24 de nov de 2012

Filho de Ciro Gomes é detido e imprensa do Ceará abafa o caso

Se você chegou até aqui movido pela curiosidade de saber detalhes sobre o que houve com o filho de Ciro Gomes, lamento decepcioná-lo(a). Escrevi esse texto motivado mais pela atitude da imprensa sabuja de Fortaleza do que pelo caso do Ciro Jr.
Do pouco que foi divulgado, o filho do ex-governador do Ceará envolveu-se, na manhã deste sábado, num acidente de trânsito e, supostamente, em seu carro foram encontradas bebidas e drogas, fato que o levou a prestar esclarecimentos em uma delegacia da capital cearense (o 2º distrito, no bairro Aldeota, segundo informa o Terra.
Que ele se resolva com a Justiça e não seja criminalizado por ser usuário de drogas, prática policial comprovadamente inadequada e ineficaz. Mas isso é outra discussão e me interessa aqui analisar como os principais grupos midiáticos do estado abordaram o episódio.
O portal do jornal O Povo, tido como o mais sério e independente, publicou nota acanhada a respeito, que ganhou destaque secundário na página inicial no início dessa tarde. Fui informado que a demora na publicação se deveu à confusão entre versões. Também me disseram que o blog do Eliomar, colunista do jornal, havia noticiado o fato ainda pela manhã, mas não achei qualquer menção ao caso no blog neste momento (15h).
O Povo foi bastante tímido ao reportar o fato (clique para ampliar)
Já o Diário do Nordeste, do grupo Edson Queiroz, dono da afiliada da Rede Globo local, foi malandro: deu destaque amplo na home page do portal, informou que o motorista tentou subornar os policiais, mas não disse – nem no título e nem no texto da matéria – que se tratava do filho de Ciro Gomes, como se vê no print da tela abaixo.
“Motorista é preso ao se recusar a fazer o teste do bafômetro”
Esse é um bom exemplo do jornalismo sabujo e bajulador. Como o Diário do Nordeste noticiaria o caso se o envolvido fosse a prefeita Luizianne Lins (PT) ou outro político petista?
Curiosamente, a notícia mais completa saiu justamente num blog do grupo Jangadeiro, pertencente à família Jereissati, de notórias boas relações com o clã dos Ferreira Gomes.
Às 8h40 da manhã, a jornalista Kézya Diniz publicou post no seu blog, hospedado no site da TV Jangadeiro, e informou logo no primeiro parágrafo que o condutor detido era  o filho de Ciro Gomes. Embora também omita o “detalhe” na manchete (curiosamente o link do post indica que o título trazia essa informação) e esteja repleto de erros ortográficos, o texto é o que mais atende aos critérios jornalísticos.
Repórter da Jangadeiro mostrou independência
A repórter também cita a proibição de acesso da imprensa às dependências da delegacia. Acho até acertada a decisão da polícia, mas lamento que esse zelo com o direito à privacidade não ocorre quando os detidos são pessoas pobres ou sem notoriedade, o que permite o show de horrores que as TVs exibem como notícias “de polícia”.
NENHUM dos três veículos, entretanto, publicou uma foto, mesmo de arquivo, do ilustre rapaz.
A conclusão a que podemos chegar é a mesma de sempre: diante dos ricos e poderosos, salvo exceções, a imprensa pisa em ovos para noticiar suas condutas condenáveis.
Mas engana-se quem acredita que isso não é um problema da “imprensa regional”. Procure escândalos das maiores corporações do mundo nos principais jornais globais. Ou das grandes empresas brasileiras na Folha de SP, O Globo, Estadão e afins… Se/quando encontrar, serão exceções e bastante mutiladas. E, muito provavelmente, publicadas somente após condenações judiciais ou terem sido divulgadas no exterior.
No Conexão Brasília Maranhão
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Riqueza protegida pelo anonimato

Estudioso há décadas do sistema financeiro, o economista Fernando Nogueira da Costa recebeu em setembro um prêmio do Conselho Federal de Economia (Cofecon) pela publicação do livro Brasil dos Bancos (Edusp), interpretação crítica da história bancária brasileira. Ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007), Costa não seguiu para a iniciativa privada. Preferiu voltar à Unicamp, onde é professor do Instituto de Economia. E coleta indícios sobre a concentração de riqueza no País, que ele supõe seguir em alta, apesar da falta de informações confiáveis a respeito. “O que peço é que os pesquisadores tenham dados próximos da realidade.”
“A desigualdade caiu no caso da
renda, não quando se medem os
ativos financeiros e os bens,
cada vez mais concentrados”.
Foto: Isadora Pamplona
CartaCapital: O senhor tem estudado a concentração de riqueza no País. Ela tem aumentado?
Fernando Nogueira da Costa: O debate sobre a concentração de riqueza no Brasil está praticamente no começo. Percebe-se que a recente distribuição da renda do trabalho é significativa em termos relativos, mas em termos absolutos a concentração ainda é muito grande. A renda média do 1% mais rico é de pouco mais de 16 mil reais, enquanto a renda média dos brasileiros é de 1,3 mil reais, o que é muito significativo, embora o crescimento da renda tenha sido maior para os que ganham menos. Em razão disso, se fala na diminuição da desigualdade, mas ela ocorre em razão da renda do trabalho, não da riqueza financeira.
CC: Passa a impressão errada?
FNC: Exatamente, passa a impressão de que vivemos uma desconcentração da riqueza, quando não é verdade.
CC: Mesmo no caso da renda, a redução da desigualdade ainda é muito tímida, não?
FNC: É tímida em termos das desigualdades, que são heranças históricas. O Brasil era o segundo país com a pior distribuição de renda do mundo no fim dos anos 1990. Em primeiro, vinha a África do Sul do Apartheid. Melhoramos no ranking, hoje o Brasil deve estar em 12º, em razão das políticas sociais, do crescimento, da formalidade no mercado de trabalho… Mas o desafio é muito grande para chegarmos a uma sociedade mais igualitária, com políticas públicas capazes de mudar a concentração de riqueza. E o desafio começa por sabermos do que falamos, pois é um problema conceitual diferente.
CC: Em que sentido?
FNC: Renda tem a ver com fluxo, é o valor agregado ao longo de um ano. Riqueza não, riqueza é um estoque acumulado ao longo não só da vida de cada pessoa, mas herdado. Então é uma riqueza que se transmite para outras gerações. O problema é extremamente complexo e no mundo todo é assim. No planeta, a tendência é haver uma grande concentração de riqueza. Como não existem dados objetivos, é preciso trabalhar com indícios. E os indícios mostram que mesmo nos paí­ses emergentes, nos BRICS, tem aumentado a concentração.
CC: E nos países centrais?
FNC: Em razão da crise houve uma certa deflação dos ativos. E aí chegamos a um ponto importante: a riqueza, em termos das divulgações que temos, é medida pelo valor de mercado, no mercado de capitais, por exemplo, e se valoriza ou se desvaloriza no dia a dia das Bolsas. Raramente o homem comum, o assalariado, tem a dimensão exata da sua riqueza. A cotação de seus ativos varia, no mercado de ações, mas também o preço do seu automóvel usado, dos imóveis. No mercado financeiro, existe a “marcação a mercado” dos bens a cada dia, mas no caso dos outros ativos, não. Então qual é a fonte de informação para medir a riqueza? Aí existe muita dificuldade. Nos países de capitalismo maduro existem alguns tipos de estatísticas. Mas o Brasil está muito atrás, embora o sistema brasileiro de gestão de estatísticas do IBGE seja de alta qualidade técnica.
CC: Não é como o Indec argentino…
FNC: Não, não é. Agora, curiosamente na mensuração da riqueza, a Argentina é o único país da América Latina com estatísticas a partir da declaração de Imposto de Renda.
CC: É um exemplo positivo então?
FNC: Neste caso, sim, e é um desafio o IBGE fazer o mesmo. E me parece que a sociedade cobra hoje, dentro do debate sobre a concentração de riqueza, que o IBGE avance nesse sentido, faça um convênio com a Secretaria da Receita Federal porque existe a fonte de dados para trabalhar, de maneira agregada evidentemente, por causa do sigilo. Mas para trabalhar com os agregados, a partir de uma estratificação, e recuperar os dados das declarações de pessoas físicas. E depois comparar com as declarações das pessoas jurídicas. O que peço é que os pesquisadores tenham dados próximos da realidade. As declarações de bens e direitos têm um viés muito claro, as pessoas declaram os bens e direitos no fim do ano, e o saldo no caso dos ativos financeiros. Os ativos de base imobiliária, que na estimativa que fiz representam cerca de 40% do total, são, porém, declarados em valores históricos, o que representa uma defasagem expressiva. Isso significa que 40% do total é subestimado. Se o Imposto de Renda permitisse a atualização no valor de mercado de determinados tipos de bens para determinado ano, aí seria mais próximo da realidade.
CC: Por que não acontece?
FNC: Existem razões para a Secretaria da Receita Federal não solicitar. Evidentemente, isso pode esconder muita riqueza, muito dinheiro frio. Se tivéssemos a declaração estratificada pelos níveis de riqueza financeira, já serviria. A minha finalidade como pesquisador é medir o potencial de funding, de fontes de financiamento de longo prazo. É importante por estarmos em um momento de mudança dos portfólios, nas carteiras de ativos e com mobilidade social. A questão é sabermos para onde vai o País. E aí voltamos aos indícios. Em um desses relatórios de riqueza mundial, o Brasil foi o país onde mais cresceu a riqueza no ano passado, levando em conta as principais nações. Houve um crescimento de 6,2% na riqueza. E poucos países registraram crescimento. A riqueza financeira desses bilionários brasileiros é de cerca de 200 bilhões de reais, mas a riqueza financeira do Brasil é de 3,8 trilhões de reais. Se tivéssemos a informação ano a ano, estratificada, serviria para acompanhar as mudanças no mercado de trabalho. E me parece que esses dados não são divulgados por falta de iniciativa. Do jeito que está, podemos levantar indícios, mas não dá para julgar bem a sociedade com base em indícios, precisamos de provas, inclusive porque o Brasil é extremamente injusto.
CC: O senhor é a favor da taxação das grandes fortunas?
FNC: É um assunto complexo, e para situações complexas não existem soluções simples. A taxação de patrimônio voltou a ser debatida mundo afora, em governos do centro para a esquerda, e que sempre volta ao debate em momentos de crise. O presidente socialista francês quer voltar a taxar com alíquota de 75%. Mas em uma economia aberta e em um mundo globalizado, esse tipo de política leva à fuga de capitais. Teremos de estudar mais a riqueza, até para bloquear as rotas de fuga.
Luiz Antonio Cintra
No CartaCapital
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Gurgel acuado

É sinal positivo o clamor da oposição, em coro com trêfegos parlamentares da base governista, contra o texto do deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPMI sobre as atividades criminosas e as afinidades eletivas do bicheiro Carlinhos Cachoeira.
Cunha incomodou muita gente e contrariou variados interesses. Não se sabe se o relatório conseguirá cruzar a tempestade provocada pelos contrariados e chegar a porto seguro. Na partida, se assemelha a um barquinho navegando sob bombardeio. E pode afundar antes de ancorar.
A lista de indiciados e de responsabilizados, elaborada por Cunha, é uma carga pesada. O relator julgou suficientes as provas colhidas que, em princípio, são capazes de derrubar o governador tucano Marconi Perillo (GO); de incriminar jornalistas que, ao romper limites éticos, transitaram do campo da investigação para o da associação, e de provocar danos graves ao empresário Fernando Cavendish, da Delta, entre outros casos.
Notadamente, o relatório pode desestabilizar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Gurgel é peixe graúdo. A contrariedade da mídia, com a inclusão do nome dele na lista de Cunha, comprova. Ele tornou-se um procurador heterodoxo. Virou peça do jogo político de curto e de longo prazo. Em linhas gerais, passou a atuar afinado com a oposição a Dilma, a colaborar com o esforço de neutralização de Lula e, por fim, mas não menos importante, a agir com o objetivo de encerrar o ciclo do PT no poder.
Caso aprovado, o relatório de Cunha pode abalar Gurgel e, inclusive, interferir na própria sucessão dele, na PGR, em julho de 2013.Roberto Gurgel é acusado por crimes constitucional, legal e funcional. A aprovação do relatório, nesse ponto, levará a questão à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, competente para processar o procurador-geral por crime de responsabilidade.
No STF, Gurgel seria julgado por improbidade administrativa e por prevaricação. O procurador-geral foi fisgado porque manteve engavetadas as denúncias da Operação Vegas. Assim atraiu a suspeita de ter sido conivente com as atividades criminosas de Cachoeira, apuradas pela Polícia Federal. Ele alegou à CPI que tinha detectado somente desvios no “campo ético”, insuficientes para abrir ação penal.
Gurgel, no entanto, mantém outros problemas na gaveta. Há quase cem dias guarda o processo enviado ao Ministério Público, no qual a governadora Roseana Sarney (MA) é acusada de assinar convênios com as prefeituras, no valor aproximado de 1 bilhão de reais. Cabe a ele dar um parecer que pode levar Roseana a perder o mandato.
Há quem veja nessa morosidade um conluio entre o senador Sarney, pai da governadora, e Gurgel. Sustentam essa hipótese renitentes coincidências. José Arantes, assessor parlamentar do procurador-geral foi assessor parlamentar de Sarney na Presidência da República. Seria apenas um detalhe curioso?
Mas há problemas concretos. Um deles, já denunciado nesta coluna, levou o presidente da Câmara quase à exasperação. Na terça-feira 20, o deputado Marco Maia criticou pública e duramente o Senado pela morosidade em votar a indicação do professor Luiz Moreira, já aprovada pelos deputados, para o Conselho Nacional do Ministério Público (CNPM).
Seria “morosidade gurgeliana”? Ou seja, a indicação estaria bloqueada por Sarney em favor de Gurgel? Gurgel teria bloqueado o processo de Roseana em favor de Sarney? Finalmente, haveria nessa história uma vergonhosa troca de favores?
Maurício Dias
No CartaCapital
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Deputado Rogério Correia PT-MG

Dica da Milu Duarte
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Nota da Bancada do PT na Câmara dos Deputados

PARTIDO DOS TRABALHADORES
GABINETE DA LIDERANÇA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS
NOTA DA BANCADA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES NA CÂMARA DOS DEPUTADOS SOBRE AS RELAÇÕES PERIGOSAS DO GOVERNADOR MARCONI PERILLO COM O “EMPRESÁRIO” CARLOS CACHOEIRA
A nota oficial do governador Marconi Perillo em que tenta desqualificar o relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou o senhor Carlos Cachoeira apenas revela uma tentativa desesperada de salvar seu mandato e seu governo, em razão dos vínculos estreitos e perigosos mantidos com a organização criminosa chefiada por Cachoeira.
Diferentemente do que afirma o chefe do Executivo goiano, trata-se de um relatório sereno, coerente e contundente na demonstração de que o governador e a alta cúpula de seu governo estavam à mercê dos desígnios de uma organização criminosa incrustrada no estado de Goiás.
O relatório demonstra com riqueza de detalhes, substanciado em provas amealhadas pela Polícia Federal durante vários meses de investigação e em documentos em poder da CPMI, que o governador Marconi Perillo havia firmado, já durante a campanha que o levou ao governo de Goiás, uma verdadeira parceria política e econômica com a sociedade Delta/Carlos Cachoeira naquele estado.
A participação do governador Perillo na CPMI, longe de significar um gesto de lisura ou compromisso ético, foi, ao contrário, uma manobra preparada para tentar afastar suas vinculações com Carlos Cachoeira, como se viu em toda a farsa criada em torno da venda de sua casa para o criminoso.
A investigação realizada pela CPMI apontou com clareza que o governador efetivamente beneficiava o grupo Delta/Cachoeira, nomeava para cargos estratégicos em seu governo pessoas indicadas pelo chefe da organização criminosa e, em troca, recebia recursos financeiros e outros favores da quadrilha.
O trabalho sério da relatoria mostrou para todo o Brasil, e principalmente para a sociedade goiana, que, além do próprio governador, vários secretários, procuradores de Estado e auxiliares diretos do governo de Goiás também haviam aderido à organização criminosa, em troca de vantagens financeiras diversas.
Diferentemente do que afirma o senhor Perillo, o relatório faz uma investigação ampla da empresa Delta para além da região Centro-Oeste e aponta todos os indícios, inclusive com a identificação de mais de 116 empresas, de irregularidades que poderão ser aprofundadas pelo Ministério Público e pela própria Polícia Federal.
Não há revanchismo, perseguição ou espírito de vingança por parte do relator. O relatório final da CPMI retrata uma situação que já se mostrava pública. Caberá agora ao governador explicar à sociedade brasileira o motivo que levou seu governo ser partilhado e, em grande parte, conduzido efetivamente pelo chefe de uma das maiores organizações criminosas já estruturadas no país.
Com a palavra, o governador Marconi Perillo.
Deputado Jilmar Tatto-PT/SP
Líder da Bancada na Câmara
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PSDB é contra a redução da conta luz

As empresas de energia elétrica, muitas delas multinacionais, declararam guerra à medida provisória do governo que reduz o preço das contas de luz no bojo da renovação das concessões públicas. Nesta campanha terrorista, elas contam com dois aliado de peso: a mídia privada e o PSDB, tendo à frente o senador Aécio Neves. Há quase um mês, o braço político-midiático destas corporações investe contra a medida, que visa baratear os custos da energia elétrica e incentivar o crescimento econômico do país.
Ontem, a presidenta Dilma Rousseff sinalizou que não pretende recuar diante da pressão. O governo reafirmou que manterá os prazos e as regras fixadas para a renovação das concessões no setor. Segundo a Folha, “num informe verbal, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República descartou qualquer negociação com o Congresso e com o setor elétrico sobre a possibilidade de abrir uma ‘janela’ para que as empresas que deixaram de aderir ao programa de renovação o façam depois de aprovada a MP”.
O cambaleante Aécio Neves
O Palácio do Planalto "quer que o texto seja aprovado sem alterações e sem atender à pressão das empresas”, afirma o jornal. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é o relator da Medida Provisória 579, que deverá ser votada nas próximas semanas. Até lá, o lobby das companhias tende a crescer. Diariamente, os jornalões têm publicado artigos apocalípticos sobre o tema. Afirmam que há risco de colapso no setor elétrico, de novos “apagões”, com a não renovação das concessões e o fim dos investimentos.
Na linha de frente desta campanha terrorista da mídia estão renomados tucanos. O senador mineiro Aécio Neves, que tenta salvar sua cambaleante candidatura presidencial, foi o primeiro a defender as empresas contra a redução das contas de luz. Alegou que a medida rompe contratos e prejudica o “deus-mercado”. Na sequência, outros caciques do PSDB foram acionados. O deputado paulista José Anibal afirmou que a MP 579 fere o pacto federativo, prejudica os estados e gera “insegurança jurídica em vários níveis”.
A "musa das privatizações"
“Em suma, o governo federal tem se utilizado de seu poder regulatório para impor ao setor e aos Estados regras draconianas e nada republicanas, afugentando investidores e descapitalizando empresas de um setor cuja saúde financeira é vital para o desenvolvimento. Ninguém é contra reduzir as tarifas de energia. Mas a fórmula encontrada é malfeita, injusta, truculenta e, provavelmente, sem base legal”, concluiu o tucano de São Paulo, o mesmo que foi rifado por José Serra nas prévias para as eleições da capital paulista.
Outra que saiu atirando contra a proposta da presidenta Dilma foi a economista Elena Landau, a “musa das privatizações” do governo FHC. Em artigo publicado no jornal Valor, ela garantiu que a MP 579 representa “uma guinada de 360º” na política de concessões ao setor privado. “Em 2013 corremos o risco de estar de volta a 1993, a um mundo de excessivo intervencionismo estatal, insegurança jurídica e controle tarifário”, afirma a privatista. Para ela, a iniciativa do governo peca pelo “radicalismo” no conteúdo e na forma.
Como se observa, o neoliberalismo foi derrotado nas três últimas eleições presidenciais, mas permanece com muita força no país – principalmente na mídia rentista. Tudo é feito para defender as corporações e os tais “investidores estrangeiros”, como se eles estivessem preocupados com o desenvolvimento do país – e não com seus lucros astronômicos. Qualquer medida de proteção da economia nacional e de incentivo ao crescimento é visto como “intervencionismo”. Reduzir contas de luz, então, é um crime!
Altamiro Borges
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Por que é certo indiciar Policarpo

Quando jornalistas viram amigos de suas fontes, o interesse público é sempre o maior perdedor
Policarpo Junior
Antes de tudo: não acredito que o jornalista Policarpo Júnior tenha tido, em suas relações com Carlinhos Cachoeira, a intenção de obter nada além de furos.
Isto posto, do ponto de vista estritamente jornalístico, Policarpo foi longe demais em sua busca de notícias, como os fatos deixaram claro.
Policarpo infringiu uma lei capital do bom jornalismo, enunciada há mais de um século por um dos mais brilhantes jornalistas da história, Joseph Pulitzer: “Jornalista não tem amigo”.
Pulitzer sabia que a amizade acaba influenciando o discernimento do jornalista, e subtraindo dele a capacidade de enxergar objetivamente sua fonte. É um preço muito alto para o bom jornalismo.
Os telefonemas trocados entre Cachoeira e Policarpo não mostram cumplicidade, no sentido pejorativo de companheirismo em delinquências. Mas revelam uma intimidade inaceitável no bom jornalismo, uma camaradagem que vai além dos limites do que é razoável.
Tiremos o excesso das palavras que têm varrido as discussões políticas, jurídicas e ideológicas no Brasil. Somos, subitamente, a pátria dos “quadrilheiros”. Policarpo está longe de se enquadrar, tecnicamente, nesta categoria, e disso estou certo. Não vararia madrugada em redação se recebesse de Cachoeira mais que dossiês.
Mas, por ter se tornado tão próximo de Cachoeira, ele acabou se deixando usar por um grupo no qual o interesse público era provavelmente a última coisa que importava. Logo, havia um envenenamento, já na origem, nas informações que ele recebia e publicava. Que Policarpo não se tenha dado conta do pântano em que pescava denúncias não depõe a favor de sua capacidade de observar, mas miopia não é crime.
Minha convicção é que ele não terá dificuldades, perante a justiça tão louvada pela mídia por sua atuação no Mensalão, em provar que fez apenas jornalismo com Cachoeira – ainda que mau jornalismo.
Mas é necessário que Policarpo enfrente o mesmo percurso de outros envolvidos neste caso. Ele deve à sociedade, e ao jornalismo, explicações.
Teria sido infame não arrolá-lo. Isso teria reforçado a ideia de que jornalista é uma categoria à parte, acima do bem e do mal, acima da lei.
Não existe nenhuma ameaça à “imprensa livre”, “imprensa independente” ou “imprensa crítica” quando jornalistas são instados a se explicar à justiça. Esta é uma espécie de chantagem emocional e cínica que a grande mídia vem fazendo na defesa de sua própria impunidade e intocabilidade. Todos sabemos quantos horrores e desatinos  editoriais são cometidos sob o escudo oportuno da “imprensa crítica”. Nos países desenvolvidos, o quadro é outro.
Nesta mesma semana, a jornalista inglesa Rebekah Brooks, a até pouco atrás “Rainha dos Tabloides” e favorita de seu ex-patrão Rupert Murdoch, foi indiciada pela justiça britânica sob a acusação de ter pagado propinas para policiais em troca de furos para um dos jornais que dirigiu, o Sun.
A ex-Rainha dos Tabloides foi indiciada, na Inglaterra
Nem Murdoch, com sua quase comovente devoção por Rebekah, cuja cabeleira rubra enfeitiça muita gente, se atreveu a dizer que a “imprensa independente” estava sendo agredida. Todos os jornais noticiaram o caso serenamente, com o merecido destaque.
Empresas jornalísticas não são instituições filantrópicas. Vivem dos lucros, e nisso evidentemente não existe mal nenhum – desde que os limites legais e éticos sejam respeitados. Em todas as circunstâncias, mesmo nas mais simples. Esta semana, para ficar num pequeno grande caso, o comediante Paulo Gustavo afirmou no twitter que a Veja fez uma reportagem com ele na qual o fotografou com uma camiseta amarela em que estava estampado Che Guevara. Segundo ele,  Che foi retirado da foto.
Do ponto de vista de ética jornalística, isso é admissível? Ou é uma pequena trapaça que pode dar origem a grandes? Tudo isso exige debate.
O episódio Policarpo é uma excelente oportunidade para que o Brasil discuta com transparência, como está acontecendo na Inglaterra, quais são mesmo estes limites, para o bem da sociedade e do interesse público.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Tudo ao contrário

O diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Jr., e o contraventor Carlinhos Cachoeira, que acaba de ser condenado por formação de quadrilha e tráfico de influência, mantiveram uma longa relação baseada na troca de favores. Verdade factual.
Cunha. O indômito relator pede o indiciamento de Policarpo Jr.,
mas já começa a fraquejar.
Foto: Monique Renne/D. A Press
Há provas irrefutáveis de que Cachoeira executou grampos a pedido de Policarpo Jr. e organizou a operação para monitorar os movimentos de José Dirceu, cujos resultados geraram uma capa da semanal da Abril. Provado está também que o ex-senador Demóstenes Torres ganhou as célebres páginas amarelas de Veja, prontas a apresentá-lo como um varão de Plutarco, em atenção a uma solicitação de Cachoeira. Investigações da Polícia Federal revelaram que, durante a feliz parceria, o profissional e o contraventor mantiveram mais de 200 conversações pelo telefone.
Situações similares em outros países provocaram a expulsão de jornalistas não somente de suas redações, mas também, e sobretudo, das próprias entidades da categoria. Por ter formulado acusações falsas, um diretor de redação italiano pagou recentemente pela culpa do seu jornal e foi condenado a alguns anos de reclusão. No Reino Unido, Rupert Murdoch teve de sair do país por ter praticado façanhas muito parecidas com aquelas cometidas pela Veja de Policarpo Jr.
No Brasil, causa surpresa, se não espanto, o fato de que o deputado Odair Cunha, relator da CPI do Cachoeira, peça o indiciamento do diretor da sucursal abriliana entre o de outros cidadãos sob suspeita, encabeçados pelo governador Marconi Perillo. Solicita também investigação a respeito do procurador-geral da República Roberto Gurgel. Ao todo, 46 nomes, e muitos jornalistas, embora sem a ressonância de Policarpo Jr. Donde já me apresso a preparar meu coração e meus ouvidos para a tradicional ladainha, a denunciar o assalto à liberdade de imprensa. Como é do conhecimento até do mundo mineral esta, nas nossas latitudes, corresponde à liberdade dos barões midiáticos e dos seus sabujos de agirem como bem entendem. Manipulam, omitem, mentem.
Quando a verdade factual dos comportamentos de Policarpo Jr., e portanto da Veja e da Abril, veio à tona faz meses, até um Marinho se moveu do Rio no rumo de Brasília para um encontro com o vice-presidente da República, Michel Temer, a fim de alertá-lo sobre os riscos que a mídia da casa-grande sofreria caso o parceiro de Cachoeira fosse chamado a depor na CPI. Logo, uma figura graúda da Abril seguiu-lhe os passos para reproduzir o alerta. Se havia um plano de convocar Policarpo Jr., este abortou. Temer sabe mexer seus pauzinhos.
De todo modo, a mídia está de prontidão. Alinhados, como sempre do mesmo lado, os jornalões agora acusam o relator da CPI de ter cedido às pressões do seu partido, o PT, que dúvida! Ora, ora, acabamos de viver, nós, de uma forma ou de outra privilegiados, as consequências do processo do chamado “mensalão”. Vimos o Supremo Tribunal Federal, representante do terceiro poder da nossa democracia, perpetrar desatinos jurídicos sem conta, ao usar, inclusive, uma interpretação inaplicável nas circunstâncias. Tratou-se de um julgamento eminentemente político. Nele o STF curvou-se às pressões da mídia em vez de atentar para os sentimentos da maioria da população, desinteressada do êxito da demanda. Nesta edição leiam, a propósito, a instrutiva coluna de Marcos Coimbra.
Não pretendo afirmar, com isso, que o PT no poder não se portou como os demais partidos. Chegou ao cúmulo de imitar os tucanos dos tempos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Sim, portou-se e imitou, mas a maioria dos brasileiros está mais atenta aos resultados dos governos Lula e Dilma. Para a mídia, entretanto, só pesam os interesses da casa-grande, e a determinação apoia-se com firmeza inaudita na desfaçatez e na prepotência, de sorte a me arriscar a um vaticínio: o pedido de indiciamento de Policarpo Jr., este no mínimo, vai naufragar no oblívio. Donde, as raposas podem sossegar.
Há coisas que não entendo. Consta que a história é escrita pelos vencedores, no entanto, na hora de vazar as informações básicas a respeito do seu relatório, o valente Odair Cunha, que, aliás, começou a fraquejar no dia seguinte à divulgação do relatório, entregou o ouro ao Jornal Nacional da Globo. O qual, está claro, nada falou a respeito de Policarpo Jr. No fundo, até os senhores do poder petista, salvo exceções, gostam de aparecer no vídeo global ou nas páginas amarelas de Veja.
Observem: houvesse eleições presidenciais hoje, Dilma Rousseff esmagaria qualquer competidor da oposição. E Lula ganhou anteontem a parada paulistana ao levar Haddad à prefeitura contra o cada vez mais preparado José Serra. Não consigo escapar ao costumeiro diálogo com os meus botões. Será que, neste singular, insólito, quem sabe único país chamado Brasil, os vencedores atuam como perdedores e vice-versa?
Mino Carta
No CartaCapital
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