10 de dez de 2012

Documentos secretos da Ditadura

ISTOÉ teve acesso a arquivos que foram escondidos por delegado do Dops. Os papéis abrem uma nova linha de investigação para a Comissão da Verdade e mostram como agentes da repressão tentaram sumir com provas dos Anos de Chumbo

Rodrigo Cardoso
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Cena 1: “Olhávamos, ainda, a noite pela janela quando ouvimos o barulho longe dos tanques que se aproximavam. Esperávamos o pior desde a publicação do AI-5, quatro dias antes. O 17 de dezembro de 1968 foi assim para mim. Eu morava no 209-A. As paredes estavam forradas de fotos do Che Guevara, em algumas, como um galã de Hollywood, de calça jeans, sem camisa, fumando Havanas, quando dois policiais entraram. Numa moldura bonita, presente do meu irmão, havia uma foto do meu ídolo na sua pose clássica, aquela com estrelinha na frente da boina. Um dos policiais foi objetivo, pegou o quadro da parede e falou: ‘Este merece ser levado.’ Num instante o quadro já estava em minhas mãos. Eu disse: ‘Esse não.’ E, já com o quadro no chão, eu pisoteava o pobre Che, como uma possessa, enquanto me desculpava em voz alta com ele: ‘Desculpe, Che, mas não vou deixar que eles te levem.’”
Esse é o início do depoimento da aposentada paulista Rute Maria Bevilaqua, 66 anos. Em 1968, aos 22 anos, ela cursava física e morava em um dos apartamentos do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), quando ele foi tomado por agentes da ditadura da polícia e do Exército à caça de comunistas.
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HISTÓRIA
Torturado e preso nos Anos de Chumbo, o professor universitário Djalma de Carvalho,
63 anos, reencontrou seu passado nos documentos achados na fazenda do delegado Machado
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Cena 2: “A caminho do presídio em um ônibus, um policial, ao lado da porta do motorista, portava uma arma de cano longo e olhava pra gente. Quando o ônibus ia entrar na rua Rego Freitas, na esquina com a Consolação, eu joguei para fora um livro com um bilhete na primeira página. Nele, eu dava dois números de telefone, explicava que estávamos sendo todos presos, ‘centenas de pessoas’, e pedia que quem pegasse o livro, por favor, avisasse meus pais. Imagine o tamanho da idiotice e das consequências: meus pais eram comunistas com várias passagens pelo Dops (o extinto e temido Departamento de Ordem Política e Social). Naquele dia, o mais comprido da minha vida, mais emoções nos esperavam.”
Rute estava entre os 800 estudantes presos por autoridades do governo no Crusp, um centro de mobilização de jovens contra a repressão do governo militar da época. Nesse episódio que marcou a história da maior universidade brasileira, tropas do Exército e tanques evacuaram o prédio e portas de apartamentos foram abertas a pontapés enquanto soldados ficavam de tocaia entre galhos de árvores. Fichada pela Delegacia Especializada de Ordem Política, Rute foi acusada de “transportar lajotas e ‘molotov’ na invasão do Crusp”. Assim está escrito nos registros dela que ISTOÉ revela com exclusividade. A ficha não estava nos arquivos do Dops que foram liberados para consulta pública em 1994. O documento não tinha vindo a público até hoje porque o ex-delegado do Dops Tácito Pinheiro Machado o escondeu por décadas em sua residência.
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INVASÃO
Filha de comunistas, Rute Maria Bevilaqua, 66 anos, foi um dos 800 estudantes presos
por autoridades do governo no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp)
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A ficha de Rute foi encontrada por acaso por um ex-cortador de cana em uma casa abandonada no meio de uma fazenda que pertenceu a Machado, em Jaborandi, interior de São Paulo. No total, foram descobertas ali 110 fichas de pessoas tachadas de subversivas. E mais: boletins culturais censurados, um manual de subversão e contrassubversão que ensinava policiais a identificar os comunistas e envelopes classificados como “secreto”, “confidencial” e “reservado” de ministérios, embaixadas, universidades e igrejas enviadas a um outro delegado do Dops, Alcides Cintra Bueno. Todo esse material – que ainda não foi colocado à disposição para consulta porque vem passando por uma espécie de restauro feito pelo Arquivo Público de São Paulo, para onde ele fora enviado após ser encontrado em 2007 – foi compilado minuciosamente em um livro, “Memórias da Resistência” (Compacta Gráfica e Editora), cujo lançamento está previsto para sábado 8 na cidade paulista de Franca.
Sua publicação, além de trazer à luz um material inédito, mostra que agentes da repressão tentaram sumir com provas sobre os Anos de Chumbo. A ocultação em ambiente privado de documentos produzidos em órgãos públicos do regime militar era o modus operandi entre as autoridades e estabelece uma nova linha de investigação para a Comissão da Verdade. “Essa documentação encontrada na fazenda em Jaborandi abriu um precedente para se averiguar se há outros materiais espalhados por aí que não chegaram até nós”, afirma a historiadora Rafaela Leuchtenberg, diretora do Fundo Dops do Arquivo Público, para onde foram recolhidas em 1991 todas as informações produzidas pelo Dops que se encontravam em posse da Polícia Federal. “Não tínhamos no acervo fichários da delegacia de ordem política, como as achadas em Jaborandi, mas apenas da delegacia de ordem social.” Esse caso precipitou uma recomendação feita pelo Ministério Público Federal à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo para que toda a documentação produzida nas delegacias do Estado na ditadura militar (1964-1985) fosse enviada ao Arquivo Público.
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RESGATE
Buscas na fazenda do delegado do Dops Tácito Machado, em Jaborandi,
onde um ex-cortador de cana encontrou centenas de documentos da repressão
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Com isso, desde as fichas encontradas em Jaborandi, agora reveladas por ISTOÉ, outros três conjuntos de materiais chegaram ao órgão. Dois são emblemáticos. De Santos, em 2010, vieram 11,6 mil prontuários e aproximadamente 40 mil fichas produzidas por uma sucursal do Dops que atuava no litoral paulista. E em maio, 14 pacotes de documentos chegaram da cidade paulista de Apiaí. Um delegado da região havia retirado o montante da delegacia e levado para casa. Com a morte dele, sua viúva resolveu entregar o acervo para a polícia. O Arquivo ainda averigua o conteúdo das descobertas. Em Porto Alegre, em um caso semelhante registrado no fim do mês passado, 200 páginas de documentos entregues à polícia gaúcha pela família de um coronel da reserva do Exército assassinado comprovaram que o ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido há 41 anos, foi sequestrado por militares e levado para o Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, em 1971.
A papelada revela, ainda, uma estratégia dos militares para acobertar o envolvimento deles no atentado do Riocentro, em 1981. Na ocasião, uma bomba explodiu dentro de um carro estacionado naquele centro de convenções, onde aconteceria um show em comemoração ao Dia do Trabalhador, matando um agente do DOI-Codi e ferindo outro. Todos esses casos possibilitaram uma nova linha de investigação para a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada para apurar graves violações de direitos humanos praticadas por agentes públicos entre 1946 e 1988. “Faço um convite aos brasileiros e brasileiras que tenham em suas casas arquivos particulares: os entreguem”, afirma o ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles, coordenador da CNV, após o recolhimento do material na casa do coronel do Exército em Porto Alegre. “É um processo de reconstrução do seu país. Não precisa nem se identificar; basta telefonar e dizer que tem um documento.”
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VIOLÊNCIA
O aposentado Edson José de Senne foi preso e torturado
aos 32 anos, em 1969, porque recebia o jornal
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O escritório paulista da CNV, segundo o seu coordenador Ivan Seixas, está prestes a formalizar a descoberta dos documentos na fazenda do ex-delegado Machado, em Jaborandi, e a requerer diligências para apurar os fatos. “O porquê de essa papelada ter ido parar lá ainda é um nó a ser desfeito”, afirma o historiador Tito Bellini, professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (Uftm) e um dos organizadores do “Memórias da Resistência”. Além da aposentada Rute, do Crusp – ela não foi vítima de violência ao ser presa na universidade e nega as acusações que constam em sua ficha –, ISTOÉ conversou com outros dois brasileiros cujas fichas também estavam apodrecendo na propriedade de Machado, um policial falecido em 2005, aos 79 anos. Ele figura na categoria repressores e é citado em 27 processos do projeto “Brasil Nunca Mais”, trabalho encabeçado por um grupo de religiosos e advogados que coletaram cópias de processos políticos que tramitaram pela Justiça Militar entre 1964 e 1979 para obter informações e evidências das violações cometidas pelo regime militar.
Tanto o aposentado paulista Edson José de Senne, 75 anos, quanto o professor universitário Djalma de Carvalho, 63 – ligados às Forças Armadas da Libertação Nacional (Faln), de Ribeirão Preto, provavelmente a única organização clandestina do Brasil que não se formou a partir das capitais –, foram torturados ao serem presos naqueles anos de chumbo. Nenhum, porém, teve contato ou sequer ouviu falar de Machado. Trata-se de um agente cujas ações são pouco conhecidas inclusive pela CNV, provavelmente por ele ter sido mais ligado à burocracia dos órgãos repressores. “Meu pai sabia, evidentemente, todos sabiam das torturas. Pau de arara era comum em delegacias até para bandidinhos”, diz o filho do delegado Machado, do Dops, o também delegado Raul Pinheiro Machado, que mora em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. “Mas ele nunca torturou ninguém, pelo contrário, até livrou a barra de comunistas amigos.”
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REENCONTRO
Beatriz Paiva mostra parte dos documentos sobre seu pai, Rubens Paiva,
desaparecido em 1971, encontrados em Porto Alegre
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Em 1991, segundo Raul, ao abrir um baú na casa de veraneio da família, em Jaborandi, ele se deparou com documentos timbrados de órgãos da polícia paulista, mas achou que a papelada não tinha valor. Certo dia, porém, seu pai o chamou para uma conversa: “Filho, muitos documentos (produzidos pelo governo militar) deveriam ser queimados porque podem comprometer pessoas que, hoje, estão aí se tornando notórios.” Raul, assim ele conta, teria dito a Machado: “Pai, acho que nada deve ser queimado. Isso é história, tem de ser mostrado às pessoas”. Pai e filho nunca mais tocaram nesse assunto. Dentro do baú, encontrado em 2007, há fragmentos de histórias como a do professor universitário Djalma de Carvalho, quatro filhas e três netos, morador de Paranaíba, em Mato Grosso.
Carvalho era militante da Faln e do Movimento de Libertação Popular (Molipo) e foi preso duas vezes entre os anos 60 e 70. “Na primeira me estouraram todo. Palmatória, chutes, me atiravam com as costas contra a parede... Na segunda, trouxeram um companheiro em carne viva, inteiro ensanguentado, unhas arrancadas, com a cara toda deformada. Eles o enrolaram em um pano, o colocaram na máquina de choque, ligaram fios na língua e nas orelhas dele e mandaram eu torturá-lo”, relembra Carvalho, que na Molipo escondia perseguidos políticos e os ajudava a sair do Brasil. “Claro que não fiz isso. Eu o encontrei anos depois, nos abraçamos e choramos muito. Tínhamos passado pelo ventre da besta e sobrevivido.”
O aposentado Senne, de Ribeirão Preto, também é outro sobrevivente cuja parte da memória estava se apagando no fundo do baú da família Machado. Foi preso aos 32 anos, em 1969, porque recebia o jornal “O Berro”, o veículo de comunicação das Faln. “Fiquei dois dias preso. Recebi tortura violenta. Não conseguia escrever lá na delegacia, meus dedos sangravam de tanto choque”, conta ele, que tem problemas de audição causados por um tapa na orelha que recebeu nos porões da ditadura. “Nunca contei para o meu pai as torturas que sofri. Queria poupá-lo.”
Cena final: Mês passado, no Crusp da cidade universitária, a aposentada Rute entra novamente no apartamento 209-A quase 45 anos depois de ser retirada de lá à força. Depois de fotografar para esta reportagem, lembrou de quando debruçava a cabeça na janela para paquerar os alunos que caminhavam lá embaixo. Recordou também de quando, ainda criança, rezava baixinho para que o pai, um ativista do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com sete prisões na biografia, deixasse de ser comunista. Memórias de um tempo triste e feliz ao mesmo tempo, que não podem ficar sepultadas em nenhum baú particular. Para o bem do País.
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A mídia e os jesuítas

Eu, João Paulo Ferreira de Assis, Professor na Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, lecionando História, por dever de ofício tenho de ler muitos livros dentro do assunto das minhas aulas. E como eu moro em Ressaquinha, pequena cidade do interior mineiro, muitas vezes me é necessário ir a Belo Horizonte ou a Juiz de Fora para adquirir livros para minha biblioteca. Numa das viagens para a capital, caiu-me em mãos um livro do Professor Victor Paes de Barros Leonardi, ENTRE ÁRVORES E ESQUECIMENTOS: História social dos sertões do Brasil, editora UnB e Paralelo 15, 1996. O livro é uma verdadeira obra prima, que mostrou como a catequese jesuíta foi uma revolução na vida dos índios. Os jesuítas utilizaram-se de órfãos portugueses para se aproximar das crianças indígenas e separá-las de suas mães, cultural e espiritualmente, criando um verdadeiro abismo entre as crianças indígenas cristãs e seus pais, e entre elas e o resto da aldeia. Ao mesmo tempo os jesuítas produziram peças de teatro em que os pajés eram levados ao ridículo, e as crianças indígenas ou não, riam gostosamente das sátiras, e pouco a pouco iam introjetando a deculturação planejada pelos jesuítas. E como os pajés eram depositários de todo o conhecimento e tradições da tribo, aquelas crianças ao se tornarem adultas já não dariam mais ao pajé uma posição privilegiada no grupo 14-B. Os indígenas assim viram sua família se desestruturar, seu modo de produção ser substituído pelo capitalismo selvagem, sua religião ser abandonada, suas tradições serem negadas a ponto de um índio que saiba falar Português ser tido como ‘’aculturado’’.
Ao terminar a leitura eu percebi a analogia com o que o acontece hoje. A mídia faz o papel dos jesuítas no século XVI. O PT faz o papel dos pajés, e o povo, faz o papel das crianças indígenas. Nós bem sabemos o resultado de tudo isso. Os jesuítas podem ter ganhado algumas almas para o céu, mas acabaram completamente com os indígenas. E o jogo deu certo na época, porque os pajés não sabiam como reagir diante da novidade. Hoje sabemos que só a conscientização é que fará a gente ganhar esse jogo.
Por isso, eu me preocupo com os companheiros que estão jogando a toalha e prometendo não defender mais o PT, diante do mutismo dos dirigentes petistas. Mas jogar a toalha é pior, pois a mídia não terá contraponto, e no fim de contas ela poderá triunfar, e o povo ser levado a eleger um presidente que não defende o interesse público.
Somos poucos, é verdade. Mas precisamos conversar nos bares, praças, supermercados, pontos de ônibus, mostrar que a mídia persegue o PT por causa de interesses contrariados. Que ela não aceitou até hoje a quebra do monopólio dos livros didáticos e das verbas de publicidade. Temos que lembrar que a refeição do empresário não é o grude do peão. Que não temos de votar em candidatos apoiados pela Rede Globo, que defendem interesses opostos ao interesse nacional e público. Precisamos correr contra o tempo, pois trabalhadores já estão sendo persuadidos pela mídia. Outro dia um me disse que Lula era um baderneiro que tinha de mofar na cadeia. E no entanto se ele tem com que tratar da família deve ao Presidente Lula.
Saudações, João Paulo Ferreira de Assis.
No Advivo
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Como vivem hoje os "comunistas" da lista do general Sylvio Frota

Em 1977, uma briga na cúpula da ditadura resultou na divulgação de uma lista com os “comunistas infiltrados” no serviço público, entre eles Dilma Rousseff
Como vivem hoje os "comunistas" da lista do general Sylvio Frota Diego Vara/Agencia RBS
Gonzalez, Nique, Marinês, Calino e Ziulloski (da esq. para dir.) estavam na lista do general Sylvio Frota 
Foto: Diego Vara / Agencia RBS
Para eles, o pior já havia passado. Depois da prisão, da tortura e da perseguição política aos movimentos de esquerda no Brasil, um grupo de funcionários públicos do Rio Grande do Sul parecia ter retomado a vida profissional e acadêmica quando uma briga entre o presidente Ernesto Geisel e o ministro do Exército, general Sylvio Frota, 35 anos atrás, mudou os seus destinos.
Assista ao vídeo:
Demitido por Geisel, Frota caiu atirando. Um dos disparos foi a divulgação de uma lista nacional com os nomes de comunistas supostamente infiltrados em órgãos públicos. A relação resultou, no Rio Grande do Sul, na demissão de quatro economistas e um médico. Entre eles, a agora presidente da República, Dilma Rousseff.
Expoente da ala mais dura do Exército no final da década de 1970, o general pretendia suceder Geisel na Presidência. Em 1977, o país passava pelo processo de abertura política, e a divulgação do documento foi uma tentativa de convencer o setor militar mais conservador a tirar o presidente do poder, afinal, a presença de subversivos na máquina pública era vista como uma grande ameaça para o regime. A demissão de Frota ocorreu em outubro de 1977, mas a lista com 97 nomes veio à tona em novembro daquele ano, publicada pelos principais jornais do país.
A relação com os nove servidores do Estado trazia os nomes, codinomes, a ficha de crimes cometidos por eles e o cargo que ocupavam. Criada em 1973, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) abrigava Dilma, Walter Nique, Calino Ferreira Pacheco, Marinês Grando e Hélios Puig. Deste grupo, apenas Marinês não foi demitida, porque estava fora do país no momento da divulgação.
— Naquela época, quem tinha ficha no Dops encontrava muita dificuldade para conseguir emprego. Já tínhamos vivido isso antes de entrar na FEE, e, com as demissões, essa situação retornou depois — lembra Calino.
Sem perspectivas a curto prazo, os demitidos se dedicaram à carreira acadêmica. Dilma, por exemplo, foi fazer mestrado em Campinas. Walter Nique se mudou para a França, onde tornou-se doutor em Economia. O professor Hélios Puig foi dar aula em Caxias do Sul, Canoas e Santa Cruz do Sul.
A perseguição continuou durante a década de 1980. Sob a alegação de que estaria disseminando a ideologia comunista aos estudantes, Puig foi monitorado pelo regime e demitido de todas as universidades.
O médico Carlos Avelino Brasil, que trabalhava na Secretaria Estadual da Saúde, também foi dispensado. Só escapou de perder o emprego quem trabalhava na Assembleia Legislativa. Debaixo do guarda-chuva do MDB, o advogado Paulo Ziulkoski — hoje presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) — e o economista Paulo de Tarso Loguercio Vieira foram mantidos em seus cargos. O jornalista Carlos Cunha Contursi, que morreu em 1998, chefiava a assessoria de imprensa da Assembleia e também continuou.
Trinta e cinco anos após a publicação da lista, integrantes dela reconhecem que as demissões, embora consideradas por eles arbitrárias, tiveram reflexos positivos nas suas trajetórias. A ausência de mágoas com relação ao episódio também é explicada pelo retorno dos demitidos à FEE na década de 1990. Dilma Rousseff virou presidente da Fundação. Calino e Puig voltaram como técnicos. Apenas Walter Nique não retomou um cargo. Mas, em 1991, como secretário de Planejamento no governo Collares, ele empossou Dilma na função de presidente da fundação, numa cerimônia que simbolizou a volta por cima daqueles que haviam sido expurgados de lá pelos militares.
— Foi um momento muito bonito, porque dei posse a ela na mesma mesa em que eu trabalhava — afirma o ex-colega Nique.
Quem estava na lista:

Nique empossou Dilma na presidência da FEE em 1991 (FOTO: Valdir Friolin, Agência RBS/BD)
DILMA VANA ROUSSEFF
Para quem foi presa e torturada, a demissão de um cargo público foi apenas mais um dos episódios vividos por Dilma Rousseff. Havia ingressado na FEE como estagiária, em 1976. Foi a sua primeira atividade remunerada após a prisão. Efetivada em 1977, perdeu o emprego após a divulgação da lista.
– Os milicos começaram a botar os olhos na FEE e viram que tinha um monte de esquerdistas lá. Muitos tinham saído da cadeia havia pouco tempo – conta o economista Calino Pacheco.
A exemplo dos colegas que retomaram os seus cargos na década de 1990, Dilma voltou à FEE, mas como presidente da fundação.
– Essa é a grande ironia da história – brinca Calino.
Para Dilma, o fato representou uma vitória política. Antes perseguida pelos militares até ser demitida, conseguiu ficar quase três anos no comando do órgão.
O médico e ex-militante da VAR-Palmares, Carlos Avelino Brasil, não se importa de não conseguir mais falar com Dilma desde que ela assumiu a Presidência. A eleição da mineira, analisa ele, é uma vitória para quem teve o nome divulgado na lista do general Frota:
– Não nos destruíram, né?
CARLOS AVELINO FONSECA BRASIL
O sorriso no rosto do ex-militante da VAR-Palmares Carlos Avelino Fonseca Brasil, 73 anos, se abre ao lembrar, em tom desafiador, que ele e os outros integrantes da lista do general Frota superaram a perseguição.
Médico, ele trabalhava na coordenação do departamento de combate à tuberculose, vinculado à Secretaria da Saúde, quando teve o nome divulgado. Foi demitido pelo titular da pasta, Jair Soares. Pediu explicações, mas sequer foi recebido.
– Sou grato ao Germano Bonow. Ele me disse por que estava sendo demitido. Ele me explicou que era uma ordem de cima – conta.
Depois de passar a maior parte dos anos 1980 clinicando no Mato Grosso do Sul, voltou a Porto Alegre em 1990, quando retomou o cargo de funcionário público:
– Era uma necessidade minha do ponto de vista moral e ético. Do ponto de vista profissional, não precisava voltar. Vim para assumir a minha cidadania.
Com uma fala serena, garante não guardar mágoas do episódio.
– Nossa ideologia não é mais revolucionária como era na época, mas com um viés social para a classe trabalhadora. Dilma representa o que queríamos para o Brasil – orgulha-se.

Walter Nique foi o único que não retomou um cargo após a divulgação da lista (FOTO: Ricardo Duarte, Agência RBS)
WALTER MEUCI NIQUE
Enquanto caminhava pela calçada da Rua Siqueira Campos, em Porto Alegre, naquela quinta-feira, 24 de novembro de 1977, o economista Walter Nique deparou com uma notícia que mudaria a sua vida. No elevador do prédio onde trabalhava, na FEE, recebeu o alerta.
– Você já leu o jornal de hoje? Sugiro que dê uma olhada.
Na edição de ZH daquele dia, constava a lista divulgada pelo general Sylvio Frota. Foi mantido por um tempo, antes de ser demitido:
– Era uma pressão psicológica. Colegas evitavam falar comigo.
Pressionado, pediu demissão da UFRGS, onde dava aulas, e decidiu estudar na França. Após o doutorado, voltou ao Brasil e à universidade nos anos 1980. Na década seguinte, como secretário do Planejamento, teve a oportunidade de empossar a nova presidente da FEE, Dilma Rousseff.
– Foi um momento muito bonito, porque dei posse a ela na mesma mesa em que eu trabalhava. Essa mesa estava no Piratini, depois foi para os Programas Especiais de Governo e, por fim, foi parar na FEE. Foi uma sensação muito boa, porque sofremos um bocado ali.

Hélios Puig Gonzalez voltou ao Estado na década de 1980 e retornou à FEE em 1990 (FOTO: Tadeu Vilani, Agência RBS)
HÉLIOS PUIG GONZALEZ
Preso em março de 1977 quando morava em uma república de estudantes, o técnico da FEE Hélios Puig Gonzalez ficou sabendo da sua inclusão na lista do general de dentro da cadeia. Meses depois, tentou retornar ao cargo na fundação, mas foi impedido.
– Argumentei que era apenas um inquérito policial, que não daria em nada. O meu coordenador disse que eu não poderia voltar. Me deu uma carta dizendo que o meu trabalho era bom, e tchau – conta.
Recém-formado em Economia, embarcou no Fusca que havia comprado ainda antes da prisão e foi para Santa Catarina estudar. Cursou mestrado em Florianópolis e, na década de 1980, voltou ao Estado.
Chegou a dar aulas em três universidades, mas foi dispensado de todas. Em uma delas, teve uma aula gravada por agentes infiltrados:
– Mesmo com o SNI (Serviço Nacional de Informações) dissolvido, eles continuavam me vigiando.
Em 1990, retornou à FEE. Teve de aceitar trabalhar com indicadores sociais, e não no setor de governo, como fazia 13 anos antes.
PAULO DE TARSO LOGUERCIO
O personagem da lista do general mais envolvido na política partidária conseguiu passar incólume pela divulgação do documento.
Ex-militante da Ação Popular Marxista Lenista do Brasil, Paulo de Tarso Loguercio Vieira era assessor na Assembleia quando os jornais publicaram a relação.
– Não fui prejudicado porque estava na Assembleia e no MDB, que era contra o governo. O MDB não iria me atirar, porque era um cara bom – gaba-se.
Mesmo sendo economista concursado do Estado, construiu sua trajetória como assessor parlamentar da sigla. Na década de 1990, a convite do então deputado Ibsen Pinheiro, foi trabalhar na Câmara dos Deputados. Ao lado da mulher e de quatro filhos, se mudou para a capital federal.
Num voo de Brasília para Porto Alegre, encontrou o ex-ministro dos Transportes Alcides Saldanha e recebeu o convite para trabalhar no ministério. De lá, assumiu um cargo no Incra. Em seguida, trabalhou no escritório da CEEE na capital federal e se aposentou.
– Agora, tenho meus três netinhos, quero curtir eles – diverte-se.

Calino Pacheco ficou fora da FEE por 12 anos (FOTO: Mauro Vieira, Agência RBS)
CALINO PACHECO FILHO
Trinta e cinco anos depois, o economista e ex-preso político Calino Pacheco lembra com detalhes da trajetória dele, de Dilma e de outros companheiros, do ingresso na FEE até o dia da demissão, em 1977.
– Eu sabia que, desde que a gente entrou na fundação, como estagiários, em 1974, existia uma lista.
A iniciativa de entrar como estagiário foi a alternativa encontrada para driblar a vigilância dos militares:
– Quando a gente saiu da cadeia, ficou muito difícil arranjar emprego. Os órgãos do setor público tinham de pegar o atestado de bons antecedentes junto ao Dops, e a gente não tinha, claro.
Após ser dispensado da FEE, Calino voltou a enfrentar o mesmo problema de antes: a dificuldade em conseguir trabalho. Foram 12 anos – primeiro como autônomo, depois como assessor da bancada do PDT – até retornar à fundação, de onde só saiu no mês passado, quando se aposentou.
– Foi uma sensação muito boa voltar. Foi o reconhecimento de uma arbitrariedade do Estado – orgulha-se.
PAULO ZIULKOSKI
Quando liderou o movimento jovem do MDB, na década de 1970, Paulo Ziulkoski tinha uma obsessão: lutar pela democratização. Em 1975, foi com os representantes do Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (Iepes) até São Luiz Gonzaga analisar textos sobre a luta operária com os trabalhadores locais.
– No final do evento, descobri embaixo da minha mesa um fio pendurado. Na ponta, tinha uma pastilhazinha, parecia um chiclete. Trouxemos para Porto Alegre e mostrei para o Rogério Mendelski (jornalista) – conta.
Descobriu que o aparelho era usado para espionagem:
– Na época, não tinha ideia, mas era por isso que a gente era preso, por isso que eles tinham tanta informação.
Quando foi divulgada a lista, ele trabalhava como assessor do MDB. Uma das acusações era de incitar trabalhadores de Santana do Livramento contra o Exército no início dos anos 1960.
– Só conheci Livramento em 1979. Em 1961, eu tinha 15 anos. Isso seria impossível – ironiza.
Após a democratização, Ziulkoski se tornou um dos líderes do movimento municipalista. Hoje, preside a CNM.

Marinês só não perdeu o emprego porque fazia pós-graduação na França quando da divulgação da lista (FOTO: Ricardo Duarte, Agência RBS)
MARINÊS ZANDAVALI GRANDO
A economista Marinês Zandavali Grando foi a única que não perdeu o emprego na FEE. Fazia pós-graduação em Paris quando foi avisada por um amigo que seu nome estava na lista.
– Achei que era brincadeira. Depois, fiquei com medo do que poderia acontecer quando voltasse ao Brasil.
Ao voltar ao país, reassumiu o cargo na fundação, onde se mantém até hoje. A principal lembrança se refere ao início dos anos 1970. Marinês foi presa e torturada. Era acusada de sediar, em seu apartamento, reuniões do Partido Operário Comunista. Por anos, tentou esquecer as agressões que sofreu.
– Era uma coisa que a gente que foi torturado não conseguia nem falar. Essa lembrança ficava escondida – conta ela.
Foi uma conversa com a então presidente da FEE, Dilma Rousseff, que fez Marinês pedir anistia. Havia argumentado com Dilma que as marcas que a ditadura deixou em si não eram suficientes para ingressar com o pedido. Ouviu da presidente que a sociedade devia aquele reparo a ela, também pelos danos psicológicos. Após meses de sessões com psicólogas, foi convencida.
– Devo isso a Dilma – resume.
QUEM FOI O GENERAL SYLVIO FROTA
Nascido no Rio em 1910, o general Sylvio Frota foi ministro do Exército e um dos líderes da linha dura do regime militar (1964-1985). Perdeu o cargo quando articulava candidatura para substituir o presidente Ernesto Geisel. Frota morreu 1996.
Juliano Rodrigues
No Zero Hora
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Quando o jornalismo é covarde

A capa do New York Post com um homem prestes a ser morto pelo metrô
“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”.  Janet Malcolm
Uma das imagens mais revoltantes da história do jornalismo foi publicada hoje na capa do tabloide New York Post. Um homem tenta voltar à plataforma da estação na rua 49, enquanto o trem do metrô vem em sua direção. Seu nome era Ki Suk Han, imigrante coreano de 58 anos, casado, uma filha. Han morreria em decorrência dos ferimentos.
A reação foi instantânea. Por que o fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi preferiu clicar ao invés de tentar salvar seu personagem? Por que o Post publicou? Por que ninguém presente à cena fez nada?
Abbasi declarou que tentou. “Eu comecei a correr, correr, na esperança de que o condutor pudesse ver meu flash”, contou. “Estou sendo injustamente massacrado pela imprensa. Estava carregando um equipamento pesado. Quando o homem caiu, ninguém ajudou. As pessoas começaram a correr”.
Abbasi afirma que disparou o flash 49 vezes. Se tivesse chegado a tempo, teria tentado puxar a vítima. Ele crê que Han ficou de 10 a 15 segundos nos trilhos antes de ser colhido.
Essa não é a melhor maneira de chamar a atenção do condutor de um trem ou de ajudar alguém a subir de volta a uma plataforma. E nada disso impediu Abbasi de, na sequência, ir à redação do Post vender as imagens.
Naeem Davis, um homeless de 30 anos, confessou ter empurrado o imigrante. Ele disse à polícia que os dois começaram a discutir depois de se trombar e que sua reação foi jogar Han nos trilhos. Depois, ficou ali parado, olhando o atropelamento.
David Carr, colunista do NYTimes, resumiu assim:  “A capa do Post simboliza tudo o que as pessoas odeiam e suspeitam sobre o negócio de mídia: não apenas que os jornalistas são espectadores, eunucos morais e éticos que não intercedem diante do perigo ou da maldade, mas que torcem secretamente para que o pior aconteça”.
Umar contou sua história neste vídeo:
Kiko Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Luiz Fux

A imprensa carioca registrou o retorno do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, à saudável caminhada nos fins de semana entre as orlas do Leblon e de Ipanema, bairros requintados da zona sul da cidade. Esse percurso é feito também com menos frequência por Joaquim Barbosa, atual presidente daquela Corte.
Os dois foram atores destacados ou, sob certos aspectos, as estrelas do julgamento transmitido pela televisão. Talvez até tenham se tornado mais amigos no decorrer do período, se for considerado que o juiz Fux, despindo-se da toga, subiu ao palco para cantar e tocar guitarra na festa de posse de JB na presidência do STF. Há um registro fotográfico desse momento.
Luiz Fux teria se encontrado com figurões petistas
para conquistar a vaga de ministro do STF.
Foto: Nelson Jr/ SCO/ STF
Não muito tempo depois, Fux produziu uma legenda para aquela foto. Foi a entrevista ao jornal Folha de S.Paulo (2/12), onde escancara, em linguagem desabrida, o processo a que se submeteu para ganhar uma cadeira no STF. “Estava nessa luta desde 2004. Bati na trave três vezes”, relembra.
Descarnada dos excessos, transcrevo momentos expressivos da narrativa de Fux para chegar ao Supremo Tribunal Federal. Em ­duas ocasiões, pelo menos, ele deixa a impressão de que usou as decisões tomadas no Superior Tribunal de Justiça, onde atuava, para turbinar a própria candidatura ao STF.
Eis um exemplo desses:
“Na primeira vez que concorri havia um problema muito sério do crédito-prêmio do IPI (…) Ele (Antonio Palocci) era ministro da Fazenda e foi ao meu gabinete. Fui o voto líder nesse caso (…) poupar 20 bilhões de dólares para o governo, o governo vai achar você o máximo. Aí toda vez que eu concorria ligava para ele”.
Agora outro caso, envolvendo o aguerrido João Pedro Stedile, líder do MST, que apoiou a indicação de Fux pela seguinte razão: “Houve um grave confronto no Pontal do Paranapanema e eu fiz uma mesa de conciliação no STJ entre o proprietário e os sem-terra. Depois pedi a ele para mandar um fax me recomendando e tal. Ele mandou”. A recomendação chegou a Dilma.
Como candidato ao STF, Fux se assemelha a um guitarrista ortodoxo que toca para agradar a gregos e troianos, entre outros.
O ex-ministro Delfim Netto poderia ajudar? Poderia. Fux, então, “colou no pé dele”. E Paulo Maluf? Maluf procurou o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo Lula. “Maluf estava defendendo a indicação e me chamou ao gabinete dele para apresentar Luiz Fux”, atesta o parlamentar petista.
Fux procurou também o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu. Entregou o currículo. O ministro diz que foi um encontro só. Dirceu diz que houve outros. A situação nebulosa se consolida quando Fux, num desses encontros com figuras governistas, ao falar do “mensalão”, afirmou que mataria a questão “no peito”.
A partir daí, o processo da escolha de Fux perde inteiramente a transparência. Alguém teria condicionado o apoio ao nome dele ao político? Se isso ocorreu, por que Fux não renunciou à indicação? Fux, ansioso para chegar ao STF, abriu a porta da dúvida e, em seguida, traiu?
A dúvida está lançada. Tudo o que se espera, porém, é que o episódio da escolha de Luiz Fux seja uma exceção e não a regra que guia a escolha dos ministros do STF.
Andante Mosso

Moreira. Torna-se o anti-Gurgel.
Foto: Elza Fiúza/ABr
Senado versus Câmara I
O clima esquentou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, na quarta-feira 5, durante a sabatina do professor Luiz Moreira, indicado e aprovado na Câmara para compor o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Moreira depende da aprovação do Senado, onde sofre forte resistência articulada pelo procurador-geral Roberto Gurgel.
Senado versus Câmara II
Com força política equivalente ao peso que tem, Gurgel age para bloquear a indicação de  Moreira. Naquele dia, quando o senador petista José Pimentel invocou a necessidade de votar   nome que a Câmara indicara, levou um puxão de orelha do senador Pedro Taques: “Não sou despachante da Câmara”. Um senador presente soprou a pergunta: “Será Taques despachante do Gurgel?”
O “mensalão tucano” se move
O Inquérito 3530, também chamado de “mensalão tucano”, recebeu um empurrão. Poucos dias antes de tomar posse na presidência do STF, o ministro Joaquim Barbosa, na qualidade de relator do inquérito, deu prazo de 40 dias para que os juízes de Belo Horizonte encerrem a  audiência das testemunhas arroladas e remetam tudo ao gabinete dele.
Está em andamento a avaliação da inclusão da Lista de Furnas no inquérito. É o documento que os políticos mais temem.
Internet cai na rede
Saiu de pauta, pela quinta vez, a votação do Marco Civil da internet. Desde junho, quando  ficou pronto, passou a sofrer cerco e caiu na poderosa rede de lobby das empresas telecom, as provedoras de conexão.
Fechados contra a proposta estão dois partidos da base do governo, PDT e PTB, mais o PSD de Kassab à espera de um ministério para aderir. Os tucanos estão em cima do muro. O deputado Eduardo Azeredo divulgou nota em apoio, mas na reunião do Colégio de Líderes o partido  recuou.
O PT apoia intensamente. Surpreende, no entanto, certa indolência do governo com
a dispersão da base.
Cara nova
Josué Gomes da Silva, filho do falecido empresário José Alencar, ex-vice de Lula, vai  mergulhar na política. Já em 2014 quer pular de trampolim alto: o governo de Minas Gerais.
Ele ainda não fez a opção partidária. Antes quer conversar com a presidenta Dilma Rousseff.
Mutirão pelo BVA
Há uma operação em curso para evitar a liquidação do Banco BVA, sob intervenção do Banco
Central desde outubro. A instituição tem volume expressivo de recursos de fundos de pensão das estatais. Estima-se que a cifra alcance, de forma direta e indireta, a casa dos 500 milhões de reais.
Para a transação ser fechada, o BC quer o controle em mãos privadas. Os antigos controladores, José Augusto dos Santos e Benedito Lodo Filho, ainda não conseguiram encontrar parceiros. Nos bastidores, os senadores José Sarney e Renan Calheiros atuam pelo BVA.
Cesar Maia. Otimismo comovedor.
Foto: L. C. Leite/AE
Moribundo, mas vivo
Ameaçado de extinção, o DEM, a exemplo de todo mundo, também encontrou brecha para uma leitura positiva do resultado da eleição. Cesar Maia, ex-prefeito e agora eleito vereador,
é um intérprete otimista: “O DEM, que antes não tinha nenhuma prefeitura no grupo
das 85 maiores cidades do País, que reúne as 26 capitais e as 59 cidades com mais de 200 mil eleitores, fez 5 prefeitos nesta faixa”.
Tem mais: “Nos municípios acima de 1 milhão de eleitores, o DEM elegeu uma prefeitura,  mesma cifra do PT e do PMDB”.
Supremo: A escolha
A turbulência provocada pela entrevista do juiz Luiz Fux, onde descreve a patética maratona
que cumpriu, de submissões e aflições, para chegar ao STF, jogou foco na indicação do novo ministro a ser escolhido por Dilma.
Há regras para isso. Duas essenciais: notável saber jurídico e reputação ilibada. A eterna vigilância da mídia udenista move pressão política sobre a presidenta para evitar o que acham que ela faria: partidarizar a escolha.
Que mal haveria nisso? A presidenta é sustentada pela legitimidade popular. O voto aprova ações legítimas dela. Esse é o modelo dos EUA, adotado por democratas e republicanos. É regra também seguida no Brasil. Com ela foram escolhidos grandes juízes liberais, conservadores
e alguns socialistas.
As patrulhas agem, no entanto, quando há um presidente não alinhado com elas. Jango, por exemplo, não se intimidou com isso. Optou por Evandro Lins e Silva e Hermes Lima. De notável saber jurídico e ilibada conduta, foram fundadores do Partido Socialista Brasileiro. Lula, em regra, cedeu à pressão nesses casos. Dilma repetirá o modelo?
Mauricio Dias
No CartaCapital
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Bispo Pedro Casaldáliga tem de deixar sua residência em São Félix do Araguaia por sofrer ameaças

D. Pedro Casaldáliga durante entrevista exclusiva ao QTMD? Foto: Ana Helena Tavares
D. Pedro Casaldáliga durante entrevista exclusiva ao QTMD? Foto: Ana Helena Tavares
O religioso, de 84 anos e que sofre de Parkinson, vem há 40 anos lutando pelos direitos dos povos indígenas Xavante no Brasil
Matéria do jornalLa Vanguardia”, de Barcelona, publicada em 08/12/2012 
Tradução livre do original em língua castelhana para língua portuguesa feita por Rafael Oliveira do Prado para  o siteQuem tem medo de democracia?
Barcelona (da Agência Catalã de Notícias – ACN). – O bispo Pedro Casaldáliga, de 84 anos, se viu obrigado a deixar sua residência em São Félix do Araguaia e se refugiar a mais de mil quilômetros de distância por recomendação da Polícia Federal brasileira. O motivo foi a intensificação das ameaças de morte feitas contra Dom Pedro Casaldáliga nos últimos dias, as quais recebe em função do seu trabalho de mais de 40 anos em defesa dos direitos do povo Xavante.
A produtora “Minoria Absoluta”, que trabalha em uma minissérie sobre o religioso, foi uma das que denunciaram a situação. O fato de que o governo brasileiro tenha decidido tomar as terras (sic) dos “fazendeiros” (aspas no original) para devolvê-las aos indígenas, legítimos proprietários, agravou o conflito.
De fato, a produtora afirmou que a equipe que rodava a minissérie teve que modificar seu plano de trabalho. Concretamente, e por recomendação do governo brasileiro, a equipe teve que atravessar a floresta e fazer um trajeto de 48 horas de duração para evitar a zona de conflito.
Casaldáliga se converteu em um alvo para os “invasores” (aspas no original) que se apropriaram fraudulentamente da Terra Indígena (T.I.) Marâiwatsédé do povo Xavante. O bispo, de 84 anos e que sofre de Parkinson, trabalha há anos pelos povos indígenas e seus direitos fundamentais na prelazia de São Félix e se transformou na imagem internacional dessa causa.
Os latifundiários e os colonos que ocuparam fraudulentamente e mediante violência as terras (indígenas), serão despejados em pouco tempo segundo uma Ordem Ministerial que está por ser executada há mais de 20 anos. Segundo a Associação Araguaia com Casaldáliga informou em uma carta, o bispo se vê obrigado a pegar um avião escoltado pela polícia, e atualmente se encontra na casa de um amigo, o qual tem sua identidade e endereço mantidos em segredo por razões de segurança.
“Sentimo-nos plenamente identificados com a defesa da causa indígenas sempre levada adiante pelo bispo Pedro e pela Prelazia de São Félix” (aspas no original), disse a nota da Associação, que exorta à comunidade internacional a velar pela segurança de Casaldáliga e os direitos do povo Xavante.
Através do Twitter circulou o comunicado de apoio do Conselho Indígena Missionário (CIMI) – organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) –, assinado por associações e entidades vinculadas à luta dos povos indígenas e aos direitos humanos.
Nota do QTMD? (atualizada em 9/12/12, às 17:45, por Ana Helena Tavares): A agência EFE informou que, em entrevista à rádio Catalunha, Glória Casaldáliga, sobrinha do bispo, afirmou ter conversado ao telefone com ele ontem à tarde. Segundo ela, ele está “bem e tranquilo”. Quem o conheceu pessoalmente, quem viu o brilho em seu olhar e apertou suas mãos, imagina que esteja mesmo, pois é um homem que traz a paz dentro dele. Ficamos mais tranquilos com a notícia, mas o fato de ele ter tido que sair de casa permanece vergonhoso para o Brasil. Seguiremos acompanhando essa situação que escancara o atraso em que nosso país se encontra nas questões indígena e agrária. Que bom seria viver num mundo em que homens como D. Pedro ganhassem o Nobel da Paz.
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Associação de livrarias poderá fazer você pagar mais caro por ebooks

O que fazer quando seu negócio começa a ficar ultrapassado? Se ajustar às necessidades do mercado ou correr para baixo das asas do estado-babá? A Associação Nacional de Livrarias (ANL) está recorrendo à segunda opção.
Numa carta aberta o grupo de livrarias quer que o governo interfira no mercado de ebooks, prejudicando imensamente os consumidores que desejam tal tecnologia - como se fosse condenável ler numa tela o que eles querem lhe vender em papel...
Entre os requisitos recomendados pelo grupo estão as seguintes regras:
  • Ebooks só seriam lançados depois de 120 dias dos mesmos livros em versão impressa.
  • O desconto de revenda dos livros digitais deveria ser o mesmo para todas as livrarias.
  • Limite de 30% como teto para a diferença entre a versão digital e impressa dos livros.
  • Limite de 5% de descontos nos preços dos ebooks.
Ebooks não são nenhuma novidade. Qualquer txt da vida pode ser considerado, em alguma instância, um ebook: não deixa de ser um livro digital se o conteúdo for o texto de um livro. Só que a moda está pegando pra valer em boa parte do mundo. No Brasil várias lojas já vendem ebooks há algum tempo, e nesta semana duas gigantes entraram no mercado por aqui: Google e Amazon, depois de meses de boatos.
Nos EUA várias lojas faliram, é verdade, incluindo a gigante Borders (em contrapartida a Barnes & Noble se adequou e tem seu e-reader). Algo parecido ocorreu com as locadoras quando os vídeos via streaming viraram padrão por lá. Aos poucos a tecnologia vai chegando ao nosso país, e com a entrada destas duas gigantes no ramo de livros digitais, o medo das livrarias verem seus lucros despencarem é inevitável.
Independente da sua posição política, será que é justo mesmo punir os consumidores e autores em prol de um modelo ultrapassado, apenas para proteger empresas que preferem continuar com a tecnologia antiga?
Nada contra os livros de papel, mas é fato que muitos estão migrando para os ebooks. Com a popularização dos downloads ilegais em todo o planeta, é difícil imaginar que alguém que queira uma versão em ebook irá esperar 120 dias e ainda terá que pagar quase a mesma coisa da edição impressa... Depois as editoras poderiam sentir as consequencias com a pirataria, algo que já é comum no ramo de livros digitais mesmo antes da explosão dos leitores de ebooks. Se dificultam de todos os lados pelas vias oficiais, quem quer alguma coisa de qualquer jeito vai acabar conseguindo enquanto tiver quem a forneça por meios mais práticos.
A carta aberta pode ser lida no site da associação:
Kindle, um dos e-readers mais famosos
Kindle, um dos e-readers mais famosos
Desculpe se este texto tiver ficado muito imparcial: nesse caso foi difícil me conter, já que esse tipo de protecionismo vai contra tudo o que defendo como admirador da tecnologia e, também, do livre mercado. Vendo pelos comentários em diversos outros sites, a geração atual também condena o protecionismo. O lance é se adaptar ao mercado ou deixar de existir; não parece justo prejudicar intencionalmente quem deseja um produto ou serviço apenas para manter o fornecimento forçado de outro...
No Hardware
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Golpistas do Supremo atraem partidos reacionários sem voto

Gilmar Mendes foi convidado a se filiar ao DEM

- O senador Júlio Campos (MT) convidou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes a se filiar ao DEM e concorrer ao governo do Mato Grosso em 2014, informa a coluna Panorama Político, de Ilimar Franco, publicada neste domingo no Globo.
Campos relatou à Executiva do partido que tinha feito o convite e que ele fora bem recebido pelo ministro:
- Ele me respondeu: ‘Já fiz de tudo nesta vida. Já fui presidente do STF. Quem sabe?’.
Gilmar Mendes nasceu em Diamantino, no Mato Grosso. No final de novembro, o colunista Ancelmo Gois publicou que, com o STF em alta, havia partidos políticos sonhando com o passe de ministros da Corte. No PV e no PSB, o alvo seria Carlos Ayres de Britto; no PSOL, Joaquim Barbosa, atual presidente do Supremo.
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Cristina Kirchner, en baño de multitud, reclamó justicia independiente en “fiesta patria popular”


La presidenta argentina Cristina Kirchner reclamó mayor independencia a la justicia en su discurso este domingo ante miles de personas en el acto central del Día de la Democracia y los Derechos Humanos, realizado ante una multitud que colmó la Plaza de Mayo de Buenos Aires.
“La justicia tiene que ser independiente de la política y de las corporaciones”, dijo Kirchner al considerar que “hay sectores que se siguen conduciendo en una lógica de no respeto a la voluntad popular”.
“No lo digo únicamente por la Ley de Medios” Audiovisuales, cuya aplicación está frenada por una medida cautelar presentada por el Grupo Clarín y que el gobierno busca revocar a través de la Corte Suprema, señakó.
El acto, que tuvo réplicas en todo el país, fue convocado por el gobierno nacional como una vigilia para esperar el 10 de diciembre, cuando se cumplen 29 años del retorno a la democracia tras la última dictadura militar (1976-1983).
La intención oficial de que concidiera con la puesta en vigor de la Ley de Medios Audiovisuales, aprobada en 2009, se vio frustrada porque el jueves la justicia hizo lugar a una petición del Grupo Clarín y prorrogó la medida cautelar que vencía el viernes y suspende los artículos que obligan al multimedio a desprenderse de licencias de radio y televisión.
“Quiero una democracia plena y profunda, sin privilegios de sectores minoritarios, ese poder económico concentrado que en una etapa se sirvió de los militares, porque eran golpes cívico-militares, hay que decirlo de una vez por todas”, dijo.
La presidenta advirtió que a esos sectores, “cuando les fallan los hierros mediáticos, intentan construir hierros judiciales para poder tumbarnos”.
“Sé que algunos andan diciendo por ahí que con cuatro fallos (judiciales) se tumba a este gobierno”, afirmó.
El gobierno había desplegado una profusa campaña publicitaria respecto a lo que denominó el “7D”, por el 7 de diciembre, en la certeza de que ese día el Grupo Clarín, con el que mantiene un abierto enfrentamiento, debía comenzar a adecuarse a la ley de Medios, lo que en su campaña buscó presentar como un “éxito de la democracia”.
Diecinueve de los 20 multimedios (salvo Clarín) habían presentado planes de adecuación por exceder el número de licencias permitidas.
La Corte Suprema de Justicia se reunirá el lunes para resolver si acepta el recurso extraordinario de “per saltum’ que pidió el Ejecutivo (acceso directo a la Corte en casos sensibles), en tanto sigue pendiente un pronunciamiento judicial sobre la constitucionalidad de la ley, según un planteo del Grupo Clarín.
En ese marco, la denominada “fiesta patria popular” tuvo en Buenos Aires un fuerte tinte partidario, con la participación de cientos de integrantes de agrupaciones afines al kirchnerismo provenientes de la capital y su periferia, según podía leerse en las banderas que agitaba la multitud que cubrió la histórica Plaza de Mayo y sus alrededores, constató la AFP.
Entre otros artistas se presentaron los cantautores Fito Páez, Víctor Heredia, Teresa Parodi e Ignacio Copani y estaba previsto el cierre, sobre la medianoche, a cargo de Charly García y el colombiano Carlos Vives.
No La Red21
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As Estatais estrangeiras e o Mercado Nacional

 
Com a intenção de “normalizar e simplificar a governança estratégica” do gigantesco grupo de armamentos EADS, assegurando, ao mesmo tempo, que a Alemanha, a França e a Espanha, protejam os seus legítimos “interesses estratégicos”, os governos dos três países acabam de fechar acordo para manter 24 por cento das ações nas mãos dos estados francês e alemão e 4 por cento sob propriedade do estado espanhol. Mantêm, assim, o domínio do grupo, que controla, direta e indiretamente várias empresas prestadoras de serviços na área de defesa, no Brasil, como é o caso da Cassidian.
Enquanto no Brasil é pecado o Estado meter-se em outras áreas que não sejam segurança, saúde e educação, países admirados por muitos como paradigmas de capitalismo avançado e do livre-mercado, asseguram a propriedade do Estado em áreas estratégicas da economia - e nem por isso o mundo vem abaixo.
Vamos aos fatos. A participação da Espanha no capital da EADS (abreviatura da denominação, em inglês, da European Aeronautic Defense Space Company), mediante a CASA (Construcciones Aeronauticas S.A) deve ser conhecida. Embora tenha nascido da iniciativa privada, em 1923, a empresa foi sendo absorvida pelo estado espanhol, a partir de 1943, e, desde 1992, a participação estatal é de 99,2%.
Além da construção aeronáutica, o estado espanhol comanda as empresas ferroviárias, de construção, navais e de armamento. É com essas empresas que a Espanha quer invadir o mercado brasileiro, aproveitando o financiamento farto e barato no BNDES.
O instrumento dessa operação é uma instituição chamada SEPI - Sociedade Estatal de Participações Industriais. E atentem bem para a palavra estatal. A SEPI - a exemplo de organizações congêneres como as existentes na Alemanha, na França, ou na Itália, com o IRI - não está presente apenas como sócio temporário, mas exerce sua tarefa permanente de controle nacional dos setores estratégicos da atividade econômica.
No Brasil, esse é um assunto tabu. O BNDES pode financiar empresas estrangeiras, e até mesmo estatais, como é o caso da DCNS, que constrói o estaleiro onde serão montados os submarinos que compramos à França. No entanto, não admitem que o Brasil possa ter uma empresa estatal para assegurar diretamente a presença do Estado onde ela é necessária, seja como controlador, seja como indutor do processo de desenvolvimento, como ocorre lá fora.
O temor da opinião dos "analistas" do "mercado" e de certa parcela dos meios de comunicação, já totalmente entregue aos interesses estrangeiros, chegou a tal ponto que os maiores absurdos são vistos como absolutamente normais.
É o caso, por exemplo, da projetada concessão operacional do Aeroporto do Galeão. Uma empresa controlada pelo Estado francês, a ADP (Aeroports de Paris) disse, claramente, que só entra no negócio se a INFRAERO (ou seja, o estado brasileiro) estiver em posição minoritária. E o governo brasileiro, como mostra a mudança no formato do modelo, obedece.
É preciso definir o caminho correto para que o Brasil possa se desenvolver em ritmo acelerado sem abrir mão da sua de sua autonomia e da sua soberania, agora e no futuro.
Ao contrário do que aconteceu no passado, e tem acontecido ainda, o BNDES só deveria financiar empresas autenticamente brasileiras, inclusive estatais, que possam negociar de igual para igual, em cada setor, com as estatais de outros países, como fazem, sem nenhum pudor, as outras nações. Os estrangeiros que quiserem entrar no Brasil, principalmente no filé das obras de infraestrutura, que se submetam às nossas leis e condições - e tragam o seu próprio dinheiro.
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#ElMundoEstaConChavez "Tuitazo mundial" por la salud de Hugo Chávez este lunes

Usuarios de la red social Twitter podrán utilizar la etiqueta #ElMundoEstaConChavez
(Foto: VTV)
Cualquier persona en el mundo que cuente con tecnología 2.0 y 3.0 podrá manifestar su apoyo al dignatario venezolano, a partir de las 12.00 horas de Caracas (16.30 GMT), con mensajes de solidaridad alusivos a la recuperación del líder bolivariano.
El Ministerio de Comunicación e Información de Venezuela confirmó que este día lunes se realizará un “tuitazo mundial” por la salud del presidente Hugo Chávez, a través de la utilización de la etiqueta #ElMundoEstaConChavez, como parte de las acciones de solidaridad convocadas ante la noticia de la nueva operación a la cual debe ser sometido el jefe de Estado.
De esta manera, cualquier persona en el mundo que cuente con tecnología 2.0 y 3.0 podrá manifestar su apoyo al dignatario venezolano, a partir de las 12.00 horas de Caracas (16.30 GMT), con mensajes de solidaridad alusivos a la recuperación del líder bolivariano.
El titular del despacho de Comunicación e Información, Ernesto Villegas, destacó que, con la etiqueta #ElMundoEstaConChavez, se prevé recibir millones de mensajes de apoyo de parte de personas de todos los continentes.
El presidente venezolano abrió su cuenta en Twitter bajo el seudónimo de @chavezcandanga, en abril del año 2010, y suma hasta la fecha más de tres millones y medio de seguidores, convirtiéndose así, en el presidente latinoamericano con más presencia en la red social.
El Mandatario anunció el pasado sábado que debe someterse a una nueva intervención quirúrgica, tras una revisión médica exhaustiva que se realizó en Cuba, a través de la cual le detectaron algunas células malignas en el área donde sufrió la lesión cancerígena meses atrás.
Tras conocerse esta noticia, miles de venezolanos se concentraron en las plazas Bolívar de las principales ciudades del país, para manifestar su apoyo al Presidente.
Igualmente, los usuarios de la red social posicionaron el día domingo la etiqueta #PalanteComandante entre las más populares a nivel nacional, además de otras como #AhoraySiempreConChávez, entre otras.
Adicionalmente, se sumaron a estos mensajes de algunos presidentes de los países integrantes de la Unión de Naciones Suramericanas (Unasur), quienes desearon salud y una pronta recuperación a Chávez; además de los candidatos socialistas a las gobernaciones del país, voceros y distintas personalidades del mundo político nacional e internacional.
El presidente venezolano, de 58 años de edad, fue reelecto el pasado mes de octubre para el nuevo período presidencial 2013-2019, con más del 55 por ciento de los sufragios.
El jefe de Estado partió en horas de la madrugada de este lunes a la ciudad de La Habana, en Cuba, donde será sometido en los próximos días a una intervención quirúrgica. Chávez ha sido operado tres veces desde junio del año pasado, cuando se le detectó un tumor carcerígeno en la zona pélvica.
No TeleSur
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O Mensalão da Midiatrix

O Mensalão e a agenda setting: a "Matrix" na prática


Muito discutida e ainda pouco compreendida, a essência do filme “Matrix” (a hipótese da virtualidade do real) talvez já esteja presente no nosso dia-a-dia mais do que imaginamos. A pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira” feita por estudantes de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi São Paulo como conclusão do curso “Estudos da Semiótica” apresenta a constatação de que a mídia corporativa não tem mais o poder de eleger presidentes ou forçar impeachments como no passado, mas ela é eficiente em estabelecer pautas e agendas como a do atual julgamento do chamado “Mensalão”.  Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser uma construção a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos.

Virtuosismo tecnológico, capas pretas, bullet time e todo o visual ciberpunk marcaram as representações dos mundos virtuais em filmes como “Matrix”: humanos enredados nos véus da ilusão criada por computadores/demiurgos que nos escravizam. Mas descontando todo esse sensacionalismo hollywoodiano em torno da hipótese da virtualidade do real, podemos nos surpreender ao descobrir que a essência do tema de Matrix já está presente em nosso dia-a-dia, tão diluído nos temas das nossas conversas e na indústria de informação e entretenimento que nem nos damos conta: mais do que uma figura retórica, já há muito tempo experimentamos a Matrix na prática!

      Isso é o que demonstra a pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira”, trabalho de conclusão da disciplina Estudos da Semiótica da Escola de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi – UAM/São Paulo (veja video abaixo). O grupo formado pelos estudantes da graduação em Jornalismo Ana Carolina Cassiano, Cainã Ito, Camila Albino, Gustavo Carratte e Renata Corona analisou as capas e primeiras páginas dos principais veículos de imprensa de alcance nacional e chegou a uma constatação empírica: até o início do segundo semestre o foco dos veículos como jornais “O Globo”, “Folha de São Paulo”, “O Estado de São Paulo” e de revistas como “Veja”, “Isto É” e “Época” “estava concentrado nas repercussões das denúncias envolvendo o contraventor Carlinhos Cachoeira. O julgamento do chamado Mensalão ainda era pouco comentado”.
Quase nada de Cachoeira e 
exaustiva cobertura do mensalão
       Com a proximidade das eleições municipais, esse foco midiático foi invertido: “quase nada de Cachoeira e exaustiva cobertura sobre o escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores (...) Cachoeira permanecia envolvido em acusações, mas já não tinha seu rosto exposto por tanto tempo na TV, jornais, revistas e sites, tampouco era comentado nas rádios”.
          “Tomando como exemplo a revista Veja seis de suas capas no segundo semestre de 2012, quando já estavam próximas as eleições municipais, foram sobre o caso envolvendo o PT. Além destas, mais três tiveram destaque na capa, com chamadas para ler mais denúncias páginas adentro”.
          Para além dos evidentes exemplos de manipulação no enquadramento e seleção dos acontecimentos – desde a tendenciosa pergunta da pesquisa Datafolha no início de agosto (“os acusados do Mensalão deveriam ser enviados para a cadeia?”) e todo o exagero da cobertura que invertia os princípios básicos da Justiça (“que obriga os promotores a comprovarem a culpa do réu e não o contrário”) – a pesquisa associou a inversão da cobertura no segundo semestre ao fenômeno conhecido como “agenda setting” ou agendamento: a mídia não apenas manipula a realidade, mas, principalmente, altera a nossa percepção da realidade. Pode parecer uma diferença sutil a existente entre os termos “manipulação” e “percepção”, mas ela é decisiva por ser mais insidiosa e profunda.

A Hipótese do “agendamento”: já vivemos na Matrix

          Embora o conceito de “agenda setting” tenha sido formulada somente na década de 1970 pelos pesquisadores norte-americanos Maxwell McCombs e Donald Shaw em estudos que analisavam a influência das mídias nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 1968, seus princípios básicos começaram a ser traçados em 1922 pelas teses levantada pelo jornalista Walter Lippmann.
          Para Lippmann a opinião pública não reagia diretamente aos fatos do mundo real, mas vivia em uma espécie de “pseudoambiente” formado principalmente por “imagens em nossas cabeças” (LIPPMANN, W. Public Opinion). A mídia teria um papel central na estruturação desse pseudoambiente e fornecimento das imagens.
Em 1963 Bernard Cohen deu uma premissa moderna a essa ideia esboçada por Lippmann: “Na maior parte do tempo a imprensa pode não ter êxito em dizer aos leitores o que pensar, mas é espantosamente exitosa em dizer aos leitores sobre o que pensar” (COHEN, B. Press and Foreign Policy). Em outras palavras, a mídia seria péssima em impor conteúdos ou persuadir a opinião pública a tomar um posicionamento “A” ou “B”, mas ela seria ótima em criar uma hierarquia de temas supostamente com pertinência social para ser discutida.
Dessa maneira, Cohen destacou a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de opinião a respeito da realidade. Em consequência da pauta de temas criados pelas mídias o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia certos elementos dos cenários públicos. As pessoas tendem a incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que as mídias incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público pode atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelas mídias aos acontecimentos, problemas e às pessoas. A pauta de fixação feita pelos meios de comunicação perdura no público. Os assuntos nela evidenciados serão comentados pelas pessoas que acabarão julgando os fatos de acordo com essa pauta e percebendo uma realidade social diferenciada.
O filme “Obrigado por Fumar” (Thank You For Smoking, 2005) apresenta didaticamente essa estratégia que está além da manipulação simples pela imposição de determinado posicionamento ideológico: se as pessoas querem ou não fumar cigarro, essa seria uma questão que a mídia teria muito pouca influência. Mas ela seria eficiente em fixar a pauta do tabagismo como tema pertinente para a opinião pública. O filme ironicamente apresenta como a indústria tabagista estaria por trás tanto de pesquisas que demonstrem os malefícios como as que refutam os danos maiores do cigarro. O que importa é que o tema tabagismo ganhe espaço e visibilidade midiática.

Guerra de percepção e sociedade do espetáculo

Pela hipótese da agenda setting não se trataria mais discutir se a mídia influencia ou não determinados conteúdos ideológicos, mas a forma como ela molda a percepção da própria realidade. A pesquisa do grupo de estudantes de jornalismo da UAM destaca: “a mídia já não tem força para decidir quem vai ser o próximo presidente, nem para eleger e forçar oimpeachment como no caso de Collor. Mas isso não significa que a mídia corporativa não siga buscando seu intento, através da agenda setting, como agora ao conseguir colocar em pauta o mensalão do PT”.
O mais perturbador nessa hipótese é a de que se a questão da mídia não é de conteúdo (informação), mas de forma (pauta, agenda etc.) pouco importaria se durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal ocorresse uma reviravolta, as chicanes jurídicas fossem derrotadas e o mensalão fosse desconstruído diante das câmeras: o mal já teria sido feito após a percepção da opinião pública ter aceito a pertinência do tema “mensalão do PT” como hierarquicamente superior a outros temas.
Filme "Obrigado Por Fumar": um
exemplo didático de "agenda
setting"
A pesquisa da UAM define a guerra pelos agendamentos das pautas nas mídias como a própria natureza da sociedade do espetáculo: embora seus resultados sejam ideológicos, os meios de comunicação seriam pouco afeitos a ideologias, conteúdos ou informações (conscientização, formação, inculcação etc.). Essa eficiência de influência ideológica talvez tenha existido nas antigas sociedades de massa dos tempos da Segunda Guerra Mundial. Hoje, com sociedades mais segmentadas e complexas onde a influência pessoal de líderes de opinião (não confundir com “formadores de opinião” das mídias) como filtros das mídias ganha mais força, a batalha passa a ser por agendas impactantes que alterem a percepção do que seja a realidade para as pessoas.
É claro que após o sucesso do agendamento de um determinado tema, os tradicionais mecanismos de manipulação da informação entram em cena, como ficou evidente na cobertura do caso do Mensalão e nos 18 minutos de espaço dado pelo Jornal Nacional da TV Globo para fazer um “resumo” do julgamento do STF. Isso seria um aspecto técnico-ideológico da edição da informação (que muitas vezes o público nem percebe criticamente) e que é mais compreendido por aqueles predispostos à opinião inquisitorial sobre o PT.
O mais importante é que, em uma sociedade do espetáculo, a conquista de uma pauta ou agendamento já é, em si, uma vitória ao fazer o público discuti-la seja a favor ou contra.
Um argumento contra a eficiência ou existência dessa hipótese seria que apesar de todo o agendamento do caso Mensalão desde 2005 na mídia Lula foi reeleito e fez seu sucessor, Dilma Roussef. Mas, poderíamos dizer: “é a economia, estúpido!”. Duas pautas contraditórias parecem disputar percepção da opinião pública: a moralista da corrupção versus a do crescimento econômico paradoxalmente partilhada até pela TV Globo, por exemplo, com o tema da “nova classe média” em novelas como “Avenida Brasil”.  
Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser um constructu a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos. Essa talvez seja a essência do filme “Matrix”. Um filme muito discutido, mas ainda pouco compreendido.
No Grupo Beatrice
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