3 de nov de 2012

Quem deu a Azeredo o dinheiro da Cemig?

 O Mensalão Tucano  

O delegado da Polícia Federal Luís Flávio Zampronha de Oliveira indiciou três ex-dirigentes da Cemig e quatro funcionários que trabalhavam na Superintendência de Comunicação Social da empresa, acusados de autorizar pagamentos à agência de publicidade de Marcos Valério, como forma de desviar dinheiro para a campanha de Eduardo Azeredo, em 1998. Mas ele aparentemente se esqueceu de um detalhe: na época, a Cemig era dirigida, para todos os efeitos, pelos chamados "parceiros estratégicos" que haviam comprado 32,96% das ações com direito a voto, em maio de 1997. Quem eram esses parceiros do governo de Minas na gestão da empresa? Eram, sobretudo, grandes interessados na vitória de Azeredo, pois seu principal concorrente, Itamar Franco, do PMDB, vinha declarando sua oposição ao acordo de acionistas que lhes dera de mão beijada o controle da estatal.
Esses "parceiros estratégicos" têm nome. O mais destacado hoje é o Banco Opportunity, que começou a operar em 1996. Foi fundado por Daniel Dantas, que tinha como sócio um ex-presidente do Banco Central, Pérsio Arida, e administrava fundos de pensão públicos. Os outros que formavam com o Opportunity o consórcio Southern Electric Brasil Participações Ltda, eram duas empresas de eletricidade dos Estados Unidos, a Southern Electric e a AES.
A venda da Cemig para esse consórcio foi conduzida pelo vice-governador Walfrido dos Mares Guia, com apoio do então presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros. O consórcio arrematou quase 33% das ações ordinárias da Cemig por R$ 1,13 bilhão. Metade do dinheiro seria paga em 12 meses sem juros e, a outra metade, em 10 anos, com financiamento do BNDES, que cobrava do consórcio juros de 3,5% ao ano.
Um negócio de pai para filho, mas tem mais: antes de desembolsar qualquer dinheiro, os compradores receberam dividendos da Cemig, concedidos retroativamente, no valor de R$ 500 milhões. O acordo de acionistas previa que os acionistas receberiam dividendos de 50% dos lucros, o que retirava da empresa a capacidade de fazer investimentos, mas era muito vantajoso para o consórcio. Walfrido informou à revista Dinheiro, de 13 de outubro de 1999, que a ideia de elevar o percentual de dividendos, de 25% para 50%, fora do presidente do BNDES. O secretário da Fazenda de Minas, João Heraldo Lima, citado no meu artigo anterior, teria insistido nos 50% junto ao escritório de advocacia contratado para redigir o acordo de acionistas.
Com apenas 33% do capital votante ou menos de 14% do capital total, os "parceiros estratégicos" tinham o controle da empresa, pois o acordo de acionistas previa que as decisões da Diretoria e do Conselho de Administração só teriam validade se fossem aprovadas por unanimidade. Com um terço do número de diretores e com quatro dos 11 conselheiros, os sócios minoritários reunidos no consórcio poderiam vetar qualquer decisão.
Os representantes do consórcio na Diretoria da Cemig eram o vice-presidente David Travesso Neto, o diretor de Produção e Transmissão Flávio Antônio Neiva e o diretor de Suprimentos, Luís Antônio de Souza Batista. Eles ficaram no cargo até o dia 7 de outubro de 1999, quando foram demitidos pelo governador Itamar Franco.
Apesar do inegável poder desses diretores, o delegado Zampronha achou que apenas o ex-presidente Carlos Eloy, o presidente interino José da Costa Carvalho Neto (que ficou na presidência enquanto Eloy trabalhava na coordenação da campanha eleitoral do governador) e o diretor de distribuição Marco Aurélio Madureira da Silva (além de quatro jornalistas que trabalhavam na Superintendência de Comunicação Social) eram os únicos responsáveis por destinar à campanha de Azeredo, pelas mãos de Marcos Valério, R$ 1.673.981,90.
Está faltando alguém em Nuremberg...
Aliás, para quem, no governo Azeredo, facilitou a venda de quase 33% das ações ordinárias da maior estatal mineira, deve ter sido decepcionante receber para a campanha de reeleição do governador uma quantia equivalente a menos de 0,34% dos dividendos pagos de cara aos compradores das ações. Será que eles se conformaram com essa mixaria? Se a Polícia Federal procurar bem, é possível que encontre em algum lugar o registro de um valor bem mais significativo destinado à campanha eleitoral pelo Banco Opportunity e seus sócios americanos. Afinal, naquele ano Daniel Dantas tinha motivos para estar feliz com o governo Fernando Henrique Cardoso, que privatizou o Grupo Telebrás, dando a ele uma boa fatia da estatal. Na Brasil Telecom, Dantas era sócio da Telecom Itália e do Group Citi, tendo brigado com os dois sócios. O último entrou em abril de 2005 com ação na Justiça de Nova York contra o sócio, exigindo indenização de pelo menos US$ 300 milhões, alegando que havia investido US$ 728 milhões no Fundo CVC Internacional, controlador de diversas empresas de telefonia, entre elas a Brasil Telecom e administrado pelo Opportunity, que não havia aportado nenhum tostão, ao contrário do estipulado no contrato entre os sócios.
No mesmo dia, no Rio de Janeiro, a Polícia Federal indiciava Daniel Dantas por formação de quadrilha, corrupção ativa e divulgação de segredo. Ao mesmo tempo, ele perdia o controle da Brasil Telecom.
Para influenciar políticos
Engenheiro e economista, 52 anos, Daniel Dantas começou a subir na vida fazendo amizade com Antônio Carlos Magalhães e outros políticos do PFL baiano. Foi sócio de Nizan Guanaes na agência de publicidade DM9. Durante as investigações da CPI dos Correios, revelou-se que a Telemig Celular e a Amazônia Celular, controladas pelo Opportunity, eram dois dos principais clientes das empresas de publicidade de Marcos Valério, o operador de pagamentos feitos a parlamentares no governo petista. As duas empresas controladas por Daniel Dantas, realizaram, em conjunto, pagamentos da ordem de R$152,45 milhões às agências de Marcos Valério, desde o ano 2000, e algumas notas fiscais emitidas pela Telemig Celular sumiram, "não se podendo ainda comprovar com exatidão a natureza dos serviços prestados pelas empresas do Sr. MARCOS VALÉRIO", diz o relatório da CPI. E acrescenta: "Constatou-se, ainda a partir da transferência de sigilo do investigado MARCOS VALÉRIO e de suas empresas, depósitos efetuados pela BRASIL TELECOM à empresa SMP&B Comunicação Ltda no valor de R$ 3.936.161,00 e à DNA PROPAGANDA no valor de R$ 823.529,00".
O relatório da CPI afirma ainda que "DANIEL DANTAS necessitava influenciar políticos para que pudesse manter o controle das citadas empresas durante e após sua destituição da administração de recursos de fundos de pensão das grandes empresas estatais".
Curioso, não? Não teria ocorrido a mesma coisa na Cemig?
Itamar Franco, logo que assumiu o governo, em 1999, entrou com ação no Tribunal de Justiça de Minas, para desfazer o acordo de acionistas e retomar para o Estado o controle da Cemig - mas não as ações vendidas ao consórcio. Em outubro de 1999, o TJ concedeu liminar favorável a Itamar, que imediatamente demitiu os três diretores representantes do consórcio. Hoje Itamar, sem partido, é presidente do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, convidado pelo tucano Aécio Neves, que nada tem a temer da parte dele. Em maio de 2002, quando faltavam sete meses para o fim do governo Itamar Franco, que apoiaria a candidatura de Aécio à sua sucessão, a composição acionária da Cemig com direito a voto era a seguinte: Governo do Estado 50,96%; Southern Electric Brasil Participações Ltda (aí incluído o Banco Opportunity), 32,96%; outros: 16,08.
Apesar da presença desses estranhos nesse ninho tucano, reina a paz na Cemig, até onde se sabe. A empresa encerrou o primeiro semestre deste ano com lucro líquido de R$ 922 milhões, um valor capaz de deixar muito contente qualquer acionista, por mais que ele fale em inglês e pense em dólar.
José de Souza Castro
Cunha
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Charge online - Bessinha - # 1558

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Milícia disputa com traficantes controle de caça-níqueis em SP

Grupo criminoso teria participação de PMs aposentados e da ativa
Investigação. Polícia apura ação de milícia na periferia e relação com onda de violência 
SÃO PAULO - Uma disputa entre dois grupos pela cobrança de propinas na operação de máquinas caça-níqueis pode estar por trás da onda de violência na Grande São Paulo. De um lado, a facção que domina os presídios paulistas. De outro, uma milícia formada por policiais militares (PMs) aposentados e da ativa, criada inicialmente como grupo de extermínio e que, agora, tenta dominar territórios, a exemplo da facção, numa das atividades mais tradicionais da corrupção policial: o jogo do bicho e os caça-níqueis.
O principal negócio da facção é o tráfico de drogas, cujo movimento é estimado em R$ 6 milhões por mês. Porém, os caça-níqueis se tornaram rentáveis, e a propina aumentou de R$ 50 para R$ 400 por mês em menos de um ano, o suficiente para atrair concorrência. A briga pelos jogos de azar foi relatada por um agente público ameaçado de morte pelos bandidos. A Secretaria de Segurança Pública informou que desconhece a existência da milícia. Uma fonte do alto escalão do governo, porém, confirmou o conhecimento do grupo e a investigação sobre ele pelas execuções dos últimos dias.
A facção paulista domina extensas áreas da periferia. Vende drogas e oferece à população promessa de segurança. Seus líderes ditam as regras e impedem assaltos de bandidos avulsos e drogados, que roubam para sustentar o vício. Se alguém desobedece, é punido. Quando a facção domina um bairro, faz chegar a todos que, daquele momento em diante, qualquer assalto ou ato violento deve ser comunicado ao grupo, não à polícia. Assim, impõe a lei do silêncio. Como oferece segurança ao comércio local, alguns líderes da facção decidiram que cabe a ela, portanto, receber pela operação das máquinas caça-níqueis.
Em São Paulo, costuma-se dizer que não é preciso ter brigas porque há espaço para todos. A propina do jogo de azar é paga tradicionalmente a policiais civis corruptos. De olho em áreas rentáveis, a milícia de PMs teria tentado cobrar pelos caça-níqueis na favela de Paraisópolis, no bairro do Morumbi, considerada o principal “hipermercado” da cocaína na capital pela proximidade com os consumidores mais ricos. Francisco Antonio Cesário da Silva, o Piauí, apontado como integrante da facção e com poder justamente em Paraisópolis, foi preso em Itajaí (SC), em agosto, acirrando os ânimos.
O jogo de azar prosperou em São Paulo nos últimos dois anos com a modernização dos equipamentos. No lugar das máquinas antigas, grandes e, portanto, visíveis, surgiu uma nova, do tamanho de um micro-ondas, feita com tela de LCD e de fácil transporte. Na maioria dos locais, geralmente pequeno comércio da periferia, ela só é colocada em operação depois das 18 horas. Estão disponíveis até em açougues, segundo o agente público ameaçado. O valor do jogo varia de R$ 1 a R$ 10. O ganho com cada máquina fica entre R$ 4 mil e R$ 15 mil por mês.
— A sociedade tem que cobrar dos políticos mudanças firmes na legislação, para garantir a investigação até o fim e a segurança de quem investiga. Tenho de punir um funcionário que não é um funcionário qualquer. Ele está com a arma na mão. Quando dou voz de prisão, peço a arma. Naquele segundo, ele pode entregar ou atirar. Não sou um chefe comum — desabafa um integrante da cúpula da polícia paulista.
Ele diz que é difícil dizer até que ponto a milícia está envolvida na onda de violência porque há muitos boatos. Em 2010, a polícia chegou perto de prender um integrante da milícia, mas como era apenas suspeito, foi solto pela Justiça.
No O Globo
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Anatel

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Os protestos contra a grande mídia na Argentina

Brasileiro é engraçado, acha que tudo depende dos outros. Ficam aqui tagarelando porque a Dilma não faz uma Ley de Medios, mas tirar a bunda gorda da cadeira, nada.
É fácil entender porque a ditadura argentina teve que matar 100 vezes mais que a brasileira e porque os milicos lá estão indo em cana.
Brades
No Advivo
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França: Igreja católica tenta travar casamento homossexual e adoção por casais do mesmo sexo


A igreja católica francesa joga os últimos cartuchos para tentar travar o projeto-lei do casamento homossexual e da adoção por casais do mesmo sexo em França.
A promessa de campanha de François Hollande será discutida em conselho de ministros na próxima semana.
No santuário de Lurdes, o presidente da Conferência Episcopal, cardeal André XXIII classificou o projeto de "brincadeira de mau gosto". Para a mais alta instância da igreja católica em França, "mudanças desta magnitude, impunham um debate nacional alargado, que não se resuma a sondagens aleatórias ou à pressão ostentatória de alguns lóbis".
As sondagens apontam agora para uma França menos gay friendly. No último ano, a percentagem de franceses favoráveis ao casamento homossexual caiu de 63 para 58%. No que respeita à adoção por parte de casais do mesmo sexo, metade dos inquiridos é a favor, menos 6% do que há um ano, segundo uma sondagem publicada este sábado pelo Le Parisien.
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Charge online - Bessinha - # 1557

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Alexandre Garcia


"Tem jornalista que gosta de dinheiro e jornalista que gosta de notícias. Nunca dê dinheiro a jornalista que gosta de notícia ou notícia a jornalista que gosta de dinheiro."
Um mestre na arte de desqualificar os políticos é o "Alexandre Maluf Garcia".
Quando era da TV Manchete, ele tinha um quadro que consistia em expor os políticos ao ridículo.
Quando foi para a Globo, pelas mãos de Antonio Carlos Magalhães, levou o quadro para o Fantástico, mas foi tragado pelo "Globope".
Hoje, ele desqualifica os políticos no Bom (?) Dia Brasil – também tragado pelo "Globope".
No caso deste colonista matinal, talvez a preferência não seja por banqueiros e seus economistas.
(Esses são apanágio da Urubóloga.)
Garcia talvez, até hoje, não se conforme com o fim melancólico do regime militar.
Bom era nos tempos em que ele decifrava as Ordens do Dia do Brigadeiro Délio Jardim de Mattos, a que só ele tinha acesso.
Nem o Délio sabia ao certo o que queria dizer.
Mas, ele, o Garcia, sabia.
Aquela, sim, era uma Democracia!
Democracia ateniense era aquela em que meia dúzia de economistas "neolibelês" decidia sobre o novo regime econômico – e o "Cerra" se omitia ou boicotava
O que não pode existir é o que o Otavinho chama de “democracia de massa”.
Com muita gente.
Isso é um horror !
Paulo Henrique Amorim
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Sobre o retorno de Marcos Valério

Até quando será tolerado no Brasil que a mídia publique acusações graves sem nenhuma prova?

E lá vem ele de novo
E lá vem ele de novo, Marcos Valério.
Pobre leitor.
Mais uma vez, o que é apresentado – a título de “revelações” – é um blablablá conspiratório e repetitivo em que não existe uma única e escassa evidência.
Tudo se resume às palavras de Marcos Valério. Jornalisticamente, isso é suficiente para você publicar acusações graves?
Lula, no Planeta Veja, já não é apenas o maior corrupto da história da humanidade. Está também, de alguma forma, envolvido num assassinato. Chamemos Hercule Poirot.
Se você pode publicar acusações graves sem provas, a maior vítima é a sociedade. Não se trata de proteger alguém especificamente. Mas sim de oferecer proteção à sociedade como um todo.
Imagine, apenas por hipótese, que Marcos Valério, ou quem for, acusasse você, leitor. Sem provas. Numa sociedade avançada, você está defendido pela legislação. A palavra de Valério, ou de quem for, vale exatamente o que palavras valem, nada – a não ser que haja provas.
Já falei algumas vezes de um caso que demonstra isso brilhantemente. Paulo Francis acusou diretores da Petrobras de corrupção. Como as acusações – não “revelações” – foram feitas em solo americano, no programa Manhattan Connection, a Petrobras pôde processar Francis nos Estados Unidos.
No Brasil, o processo daria em nada, evidentemente. Mas nos Estados Unidos a justiça pediu a Francis provas. Ele tinha apenas palavras. Não era suficiente. Francis teria morrido do pavor de ser condenado a pagar uma indenização que o quebraria financeira e moralmente.
Os amigos de Francis ficaram com raiva da Petrobras. Mas evidentemente Francis foi vítima de si mesmo e de seu jornalismo inconsequente.
Francis foi vítima de Francis
Por que nos Estados Unidos você tem que apresentar provas quando faz acusações graves, e no Brasil bastam palavras?
Por uma razão simples: a justiça brasileira é atrasada e facilmente influenciável pela mídia. Se Francis fosse processado no Brasil, haveria uma série interminável de artigos dizendo que a liberdade de imprensa estava em jogo e outras pataquadas do gênero.
Nos Estados Unidos, simplesmente pediram provas a Paulo Francis.
Uma justiça mais moderna forçaria, no Brasil, a imprensa a ser mais responsável na publicação de escândalos atrás dos quais muitas vezes a razão primária é a necessidade de vender mais e repercutir mais.
Provas são fundamentais em acusações. Quando isso estiver consolidado na rotina do jornalismo e da justiça brasileira, a sociedade estará mais bem defendida do que está hoje.
Paulo Nogueira 
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Suíça aceita revelar contas de Menem, acusado de corrupção

A Justiça suíça autoriza a abertura das contas ex-presidente Carlos Menem para a Justiça da Argentina, aceitando as acusações que pesam contra ele por ter acumulado uma fortuna graças a propinas pagas por multinacionais para ganhar contratos e licitações de obras no país. Os advogados de Menem ainda poderão apelar da decisão ao Supremo Tribunal Federal da Suíça.
As informações foram relevadas pelo jornalista Juan Gasparini, e confirmadas pela Justiça. Para os juizes de Genebra, as provas entregues por Buenos Aires os convenceram de que Menem participou ativamente de acordos de suborno que chegavam a US$ 25 milhões e recebeu propinas da empresa empresa francesa Thales em um contrato de obras públicas em 1997. Na licitação, a empresa concorreu sozinha. Menem permaneceu como presidente de 1989 a 1999.
O dinheiro estaria depositado no banco UBS de Genebra e vinha sendo solicitado pela Justiça argentina desde 2010. Menem teria fechado as contas em 2004, retirando cerca de US$ 1,5 milhão e levado a outro paraíso fiscal. Em 2004, o então presidente Néstor Kirchner anulou o contrato com a empresa. Outros envolvidos no mesmo escândalo já foram julgados e condenados.
Os suíços também confirmam que contas envolvendo o ex-prefeito Paulo Maluf continuam bloqueadas no país, esperando que o Brasil envie provas que confirmem o desvio de recursos públicos pelo político brasileiro.
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Nova bolha imobiliária está em gestação nos EUA

 
Poderemos ver, em breve, um aumento da atividade econômica no setor habitacional nos Estados Unidos, à medida que os bancos dispuserem dos 40 bilhões de dólares mensais jogados no mercado como subsídios do FED para fazer a coisa funcionar e emprestar loucamente, de novo. O mercado financeiro está chantageando o governo. Os bancos estão dizendo que não farão novas hipotecas enquanto não tiverem o que querem. E o que eles querem é imunidade legal e não ficar com aconta nas mãos quando o sistema financeiro explodir mais uma vez.
É possível que Richard Cordray seja hoje o homem mais poderoso nos Estados Unidos e você provavelmente nunca ouviu falar dele. Como dirigente da nova Agência de Proteção Financeira ao Consumidor dos EUA [CFPB na sigla em inglês], Cordray pode efetivamente voltar o relógio para 2005 e inflar uma outra gigantesca bolha imobiliária sem esforço algum. Tudo o que ele tem de fazer é definir o termo “hipoteca qualificada”, seguindo os critérios dos grandes bancos e – rapidamente – 40 bilhões de dólares por mês começarão a fluir em novas hipotecas. É simples assim. Eis a história contada pela Bloomberg:
Credores estadunidenses podem obter forte proteção contra ações judiciais relativas às hipotecas regulamentadas pelas regras mantidas pela Agência de Proteção Financeira ao Consumidor, de acordo com fontes ligadas à política de direito do consumidor do país.
As assim chamadas regulamentações de hipotecas qualificadas dariam a bancos, inclusive ao JP Morgan, ao Chase & Co. (JPM) e o Wells Fargo & Co. (WFC) garantias contra ações legais oriundas dos processos de subscrição de seguros, de acordo com fontes que falaram com a condição do anonimato, porque as discussões a respeito não são públicas (a agência Bloomberg noticiou assim: “A Agência de Proteção Financeira ao Consumidor dos EUA afirma que dará mais proteção aos credores”).
Então, é por isso que os bancos não têm intensificado a criação de suas hipotecas, mesmo que o FED [Banco Central dos EUA] tenha dito que comprará 40 bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas via o programa QE3 [1]? É porque querem assegurar a imunidade legal frente a ações judiciais de proprietários de imóveis que venham a ser executados injustamente. Mas por que é que Cordray os está ajudando? Por que ele está tornando mais difícil paras vítimas processarem os meliantes que as expulsam de seus lares? Seu trabalho não é proteger consumidores? Em vez disso, ele está sob o comando dos bancos. Aqui, mais do que a Bloomberg diz:
A agência do consumidor, que está negociando as regras como parte de uma ampla revisão do controle do financiamento habitacional, revelou seus planos num encontro com outras agências reguladoras ontem (17/10). Em torno de 80% dos empréstimos segurados pelo Fannie Mae (FNMA), Freddie Mac ou seguradoras governamentais, como a Federal Housing Administration Housing Administration, estariam se qualificando para dispor de um porto seguro contra ações judiciais, de acordo com dados da Agencia de Administração do Financiamento Habitacional.
Então está feito, é isso? Eles só precisam fazer um pouquinho, antes do grande anúncio. Mas preste atenção nos detalhes: “80% dos empréstimos... seriam qualificados para dispor de um porto seguro contra ações judiciais nos planos da agência”. Que piada. Fannie [Mae] e Freddie [Mac] já seguram 90% de todas as novas hipotecas, agora se vai garantir imunidade legal para contratos de hipoteca de que eles já detêm a titularidade, gratuitamente? É um grande brinde para os bancos, você não acha? Por que não dar-lhes logo as chaves do Fort Knox agora mesmo e era isso? O fato é que Cordray não deveria estar fazendo concessão alguma. A coisa toda é ridícula. Mais da Bloomberg:
As proteções cobririam empréstimos feitos com taxas de juros para os mutuários cujo endividamento não ultrapasse 43% de sua renda total.
Por quanto tempo você acha que será capaz de manter a sua cabeça acima da água se 43% do seu salário desapareceu antes mesmo que você ponha a mão nele? Não muito, eu apostaria. Na verdade, os especialistas acham que pagamento de financiamento imobiliário jamais deveria ultrapassar 33% da renda total. Então, o que isso nos diz? Diz que Cordray fez um acordo que custará ao contribuinte um pacote para cobrir as hipotecas novas que os bancos farão assim que as tintas promocionais [do anúncio do QE3] secarem. Mas tudo bem, certo, porque ao menos os bancos farão um bolo e cortarão pedados desse lixo em partes seguradas e as venderão ao FED com o dólar nas alturas. Que truque!
Pense a respeito, por um minuto. Se o FED está dizendo que comprará 40 bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas por mês, então o dinheiro da finança irá dragar contratos de hipoteca o suficiente para vender ao adquirente, certo? Porque você precisa de hipotecas para segurar hipotecas. Bem, adivinhem, os bancos não dão a mínima se os novos candidatos a obterem hipotecas pagam ou não. Por que eles se preocupariam? À medida que consigam inscrever essas hipotecas nas novas definições, eles obterão seu recurso segurado de todo jeito. Eles querem apenas ter certeza de que estarão protegidos quando Joe quebrar (porque foi atraído para um contrato de hipoteca que ele claramente não poderia pagar). Querem uma garantia de que ele não poderá processá-los alegando cláusulas frouxas para fornecimento de crédito. Agora, Joe terá de matar no peito e pagar um aluguel barato em algum lugar, porque o senhor Cordray o vendeu para os gângsters do sistema financeiro. Obrigado, Rich.
E ainda há mais: porque os bancos não estão somente buscando carta branca nas garantias de seus contratos bumerangues de hipotecas. Eles também querem estar assegurados de que não terão de arcar sequer com 1% das suas novas hipotecas-lixo. Eles acham que poderão criar tanto crédito quanto quiserem, sem qualquer risco para si mesmos ou para os seus acionistas. É uma arrogância levada ao extremo. Eis um trecho de uma segunda página no Whashington Post, do economista Mark Zandi, que explica o que está acontecendo:
Uma segunda decisão que está para ser tomada, com grandes implicações para o crédito hipotecário envolve algo chamado de regra da “hipoteca residencial qualificada”. Embora o nome seja similar, é bem diferente da definição de hipoteca qualificada, e está desenhada para coibir maus empréstimos ao forçar os credores a arcarem com uma parte dos riscos dos contratos mais arriscados de hipotecas.
Sob a lei Dodd-Frank, um credor deve arcar com 5% de qualquer empréstimo que não seja uma “hipoteca residencial qualificada” (QRM na sua sigla em inglês), de modo que, se esta for executada, o credor também perde algo. Isso em princípio faz sentido, mas, assim como no caso da regra da hipoteca qualificada, o diabo mora nos detalhes. E estes são bastante complicados, refletem os medos de regulação que os credores trabalharão duro para contornar. Mas complexidade acrescenta custos, e como resultado, empréstimos que não sejam “QRM” correm o risco de ter um custo significativamente mais elevado dos que os “QRM”. (“Definindo uma ‘hipoteca qualificada’, Marz Zandi, Wahsington Post).
Certo, isso também é complicado para você entender, Senhor Contribuinte, então vamos ao seu negócio e deixe conosco, os experts, para resolver o seu problema. Nós “cuidaremos de tudo”. Ah, por favor, Zandi, ninguém entende desse troço. Os bancos simplesmente não querem arcar com capital suficiente para cobrir o seu lixo. É isso, não é? Eles querem poder criar mais títulos tóxicos em seus falsos balanços, mas não mantêm dinheiro suficiente para pagar aos investidores quando o barco afundar. A isso se chama “retenção de risco” e não é diferente em nada de se requerer das companhias de seguro que tenham reservas o bastante para pagar os segurados em caso de sua casa incendiar. Aqui tem mais de Zandi:
Na medida em que a lei Dodd-Frank estipula que os empréstimos feitos pelas agências federais são hipotecas residenciais qualificadas, por definição o modo como as QRM são definidas ajudará a traçar o papel das agências federais no mercado de hipotecas. Se a definição for muito estreita, credores privados não poderão competir, dada a alta taxa de juros com que terão de arcar para compensar o risco excessivo. O governo deve então continuar a dominar o mercado de crédito de hipotecas no curto prazo. Por outro lado, se o Fannie Mae e o Freddie Mac vierem a ser privatizados, uma definição estreita de QRM encolheria significativamente o papel do governo no mercado hipotecário, potencialmente ameaçando a existência dos empréstimos hipotecários por 30 anos.
Ah, por favor! Esqueça o papel do governo no mercado habitacional; isso é completamente irrelevante. Aquilo em que estamos interessados é que os bancos tenham alguma grana a mais em caixa para recuperarem suas ações lixo quando o próximo zeppelin cair. Isso também é perguntar muito? O fato é que capitalismo requer capital, é simplesmente assim que funciona. Você não pode simplesmente continuar girando empréstimos sem garantia suficiente para reavê-los mesmo quando o menor dos desvios no mercado envie o sistema financeiro para o esquecimento. Credores precisam ter lastro suficiente para cobrirem as suas perdas potenciais e para evitar outro derretimento que requeira trilhões do governo para preencher o buraco negro que eles (os bancos) criaram.
Você consegue ver o que está errado aqui? Por trás de toda essa conversa barroca, os mercados estão é chantageando o governo. Eles estão dizendo que não farão novas hipotecas enquanto não tiverem o que querem. E o que eles querem é um porto seguro (imunidade legal) e não mais custos regressivos. (Hipotecas que os bancos foram forçados a refazer porque contêm “substantivas subscrições e deficiências documentais” em seus contratos.) Em outras palavras, eles não querem ficar com a conta nas mãos quando o sistema financeiro explodir, de novo. Isso significa que o modo como Cordray define “hipoteca qualificada” importa muito, porque determinará se os bancos emprestarão em padrões baratos, se aumentarão a originação de hipotecas, se estimularão o crédito para aplicações paralelas, e se darão conta do sonho de [Ben] Bernanke de inflar uma nova bolha imobiliária. É isso o que está em jogo. A definição de hipoteca qualificada pela Agência de Proteção Financeira ao Consumidor pode implicar um profundo impacto na direção da economia, então tem muita coisa em jogo, aqui.
Infelizmente, parece que Cordray tem cedido em todos os aspectos, o que significa que poderemos ver, em breve, um aumento da atividade econômica habitacional, à medida que os bancos dispuserem dos 40 bilhões de dólares mensais jogados no Mercado como subsídios do FED para fazer a coisa funcionar e emprestar loucamente, de novo.
Não parece que estamos cometendo os mesmos erros, mais uma vez?
NOTA
[1] Terceira rodada de “Quantitative Easing”, lançado pelo FED. É um programa que visa a, ao menos nominalmente, injetar dinheiro no mercado para prover o fluxo de crédito, lançado há poucos dias, pelo atual presidente do FED, Ben Bernanke.
Mike Whitney
Tradução: Katarina Peixoto
No Carta Maior
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“Os brasileiros não se sentem latino-americanos”

Em entrevista à Carta Maior, o escritor, dramaturgo e roteirista de cinema cubano Reinaldo Montero fala da influência da cultura brasileira sobre a literatura, música e cinema cubano e do desconhecimento que a maioria da população brasileira tem da cultura latinoamericana. Vencedor do Casa de las Américas e de vários outros prêmios em Cuba, Espanha e França, Montero também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana.
Porto Alegre - O desconhecimento que a maioria da população brasileira tem em relação à cultura latino-americana não chega a ser uma novidade. Mas ele fica mais gritante e absurdo quando referido por artistas e intelectuais de língua espanhola que tem grande conhecimento da cultura brasileira. Em 1986, o jovem escritor cubano Reinaldo Montero, vencedor do prêmio Casa de las Américas naquele ano com a novela Donjuanes, foi convidado para a Bienal do Livro em São Paulo. Quando chegou ao hotel, em São Paulo, viu em um mapa que estava muito perto da esquina da Ipiranga com a São João. “Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim...,” comenta.
Convidado para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, Montero concedeu entrevista à Carta Maior e falou sobre a influência da cultura brasileira na literatura, cinema e música cubana. Escritor, dramaturgo e roteirista de cinema, Reinaldo Montero foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras (As afinidades, 1999). Na entrevista, realizada no Memorial do Rio Grande do Sul, ele também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana. Ao final, aponta uma relação de escritores e dramaturgos, cujo trabalho ajuda a refletir sobre o atual estágio da civilização. Montero não é muito otimista: “Vivemos um momento adolescente como espécie. E tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia”.
Além do Casa de las Américas, em 1986, Montero ganhou prêmios em Cuba, Espanha e França, já teve três roteiros filmados, várias peças encenadas e é autor de novelas, poesias e ensaios.
Há uma grande ignorância brasileira em relação à cultura da América hispânica, o que se aplica também ao caso da cultura cubana...
Reinaldo Montero: Sabe o que acontece? Os brasileiros, a maioria deles ao menos, não se sentem latino-americanos. Isso é muito curioso porque a influência do Brasil na América Latina e, em especial, em Cuba, é extraordinária. O conhecimento que há do Brasil em Cuba é enorme: o tropicalismo, o Cinema Novo, o primeiro título da coleção Casa de las Americas foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Essa influência é mais antiga ainda e chega até a música que vocês chamam de erudita. As Bachianas de Villa Lobos, em especial uma interpretação memorável que se fez da Bachiana nº 5, influenciaram o nacionalismo musical cubano, a música “culta”, como se diz em espanhol, nos anos 30 e 40. Depois, com o tropicalismo e o Cinema Novo, nos anos 50 e 60, poderia se dizer que a música brasileira era tão cubana quanto a cubana.
Eu vim para o Brasil pela primeira vez, em 1986, convidado pela Câmara do Livro de São Paulo, para a Bienal do Livro. Eu lembro que cheguei à noite e me levaram para o hotel. Quando cheguei na recepção do hotel vi num mapa da cidade que estava perto da Ipiranga com a São João. Ipiranga com São João? Alguma coisa acontece no meu coração...Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim...
Pouquíssimos, certamente. E no seu trabalho como escritor, dramaturgo e ficcionista aparece essa influência também?
Nessa minha vinda ao Brasil em 1986 fiz minha primeira tentativa de ler português. Trazia comigo Grande Sertão Veredas e um parágrafo marcado para que meu amigo Humberto Werneck, jornalista da Isto É na época, me explicasse o significado. Neste parágrafo eu entendia todas as palavras isoladamente, mas não entendia nada. Perguntei a ele que respondeu: eu também não sei, quer que eu seja adivinho...Meu interesse pela literatura brasileira está baseado na Casa de las Americas que publicou no primeiro número de sua coleção latino-americana, nos anos 60, as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Eu li o livro nos anos 70 e depois li outras histórias de Machado que foram publicadas um pouco mais tarde.
Depois li São Bernardo, que gostei muito mais do que Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ou seja, desde o meu período de formação eu lia naturalmente autores brasileiros e, é claro, muitas outras coisas. Eu lia com uma fúria adolescente que evoco com nostalgia, com saudade, como diriam vocês. Também li a poesia de Drummond de Andrade e de Vinicius de Moraes. Um pouco mais tarde, chegou Clarice Lispector, sobretudo A paixão segundo GH, e, mais recentemente, Raduan Nassar. E todas essas leituras foram facilitadas pelas edições cubanas. Cabe lembrar também que na Casa de las Americas há um prêmio de literatura brasileira.
Quando é que você começou a escrever?
Comecei a escrever muito cedo, desde os 12 anos. Lamentavelmente não guardei esses contos. Depois, durante muito tempo, escrevi diários, que eu mesmo me encarregava de queimar, porque não gostava do resultado. Não me parecia nada interessante. Mas eu sou um escritor tardio. Meu primeiro livro foi Donjuanes, que ganhou o prêmio Casa de las Américas, em 1986. Eu já escrevia antes disso, é claro. Era inclusive poeta. Já não o sou, pois para ter a minha idade e ser poeta seria preciso ser sábio, o que não é o caso. Não seria tolerável um poeta como eu. Então, coloco a baliza para demarcar quando comecei a escrever a sério lá pelos anos de 1984, 1985. Em 1986, ganhei o prêmio Casa de las Américas e, a partir daí, começou minha caminhada.
E o seu trabalho acabou se ampliando também para os campos do teatro e do cinema. Como foi isso?
Eu comecei a escrever roteiros de cinema muito depois. E fiz isso porque recebi convites de diretores de cinema para que escrevesse roteiros. Três deles foram filmados [El encanto del regresso, Bajo presión e El vals de La Habana Vieja]. Também tive uma educação teatral muito importante. Fui assessor de diretores de teatro muito importantes em Cuba, como Vicente Revuelta, Berta Martinez, Raquel Revuelta, Abelardo Estorino. Trabalhar com esses diretores em uma mesa de preparação de obras foi uma verdadeira universidade. Aí comecei a aprender os rudimentos da dramaturgia, da história do teatro. Comecei a me preocupar com coisas que, até então, não estava preocupado. Antes de publicar a minha primeira novela, eu já escrevia roteiros. Todos somos, de alguma maneira, filhos do cinema. Nossas memórias mais antigas têm a ver com o cinema. Nos lembramos de uma sala de cinema quase como nos lembramos de nossas mães. Fiz o curso de Gabriel García Marquez sobre a redação de roteiros, que, na época, era de seis semanas, e que foi uma parte muito importante de minha formação também. Foram oportunidades que a vida me presenteou e eu creio que soube aproveitá-las.
No debate do qual participou na Feira do Livro de Porto Alegre, você defendeu que a contribuição da inspiração no trabalho de um escritor é muito pequena e que escrever é algo sério que exige um trabalho árduo. A inspiração é uma ilusão no trabalho de um escritor?
A falta de inspiração é a desculpa dos poetas e dos escritores preguiçosos. Eu creio que alguém possa ter momentos inspirados, que eu prefiro chamar de momentos de lucidez, mas esses momentos chegam quando você está trabalhando. Eu sempre ando com uma caneta e papel. Olha, o papel está em branco. Hoje ainda não me ocorreu nada. Mas a qualquer momento pode ocorrer algo. Esse momento poderia ser chamado de inspiração, mas eu não gosto da palavra.
Parece mais um estado de atenção, na verdade...
Sim, algo te chama a atenção. Quando eu estava vindo para cá [a entrevista foi concedida no Memorial do Rio Grande do Sul, Praça da Alfândega, onde ocorre a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre], havia um homem na rua tocando uns vinte instrumentos - pratos, bumbo, um acordeão, flautas, muitas coisas. Esse homem era muito agressivo com o público. Constantemente se dirigia ao público com uma força muito especial, e com muito humor. Eu me detive a ver qual era sua arte, a arte de convencer as pessoas a lhe dar uma moeda. Isso me chamou a atenção, mas não tomei nenhuma nota, não para não me atrasar na entrevista contigo, mas porque não vi nada que já tivesse visto antes.
Quando você inicia uma novela ou um texto de ficção qualquer, parte de uma ideia ou plano previamente concebido ou esse plano vai sendo construído no caminho da escrita? Na produção de “Afinidades”, por exemplo, houve uma ideia geral da história previamente pensada e que foi sendo desenvolvida ou outro processo de criação?
Para ser sincero, não me lembro bem. Tenho a impressão que La visita de la Infanta foi uma novela muito estruturada, mas a estrutura tão rígida de As afinidades não foi previamente pensada. Eu tinha claro na cabeça uma história. Mas os acidentes dessa história foram acomodando a direção da mesma e aí aflorou a estrutura com muita necessidade. Esse caso do homem orquestra que mencionei, poderia resultar em um conto interessante. Muita gente lhe deu dinheiro, inclusive uma nota de dez reais. Ele recolheu esse dinheiro do chapéu com muita satisfação, com muita avidez. Aí poderia estar a semente do conto, nessa promessa cumprida. Mas ela deve ser compensada com algo ruim que vai acontecer com ele. A minha literatura não tem muitos finais felizes. Estou pensando que esse homem, que é evidentemente pobre, retorna ao seu quarto e quando entra na peça recai sobre seus ombros o cansaço de todo o dia, sua pobreza, o fato de não poder sair de onde está. Ele conta o dinheiro e vê que tem o suficiente até o próximo dia. Amanhã, tudo recomeça...Bem, por aí há um conto...
Eduardo Galeano diz que só se deveria escrever quando a mão coça...
Debussy disse que, quando sentia coceira nos dedos, sentava ao piano para compor. Pode ser. É que escrever dá muito trabalho. Uma novela é um dia sim e o outro também. Não dá pra esperar que a mão coce para escrever a novela, ou que chegue a inspiração. É preciso se sentar para trabalhar como se fosse um empregado. E eu gosto disso. Estou ganhando o pão, trabalhando.
Há alguns temas prioritários em tua obra?
Há somente dois temas e nada mais. Dois temas, não três: amor e morte. Não uma terceira coisa de que falar. É uma pobreza horrível. Se não se relaciona com o amor ou com a morte, falta algo. Por exemplo, esse artista ambulante do qual estamos falando está carente de amor quando chega em seu quarto. Quando requenta a sopa que fez no dia anterior, ele se pergunta: até quando aguentarei? Aí, de alguma maneira a morte está o visitando. A morte se aproxima de várias maneiras. O amor também, não só na figura da presença, mas também na da ausência. Assim, nesta história que estamos escrevendo aqui, tu e eu, estão presentes o amor e a morte. Tudo desemboca aí. Não te parece?
Há um vídeo no youtube, com um rápido comentário teu, feito após uma oficina em São Paulo. Perguntado se queria deixar uma mensagem aos alunos, você responde: jamais se rebaixe respondendo a um crítico. Você lembra disso?
[Risos]...Sim. Eu respeito o trabalho dos críticos. Alguém tem que fazer esse trabalho. Respeito todos os tipos de trabalho. Esse é um deles. Truffaut dizia que caso alguém perguntasse a um menino de sete anos o que ele gostaria de ser quando crescer, ele jamais responderia “ser crítico de cinema”...Quando a minha família tinha cinco anos, perguntavam a ela frequentemente se ela ia ser escritora como o papai. Isso me incomodava. Deixem que ela seja uma criança, eu respondia. Um dia eu disse a ela: Inês, toda vez que te perguntarem isso, diga que quer ser crítica de cinema. E ela, aos cinco anos, quando perguntada sobre o que queria ser quando crescesse dizia como um papagaio: quero ser crítica de cinema!
Eu não tenho nenhuma aversão aos críticos. O que ocorre é que, com a internet e o surgimento de blogs, twitter e tudo isso, muitos escritores entram em polêmica, não somente com os críticos, mas também com leitores. Cada um que pense o quiser. Como eu vou convencer alguém disso ou daquilo. Em primeiro lugar, não se pode convencer quem já está convencido. Então, me parece absolutamente inútil entrar nesse tipo de polêmica, discutindo com um crítico ou um leitor.
Você acha que a crítica não ajuda em nada a literatura?
Não. Acho que ela ajuda muitíssimo, porque há excelentes críticos. Na América Latina, por exemplo, houve dois críticos importantes na primeira metade do século XX: Pedro Henriquez Ureña e Octavio Paz. Eles me ensinaram a ler. Em outras línguas, há autores que também me ensinaram a ler: as conferências de T.S.Eliot sobre a função da poesia e a função da crítica, por exemplo. Há um nível de reflexão aí que é imprescindível. Outro exemplo é o trabalho de Le Corbusier sobre o que ele chama de nova arquitetura. E, com exceção de Henriquez Ureña, estamos falando aqui de criadores de ficção ou artistas que fazem trabalho crítico. O próprio Debussy tem um texto maravilhoso sobre a música que se chama Senhor Colcheia, antidiletante. Ou a história da arte de Vasari, sobre a arte do renascimento, um trabalho esplêndido. Ou seja, a crítica tem essas enormes possibilidades. O problema são as críticas sem fundamento, os críticos incultos e ignorantes.
Você se referiu à internet. Com o surgimento dos blogs e ferramentas como twitter e facebook houve uma espécie de explosão autoral. Todo mundo, de certo modo, virou autor. Na sua opinião, já é possível perceber um impacto disso na literatura?
Creio que sim. Há uma espécie de hemorragia de textos curtos, que o twitter impulsiona mais ainda. Perdeu-se a riqueza das cartas. E agora, com os chats e skypes, o próprio correio eletrônico se foi. Eu mesmo tenho contato com minhas filhas todos os dias pelo Skype. Essa virtualidade estende-se mais às imagens do que aos textos. O que ocorre com os textos na internet é que os blogs estão cheios de gente que não sabe escrever. Quando digo não sabem escrever, quero dizer que não sabem colocar uma palavra ao lado da outra, que não sabem articular duas ideias. Há casos de escritores respeitáveis que tem blogs e que ficam na obrigação de postar de dois em dois dias, para não perder leitores. E acabam não dizendo nada interessante. No twitter, é mais pobre ainda. O que interessa ler um escritor dizendo que agora vai preparar uma picanha? Tem muita gente que acha simpático entrar na vida privada do escritor. Eu lamento que percam tempo com isso.
O desconhecimento que grassa no Brasil sobre a cultura cubana anda de mãos dadas com alguns estereótipos sobre a vida intelectual em Cuba. Um deles consiste em dizer que em Cuba há basicamente dois tipos de intelectuais: os dissidentes e os oficialistas. É isso mesmo? Como é que você define a vida intelectual em Cuba hoje?
Um estereótipo responde sempre a uma realidade. Quando se diz que o brasileiro é um povo alegre, pode ser que você seja um pouco triste, mas em geral os brasileiros são extrovertidos. É claro que nem todos o são, há os introvertidos, há suicidas, tudo o que quiser. Mas é difícil que eu consiga convencer alguém da profunda melancolia do povo brasileiro. Então, os estereótipos respondem a uma realidade. O que ocorre, e aí os estereótipos começam a não servir para nada, é que a realidade é mais rica, mais matizada. Quando chegamos à essência de um fenômeno, ele é sempre mais rico.
Portanto, a realidade é mais rica. Há um pouco de tudo. Quanto à intelectualidade cubana, é certo que há uma profunda divisão entre intelectuais oficialistas e intelectuais dissidentes. Como sempre ocorre, dos dois lados há gente boa e inteligente e gente que não serve para nada. Essa polarização é extrema, e neste sentido corresponde ao estereótipo, mas ela é muito mais rica que ele.
As mudanças econômicas que estão acontecendo em Cuba estão se refletindo também na vida cultural do país?
As mudanças tão anunciadas estão ocorrendo a conta-gotas, de forma muita lenta. São mudanças muito elementares. Não há mudanças profundas na economia ou na estrutura do Estado. Realmente não sei se o governo tem uma ideia clara de como fazer as coisas, ou se está tateando em busca de um caminho. Na arte, as mudanças já vieram muito antes. Desde antes da queda do muro de Berlim, a arte começou a ser cada vez mais crítica com a realidade. Eu mesmo não sou um escritor complacente com a realidade. Aliás, sou muito crítico com a realidade.
Já teve algum problema por causa disso?
Não. O que escrevo, é publicado. Eu não me meto na esfera política. É claro que, como dizia Aristóteles, todos somos animais políticos. Como todo homem, tenho preocupações políticas. Aqui entre nós, creio que a política hoje é a profunda desgraça da humanidade e explica o nosso momento adolescente como espécie. O homem, como espécie, é um adolescente. Votar em um político, em Pelotas ou nos Estados Unidos, por conta da simpatia ou da aparência do mesmo, é um reflexo da nossa profunda adolescência. Não amadurecemos, de fato, como espécie, e tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia.
O que você está lendo hoje? Entre os autores contemporâneos, quais, na sua opinião, estão refletindo sobre esse estágio de adolescência da humanidade, sobre os problemas atuais da civilização humana?
O dramaturgo alemão Roland Schimmelpfennig, que tem cerca de 50 anos. É um dramaturgo diferente. Cada obra dele ilumina um espaço da realidade. É um escritor extraordinário. A dramaturga Dea Loher, também alemã, é de primeira ordem. O dramaturgo francês Valère Novarina. Sarah Kane, evidentemente. Toda a realidade passa por Sarah Kane. Em língua portuguesa, destaco esse livro extraordinário que é Esplendor de Portugal, de Antonio Lobo Antunes, uma obra de precisão e sutileza. Eu pensei que ele ganharia o Nobel e não Saramago, se fosse o caso de alguém de Portugal levar o prêmio. Le Clézio é pouco reconhecido, no entanto, suas novelas A Tormenta e O Dilúvio são obras extraordinárias.
Marco Aurélio Weissheimer
No Carta Maior
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Cuba y Rio Grande del Sur por una mayor integración comercial

Empresarios cubanos y del estado brasileño de Río Grande del Sur realizarán este viernes, en La Habana, un encuentro de integración para fomentar el intercambio comercial en múltiples sectores.
Rodrigo Malmierca, ministro de Comercio Exterior y la Inversión Extranjera, y Tarso Genro, gobernador de ese territorio del gigante sudamericano, encabezarán ambas delegaciones.
La cita contará con la asistencia de representantes en las áreas de medicamentos, alimentos, maquinaría agrícola, calzados, transporte, infraestructura y energía hidráulica, entre otros, señala una nota la Cámara de Comercio de Cuba.
En su segunda visita al país caribeño durante el 2012, el gobierno y empresariado de Río Grande del Sur, participarán también en la XXX Feria Internacional de La Habana, a realizarse del cuatro al 10 de noviembre.
Hipólito Rocha Gaspar, director de la Agencia de Promoción y Exportación de Brasil en La Habana, subrayó en declaraciones previas a la AIN, que unas 25 firmas de ese estado exhibirán sus productos estrellas en la cita.
Brasil, primer suministrador de alimentos a Cuba en 2011, refuerza los planes de cooperación y desarrollo con la antilla, a partir del otorgamiento de créditos millonarios para la ejecución de proyectos a gran escala, como la ampliación del puerto del Mariel.
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Em Itabuna, partidários deixam o PSOL e filiam-se no PT

 
O diretório do PSOL de Itabuna sofreu um abalo considerável na última terça-feira, quando 11 dos 15 membros do Diretório decidiram deixar o partido e se filiaram no PT. Entre os filiados, estão cinco, dos sete membros da executiva municipal.
O presidente do PSOL de Itabuna, Thiago Souza (foto), foi o que puxou a fila, e levou o tesoureiro Igor Felipe e o secretário geral Erick Maia, e ainda Robert Souza e Laiza Gomes. Thiago Souza abandonou o Diretório Nacional e Estadual do partido.
Segundo informações, além desses 11, mais 90 filiados deverão deixar o PSOL de Itabuna. Com isso o ex-candidato a prefeito Zem Costa ficou isolado dentro do partido.
Em contato com Thiago Souza, ele declarou que conversou em Salvador com a JPT, e a conversa amadureceu e decidiu aceitar o convite. Ele também conversou com pessoas ligadas a tendência Esquerda Democrática e Popular (EDP), ligada ao deputado Nelson Pelegrino.
Questionado sobre o que motivou a saída deste grupo do PSOL, Thiago foi contundente: “A forma como foi feita a candidatura de Zem Costa, onde apelava demais para o lado Pessoal e familiar e fugiu do lado partidário”.
Indagado sobre qual grupo apoiará dentro do PT, o de Geraldo Simões ou Josias Gomes, Thiago preferiu a independência por agora:
“Nem um nem outro por ora, nenhum deles. nada de corrente, nos manteremos independentes.”
No Políticos do Sul da Bahia
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Lula e o exorcismo que vem aí

Uma capa recente do Estadão resumiu de forma enxuta os caminhos pelos quais a oposição brasileira pode enveredar para tentar interromper aos 12 anos o domínio da coalizão encabeçada pelo PT no governo federal.
De um lado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sugeria renovação do discurso do PSDB.
De outro, um novo depoimento de Marcos Valério no qual ele teria citado o nome do ex-presidente Lula:
Valério foi espontaneamente a Brasília em setembro acompanhado de seu advogado Marcelo Leonardo. No novo relato, citou os nomes de Lula e do ex-ministro Antonio Palocci, falou sobre movimentações de dinheiro no exterior e afirmou ter dados sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel.
Curiosamente, no dia seguinte acompanhei de perto uma conversa entre quatro senhores de meia idade em São Paulo, a capital brasileira do antipetismo, na qual um deles argumentou que Fernando Haddad, do PT, foi eleito novo prefeito da cidade por causa do maior programa de compra de votos já havido na República, o Bolsa Família. Provavelmente leitor da Veja, ele também mencionou entrevista “espírita” dada por Marcos Valério à revista, na qual Lula teria sido apontado como chefe e mentor do mensalão.
Isso me pôs a refletir sobre os caminhos expressos naquelas manchetes que dividiram a capa do Estadão.
Sobre a renovação do discurso do PSDB sugerida pelo ex-presidente FHC, pode até acontecer, mas não terá efeito eleitoral. O PT encampou a social democracia tucana e, aliado ao PMDB, ocupou firmemente o centro que sempre conduziu o projeto de modernização conservadora do Brasil. Ao PSDB, como temos visto em eleições recentes, sobrou o eleitorado de direita, o eleitorado antipetista representado pelos quatro senhores de meia idade e classe média que testemunhei conversando no Pacaembu.
Estimo que o eleitorado antipetista represente cerca de 30% dos votos em São Paulo, capital, talvez o mesmo em outras metrópoles. Ele alimenta e é alimentado pelos grandes grupos de mídia, acredita e reproduz tudo o que escrevem e dizem os colunistas políticos dos grandes jornais e emissoras de rádio e TV. Há, no interior deste grupo de 30% dos eleitores, um núcleo duro dos que militam no antipetismo, escrevendo cartas aos jornais, ‘trabalhando’ nas mídias sociais e participando daquelas manifestações geralmente fracassadas que recebem grande cobertura da mídia do Instituto Millenium.
Este processo de retroalimentação entre a mídia e os militantes do antipetismo é importante, na medida em que permite sugerir a existência de uma opinião pública que reflete a opinião publicada. É por isso que os mascarados de Batman, imitadores de Joaquim Barbosa, aparecem com tanta frequência na capa de jornais; é por isso que os jornais escalam repórteres e fotógrafos para acompanhar os votos de José Dirceu e José Genoíno e geram um clima de linchamento público contra os condenados pelo STF; é por isso que os votos de Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski nas recentes eleições foram usados de forma teatral para refletir a reação da “opinião pública” (de dois ou três, diga-se) ao “mocinho” e ao “bandido” do julgamento do mensalão. Curiosamente, ninguém se interessou em acompanhar os votos de Luiz Fux e Rosa Weber.
O antipetismo é alimentado pelo pensamento binário do nós contra eles, pelo salvacionismo militante segundo o qual do combate às saúvas lulopetistas dependem a Família, a Pátria e a Liberdade.
Criar essa realidade paralela é importante. Em outras circunstâncias históricas, foi ela que permitiu vender a ideia de que um governo popular estava sitiado pela população. Sabe-se hoje, por exemplo, que João Goulart, apeado do poder pelo golpe cívico-militar de 1964 com suporte dos Estados Unidos, tinha apoio de grande parcela da população brasileira, conforme demonstram pesquisas feitas na época pelo Ibope mas nunca divulgadas (por motivos óbvios).
[Ver aqui sobre o apoio a Jango]
Hoje, o mais coerente partido de oposição do Brasil, a mídia controlada por meia dúzia de famílias, forma, dissemina e mede o impacto das opiniões da militância antipetista. O consórcio midiático, no dizer da Carta Maior, produz a norma, abençoa os que se adequam a ela (mais recentemente a ministra Gleisi Hoffmann, que colocou seus interesses particulares de candidata ao governo do Paraná adiante dos do partido ao qual é filiada) e pune com exílio os que julga “inadequados” (o ministro Lewandowski, por exemplo).
Diante deste quadro, o Partido dos Trabalhadores, governando em coalizão, depende periodicamente de vitórias eleitorais como uma espécie de salvo conduto para enfrentar a barulhenta militância antipetista.
Esta sonha com as imagens da prisão de José Dirceu, mas quer mais: o ex-presidente Lula é a verdadeira encarnação do Mal. É a fonte da contaminação do universo político — de onde brotam águas turvas, estelionatos como o Bolsa Família e postes eleitorais que só servem para disseminar o Mal.
O antipetismo é profundamente antidemocrático, uma vez que julga corrompidos ou irracionais os eleitores do PT. Corrompidos pelo “estelionato eleitoral” do Bolsa Família ou incapazes de resistir à retórica demagoga e populista do ex-presidente Lula e seus apaniguados.
A mitificação do poder de Lula, como se emanasse de alguém sobre-humano, é essencial ao antipetismo. Permite afastar o ex-presidente de suas raízes históricas, dos movimentos sociais aos quais diz servir, desconectar Lula de seu papel de agente de transformação social. O truque da desconexão tem serventia dupla: os antipetistas podem posar de defensores do Bem sem responder a perguntas inconvenientes. Quem são? A quem servem? A que classe social pertencem? Qual é seu projeto político? Quais são suas ideias?
A crença de que vencer eleições, em si, será suficiente para diminuir o ímpeto antipetista poderá se revelar o mais profundo erro do próprio PT diante da conjuntura política. O antipetismo não depende de votos para existir ou se propagar. Estamos no campo do simbólico, do quase religioso.
Os quatro senhores do Pacaembu, aos quais aludi acima, estavam tomados por uma indignação quase religiosa contra Lula e o PT. Pareciam fazer parte de uma seita capaz de mobilizar todas as forças, constitucionais ou não, para praticar o exorcismo que é seu objetivo final. Como aconteceu às vésperas do golpe cívico-militar de 64, o que são as leis diante do imperativo moral de livrar a sociedade do Mal?
Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Wálter Maierovitch: Operações policiais em São Paulo são jogadas de marketing

Ouça o que diz Walter Maierovitch

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Mais uma mentira mesmo, ou só “inverdade”, Noblat?

Nesta terça (30), em discurso no Plenário, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) criticou Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo. Em seu discurso, Vanessa lamentava o fato de que um jornalista com sua experiência ter ido ao programa de Jô Soares para "falar inverdades em cadeia nacional”. Coincidência ou não, esta semana, a blogosfera se lembrou do álibi de mentira, sem eufemismos, que o jornalista pregou em conjunto com o então senador José Roberto Arruda, na época da violação do painel do Senado.
No plenário, Graziotin disse: “Não admito, como alguém que tem mais de 30 anos de vida pública, como alguém que já foi vereadora na cidade de Manaus, como alguém que já foi deputada federal por três mandatos e senadora da República, que um jornalista vá a um programa tão importante quanto o Programa do Jô falar inverdades e que estas passem por verdades”. Durante a entrevista ao Jô, Noblat acusou Vanessa de ter montado um farsa para “se vitimizar” e mudar o quadro eleitoral, no episódio em que ela foi agredida por um militante do adversário, o tucano Arthur Virgílio Neto, quando chegava para o debate organizado pela TV Em Tempo, retransmissora do SBT.
Imagens: A Justiceira de Esquerda
Direito de resposta – Vanessa disse que conversou por telefone com o apresentador Jô Soares, a quem enviará as explicações e provas das denúncias que fez na Justiça Eleitoral e à Polícia do Amazonas e mostrar o que teria acontecido no debate. A senadora pediu para que “a verdade fosse reposta”, porque a agressão que sofreu no primeiro turno da eleição não foi apenas física. “Foi uma agressão moral também, e isso está tudo devidamente anunciado e comprovado nas ações que nós ajuizamos junto à Justiça Eleitoral e no próprio inquérito que foi aberto pela Polícia do meu estado”, explicou.
“Pedi a ele [Jô Soares] que, se possível, reparasse tudo aquilo que foi dito pelo jornalista Ricardo Noblat e que, repito, não corresponde à realidade. Tanto é que, baseado em uma denúncia-crime apresentada por mim junto ao Tribunal Regional Eleitoral, esse senhor, esse jornalista, foi multado em R$ 65 mil, exatamente pelo fato de disseminar, de noticiar, fatos que não corresponderam à realidade do que ocorreu na cidade de Manaus”, contou Vanessa.
Álibi de Arruda – Vanessa Graziotin não devia se espantar com o que diz o jornalista, que na época do escândalo da violação do painel de votações do Senado, em 2001, Arruda era o líder do então presidente Fernando Henrique Cardoso na Casa e precisava provar que não estava “na cena do crime” e portanto não poderia ter conversado com Regina Borges, a diretora da Prodasen que comandou a violação do painel. Arruda disse que estava em um restaurante com Noblat e leu um documento redigido pelo jornalista na tribuna senatorial.
“Recebi um telefonema de um insuspeito jornalista, Ricardo Noblat, dizendo que estava me esperando no Piantella”, afirmou Arruda da tribuna do Senado. Dias depois, a farsa caiu por terra e o próprio Noblat, que redigira o insuspeito documento. “É mentira. Não telefonei para o senador e quando cheguei ao restaurante ele já estava lá”, negou Noblat. E desta vez é mentira ou inverdade, caro colega?
No Brasília em Pauta
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Cerco sem fim empurra Lula a candidatura em 2014

Edição 247:  
Oposição partidária e ventríloquos midiáticos em pé de guerra contra maior líder político do País; aposta é ida ao 'tapetão' da Justiça para conter força política crescente do ex-operário; feitiço, no entanto, pode recair contra os feiticeiros; de sua toca no Instituto Lula, em São Paulo, o perseguido avisa que, se for acuado, irá romper o cerco tornando-se candidato a presidente da República outra vez; "o STF não vai escrever o último capítulo da minha biografia"; alguém duvida?
Lula está na alça de mira dos sem-voto. Suplantada, paulatinamente, como se viu no resultado final das eleições municipais, pelo crescimento sustentado do PT – uma agremiação que a cada eleição, desde 1982, obtém mais votos em relação ao pleito anterior -, a oposição já percebeu que será impossível, pelo caminho das urnas, abater o ex-presidente. O que não significa que irá deixar de lado o pauta  permanente de acabar politicamente com ele.
As tentativas de tirar Lula do jogo recrudescem e estão concentradas, a partir de agora, no chamado "tapetão" – os diferentes ambientes judiciais para representações, investigações e julgamentos fraqueados a todos pela Justiça brasileira. Para a próxima terça-feira, o deputado Roberto Freire (PPS-SP) já anuncia a entrada de pedido formal à Procuradoria-Geral da República para que Roberto Gurgel e seus promotores iniciem um investigação específica contra o ex-presidente.
Esse ardil, no entanto, está produzindo  um paradoxo. Pensado para acuar Lula como uma raposa perseguida por cães e jagunços, ele já vai despertando um efeito reverso. Precisamente o que está levando Lula a ensaiar uma saída em grande estilo de sua toca, posicionando-se para bons entendores como candidato à Presidência da República em 2014.
- O último capítulo da minha biografia não será escrito pelo Supremo Tribunal Federal, teria dito o ex-presidente a interlocutores recentes, que já espalham a frase para suas correntes de amigos.
Como se sabe, Lula, entre o domingo 28 da surra político-eleitoral aplicado por Fernando Haddad e o PT em José Serra e o PSDB, e esta sexta-feira 2, ainda não fez nenhum pronunciamento público sobre os pleitos municipais. Mas protegido pelos vidros pretos do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, entre assessores, amigos e visitantes o ex-presidente manifesta uma avaliação extremamente positiva sobre o desempenho de seu partido.
- Gostei de tudo, principalmente do nosso resultado em Taubaté, divertiu-se Lula em reunião informal no Instituto Lula, na segunda-feira 29.
- Mas lá nos perdemos, presidente, lembrou um dos auxiliares, ciente de que o petista Isaac do Carmo fora derrotado pelo tucano José Ortiz por 37,08% dos votos válidos contra 62,92%.
- Pois é, mas implantamos o PT, que ali não tinha nada, praticamente nem existia. Agora o partido está lá. Campinas, então, foi espetacular, avançou o presidente, feliz outra vez, referindo-se neste ponto à derrota de seu candidato Marcio Pochmann para o eleito Jonas Donizette, do PSB, por 42,31% contra 57,69%.
Na quarta-feira 2, Pochmann e Donizete foram recebidos por Lula, em meio a uma chuva de cumprimentos. O que o ex-presidente não dirá, então, quando abrir a boca publicamente, e em definitivo com o câncer de garganta superado, sobre sua maior vitória com Haddad?
É esse Lula de cordão umbilical ligado ao povo, dono de quase 80% de índice de popularidade medido pelas pesquisas e com total liberdade para combinar com a presidente Dilma uma estratégia partidárias para 2014 que a oposição sabe que precisa derrotar. Por questão de sobrevivência. Impulsionado por Lula, na atual marcha batida o PT vai ser tornar um partido hegemônico. Ente prefeitos e vices, o PT passou a estar no Poder Executivo de nada menos que 1.000 cidades brasileiras. No maior município do País, registre-se, o partido fez, além do novo prefeito, mais 13 vereadores, isto é, a maior bancada da Casa.
No tapetão, a oposição tem sua base de denúncias num rematado delator e, agora, condenado pelo STF por crimes listados na Ação Penal 470. O publicitário Marcos Valério não é fonte das mais confiáveis, dado esse histórico, mas já estampou duas capas da revista Veja nas últimas seis  semanas. O Santo Padre Bento 16, o presidente Barack Obama, a hipnotizante Juliana Paes e quem mais se queira, ninguém conseguiu esse feito. Falta de assunto ou aposta em que é Valério, e somente ele, que pode trazer algum alento ao anti-lulismo, o que importa, no caso, e a cadeia de reverberação de fatos que está acionada a partir dessa matriz.
O jornal O Estado de S. Paulo igualmente aposta em Valério como fator de desestabilização de Lula. E, como não poderia faltar, o colunista imortal Merval Pereira, de O Globo, dá seu pitaco, nesta sexta 2, sob o título O Labirínto de Lula. São a oposição e seus ventríloquos, porém, que parecem estar andando em círculos, procurando dar as mãos para separar Lula de seu maior ativo, o reconhecimento do povo.
No 247
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