25 de nov de 2013

Nem só da corrupção no clã tucano padece o nome da Siemens

A empresa tem estado presente no noticiário brasileiro, e também no alemão, embora por motivos diferentes

Empresa tem história de parcerias desabonadoras, entre elas com os governos tucanos de São Paulo

No Brasil, pesam sobre a empresa acusações de formação de cartel (com outras mais) para fornecimento de material para construção de meios de transporte, como o metrô de São Paulo, além de, ultimamente, distribuição de propinas. Segundo o noticiário brasileiro e internacional, as relações entre o governo do estado de São Paulo e fornecedores de equipamentos, especialmente para o sistema de transporte por trens e metrô, são permeadas de contratos superfaturados e pagamentos de gordas propinas.

Enfim, corruptores privados encheram os bolsos de agentes públicos corruptos, entre eles pessoas íntimas dos governadores tucanos, desde a gestão Maior Covas, em 1998, até os dias atuais, com Geraldo Alckmin – passando por José Serra. Se estiverem certas as denúncias, as despesas com sobrepreço e “gorjetas” fizeram contratos que somaram R$ 30 bilhões em década e meia engordar 30%, o que representaria um prejuízo de R$ 9 bilhões, ou dezenas de quilômetros de trilhos jogados no bolso de alguéns.

Como grande parte das denúncias partiu de dentro de uma das empresas que integram o suposto cartel, a Siemens, é improvável que não haja fogo na base dessa fumaça. O gesto parece ser parte de um esforço da multinacional alemã em tentar recuperar o prestígio da marca, que não anda bem no noticiário internacional. Na Alemanha, a Siemens tem sido notícia devido a uma crise de administração em consequência de uma série de contratempos, como perda de prazos e de espaço para concorrentes e um desconforto financeiro. Essas dificuldades levaram a uma troca de comando na empresa. O novo presidente é Joe Kaeser, ex-chefe do Escritório Financeiro Central, órgão encarregado de avaliar riscos financeiros e perdas decorrentes, e como evitá-los ou enfrentá-los.

Kaeser substituiu Peter Löscher, aus­tríaco de nascimento, que assumiu a presidência da empresa em julho de 2007, depois de um período conturbado em que executivos caíram e outros subiram em meio a acusações e acordos judiciais envoltos no tema da corrupção, por meio do pagamento de propinas em diferentes países, inclusive nos Estados Unidos.

Não houve acusações de corrupção contra Löscher. Aparentemente, a “acusa­ção” contra ele foi de má gestão, decisões ­erradas que levaram, por exemplo, a Siemens a atrasar a entrega de trens encomendados à “sagrada” Deutsche Bahn, a ferroviá­ria estatal alemã, um dos ícones do país, ao lado da sua indústria ­automobilística.

Nesse recente sobe e desce de CEOs (de Chief Executive Officer, no jargão internacional), a mídia alemã noticiou uma luta interna entre dois pesos pesados: Gehrard Chrome, presidente do Conselho Supervisor, e Josef Ackermann, um dos vice-presidentes. Pelo noticiário subsequente, Ackermann, que já foi CEO do Deutsche Bank, perdeu e renunciou a seu posto no Conselho da Siemens, sem que ficassem claras as razões da disputa.

Longo passivo


O fato é que o passivo de acusações contra a Siemens é muito longo e variado.­ Até ter fornecido, por exemplo, material elétrico para os campos de concentração nazistas, além de haver fotos de carros seus sendo usados para fazer propaganda do partido. Em 2006, a empresa foi objeto de uma devassa por parte da promotoria pública alemã.

Em 15 de novembro daquele ano, procuradores e agentes policiais invadiram 30 escritórios da empresa, além de várias casas de seus top executivos. O obje­tivo da operação era investigar o que foi descrito como um grande esquema de pagamento de propinas para obtenção de favores em escala mundial. Nessa ocasião caíram executivos como Heinrich von Pierer e Klaus Kleinfeld. As acusações levantaram detalhes bizarros, como o de que até 1998 a empresa abatia do imposto de renda alemão propinas pagas no estrangeiro, descritas como “despesas correntes”.

A nova direção da Siemens negociou laboriosamente, por exemplo, com o fisco norte-americano, chegando a um acordo em 2008 para o pagamento de US$ 800 milhões em indenizações. Não se sabe o montante das indenizações pagas pela empresa. Há avaliações de que passava de US$ 1,5 bilhão antes de vir à luz o caso brasileiro. Chegou ao noticiá­rio que o contador que operava secretamente as contas das propinas – e um dos poucos a serem condenados judicialmente, Richard Sieksczek – lidava anualmente com valores entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões.

Mas o caso mais espetacular ocorreu na China, onde em junho de 2011 o empresário Shi Wanzhong foi condenado à morte por ter recebido da Siemens

US$ 5,1 milhões em “por foras” para favorecer compras de materiais. A execução da sentença foi suspensa, mas não se sabe exatamente o que aconteceu com o condenado. A empresa sempre se recusou a comentar o assunto.

A Siemens emprega cerca de 370 mil ­trabalhadores em 200 países – e se orgulha­ de ter em seus quadros 18 mil enge­nheiros de informática, mais do que a Microsoft­ – e está passando por um processo dramá­tico de ajustes. Seu novo presidente anunciou a extinção de 15 mil postos de trabalho na Alemanha, o que, nesta época de crise­ europeia, pode significar uma “pequena” catás­trofe social. Ao mesmo tempo, embora a empresa não comente nada, a disposição de agora colaborar com as autori­dades brasileiras mostra que há um empenho em recuperar a aura há muito tempo perdida.

Os homens da corporação


Joe Kaeser 

Werner von Siemens
Fundou a empresa em 1847, voltada para a expansão do telégrafo. Passou desde logo a operar em nível internacional, na Índia, na Rússia e no continente europeu. Construiu uma linha telegráfica da Índia a Londres, por exemplo.

Peter Löscher, 56 anos
Foi o diretor-presidente de 2007 a julho de 2013. Não há acusações de corrupção contra ele.

Gehrard Chrome, 70 anos
Proeminente empresário, assumiu a presidência do Conselho Diretor em 2007, substituindo Klaus Kleinfield. É considerado o homem forte da empresa.

Josef Ackermann, 65 anos
Nascido na Suíça, um dos mais importantes CEOs da Europa, amigo de Angela Merkel, ­ex-diretor-presidente do Deutsche Bank, já foi até objeto de documentário da uma rede de TV (ARD). Não há acusações de corrupção contra ele.

Klaus Kleinfeld, 56 anos
Foi presidente do Conselho Diretor de 2005 a 2007. Quando surgiram as acusações contra a empresa, foi acusado de negligência por não ter agido. Negou. Ainda assim, deixou o cargo e a empresa, segundo algumas fontes pagando uma indenização simbólica de € 2 milhões. Desde 2008 é o CEO da Alcoa norte-americana.

Heinrich von Pierer, 72 anos
Presidente do Conselho Diretor de 1992 a 2005, quando foi substituído por Klaus Kleinfeld, passando a presidente do Conselho Fiscal, onde ficou até a maré de escândalos de 2006-2007. Demitiu-se, alegando inocência. Permanecem acusações de negligência, mas não houve processo contra ele. Em 15 de maio de 2010, o jornal Süddeutschen Zeitung noticiou que ele teria pago uma indenização de € 5 milhões à empresa. Hoje é membro do conselho da empresa mista turca Koç Holding.

Shi Wanzhong
De acordo com as poucas informações disponíveis, esse executivo chinês era diretor da China Mobile, uma companhia estatal no ramo da telefonia móvel, quando recebeu a propina da Siemens. Entretanto, não houve processo contra a empresa.

Flávio Aguiar, de Berlim
No RBA

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