31 de dez de 2013

Sucesso e Vitórias em 2014



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Renan Calheiros e Pepe Mujica: o presidente uruguaio virou um criador de anões

Mujica

O presidente uruguaio, Pepe Mujica, mostrou, entre outras coisas, que um governante ideal não precisa ser, necessariamente, uma utopia completa.  Fez isso de maneira simples, com reformas corajosas e, sobretudo, seu exemplo.

Mora numa chácara a 10 quilômetros de Montevideu com a mulher, a senadora Lucía Topolansky, e sua velha cadela. “Minha maneira de viver é consequência da evolução da minha vida. Lutei até onde é possível pela igualdade e equidade dos homens”, diz ele.

A casa tem paredes descascadas e tetos de zinco verde. Galinhas ciscam o terreno debaixo das roupas no varal. Ele tem o mesmo patrimônio de 2010, o que inclui um Fusca 87. Doa 90% de seu salário de US$ 12 500 a programas sociais. Chamou de “velho careta” um dirigente da ONU que xingou seu país de “pirata” por causa da legalização da maconha. Recentemente foi à posse de um ministro calçando sandálias.

Por causa do que representa e do que faz, Mujica ganhou um imenso respeito e admiração. Surgiram também mais inimigos do que já tinha (“esse velho comunista maconheiro vai ser desmascarado”) e, principalmente, anões por comparação.

Hoje o presidente do Senado, Renan Calheiros, escreveu um artigo sobre o “programa de racionalização interna”. Diz ele que houve uma economia de R$ 265 milhões.

Lista seus feitos: “Foram eliminados o décimo quarto e décimo quinto salários dos parlamentares. Foram extintos 630 funções comissionadas (30% do total). Implementamos a jornada corrida de sete horas, evitando novas contratações. E fundimos estruturas administrativas redundantes”.

“Após as manifestações populares no meio do ano, aprovamos mais de 40 propostas em menos de 20 dias, desenferrujando as engrenagens sabidamente burocráticas do processo legislativo. Algumas ainda tramitam na Câmara dos Deputados. O crime de corrupção foi agravado e se tornou hediondo”.

Além da numeralha de difícil comprovação e do enrolation, existe aí um problema básico de falta de noção do papel de um líder como ele. Esse é o Renan Calheiros que acabou de devolver aos cofres públicos  R$ 27 390,25 por ter pegado um voo da FAB para fazer um implante de cabelo no Recife. No registro da FAB, consta que ele utilizou a aeronave “a serviço”. Era mentira.

Renan só devolveu a quantia porque virou notícia. Em junho,  já fora pilhado indo à Bahia de FAB para o casamento da filha do senador Eduardo Braga (PMDB-AM). Em outubro, o Senado suspendeu uma licitação para a compra de comida e produtos de limpeza para sua casa. Previa-se um gasto de R$ 98 mil por seis meses. Dez quilos de carne por dia. Renan mora com a mulher e dois filhos.
É surreal, no mínimo, que o político que anuncia “cortes de gastos”  seja o mesmo que usa dinheiro público como se fosse dele — e ainda falando em “corrupção”. Não aprendeu nada com as manifestações. Não aprendeu nada com o vizinho ao sul. É como se o Uruguai ficasse num continente distante da Oceania, um lugar com costumes exóticos e chefes ruins da cabeça como aquele tiozinho barrigudo e de bigode.

Os anões de Mujica ainda vão dar muito trabalho, especialmente para si mesmos.

Renan

Kiko Nogueira
No DCM
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Sem autocrítica, Globo pede autocrítica a Dilma


Em editorial publicado no último dia do ano, jornal de João Roberto Marinho demonstra irritação com a expressão "guerra psicológica" usada pela presidente Dilma em seu pronunciamento do último domingo; segundo O Globo, trata-se de coisa típica de países autoritários, mas a presidente apenas deu nome à conduta do próprio Globo que, no ano passado, em sua guerra psicológica contra o governo Dilma, dizia que grandes indústrias racionavam energia (o que era mentira e inibia novos investimentos); pelo jeito, os Marinho vestiram a carapuça

Pelo jeito, a carapuça serviu. Em editorial publicado nesta terça-feira, último dia de 2013, o jornal O Globo protesta contra a expressão "guerra psicológica" usada pela presidente Dilma Rousseff em seu pronunciamento, no último domingo. "Se alguns setores, seja porque motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas", disse a presidente.

Guerra psicológica era exatamente a conduta do jornal O Globo, no início do ano passado, quando "informava" que grandes empresas estariam racionando energia – como se sabe, o "apagão" foi uma peça de ficção criada por jornais como Globo e Folha justamente para instilar desconfiança na economia e retardar iniciativas empresariais.

No editorial desta terça, O Globo, que poderia ter feito uma autocrítica – como fez recentemente, ao admitir seu apoio ao golpe militar de 1964 –, preferiu dizer que a presidente Dilma não tem autocrítica e comparou sua fala à de presidentes de países autoritários.

No 247
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Por que FHC disse o que disse de Joaquim Barbosa

Acertou, mas pela razão errada

Duas coisas.

Primeira: FHC tem toda razão quando diz que Joaquim Barbosa é despreparado para a presidência.

Na verdade, JB é despreparado para quase tudo, a começar pela presidência do STF, onde ele se revelou uma tragédia nacional com sua truculência, mesquinharia e falta de cultura.

Foi, como todos sabem, a pior invenção de Lula. O poste que não deu certo. O poste que trouxe não luz, mas escuridão.

Segunda: FHC está falando isso porque, caso fosse candidato, JB roubaria votos exatamente do PSDB.

Ele é o anti-PT. Petistas o abominam, e, na minha opinião de jornalista apartidário e independente, com justificadas razões.

Imagino que os petistas preferissem votar em Serra a votar em JB, se fossem estas as duas alternativas.

Uma candidatura já cambaleante, como a de Aécio, simplesmente se desfaria caso JB entrasse na disputa.

Espertamente, FHC deixa uma portinha aberta: diz que seria outra história se JB fosse candidato a vice, ou a senador.

Para o PSDB, seria uma boa alternativa ter JB como vice de Aécio. Não que isso possa mudar o desfecho previsivelmente melancólico das eleições de 2014 para os tucanos, mas talvez trouxesse algum alento a uma campanha que parece morta antes de chegar ao berço.

Mas, se é bom para o PSDB ter JB como vice, para ele, JB, é uma lástima. Vice, no Brasil, não é nada. Ainda mais quando você é vice de um candidato miseravelmente derrotado, como deve ser o caso de Aécio.

Para JB, é melhor ficar onde está, pelo menos por enquanto. Sua vaidade será satisfeita por uma mídia que estará ávida por atacar o PT, e nisso ele é útil.

Suas pretensões ficarão deslocadas para o futuro, talvez 2018.

Collor 2, como dizem alguns, ele não é. Collor 1 foi um produto da mídia, é certo, que o transformou no “Caçador de Marajás”.

Mas Collor era desconhecido dos brasileiros. Foi fácil construir uma imagem empolgante, tanto mais porque ele tinha boa aparência e falava fácil até em inglês.

JB é um produto bem mais difícil de enfiar nos eleitores. Acima de tudo, já é amplamente conhecido, e é rejeitado por uma fatia expressiva dos eleitores – os chamados progressistas.

Fora isso, ele se comunica bisonhamente, ao contrário de Collor. Tem uma fala empolada, sofrida, manca.

Faça uma compilação das frases ditas por JB no Mensalão, ao vivo, e você deparará com um monte de asneiras sem sentido e ilógicas.

FHC tem razão.

Mas ele disse o que disse de JB por interesse próprio, e não por interesse público.

Paulo Nogueira
No DCM
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A 'grande imprensa' sucumbe ao próprio veneno


Para encerrar bem o ano de 2013, a autoproclamada “grande imprensa”, solta seus já conhecidos sambas de uma nota só. Além de um provável programa no Fantástico (?) da Globo sobre a mãe de Joaquim Barbosa, que pode ser candidato à presidência em 2014, uma lista com nomes para participarem dos jogos bobocas do Programa do Faustão em que nela aparece Aécio Neves (PSDB) e as equipe são nas cores azul e amarelo. Coincidência?

O canal de tevê fechada GloboNews, em seu programa Painel, apresentado pelo apresentador mais próximo dos EUA no país, William Waack, apresentou um “debate” sobre direita e esquerda.

Como não podia deixar de ser, senão não era a Globo, todos os três “debatedores” eram de direita, entre eles o Reinaldo Azevedo, de Veja. Junte isso ao próprio apresentador e tivemos, por quase cinquenta minutos, quatro pessoas tentando destruir o espectro ideológico de esquerda no Brasil. Se a Globo tivesse o mínimo de senso de ridículo, ao menos um dos convidados seria de esquerda. Porém pedir o senso de ridículo à Globo é pedir demais. Seja na quantidade que for.

Entre as inúmeras baboseiras que soltavam em rede nacional de tevê fechada, estava a de que “os esquerdista não sabem lidar com a diferença”. Pois é, falaram isso durante um programa para debater direita e esquerda e que só participaram debatedores de direita. Isso sim é saber lidar com as diferenças, não acham?

Outra bobagem ditas pelos “entendedores” de linhas ideológicas foi a de que o Brasil é “um país de esquerdista” e “ser liberal é ser revolucionário”. Seria cômico se não fosse trágico.

O programa Painel, da GloboNews, é a prova material do que disse Márcio Pochmann, da Fundação Perseu Abramo, à revista Fórum, sobre a imprensa no Brasil.

“Os jornais que temos hoje também escrevem para os seus militantes, escrevem o que eles querem ouvir, e por isso esses jornais estão com dificuldades para ampliar o seu número de leitores, é por isso que os jovens não interagem com esses jornais. Mas eles têm um público cativo, e para manter esse público cativo ficam alimentando uma visão que é, a meu ver, insustentável, isso não tem futuro. Estamos assistindo ao fim desse tipo de imprensa. Está em construção uma outra imprensa, uma outra cobertura, que é a coisa digital e isso também está em construção", afirmou Pochmann.

Por essas e outras que a internet vem ganhando o terreno da televisão como mídia mais consumida pelos brasileiros. De acordo com o um estudo realizado pelo IAB Brasil em parceria com a comScore chamado “Brasil Conectado – Hábitos de Consumo de Mídia”. Hoje no país, cerca de 100 milhões de pessoas, 82% dos entrevistados, se informam e se entretém pela internet.

Enquanto que, em 2013, a audiência da Globo foi a pior da História, principalmente de seu principal programa, o Jornal Nacional. Entre 2012 e 2013, a audiência caiu cerca de 18,4%. No acumulado da década, a queda foi de quase 30%. O Fantástico sua horrores para chegar a 20 pontos.

Lógica natural de uma mídia que tenta convencer as pessoas de uma realidade que não existe. Que é extremamente panfletária, mas jura de pés juntos ser imparcial e compromissada com a informação e a verdade factual. Provavelmente por acreditar que seus telespectadores, ouvintes e leitores tenham a capacidade intelectual do personagem de desenho animado Homer Simpson.

Como o próximo ano é eleitoral, a postura da “grande imprensa” deverá ser o mesmo e seguindo o mesmo comportamento sua audiência cairá ainda mais. Ela não é uma grande imprensa, não trata os temas de forma grandiosa, completa, com a finalidade que deveria. Ela é apenas uma imprensa grande, graças inclusive ao golpe de 1964. Mas do jeito que vai, nem uma imprensa grande será mais. E em menos tempo do que se pensa.

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Folha não esconde a saudade da ditadura

“Basta a leitura das duas matérias para que se possa constatar a que raias de descalabro chega a falsa imparcialidade da grande imprensa brasileira”


O Conversa Afiada reproduz analise de Benedito Tadeu César, extraída do Sul 21, sobre as coberturas da morte do embaixador Manoel Pio Corrêa Jr. feitas pela Folha e pelo Observatório da Imprensa:

Qual obituário de Manoel Pio Correa Júnior merece maior credibilidade?

(por Benedito Tadeu César)

A Folha de São Paulo e o Observatório da Imprensa noticiaram no sábado 14/12/2013 a morte do embaixador Manoel Pio Corrêa Jr. O mesmo fato, a mesma data, a mesma personagem, mas com abordagens completamente diferentes.

Para a Folha, tratava-se da morte de um bom velhinho, que adorava viagens e livros, especialista na Revolução Francesa, poliglota.

Para o Observatório, tratava-se da morte um colaborador ativo do regime militar, golpista e dedo-duro, espião da CIA, criador do CIEx, o serviço secreto do Itamaraty que vigiou Jango e Brizola, autor da denúncia que provocou a demissão do poeta e compositor Vinícius de Moraes, etc.

A disparidade de abordagens é tal, que dispensa interpretações.

Basta a leitura das duas matérias para que se possa constatar a que raias de descalabro chega a falsa imparcialidade da grande imprensa brasileira. Para que você tire suas próprias conclusões, segue, abaixo, a transcrição das duas matérias.

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Abaixo, a matéria da Folha de São Paulo, assinada por Andressa Taffarel:

Manoel Pio Corrêa Jr. (1918-2013)

O diplomata, as viagens e os livros

ANDRESSA TAFFAREL
DE SÃO PAULO

Ao lado da família, o carioca Manoel Pio Corrêa conheceu os cinco continentes ainda criança. Seu pai, um famoso botânico de mesmo nome, viajava o mundo como pesquisador do museu de história natural de Paris à procura de plantas desconhecidas.

Durante o toda a vida, Pio não deixou de cruzar continentes. Diplomata, viveu em vários países. Tinha um carinho especial por Argentina e México, mas seu coração era da França, para onde ia de duas a três vezes por ano.

Grande conhecedor da Revolução Francesa, era dono de cerca de 1.000 publicações só sobre o tema, em diferentes línguas – falava pelo menos seis, além do português.

Sua biblioteca particular, no entanto, era muito maior. Herdou centenas de livros de seu avô paterno, um livreiro espanhol, e do escritor brasileiro Graça Aranha, avô de sua mulher, Thereza Maria.

Também é autor de vários títulos, entre eles o de memórias “O Mundo em que Vivi”.

Ultraconservador, apoiou o golpe de 1964 e considerava Getúlio Vargas e Castelo Branco os melhores presidentes do Brasil. Colega de Alzira, filha de Getúlio, na Faculdade de Direito do RJ, trabalhou no gabinete do político.

Após se aposentar no serviço diplomático, no qual ficou de 1937 a 1969, presidiu as unidades brasileiras da Siemens e da American Express. Trabalhou ainda em outras empresas e prestou consultoria até pouco tempo atrás.

Sofria de uma doença degenerativa. Morreu na sexta (6), aos 95 anos. Deixa a viúva, com quem foi casado por 70 anos, e os filhos, Manuel e Luiz, também diplomata.

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E aqui está a matéria do Observatório da Imprensa, assinada por Luiz Cláudio Cunha:

Dezembro, 6: a dupla morte da caça e do caçador

LUIZ CLÁUDIO CUNHA
em 14/12/2013 na edição 776


O fio caprichoso da História cruzou na sexta-feira, 6 de dezembro, o destino final da caça e do caçador da ditadura militar brasileira. No mesmo dia em que o ex-presidente João Goulart era sepultado, pela segunda vez, em sua terra natal, São Borja (RS), morria no Rio de Janeiro, aos 95 anos, o diplomata Manoel Pio Correa Júnior, criador do serviço secreto do Itamaraty que vigiou Jango e os exilados brasileiros escorraçados do país no golpe de 1964.

Ninguém da grande ou da pequena imprensa cobriu as exéquias do velho embaixador, ao contrário da mídia nacional que há quase um mês acompanha a exumação, as honras de Estado e as homenagens a Jango, no Congresso Nacional e fora dele. A notícia quase oculta, justificadamente escondida da morte de Pio Correa foi dada pelo desconhecido Conselho Nacional de Oficiais R/2 (Reserva) do Brasil, que apresentava Pio Correa como diplomata de Capitão R/2 da Arma de Cavalaria. Mas foi como diplomata e perseguidor de comunistas na carreira diplomática que Pio Correa fez carreira, tornou-se temido e acabou afamado. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi (1999), onde não revela quase nada, Pio Correa se vangloria de seu papel de conspirador: “A vitória da Revolução de 31 de março de 1964 representou a coroação de minhas mais caras esperanças”. No pequeno necrológio de seus camaradas de ditadura, é lembrado que um de seus últimos livros, O Granadeiro Emparedado, de 2005, o diplomata critica “o descaso com que as Forças Armadas são tratadas no Brasil”.

Caça a diplomatas

Premiado pelo primeiro general da ditadura, Castelo Branco, com a embaixada em Montevidéu, começou lá, com o coronel Câmara Senna, adido militar da embaixada no Uruguai, a articular a obra mais terrível de sua carreira: a montagem do secreto Centro de Informações do Exterior (CIEx), formado inicialmente por uma rede de contatos que incluía políticos, militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros e comerciantes que fechavam o cerco sobre as atividades de João Goulart e Leonel Brizola, então exilados no país.

A bem sucedida experiência uruguaia o levou, como secretário executivo do chanceler Juracy Magalhães, a redigir e assinar a portaria ultrassecreta que criou o CIEx no governo Castelo Branco. Tão secreta que não constava da estrutura formal do Itamaraty.

A sua existência só foi confirmada em 2007, pela monumental série de reportagens produzida pelo repórter Cláudio Dantas Sequeira, do Correio Braziliense, revelando a ação repressiva da primeira agência criada sob o amparo do Serviço Nacional de Informações (SNI) e de seu criador, o general Golbery do Couto e Silva. O repórter revelou que, no início, o secreto CIEx foi camuflado como Assessoria de Documentação de Política Exterior, ou simplesmente ADOC, com verba secreta e subordinado à Secretaria Geral de Relações Exteriores. Na primeira década, até 1975, funcionou dissimulado como seu criador na sala 410 do quarto andar do Anexo I do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Desativado junto com a ditadura, o lugar hoje abriga a inofensiva Divisão de Promoção do Audiovisual.

Vasculhando 20 mil páginas de documentos com 8 mil informes escondidos nos arquivos do CIEx, o repórter Sequeira apurou que, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, os nomes de 64 das vítimas estavam lá, nas pastas secretas de Pio Correa. Em seu livro de memórias, Por dentro da Companhia, o agente norte-americano Phillip Agee revela que Pio Correa era agente da estação da CIA em Montevidéu quando servia como embaixador no Uruguai. O braço direito de Pio Correa em Montevidéu e amigo fiel era o diplomata Marcos Henrique Camilo Côrtes, nomeado primeiro diretor-executivo do CIEx. No governo Costa e Silva, acompanhou Pio Correa na embaixada em Buenos Aires e, logo em seguida, foi enviado “em caráter especial” a Washington para estreitar os laços com o setor de inteligência da CIA. Como segundo homem do Itamaraty, no primeiro governo da ditadura, Pio Correa promoveu uma caça aos diplomatas que, em resumo, classificava como “pederastas, bêbados e vagabundos”. O poeta, compositor e diplomata Vinícius de Moraes foi perseguido por Pio Correa e aposentado em 1968 pelo AI-5.

Sem cobertura

No crepúsculo da ditadura, muitos arquivos do regime foram destruídos, mas o acervo do CIEx foi salvo pelo secretário-executivo que fez a transição da ditadura para a democracia, entre 1985 e 1990, embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que recusou a ordem dos militares para limpar as gavetas.

Assim, salvou a obra funesta de Pio Correa, que morreu na sexta-feira (6/12), o mesmo dia em que Jango voltava à sepultura de São Borja. Caberá à História, agora, reservar o espaço devido a quem foi caça e a quem foi caçador no regime que derrubou Jango e que forjou Pio Correa.

Jango voltou a Brasília, em novembro, e baixou à sepultura em São Borja com honras de chefe de Estado, sob as câmeras da imprensa e da TV.

Pio Correa foi enterrado no dia seguinte, sábado (7/12), quase anônimo, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Nenhum repórter testemunhou a cena.
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E se os presidenciáveis fizessem um acordo pelo direito ao aborto?


A campanha de 2010 foi algo como um conclave, em que parecia não estarmos escolhendo um presidente da República e sim um novo papa por conta dos temas alçados ao debate público. Já 2014 será o ano de enterrar os direitos humanos em discussões associadas à questão da segurança pública, como a redução da maioridade penal. Bem, já discuti o tema por aqui e irritei muito leitor com sangue nos olhos – o que me trouxe grande satisfação. 

Nenhum dos quatro principais pré-candidatos até agora – Dilma, Aécio, Eduardo e Randolfe – irá abraçar um discurso mais conservador-religioso, apesar da influência de seus partidários e coligados. Pelo menos, não abertamente. Isso poderia depor contra uma imagem de modernidade e renovação que eles devem assumir para tentar conquistar o eleitorado.

Posto isso, queria propor um pacto. Não, pacto, não porque vão falar que é coisa do demo. Um acordo.  

Os direitos humanos são um dos temas que mostram convergência entre alguns setores do PSDB, PSB, PSol e PT. Nessas agremiações, houve quem defendeu o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado no final de 2010, e que sofreu pesadas críticas se setores da sociedade como a igreja, os militares e o agronegócio. Os responsáveis pela área de direitos humanos do governo FHC, como o professor Paulo Sérgio Pinheiro, foram mais enfáticos na defesa do então ocupante da cadeira,  Paulo Vannuchi, do que muitas pessoas do próprio governo Lula durante a polêmica do PNDH.

Não estou dizendo que os partidos são iguais, longe disso. Apenas que há temas que encontram ressonância entre eles e que direitos humanos pode ser um deles – o atual PNDH manteve pontos, que hoje são considerados polêmicos, da sua primeira versão, lançada em 1996, sob o PSDB, por exemplo.

Nesses partidos, há muitos contrários à adoção da pena de morte, à redução da maioridade penal e à prisão perpétua, e favoráveis à eutanásia, à ampliação dos direitos reprodutivos, à adoção de filhos por casais do mesmo sexo, à descriminalização do uso de drogas. Seja por anseio de igualdade, seja pela defesa do liberalismo.

Não acredito que Dilma, Aécio, Eduardo e Randolfe, na solidão de suas crenças pessoais, não concordem com muitos desses pontos acima. Ou, mesmo que discordem de alguns, não creio que entendam que a garantia de determinados direitos de minorias é uma questão de opinião individual e não de política pública. 

Lula já declarou que não importa que ele seja pessoalmente contra o aborto, mas sim que o tema deve ser tratado como saúde pública, uma vez que mulheres pobres morrem por causa de interrupções de gravidez feitas de forma precária. Fernando Henrique defende a descriminalização de drogas como parte do combate ao problema, tornando-se, nos ültimos anos, uma das principais vozes globais sobre o tema.

Vamos imaginar uma situação hipotética: considerando que quatro candidaturas vão ter a atenção dos holofotes, nada impediria que fechassem posição sobre alguns desses temas, comprometendo-se a implantar uma plataforma mínima para que o país desse um salto no respeito aos direitos humanos, caso eleitos. Sobraria tempo para debater outros assuntos relevantes.

Já que os agentes do discurso da segurança não vão deixar que o tema não seja usado como munição, sugiro a pauta do direito ao aborto. Um acordo em que, uma vez eleitos, os candidatos aceitarão avançar no debate através do envio de projetos de lei, na garantia real de atendimento de mulheres para os casos já previstos em lei (que hoje esbarra em uma série de problemas) e apoiar com mais vigor, junto ao STF, ações que rediscutam a interpretação ds lei quanto às limitações a esse direito.

Qual a consequência para suas campanhas? Perderiam apoio dos aliados mais conservadores? Considerando a qualidade de quem está do lado deles, isso seria uma benção, não um problema. 

Perderiam eleitores que já votaram neles e afugentariam fundamentalistas? A perda seria para todos. 

Seriam abandonados por parte de seus correligionários? Duvido. A busca pelo poder move montanhas. 

Afinal, ser uma democracia de verdade passa por atender aos anseios da maioria, mas garantindo a proteção da minoria.

Isso, é claro, está no plano da utopia, e soa a idiotice, porque a política real, cheia de traições e puxadas de tapete, não permitiria isso. Além do mais, a guerra campal e a baixaria já estão instaladas. 

Por muitos, a porrada será a opção escolhida. E não duvido que vivenciemos novamente experiências bizarras da eleição de 2010, quando houve até crianças apanhando de coleguinhas nas escolas de classe média alta paulistana porque disse que o pai votou em uma pessoa diferente dos outros pais. A verdade é que vivemos um momento em que o debate público com possibilidade de construção coletiva está interditado. 

E, para piorar, a campanha eleitoral não é o melhor momento para a discussão de temas públicos relevantes – ao contrário do que a teoria afirma. Pelo contrário, é quando marqueteiros dobram a realidade, procurando mexer com a emoção e não a razão dos eleitores. Qualquer tema que seja visto com potencial de angariar ou tirar votos será tratado como um carro em anúncio de TV. E vendido como tal. Ou seja, a verdade sobre o objeto em questão é um mero detalhe.

O melhor momento para discutir o tema seria ao longo de todo o ensino básico, com anos de reflexão em salas de aula, mas também em outros espaços comunitários e sociais, com pessoas preparadas para levantar junto aos jovens todos os pontos de vista, convidando-os a refletir sobre eles. Mas, apesar de direitos humanos ser tema transversal na educação, não tenho nenhuma fantasia de que isso ocorrerá no curto prazo.

Além disso, estamos na adolescência da internet. As pessoas estão descobrindo ainda como é gostoso ser irresponsável em debates nas redes sociais. Acham que não têm nada a perder em um falso anonimato. Com o tempo, isso vai passar. Mas, até lá, aguente a gritaria surda do pessoal com os hormônios à flor da pele, de um lado e de outro. 

Leonardo Sakamoto
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É tempo de debater, organizar, agir e cobrar

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30 de dez de 2013

Charge online - Bessinha - # 2016

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Historiador ataca '1808' e Laurentino Gomes


O português Arthur de Lacerda classifica a obra do jornalista brasileiro sobre a colonização do Brasil como "um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido"; e diz ainda que o texto projeta imagem negativa de Portugal; leia sua crítica

1808: Um péssimo livro

Por Arthur de Lacerda, historiador português, para o História Lecionada

Da autoria de Laurentino Gomes, "1808″ (editora Planeta, 2008) é um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido. A sua inclinação é negativista, detratora de Portugal e fomentadora da muito famigerada lusofobia, desprezo e ódio de muitos brasileiros pelo nosso passado colonial e pela nossa origem portuguesa.

Todo historiador é livre nos seus juízos, com que avalia personagens, considera-lhes a atuação, julga-lhes o papel, descreve conjunturas, enfatiza aspectos. Diante da massa de informações de que dispôs, na farta bibliografia relativa ao Brasil colonial, a D. João VI e o seu tempo, o autor selecionou aspectos que enfatizam negatividades, em uma maledicência que se observa, por exemplo, na descrição de Salvador colonial (cidade suja, decadente, tipicamente portuguesa na sua falta de planejamento, com casas repugnantemente sujas, em que o vice-rei dançava na igreja de modo indigno, em que os senhores faziam de cafetões das suas escravas. Páginas114 a116); ao descrever o Rio de Janeiro de então (em cujas casas havia sujeira e preguiça; cuja limpeza cabia aos urubus e era infestada de ratos. Página 157); ao apodar a corte de ociosa, corrupta, perdulária, voraz e cara (páginas 150 e 189), que veio acompanhada por aventureiros sem princípios (página 188) e cujos integrantes ambicionavam enriquecer à custa do Estado mais do que servir ao bem comum (página 189); ao caracterizar D. João VI, como despreparado para reinar, tímido, supersticioso, feio, temeroso de caranguejos e trovoadas (página 32).

Assinala-se, neste livro, um empenho pela difamação ou, quando menos, uma animadversão anti-lusitana que se intensificam nos capítulos 11, "Uma carta", e 21, "Os viajantes".

O capítulo vigésimo primeiro contém uma série de excertos de relatos de viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil colonial ou já elevado a Reino Unido. Dentre as dezenas de narrativas, Laurentino Gomes ateve-se às de Maria Graham, de Koster, Mawe, Henderson, Burchell e Saint-Hilaire, de que excertou observações tais como: pena o Brasil não haver sido colonizado por uma nação ativa e inteligente (página 263), os nordestinos são desonestos (página 267), a colônia é preguiçosa e descuidada, sem vocação para o trabalho, de povo analfabeto, inculto e desinstruído (página 268);em São Pauloabundava a sujeira e a prostituição (página 270).

A história deve-se escrever com verdades, custe o que custar observá-las e admití-las (no caso de informes porventura desconfortáveis à sensibilidade do leitor, ao patriotismo ou a outros valores quaisquer), ao mesmo tempo em que os depoimentos de época devem submeter-se à análise crítica, de que resulte a determinação do seu valor como expressão da realidade. Abonadores ou depreciativos, valem como informações localizadas, porventura parciais, a que se pode e deve associar outras, de outras fontes, e sobretudo as que resultem de investigações profundas: foi o de que se absteve Laurentino Gomes, que admitiu a palavra dos viajantes sem mais critério do que o seu conteúdo desabonador.

Do acervo pletórico de informes transmitidos pelos viajantes, ele preferiu, sistematicamente, as notas pejorativas, as passagens caracterizadoras de uma realidade sempre lamentável, de um estado de coisas vergonhoso. Constitui o undécimo capítulo verdadeira excrescência: nele se reproduz, por inteiro, a carta de Luiz Marrocos ao seu pai, de 12 de abril de 1811, em que reporta ele, acerca da fragata que levou, de Lisboa ao Rio de Janeiro, uma parte da biblioteca real: a água potável achava-se corrupta e infestada de bichos, a carne salgada e a cordoalha apodreceram, as velas avariaram-se, a medicação é insuficiente, a tripulação não presta. Das 186 cartas conhecidas de Luiz Marrocos (página 80), o autor reproduziu precisamente a que apresenta um quadro deplorável de uma fragata portuguesa, especialmente importante por haver trazido parte da livraria da coroa.

É estranhável instituir-se um capítulo cujo único teor corresponde à reprodução de uma carta em livro que não se ocupa da biografia do missivista, que não lhe estuda o epistolário, que não transcreve nenhuma outra carta. Tal capítulo representa uma anomalia, em face do conjunto do livro. Ele existe, contudo, porque atende ao mesmo fito que animou Laurentino Gomes na seleção das passagens a que me referi: ele serve para difamar Portugal e quanto se lhe refira. Ao manusearem-se livros ilustrados, o leitor dirige-se, quase instintivamente, às gravuras, movido pela curiosidade: as respectivas legendas é o que, tendencialmente, também se lê, em uma vistoria superficial de livro que não se leu.

O que o leitor encontra nas legendas de 1808 são informações, também elas, depreciativas: a prataria e 60.000 livros esquecidos no cais, na correria da partida da corte; a corte fugiu; D. João teria vencido os franceses, "se tivesse coragem" para tal; ele era "tímido, feio, inseguro", "de aparência grotesca"; Carlota Joaquina era "feia, maquiavélica e infeliz"; a corte era "corrupta e perdulária". Há, em "1808″, uma atitude psicológica: a de achincalhar e amesquinhar, o que o transformou, de livro de informação histórica, que deveria ser, em veículo de um dos piores males da psicologia do brasileiro, a lusofobia, desprezo por Portugal, pela colonização do Brasil, pelas nossas origens históricas.

As passagens excertadas contêm a expressão da lusofobia, padrão de entendimento e de sentimento que se instalou no sistema psicológico de muitos brasileiros, que os leva a desmerecer a cultura portuguesa e a acusar a colonização que Portugal desenvolveu no Brasil. Como todo preconceito, ele equivale a uma falsificação da realidade, em desprezo, injusto, do objeto a que se refere.

Este preconceito surgiu ao tempo da independência do Brasil, como reação da população colonial, no seu anseio pela emancipação política, e mantém-se como renegação da origem histórica do brasileiro. Com inverdade e injustiça, propalam-se, mesmo nas escolas, informações vexatórias, que mantêm a lusofobia, como as de que o Brasil teria sido colonizado por degredados e por prostitutas, que a então colônia era depósito de criminosos, que a colonização holandesa teria sido preferível à portuguesa. Nem fomos colonizados pela escória de Portugal, nem o Brasil foi valhacouto de delinqüentes, como, sobretudo, a presença holandesa no nordeste foi, a todos os títulos, detestável. Resultados da lusofobia são a debilitação do sentido de identidade cultural dos brasileiros; o desprezo de muitos deles pelo passado nacional; a vergonha das nossas origens; o complexo de inferioridade do brasileiro face ao estrangeiro e a admiração, muitas vezes ingênua, por este; o desprezo do idioma português; o vezo de ridicularizar o país e o povo de que provimos; a debilitação do patriotismo como amor ao país e esforço pelo melhoramento da vida coletiva.

A lusofobia, infelizmente, existe e mantém-se: "1808″ mantém-na e a veicula.

Da leitura do quadro de misérias, cuidadosamente constituído por Laurentino Gomes, não haverá brasileiro que não se sinta entristecido, quiçá revoltado e, certamente, envergonhado das nossas origens e de parte do nosso passado. Felizmente há, no Brasil, livros recomendáveis de autores respeitáveis: Oliveira Lima, Pedro Calmon, o Visconde de Porto Seguro, Rocha Pombo, David Carneiro, Mário Neme, Afonso de Taunay, Capistrano de Abreu e tantos outros.

"1808″ é um livro de leitura fácil, na sua redação intencionalmente singela, vocacionada ao acesso do grande público. É altamente louvável que se redatem livros deste tipo, como forma de se difundir conhecimento e de favorecer o gosto pela leitura, aspecto em que merece todo o louvor. Fácil ou difícil, nada compensa, todavia, o seu maniqueísmo maledicente, a sua parcialidade no critério de seleção das informações e a perniciosidade dos efeitos psicológicos que provocará em muitos leitores. É um livro também ruim pelo seu apelo comercial, visível no seu sub-título, estampado na capa: "Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil".

Na adjetivação patenteia-se, indisfarçavelmente, a lusofobia do autor; o tom bombástico destina-se a suscitar a curiosidade por meio do seu apelo sensacionalista, semelhantemente a uma cartaz comercial ou a um anúncio de telenovela do tipo "Amor e morte; intriga e paixão na novela das 20:00 h.". Um livro a sério não necessita de semelhantes mesquinharias; aliás, um livro a sério repele-as. Amador na área dos estudos históricos, o seu autor qualifica-o, estranhamente, de "investigação jornalística" e jacta-se de haver lido mais de 150 livros que lhe serviram de fontes: com bem menos, outros autores produziram obras que enriqueceram honrosamente o acervo bibliográfico brasileiro.

Recebeu o prêmio Jabuti de 2008, para desprimor do prêmio e para ilusão do público que se deixe impressionar por ele [1]. Contudo, assim como me repugnou o livro, repugnou a outros leitores, que o analisaram com senso crítico. Foi o caso, em Portugal, de Isabel A. Ferreira, Mendo Castro Henriques e João Gomes. Dada a publicação de "1808", Isabel Ferreira reagiu, no mesmo ano (2008) com o seu livreto "Contestação", voltada a refutá-lo e cuja publicação no Brasil corresponde a uma verdadeira premência de saúde pública cultural. Prefaciado por Mendo Castro Henriques e por João Gomes, asserem eles: "O livro de Laurentino Gomes é interessantíssimo do ponto de vista hermenêutico porque acumula quase todos os erros possíveis ao interpretar figuras históricas: falta de contextualização, acumulação de informação não tratada, confusão nos critérios de relevância, teoria explicativa deficiente etc.,etc."

Quem desejar informar-se, a sério, sobre o reinado de D. João VI, a transferência da corte para o Brasil e sua estada cá, lerá, de Patrick Wilckens, "Império à deriva", e "D. João VI", de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, ambos publicados no Brasil.

[1] O prêmio Jabuti é conferido pelas editoras. Imagine o leitor se, porventura, não haverá, nas atribuições, algum interesse de alguma delas, em promover os livros que publicam...Ninguém será ingênuo ao ponto de julgar que não. Não foi, demais, a primeira vez que aquele galardão distinguiu uma nulidade: foi o caso de "Sociologia Comteana", de Lelita Benoit, que trilhou o mesmo caminho do preconceito e da distorção, com idêntico intuito, o de enxovalhar o tema de que se ocupou, o Positivismo de Augusto Comte. Também foi premiado "JK. O artista do impossível", de Cláudio Bojunga, apreciável biografia do ex-presidente Juscelino de Oliveira, que, todavia, se assinala por um defeito grave, o das abundantes vulgaridades idiomáticas com que pretendeu tornar o seu texto legível pelo vulgo e que o envileceram. Juscelino merecia texto melhor; o Brasil não merece "1808″.

No 247
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Jesus não existiu e cristianismo tem sido uma catástrofe, diz historiador

O pesquisador americano Joseph Atwill, 64 anos, 
faz palestra em Londres na qual afirma que os 
romanos inventaram a figura de Jesus Cristo e 
se basearam na história de um imperador 
  Foto: Patrícia Dantas / Especial para Terra
Às vésperas de sua palestra Covert Messiah em Londres neste sábado, o pesquisador americano Joseph Atwill foi muito além de suas recentes afirmações de que a figura de Jesus Cristo é uma completa fabricação da aristocracia romana. Em entrevista exclusiva ao Terra, Atwill, 64 anos, disse que o cristianismo foi inventado durante o Império Romano para controlar as massas e, até hoje, só causou danos à sociedade.

"Acho que o cristianismo tem sido uma catástrofe. Se você olhar na história, ele criou a Idade das Trevas, as Cruzadas foram uma desgraça absoluta e a Inquisição também foi uma abominação moral. Se você observar o século 20, as nações cristãs massacraram umas às outras, com mais de 120 milhões de pessoas morrendo em guerras. Acredito que as pessoas não deveriam ter medo de um mundo sem cristianismo fazendo o papel de uma força moral maior, porque observando eventos anteriores, o cristianismo não foi bem sucedido no passado", disse.​

Apesar de tocar em um assunto polêmico como religião, Joseph Atwill ainda revelou que não se intimida com as críticas ao seu trabalho. "O que fiz foi colocar dois livros, A Guerra Judaica, de Flávio Josefo, escrito no século I, e o Novo Testamento, lado a lado e tracei paralelos entre eles. Essa análise pode ser feita por qualquer pessoa com senso comum. As evidências falam por si só. Ao comparar os textos, cada indivíduo pode tirar suas próprias conclusões", acrescentou Joseph, que explica essa série de coincidências em seu livro Caesar’s Messiah (O Messias de César, em tradução livre).

Praticante de budismo, Joseph Atwill acrescentou que não acredita nem desacredita em Deus e que seu intuito é fazer com que as pessoas tenham suas experiências baseadas na verdade.

“Não sou ateu. Eu simplesmente estou tentando encontrar a verdade. Estou aberto à questão de Deus e procurando uma resposta. Uma das razões pelas quais quero saber a verdade sobre o Novo Testamento é o fato de que é uma pergunta que tenho curiosidade para saber a resposta, assim como todo mundo. Não tenho boas respostas, não sou um líder espiritual, só tento meu melhor”.

Confira a entrevista com o pesquisador americano na íntegra:

Terra - Quais serão os pontos altos de sua conferência Covert Messiah neste sábado, 19, em Londres?

Joseph Atwill - Um dos tópicos mais importantes será uma apresentação da Confissão Romana, mostrando que os romanos inventaram o cristianismo. Acho que é algo que as pessoas vão considerar de grande interesse, além de outra apresentação sobre uma nova maneira de pensar o cristianismo como uma ferramenta de controle da mente usada para escravizar as pessoas. Acho importante a ideia de que todos os cidadãos tenham consciência disso. Esses serão os dois pontos que provavelmente vão causar mais impacto durante o simpósio.

"Acho que o cristianismo tem sido uma catástrofe. 
Se você olhar na história, ele criou a Idade das Trevas, 
as Cruzadas foram uma desgraça absoluta e a Inquisição 
também foi uma abominação moral. Se você observar o 
século 20, as nações cristãs massacraram umas às outras, 
com mais de 120 milhões de pessoas morrendo em guerras" 
 Foto: Patrícia Dantas / Especial para Terra
Quais novas evidências você vai apresentar ao público para revelar que Jesus Cristo é uma completa invenção do império romano?

Em um ambiente como esse, no qual você tem a oportunidade de passar tempo analisando a relação entre o livro do qual a história de Jesus foi originada, que foi a história de uma guerra ocorrida entre 66 e 73 d.C, e o Novo Testamento, posso mostrar em grande detalhe a relação entre os dois textos. Eu apresento evidência de alta qualidade, mas não é necessariamente a minha opinião. Posso essencialmente mostrar os dois textos antigos e todo mundo que tem senso comum pode simplesmente olhar estes eventos lado a lado e ver claramente que um é dependente do outro. O ministério de Jesus foi criado da história da guerra de um Cesar romano.

Quais documentos você usou como base para seus estudos?

O Novo Testamento e A Guerra Judaica, de Flávio Josefo, escrito no século I. A sequência de eventos e locais do ministério de Jesus são praticamente as mesmas da sequência de eventos e locais da campanha militar do imperador romano Tito Flávio, descrito por Josefo em seu manuscrito do século I. A partir destas coincidências pude notar que se inicia um padrão. É como se fosse um triângulo de pontos e todos os diferentes paralelos entre Jesus e Tito são pontos deste triângulo. Porém, você não verá o triângulo se não se afastar e observá-lo de fora para notar as conexões entre eles. ​

Acredito que a religião é inventada pelos tiranos e classes dominantes que a usam como uma ferramenta de controle da mente. É muito claro para mim que os romanos criaram o cristianismo como uma religião de Estado, uma estrutura de autoridade do topo para baixo

O que você acha que fará as pessoas acreditarem em sua teoria?

A evidência essencialmente fala por si só. As pessoas simplesmente precisam de tempo para olhar os dois trabalhos lado a lado e em sequência. Isso é algo que ninguém fez até hoje, até mesmo os estudiosos cristãos que estudaram o Evangelho tão de perto. Eles não fizeram algo tão simples e, a partir do momento que fizerem, a evidência falará por si só e as pessoas poderão tirar suas próprias conclusões. Quero deixar claro que não uso meu ponto de vista ou dou qualquer opinião pessoal sobre essas relações. Eu apenas tento explicar como descrevê-las, mas deixo o texto intacto. Usei a versão da Bíblia do rei James e uma tradução muito comum do livro A Guerra Judaica, assim as pessoas podem ler sozinhas e fazer sua cabeça. Eles não precisam de estudiosos, de padres ou de mim. Todos podem simplesmente tirar suas próprias conclusões.

Como você acha que a Igreja Católica irá reagir às suas novas alegações?

Não acho que eles vão concordar com elas. Será muito interessante de ver, porque a evidência é tão simples e seria útil se a Igreja colocasse o assunto em pauta com um de seus estudiosos para discutí-lo em público. Me preocupo que informações como essas possam ter um impacto negativo em algumas pessoas. A Igreja pode ter um papel útil neste caso. Se eles discordarem, não há problemas, eles simplesmente podem levar sua explicação e apresentar ao público. Já aqueles que acreditam quando lerem minha análise de que Jesus Cristo foi criado baseado em outras pessoas eles terão sua própria opinião. Sendo assim, teremos duas opiniões diferentes e veremos como as coisas se desenrolarão em longo prazo.

Por quais razões você acredita que a sociedade cria falsos deuses e fatos na história?

Acredito que a religião é inventada pelos tiranos e classes dominantes que a usam como uma ferramenta de controle da mente. É muito claro para mim que os romanos criaram o cristianismo como uma religião de Estado, uma estrutura de autoridade do topo para baixo. Os escravos não poderiam se rebelar contra o sistema porque eles acreditavam que Deus era representativo pela figura do Pontifex Maximus, o papa estava no topo. Porém, nos tempos antigos, os escravos se rebelavam porque eles sabiam que era Cesar quem estava no poder. Essa é a razão pela qual Cesar sempre tentou se tornar um deus vivo. A cultura do império existiu por centenas de anos e sempre tentou dar a impressão de que Cesar era deus. Isso aconteceu porque eles sabiam que as pessoas não se rebelariam contra deus. No final, eles não conseguiram fazer as pessoas acreditarem que Cesar era deus e esta é a razão pela qual os romanos decidiram inventar o cristianismo.

Por que você acha que os romanos criariam uma figura como Jesus Cristo? Qual seria a intenção deles para fazer isso?

Por duas razões. Eles criaram uma religião para controlar o povo, dizer às pessoas para obedecer e pagar impostos. O outro motivo é que eles também estavam lutando contra um violento movimento messiânico na Judeia que queria derrubar a ocupação romana. O império romano era uma prisão de nações, uma mistura de religiões, reinos e etnias que eles conquistaram. Eles não poderiam permitir que um único grupo se rebelasse porque isso desencadearia outra série de rebeliões. Os judeus, porque eles se recusaram a venerar Cesar, foram capazes de se rebelar com sucesso e conseguiram estabelecer uma nação de Estado por três anos. Foi esse o motivo pelo qual os romanos trabalharam duro para tentar substituir aquela religião por outra na qual o messias diria: obedeça a Cesar e pague seus impostos. ​

"O que fiz foi colocar dois livros, A Guerra Judaica,
de Flávio Josefo, escrito no século I, e o Novo
Testamento, lado a lado e tracei paralelos entre eles.
Essa análise pode ser feita por qualquer pessoa
com senso comum. As evidências falam por si só.
Ao comparar os textos, cada indíviduo pode tirar suas
próprias conclusões, acrescentou Joseph, que explica
essa série de coincidências em seu livro
Caesar's Messiah
 Foto: Patrícia Dantas / Especial para Terra
Que tipo de dano você acredita que o cristianismo causou à sociedade?

Acho que o cristianismo tem sido uma catástrofe. Se você olhar na história, ele criou a Idade das Trevas, as Cruzadas foram uma desgraça absoluta e a Inquisição também foi uma abominação moral. Se você observar o século 20, as nações cristãs massacraram umas às outras, com mais de 120 milhões de pessoas morrendo em guerras. Acredito que as pessoas não deveriam ter medo de um mundo sem cristianismo fazendo o papel de uma força moral maior, porque observando eventos anteriores, o cristianismo não foi bem sucedido no passado.

Você pratica alguma religião ou é ateu?

Não sou ateu. Eu simplesmente estou tentando encontrar a verdade. Estou aberto à questão de Deus e procurando uma resposta. Uma das razões pelas quais quero saber a verdade sobre o Novo Testamento é o fato de que é uma pergunta que tenho curiosidade para saber a resposta, assim como todo mundo. Não tenho boas respostas, não sou um líder espiritual, só tento meu melhor.

Você pratica alguma religião?

Pratico o budismo, que não é realmente uma religião, é apenas uma técnica para tentar desenvolver seu próprio espírito.

Você acredita em Deus?

Não acredito, nem desacredito. Sempre que tento descobrir percebo que não sou esperto o suficiente para responder essa pergunta. Entretanto, quando eu descobrir, prometo que te aviso (risos).

O que acha do papel da Igreja Católica nos dias de hoje?

É uma organização tão imensa. Não tenho uma opinião sobre isso. Acredito que algumas coisas são boas, outras ruins. Acima de tudo acho que é melhor se desenvolvermos nossa prática sobre a verdade.

O professor James Crossley, da Universidade de Sheffield, disse que o tipo de pesquisa que você está desenvolvendo não faz parte da comunidade acadêmica. Você concorda com ele?

Não. Não posso concordar com alguém que não leu meu livro. Estou aberto a qualquer crítica ao livro que ele possa ter, mas a opinião dele não é mais importante do que qualquer outra sobre algo que ele não leu.

Você já foi ameaçado por promover uma pesquisa que basicamente arruinaria todo um sistema religioso vigente?

É engraçado. O livro foi publicado há mais de dez anos e desde então sempre tive contato com milhares de estudiosos e cristãos. E todas as pessoas são curiosas, por mais que não concordem comigo e tenham uma conclusão diferente. Eles acham que as conexões e a maneira como enxergo o Novo Testamento no livro são muito interessantes. Nunca fui ameaçado e não ficaria surpreso se nunca receber uma ameaça porque a única que coisa que fiz foi colocar dois livros lado a lado e notar uma padrão entre eles.

Você eventualmente gostaria de ir ao Brasil para discutir seu trabalho?

Amaria ir ao Brasil. Já morei no Brasil nos anos 70 e sempre sonhei em voltar lá. Adoraria ter uma oportunidade de mostrar meu trabalho se tivesse um grupo que a informação seria valiosa para eles. Com certeza, se algum dia tiver uma boa oportunidade, irei ao Brasil.

Patrícia Dantas | Direto de Londres
No Terra

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INFOGRÁFICO

HISTÓRICO X MITOLÓGICO:
RELEMBRE QUESTÕES CONTROVERSAS SOBRE A VIDA DE JESUS
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Especuladores recompensam quem os defenda no meio acadêmico

Reportagem do New York Times revela o financiamento de Wall Street a professores universitários que nos últimos anos assumiram sua defesa.

Craig Pirrong
O jornal norte-americano teve acesso às ligações financeiras que unem alguns dos maiores especuladores de Wall Street ao professor de finanças da Universidade de Houston, Craig Pirrong. O professor interveio diversas vezes desde 2006 em cartas às autoridades reguladoras federais e até depôs na Câmara dos Representantes dos EUA, invocando a sua autoridade acadêmica para provar a ausência de responsabilidade dos especuladores nos picos registados nos preços do petróleo e outras matérias-primas e produtos alimentares, numa altura em que a regulação discutia impor mais restrições às operações dos bancos nesta área, na sequência da crise financeira.

Afinal, o professor Pirrong, cujos trabalhos eram citados nas ações judiciais interpostas por institiuções financeiras para bloquear as restrições à especulação financeira, era ao mesmo tempo pago como consultor para uma das principais partes do processo, a Associação Internacional de Swaps e Derivados. Segundo o New York Times, embora Pirrong se apresentasse apenas como professor universitário, nos últimos anos foi pago pela bolsa de Chicago, o Royal Bank of Scotland e uma série de empresas que especulam nos mercados da energia.

Questionado sobre a origem dos seus ganhos fora do meio acadêmico, Pirrong terá respondido apenas que “isso é entre mim e o fisco”. Mas ele não é caso único. O mesmo jornal aponta o professor da Universidade do Illinois Scott Irwin, um dos acadêmicos mais citados em favor dos benefícios da especulação para a formação de preços nos mercados agrícolas, que é ao mesmo tempo consultor de uma das empresas que trabalha com bancos de investimento e fundos especulativos no mercado de matérias-primas. A sua universidade também recebe doações generosas quer da bolsa de Chicago quer de outros fundos que intervêm no mercado especulativo, que pagam bolsas de estudo, conferências e até a construção de um laboratório em tudo semelhante às salas de mercado bolsista.

Quando em 2008 o preço da gasolina subiu acima dos 4 dólares por galão nos EUA, o Congresso norte-americano ameaçou com a introdução de limites à especulação nos mercados do petróleo. “É uma caça às bruxas”, indignou-se Craig Pirrong em múltiplos artigos, incluindo no Wall Street Journal, desdobrando-se em conferências e ocupando lugares em comissões de aconselhamento na matéria.

Por seu lado, os ensaios e opiniões de Scott Irwing foram promovidos para aparecerem em publicações influentes pelo próprio departamento de relações públicas da bolsa de Chicago, sendo frequente encontrar vídeos e entrevistas com este professor no site da Chicago Mercantile Exchange.

Mas o dinheiro dos especuladores não corre apenas diretamente para o bolso destes professores universitários. Para aumentar a sua notoriedade, também financiam revistas e sites na internet que promovem as figuras do meio acadêmico mais favoráveis aos seus interesses. Ambos os envolvidos negam que o seu trabalho seja influenciado pelo dinheiro que recebem dos especuladores, mas o tema ressurge no debate público numa altura em que os reguladores discutem novos limites à especulação, por verificarem que ela pode contribuir não apenas para prejudicar os consumidores, mas também para provocar a escassez de comida, como se viu na crise alimentar do final da última década.

Do Esquerda.net
No Carta Maior
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Charge online - Bessinha - # 2015

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Chico de Oliveira, crítico do PT, votará em Dilma porque os tucanos são piores


No programa “Roda Viva”, da TV Cultura, desta segunda-feira (30.dez.2013), o sociólogo Francisco de Oliveira declara que votará em Dilma Rousseff na eleição presidencial do ano que vem.

Aos 80 anos e crítico do PT (“como força transformadora foi engolido pelo atraso”), partido do qual se desligou em 2003, Chico de Oliveira (como é chamado pelos amigos), afirma ao “Roda Viva” que os atuais adversários do Palácio do Planalto são “a oposição que todo governo gostaria de ter”. E mais: “Ela [a oposição] é tão frágil, tão sem sentido… Não tem um eixo pra martelar junto à população. É mais pela fraqueza das oposições que eu acho que essa eleição está decidida [em favor de Dilma]”.

Em seguida, é indagado: “O senhor vai votar em quem, professor? O senhor revela o voto?”

E Chico de Oliveira: “A provocação é boa, porque eu já estou com 80 anos [completados em 7.nov.2013], passei da obrigação de votar. Mas isso é uma saída fácil. Eu vou votar de novo. Eu vou votar na Dilma”.

Eis o restante do diálogo:

Roda Viva – Embora o senhor diga que ela [Dilma] é uma personagem difícil, coitada, uma personagem trágica… O senhor continua pensando tudo isso?”

Chico de Oliveira – Continuou pensando tudo isso.

Roda Viva – E por que o senhor vota nela então?

Chico de Oliveira – Porque o outro lado é pior. Os tucanos são piores.

O “Roda Viva” desta segunda-feira (30.dez.2013) vai ao ar na TV Cultura de São Paulo às 22h. O programa foi gravado em 11.dez.2013. Por ser o último do ano, teve um formato um pouco diferente do usual. Os entrevistadores convidados foram também instruídos a fazer um debate mais aberto, dando suas opiniões, sobre temas políticos que marcaram este ano.

Intelectual marxista respeitado, Chico de Oliveira disse uma vez que “arrependimento, só no amor. Em política não cabe, cabe análise”. Era uma resposta a respeito de ter votado em Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 no segundo turno daquela eleição (no primeiro turno o sociólogo havia ficado com Heloísa Helena, do PSOL).

Às vezes, análises apaixonadas de Chico Oliveira não se comprovam na prática. Em 2006, quando Lula foi reeleito, fez uma avaliação sobre como seria o poder do então presidente da República em mais quatro anos de mandato. Respondeu: “Será fraco. Perdeu a noção de quem é o adversário”. O petista Lula acabou fazendo o governo mais popular da história recente do Brasil e foi forte a ponto de alavancar a campanha de sua sucessora, Dilma Rousseff.

No Aposentado Invocado
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Governo federal gasta mais com a aposentadoria dos milicos do que com o Bolsa Família

Intocada, a previdência dos militares gasta mais do que o programa social do governo contra a miséria.

Preservada das reformas que atingiram os setores público e privado, a previdência dos militares mantém gastos em alta e superiores a, por exemplo, os do Bolsa Família. Segundo o boletim de pessoal do Ministério do Planejamento, as despesas com aposentadorias e pensões militares somaram R$24,5 bilhões no período de 12 meses encerrado em agosto.

O principal programa de combate à miséria da administração petista, o Bolsa Família, tem um orçamento de R$24 bilhões neste ano, destinado a 13,7 milhões de beneficiários.

Os aposentados e pensionistas da previdência militar não chegam a 300 mil. Como os servidores públicos civis, os militares ativos e inativos contribuem com valores muito abaixo do necessário para custear as despesas previdenciárias: a receita fica em torno dos R$2 bilhões ao ano.

A diferença é que, desde fevereiro, os novos servidores civis foram submetidos a um novo regime de previdência, com um teto de aposentadoria equivalente ao do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), de R$4.159,00 mensais.

Para receber acima desse valor, é preciso contribuir para um fundo de pensão, que, apesar das vantagens oferecidas, tem despertado resistências nas corporações, como a Folha noticiou no domingo, dia 29.

A permanência de privilégios para os militares tem sido justificada pelas condições especiais da carreira, que incluem possíveis riscos de vida, disponibilidade permanente e a sujeição constante a mudanças de residência. Mas no próprio Ministério da Defesa há queixas contra o volume de despesas com aposentadorias e pensões, que restringe as verbas disponíveis para investimentos.

A previdência militar consome cerca de 35% dos recursos da pasta e supera os gastos com os militares da ativa.

Do Blog Dinheiro Público
No Limpinho & Cheiroso
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Segundo o Ibope, Jango teria sido reeleito em 65


A primeira vez que ouvi falar nas pesquisas do Ibope sobre o governo Jango foi em um congresso da Wapor (a associação latino-americana de pesquisas de opinião) em Belo Horizonte. Participei de um debate sobre o novo papel dos blogs junto à opinião pública. Um dos papers apresentados mencionava dados gerais da pesquisa, localizada nos arquivos que o Ibope doou à Unicamp.

Nesta semana, na Carta Capital, há uma entrevista de Rodrigo Martins com o historiador Luiz Antônio Dias sobre as pesquisas. Os números são impressionantes:

· Em junho de 1963, Jango era aprovado por 66% da população de São Paulo, desempenho superior ao do governador Adhemar de Barros (59%) e do prefeito Prestes Maia (38%).

· Pesquisa de março de 1964 revela que, caso fosse candidato no ano seguinte, Goulart teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais pesquisadas. Apenas em Fortaleza e Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek tinha percentuais maiores

· Havia amplo apoio à reforma agrária, com um índice superior a 70% em algumas capitais.

· Pesquisa na semana anterior ao golpe, realizada em São Paulo a pedido da Fecomercio, apontava que 72% da população aprovava o governo Jango.

·  Entre os mais pobres a popularidade alcançava 86%.

· 55% dos paulistanos consideravam as medidas anunciadas por Goulart no Comício da Central do Brasil, em 13 de março, como de real interesse para o povo.

· Entre as classes A e B, a rejeição a Goulart era um pouco maior em 1964. Ao menos 27% avaliavam o governo como ruim ou péssimo na capital paulista.

* * *

É o mais contundente documento até agora divulgado sobre o desproporcional poder político dos grupos de mídia na democracia brasileira e latino-americana no século 20.

Quase todas as ditaduras latino-americanas foram implementadas por meio de golpes de Estado legitimados por um suposto apoio da opinião pública. E esse apoio era medido exclusivamente pelo volume de notícias veiculados nos grupos de mídia, e pela mobilização que conseguiam em algumas classes sociais. Um enorme espectro da opinião pública passava ao largo desse jogo restrito.

* * *

Depois da redemocratização, houve vários golpes de Estado institucionalizados no continente, não apenas contra governos ditos de esquerda - como o fracassado golpe contra o venezuelano Hugo Chávez - como contra governos tidos como de direita - Fernando Collor, no Brasil, Carlos Andrés Perez, na Venezuela.

Em todos os episódios, juntavam-se interesses contrariados de grupos políticos e de grupos de mídia. Levantavam-se denúncias sólidas ou meros factoides, criava-se a atoarda, passando a sensação de que a maioria da opinião pública desejava a queda do governante.

* * *

O ponto mais relevante das pesquisas do Ibope é mostrar que a chamada opinião pública midiática sempre foi um segmento minoritário indo a reboque de uma aliança que incluíam os grupos, alguns partidos conservadores e alguns interesses do grande capital.

Esse modelo, que domina o debate econômico e político em todo século 20, chega ao fim com o advento das redes sociais.

Luis Nassif
No GGN
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Controle do PSDB sobre a mídia atrasa julgamento do mensalão tucano

Deputado Sávio Souza Cruz que identificou valerioduto acusa irmã de Aécio
de  comandar censura em Minas

A explicação para que o mensalão tucano e outros escândalos que envolvem políticos do partido não repercutam em Minas Gerais tem nome, segundo o deputado estadual Sávio Souza Cruz (PMDB-MG), líder do bloco Minas Sem Censura, na Assembleia Legislativa do Estado. Trata-se de Andréa Neves, irmã mais velha do senador Aécio Neves (PSDB-MG).

O parlamentar se refere a ela como a “Goebbels das Alterosas”, em uma clara alusão ao ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, que exercia forte controle sobre os meios de comunicação da Alemanha.

De acordo com Sávio, Andréa comanda o controle à mídia mineira com mão-de-ferro, para evitar que o irmão e políticos aliados sejam atingidos por notícias desfavoráveis.

Formada em jornalismo pela PUC Rio, Andréa integra desde 2003, quando Aécio assumiu o Executivo, o Grupo Técnico de Comunicação do Governo de Minas Gerais. O núcleo estratégico reúne representantes de empresas públicas e dos órgãos da administração direta, responsáveis pelas áreas de comunicação.

O deputado oposicionista relata que a maioria das empresas privadas sediadas em Minas está concentrada nas áreas de mineração, siderurgia e metalurgia, e que estas normalmente não são grandes anunciantes na imprensa local. Isso confere ao governo mineiro poder e controle sobre a mídia, por ter peso decisivo como anunciante preferencial.



Tudo dominado

É por isso que escândalos como o do mensalão tucano quase não reverberam nas páginas dos noticiários locais. Ao ser anunciante de destaque, o governo cuida de abafar o que o desfavorece. O controle exercido por Andréa evita que em Minas os tucanos apareçam de forma negativa na mídia.

Sávio tem esperança de que a situação se inverta, mas ressalta que a pressão exercida sobre os vários setores do Estado e da sociedade é praticamente total.

“Aqui tá tudo dominado… Produzimos um Aécinho Malvadeza. A Assembleia [Legislativa] está de joelhos. Se o governador mandar pra cá um projeto revogando a Lei da Gravidade, a Assembleia aprova. A imprensa, comprada, sempre disposta a publicar os releases da Andréa Neves. O nosso Ministério Público não denuncia os mal-feitos do governo. E o Tribunal de Contas se converteu em um tribunal do faz de contas”, denuncia.



Rompendo o esquema

Quando foi secretário de Administração do governo Itamar Franco, Sávio orientou o governador a romper todos os contratos com as empresas do publicitário Marcos Valério.

Itamar sucedeu Eduardo Azeredo, hoje réu no processo do mensalão tucano, que aguarda julgamento. O esquema teria sido montado para garantir a reeleição de Azeredo, em 1998, com o desvio de dinheiro de estatais minerais para as empresas de Marcos Valério.

O publicitário foi recentemente condenado no STF por envolvimento com o mensalão do Partido dos Trabalhadores, o esquema de caixa dois que o Supremo entendeu ser voltado para comprar votos no Congresso.

Quando assumiu o cargo no governo Itamar, Sávio diz ter percebido que as agências de publicidade de Valério serviam de fachada para o desvio do dinheiro público que abasteceu o mensalão tucano.



Sávio Souza Cruz ressalta que não foi difícil chegar à conclusão.

É que agências de publicidade recém formadas, às quais ele se refere como “portinholas”, tiveram crescimento extraordinário em pouco tempo.

Cita outros indícios, como declarações do então presidente da Copasa, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais, de que teria sido orientado a abastecer as empresas.



O deputado do bloco Minas Sem Censura destaca que quando Aécio Neves assumiu o governo do Estado, sucedendo Itamar Franco, deu um giro de 360 graus.

Os contratos com agências de publicidade, que haviam sido cancelados pelo antecessor, foram retomados.



Hoje o líder do bloco Minas Sem Censura critica a manobra que excluiu vários beneficiários do mensalão tucano dos processos que correm no STF e na Justiça estadual de Minas.

O senador do PSDB Aécio Neves foi um dos que se beneficiaram da decisão do Supremo Tribunal Federal.

Segundo o relatório da Polícia Federal, ele teria recebido R$ 110 mil no esquema de corrupção montado pelo partido.



Para o parlamentar, a pressão da sociedade é fundamental para que justiça seja feita no caso do mensalão tucano.

“Não tem nada mais injusto do que justiçar um lado”, afirma ao se referir à condenação dos réus no processo do mensalão petista.

Enquanto isso, o esquema original só deverá ser julgado no final de 2014 ou em 2015.

Ele espera que as redes sociais ajudem na cobrança por isonomia do STF.



Sávio exemplifica com o caso de Marcos Valério, operador dos dois esquemas de corrupção.

Por enquanto, foi condenado apenas na ação penal que envolveu representantes do Partido dos Trabalhadores.

“Fica essa situação para o Judiciário explicar”, frisa.



Segundo o deputado, o tratamento diferenciado do Supremo Tribunal Federal em relação aos dois mensalões se deve à influência exercida pelo PSDB sobre a mídia.

Casos parecidos são tratados com dois pesos, duas medidas, diz o peemedebista.



Sávio lamenta que outro esquema de corrupção promovido por tucanos de Minas Gerais não tenha resultado em punição, pelo menos até agora: o da Lista de Furnas.

O esquema, voltado para abastecer as campanhas do PSDB e do extinto PFL em 2002, teria tido início em 2000.

Dirigentes da estatal de energia elétrica Furnas são acusados de fazer pressão sobre fornecedores da empresa para arrancar doações que abasteceram o caixa de campanha.

A autenticidade da lista com a relação de doadores foi reconhecida em perícia da Polícia Federal.



Sávio não descarta a hipótese de que outro esquema de corrupção esteja em marcha em Minas Gerais.

Como não existe espaço para o contraditório na mídia do Estado fica muito difícil exercer a vigilância sobre quem governa, diz o líder do bloco Minas Sem Censura.



Acompanhe abaixo a íntegra da entrevista:




Lúcia Rodrigues
No Viomundo
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