27 de nov de 2012

“Paraguai vive golpe de estado encoberto”, afirma Prêmio Nobel da Paz

Para Esquivel, o golpe de estado foi “encoberto com um
verniz de institucionalidade”
Foto: Santiago Trusso

Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1980, emitiu um comunicado aos membros do Serviço de Paz e Justiça do Paraguai, nesta quinta-feira (22), sobre a situação política do país e dos camponeses presos pelo massacre em Curuguaty.
“O Paraguai vive um golpe de Estado encoberto com um certo verniz de institucionalidade”, afirmou o militante de direitos humanos argentino, referindo-se à situação estabelecida no país desde 22 de junho, com o golpe parlamentar que depôs o governo de Fernando Lugo.
Pérez Esquivel falou do caso dos 12 camponeses presos pelas mortes ocorridas em 15 de junho, quando mais de 400 policiais invadira as terras de Marina kue para desalojar os camponeses que haviam as ocupado.
Esquivel afirmou que “nenhum dos camponeses quer fazer uma greve de fome, eles são motivados pelas injustiças e pelas contínuas violações dos direitos do povo paraguaio”, referindo-se especificamente aos quatro camponeses que faziam, até sexta-feira (24) passada, uma greve de fome por sua liberdade. Nesse sentido, o Nobel recordou que é responsabilidade do Estado garantir a vida de cada cidadão e respeitar seus direitos.
Os quatro camponeses processados pelo massacre de Curaguaty encerraram a greve na sexta-feira (24), após dois meses, quando lhes foi concedida a prisão domiciliar.
Com informações do E’a – Periódico de Interpretación y Análisis
No Sul21
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Carta aberta de um jornalista ao Supremo Tribunal Federal

 
Passei as duas décadas da ditadura sem ter sido vítima de tortura física, sem enfrentar mais que dois interrogatórios militares, sem ter sido condenado. Conheci, porém, pessoalmente, a justiça da ditadura. Em 1983, incriminado nos termos da Lei de Segurança Nacional por ter denunciado na “Folha de S. Paulo” as entranhas do escândalo da Capemi, enfrentei um processo pela antiga Lei de Segurança Nacional no qual a denúncia se baseava em dedução. Foi com base em deduções que Vossas Excelências, em plena democracia, condenaram figuras proeminentes do PT, pela culpa de serem proeminentes. Quanto a mim, tive melhor sorte: fui absolvido por
um juiz militar que já não acreditava mais na ditadura, Helmo Sussekind.
Não traço paralelo entre o crime a mim imputado e aquele por que foram condenados Dirceu e outros senão pela absoluta falta de prova, num caso, e a declarada desnecessidade dela, noutro. Meu crime teria sido, na letra do Art. 14 da LSN de 68, “divulgar, por qualquer meio de comunicação social, notícia falsa, tendenciosa ou fato verdadeiro truncado ou deturpado, de modo a indispor ou tentar indispor o povo com as autoridades constituídas”. Pena, de seis meses a dois anos de reclusão. Nota-se que não se falava de provas. Poderia ter sido condenado, pois tudo ficava ao arbítrio do juiz: sob pressão do sistema sua tendência era condenar.
Sussekind, contra a letra e o espírito da lei, para me absolver me permitiu a exceção da verdade. Vossas Excelências, inventando lei, fizeram a exceção da mentira para condenar.
Não disseram mais de um de seus pares que não era possível acreditar que Dirceu não soubesse dos fatos, fatos esses que só existiram na imaginação fértil de dois procuradores e de um ministro relator com ganas de promotor, decididos todos a inventá-los para compor um “caso”? É assim que julga um ministro deste Tribunal, pensando o que os réus teriam sido obrigados a pensar seguindo o figurino da acusação? Dêem-me uma evidência, uma apenas, de relação entre pagamentos de despesas de campanha e votações no Congresso: suas estatísticas estão simplesmente furadas; elas não comportam uma análise científica de correlação, mesmo porque o critério que o procurador usou para estabelecê-la estava viciado pelo resultado que ele queria encontrar.
Não sou jurista. Mas na ciência política que tenho estudado junto a pensadores eminentes como Max Weber e Norberto Bobbio as doutrinas jurídicas têm uma posição singular. Weber, sobretudo, fala em justiça no cádi em casos de grande comoção social. Entretanto, nosso país está em calma. O pouco que aprendi de direito de cidadania me leva a concluir que Vossas Excelências cometeram uma monstruosidade jurídica ao fundar seu veredito contra Dirceu, de forma arbitrária, no princípio alemão do domínio funcional do fato.
Não me estenderei sobre isso para não repetir o que já disse alhures, embora me alegra o fato de que outros jornalistas e principalmente juristas, consultando um dos formuladores originais do princípio, passaram a expor com evidência cristalina sua inaplicabilidade ao caso Dirceu. Sim, Excelências, para condenar é preciso ter provas. Vossas Excelências condenaram sem provas.
Fiquei estupefato ao ouvir o discurso patético de seu novo Presidente com o elogio da independência política do Judiciário. É que suas excelências se comportaram como servos de uma parte da opinião pública manipulada pela mídia de escândalos. Creio que, absorvidos em sua função, Vossas Excelências não têm se apercebido do que está acontecendo com a mídia brasileira. Acossada pela internet, ela já não encontra meios de atrair leitores e anunciantes senão pela denúncia de escândalos reais ou forjados. Haja vista o imenso caudal de ações contra denúncias infundadas que se amontoa no próprio Judiciário. Com o propósito de explorar mais um grande escândalo, desta vez dentro do Governo e do PT, criaram o chamado “mensalão” e o venderam à opinião pública como fato consumado.
Nunca houve evidência de pagamentos regulares, mensais, a parlamentares, mas tornou-se impossível esclarecer os pagamentos como acertos de campanha. Criou-se, dessa forma, no seio da opinião pública uma sensação de grande escândalo, não de caixa dois de campanha, exacerbada quando o procurador, num assomo de retórica, recorreu à expressão, totalmente falsa, de quadrilha.
Finalmente, agora na condição de especialista em Ciência Política, quero propor a Vossas Excelências que não atropelem a linha que os separa dos demais poderes. Sobretudo, que não interfiram na organização política do Brasil condenando arbitrariamente alianças partidárias. Sem alianças não há governo no Brasil. É possível que Vossas Excelências prefiram o sistema americano, ou algum sistema europeu com dois partidos hegemônicos, mas nós não estamos nem nos Estados Unidos nem na Europa. O Supremo não tem competência para alterar isso. Não há democracia sem política, não há política sem partido, e não há partido sem liberdade de organização. O ódio de Vossas Excelências por alianças partidárias nasce de um vício idealista de quem chega ao poder sem ter que passar pelo voto da cidadania. Caveat. É essencial para a ordem pública confiar na Justiça, mas para que isso aconteça não basta condenar os grandes: é preciso simplesmente condenar os culpados, segundo as provas.
J. Carlos de Assis, Economista, professor de Economia Internacional e chefe do Departamento de Relações Internacionais da UEPB, autor do recém-lançado “A Razão de Deus”. Esta coluna sai também nos sites Rumos do Brasil e Brasilianas, e, às terças, no jornal carioca “Monitor Mercantil”.
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Gaza ou a revisão da História

 
Há sessenta e quatro anos que Israel usa dois discursos para legitimar as suas intervenções nos territórios ilegitimamente ocupados da Palestina: um é o discurso da "eliminação definitiva do terror palestiniano"; o outro é o da "legítima defesa contra os ataques de que Israel é alvo". Ambos projetam uma revisão ardilosa da História.
Há sessenta e quatro anos que Israel anuncia a vitória definitiva contra os seus inimigos próximos. Para só citar dois momentos recentes, foi assim quando da guerra contra o Hezbollah em 2006 e foi assim de novo na Operação Chumbo Fundido, de 2008-2009, contra o Hamas. Em ambos os casos, o uso claramente desproporcional da força por Israel foi justificado como necessário para pôr fim definitivo às agressões continuadas pelo grupo pró-iraniano no Sul do Líbano ou do grupo dominante na Faixa de Gaza contra o Estado de Israel. Afinal, ambas as eliminações definitivas do terror foram um fiasco absoluto: os rockets continuam a ser lançados de Gaza e o Hezbollah tem hoje um arsenal de mísseis e uma influência política no Sul do Líbano bem maiores do que os que possuía em 2006.
Falsa é igualmente a narrativa da resposta em legítima defesa. Cada violação dos sucessivos cessar-fogo é invariavelmente apresentada como simples retaliação de ataques anteriores e exteriores. Invariavelmente, Israel projeta dos palestinianos a imagem de um povo que faz da agressão o seu modus vivendi, ao passo que Israel será uma vítima inocente que mais não faz do que defender-se. Para ajudar à composição do argumento, os palestinianos atacam sempre com poucos mísseis mas maus e agressivos (neste caso, iranianos) e Israel defende-se sempre com muitos mísseis mas bons e defensivos (neste caso, norte-americanos de última geração). Esta onda de violência que de novo atingiu os 1,7 milhões de pessoas presas no gueto de Gaza voltou a ser explicada da mesma forma enganosa. Faltou dizer, nessa narrativa para consumo preguiçoso, que Netanyahu e Liberman vão a votos em janeiro e que a aliança de governo entre os dois está longe de ter sondagens animadoras. E faltou dizer também que o assassinato do dirigente do Hamas Ahmed Jabari, associado nesse momento às negociações de um acordo, foi o momento em que a guerra escalou vertiginosamente.
A aposta de Israel num clima de permanente crispação que lhe permita assegurar o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia tem no rigor da História o seu grande inimigo. E a História tem três aspetos que nenhuma estratégia israelita de revisionismo conseguirá apagar: primeiro, a ocupação dos territórios palestinianos, contra o Direito Internacional, é a causa primeira e última do conflito; segundo, o povo da Palestina continua privado de ter um Estado, de ter comércio normal, de ter liberdade de movimentos, de ter dignidade; terceiro, a macabra bolsa de mortos (16 palestinianos por cada israelita, tendo sido de 111 por 1 em 2009) é como todas as bolsas: alimenta-se a sim própria.
É por isso que este ataque contra Gaza não foi senão o último antes do próximo. Porque, haja acalmia ou não, atacar Gaza dá votos e legitima o imobilismo político de Telavive. E sobretudo desvia a atenção da História real para uma História conveniente.
José Manuel Pureza
No DN
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É hora de abrir a caixa preta das agências reguladoras

A iniciativa de chamar os presidentes das agências reguladoras para dar explicações ao Senado sobre as investigações da Operação Porto Seguro foi do líder do PT, Walter Pinheiro, o que é um bom sinal.
Está mesmo passando da hora de abrirmos a caixa preta destas agências criadas para fiscalizar as empresas privadas concessionárias de serviços públicos e cujas atividades pareciam uma terra de ninguém, antes da chegada da Polícia Federal.
Acabaram caindo na vala comum dos cargos distribuídos em nome da governabilidade aos partidos da base aliada e seus dirigentes ganharam vida própria sem dar satisfações a ninguém.
O caso mais emblemático é o de Paulo Rodrigues Vieira, diretor da ANA (Agência Nacional de Águas), que teve seu nome rejeitado duas vezes pelo Senado em razão do seu prontuário e acabou sendo indicado assim mesmo numa terceira votação patrocinada pelo governo com a ajuda do presidente José Sarney.
logo ana É hora de abrir a caixa preta das agências reguladoras
Preso pelos policiais da Operação Porto Seguro sob suspeita de tráfico de influência e apontado como o "chefe da quadrilha" de servidores públicos que criavam dificuldades para vender facilidades, Vieira era ligado a Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, nomeada pelo ex-presidente Lula, exonerada nesta segunda-feira pela presidente Dilma Rousseff.
Agora, a ANA criou uma comissão especial para investigar as atividades de Paulo Vieira, que não se limitavam à agência. O ex-diretor também agia no Ministério da Educação para alterar dados financeiros de faculdade pertencente à sua família, segundo nova denúncia publicada hoje pela "Folha".
Aberta a porteira, caiu também Rubens Carlos Vieira, diretor da Anac (Secretaria de Aviação Civil), irmão de Paulo Vieira, e foram afastados de seus cargos altos funcionários da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).
Logo Anac É hora de abrir a caixa preta das agências reguladoras
ANA, Anac, Antaq, estas siglas todas que surgiram após o processo de privatização, acabaram se tornando novos cabides de empregos e, como vemos agora, fontes de corrupção.
Como já aconteceu no ano passado, a presidente Dilma pode fazer do limão uma limonada e promover uma faxina para valer nestas agências que infernizam nossas vidas no ar, na terra e nas águas.
ANTAQ                                                  IFT É hora de abrir a caixa preta das agências reguladoras
Para isso, Dilma terá que conter o apetite dos aliados ávidos por "boquinhas" no serviço público e basear suas nomeações para as agências apenas em critérios técnicos e competência profissional, depois de analisar os currículos e também os prontuários dos indicados.
Chegando ao final da primeira metade do seu governo, Dilma reforça assim a marca de executiva disposta a mudar certos usos e costumes da nossa velha política, que acabam virando casos de polícia.
Ricardo Kotscho
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Orwell está se revirando no túmulo

"Orwell está se Revirando no Túmulo" (Orwell Rolls In His Grave) é um documentário que desnuda a mídia tradicional americana mostrando todo o lado corrupto e mesquinho dessa instituição, que cada vez mais está nas mãos de menos donos. Monopólios e oligopólios controlam a opinião das pessoas, escondendo informações, distorcendo fatos, destruindo a democracia. "Goebbels, chefe da mídia nazista, ficaria com inveja de tamanho poder alcançado por ela hoje".
O documentário também alerta para a janela que se abriu para combater esse quadro: a Internet. Essa é uma excelente oportunidade de agirmos antes que ela se feche.
"Nós equivocadamente pensamos em nosso país como uma democracia, quando na verdade tornou-se uma midiacracia: onde a imprensa, que supostamente deveria verificar o abuso político, faz parte do abuso político" - Danny Schecter
No Esquerdopata
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Charge online - Bessinha - # 1588

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O ruim sempre pode piorar

 
Apesar do trabalho desenvolvido há décadas por pessoas e/ou entidades da sociedade civil, e apesar do inegável aumento da consciência coletiva sobre a centralidade da mídia na vida cotidiana, não tem havido resposta correspondente dos poderes da República no sentido da proposta e/ou implementação de políticas públicas que promovam a universalização do direito à comunicação em nosso país.
Ao contrário. Ações que representariam avanços relativos, muitas vezes, não são cumpridas, se descaracterizam ou se transformam em inacreditáveis recuos – alguns, com apoio em decisões do Judiciário.
São muitos os exemplos. O principal deles é certamente a própria Constituição de 1988, cuja maioria dos artigos relativos à comunicação social não logrou ser regulamentada decorridos 24 anos de sua promulgação.
Outros, não menos importantes, incluem:
>> O decreto que criava o serviço de retransmissão de TV institucional (RTVIs), que foi revogado dois meses depois (2005);
>> O resultado do trabalho de duas comissões criadas no âmbito do governo federal para propor uma nova regulamentação para as rádios comunitárias (GT 2003 e GTI 2005), que nunca foi levado em conta;
>> O primeiro decreto sobre o modelo de TV digital (2003), que foi substituído por outro apontando para a direção inversa (2006);
>> O pré-projeto que transformava a Ancine em Ancinav (2004) que nunca chegou sequer a se tornar projeto, mas seus opositores foram contemplados com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual (2006) e, mais recentemente, com a polêmica Lei 12.485/2011;
>> As diretrizes originais para a comunicação constantes da primeira versão do III Programa Nacional de Direitos Humanos, PNDH3 (2009) foram alteradas menos de cinco meses depois por novo decreto (2010): excluíram-se as eventuais penalidades previstas no caso de desrespeito às regras definidas; e exclui-se a proposta de elaboração de “critérios de acompanhamento editorial” para a criação de um ranking nacional de veículos de comunicação.
>> A convocação e realização da 1ª Confecom – Conferência Nacional de Comunicação, que produziu mais de 600 propostas que jamais saíram do papel (2009);
>> Os três decretos que finalmente geraram um anteprojeto de marco regulatório para a comunicação eletrônica (2005, 2006 e 2010) que nunca se tornou público
E por aí vai.
Temas recorrentes
Há de se registrar ainda decisões do poder Judiciário como:
1. A improcedência da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) que sustentava a inconstitucionalidade de quatro artigos do decreto 5820/2006 (TV Digital);
2. A não regulamentação do “direito de resposta” em função da inconstitucionalidade total da antiga Lei de Imprensa;
3. O estabelecimento de uma hierarquia de liberdades que privilegia o direito das empresas sobre o direito do cidadão; e,
4. A recente criação de um Fórum Nacional do Poder Judiciário e Liberdade de Imprensa no Conselho Nacional de Justiça – onde terão assento as principais entidades representantes da grande mídia – com o objetivo de monitorar as ações judiciais que envolvem o que tem sido chamado de “censura judicial”. Na prática, mais uma proteção à liberdade das grandes empresas de mídia em detrimento do direito do cidadão.
Muitas dessas questões têm sido tratadas neste Observatório mais de uma vez, ao longo do tempo. Não há qualquer novidade nisso.
Os conselhos de comunicação
Há, todavia, um exemplo que merece referência especial pela constatação da incrível impotência de atores da sociedade civil – inclusive, de partidos políticos e parlamentares – além da imensa frustação que representa para aqueles que lutam pela universalização da liberdade de expressão no nosso país: os conselhos de comunicação.
A história é conhecida, mas vale um breve resumo. Ponto principal de disputa na Constituinte de 1987-88, a criação de uma agência reguladora nos moldes da FCC americana se transformou, na undécima hora, no Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso Nacional (artigo 224). Regulamentado por lei em 1991, só foi instalado 11 anos depois, em 2002. Funcionou por quatro anos e ficou desativado por cerca de seis anos. Recentemente foi reinstalado de forma autoritária e sob protesto da Frentecom e do FNDC. Sua composição não traduz a ideia da Constituição de 1988, de um órgão plural com representação diversa. Há um claro predomínio de interesses empresarias.
Na primeira sessão do novo CCS, um representante da grande mídia propôs reduzir suas funções regimentais para que sua ação de assessoramento se restrinja apenas às demandas do Congresso Nacional, excluindo, por exemplo, a possibilidade de debate e encaminhamento das propostas aprovadas na 1ª Confecom.
Nos 10 estados (e no Distrito Federal) onde as Constituições e a Lei Orgânica preveem conselhos estaduais de comunicação – a exemplo do CCS –, até hoje apenas na Bahia ele foi instalado (2012) e, mesmo assim, com funcionamento precário.
Em pleno século 21, na contramão de países vizinhos e das democracias liberais consolidadas, permanecemos praticamente sem um único espaço democrático institucionalizado onde questões relativas à universalização da liberdade de expressão possam ser sequer debatidas.
No Brasil, no que se refere à regulação democrática da mídia, o ruim pode sempre piorar. E tem piorado.
Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012/2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros
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O pensar como doença

 
"O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.
Há anos, a filósofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.
Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.
Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.
A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".
Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.
Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.
Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.
Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.
Vladimir Safatle
No fAlha
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Juízes por tempo determinado

 
O exame, sereno, mas rigoroso, do que foi o julgamento da Ação 470, mostra que o sistema judiciário, como um todo, e a sua mais elevada instância, o STF, de modo particular, reclamam reforma profunda. Não obstante a oratória de alguns juízes, e a erudição de outros, os observadores mais atentos perceberam que a razão lógica não esteve presente no resultado final do julgamento. Houve sinuosos silogismos para justificar o apelo, apressado e desengonçado, a uma teoria, a do domínio do fato, prontamente desautorizado pelo seu mais eminente expositor, o jurista Claus Roxin. Segundo Roxin, ela só vale onde há ordem comprovada para a ação delituosa.
O ato de julgar não é técnico, como proclamam alguns, nem subjetivo, de acordo com outros: deve ser expressão de sabedoria e de humanismo. Ao condenar um réu, o juiz não deve fazê-lo em nome da vingança da vítima ou do Estado, mas em defesa da sociedade. Os mais antigos buscavam seus juízes entre os mais velhos, não porque a idade lhes conferisse o senso de justiça, mas também porque, tendo vivido mais, a sua reputação era consolidada, suas paixões vencidas, seu medo domado.
Isso não impedia, no entanto, clamorosas injustiças, sobretudo quando os juízes atuavam sob a chancela religiosa. Saramago, quando alguém o recriminou pela sua opção ideológica, e lembrou os crimes do stalinismo (como os do Processo de Moscou, de 1938), retrucou, lembrando que as vítimas da Inquisição foram muitíssimo mais numerosas e seu sofrimento maior. Giordano Bruno caminhou até a fogueira, onde o queimaram vivo, levando, pelas ruas de Roma, em uma espécie de gaiola, sua língua amputada. Ele poderia ter acrescentado que não só os católicos e os protestantes foram responsáveis pela carnificina daqueles que consideravam hereges ou bruxos.
Matar em nome de Deus é uma desculpa sórdida e comum a todos os fanatismos – desde o registro bíblico de que Jeová, o Senhor dos Exércitos, entregava ao povo de Israel os seus inimigos, para que fossem passados ao fio da espada os vencidos, sem poupar as crianças.
Não parece bom o sistema de escolha dos juízes do tribunal supremo da República. Há casos em que os indicados são desconhecidos dos meios jurídicos. O Senado atua quase como repartição protocolar. E, uma vez nomeado, o juiz permanecerá no cargo até os 70 anos – limite que muitos desejam ultrapassar.
Para corrigir parte dessa situação, o Senador Roberto Requião apresentou proposta de emenda constitucional que estabelece o mandato máximo de 12 anos para os ministros do Supremo. É um bom começo – mas, até que isso assim se resolva, o Senado é chamado à sua responsabilidade de examinar, cuidadosamente, a vida, o passado e o saber dos candidatos.
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Polícia gaúcha tem um Sherlock Holmes e não sabia

Vinte e três dias depois do assassinato do ex-chefe do DOI-Codi, o delegado da Polícia Civil/RS, Luís Fernando Martins de Oliveira, é categórico, e está tão seguro do que afirma que chegou a fazer declarações peremptas ao jornal ZH: "Pelo que consta ali, já descartamos a hipótese de o coronel ter sido morto por vingança em razão da atividade no Exército".
Ocorre que o falecido coronel Julio Miguel Molinas Dias, assassinado no último dia 01 de novembro, em Porto Alegre, não tem um passado nebuloso e contestado pelo fato de ter tido "atividade no Exército", mas sim por ter sido chefe do DOI-Codi, à época do atentado terrorista (perpetrado por membros das Forças Armadas do Brasil, sem farda) ao Riocentro, no Rio de Janeiro, no ano de 1981.
É de estranhar, portanto, a conclusão-relâmpago do delegado da Polícia gaúcha. Com tantas hipóteses a serem investigadas, o delegado se sente suficientemente seguro para prestar uma declaração à imprensa com convicções formadas e inabaladas pela dúvida ou pela incerteza, mesmo sabendo que tenham passados mais de três décadas do atentado da tigrada ao Riocentro.
Ora, o coronel assassinado em Porto Alegre, foi nada menos que o chefão da tigrada, segundo o jargão das próprias Forças Armadas para aqueles militares renitentes em aceitar os termos do "processo de abertura lenta, gradual e segura" - como queriam o general-ditador Ernesto Geisel e seu sucessor, João Figueiredo.  O general Geisel, aliás, chamava essa linha dura dos seus comandados da repressão de "bolsões sinceros, porém radicais", um eufemismo para designar assassinos e torturadores fardados à serviço do Estado brasileiro.
Tão radicais, que não hesitaram em tentar colocar bombas assassinas em um local fechado, onde se realizaria um grande show musical com milhares de civis, inocentes todos. A sorte é que a bomba - por uma trapalhada dos seus operadores - acabou explodindo antes da hora, e justo no colo de um dos terroristas chefiados pelo coronel Molinas Dias, assassinado dias atrás em Porto Alegre.  
Diante da certeza - manifestada publicamente à imprensa - do delegado Martins de Oliveira é de sugerir que o mesmo seja condecorado com alguma ordem do mérito por genialidade investigativa. A Polícia civil gaúcha tem um Sherlock Holmes e não sabia.
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Luciano Alvarenga comenta o PCC e os governos tucanos em SP

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Dilma age rápido para espantar crise


dilma rousseff Dilma age rápido para espantar crise
Faz algum tempo que a palavra crise não aparece no noticiário político, ao contrário do que aconteceu durante todo o primeiro ano de governo de Dilma Rousseff, na época da chamada "faxina", quando a presidente teve que demitir oito ministros acusados de irregularidades diversas.
Desta vez, a presidente Dilma Rousseff agiu de forma fulminante para espantar uma nova crise envolvendo denúncias sobre uma rede de corrupção no governo federal.
Supreendida pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, deflagrada na sexta-feira, Dilma não esperou o fim de semana passar.
Convocou ministros para uma reunião de emergência no sábado, no Palácio da Alvorada, e determinou a demissão ou afastamento imediato dos funcionários denunciados, entre eles a chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha, e o advogado-geral-adjunto da União, José Weber Holanda Alves.
Demitir Rosemary, funcionária indicada no começo do primeiro governo do ex-presidente Lula e mantida no cargo por Dilma a pedido do ex-presidente, indiciada pela Polícia Federal por suspeita de envolvimento com uma quadrilha que traficava pareceres técnicos de orgãos públicos, foi a decisão mais delicada tomada pela presidente até agora.
E foi mais um sinal de que ela continua implacável com os autores de "malfeitos", como costuma dizer, quaisquer que sejam os seus nomes e ligações políticas. "Se ela faz isso com uma indicada de Lula, imagina o que não fará com um dos nossos", comentou um preocupado ministro do PMDB, segundo a coluna Painel publicada na "Folha" desta segunda-feira.
Entre os 18 indiciados pela Polícia Federal, oito são servidores públicos e cinco estão presos. É mais uma demonstração de que as instituições estão funcionando plenamente no país, um dos motivos que podem explicar a alta popularidade do governo, apesar das dificuldades vividas pelo PT em consequência do julgamento do mensalão.
Prova disso é a pesquisa espontânea do Ibope sobre a sucessão presidencial, divulgada no último fim de semana, em que Dilma aparece com 26% das intenções de voto, pela primeira vez à frente do ex-presidente Lula (19%) e bem distante dos possíveis candidatos da oposição, José Serra (4%) e Aécio Neves (3%).
Dos 2002 eleitores ouvidos pelo Ibope entre 8 e 12 de novembro, 55% indicaram espontâneamente a sua preferência  _ e 4 entre cada 5 eleitores citaram os nomes de Dilma ou Lula.
O saldo positivo do governo de Dilma saltou 19 pontos entre julho de 2011, no meio da "faxina", e setembro deste ano, com o índice de bom e ótimo passando de 48 para 62 pontos percentuais.
A 22 meses da sucessão, a presidente eleita com o apoio decisivo do ex-presidente Lula, que deixou o governo com mais de 80% de popularidade, ganha agora vôo próprio para enfrentar as turbulências que vêm pela frente no caminho da reeleição.
À oposição só resta repetir um velho ritual cada vez que aparecem denúncias envolvendo membros do governo: convocar ministros e pedir explicações. Só que Dilma chegou antes e antecipou as providências.
Ricardo Kotscho
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0 Violência obstétrica

Em vídeo, brasileiras denunciam abusos, maus tratos e sofrimento nas mãos de profissionais de saúde

Neste 25 de novembro, faz exatamente um ano que um grupo de mulheres ligadas à área de saúde e/ou interessadas em questões referentes a parto realiza ações coletivas nas mídias sociais. Objetivos: dar mais visibilidade à violência obstétrica e desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, que são cometidas pelos profissionais de saúde e muitas vezes passam desapercebidas.
“São ações organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar essas questões “, diz Ana Carolina Franzon, que edita o blog Parto no Brasil em parceria com Bianca Lanu. ”Prosseguiremos até que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.”
Em 2010, os dados sobre a violência da pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, realizada pela Fundação Perseu Abramo e o SESC, chamaram muito a atenção do grupo. E um dado se destacou: uma cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto.
Entre as possíveis formas de abusos e maus-tratos, sobressaíram: exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações.
Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: não chora que ano que vem você está aqui de novo; na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe; se gritar eu paro e não vou te atender; se ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo.
Por isso, neste 25 de novembro, Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, o grupo está lançando o videodocumentário popular Violência obstétrica — A voz das brasileiras, produzido entre outubro e novembro deste ano. Os responsáveis pela iniciativa:
Ana Carolina Franzon, jornalista, pesquisadora em Saúde Pública, integrante do grupo de pesquisa sobre Gênero, Maternidade e Saúde ( GEMAS), da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Bianca Lanu,cientista social, produtora cultural e educadora perinatal.
Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP.
Lígia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, e responsável pelo blog Cientista Que Virou Mãe.
Kalu Brum, jornalista, doula e coeditora do blog Mamíferas.
Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.
Conversei um pouco mais com Ana Carolina sobre esse trabalho.
Blog da Saúde – Violência obstétrica traduz bem os maus tratos e abusos que sofrem as mulheres quando internadas numa maternidade. Essa expressão foi criada pelo blog?
Ana Carolina Franzon – Não. Foram as próprias mulheres do movimento que cunharam o termo violência obstétrica para tais práticas.
Blog da Saúde – Por que videodocumentário popular?
Ana Carolina Franzon – Trata-se de uma ação de ciberativismo, realizada quase que exclusivamente via mídias sociais, coordenada por usuárias e pesquisadoras da área da Saúde Coletiva.
Chamamos de “videodocumentário popular”, porque priorizamos a experiência das usuárias de saúde para elaborar e difundir este conceito “violência obstétrica”. Também qualificamos como uma produção da subárea da Comunicação Social, a Comunicação Popular e Comunitária, que compreende produtos de informação de caráter não-empresarial.
Blog da Sáude — Os vídeos foram gravados por vocês ou pelas próprias mulheres e/ou familiares?
Ana Carolina Franzon – Inicialmente, montamos um roteiro para os depoimentos. Que formas de desrespeito você viveu em seu parto? Como isso te afetou física e emocionalmente? Qual o seu objetivo com esse depoimento?.
Depois, por meio de uma divulgação nas mídias sociais, convidamos as mulheres para participar. Pedimos vídeos com depoimentos, fotografias com descrições das imagens… Assim, todas as mulheres que estão no vídeo participaram de forma espontânea e voluntária.
Os vídeos foram gravados em webcam, celular ou máquina fotográfica pelas próprias mulheres, que se auto-selecionaram para participação. Optamos por manter esta característica de “comunicação popular”, como você poderá ver.
Por fim, fizemos um roteiro para edição final. Aí, contamos com os trabalhos – também voluntários – de um fotógrafo e videomaker. Fizemos tudo isso em apenas um mês.
Blog da Saúde — Me fala um pouco sobre o vídeo.
Ana Carolina Franzon – O filme retrata a experiência das mulheres brasileiras com o nosso atual modelo de assistência ao parto, que já foi definido por Maria do Carmo Leal (ENSP/FIOCRUZ), coordenadora do Inquérito Nacional Nascer no Brasil, como um “modelo obstétrico doente e adoecedor”.
Aliás, os nossos atuais indicadores de saúde reprodutiva são igualmente preocupantes:
* Anualmente, temos no país um milhão de cesáreas desnecessárias.
* Temos uma assistência ao parto normal excessivamente medicalizada e intervencionista, com abuso de procedimentos obsoletos, que já deveriam ter sido erradicados há muitos anos.
* Cerca de 90% das mortes maternas evitáveis estão relacionadas à qualidade insuficiente dos serviços obstétricos.
* A péssima qualidade das informações dos prontuários sobre procedimentos obsoletos, dolorosos, e até arriscados à saúde. Por exemplo, a episiotomia (corte no períneo) e a manobra de Kristeller (pressão externa no fundo do útero para expulsão do bebê).
* A negação do direito de escolha das mulheres e o impedimento de sua autonomia pela ausência completa de consentimentos esclarecidos.
* Infração institucional da Lei do Acompanhante (de 2005), que ocorre de modo ordinário e impune.
Esses mesmos problemas ocorrem com as mulheres que buscam os serviços de saúde para planejamento reprodutivo e abortamento, com todos os agravantes que a ilegalidade provoca.
Blog da Saúde — O vídeo traz histórias dolorosas. Vocês já sabiam que iriam encontrar essa situação?
Ana Carolina Franzon – Sim, porque nas pesquisas que realizamos em Saúde Coletiva temos uma trajetória de escuta das mulheres. As pesquisas sobre a qualidade da assistência compreendem: a efetividade das condutas clínicas, a segurança das pacientes e sua experiência emocional com todo o processo de cuidado.
Estamos fazendo uma escolha consciente, quando priorizamos a perspectiva que as mulheres têm de todos os direitos reprodutivos que lhes foram subtraídos pela instituição ou pelos profissionais das maternidades.
Blog da Saúde — O vídeo é uma denúncia.
Ana Carolina Franzon – Sem dúvida, sim. Há um ano a nossa grande questão é desnaturalizar essa forma de violência contra as mulheres, violência de gênero. Dar visibilidade aos direitos humanos das mulheres na gravidez, parto, pós-parto, planejamento reprodutivo e abortamento – que são os próprios direitos reprodutivos.
Temos uma reação muito comum e corriqueira – especialmente anunciada por profissionais de saúde – que é de desmerecimento da questão, uma tentativa talvez até inconsciente de naturalizar os maus-tratos e invisibilizar a questão.
Já ouvimos de tudo um pouco: que estamos transformando “problemas médicos” em fatos policialescos; que não temos a mínima ideia da violência que os próprios profissionais sofrem do sistema de saúde – como se uma violência justificasse a outra; que tudo não passa de uma escolha ou descompensação/exagero por parte das mulheres.
O problema da invisibilidade é que as mulheres ficam fadadas ao silêncio e à individualização, personalização, do dano. Ou seja, não conseguimos politizar o debate, e continuaremos anos e anos sofrendo em silêncio, mas “felizes porque ao menos o bebê está bem”.
Também temos como resultado a responsabilização da fisiologia do parto pelos danos iatrogênicos. Parto normal não é terrível por si – como descreve a Bíblia cristã. É a assistência que pode piorá-lo — e muito.
Blog da Saúde — Com base nas suas pesquisas e neste vídeo, o que recomendaria?
Ana Carolina Franzon – Sempre encorajamos as mulheres a buscarem informações alternativas sobre os processos da gravidez, parto e pós-parto, com valorização da troca de experiências.
Infelizmente, a realidade dos serviços hoje, de modo geral, não consegue viabilizar a “escuta das mulheres” – suas histórias de vida são geralmente marcadas por situações que não devem ser compartilhadas em grupos, e é assim que os serviços as silenciam. Queremos resgatar os benefícios dos grupos populares de apoio, com rodas dialogadas sobre direitos e cidadania – além de informações sobre fisiologia da gravidez e parto, com esclarecimento sobre riscos e benefícios.
Temos hoje grupos voluntários de apoio entre usuárias, que existem na maior parte das capitais e em algumas cidades do interior. A Rede Parto do Princípio mantém uma lista periodicamente atualizada com as informações destes grupos.
Além disso, temos uma agenda de pesquisa e políticas públicas que inclui a criação de indicadores específicos para o parto, para que seja possível monitorar e avaliar a qualidade da assistência. Enquanto todos os procedimentos não estiverem bem monitorados, continuaremos produzindo uma cultura de fobia do parto normal, como se os danos fossem próprios da fisiologia e não, da iatrogenia. E o número de cesáreas tenderá a aumentar.
Acima de tudo queremos colaborar para a mudança do modelo de assistência ao parto, hoje centrado no bem-estar do provedor de saúde e não da mulher. Para termos experiências mais satisfatórias, precisamos:
* ter autonomia sobre nossos corpos;
* de esclarecimentos verdadeiros sobre riscos e benefícios dos procedimentos:
* ter liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, com incentivo ao parto normal em posição verticalizada;
* analgesia de qualidade para todas as mulheres;
* e o cumprimento estrito da Lei do Acompanhante, que prevê sua permanência junto da mulher durante toda a internação.
Eu assisti ao vídeo. Estarrece. Vale a pena conhecê-lo.Embora as mulheres pobres e as negras sejam as as principais vítimas da violência no parto, aquelas de alto poder aquisitivo, que têm os seus bebês em hospitais famosos, não estão livres do problema.
Conceição Lemes
No Blog da Saúde
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Convívio e tolerância

 
Entre os dias 29 de novembro e 1º de dezembro, Porto Alegre vai abrigar um conjunto de atividades culturais, parlamentares e políticas da comunidade palestina, promovidas pela CUT nacional, no âmbito do Fórum Social Mundial. Os eventos ocorrem com o apoio da Secretaria Geral da Presidência da República e foram acolhidos pelo Governo do Estado, como todos os governos têm feito desde o primeiro fórum que ocorreu na Capital gaúcha em 2001.
No âmbito destas atividades, o Fórum Social Palestina Livre irá promover debates cujo sentido é defender o direito, já proclamado pela ONU, da existência de um Estado Palestino soberano.
O Governo do Rio Grande do Sul, juntamente com outras autoridades constituídas, colabora na organização do evento e não renuncia a oportunidade de organizar diálogos que podem promover a paz com base no acatamento às resoluções da ONU. Como ocorreu em outras ocasiões, isso não significa assumirmos posição de “parte” nos debates, ou mesmo a consagração, pelo nosso governo, de posições assumidas por quaisquer dos debatedores. O Governo do Estado tem posição sobre o conflito e ela é a mesma do Governo do Brasil.
O governo brasileiro defende o direito do povo palestino a ter o seu próprio Estado em pé de igualdade jurídica e política com o Estado de Israel, o que é aceito por todas as nações democráticas do mundo, a partir da consagração de fronteiras claras, reconhecimento das identidades recíprocas, culturais e religiosas, definidas através de acordos negociados entre as autoridades políticas dos dois povos, com arbitragem da Organização das Nações Unidas. Esta posição tem também como base a condenação, baseada em princípios, de quaisquer ações fundadas em métodos terroristas, partam de onde partirem.
Entendemos que eventos desta natureza, além de servir para demonstrações de capacidade de diálogo, apreço a democracia e respeito integral aos direitos humanos, devem gerar manifestações que estimulem a negociação política e a ação das instâncias internacionais de arbitragem. Rejeitar posturas -partam de onde partirem – que sirvam para acender ódios sectários e promover manifestações de intolerância entre os povos é uma posição muito cara para o nosso governo.
O Governo estadual segue uma política de acolhida de grandes debates nacionais e internacionais, originários do Fórum Social Mundial e, neste caso concreto, soma-se a nossa disposição de demonstrar o alto nível de convívio e respeito que ambas as comunidades, israelita e palestina, travam aqui nos pagos gaúchos. Exemplo que pode servir de modelo de tolerância e reconhecimento das identidades nacionais, dentro dos marcos de uma ordem democrática internacional, baseada na paz entre os povos e no respeito aos direitos humanos.
Quando os conflitos se exacerbam é que se abre o momento adequado para demonstrações de verdadeira tolerância e de promoção do chamado “espírito de paz”, pois é precisamente nestes momentos que as ideologias e as convicções são testadas para mais além da retórica política cotidiana. Lamentavelmente, na história da humanidade, foi sempre a partir do sangue dos inocentes que os líderes verdadeiramente pacifistas dos povos tiveram a sensatez de construir os alicerces da paz. O “cessar-fogo”, ajustado na semana que passou, pode ser um momento lúcido que se transforme numa regra de convívio.
Tarso Genro
Governador do Estado do Rio Grande do Sul
No Correio do Brasil
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A cegueira conveniente da imprensa

 
A observação imediata da imprensa, como é feita neste espaço diariamente, é um exercício delicado, pelo constante risco de avaliações incorretas, o que exige a leitura sistemática, a manutenção de fontes confiáveis e arquivos facilmente acessíveis.
Outra coisa é a observação que é feita na pesquisa acadêmica, utilizando metodologias consagradas nas ciências sociais e beneficiada pelo tempo disponível para a maturação das conclusões.
Em ambos os casos, o pesquisador tem a possibilidade de identificar ocorrências isoladas que são capazes de representar tendências mais amplas.
É o caso, por exemplo, do artigo produzido pela jornalista gaúcha Deysi Cioccari, e apresentado na sexta-feira (23/11), durante o evento Interprogramas na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, no qual ela analisa exclusivamente os registros fotográficos feitos pela Folha de S. Paulo e a revista Veja durante o processo de cassação do ex-senador Demóstenes Torres.
Fato estranho
A pesquisadora acompanhou, entre os dias 29 de fevereiro e 7 de maio deste ano, o surgimento de denúncias envolvendo o então líder do Partido Democratas com atividades criminosas de Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, explorador de jogos de azar.
Mas baseou suas observações nas escolhas das imagens feitas pela Folha e a Veja, na cobertura dos fatos relacionados ao escândalo, procurando identificar o papel ideológico das imagens fotográficas de acordo com a teoria da segunda realidade, elaborada pelo fotógrafo e historiador brasileiro Boris Kossoy, e com o conceito de simulacro, proposto pelo filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard.
Como se sabe, a relevância das imagens é fator conhecido no processo da imprensa moderna, e não são poucos os estudiosos que consideram as escolhas de fotografias como parte central na definição do sentido que se quer dar ao noticiário.
Esse é, quase sempre, o elemento que diferencia os veículos destinados a públicos mais educados e o chamado jornalismo popular. Além disso, as fotografias que compõem a primeira página de um jornal e a capa das revistas de informação representam, junto com a manchete, o recurso mais relevante para atrair a atenção do leitor. Portanto, a observação de Deysi Cioccari se concentra em um ponto crucial do trabalho jornalístico, que revela as principais intenções de cada edição analisada.
Chama atenção, no material pesquisado, o fato de que a Folha de S. Paulo registrou e destacou, desde o primeiro momento, a revelação do envolvimento do senador com o bicheiro, enquanto a revista Veja, claramente, procurou se manter alheia ao desenvolvimento dos fatos, entrando num bizarro processo de alienação, que é revelado pela pesquisadora.
Assim, no dia 29 de fevereiro, quando veio a público a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelando-se as primeiras ligações entre Demóstenes Torres e Carlos Cachoeira, Veja saiu com uma fotografia do padre católico Marcelo Rossi, e o título: “Ágape, o milagre da leitura”.
A operação policial não mereceu nem mesmo uma nota na coluna “Radar”, dedicada à política.
Em 7 de março, na semana marcada pela defesa inicial de Torres, quando a Folha publicava declaração do então senador negando ter concedido favores ao bicheiro, a revista Veja saiu pela tangente com reportagem intitulada “Por que o Brasil tem o iPhone mais caro do mundo”.
O fato se torna ainda mais estranho, segundo a autora, porque nessa altura a Folha deixava claro que ainda não havia provas de relação ilícita do senador com Cachoeira.
Na semana seguinte, quando a Polícia Federal anunciava o indiciamento de Carlos Cachoeira e mais 81 suspeitos, Veja saiu com o lutador Anderson Silva na capa, sob o título “O gladiador tranquilo”.
O que Veja não viu
A sequência do material revela o agravamento das revelações feitas pela imprensa sobre o esquema do qual fazia parte o senador, com a Folha de S. Paulo destacando as novidades do inquérito e do processo iniciado no Senado Federal, mas, estranhamente, até então o jornal também tinha evitado expor a imagem do acusado em fotografia na primeira página.
Apenas no dia 27 de março, quando a crise toma grandes proporções e o Partido Democratas cogita expulsar o senador goiano, a Folha exibe uma foto do acusado, na verdade um registro do banco de imagens do Supremo Tribunal Federal de quase um mês antes.
Em abril, quando a situação de Demóstenes Torres se revela insustentável, Veja oferece capa com “O mistério renovado do Santo Sudário” e uma reportagem sobre jovens empreendedores brasileiros, sob o título “Os filhos da inovação”. Na sequência da crise política, houve ainda capas sobre as vantagens das pessoas mais altas, mulheres na chefia de empresas e outros assuntos aleatórios.
A pesquisadora conclui que não foi a mídia que desmascarou Demóstenes, mas contribuiu para sua derrocada, e o registro desse processo revela como a imprensa se dividiu “entre a condenação antecipada de um lado (pela Folha de S. Paulo) e o silêncio mortuário de outro” (a estranha alienação de Veja).
Luciano Martins Costa
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Daselite

Ser especial

Afinal, qual a graça de ter muito dinheiro? Quanto mais coisas se tem, mais se quer ter e os desejos e anseios vão mudando - e aumentando - a cada dia, só que a coisa não é assim tão simples. Bom mesmo é possuir coisas exclusivas, a que só nós temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio.
Um homem que começa do nada, por exemplo: no início de sua vida, ter um apartamento era uma ambição quase impossível de alcançar; mas, agora, cheio de sucesso, se você falar que está pensando em comprar um com menos de 800 metros quadrados, piscina, sauna e churrasqueira, ele vai olhar para você com o maior desprezo - isso se olhar.
Vai longe o tempo do primeiro fusquinha comprado com o maior sacrifício; agora, se não for um importado, com televisão, bar e computador, não interessa - e só tem graça se for o único a ter o brinquedinho. Somos todos verdadeiras crianças, e só queremos ser únicos, especiais e raros; simples, não?
Queremos todas as brincadeirinhas eletrônicas, que acabaram de ser lançadas, mas qual a graça, se até o vizinho tiver as mesmas? O problema é: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?
As viagens, por exemplo: já se foi o tempo em que ir a Paris era só para alguns; hoje, ninguém quer ouvir o relato da subida do Nilo, do passeio de balão pelo deserto ou ver as fotos da viagem - e se for o vídeo, pior ainda - de quem foi às muralhas da China. Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros - não é melhor ficar por aqui mesmo?
Viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?
Até outro dia causava um certo frisson ter um jatinho para viagens mais longas e um helicóptero para chegar a Petrópolis ou Angra sem passar pelo desconforto dos congestionamentos.
Mas hoje esses pequenos objetos de desejo ficaram tão banais que só podem deslumbrar uma menina modesta que ainda não passou dos 18. A não ser, talvez, que o interior do jatinho seja feito de couro de cobra - talvez.
É claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça.
Seguindo esse raciocínio, subir o Champs Elysées numa linda tarde de primavera, junto a milhares de turistas tendo as mesmas visões de beleza, é de uma banalidade insuportável. Não importa estar no lugar mais bonito do mundo; o que interessa é saber que só poucos, como você, podem desfrutar do mesmo encantamento.
Quando se chega a esse ponto, a vida fica difícil. Ir para o Caribe não dá, porque as praias estão infestadas de turistas - assim como Nova York, Londres e Paris; e como no Nordeste só tem alemães e japoneses, chega-se à conclusão de que o mundo está ficando pequeno.
Para os muito exigentes, passa a existir uma única solução: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates - sem medo de engordar -, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha.
E quer saber? Se o livro for mesmo bom, não tem nada melhor na vida.
Quase nada, digamos.
Danusa Leão
No fAlha
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Sobre o caso Rosemary e a lulofobia

Acima de tudo, ela é mais uma escada pela qual se tenta pegar novamente Lula
Rosemary
Lula é, certamente, o homem mais odiado pelo chamado 1%, para usar a já histórica expressão do Movimento Ocupe Wall St. (Para os 99%, o posto é de Serra, com o surgimento de uma concorrência potencial em Joaquim Barbosa, o Batman.)
É impressionante o júbilo com que é celebrada pelo 1% qualquer notícia que possa servir de munição contra Lula, o lulismo, o lulo-petismo e outras designações criadas pelos obsequiosos porta-vozes de um grupo pequeno mas barulhento que torce e trabalha para que o Brasil jamais se torne uma Dinamarca, ou uma Noruega, ou uma Finlândia.
São sociedades harmoniosas, não divididas entre 1% e 99%, como o Brasil. Apenas para registro, o Brasil campeão mundial da desigualdade – com todos os problemas decorrentes disso, a começar pela criminalidade – foi obra exatamente deste grupo.
O Estado brasileiro foi durante décadas uma babá do 1%. Calotes em bancos públicos eram sistematicamente aliviados em operações entre amigos – mas com o dinheiro do contribuinte. Cresci, como jornalista, nos anos 1980, com o Jornal do Brasil transformando dívidas com o Banco do Brasil em anúncios.
Este é apenas um caso.
O BNDES foi sequestrado, também, pelo 1%: a inépcia administrativa de tantas empresas familiares malacostumadas pela reserva de mercado era premiada com operações de socorro financeiro. Sempre com o dinheiro do contribuinte.
Apenas para registro também, lembremos que a reserva de mercado sobrevive ainda – não me pergunte por que – na mídia que tanto clama por competição, mas para os outros.
O 1% detesta Lula, não porque Lula tenha nove dedos, ou seja metalúrgico, ou fale errado, ou torça pelo Corinthians. Detesta Lula porque ele não representa o 1%. Se representasse, todos os seus defeitos seriam tratados como virtudes.
Não votei em Lula nem em 2002 e nem em 2006. Portanto, não tenho mérito nenhum na sua chegada à presidência e na consequente, e fundamental, mudança de foco do governo – ainda que cheia de erros — rumo aos 99%.
Mas não sou cego para não enxergar o avanço. O maior problema do Brasil – a abjeta desigualdade social – começou ao menos a ser enfrentado sob Lula.
Hoje, quando homens públicos em todo o mundo elegem a desigualdade social como o mal maior a debelar, parece óbvio que Lula tinha mesmo que prestigiar os 99% ao se tornar presidente.
Mas nenhum presidente na era moderna nacional viu o óbvio. Mesmo ao erudito poliglota Fernando Henrique Cardoso – de quem ninguém pode subtrair o mérito por derrubar a inflação – escapou o óbvio. Tente encontrar alguma fala de FHC, na presidência, sobre o drama da iniquidade social. Em qualquer uma das múltiplas línguas que ele domina. Zero.
É dentro desse quadro de colossal ódio a Lula que se deve entender a forma com quem está sendo tratado o caso de Rosemary Nóvoa de Noronha, indiciada por corrupção pela Polícia Federal em suas funções como chefe do escritório do gabinete da presidência em São Paulo.
Rosemary foi demitida imediatamente por Dilma, e agora vai responder pelas suas supostas delinquências, como um cruzeiro e uma plástica na faixa, pelo que foi noticiado.
Mas ela é personagem secundária na chamada Operação Porto Seguro. O protagonista é Lula. Nos artigos sobre a história, Lula ocupa o pedestal. “A mulher do Lula”, escreveu alguém, embora ela tenha sido secretária por muitos anos de José Dirceu. Foi para Dirceu, e não para Lula, que, segundo agentes policiais, ela ligou desesperada quando a PF chegou a seu apartamento na prosaica 13 de Maio, bairro das cantinas italianas em São Paulo. Nada existe de luxuoso no apartamento, ainda de acordo com a polícia.
Rosemary é uma escada pela qual, mais uma vez, se tenta pegar Lula. Estaria Lula envolvido na plástica suspeita de Rosemary? E no cruzeiro? O dinheiro terá vindo do valerioduto?
Chega a ser engraçado.
Tenho para mim o seguinte. Se os lulofóbicos dedicassem parte da energia que consomem em odiá-lo na procura honesta de formas de convencer os eleitores de que são mais capazes que Lula para combater a desigualdade social, eles já estariam no Planalto a esta altura, e do jeito certo, numa democracia: pelas urnas.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Charge online - Bessinha - # 1587

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