviços públicos.
A lista elaborada pelo tesoureiro de campanha tucana em Minas tornou-se a Pedra de Roseta da investigação. A PF chegou até ela graças a uma rusga entre Mourão e Azeredo, por conta de uma dívida de campanha de 500 mil reais. Em 1999, um ano depois do fracasso da reeleição em Minas, o tesoureiro resolveu processar o chefe tucano para receber os créditos devidos a locadoras de automóveis contratadas pelo comitê de campanha.
Em 2002, candidato ao Senado, Azeredo achou por bem dar um jeito de pagar o ex-colaborador. Para tal, procurou Mares Guia e voltou a mergulhar nas águas turvas do tucanoduto. Contabilizados os juros, a dívida de Azeredo com Mourão havia chegado, naquele ano, a 900 mil reais, mas o acerto ficou em 700 mil reais. Tarde demais. Os rastros dessa operação, aliados a mais uma centena de indícios, poderão render a Azeredo, no STF, o mesmo fim dos “mensaleiros” petistas. Vai depender da disposição dos ministros do Supremo.
Na Justiça mineira, é difícil constatar o ímpeto em concluir os processos. A pressão pelo julgamento dos envolvidos no tucanoduto em Minas Gerais, se vier, terá de partir de fora do estado.
Leandro Fortes
No CartaCapital
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Saudades de 1964

Em 1º de março de 2010, uma reunião de milionários em luxuoso hotel de São Paulo foi festejada pela mídia nacional como o início de uma nova etapa na luta da civilização ocidental contra o ateísmo comunista e a subversão dos valores cristãos. Autodenominado 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, o evento teve como anfitriões três dos maiores grupos de mídia nacional: Roberto Civita, dono da Editora Abril, Otávio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, e Roberto Irineu Marinho, da Globo.
O evento, que cobrou dos participantes uma taxa de 500 reais, foi uma das primeiras manifestações do Instituto Millenium, organização muito semelhante ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), um dos fomentadores do golpe de 1964. Como o Ipes de quase 50 anos atrás, o Millenium funda seus princípios na liberdade dos mercados e no medo do “avanço do comunismo”, hoje personificado nos movimentos bolivarianos de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Muitos de seus integrantes atuais engrossaram as marchas da família nos anos 60 e sustentaram a ditadura. Outros tantos, mais jovens, construíram carreiras, principalmente na mídia, e ganharam dinheiro com um discurso tosco de criminalização da esquerda, dos movimentos sociais, de minorias e contra qualquer política social, do Bolsa Família às cotas nas universidades.
Madureira, o principal jornalista da turma
Há muitos comediantes no grupo. No seminário de 2010, o “democrata” Arnaldo Jabor arrancou aplausos da plateia ao bradar: “A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo?” Isso, como? A resposta é tão clara como a pergunta: com um golpe. No mesmo evento brilhou Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta. Como se verá ao longo deste texto, há um traço comum entre vários “especialistas” do Millenium: muitos se declaram ex-comunistas, ex-esquerdistas, em uma tentativa de provar que suas afirmações são fruto de uma experiência real e não da mais tacanha origem conservadora. Madureira não foge à regra: “Sou forjado no pior partido político que o Brasil já teve”, anunciou o “arrependido”, em referência ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partidão. Após a autoimolação, o piadista atacou, ao se referir ao governo do PT de então: “Eu conheço todos esses caras que estão no poder, eram os caras que não estudavam”. Eis o nível.
O símbolo do Millenium é um círculo de sigmas, a letra grega da bandeira integralista, aquela turma no Brasil que apoiou os nazistas. Jabor e Madureira estão perfilados em uma extensa lista de colaboradores no site da entidade, quase todos assíduos frequentadores das páginas de opinião dos principais jornais e de programas na tevê e no rádio. Montado sob a tutela do suprassumo do pensamento conservador nacional e financiado por grandes empresas, o instituto vende a imagem de um refinado clube do pensamento liberal, uma cidadela contra a barbárie. Mas a crítica primária e o discurso em uníssono de seus integrantes têm pouco a oferecer além de uma narrativa obscura da política, da economia e da cultura nacional. Replica, às vezes com contornos acadêmicos, as mesmas ideias que emanam do carcomido auditório do Clube Militar, espaço de recreação dos oficiais de pijama.
Meio empresa, meio quartel, o Millenium funciona sob uma impressionante estrutura hierárquica comandada e financiada por medalhões da indústria. Baseia-se na disseminação massiva de uma ideia central, o liberalismo econômico ortodoxo, e os conceitos de livre-mercado e propriedade privada. Tudo bem se fosse só isso. No fundo, o discurso liberal esconde um frequente flerte com o moralismo udenista, o discurso golpista e a desqualificação do debate público. Criado em 2005 com o curioso nome de “Instituto da Realidade”, transformou-se em Millenium em dezembro de 2009 após ser qualificado como Organização Social de Interesse Público (Oscip) pelo Ministério da Justiça. Bem a tempo de se integrar de corpo e alma à campanha de José Serra, do PSDB, nas eleições presidenciais de 2010. Em pouco tempo, aparelhado por um batalhão de “especialistas”, virou um bunker antiesquerda e principal irradiador do ódio de classe e do ressentimento eleitoral dedicado até hoje ao ex-presidente Lula.
Lamounier – O figurino dos anos 1960 no século XXI
O batalhão de “especialistas” conta com 180 profissionais de diversas áreas, entre eles, o jornalista José Nêumanne Pinto, o historiador Roberto DaMatta e o economista Rodrigo Constantino, autor do recém-lançado Privatize Já. A obra é um libelo privatizante feito sob encomenda para se contrapor ao livro A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., sobre as privatizações nos governos de Fernando Henrique Cardoso que beneficiaram Serra e seus familiares. E não há um único dos senhores envolvidos com as privatizações dos anos 1990 que hoje não nade em dinheiro.
Os “especialistas” são todos, curiosamente, brancos. Talvez por conta da adesão furiosa da agremiação aos manifestantes anticotas raciais. A tropa é comandada pelo jornalista Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja, publicação onde, semanalmente, o Millenium vê seus evangelhos e autos de fé renovados. Alcântara é um dos dois titulares do Conselho Editorial da entidade. O outro é Antonio Carlos Pereira, editorialista de O Estado de S. Paulo.
Alcântara e Pereira não são presenças aleatórias, tampouco foram nomeados por filtros da meritocracia, conceito caríssimo ao instituto. A dupla de jornalistas representa dois dos quatro conglomerados de mídia que formam a bússola ideológica da entidade, a Editora Abril e o Grupo Estado. Os demais são as Organizações Globo e a Rede Brasil Sul (RBS).
O Millenium possui uma direção administrativa formada por dez integrantes, entre os quais destaca-se a diretora-executiva Priscila Barbosa Pereira Pinto. Embora seja a principal executiva de um instituto que tem entre suas maiores bandeiras a defesa da liberdade de imprensa e de expressão – e à livre circulação de ideias –, Priscila Pinto não se mostrou muito disposta a fornecer informações a CartaCapital. A executiva recusou-se a explicar o formidável organograma que inclui uma enorme gama de empresas e empresários.
Entre os “mantenedores e parceiros”, responsáveis pelo suporte financeiro do instituto, estão empresas como a Gerdau, a Localiza (maior locadora de veículos do País) e a Statoil, companhia norueguesa de petróleo. No “grupo máster” aparece a Suzano, gigante nacional de produção de papel e celulose. No chamado “grupo de apoio” estão a RBS, o Estadão e o Grupo Meio & Mensagem.
Há ainda uma lista de 25 doadores permanentes, entre os quais, se incluem o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do falecido empresário José Alencar da Silva, vice-presidente da República nos dois mandatos de Lula. O organograma do clube da reação possui também uma “câmara de fundadores e curadores” (22 integrantes, entre eles o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e o jornalista Pedro Bial), uma “câmara de mantenedores” (14 pessoas) e uma “câmara de instituições” com nove membros. Gente demais para uma simples instituição sem fins lucrativos.
Uma das atividades fundamentais é a cooptação, via concessão de bolsas de estudo no exterior, de jovens jornalistas brasileiros. Esse trabalho não é feito diretamente pelo instituto, mas por um de seus agregados, o Instituto Ling, mantido pelo empresário William Ling, dono da Petropar, gigante do setor de petroquímicos. Endereçado a profissionais com idades entre 24 e 30 anos, o programa “Jornalista de Visão” concede bolsas de mestrado ou especialização em universidades dos Estados Unidos e da Europa a funcionários dos grupos de mídia ligados ao Millenium.
Em 2010, quando o programa se iniciou, cinco jornalistas foram escolhidos, um de cada representante da mídia vinculada ao Millenium: Época (Globo), Veja (Abril), O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Zero Hora (RBS). Em 2011, à exceção de um repórter do jornal A Tarde, da Bahia, o critério de escolha se manteve. Os agraciados foram da Época (2), Estadão (1), Folha (2), Zero Hora (1) e revista Galileu (1), da Editora Globo. Neste ano foram contemplados três jornalistas do Estadão, dois da Folha, um da rádio CBN (Globo), um da Veja, um do jornal O Globo e um da revista Capital Aberto, especializada em mercado de capitais.
Para ser escolhido, segundo as diretrizes apresentadas pelo Instituto Ling, o interessado não deve ser filiado a partidos políticos e demonstrar “capacidade de liderança, independência e espírito crítico”. Os aprovados são apresentados durante um café da manhã na entidade, na primeira semana de agosto, e são obrigados a fazer uma espécie de juramento: prometer trabalhar “pelo fortalecimento da imprensa no Brasil, defendendo os valores de independência, democracia, economia de mercado, Estado de Direito e liberdade”.
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O Millenium investe ainda em palestras, lançamentos de livros e debates abertos ao público, quase sempre voltados para assuntos econômicos e para a discussão tão obsessiva quanto inútil sobre liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Todo ano, por exemplo, o Millenium promove o “Dia da Liberdade de Impostos” e organiza os debates “Democracia e Liberdade de Expressão”. Entre os astros especialmente convidados para esses eventos estão Marcelo Tas, da Band, e Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, ambos de Veja. Humoristas jornalistas. Ou vice-versa.
O que toda essa gente faz e quanto cada um doa individualmente é mantido em segredo. Apesar da insistência de CartaCapital, a diretora-executiva Priscila Pinto mandou informar, via assessoria de imprensa, que não iria fornecer as informações requisitadas pela reportagem. Limitou-se a enviar nota oficial com um resumo da longa apresentação reproduzida na página eletrônica do Millenium sobre a missão do instituto. Entre eles, listado na rubrica “código de valores”, consta a premissa da transparência, voltada para “possibilidade de fiscalização pela sociedade civil e imprensa”. Valores, como se vê, bem flexíveis.
Josué Gomes e Gerdau também não atenderam aos pedidos de entrevista. O silêncio impede, no caso do primeiro, que se entenda o motivo de ele contribuir com um instituto cuja maioria dos integrantes sistematicamente atacou o governo do qual seu pai não só participou como foi um dos mais firmes defensores. E se ele é contra, por exemplo, a redução dos juros brasileiros a níveis civilizados. O industrial José Alencar passou os oito anos no governo a reclamar das taxas cobradas no Brasil. A turma do Millenium, ao contrário, brada contra o “intervencionismo estatal” na queda de braço entre o Palácio do Planalto e os bancos pela queda nos spreads cobrados dos consumidores finais.
No caso de Gerdau, seria interessante saber se o empresário, integrante da câmara de gestão federal, concorda com a tese de que a tentativa de redução no preço de energia é uma “intervenção descabida” do Estado, tese defendida pelo instituto que ele financia. Gerdau e Josué se perfilam, de forma consciente ou não, ao Movimento Endireita Brasil, defensor de teses esdrúxulas como a de que os militares golpistas de 1964 eram todos de esquerda.
O que há de transparência no Millenium não vem do espírito democrático de seus diretores, mas de uma obrigação legal comum a todas as ONGs certificadas pelo Ministério da Justiça. Essas entidades são obrigadas a disponibilizar ao público os dados administrativos e informações contábeis atualizadas. A direção do instituto se negou a informar à revista os valores pagos individualmente pelos doadores, assim como não quis discriminar o tamanho dos aportes financeiros feitos pelas empresas associadas.
A contabilidade disponível no Ministério da Justiça, contudo, revela a pujança da receita da entidade, uma média de 1 milhão de reais nos últimos dois anos. Em três anos de funcionamento auditados pelo governo (2009, 2010 e 2011), o Millenium deu prejuízos em dois deles.
Em 2009, quando foi certificado pelo Ministério da Justiça, o instituto conseguiu arrecadar 595,2 mil reais, 51% dos quais oriundos de doadores pessoas físicas e os demais 49% de recursos vindos de empresas privadas. Havia então quatro funcionários remunerados, embora a direção do Millenium não revele quem sejam, nem muito menos quanto recebem do instituto. Naquele ano, a entidade fechou as contas com prejuízo de 8,9 mil reais.
Em 2010, graças à adesão maciça de empresários e doadores antipetistas em geral, a arrecadação do Millenium praticamente dobrou. A receita no ano eleitoral foi de 1 milhão de reais, dos quais 65% vieram de doações de empresas privadas. O número de funcionários remunerados quase dobrou, de quatro para sete, e as contas fecharam no azul, com superávit de 153,9 mil reais.
Segundo as informações referentes ao exercício de 2011, a arrecadação do Millenium caiu pouco (951,9 mil reais) e se manteve na mesma relação porcentual de doadores (65% de empresas privadas, 35% de doações de pessoas físicas). O problema foi fechar as contas. No ano passado, a entidade amargou um prejuízo de 76,6 mil reais, mixaria para o volume de recursos reunidos em torno dos patrocinadores e mantenedores. Apenas com verbas publicitárias repassadas pelo governo federal, a turma midiática do Millenium faturou no ano passado 112,7 milhões de reais.
Leandro Fortes
No CartaCapital
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Como foi inventado o povo judeu


Embora crescentemente desmentidos pela arqueologia, pela genética e pela historiografia séria, os mitos de que se alimenta o sionismo continuam a constituir a base em que assenta a reivindicação de legitimidade do estado etnocrático, confessional, racista e colonialista de Israel. O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20% da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.



Uma chuva de insultos fustigou em Israel Shlomo Sand quando publicou um livro cujo título — "Como foi inventado o povo judeu” * — desmonta mitos bíblicos que são cimento do Estado sionista de Israel.

Professor de Historia Contemporânea na Universidade de Tel-Aviv, ele nega que os judeus constituam um povo com uma origem comum e sustenta que foi uma cultura especifica e não a descendência de uma comunidade arcaica unida por laços de sangue o instrumento principal da fermentação proto-nacional.

Para ele o «Estado judaico de Israel», longe de ser a concretização do sonho nacional de uma comunidade étnica com mais de 4 000 anos, foi tornado possível por uma falsificação da história dinamizada no seculo XIX por intelectuais como Theodor Herzl.

Enquanto académicos israelenses insistem em afirmar que os judeus são um povo com um ADN próprio, Sand, baseado numa documentação exaustiva, ridiculariza essa tese acientífica.

Não há aliás pontes biológicas entre os antigos habitantes dos reinos da Judeia e de Israel e os judeus do nosso tempo.

O mito étnico contribuiu poderosamente para o imaginário cívico. As suas raízes mergulham na Bíblia, fonte do monoteísmo hebraico. Tal como a Ilíada, o Antigo Testamento não é obra de um único autor. Sand define a Bíblia como «biblioteca extraordinária» que terá sido escrita entre os séculos VI e II antes da Nossa Era. O mito principia com a invenção do «povo sagrado» a quem foi anunciada a terra prometida de Canaã.

Carecem de qualquer fundamento histórico a interminável viagem de Moisés e do seu povo rumo à Terra Santa e a sua conquista posterior. Cabe lembrar que o actual território da Palestina era então parte integrante do Egipto faraónico.

A mitologia dos sucessivos exílios, difundida através dos séculos, acabou por ganhar a aparência de verdade histórica. Mas foi forjada a partir da Bíblia e ampliada pelos pioneiros do sionismo.

As expulsões em massa de judeus pelos Assírios são uma invencionice. Não há registo delas em fontes históricas credíveis.

O grande exilio da Babilónia é tão falso como o das grandes diásporas. Quando Nabucodonosor tomou Jerusalém destruiu o Templo e expulsou da cidade um segmento das elites. Mas a Babilonia era há muito a cidade de residência, por opção própria, de uma numerosa comunidade judaica. Foi ela o núcleo da criatividade dos rabinos que falavam aramaico e introduziram importantes reformas na religião mosaica.

Sublinhe-se que somente uma pequena minoria dessa comunidade voltou à Judeia quando o imperador persa Ciro conquistou Jerusalém no séc. VI antes da Nossa Era.

Quando os centros da cultura judaica de Babilonia se desagregaram, os judeus emigram para a Bagdad abássida e não para a «Terra Santa». Sand dedica atenção especial aos «Exílios» como mitos fundadores da identidade étnica.

As duas «expulsões» dos judeus no período Romano, a primeira por Tito e a segunda por Adriano, que teriam sido o motor da grande diáspora, são tema de uma reflexão aprofundada pelo historiador israelense.

Os jovens judeus aprendem nas escolas que «a nação judaica» foi exilada pelos Romanos apos a destruição do II Templo por Tito em 70, e posteriormente, por Adriano, em 132. Por si só o texto fantasista de Flavius Joseph, testemunha da revolta dos zelotas, retira credibilidade a essa versão, hoje oficial.

Segundo ele, os romanos massacraram então 1 100 000 judeus e prenderam 97 000.Isso numa época em que a população total da Galileia era segundo os demógrafos atuais muito inferior a meio milhão…

As escavações arqueológicas das últimas décadas em Jerusalém e na Cisjordânia criaram aliás problemas insuperáveis aos universitários e teólogos sionistas que «explicam» a história do povo judeu tomando a Torah e a palavra dos Patriarcas como referências infalíveis.

Os desmentidos da arqueologia perturbaram os historiadores. Ficou provado que Jericó era pouco mais do que uma aldeia sem as poderosas muralhas que a Bíblia cita. As revelações sobre as cidades de Canaã alarmaram também os rabinos. A arqueologia moderna sepultou o discurso da antropologia social religiosa.

Em Jerusalém não foram encontrados sequer vestígios das grandiosas construções que segundo o Livro a transformaram no seculo X, a época dourada de David e Salomão, na cidade monumental do «povo de Deus» que deslumbrava quantos a conheceram. Nem palácios nem muralhas, nem cerâmica de qualidade.

O desenvolvimento da tecnologia do carbono 14 permitiu uma conclusão. Os grandes edifícios da região Norte não foram construídos na época de Salomão, mas no período do reino de Israel.

«Não existe na realidade nenhum vestígio - escreve Shlomo Sand - da existência desse rei lendário cuja riqueza é descrita pela Bíblia em termos que fazem dele quase o equivalente dos poderosos reis da Babilonia e da Pérsia». «Se uma entidade política existiu na Judeia do seculo X antes da Nossa Era, acrescenta o historiador, somente poderia ser uma microrealeza tribal e Jerusalém apenas uma pequena cidade fortificada».

É também significativo que nenhum documento egípcio refira a «conquista» pelos judeus de Canaã, território que então pertencia ao faraó.

O silencio sobre as conversões

A historiografia oficial israelense, ao erigir em dogma a pureza da raça, atribui a sucessivas diásporas a formação das comunidades judaicas em dezenas de países.

A Declaração de Independência de Israel afirma que, obrigados ao exilio, os judeus esforçaram-se ao longo dos seculos por regressar ao país dos seus antepassados.

Trata-se de uma mentira que falsifica grosseiramente a História.

A grande diáspora é ficcional, como as demais. Após a destruição de Jerusalém e a construção de Aelia Capitolina somente uma pequena minoria da população foi expulsa. A esmagadora maioria permaneceu no país.

Qual a origem então dos antepassados de uns 12 milhões de judeus hoje existentes fora de Israel?

Na resposta a essa pergunta, o livro de Shlomo Sand destrói simultaneamente o mito da pureza da raça, isto é da etnicidade judaica.

Uma abundante documentação reunida por historiadores de prestígio mundial revela que nos primeiros séculos na Nossa Era houve maciças conversões ao judaísmo na Europa, na Asia e na Africa.

Três delas foram particularmente importantes e incomodam os teólogos israelenses.

O Alcorão esclarece que Maomé encontrou em Medina, na fuga de Meca, grandes tribos judaicas com as quais entrou em conflito, acabando por expulsá-las. Mas não esclarece que no extremo Sul da Península Arábica, no atual Iémen, o reino de Hymar adotou o judaísmo como religião oficial. Cabe dizer que chegou para ficar. No seculo VII o Islão implantou-se na região, mas, transcorridos treze seculos, quando se formou o Estado de Israel, dezenas de milhares de iemenitas falavam o árabe, mas continuavam a professar a religião judaica. A maioria emigrou para Israel onde, aliás, é discriminada.

No Imperio Romano, o judaísmo também criou raízes, mesmo na Itália. O tema mereceu a atenção do historiador Díon Cassius e do poeta Juvenal.

Na Cirenaica, a revolta dos judeus da cidade de Cirene exigiu a mobilização de várias legiões para a combater.

Mas foi sobretudo no extremo ocidental da África que houve conversões em massa à religião rabínica. Uma parcela ponderável das populações berberes aderiu ao judaísmo e a elas se deve a sua introdução no Al Andalus.

Foram esses magrebinos que difundiram na Península o judaísmo, os pioneiros dos sefarditas que, apos a expulsão de Espanha e Portugal, se exilaram em diferentes países europeus, na Africa muçulmana e na Turquia.

Mais importante pelas suas consequências foi a conversão ao judaísmo dos Khazars, um povo nómada turcófono, aparentado com os hunos, que, vindo do Altai, se fixou no seculo IV nas estepes do baixo Volga.

Os Khazars, que toleravam bem o cristianismo, construíram um poderoso estado judaico, aliado de Bizâncio nas lutas do Império Romano do Oriente contra os Persas Sassânidas.

Esse esquecido império medieval ocupava uma área enorme, do Volga à Crimeia e do Don ao atual Uzbequistão. Desapareceu da Historia no seculo XIII quando os Mongóis invadiram a Europa, destruindo tudo por onde passavam. Milhares de Khazars, fugindo das Hordas de Batu Khan, dispersaram-se pela Europa Oriental. A sua principal herança cultural foi inesperada. Grandes historiadores medievalistas como Renan e Marc Bloch identificam nos Kahzars os antepassados dos asquenazes cujas comunidades na Polonia, na Rússia e na Roménia viriam a desempenhar um papel fulcral na colonização judaica da Palestina.

Um Estado neofascista

Segundo Nathan Birbaum, o intelectual judeu que inventou em 1891 o conceito de sionismo, é a biologia e não a língua e a cultura quem explica a formação das nações. Para ele, a raça é tudo. E o povo judeu teria sido quase o único a preservar a pureza do sangue através de milénios. Morreu sem compreender que essa tese racista, a prevalecer, apagaria o mito do povo sagrado eleito por Deus.

Porque os judeus são um povo filho de uma cadeia de mestiçagens. O que lhes confere uma identidade própria é uma cultura e a fidelidade a uma tradição religiosa enraizada na falsificação da Historia.

Nos passaportes do Estado Judaico de Israel não é aceite a nacionalidade israelense. Os cidadãos de pleno direito escrevem «judeu». Os palestinos devem escrever «árabe», nacionalidade inexistente.

Ser cristão, budista, mazdeísta, muçulmano, ou hindu resulta de uma opção religiosa, não é nacionalidade. O judaísmo também não é uma nacionalidade.

Em Israel não há casamento civil. Para os judeus, é obrigatório o casamento religioso, mesmo que sejam ateus.

Essa aberração é inseparável de muitas outras num Estado confessional, etnocracia liberal construída sobre mitos, um Estado que trocou o yiddish, falado pelos pioneiros do «regresso a Terra Santa», pelo sagrado hebraico dos rabinos, desconhecido do povo da Judeia que se expressava em aramaico, a língua em que a Bíblia foi redigida na Babilónia e não em Jerusalém.

O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20% da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.

O livro de Shlalom Sand sobre a invenção do Povo Judeu é, além de um lúcido ensaio histórico, um ato de coragem. Aconselho a sua leitura a todos aqueles para quem o traçado da fronteira da opção de esquerda passa hoje pela solidariedade com o povo mártir da Palestina e a condenação do sionismo.

Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2012

*Shlomo Sand, «Comment fut inventé le peuple juif» Flammarion, Paris 2010

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Vigília da Igreja Universal do Reino de Deus acaba em tragédia


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Os motivos do sequestro da vereadora do PT

O vereador ALIEL MACHADO do PCdoB de Ponta Grossa (PR) registrou em sua página no facebook o seguinte relato:





Atenção, para você terem uma ideia da guerra que estamos enfrentando:
Sequestraram a vereadora Ana Maria do PT, nosso colega do grupo de independentes para impedir nossa vitória na eleição na mesa executiva. Enquanto não devolverem a vereadora, nós do grupo dos 12 nos recusamos a dar quórum a sessão e não entraremos no plenário.
Nunca imaginei que enfrentaríamos esse tipo de situação!
No Justiceira de Esquerda
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Chip de identificação eletrônica será obrigatório para veículos em circulação no país

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Comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN

 
Ao povo do México
aos povos e governos do mundo.
Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de uns dias atrás
Irmãos e Irmãs,
Companheiros e Companheiras:
Dia 21/12/2012, na madrugada, dezenas de milhares de indígenas zapatistas nos mobilizamos e tomamos, pacificamente e em silêncio cinco sedes de município no estado de Chiapas, no sudeste do México.
Nas cidades de Palenque, Altamirano, Las Margaritas, Ocosingo e San Cristóbal de Las Casas, vimos vocês e nos vimos, nós mesmos, em silêncio.
Não é mensagem de resignação.
Não é mensagem de guerra, de morte e destruição.
Nossa mensagem é mensagem de luta e de resistência.
Depois do golpe de estado “midiático” que impôs, no centro do Executivo federal, a reles ignorância mal dissimulada e ainda mais mal maquiada, nos mostramos, presentes, para que fiquem eles sabendo que, se eles não saem daqui, nós tampouco. Continuamos aqui.
Há seis anos, um segmento da classe política e intelectual resolveu inventar um responsável pela derrota deles. Naquele tempo, estávamos, nós, em cidades e comunidades, lutando por justiça para gente que, naquele tempo, não estava em moda. Naquele momento, primeiro nos caluniaram; em seguida tentaram nos calar.
Incapazes, desonestos, sem saber ver que carregam neles mesmos o fermento da própria ruína, tentaram nos fazer sumir mediante a mentira e o silêncio dos veículos de mídia, sempre cúmplices.
Seis anos depois, duas coisas já se veem, bem claras:
– eles não precisam de nós para fracassar. E nós não precisamos deles para sobreviver.
Nós jamais fugimos, por mais que os veículos de todo o espectro das comunicações tenham tentado enganar vocês todos. E agora estamos novamente nas ruas, como somos e jamais deixamos de ser: indígenas zapatistas.
Durante esses anos nos fortalecemos e melhoramos consideravelmente nossas condições de vida. Nosso padrão de vida é superior ao das comunidades indígenas aliadas aos governos de plantão, que ganham esmolas e as consomem em bebedeiras e para comprar coisas de que não precisam.
Nossas casas melhoraram, sem ferir a natureza, sem impor-lhe caminhos que a natureza não conhece e dos quais não precisa.
Nos nossos pueblos, a terra, antes usada para engordar o gado de ocupantes e proprietários, agora nos dá o milho, o feijão, os legumes que iluminam nossas mesas.
Nosso trabalho é duplamente recompensado: nos dá o que é necessário para viver com honra e decência e para contribuir para que nossas comunidades cresçam também coletivamente.
Nossos meninos e meninas vão a uma escola que lhes ensina a verdadeira história deles, de nossa terra e do mundo; além das ciências e técnicas necessárias para que se nutram, cresçam e se sintam grandes, sem deixar de ser indígenas.
As mulheres indígenas zapatistas não são vendidas como mercadorias.
Os indígenas aliados do partido PRI servem-se de nossos hospitais, clínicas e laboratórios, porque nos do governo não há remédios, nem aparelhos, nem médicos, nem pessoal qualificado.
Nossa cultura floresce, não isolada, mas enriquecida no contato com as culturas de outros povos do México e do mundo.
Governamos e nos governamos nós mesmos, buscando primeiro, sempre, o acordo, antes de qualquer confronto.
Tudo isso nós obtivemos, não apenas sem precisar do governo, dos políticos governantes e das empresas e veículos de comunicação comercial que sempre acompanham os governos, mas, também, resistindo a todos os ataques deles, contra nós.
Demonstramos, mais uma vez, que somos quem somos.
Nos apresentamos, lá estivemos, nas ruas, com nosso silêncio.
Agora, com nossa palavra, anunciamos que:
Primeiro: Reafirmaremos que pertencemos ao Congresso Nacional Indígena e reafirmaremos essa pertinência. O Congresso Nacional Indígena é espaço de encontro dos povos originários de nosso país.
Segundo: Retomaremos o contato com nossos companheiros e companheiras aderentes da Sexta Declaração da Selva Lacandona no México e no mundo.
Terceiro: Trabalharemos para construir as pontes necessárias com os movimentos sociais que surgiram e surgirão, não para dirigi-los ou superá-los, mas para aprender deles, de sua história, de seus caminhos e destinos.
Para isso, conseguimos o apoio de indivíduos e grupos em diferentes partes do México, organizados como equipes de apoio das Comissões Sexta e Internacional do EZLN, para que se convertam em correiras de transmissão entre as bases zapatistas de apoio e os indivíduos, grupos e coletivos aderentes à Sexta Declaração, no México e no mundo que ainda mantêm sua convicção e o compromisso com construir uma alternativa não institucional de esquerda.
Quarto: Nos manteremos distanciados – distanciamento crítico – da classe política mexicana, a qual, em seu conjunto, nada obteve além de inchar à custa das necessidades e das esperanças de gente simples e humilde.
Quinto: Quanto aos maus governos federais, estaduais e municipais, aos Executivos, Legislativos e Judiciários maus, e contra os veículos e empresas de comunicação que sempre andam com eles, temos a dizer que:
– os maus governos de todo o espectro político, absolutamente sem exceção, fizeram o possível para nos destruir, para nos forçar à rendição. Os partidos PRI, PAN, PRD, PVEM, PT, CC e o futuro partido de RN, nos atacaram militarmente, politicamente, socialmente e ideologicamente.
Os grandes veículos e empresas de comunicação tentaram por todos os meios nos fazer desaparecer. Primeiro, usaram a calúnia servil e oportunista; depois o silêncio vicioso e cúmplice. Aqueles de cujas tetas de dinheiro as empresas da imprensa-empresa sempre mamaram e aos quais sempre obedeceram servilmente já não mandam. E alguns que ainda se elejam, sobre as ruínas dos que os antecederam, terão vida mais curta que eles.
Como se viu bem claramente dia 21/12/2012, todos eles fracassaram.
Só falta, pois, que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário federais decidam se 
(a) insistirão em sua política de contraguerrilha – que jamais, até hoje, passou de simulacro patético, torpemente mantida artificialmente viva pela repetição, nos meios de comunicação –, ou se
(b) reconhecem e cumprem seus compromissos, elevando ao plano de pleno reconhecimento Constitucional os direitos e a cultura indígenas, nos termos em que o ordenam os chamados “acordos de San Andrés”, firmados pelo governo federal em 1996, chefiado então pelo mesmo partido que lá está hoje.
Falta só o Governo Estadual decidir se
(a) insiste na estratégia desonesta e ruim de seu antecessor – o qual, além de mentiroso e corrupto, roubou, para enriquecimento privado dele e de seus cúmplices, dinheiros do povo de Chiapas, para comprar, desavergonhadamente, vozes e penas nos veículos da imprensa-empresa, enquanto faziam sumir o povo de Chiapas, mergulhado por eles na miséria. Ao mesmo tempo, aquele governo estadual usava policiais e paramilitares para tentar frear o avanço organizacional dos povos zapatistas; ou se, em vez disso, com justiça e verdade,
(b) aceita e respeita nossa existência e decide ver que aqui, no território zapatista, em Chiapas, México, floresce uma nova forma de vida social. Esse florescimento – os governos locais vejam ou não vejam – já atrai a atenção de pessoas honestas em todo o planeta.
Falta os governos municipais decidirem se continuarão, ou não, a deixar que girem as rodas da extorsão com que as organizações antizapatistas ou apresentadas como se fossem “zapatistas” assaltam as municipalidades para, em seguida, atacarem nossas comunidades; ou só usam o dinheiro das municipalidades para melhorar as condições de vida, só, dos próprios governantes.
Falta ainda o povo mexicano, que se organiza em formas de lutas eleitorais e resiste, decidir se
(a) continua a acreditar que o inimigo seríamos nós; se continua a descarregar sobre nós a frustração nacional pelas muitas fraudes e agressões de que, de fato, todos os mexicanos somos vítimas; se continua a aliar-se aos que nos perseguem; ou se
(b), afinal, se dispõe a reconhecer nos zapatistas de Chiapas outra forma de fazer política.
Sexto: Nos próximos dias, o EZLN, pelas suas Comissões Sexta e Internacional, dará a conhecer várias iniciativas, de caráter civil e pacífico, para seguir caminhando ao lado dos outros povos originários do México e de todo o Continente, e ao lado, também, no México e no mundo inteiro, de todos que resistem e lutam à esquerda e de baixo.
Irmãos e irmãs,
Companheiros e companheiras,
– já conhecemos, antes, a felicidade de receber atenção decente e honesta de vários veículos de empresas da imprensa-empresa de comunicações de massa. Quando aconteceu, nós registramos e agradecemos. Mas é passado, e aquele momento foi completamente apagado pelo que aconteceu depois, quando os veículos de empresas da imprensa-empresa mobilizaram-se contra a verdade e contra nós.
Todos os que apostaram que não sobreviveríamos senão no mundo “midiático” – e que, sob cerco feroz de mentiras e silêncios, nós desaparecíamos – erraram.
Continuamos a existir – onde e quando não havia câmeras, microfones, comentaristas, olhos e ouvidos.
Continuamos a existir – onde e quando nos caluniaram.
Continuamos a existir – onde e quando nos roubaram nossa voz.
E aqui estamos, sempre existindo, sempre.
Nossa caminhada, como todos viram bem claramente, não depende de “impacto midiático”. Nossa caminhada só depende de que o mundo e todas as partes do mundo nos vejam e nos compreendam. Nossa caminhada só depende da sabedoria indígena ancestral que guia nossos passos; e da decisão inabalável, da qual brota a dignidade dos de abaixo à esquerda.
A partir de agora, nossa palavra selecionará cuidadosamente os destinatários e, exceto em algumas poucas ocasiões, só será compreensível para quem tenha caminhado e caminhe conosco, sem se render a “modas midiáticas” e conjunturais.
Cá onde estamos, com não poucos erros e muitas dificuldades, já é outra realidade, outra forma de fazer política.
Poucos, bem poucos, viverão o privilégio de conhecê-la e de aprender dela, diretamente.
Há 19 anos, surpreendemos todos, ao tomar a fogo e sangue as suas cidades. Agora, fizemos outra vez, sem armas, sem morte, sem destruição. Assim, nos diferenciamos dos que, durante seus governos, repartiram e continuam a distribuir morte e mais morte entre seus governados.
Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de há poucos dias.
Somos os zapatistas, os menores, os que vivem, lutam e morrem no menor rincão no México, os que não claudicam, os que não se vendem, os que não se rendem.
Irmãos e irmãs, companheiros e companheiras, somos zapatistas.
Recebam nosso abraço.
¡democracia! ¡libertad! ¡justicia!
Das montanhas do Sudeste Mexicano,
Em nome do Comité Clandestino Revolucionario Indígena – Comandancia General del Ejército Zapatista de Liberación Nacional.
[assina] Subcomandante Insurgente Marcos
México. Dezembro de 2012/Janeiro de 2013
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Comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN

 
Ao povo do México
aos povos e governos do mundo.
Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de uns dias atrás
Irmãos e Irmãs,
Companheiros e Companheiras:
Dia 21/12/2012, na madrugada, dezenas de milhares de indígenas zapatistas nos mobilizamos e tomamos, pacificamente e em silêncio cinco sedes de município no estado de Chiapas, no sudeste do México.
Nas cidades de Palenque, Altamirano, Las Margaritas, Ocosingo e San Cristóbal de Las Casas, vimos vocês e nos vimos, nós mesmos, em silêncio.
Não é mensagem de resignação.
Não é mensagem de guerra, de morte e destruição.
Nossa mensagem é mensagem de luta e de resistência.
Depois do golpe de estado “midiático” que impôs, no centro do Executivo federal, a reles ignorância mal dissimulada e ainda mais mal maquiada, nos mostramos, presentes, para que fiquem eles sabendo que, se eles não saem daqui, nós tampouco. Continuamos aqui.
Há seis anos, um segmento da classe política e intelectual resolveu inventar um responsável pela derrota deles. Naquele tempo, estávamos, nós, em cidades e comunidades, lutando por justiça para gente que, naquele tempo, não estava em moda. Naquele momento, primeiro nos caluniaram; em seguida tentaram nos calar.
Incapazes, desonestos, sem saber ver que carregam neles mesmos o fermento da própria ruína, tentaram nos fazer sumir mediante a mentira e o silêncio dos veículos de mídia, sempre cúmplices.
Seis anos depois, duas coisas já se veem, bem claras:
– eles não precisam de nós para fracassar. E nós não precisamos deles para sobreviver.
Nós jamais fugimos, por mais que os veículos de todo o espectro das comunicações tenham tentado enganar vocês todos. E agora estamos novamente nas ruas, como somos e jamais deixamos de ser: indígenas zapatistas.
Durante esses anos nos fortalecemos e melhoramos consideravelmente nossas condições de vida. Nosso padrão de vida é superior ao das comunidades indígenas aliadas aos governos de plantão, que ganham esmolas e as consomem em bebedeiras e para comprar coisas de que não precisam.
Nossas casas melhoraram, sem ferir a natureza, sem impor-lhe caminhos que a natureza não conhece e dos quais não precisa.
Nos nossos pueblos, a terra, antes usada para engordar o gado de ocupantes e proprietários, agora nos dá o milho, o feijão, os legumes que iluminam nossas mesas.
Nosso trabalho é duplamente recompensado: nos dá o que é necessário para viver com honra e decência e para contribuir para que nossas comunidades cresçam também coletivamente.
Nossos meninos e meninas vão a uma escola que lhes ensina a verdadeira história deles, de nossa terra e do mundo; além das ciências e técnicas necessárias para que se nutram, cresçam e se sintam grandes, sem deixar de ser indígenas.
As mulheres indígenas zapatistas não são vendidas como mercadorias.
Os indígenas aliados do partido PRI servem-se de nossos hospitais, clínicas e laboratórios, porque nos do governo não há remédios, nem aparelhos, nem médicos, nem pessoal qualificado.
Nossa cultura floresce, não isolada, mas enriquecida no contato com as culturas de outros povos do México e do mundo.
Governamos e nos governamos nós mesmos, buscando primeiro, sempre, o acordo, antes de qualquer confronto.
Tudo isso nós obtivemos, não apenas sem precisar do governo, dos políticos governantes e das empresas e veículos de comunicação comercial que sempre acompanham os governos, mas, também, resistindo a todos os ataques deles, contra nós.
Demonstramos, mais uma vez, que somos quem somos.
Nos apresentamos, lá estivemos, nas ruas, com nosso silêncio.
Agora, com nossa palavra, anunciamos que:
Primeiro: Reafirmaremos que pertencemos ao Congresso Nacional Indígena e reafirmaremos essa pertinência. O Congresso Nacional Indígena é espaço de encontro dos povos originários de nosso país.
Segundo: Retomaremos o contato com nossos companheiros e companheiras aderentes da Sexta Declaração da Selva Lacandona no México e no mundo.
Terceiro: Trabalharemos para construir as pontes necessárias com os movimentos sociais que surgiram e surgirão, não para dirigi-los ou superá-los, mas para aprender deles, de sua história, de seus caminhos e destinos.
Para isso, conseguimos o apoio de indivíduos e grupos em diferentes partes do México, organizados como equipes de apoio das Comissões Sexta e Internacional do EZLN, para que se convertam em correiras de transmissão entre as bases zapatistas de apoio e os indivíduos, grupos e coletivos aderentes à Sexta Declaração, no México e no mundo que ainda mantêm sua convicção e o compromisso com construir uma alternativa não institucional de esquerda.
Quarto: Nos manteremos distanciados – distanciamento crítico – da classe política mexicana, a qual, em seu conjunto, nada obteve além de inchar à custa das necessidades e das esperanças de gente simples e humilde.
Quinto: Quanto aos maus governos federais, estaduais e municipais, aos Executivos, Legislativos e Judiciários maus, e contra os veículos e empresas de comunicação que sempre andam com eles, temos a dizer que:
– os maus governos de todo o espectro político, absolutamente sem exceção, fizeram o possível para nos destruir, para nos forçar à rendição. Os partidos PRI, PAN, PRD, PVEM, PT, CC e o futuro partido de RN, nos atacaram militarmente, politicamente, socialmente e ideologicamente.
Os grandes veículos e empresas de comunicação tentaram por todos os meios nos fazer desaparecer. Primeiro, usaram a calúnia servil e oportunista; depois o silêncio vicioso e cúmplice. Aqueles de cujas tetas de dinheiro as empresas da imprensa-empresa sempre mamaram e aos quais sempre obedeceram servilmente já não mandam. E alguns que ainda se elejam, sobre as ruínas dos que os antecederam, terão vida mais curta que eles.
Como se viu bem claramente dia 21/12/2012, todos eles fracassaram.
Só falta, pois, que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário federais decidam se 
(a) insistirão em sua política de contraguerrilha – que jamais, até hoje, passou de simulacro patético, torpemente mantida artificialmente viva pela repetição, nos meios de comunicação –, ou se
(b) reconhecem e cumprem seus compromissos, elevando ao plano de pleno reconhecimento Constitucional os direitos e a cultura indígenas, nos termos em que o ordenam os chamados “acordos de San Andrés”, firmados pelo governo federal em 1996, chefiado então pelo mesmo partido que lá está hoje.
Falta só o Governo Estadual decidir se
(a) insiste na estratégia desonesta e ruim de seu antecessor – o qual, além de mentiroso e corrupto, roubou, para enriquecimento privado dele e de seus cúmplices, dinheiros do povo de Chiapas, para comprar, desavergonhadamente, vozes e penas nos veículos da imprensa-empresa, enquanto faziam sumir o povo de Chiapas, mergulhado por eles na miséria. Ao mesmo tempo, aquele governo estadual usava policiais e paramilitares para tentar frear o avanço organizacional dos povos zapatistas; ou se, em vez disso, com justiça e verdade,
(b) aceita e respeita nossa existência e decide ver que aqui, no território zapatista, em Chiapas, México, floresce uma nova forma de vida social. Esse florescimento – os governos locais vejam ou não vejam – já atrai a atenção de pessoas honestas em todo o planeta.
Falta os governos municipais decidirem se continuarão, ou não, a deixar que girem as rodas da extorsão com que as organizações antizapatistas ou apresentadas como se fossem “zapatistas” assaltam as municipalidades para, em seguida, atacarem nossas comunidades; ou só usam o dinheiro das municipalidades para melhorar as condições de vida, só, dos próprios governantes.
Falta ainda o povo mexicano, que se organiza em formas de lutas eleitorais e resiste, decidir se
(a) continua a acreditar que o inimigo seríamos nós; se continua a descarregar sobre nós a frustração nacional pelas muitas fraudes e agressões de que, de fato, todos os mexicanos somos vítimas; se continua a aliar-se aos que nos perseguem; ou se
(b), afinal, se dispõe a reconhecer nos zapatistas de Chiapas outra forma de fazer política.
Sexto: Nos próximos dias, o EZLN, pelas suas Comissões Sexta e Internacional, dará a conhecer várias iniciativas, de caráter civil e pacífico, para seguir caminhando ao lado dos outros povos originários do México e de todo o Continente, e ao lado, também, no México e no mundo inteiro, de todos que resistem e lutam à esquerda e de baixo.
Irmãos e irmãs,
Companheiros e companheiras,
– já conhecemos, antes, a felicidade de receber atenção decente e honesta de vários veículos de empresas da imprensa-empresa de comunicações de massa. Quando aconteceu, nós registramos e agradecemos. Mas é passado, e aquele momento foi completamente apagado pelo que aconteceu depois, quando os veículos de empresas da imprensa-empresa mobilizaram-se contra a verdade e contra nós.
Todos os que apostaram que não sobreviveríamos senão no mundo “midiático” – e que, sob cerco feroz de mentiras e silêncios, nós desaparecíamos – erraram.
Continuamos a existir – onde e quando não havia câmeras, microfones, comentaristas, olhos e ouvidos.
Continuamos a existir – onde e quando nos caluniaram.
Continuamos a existir – onde e quando nos roubaram nossa voz.
E aqui estamos, sempre existindo, sempre.
Nossa caminhada, como todos viram bem claramente, não depende de “impacto midiático”. Nossa caminhada só depende de que o mundo e todas as partes do mundo nos vejam e nos compreendam. Nossa caminhada só depende da sabedoria indígena ancestral que guia nossos passos; e da decisão inabalável, da qual brota a dignidade dos de abaixo à esquerda.
A partir de agora, nossa palavra selecionará cuidadosamente os destinatários e, exceto em algumas poucas ocasiões, só será compreensível para quem tenha caminhado e caminhe conosco, sem se render a “modas midiáticas” e conjunturais.
Cá onde estamos, com não poucos erros e muitas dificuldades, já é outra realidade, outra forma de fazer política.
Poucos, bem poucos, viverão o privilégio de conhecê-la e de aprender dela, diretamente.
Há 19 anos, surpreendemos todos, ao tomar a fogo e sangue as suas cidades. Agora, fizemos outra vez, sem armas, sem morte, sem destruição. Assim, nos diferenciamos dos que, durante seus governos, repartiram e continuam a distribuir morte e mais morte entre seus governados.
Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de há poucos dias.
Somos os zapatistas, os menores, os que vivem, lutam e morrem no menor rincão no México, os que não claudicam, os que não se vendem, os que não se rendem.
Irmãos e irmãs, companheiros e companheiras, somos zapatistas.
Recebam nosso abraço.
¡democracia! ¡libertad! ¡justicia!
Das montanhas do Sudeste Mexicano,
Em nome do Comité Clandestino Revolucionario Indígena – Comandancia General del Ejército Zapatista de Liberación Nacional.
[assina] Subcomandante Insurgente Marcos
México. Dezembro de 2012/Janeiro de 2013
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Charge online - Bessinha - # 1636

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Entrevista com Tarso Genro

É preciso enfrentar ideologicamente PSOL e PSTU e reaproximar
o PT dos sindicatos, diz governador gaúcho
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Chegando à metade de seu mandato como governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro acredita ter bons motivos para comemorar. “Recebemos um estado endividado, com salários arrochados, sem articulação com o governo federal e sem espaço fiscal. Conseguimos reverter tudo isso”, anima-se, realçando a retomada de parcerias com o governo federal, a adoção de políticas sociais e as melhoras salariais do funcionalismo como conquistas atingidas pelo estado nos dois primeiros anos de governo. Ações que, segundo o governador, apontam caminhos positivos para a continuidade de seu mandato e até para uma eventual reeleição em 2014. “Estou otimista e acho que teremos mais quatro anos de Unidade Popular Pelo Rio Grande”, afirma.
Em uma longa conversa com o Sul21, ocorrida no último dia 26, Tarso Genro não limitou-se a discutir aspectos de seu governo, fazendo também uma análise da conjuntura política do Rio Grande do Sul – sem se furtar de discutir questões ideológicas envolvendo o próprio PT. “O partido precisa entender que não vai ser sempre cabeça de chapa”, afirmou Tarso, reforçando que falta ao PT “uma visão de esquerda mais generosa em relação a nossos parceiros e mais dura em relação a nós mesmos”. Vendo a oposição a seu governo como “organizada, mas minoritária”, Tarso Genro defendeu também a reaproximação do PT com movimentos dos trabalhadores – o que passa, segundo ele, por uma discussão ideológica mais acentuada junto a partidos como PSOL e PSTU, que estariam ocupando o espaço dos petistas junto aos sindicatos.
“A estratégia que adotamos é de responsabilidade social e econômica. O aval da União para os empréstimos não é meramente político. É uma garantia financeira”
Sul21 – Quando assumiu o governo, o senhor disse que os cofres públicos estavam raspados. Dois anos depois, como está a situação das finanças estaduais?
Tarso Genro - 
A situação estrutural das finanças do estado permanece a mesma. O Rio Grande do Sul vive uma crise financeira que é idêntica à ampla maioria dos estados brasileiros, em função da forma como foram negociadas suas dívidas durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A questão que se colocava para nós, no início do governo, era como enfrentar essa crise estrutural. Optamos por três movimentos muito claros. Primeiro, abrir espaços fiscais para obter novos financiamentos. Segundo, usar os recursos da arrecadação direta do estado para melhorar o salário dos funcionários públicos e melhorar a organização dos serviços prestados. E, por fim, estabelecer uma nova relação com o governo federal e obter vultosos recursos da União para investimentos. Tudo isso foi feito, portanto a situação financeira está sob controle. Concedemos aumento de 76,7% para os professores e reorganizamos carreiras, com reajustes para a Brigada Militar e a Polícia Civil. E obtivemos recursos com o BNDES, o Bird, o Banco Mundial e o Orçamento Geral da União.
Maior intimidade política e financeira com o governo federal ajuda Rio Grande do Sul, avalia governador
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O Rio Grande do Sul possui uma dívida de R$ 38 bilhões com o governo federal. Não é arriscado ampliar o endividamento do estado com empréstimos junto a bancos nacionais e internacionais?
Tarso – 
Se enfrentamos a situação dentro das normas da responsabilidade fiscal e com avais dados pela União, enfrentamos a crise junto com o governo federal. O aval da União para os empréstimos não é meramente político. É uma garantia financeira. Portanto, não há a possibilidade de não pagamento. Estabelecemos uma intimidade política e financeira maior com o governo federal e isso o coloca, também, como responsável pelo desenvolvimento do estado. A estratégia que adotamos é de responsabilidade social e econômica. A estratégia adotada pelo governo anterior era apenas com a aparência de saneamento financeiro. Recebemos um estado endividado, quebrado, com salários arrochados, sem nenhuma articulação com o governo federal e sem espaço fiscal. Conseguimos reverter tudo isso.
Sul21 – Desde o início do governo, o senhor vem manifestando expectativas de que a presidente Dilma Rousseff renegocie a dívida dos estados com a União. Afinal, essa repactuação sairá do papel?
Tarso – 
Tivemos dois avanços extraordinários em relação à dívida com a União. Primeiro, recebemos R$ 785 milhões para uso praticamente livre para ajudar a arrolar a dívida. Em segundo lugar, já foi afirmado pela presidente e pelo ministro Guido Mantega que teremos o rebaixamento dos juros e a eliminação do estoque da dívida em 2027. Portanto, a longuíssimo prazo, essa questão está organizada. Precisamos reduzir as prestações pagas pelo estado (que são de 13% da receita ao ano) para que possamos utilizar esses recursos (mais de R$ 2 bilhões) em investimentos. Mas isso a União terá que avaliar, tendo em vista as perspectivas macroeconômicas e financeiras do país. Esse será o próximo passo das negociações. Isso precisa ser equacionado de forma ponderada, como tem feito a presidente Dilma, pois a dívida dos estados com a União depende de uma relação do governo federal com o mercado financeiro mundial.
“O RS não realizou nenhuma alteração na legislação ambiental ou no zoneamento agrícola, nem previu incentivos ao plantio de eucalipto para atrair a Celulose Riograndense”
Sul21 – Como estão sendo aplicados os recursos que o estado vem captando mediante empréstimos?
Tarso – 
Trata-se de um conjunto de recursos que vêm do BNDES, do Banco Mundial e do Bird para investimentos em organização da estrutura tecnológica do estado, em melhoria do desempenho técnico da Fazenda e qualificação dos serviços públicos. Esses valores também são investidos em reconstrução, melhoria e recapeamento de estradas. O limite de recursos que o estado tem para investir chega a R$ 10 bilhões nos próximos quatro anos. Além disso, obtivemos uma soma espetacular de investimentos da iniciativa privada, como a duplicação da fábrica da Companhia Celulose Riograndense, que é o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul. O estado está em uma condição privilegiada para crescer e as finanças estão sob controle. Adotamos estratégias diferentes das do governo passado, que queria um déficit contábil zero e apostou em um estado letárgico. A única forma de sair da crise é crescendo.
Não é possível apostar apenas em montadoras para crescimento
 econômico do RS, argumenta Tarso Genro
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O Rio Grande do Sul já travou, em um passado recente, um intenso debate sobre a viabilidade da monocultura de eucaliptos enquanto um investimento econômica e ambientalmente positivo ao estado. Na sua avaliação, a duplicação da Celulose Riograndense não traz malefícios ao estado?
Tarso – 
Não, pois o estado não realizou nenhuma alteração na legislação ambiental e nas regras para o zoneamento agrícola para atrair esse investimento. Nem se previu qualquer tipo de estímulo ao plantio de eucaliptos, para além do que já existia. Esse investimento é bem vindo e não haverá nenhum tipo de concessão anti-ambientalista por parte do estado. A empresa estava discutindo se implantava outra fábrica em outra região do país ou se duplicava sua produção no Rio Grande do Sul. Essa dúvida foi sanada através de um estudo técnico, financeiro e econômico que fizeram e que encontrou a mesma receptividade em todos os lugares do Brasil. O que desequilibrou em favor do Rio Grande do Sul foi o ambiente político, a composição de um governo de maioria, a estabilidade institucional, a confiabilidade no governo e, evidentemente, os incentivos fiscais que já existiam e que foram ampliados para outros tipo de empresas.
Sul21 – O senhor reformulou a política de isenções fiscais a empresas através do Fundopem. A sua avaliação é que esses incentivos gerarão recursos ao estado a médio prazo?
Tarso – 
Com a reorganização técnica e institucional da Fazenda pública e com a atração de investimentos feita pelo Fundopem, conseguimos arrecadar 10% a mais neste ano. Fizemos um rebaixamento dos impostos para equilibrar o desenvolvimento econômico, que era centrado exclusivamente na visão: “Sigam as montadoras e todos seremos felizes”. Nossa visão é, sim, manter e até atrair mais montadoras de automóveis ao estado. Mas não é possível apostarmos o desenvolvimento do Rio Grande do Sul apenas nessa possibilidade. Temos capacidade de manter uma base produtiva desenvolvida através da combinação entre agroecologia e agroindústria e do fortalecimento da agricultura familiar e do estímulo à produção agropecuária tradicional.
“Precisamos analisar ERS-010 e verificar se ela gera lucro social. O governo não tem obrigação de dar uma resposta no timing que a Odebrecht e alguns jornalistas querem”
Sul21 – Os contratos de pedágio se encerram no ano que vem. Como será a atuação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) na manutenção das praças?
Tarso - 
A EGR compõe um conjunto de atos preparatórios que realizamos para cumprir nosso programa de governo. Iremos encerrar o polo de Farroupilha, baratear os pedágios e manter e melhorar a qualidade dos serviços. Vamos acionar um conjunto de comitês de controle dos pedágios e do uso de seus recursos, que não serão contabilizados no caixa único do governo.
Sul21 – E como está a discussão sobre um novo modelo de pedagiamento?
Tarso – 
Primeiro, precisamos nos apropriar do que está funcionando e não permitir que haja uma ruptura na prestação do serviço. Implantaremos o modelo comunitário, com controle público. Essa é a missão da EGR. O conjunto da modelagem implica também as estradas federais, por isso iniciamos uma conversação com a União para saber que destino ela dará às suas estradas. A partir daí, iremos trabalhar paulatinamente uma modelagem que prestigie o modelo comunitário.
Sul21 – O governo estuda realizar novas concessões de praças e polos à iniciativa privada?
Tarso - 
O modelo adotado será naturalmente contaminado, no bom sentido, por aquilo que for decidido pelo governo federal. Iremos articular de maneira institucional a compatibilização entre o modelo comunitário e o modelo de polos que o governo federal quiser implementar. Seria uma precipitação da nossa parte impor ao governo federal um modelo. Mas já conversei bastante com o ministro dos Transportes e a visão dele vai no mesmo caminho que a nossa: baixar o valor das tarifas e melhorar os serviços.
Sul21 – Quando esse modelo estiver operando e a EGR já tiver cumprido sua função inicial de assumir as praças cujos contratos vencem em 2013, a empresa seguirá existindo?
Tarso – A EGR irá atuar de maneira permanente nas praças que serão retomadas. A empresa irá, inclusive, contratar serviços privados em setores especializados. A EGR irá operar os serviços necessários para o funcionamento das praças, como capeamentos, sinalização e capinas. A diferença é que esse serviço será controlado por uma empresa estatal, que está sob controle dos cidadãos.
Tarso: “Iremos articular a compatibilização entre o modelo comunitário de pedágios e o modelo de polos que o governo federal quiser implementar”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor assumiu o governo com um projeto pronto para a construção da ERS-010. Por que, até hoje, a obra ainda não saiu do papel?
Tarso – 
Paira sobre essa questão um conjunto de informações completamente manipuladas, como se o governo estivesse estabelecendo uma controvérsia com a Odebrecht (empresa que realizou o projeto). A Odebrecht é uma empresa de relevância internacional que presta serviços importantíssimos para o país. Mas é uma empresa privada e sua destinação é o lucro. Se não fosse assim, não seria uma empresa competente. O estado precisa analisar esse projeto e verificar se ele gera lucro social, se aquilo que iremos gastar se traduzirá em um conjunto de bons serviços para a população. Dois pontos devem ser muito bem pensados. O custo das desapropriações estava previsto em R$ 150 milhões. O governo não tem esse dinheiro e acreditamos que o custo será muito maior. Em segundo lugar, o projeto trazia a obrigação de que o estado completasse pagamentos à empresa caso o movimento da estrada não seja o previsto. Nós pagaríamos pelos carros que não passariam nos pedágios para permitir que a empresa tenha sua taxa de lucro previsível. São esses dois elementos que estamos trabalhando. Vamos dar essa resposta no momento adequado para a Odebrecht e para a sociedade. Essas empresas são muito poderosas e influenciam os meios de comunicação. Possuem pessoas para fazer seus editoriais, porque acham que a proposta da empresa é boa ou porque simpatizam com esse modelo. Mas o governo não tem obrigação de dar uma resposta no timing que a empresa e alguns jornalistas querem. Acredito que no início do ano teremos uma previsão firmada sobre isso e não excluiremos a Odebrecht da possibilidade de realizar um contrato conosco.
“Partidos como PSOL e PSTU controlam o CPERS. Querem apenas desgastar um governo que não apoiam. Isso não nos tira o respeito pelo CPERS, mas temos que travar batalha política com eles”
Sul21 – Sobre o piso do magistério, o senhor considera que está cumprindo sua promessa de campanha, que é de pagar integralmente o valor do piso até o final do governo?
Tarso – Na nossa visão, sim. Concedemos um aumento de 76,7% aos professores em quatro anos, o que não encontra paradigma na história do Rio Grande do Sul. Nenhum servidor do magistério recebe menos que o piso nacional do Fundeb. Essa medida beneficia 35 mil professores na ativa e aposentados. Em terceiro lugar, estamos aplicando um programa de investimento de R$ 1,25 bilhão na reforma de escolas. Recebemos a rede pública completamente quebrada. A Secretaria de Educação tem um diálogo permanente com o magistério.
“Rejane de Oliveira pode estar inscrita no PT,
mas é um quadro do PSTU, todo mundo sabe”, diz Tarso
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Mas o clima entre o CPERS e o governo é de enfrentamento constante.
Tarso - 
Não se pode confundir a posição do grupo dirigente do CPERS com a posição da maioria do magistério. Recentemente, realizamos uma reunião com 5 mil professores na FIERGS. O secretário de Educação foi respeitado e aplaudido, porque o magistério, em seu conjunto, sabe que estamos realizando um trabalho sério. Atribuo as manifestações do CPERS à legítima movimentação do PSOL e do PSTU. Esses partidos, que controlam o sindicato, não estão interessados na discussão educacional, querem apenas desgastar um governo que não apoiam, o que é natural e respeitável em uma democracia. O resultado dessa linha política é uma tentativa de fazer a revolução socialista através do dissídio coletivo. Os resultados são visíveis nas últimas movimentações do CPERS, totalmente deslocadas da categoria. Isso não nos tira o respeito pela direção no CPERS, mas temos, sim, que travar uma batalha política com eles. Os professores do PT, do PDT e do PSB, que apoiam o governo e estão interessados na educação, precisam receber informações para fazer esse debate político.
Sul21 – O senhor disse que o CPERS é controlado pelo PSTU e pelo PSOL. Mas a presidência do sindicato é ocupada por Rejane de Oliveira, que é filiada ao PT. Ela conduz o CPERS em coalizão com esses dois partidos.
Tarso – 
Ela pode estar inscrita no PT, mas é um quadro do PSTU, todo mundo sabe. O discurso e as movimentações dela são do PSTU. O PT compõe, sim, o CPERS, mas os companheiros petistas que estão lá não aprovam esse tipo de atitude. Não estão vinculados a ações como levar sindicalistas para a frente da casa do deputado Edegar Pretto (PT). Os companheiros petistas que estão em sindicatos públicos têm o direito de lutar e até de xingar o governador. Mas outra coisa é adotar uma linha autoritária, separada de sua base de representação. A direção do CPERS está levando o sindicato a um cruel isolamento.
Sul21 – Na sua avaliação, o sindicato não quer discutir os problemas da educação gaúcha?
Tarso – 
Recentemente, em entrevista, a presidente do CPERS disse que o governo Yeda já foi derrotado e que agora é necessário derrotar o governo Tarso. Onde fica a questão educacional? A professora Rejane está completamente enganada. Falam como se estivessem lidando com patrões, o que é primitivo politicamente. No setor público, o patrão não é o governador ou o secretário da Educação. O patrão é o Estado. O Estado tem maioria na sociedade, portanto, o patrão dos professores é o povo gaúcho. É ao povo que eles têm que prestar contas. Os slogans ofensivos que eles utilizam e a radicalização verbal que adotam é muito característica de uma pequena burguesia radicalizada. Isso não nos atinge. A única coisa que lamento é que isso desgasta o sindicato.
“O piso pelo Fundeb é impagável para todo mundo. Se for mantido como está, o piso do magistério será anulado, porque ninguém poderá pagá-lo”
Sul21 – O senhor e outros governadores ingressaram com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra o reajuste do piso pelo Fundeb. O CPERS compara isso à ação que o governo Yeda protocolou contra o piso no STF.
Tarso – 
A estratégia do PSTU é dizer que o governo Lula fez o mesmo que o governo Fernando Henrique. Quem não possui a mesma visão que eles é sempre o inimigo. A pessoa só pode estar em uma estratosfera ideológica e em uma comoção psicológica que não possuem resposta para tratar os governos Lula e Dilma como neoliberais. Fico perplexo.
Tarso: reajuste do piso pelo INPC só não foi aprovado porque partidos se
preocupam com pressão de corporações em período eleitoral
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – A lei do piso, como foi sancionada por Lula, é, de fato, impagável?
Tarso – 
O piso pelo Fundeb é impagável para todo mundo. A própria CNTE está fazendo uma proposta para que o reajuste não se baseie no Fundeb. Se for mantido como está, o piso do magistério será anulado, porque ninguém poderá pagá-lo. A manutenção do reajuste pelo Fundeb é a destruição do piso, porque levará prefeituras e estados a uma situação de absoluta impossibilidade, a menos que se corte todas as demais vantagens e se pague somente o piso. Se for assim, não tem problema, faço isso amanhã e pago imediatamente o piso. A proposta adequada e que tramitou no Congresso Nacional foi a de reajustar o piso pelo INPC. Essa foi a proposta enviada pelo governo Lula. Foi a minha proposta, como ministro da Justiça, e do Fernando Haddad, como ministro da Educação, e do Lula, como presidente. Ela só não foi aprovada porque, em momentos de pressão eleitoral, os partidos se preocupam com a pressão das corporações. Por isso aceitaram a proposta absurda do senador Cristóvão Buarque (PDT-DF), que está destruindo a possibilidade de os professores usufruírem desse direito conquistado.
Sul21 – Se o Congresso modificou a proposta de uma maneira que o senhor entende inadequada, por que, então, o presidente Lula a sancionou mesmo assim? Poderia ter vetado o reajuste pelo Fundeb.
Tarso - 
O presidente não vetou para não deixar o piso sem correção. Eu concordei com isso. Minha proposta e a do Fernando foi de que Lula não vetasse, porque iria parecer que o desejo do presidente era de que o piso fosse o mesmo para sempre. Sugerimos que o presidente mantivesse o texto modificado pelo Congresso e enviasse outro projeto de lei determinando a correção do piso pelo INPC. Foi isso que ele fez. Mas grande parte do PT e da base aliada fica com medo de votar esse projeto. Acham que seria algo contrário ao interesse das corporações e eleitoralmente ruim. É um erro grave e eu já disse isso a eles.
“A BM agiu mal no caso do Tatu-Bola. Teve atitudes completamente desmedidas. Eu diria até que foi caricata, em termos de autoritarismo”
Sul21 – Sobre a segurança pública… Para além da questão material, da aquisição de viaturas e aumento de policiais na rua, gostaria de lhe perguntar: como o senhor vê a conduta repressiva da Brigada Militar? Recentemente, tivemos o episódio da repressão ao protesto em frente à prefeitura contra a privatização dos espaços públicos da cidade. O caso foi emblemático e obteve bastante espaço na mídia, mas sabemos que centenas de denúncias de violência policial ocorrem diariamente em vilas e favelas.
Tarso – 
Esse caso do Tatu-Bola também foi emblemático no sentido contrário. A Brigada Militar agiu mal. Agiu tecnicamente de maneira incorreta e teve atitudes repressivas completamente desmedidas. Eu diria até que foi caricata, em termos de autoritarismo. No outro dia, quando o comandante foi lá, se aplicou a linha do governo, que pressupõe diálogo, conversação e respeito aos dirigentes do movimento. Também havia uma meia dúzia que queria mesmo atacar a Brigada Militar. Isso é histórico, sempre tem os agitadores, que, inclusive, podem ser de extrema direita. A atitude do comandante do policiamento no Centro, orientado pelo secretário de Segurança, demonstrou eficiência. Tanto é que, posteriormente, se realizou reunião com os dirigentes do movimento para avaliarmos onde a Brigada Militar havia errado. Essa é a nossa conduta.
É fundamental introduzir Direitos Humanos na formação de
policiais civis e da Brigada, acentua governador do RS
Foto: Ramiro Furquim / Sul21
Sul21 – O senhor já recebeu o relatório feito pela Ouvidoria de Segurança Pública? O texto diz que foi a Brigada quem começou a repressão.
Tarso – 
Já recebi o trabalho da Ouvidoria e pedi para a minha assessoria superior preparar uma série de orientações, para que possamos tirar determinações daquela experiência e conduzi-las ao comandante da Brigada, para que esses fatos não se repitam. A segunda orientação é introduzir, na formação dos policiais, tanto civis quanto da Brigada, a questão dos direitos humanos. Em terceiro lugar, estamos iniciando um sistema de comunicação integrada com as famílias e com os jovens para mostrar que a Brigada Militar só poderá mudar na medida em que mudar também sua relação com a população, os movimentos e os jovens. Um  exemplo dessa mudança é a operação contra a alcoolemia no trânsito, a chamada Lei Seca, que tem dado grandes resultados. Trata-se de um conjunto de mudanças que inclui não só os meios através dos quais se combate as ações criminosas, mas a mudança da cultura das instituições.
Sul21 – Como o senhor avalia a relação do governo com a oposição? A oposição diz que o seu governo ainda não disse a que veio e não possui uma marca.
Tarso - 
Ao longo desses dois anos, já construímos uma marca de governo e é isso que está inquietando muito nossos adversários. Desenvolvimento econômico, combate às desigualdades regionais e sociais: todas as nossas políticas convergem para isso. A oposição no Rio Grande do Sul não tem unidade, então não é possível responder à oposição em bloco.
Sul21 – O que o senhor diria ao PP, por exemplo? O partido realizou um balanço negativo sobre o seu governo nos últimos dias.
Tarso – 
Para o PP, dizemos que somos favoráveis aos aumentos salariais para o funcionalismo e entendemos que isso faz parte da recomposição das funções públicas do estado. Se não apostarmos no ser humano, na sua autoestima e na sua capacidade, essas pessoas não irão produzir melhor. O PP critica o endividamento do estado. Estamos fazendo um endividamento dentro das margens fiscais permitidas pela lei e com o aval da União. Ao invés de nos separarmos da União, nós a estamos trazendo para dentro da nossa “crise”. Criticam que temos poucos investimentos no orçamento. É verdade. Mas chegamos aos 12% para a saúde, coisa que não se preocuparam em fazer. O PP nos critica porque defende o governo Yeda. Nós saudamos essa postura, porque é muito corajoso da parte do PP defender o governo Yeda, defender que não se tenha recursos para investir e que não se dê aumento aos servidores.
Sul21 – Tem sido dito que a oposição ao governo federal é quase inexistente. O senhor concorda com essa tese aqui no estado?
Tarso – 
A oposição aqui é organizada, mas é minoritária. Nos 300 projetos que aprovamos na Assembleia Legislativa, tentaram não votar, retirar o quórum e fazer obstrução parlamentar, algo que eles têm direito, mas não conseguiram fazer. A oposição faz um movimento para ser contra o aumento dos professores e depois, na hora de votar, vota a favor. É uma oposição que não tem uma cabeça muito lógica. Essas contradições têm desgastado a oposição nas suas bases. Hoje, todo o magistério sabe que a oposição se articulou com o PSOL e com o PSTU para tentar bloquear os aumentos que queríamos dar.
Contradições desgastam oposição junto a suas bases, diz Tarso: “faz movimento contra o aumento dos professores e, na hora de votar, vota a favor. É uma oposição que não tem uma cabeça muito lógica”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“O compromisso que PDT e PTB têm conosco diz respeito a quatro anos de governo. Se eles quiserem ter outros candidatos na próxima eleição, podem ter. Nem por isso terão que sair”
Sul21 – O PMDB gaúcho está agora sob a presidência do deputado estadual Edson Brum, que é um contundente opositor ao seu governo. Ao mesmo tempo, ele afirma que é preciso realizar uma aproximação com o PMDB nacional e busca uma aproximação com Dilma. Como o senhor avalia essa situação do PMDB gaúcho, que faz oposição a um governo estadual do PT, mas tem ministros no governo federal do PT?
Tarso – 
Fui eu quem, orientado pelo presidente Lula, organizou a coalizão política em seu governo. Foi a primeira vez que se falou em coalizão no Brasil. A presidente Dilma precisa manter o equilíbrio de relações com os partidos que lhe dão sustentação. Recentemente, inauguramos uma obra em Caxias do Sul. Lá estavam o ministro do PP e o prefeito José Ivo Sartori, do PMDB. Aqui, eles são nossos adversários. Lá, são aliados do governo federal. Precisamos saber conviver com isso e prestigiar e respeitar a presidente. A situação do PMDB no Rio Grande do Sul é permanentemente contraditória. O senador Pedro Simon, por exemplo, sempre teve o comportamento de organizar coalizões contra o PT em todas as circunstâncias, o que ele faz com a dignidade e capacidade política que lhe são próprias. Agora temos uma novidade no PMDB gaúcho, que é um presidente que se elege dizendo que quer que o PMDB no Rio Grande do Sul se manifeste como apoiador do governo da presidente Dilma. Se fizer isso, será uma realidade política que termos que estudar. Mas ele não pode fazer isso na ilusão de que a presidente Dilma apoie um candidato do PMDB ao governo estadual. Isso não irá ocorrer, já foi tentado com o presidente Lula quando eu era candidato e não deu certo. Dilma é integrante do PT e vai conduzir a sucessão no estado de acordo com a coerência partidária que sempre fez parte do seu governo.
Sul21 – Como o senhor avalia os movimentos que se processam no interior da sua base aliada, com PDT discutindo a possibilidade de lançar candidatura própria ao governo estadual?
Tarso – 
O que os partidos da base fazem em relação a 2014 não interfere em nada no nosso relacionamento. O compromisso que PDT e PTB têm conosco diz respeito a quatro anos de governo. Se eles quiserem ter outros candidatos na próxima eleição, podem ter. Nem por isso terão que sair do governo. Só sairão no momento que acharem política e eticamente adequado. São companheiros que estão prestando serviços inestimáveis ao governo e têm o direito de possuírem um candidato em 2014. Os partidos originários da Frente Popular, PSB e PCdoB, já me procuraram e disseram que estarão juntos com o PT no próximo período. Não solicitei esse movimento, mas o saúdo com muita efusividade.
Sul21 – E quanto ao debate interno no PT sobre a eleição de 2014?
Tarso – 
Meu partido ainda não começou a tratar da sucessão estadual. Temos que identificar quem é o melhor candidato para o próximo período, se sou eu e se eu me disponho, ou se é melhor outro companheiro concorrer. Vai depender de quem serão os adversários. Do ponto de vista pessoal, não vou demandar para o PT que eu seja candidato à reeleição. Seria absolutamente impróprio fazer isso.
De acordo com Tarso, seu governo é capaz de discutir
conceitualmente junto ao agronegócio, setor onde possível
adversária Ana Amélia Lemos tem grande inserção
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Ainda sobre a eleição estadual de 2014, qual adversário mais lhe preocupa?
Tarso - 
O panorama para a nossa coalizão é boa. Isso não significa nenhum desprezo com relação aos adversários. As pessoas que estão aparecendo na cena pública como eventuais candidatos devem ser respeitadas. É um jogo democrático e são pessoas que fazem política de maneira democrática e respeitosa. A senadora Ana Amélia Lemos (PP), que é uma das pessoas que aparenta ser candidata, possui uma representação junto ao setor do agronegócio, que é um setor onde temos um trabalho altamente qualificado. Podemos disputar com ela, inclusive conceitualmente, em relação aos governos anteriores, quem tratou de maneira mais correta, tecnicamente adequada e pública essa questão. Tem o Germano Rigotto (PMDB), que também pode ser candidato. Não gostaria de fazer nenhum comentário, pois é meu amigo pessoal. Foi um governador que enfrentou um período de extrema dificuldade, com o estado muito paralisado naquela época, com secas muito grandes. Na minha opinião, boa parte do governo Rigotto não estava à altura dos desafios enfrentados, embora o próprio governador estivesse. O ex-prefeito José Fogaça (PMDB), que foi meu adversário, também é respeitável. Se nós fizermos um bom governo, nenhum deles nos assusta em termos de concorrência eleitoral. Estou otimista em relação a 2014 e acho que teremos mais quatro anos de Unidade Popular Pelo Rio Grande. Isso se deve muito mais ao fato de estarmos executando nosso programa do que à qualquer fraqueza de nossos adversários.
“O PT tem que começar a pensar que não vai ser sempre cabeça de chapa. Precisamos trabalhar com uma visão de esquerda mais generosa com nossos parceiros e mais dura em relação a nós mesmos”
Sul21 – Como o senhor avalia a derrota do PT nas eleições municipais em Porto Alegre?
Tarso - 
O PT não conseguiu criar um espaço novo, identificado com os movimentos do campo democrático de esquerda. Esse espaço já estava muito ocupado por dois candidatos fortes, a Manuela (D’Ávila, PCdoB) e o (candidato do PDT, José) Fortunati. Nosso candidato (Adão Villaverde), ­que é um quadro político de primeira linha, não conseguiu furar esse bloqueio. Ficamos somente com o que chamamos de “os votos roxos do PT”. Não conseguimos seduzir aquele campo originário no qual fomos hegemônicos durante 16 anos em Porto Alegre.
Sul21 – Por que não?
Tarso – 
Eu tenho uma tese e a tenho defendido no partido. Nossas principais bandeiras em Porto Alegre não são mais somente nossas. O Orçamento Participativo hoje é aceito por partidos que eram nossos adversários. A cidade como sujeito da globalização e o Fórum Social Mundial não são linhas nossas. Nesse período, o PT não apresentou nada mais adiante. Manteve as posições tradicionais e não agregou nenhuma mensagem nova. Nossas bandeiras democráticas de cunho progressista pertencem a todo o campo do centro progressista, da centro-esquerda e da esquerda de Porto Alegre.
“Nossas principais bandeiras em Porto Alegre não são mais somente nossas. O Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial são aceitos por partidos que eram nossos adversários”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Houve um equívoco também de estratégia eleitoral? O senhor defendia que o PT priorizasse uma composição com o PSB e o PCdoB em Porto Alegre.
Tarso – 
Minha posição sobre isso é conhecida. Não vou comentar sobre ela. Seria impróprio, depois de ter ocorrido o que eu previ, dar revelo a minha própria opinião. O PT tem que começar a pensar, não somente no Rio Grande do Sul, que não vai ser sempre cabeça de chapa nas circunstâncias importantes da luta política do país. Defendo isso há muito tempo. Não trabalho com a concepção exclusiva do PT como dono da verdade, da Justiça e do bem. Precisamos trabalhar com uma visão de esquerda mais generosa em relação a nossos parceiros e mais dura em relação a nós mesmos. É isso que fará o partido crescer e retomar sua condição de hegemonia em muitas regiões do país.
“Se o PT não começar a discutir valores de ideologia e projeto com partidos da ultra-esquerda, continuará perdendo hegemonia no movimento sindical”
Sul21 – Nos últimos anos, o PT vem perdendo hegemonia no setor que lhe deu origem: o sindical. O maior sindicato público do estado, o CPERS, é dominado por PSOL e PSTU, como o senhor mesmo frisou. E há inúmeros exemplos em nível regional e nacional no país. O que isso significa? O PT está deixando lacunas na esquerda que estão sendo preenchidas por outros partidos?
Tarso – 
Esses espaços serão necessariamente ocupados pelos partidos mais radicalizados, mais corporativos e mais vinculados às lutas imediatas e economicistas. Isso é uma lei da História, porque esses movimentos são fragmentários. Hipoteticamente falando, se eu estou à frente de um movimento pelo aumento salarial a engenheiros, eu quero enquadrar o projeto de país a essa necessidade. Isso é praticamente uma síntese histórica de todo o movimento sindical moderno. Seria estranho se não fosse assim. Quem tem o dever de colocar o fragmento dentro da totalidade é o partido, não o sindicato. É o partido que tem que colocar as demandas das partes da sociedade em um conjunto de estratégias para um plano de estado. Seja de nação socialista, capitalista, ou de uma nação pautada pelo projeto social-democrata. O PT teve hegemonia no movimento sindical quando essas demandas eram também integrantes da luta democrática. As ações e a liberdade sindical eram restritas e proibidas durante a ditadura. O PT surge da vanguarda das lutas corporativas e econômicas e se credencia, a partir daí, para se tornar um partido representante de um projeto para o todo. Quando o PT chegou ao governo, com uma hegemonia complexa e um leque ampliado de alianças, esse projeto precisou ser relativizado. E tem que ser assim, senão não se governa. Ou, se governa, cai, como ocorreu com o presidente chileno Salvador Allende. Se o PT não desencadear uma luta ideológica frontal para discutir valores de ideologia e projeto com esses partidos da ultra-esquerda, continuará perdendo sua hegemonia no movimento sindical. E isso não é bom para o partido.
“ Quem tem o dever de colocar o fragmento dentro da totalidade
 é o partido, não o sindicato. É o partido que tem que colocar as demandas
 das partes da sociedade em um conjunto de estratégias de Estado”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – E como conduzir esse processo de confronto ideológico?
Tarso – 
Hoje o PT está em uma situação onde ainda é um partido de estado e de governo, mas ao mesmo tempo é um partido de movimentos. Como partido de governo, o PT ainda não abdicou daquela visão economicista original que diz que tudo o que é progressista, positivo e revolucionário passa pelo movimento sindicial. Ao contrário, em uma situação democrática estável, os sindicatos são normalmente uma voz reformista e economicista tradicional, que só se preocupa com a sua categoria. Isso está demandando, em todo o mundo, uma reavaliação estratégica do movimento sindical e da própria estratégia socialista. Na União Europeia, durante o processo de unificação, os grupos empresariais e os grandes partidos políticos unificaram a Europa em torno do grande capital financeiro. Nesse período, o movimento sindical europeu pedia melhores salários e mais social-democracia. Em nenhum momento apresentaram a proposta de uma Europa social-democrata ou socialista para contrapor o projeto do capital. Qual foi o resultado? Ficaram de fora. Existe uma crise mundial do movimento sindical. O CPERS é apenas um exemplo disso. Isso não retira a validade nem a autoridade dos sindicatos perante o nosso governo. Mas as direções políticas que agem assim entram em um beco sem saída.
Samir Oliveira
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