27 de out. de 2013

Lou Reed: não é morte, mas uma voltinha no paraíso...

Lou Reed
(1942 - 2013)

O breaking news na rede cravava de maneira fatal e sintomática: está morto. Mas Lou Reed sempre se valeu do benefício da dúvida para forjar o próprio horizonte e assim impor um novo patamar para a arte. Por que haveríamos de aceitar isso tão facilmente? Até o meio da tarde tínhamos como fonte primária a revista Rolling Stone que aunciou a partida do compositor e guitarrista que ajudou a dar forma ao rock há pelo menos 50 anos. No primeiro post a respeito da notícia, o blogueiro Alexandre Matias (do Trabalho Sujo) foi mais reverencial a citar o “homem que salvou o rock’nroll de sua primeira grande crise ao fundar o Velvet Underground ao lado de John Cale.” Em seguida se autoconcedeu o direito à duvida (“Atualização16h15min: Pode ser boato”). Até que veio a confirmação ao final da tarde pelo próprio empresário do ao jornal The Guardian. Sim, Reed havia morrido, na manhã deste domingo. Sunday Morning? É muita ironia!

Sunday morning and I’m falling

I’ve got a feeling I don’t want to know

Early dawning, Sunday morning

It’s all the streets you crossed, not so long ago

(- Velvet Underground & Nico)

Ok, mas eu invoco o meu direito de não acreditar até cair a ficha. Os que se deram por convencidos se resignam com o fato de o homem que levou uma geração a passear por lugares selvagens “agora dá uma voltinha pelo paraíso” (essa eu gostaria de cunhar mas peguei emprestada de Brenda Goedert). Reed era uma daqueles imbatíveis, que sobreviveu a toda a sorte de loucuras e transgressões físicas e mentais dos anos 1960, 1970, 1980 até entrar no novo milênio são e ainda genial. É difícil mesmo acreditar que tenha sido vencido pelo tempo, talvez por complicações do recente transplante de fígado ao qual se submeteu ainda neste ano. As causas pouco interessam. Se está morto fará muita falta ao mundo e à música pop. Mesmo se não produzisse nada - embora tenha lançado há dois anos um álbum em parceria com a banda Metallica (Lulu) - sua presença física neste mundo hoje tão carente de ídolos substanciais representava um alento. Era e foi um dos pilares da cultura pop que se consolidou a partir da Contracultura. Um artestão sublime da literatura, um alquimista do rock. A sua história é uma crônica de um sobrevivente nos Estados Unidos: ainda adolescente foi submetido a tratamento de eletrochoque para “curar” a sua opção pela bissexualidade; fez michê e sobreviveu ao grande banquete da era das drogas. De mito do rock underground foi alçado à condição de artista imprescindível. Mas seu grande trunfo foi não ter recorrido ao caminho de se tornar mais um mártir do rock. Não, preferiu andar na linha do abismo desejando nascer “mil anos atrás” (Heroin, 1967). E chegou aos 71. Um feito magnífico!

Se Wandy Warhol fez dele e dos Velvets tela de projeção para as suas intenções na música (e também para exibição de seus filmes), Reed retribuiu com a selvageria das distorções, poesia e estética. O punk deve a ele - e muito! -, assim como o post punk, a new wave, o indie, enfim, qualquer respiro dentro do ambiente da música pop teve a sua inspiração. Deus nos livre do pesadelo dele nunca ter existido para nos propor um passeio pelo lado selvagem, onde depravação, sadomasoquismo, orgias de travestis, heroína e ruas sujas seriam a vanguarda salvadora frente ao mofo hippie. Transformer, de 1972, é a sua primeira obra-prima solo - entre quase tudo que compôs e retrocedemos aos álbuns com os Velvets, incluindo o seminal Velvert Underground & Nico (a festa urbana de 1967 que fez o rock crescer). Walk on The Wild Side é um hino ao despertar para um encontro com a loucura. Há muito o que citar sobre a grande estrada pavimentada por esse ser sexual e artisticamente ambíguo, que sublimou a literatura com o brutal Berlin (1973) e fez borbulhar os sentidos na experiência ruidosa de Metal Music Machine (1975). Revisitou o emblemático Transformer 10 anos depois e assim cunhou a sua segunda maior obra: The Blue Mask. Nos anos 1990 fez o que todo bom roqueiro sobrevivente com um acervo digno deveria fazer: reuniu o Velvet Underground para um turnê de shows pela Europa amealhando os bolsos dos fãs e os deixando felizes.

Aos críticos, o bardo respondeu que “suas besteiras ainda assim valiam mais do que os diamantes de muitos”, e sempre deixou claro que a sua expectativa para a vida era escrever O Grande Romance Americano. E deixou isso registrado, em cada álbum, cada vírgula, cada nota distorcida de guitarra. Mas claro, sem nos tolher o benefício da dúvida. Inclusive sobre a sua morte.

No ano passado entrei em uma loja de discos de vinil em Las Vegas - uma rede que surgiu nos anos 1980 para vender CDs e que, vejam vocês, se rendeu à plataforma que ajudou a enterrar para sobreviver hoje (incrível não?!) - para comprar algumas bolachas para a minha filha que viria dali a um ano. Fui muito óbvio em minhas escolhas e não tive dúvidas em colocar entre elas o Velvet Underground & Nico, com aquela banana na capa e todo aquele furor e estranhamento magistrais ali dentro. Era uma daquelas edições comemorativas recém-lançadas e remasterizadas. Fiz questão de inaugurar a vitrola da minha pequena com ele e com o Early Takes do George Harrison. Foi meu presente para a Maria Clara, ainda tão inocente para entender tudo aquilo, mas receptiva desde a primeira audição. Isso porque ainda nem fomos caminhar pelo lado selvagem.

Marcos Espindola

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