24 de set de 2012

D. Tomás Balduíno: “Nossa reforma agrária ainda é a dos militares”

D. Tomás Balduíno na porta de seu quarto no Convento São Judas.
Foto: Ana Helena Tavares.
Bispo emérito de Goiás, fundador e por seis anos presidente da Comissão Pastoral da Terra, fundador do Conselho Indigenista Missionário, com 90 anos de “uma vida a serviço da humanidade” (registrada em livro), D. Tomás Balduíno encontra momentos de sossego no Convento São Judas, onde mora em Goiânia, porém não desistiu de procurar a agitação dos movimentos sociais. 
O anel de tucum.
Foto Ana Helena Tavares
Goianenses relataram que não é difícil ver o bispo participar de manifestações importantes em sua cidade e Brasil afora. O “Quem tem medo da democracia?”, que o entrevistou com exclusividade dentro do Convento, não tem dúvidas deste vigor para a luta ao lado do povo. O uso do anel de tucum, feito de uma Palmeira nativa da Amazônia, simbolizando o compromisso com os oprimidos, não nos deixa mentir.
Na entrevista, D. Tomás definiu a mídia como “cão de guarda” do neoliberalismo. E falou, claro, de Igreja Católica, frisando o quanto ela é “comprometida com o poder”. Louvou os avanços do último Concílio, mas lamentou o “duro golpe” que a Teologia da Libertação levou no papado de João Paulo II. Golpe este que teria vindo a pedido do então presidente dos EUA Ronald Reagan.
Não acredita em novo golpe de Estado aqui, mas falou sobre o golpe no Paraguai e lembrou que “a sociedade civil gestou o golpe de 64”, garantindo que ele “foi dado, para quebrar a espinha dorsal dos trabalhadores rurais”, pelo temor que havia na época de que “o comunismo entrasse através do campo”. Segundo ele, hoje ainda temos um “modelo militar” de reforma agrária. “Uma reforma que controla a reforma”.
O bispo denunciou o genocídio de indígenas pela ditadura e o uso deles pelos militares: “chegavam a colocar farda nos coitadinhos para servir de espiões e informantes.”. D. Tomás chamou a luta armada de “luta defensiva” – “defendiam a população” – e considera essa Comissão da Verdade “pífia e medrosa”. “Porque é para fazer relato” Para ele, “junto com o relatório deveria estar a indicação da punição.”
“O confrontamento com o passado é fundamental para animar a resistência no presente. A necessidade de uma ação concreta para a condenação dos culpados é uma forma de fazer crescer a nossa democracia. E aí se não chegar às últimas consequências com relação aos facínoras da ditadura, não temos democracia, não temos Estado de direito. Isso é necessário como o ar que se respira, como o oxigênio.”, enfatizou.
Ao final, D. Tomás respondeu a pergunta-título deste site, incluindo aí o Judiciário e “muita hierarquia da Igreja Católica”. E fez um convite aos jovens para buscarem uma felicidade que “não embarca no consumismo e na vaidade do progresso.” “O reino é a semente menorzinha e pouquinho de fermento… Daí cresce.”, concluiu.
“Uma igreja comprometida com o poder”
“A participação (da igreja no golpe) foi conhecida através de uma declaração em que a cúpula da Igreja Católica agradecia a Deus pelo fato de ter havido ‘uma revolução sem derramamento de sangue e afastando o perigo comunista’. Analisando isso, é normal… Porque foi sempre uma igreja comprometida com o poder.”
“E, como (a igreja) é uma força, o poder também procurava essa igreja. Procurava apoio nela e dava apoio também. Essa é a conjuntura que a gente pode analisar e os cardeais do Rio e de SP (respectivamente, D. Jaime de Barros Câmara e D. Agnelo Rossi) foram os que puxaram a declaração.”
“Na igreja, sempre há um dissenso com relação a certas posições radicais e sem consulta ao episcopado. Mas houve uma reação salutar: o Vaticano II, que abriu a igreja para o mundo. E aqui na América Latina houve uma abertura para os pobres. Quer dizer, estamos no extremo oposto do golpe militar.”
“Quebrar a espinha dos trabalhadores rurais”
“Golpe este que, segundo declaração de José de Sousa Martins, estudioso dos assuntos da terra, foi dado não unicamente, mas, sobretudo, para quebrar a espinha dorsal das organizações de trabalhadores rurais. E isso envolvia naturalmente agentes de pastorais. Agentes das comunidades de base (CEBs).”
“Através desses agentes, começou a sentir-se o peso da repressão. Então, a igreja foi majoritariamente contra a vigilância, contra toda a forma de cerceamento do trabalho do pessoal da base.”.
E o comunismo viria através do campo…
“Os militares tinham conhecimento, por exemplo, das ligas camponesas. Tinham conhecimento dos conflitos aqui em Goiás, em Trombas e Formoso. E demonstravam o temor de que, através do campo, através das organizações de trabalhadores rurais, entraria o comunismo internacional. Essa era a análise deles. A gente acha que é uma análise induzida pela influência dos Estados Unidos. Pode ser…”
“Mas nós também já tínhamos organizações concretas, das ligas camponesas e da irradiação disso para diversas partes do país. A incidência disso aqui em Trombas e Formoso… Com gente muito organizada, gente que analisava a situação, que fazia estudos e que lutava. Que lutava na base no sentido da defesa da terra contra a injustiça do latifúndio, que era apoiado pelos militares.”
“Uma reforma que controla a reforma”
“Os militares não deixaram de lado a reforma agrária. Eles propuseram uma que é a que prevalece aí. Uma reforma que controla a própria reforma. E o que é uma reforma agrária sob controle? É aquela ditada pelos organismos do Estado: INCRA, ministérios… No sentido de transformar os trabalhadores rurais em pequenos proprietários. Esse é o modelo militar da reforma agrária que prevalece.”
“Porque é prático, né… O pessoal reivindica aquela terra, às vezes ocupa… Vai o INCRA e se entende com o judiciário, com os pretensos donos da terra e acaba, então, dividindo em quinhões. Aquilo é sorteado e cada família recebe um quinhão.”
“Depois, às vezes, ainda tem algum apoio de construção de estradas, de posto de saúde, escolas… Mais ou menos… Mas o fundamental é aquilo e deixar que a família se vire… O Estatuto da Terra, que até hoje é referência, vai muito nessa linha…”
Agronegócio: “apoio oficial e elogio da mídia”
“O golpe (de 64) não foi só apoiado pelo empresariado e pelas elites, ele foi gestado.” Mas, hoje, “a sociedade já aceitou a reforma agrária. Essa que tem aí. Quando houve o massacre de Eldorado dos Carajás, aquilo chocou tanto que foi feita uma pesquisa e 82% da sociedade se disse a favor da reforma agrária. Aí foi quando o FHC foi obrigado a criar um ministério. Na época, o ministro (Raul) Jungmann nos confessou a um grupo de bispos: ‘Eu sou ministro de 19 cadáveres’. Isso foi um momento extra.”
“A mídia e o empresariado nunca foram a favor de reforma agrária nenhuma. Por eles, não haveria atendimento às reivindicações dos trabalhadores rurais. Essa é a verdade. E, com o avanço do agronegócio, do hidronegócio, que têm todo apoio oficial e todo o elogio da mídia, a gente está dentro de uma correlação de forças desigual.”
O marxismo ajuda a “desentranhar a sociedade de hoje”
“No tempo da guerra fria, era o perigo comunista… Isso estava na mente dos EUA, que sempre dominaram a política, os meios de comunicação, e foi injetado aqui muito fortemente. Era uma luta de polos. Polarização: de um lado o capitalismo, que chamam liberalismo, do outro o comunismo. Com o tempo, a coisa foi mudando…”.
“Mas, há dois níveis de reposta (a pergunta foi sobre a relação entre comunismo e cristianismo). Primeiro, a visão comum na igreja. Entre os cristãos, há um receio com relação ao comunismo. Ainda há aquela ideia de “comer criancinha”, de perseguir a igreja, de ateísmo… Isso aí é um sentimento geral, arraigado, virou cultura.”
“Agora, outra coisa é isso visto pelos teólogos, pelos pastoralistas, por bispos católicos e evangélicos, sobretudo das religiões tradicionais: luterano, anglicano, metodista… Porque a linha pentecostal é completamente diferente. Já a Teologia da Libertação não vê o marxismo como um bicho papão, não um mal, mas um instrumento científico. E aí você o adota com liberdade de cientista.”
“Não é um dogma, embora alguns tenham isso como dogma. Mas para nós da Teologia da Libertação é útil na análise da realidade, com profundidade. Favorece a desentranhar a sociedade de hoje e trazer à tona os seus problemas e suas vinculações políticas e econômicas. Porque a partir daí você faz uma reflexão teológica.”
Teologia da Libertação
“O pessoal diz que a Teologia da Libertação usa necessariamente a teoria marxista. Não é verdade. A gente tem muita liberdade e eu acho até – o que é um pouco o parecer do Gustavo Gutierrez, criador da Teologia da Libertação – que é uma forma de ajudar o próprio marxismo a entender bem a caminhada da realidade. Não caindo no radicalismo, mas tendo uma visão mais ampla da sociedade de hoje.”
 “Citando Gustavo Gutierrez: ‘Chegou para mim a notícia de que a Teologia da Libertação morreu, mas não me convidaram para o enterro.’ Eu também não fui convidado e acho que ninguém foi. O certo é que ela sofreu um duro golpe no papado de João Paulo II. No sentido de limpar a Teologia nos seminários. 99,9% do poder dentro da igreja está nas mão do papa.”
“É próprio da Igreja Católica. E João Paulo II tinha uma estratégia… Ele pegou a base… Houve visitação de todos os seminários no mundo inteiro. Eu tinha um pequeno seminário na Diocese de Goiás. Foi lá um visitador. Na outra ponta estrategista, há a nomeação dos bispos.”
João Paulo II começou a nomear bispos, arcebispos e cardeais conservadores. “Houve um caso flagrante. D. Hélder fez toda uma caminhada, participada pelo povo. Chegou o sucessor e arrasou tudo. Na cara dele. E houve mais. Dizem que num encontro com o Reagan no Alasca, encontro que ficou histórico, houve uma troca de apoios. O papa pediu apoio para a Polônia, que estava precisando, e Reagan da parte dele pediu que o papa segurasse a Teologia da Libertação. E a proposta foi cumprida”.
“Agora o que garante que ela vive são alguns padres e religiosos. Há grupos, muitos nas CEBs, que estão numa linha libertadora, embora minoritária. E também há a força do laicado. Eles até podem ser proibidos de ter uma cadeira numa universidade católica por algum recado que venha de cima… Mas não pode acontecer com eles o que aconteceu com Leonardo Boff, que foi condenado a um obsequioso silêncio.”
Abaixo, assistam a um vídeo com a 1ª parte da entrevista e, em seguida, confiram a continuação da transcrição da íntegra.
“Essa Comissão da Verdade é pífia!”
Perguntado se deveria haver punição aos torturadores da ditadura, D. Tomás não hesitou: “É lógico que deve punir! São criminosos! Cometeram crimes hediondos e isso pesa na história do nosso país. Agora, a reação dos que chamam de “revanchismo” é coisa velha… Isso vem de longe…”
“Eles continuam batendo nessa tecla porque surtiu efeito. Veja o caso da Argentina… Lá deve também ter havido reação, devem ter falado em “revanchismo”, mas tem general-presidente na cadeia. O lógico é isso. Pela lei. Pela justiça. Não pelo processo de vingança, mas de distribuir a justiça segundo os seus critérios mais limpos.”
“Aqui em nosso país começou a se levantar uma reação com relação a isso no governo Lula, mas meio medonha dos militares… Nós vimos a dificuldade do Vanucchi (ex-ministro dos direitos humanos) de levar adiante o processo… Foi afastado…”
“A Comissão da Verdade dá uma certa satisfação à sociedade, mas fica muito aquém do que deveria ser… Por que fica aquém? Porque é uma Comissão de relato. De fazer relatório e mandar aquele pacote… Para quem? Talvez para a presidente…Eu acho que junto com o relatório deveria estar a indicação da punição.”
“E aí, através da presença de juristas integrando a própria Comissão oficial, já declarar e publicar isso e mandar para quem de direito. Não cabe à Comissão executar. Mas cabe julgar e não só levantar os fatos, como é a missão dela.”
“Então, é pífia. É muito medrosa, concede muito à pressão militarista em nosso país. Um poder que está aí como ameaça: ‘Toma cuidado que a gente pode voltar o cano do fuzil para vocês. ’ E já houve esse problema de cassarem o judiciário e deputados… É o poder militarista. A verdadeira Comissão seria uma primeira quebra desse poder, com todas as consequências.”
“O confrontamento com passado anima a resistência no presente”
“Eu concordo inteiramente com a palavra de D. Paulo (Evaristo Arns) quando diz que ‘Um povo que não pode ou não quer se confrontar com seu passado histórico está fadado a repeti-lo’. O confrontamento com o passado é fundamental para animar a resistência no presente.”
“E digo mais: a necessidade de uma ação concreta no sentido da condenação dos culpados que ainda estão vivos é uma forma de fazer crescer a nossa democracia. Uma democracia verdadeira enfrenta com a participação de todos os problemas do passado e do presente que têm a ver com a sociedade como um todo.”
“E aí se não chegar às últimas consequências com relação aos facínoras da ditadura, não temos democracia, não temos Estado de direito. Isso é necessário como o ar que se respira, como o oxigênio.”
Ditadura: “o maior pecado”
“Sempre a sociedade teve pecados, falhas, crimes… O maior deles foi a ditadura. Esse é que é o problema: não dá para generalizar. Os militares é que pressionaram para fazer isso (para investigar de 46 a 88) e, inclusive, para investigar ‘a outra parte’ dos chamados ‘subversivos’. Isso é pressão deles”.
“Então, já começa com essa mancha, com essa tara, sei lá… O certo seria pinçar a ditadura e trabalhar apenas neste período. Sobretudo, porque é um período recente, de ontem… Temos direito e poder para isso, afinal o país é uma democracia.”.
Luta armada: “uma luta defensiva”
Para Dom Tomás, os militantes de esquerda “não eram bandidos, não queriam apenas se saciar de sangue. O objetivo deles era honrar a pátria. Sonhavam com isso desde antes do surgimento da luta armada. Houve assaltos a bancos e tal, mas era um objetivo justo. Era uma luta defensiva. Defender o nosso patrimônio. Defendiam a população. Ofereciam tratamentos de diversos tipos. Até tratamento dentário.”
“E ainda tem os índios que foram massacrados pelos militares. Chegavam a colocar farda nos coitadinhos para servir de espiões e informantes para a repressão, porque conheciam bem a floresta.”.
Genocídios de indígenas
“A Comissão da Verdade dá a impressão de que a ditadura foi só contra os opositores políticos. Houve crime de genocídio contra os povos indígenas, porque ali no lugar deles se queria fazer uma hidrelétrica. Falo do caso específico da (usina) Balbina.”
“Eu tenho um colega que foi missionário jesuíta, do Conselho Indigenista Missionário, do qual participei, e ele tem toda uma proposta de levantar as chacinas contra os povos indígenas durante a ditadura. Todas em vista de alimentar o latifúndio e os empresários. Até chegaram a dizer que ‘os índios estavam cansados de ser índios’. Pois é… Tirar da terra, mudar da terra, é matar o índio.”
“No Paraguai houve golpe”
O QTMD? pediu a D. Tomás Balduíno que definisse se o que houve no Paraguai foi ou não golpe e se há possibilidade de ocorrer algo parecido aqui. Enfático, respondeu: “No Paraguai, foi golpe! É o parecer comum de políticos, sociólogos, pastoralistas (Lugo era bispo…). O partido Colorado (dos militares paraguaios) tentou por anos construir um país a serviço de uma minoria.”
“Foi um golpe porque ele (Lugo) tentou desconstruir aquilo que o partido Colorado fez. O pessoal se assustou… Lugo tem seus defeitos, mas o pecado maior que atribuem a ele é o de ter mexido neste ninho de aproveitamento de um país por um grupo minoritário, pela elite crioula. Não pagam imposto de renda pessoal. Ou seja, trabalharam o país de modo a se enriquecerem…”
“A recusa do imposto libera a arraia miúda, mas libera, sobretudo, quem detém um capital extraordinário. O golpe foi, então, contra essa possibilidade. E eles estão muito atentos para que não volte a ameaça à formação desse núcleo de dinheiro a partir da exploração de um país como um todo.”
D. Tomás não vê chance de novo golpe aqui
“O Congresso que nós temos dispensa qualquer perspectiva de golpe. Teria perspectiva se houvesse uma Constituinte popular – uma utopia que não se realizou porque Sarney fez uma Constituinte congressual. Os deputados e senadores é que foram os vogais, legislando em causa própria.”
“Foi chamada de “cidadã” pelo Ulysses Guimarães… Está bem… Mas aqui precisava ter uma na linha das aspirações populares para, aí sim, haver chance de golpe. E seria um golpe com toda a armadura militar.”
“Ela (a nossa Constituição) tem coisas boas, mas é estruturalmente viciada. Mantém a mesma estrutura de poder no Brasil. O Judiciário intocável… Deputados imunes. Essa imunidade… E na presidência da República, então, nem se fala…”
“Mas tem uma base de legislação indígena respeitável. Só não é cumprida. Ela vem sendo, pouco a pouco, anulada pelo Judiciário e por medidas provisórias. Por exemplo, a portaria 303 do AGU (Advocacia-Geral da União) destrói toda a possibilidade de articulação dos povos indígenas no sentido de manter suas terras. Está com repercussão internacional. Tomara que deem em cima do Brasil…”.
Mídia: “um cão de guarda”
“Os processos de expulsão do Brasil sofridos por D. Pedro Casaldáliga a gente publicava no Estadão, que tinha receitas culinárias no lugar das partes censuradas. Agora, de um modo geral, durante e posteriormente à ditadura, a mídia caminhou junto do sistema neoliberal, do sistema de concentração de renda, concentração de poder, de exclusão, e vigilante quanto a todas as possibilidades de alteração.”
“A mídia faz um pouco o papel de cão de guarda, como a bancada ruralista. É um cão de guarda para não deixar passar nada em favor da reforma agrária. E consegue. Acho que a mídia aqui ficou muito na defensiva desse patrimônio econômico, capitalista, elitista, concentracionista, segregacionista e cruel. A mídia envolveu-se muito nisso e hoje a vejo por esse prisma, porque está ligada ao grande capital internacional. Essa é a verdade.”
“Há alternativas, mesmo que mirins, mas não estão dentro da igreja. Só temos periódicos de sacristia, tudo muito clerical. Mas nenhum como, por exemplo, o Brasil de Fato, que mostra a produção do MST. E eu participei da formação de 52 juristas em Goiás, provenientes das terras, filhos de lavradores identificados como sem-terra.”
A vaia à Dilma
“Dilma não se destaca pelo lado da luta pelo Brasil que nós queremos. Pelo contrário, quando era ministra das Minas e Energia, ela não dava a mínima para os movimentos sociais. Uma ministra dos grandes negócios. Mineração, Vale…”
“Antes de ser presidente, ela deu um testemunho que nos deixou a todos com um pé atrás. Num Congresso de trabalhadores rurais em Brasília, ainda como ministra, ela foi vaiada do início ao fim. Eu não posso dizer o teor do discurso, porque eu entrei e saí, mas era a respeito da política oficial sobre a terra. Era uma plateia composta pelo MST, pessoal que já vinha sofrendo.”
“Como presidente, não faz diferença quanto ao governo anterior. As alianças são com os mesmos partidos indesejáveis. Ocupando postos-chave de acordo com os aliados. Isso não mudou. Agora, a gente reconhece que tem uma aceitação popular, uma cotação boa a nível nacional. Essa investida da Polícia Federal contra corruptos e corruptores tem valido para ela um intento favorável. Acho que pode ser reeleita.”.
Quem tem medo da democracia?
“Quem tem rabo-preso. Aqueles que montam sua estrutura sociopolítica e, sobretudo, econômica na corrupção. E é perigoso enfrentar isso… É morte certa. Têm medo da democracia os militares envolvidos com a repressão. Não são todos, mas as exceções são poucas.”
“Para mim, tem medo da democracia o próprio Congresso, que está muito satisfeito com a estrutura que está aí e que é antidemocrática. A maioria que está lá representa uma mínima minoria da sociedade. Isso é profundamente antidemocrático. Esse pessoal tem medo de mudar essa estrutura. Porque muitos fazem da política um ramo de negócio. A gente vê governador, por exemplo, que como candidato tinha um carrinho… De repente, depois de alguns anos de governo, se torna referência em termos de riqueza. Eu vi governador aqui que era funcionário público e se tornou o maior fazendeiro do Estado (Goiás).”
“O judiciário tem medo da democracia. E tem razão, porque é capaz de achar leis que favorecem o status quo, os arrazoados mais perfeitos… São máquinas de produzir saber. Se um dia a democracia chegar ali, o resto é ‘ficha’, é fácil”.
“Muita hierarquia da igreja tem medo da democracia. Eu estou falando do Estado, tenho que falar da Igreja. Usa-se a palavra ‘comunhão’, mas é ambígua…”
Recado aos jovens
D. Tomás orienta os jovens a seguirem os ensinamentos de “Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Hélio Bicudo, Fábio Konder Comparato, D. Pedro (Casaldáliga), D. Paulo (Evaristo Arns). São homens da esperança. O que mantém esse pessoal em pé é acreditar no próximo, no outro, na outra… A gente acredita.”
“Acho que têm essa força, essa semente, e isso se liga com a palavra de Jesus. O reino é a semente menorzinha e pouquinho de fermento… Daí cresce. É por aí que vem a solução: é de baixo para cima, é de dentro para fora. E vou mais longe: as quebradeiras de coco, e, sobretudo, os índios na América Latina estão levantando o bem viver.”
“Nós todos queremos essa felicidade para a gente e para os demais. E ela está numa linha nova, que não embarca no consumismo, produção pela produção, vaidade do progresso a qualquer preço, como Belo Monte, Santo Antonio, Jirau, Tapajós.”
Ana Helena Tavares
No Quem tem medo da democracia?
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Vox Populi - Serra cai; Haddad sobe

O candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, subiu três pontos, tem 34% das intenções de voto e se mantém na liderança, segundo pesquisa Vox Populi, em parceria com a TV Bandeirantes, divulgada nesta segunda-feira.
O tucano José Serra caiu cinco pontos em relação à sondagem anterior, de 22% para 17%, e aparece tecnicamente empatado com o petista Fernando Haddad, que subiu três pontos, de 14% para 17%, na briga pelo segundo lugar na disputa. A margem de erro é de 2,2 pontos para mais ou para menos.
Gabriel Chalita, candidato do PMDB, se manteve em 5% e Soninha Francine, candidata do PPS, passou de 4% para 2%. Paulinho da Força, do PDT, e Levy Fidelix, do PRTB, têm 1%. Brancos e nulos somaram 10% e 13% se declararam indecisos.
O Vox Populi entrevistou 2.000 eleitores entre 19 e 21 de setembro. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número TER SP 01056/2012
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Lula deveria ter respondido?


Lula
Achei que era óbvio, mas pelo visto não era.
Lula não poderia ter respondido a Marcos Valério. Não em circunstâncias normais, e muito menos quando o próprio Marcos Valério nega que tenha dito o que dizem que ele disse.
Lula teria sido muito bobo se chancelasse o jogo do “disse-que-teria-dito”, e isso ele não é.
Qualquer pessoa razoavelmente inteligente, ou que não sendo tenha um advogado por perto, não responderia. O que quer que Lula dissesse apenas daria mais balas a quem deseja fuzilá-lo.
O debate em torno de Lula ultrapassou, já há muito tempo, os limites da racionalidade. Instalou-se, na grande imprensa, um vale-tudo em que o bom jornalismo não quer simplesmente dizer mais nada. Basta ver a prova técnica, passada no Jornal Nacional, segundo a qual Serra teria sido mesmo vítima no célebre Atentado da Bolinha de Papel, ou a informação — “não confirmada e nem desmentida”, e ainda assim publicada — de que Lula teria uma fortuna secreta no exterior.
Uma suposta denúncia de um conhecido vigarista ganha instantaneamente status de verdade absoluta e indiscutível para quem é contra Lula. Uma palavra que qualquer jornalista mediano colocaria sob suspeição, dada a fonte despida de qualquer credibilidade, acaba – por obtusidade cínica ou má fé córnea, para usar a grande expressão de Eça de Queiroz – se transformando no equivalente a um verso do Corão para um muçulmano praticante.
Tenho para mim que Lula faz bem, de resto, em não tornar ainda mais tenso o ambiente político brasileiro. (Se é verdade que Rui Falcão anda criticando pesadamente a mídia, alguém deveria serená-lo.)
Em dois países vizinhos, existe um quadro parecido. Governos de esquerda são massacrados, na Venezuela e no Equador, pela mídia estabelecida. Não importa que Rafael Correa, do Equador, tenha vencido duas eleições: um comentarista auto-exilado em Miami o chamada de “Grande Ditador”. Nos dois casos, os presidentes têm reagido com fragor. Chávez, na Venezuela, é xingado e xinga, bem como Correa.
No Brasil, se a mídia age à maneira da imprensa venezuelana e equatoriana, a diferença está na atitude primeiro de Lula e agora de Dilma. Eles não estão reagindo aos ataques, e isso é bom para o Brasil e os brasileiros. De outra forma, a sociedade viveria sob uma uma atmosfera irrespirável.
Sequer na sombra surgem retaliações. Leio que a verba publicitária em 2011 do governo para a Globo – que astutamente, aspas, finge objetividade enquanto só dá voz e colunas a quem é visceralmente anti-Lula – foi de 50 milhões de reais, um dinheiro usado para pagar aloprados em profusão e para fazer novelas que emburrecem o brasileiro. Para a Carta Capital, sempre atacada por ser chapa branca, restou um fragmento: 100 mil reais. E reconheçamos: descontados os ataques pessoais e frequentemente descabidos a seu ex-patrão Roberto Civita, Mino Carta é quem tem escrito os textos que melhor retratam o Brasil moderno. A Carta Capital se elevou na depressão que envolveu mídia brasileira.
Não seria bom para ninguém se Lula ou Dilma agissem como Chávez ou Correa. Os que querem se livrar de Lula a todo preço deveriam respirar fundo e lembrar que ele tem um apoio extraordinário entre os brasileiros. Collor foi chutado sem reação, por não ter base nenhuma, mas se o mesmo acontecesse  a Lula o cenário seria diferente.
Me parece às vezes que é aquele caso do garoto que vai provocando um outro, e mais, e mais, porque não encontra reação. Toma a prudência por medo, e excede na insolência até que um dia as coisas realmente se complicam. Gostaria de ver tanto destemor , aspas, se vivêssemos sob uma ditadura. Basta ver o comportamento da Globo de Roberto Marinho sob os militares para saber onde vai parar tamanho ardor. Saem os Jabores e entram os Amarais Netos, ao sabor das circunstâncias.
Quem quer ver Lula e o PT fora do poder – um direito legítimo de qualquer cidadão — tem que trabalhar duro: conquistar a simpatia da maioria dos brasileiros, mas não com truques baixos porque a voz rouca das ruas não é idiota, e ganhar nas urnas.
Democraticamente.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Juíza processa sindicalista que fez samba

A juíza da 6ª Vara Cível de São José, Márcia Loureiro, que determinou areintegração de posse do Pinheirinho, cumprida em janeiro deste ano, processa o dirigente da Conlutas, Renato Bento Luiz, conhecido como 'Renatão', por calúnia e difamação.
Ele é autor da letra do samba-enredo "Covardia Nacional", que criticou a retirada dos moradores do Pinheirinho no desfile de carnaval do bloco 'Acorda Peão', organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José.
Os sindicalistas desfilam no Carnaval há 14 anos com críticas sociais e sátiras políticas.
No processo, aberto em 27 de agosto pela Procuradoria de Justiça de São José, Márcia diz ter se sentido pessoalmente ofendida com a letra, especialmente a estrofe: "Falou Eliana Calmon / Espalha rápido essa droga / Em São José já tem bandido de toga", que faz referência à afirmação da então ministra do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), Eliana Calmon, em entrevista ao O VALE, no ano passado. Márcia também questiona o uso de uma alegoria carnavalesca da deusa grega Têmis, símbolo da Justiça, levando dinheiro e pessoas nos pratos da balança, que pendia para o lado das notas.
Segundo os advogados da juíza, a alusão a ela é "inconteste" em razão de a desocupação do Pinheirinho ter sido por ela ordenada.
A pedido do Ministério Público, a Delegacia Seccional de São José abriu um inquérito no dia 12 de setembro para apurar as denúncias. Segundo o delegado Antonio Alvaro Sá de Toledo, o dirigente da Conlutas será ouvido amanhã. "Trata-se de uma ação penal privada que apura crime contra a honra. Se ficar comprovado, o investigado por até ser preso", disse.
Márcia, que está de licença do Fórum de São José, não foi localizada ontem para comentar o caso.
Para Renatão, a atitude da juíza representa um "ataque à liberdade de expressão" e um "ato de censura". "Acho que é um retrocesso. O bloco é uma brincadeira que fazemos e não um ataque pessoal", afirmou.
O advogado do sindicalista, Denis Lantyer, chamou a ação de "absurda" e a considerou uma tentativa de dar conotação pessoal à letra, que é "irreverente, crítica e impessoal". "Não houve ataque à juíza. Vamos mostrar que o que está em jogo é a liberdade de expressão, o veto à censura no país e o direito à informação", afirmou Lantyer.
Confira a letra do samba-enredo:

"Covardia Nacional"

A moradia é um direito constitucional
Atacaram o Pinheirinho, covardia nacional
Alckmin e Cury sujaram de sangue este chão
Promessa de casa é até passar a eleição

Sou vereador da situação
Fiquei quietinho, o Pinheirinho está no chão
Pinheirinho e estudante é um tormento
Se juntaram e derrubaram meu aumento

Desaproprie o Pinheirinho
Dilma vem pra luta agora
Pra mostrar a diferença dos tucanos
tá na hora

Prefeitura e a Justiça
Comando do batalhão
Mete bala em inocente
e liberta o ladrão

É Carnaval e o bandido vai pra farra
gastar a propina do Naji Nahas

Falou Eliana Calmon
Espalha rápido essa droga
Em São José já tem bandido de toga

Vai ter punição, isto é Brasil
Só que ela vem lá em 1º de abril

A moral desta gente não se mede
Dizia Cazuza: a burguesia fede
No Bom Dia São José

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Agora é a criminalização de Dilma?

Muitas pessoas ficaram surpresas quando Joaquim Barbosa mencionou Dilma Rousseff no Supremo. Para reforçar a ideia de compra de votos, Joaquim citou um depoimento em que Dilma se confessou surpresa com a rapidez com que o Congresso aprovou o novo marco regulatório de energia elétrica.
A mensagem do voto do ministro, exaustivamente repetida pelas emissora de TV, tem um elemento malicioso.
A “surpresa” de Dilma seria, claro, era uma prova do mensalão. O ministro não disse, mas permitiu que todos ouvissem: sem o mensalão, o marco regulatório não teria saído com a rapidez que surpreendeu a ministra-presidente.
A resposta do Planalto, em nota oficial, foi rápida. Responsável pelas negociações do marco regulatório ocorridas no Senado, Aloizio Mercadante também se manifestou.
O fato é que essa insinuação me parece uma consequência lógica da visão que Joaquim Barbosa está imprimindo ao julgamento.
Ele acredita que encontrou crimes até onde não é possível demonstrar que tenham ocorrido.
Falando com franqueza: para entender a “surpresa” revelada pela ministra, não é preciso enxergar tudo com malícia. É preciso considerar o chamado contexto. Pensar em política como o exercício humano e insubstituível de negociar, avançar e ceder.
No início do governo Lula, a oposição tucana fazia o possível para criar problemas para os petistas, em várias áreas. Mesmo na Previdência, onde o PT deu continuidade a uma reforma planejada por FHC, o PSDB fingia que nada tinha a ver com o assunto. Queria dar o troco para Lula, criando dificuldades artificiais, como a antiga oposição lhe fizera. Mostrar boa vontade com iniciativas de Lula, naquele momento, era mostrar-se fraco e adesista diante de seus eleitores. Era quase uma traição perante cidadãos que haviam dado seu voto para candidaturas tucanas só por amor à causa, quando todo mundo sabia que não tinham a menor chance.
O marco de energia era especialmente delicado por uma razão política conhecida. No segundo mandato de FHC, a falta de energia impediu a retomada de crescimento econômico, submetendo os brasileiros a um vexame inesquecível de racionar o uso de energia num país com todo esse potencial elétrico que todos nós sabemos.
A surpresa vem daí. Depois de blefar e ameaçar, os tucanos também concordaram em votar com o governo na sala de Mercadante.
A política é assim. Não é engenharia. Não é equação matemática. Inclui dissimulação, esperteza, ações dissimuladas. Não é contabilidade.
Pode incluir a corrupção — como acontece em vários lugares, o que levou a Eliane Calmon a querer saber até o que acontecia na Justiça.
Mas é preciso apurar, investigar e esclarecer. No caso de crime, apurar, ouvir as partes e acusar. É errado apenas mencionar, não é mesmo?
Respeito Joaquim Barbosa. Conheço seus títulos e sua formação. Acredita no que fala e diz. Mesmo quando discordo, devo admitir que está longe de fazer denuncias “mequetrefes”, para empregar um termo que se tornou obrigatório no julgamento.
Mas eu acho que essa insinuação fora de lugar não ocorre por acaso.
A menção a Dilma foi apenas uma manifestação – um pouco exagerada, digamos – de uma atitude típica de um julgamento que avança numa imensa carga de subjetividade.
Várias vezes, Joaquim falou que é preciso examinar o contexto da denúncia, o contexto da ação dos acusados e assim por diante. Mas não considerou o contexto do apagão, este evento gigantesco, demolidor, humilhante para um país e sua população.
Imagino que, tecnicamente, o nome Dilma era uma menção até desnecessária. Tenho certeza de que num inquérito de milhares e milhares de páginas seria possível encontrar exemplos equivalentes e até mais enfáticos. Tenho certeza de que é possível demonstrar que houve compra de votos, em alguns casos, e apenas apoio político a um aliado, em outros.
A diferença é que nem sempre estes casos envolviam uma autoridade que, de ministra passou a presidente da República.
Politizando a justiça, pode-se dizer que a citação a Dilma jogou o julgamento para… 2014.
O voto de Joaquim Barbosa, mais uma vez, foi aos tele jornais. Foi repetido, reprisado… Sabe o que aconteceu?
Salomão Shwartzman, radialista e jornalista muito experiente, já lançou um comentário dizendo que o PSDB deveria convidar Joaquim para disputar a presidência da República.
Tudo é política. Mesmo o que não parece.
Na biografia de José Alencar, Eliane Cantanhede descreve o encontro entre Lula e seu vice, José Dirceu e Waldemar Costa Neto, onde se debate uma aliança política e a consequente coleta de recursos financeiros. Se fosse hoje, alguém mais afogado que estavam combinando um assalto.
Mas a descrição deste acordo político de campanha é tão bem feita, tão clara, que os advogados de Delúbio Soares incluíram vários parágrafos sobre o “rachuncho”— a expressão, bem humorada, é de Eliane – nas suas alegações finais de seu cliente.
Sabemos que a criminalização da política tornou-se parte da estratégia da acusação para condenar o maior número possível de acusados. Vamos combinar que ajuda a sustentar a tese de que não havia recursos para campanha eleitoral – mas compra de votos no Congresso.
Admito que eles simplesmente não conhecem os fatos que estão julgando, não tem familiaridade com o mundo das tratativas e negociações e acham tudo suspeito, estranho…
Considerando a baixa credibilidade dos políticos, apostar que todo mundo é ladrão pode ser uma vulgaridade – mas é uma forma de garantir, com facilidade, apoio popular a medidas que podem ser justas ou arbitrárias.
Minha experiência com a humanidade permite dizer que já tive contato com momentos de grandeza, coragem, solidariedade. Também tiver a infelicidade de testemunhar imensas baixezas.
Mas não me lembro de ter visto relatos – nem em ficção – de repulsa a linchamentos.
Acabo de ler a notícia de que alguns procuradores já estão preocupados com o indulto de Natal dos réus do mensalão. É assim: dando de barato que eles serão condenados, o que parece cada vez mais provável, a preocupação agora é impedir que passem o Natal com a família… Mais um pouco e teremos de acionar a Comissão da Verdade, que investiga crimes cometidos por representantes do Estado contra direitos humanos, para ver o que está acontecendo em nossa democracia…
É justiça, isso? Ou é vingança?
Como já disse aqui, eu acho que o mensalão produziu delitos de todo tipo. Também acho que havia caixa 2 e dinheiro publico desviado. São crimes diferentes, que a legislação trata de forma diferente porque lá atrás aquele personagem oculto e onipresente que os advogados chamam de O Legislador entendeu que era assim.
Ao ignorar as diferenças, quem perde é a democracia.
Paulo Moreira Leite
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Charge online - Bessinha - # 1484

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Lula chora aos gritos dos estudantes, de Lula guerreiro do povo brasileiro

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A desnacionalização fundiária

Há cem anos, sobre um vasto território entre o Paraná e Santa Catarina, uma empresa norte-americana, a Southern Brazil Lumber & Colonization, reinava absoluta. Com a maioria de empregados norte-americanos, contratados por Percival Farquhar, que pretendia transformar o Brasil em vasta empresa de sua propriedade, a Lumber abatia todas as árvores de valor comercial, da imbuia à araucária. Todas as manhãs, ao som de um gramofone, os empregados – incluídos os brasileiros – reunidos na sede da empresa, em Três Barras, entoavam o hino norte-americano, The Star-Spangled Banner, enquanto a bandeira de listras e estrelas era hasteada. Ao anoitecer, repetia-se a cerimônia, ao recolher-se o pavilhão. Ali mandavam e desmandavam os ianques. O imenso espaço em que se moviam os homens de Farquhar estava fora da jurisdição brasileira.
Embora não houvesse sido a única razão do conflito, a Lumber esteve no centro da Guerra do Contestado, um dos mais épicos movimentos de afirmação nacionalista do povo brasileiro. Nele, houve de tudo, dos interesses econômicos de Farquhar e seus assalariados pertencentes às oligarquias políticas, ao fanatismo religioso, em que não faltou uma Joana d’Arc – a menina Maria Rosa morta aos 15 anos na beira do Rio Caçador, lutando como homem.
Enquanto houver nações, a terra, o sangue e a honra continuarão unidos para dar corpo ao que chamávamos pátria, e de que nos esquecemos hoje. Quem conhece história sabe que os movimentos internacionalistas, quase sempre a serviço dos impérios, acabam sendo vencidos pelos sentimentos mais poderosos dos povos identificados pela cultura, pelas crenças – e pela língua. Nós podemos conhecer muitas línguas, mas só saberemos expressar os sentimentos mais fortes naquela que aprendemos dos lábios maternos. Podemos conhecer todas as paisagens do mundo, mas só nos identificamos com aquelas que os nossos olhos descobriram sob o sol da infância.
Mas há duas formas de pisar o chão pátrio: a dos ricos e a dos pobres.
Isso explica por que os grandes agronegocistas brasileiros estão pressionando o governo e o Congresso, a fim de que sejam abolidas as restrições (já de si débeis) à aquisição de terras nacionais pelos estrangeiros. Eles querem ganhar, ao se associarem aos capitais de fora ou participando da especulação de terras. Calcula-se que mais de um por cento das terras brasileiras já pertençam, e de forma legalizada, aos alienígenas. A essa enorme área há que se acrescentar glebas imensas, adquiridas de forma subreptícia, e sem conhecimento público, porque os cartórios de imóveis estão dispensados de registrar a nacionalidade dos compradores.
O Congresso está para aprovar a flexibilização das leis que regulam o assunto, ao estender à agropecuária a Doutrina Fernando Henrique Cardoso, que considera empresa nacional qualquer uma que se estabelecer no Brasil, com o dinheiro vindo de onde vier e controlada por quem for, e que tenha sua sede em Nova Iorque ou nas Ilhas Virgens.
Nós tivemos, no século 19, uma equivocada política colonizadora, que concentrou, nos estados meridionais, a presença de imigrantes europeus.
Isso implicou a criação de enclaves culturais que se revelariam antinacionais, durante os anos 30 e 40 do século passado. Foi difícil ao Brasil conter a quinta-coluna nazista e fascista que se aliava ao projeto de Hitler de estabelecer, no Cone Sul, a sua Germânia Austral. O governo de Vargas foi compelido a atos de firmeza – alguns com violência – a fim de manter a nossa soberania na região. Só no Piauí, a venda de glebas aos estrangeiros aumentou em 138% entre 2007 e 2010. São terras especiais, como as do sudoeste da Bahia, que estão sendo ocupadas até mesmo por neozelandeses.
estamos em momento histórico delicado, em que os recursos naturais passam a ser disputados com desespero por todos. As terras férteis e molhadas, de que somos os maiores senhores do mundo, são a garantia da sobrevivência no futuro que está chegando, célere. Nosso território não nos foi doado. Nós o conquistamos, e sobre ele mantivemos a soberania, com muito sangue e sacrifícios imensos. Não podemos cedê-los aos estrangeiros, a menos que estejamos dispostos a viver contidos em nossa própria pátria, desviando-nos das colônias estrangeiras, cada uma delas marcada por bandeira diferente.
Ao contrário da liberalização que pretendem alguns parlamentares do agronegócio, que esperam um investimento de 60 bilhões na produção de soja e milho transgênicos no país – o que devemos fazer, e com urgência, é restringir, mais ainda, a venda de terras aos estrangeiros, sejam pessoas físicas ou jurídicas. Do contrário, e em tempo relativamente curto, teremos que expulsá-los, seja de que forma for, e enfrentar, provavelmente, a retaliação bélica de seus países de origem.
É melhor evitar tudo isso, antes que seja tarde.
No Carta Maior
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Curado do câncer: Rafael Costa agradece tratamento do SUS

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A folha corrida, quer dizer, o “currículo” de Russomano

O candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo não é um candidato de muito currículo, mas tem história.
Russomano é mais velho do que eu, mas a gente já esteve próximo num certo momento da vida. Ele fazia o programa Circuito Night and Day e eu o Contramão, na TV Gazeta. O programa do qual fui repórter, ia para o ar antes do dele. Eu conheço algumas histórias do atual líder nas pesquisas, mas dando uma googlezada achei outras também bastante interessantes.
Apesar dessa imagem quase heróica que cultiva, Russomano possui uma folha corrida, ops…, um passado complicado. Como o candidato não aceita falar dessas questões, César Tralli que o diga, relaciono abaixo a “folha” do “herói” do consumidor.
Crime de peculato
Em 2008, Russomano foi acusado no STF de peculato, que nada mais é que a apropriação, ou desvio, de recursos públicos em proveito próprio. O candidato do PRB teria desviado verba da Câmara para pagar salário de uma funcionária de sua empresa quando era deputado federal.
O caso chegou ao STF em 2008, mas como Russomano deixou o cargo de deputado em 2010, o processo atualmente tramita na Justiça do Distrito Federal. Testemunhas ouvidas no STF afirmaram que Sandra Nogueira, funcionária do gabinete do então deputado federal Celso Russomano, trabalhava em São Paulo como gerente da produtora de TV de Russomano, a da Night and Day Produções.
Crime de falsidade ideológica
Celso Russomano é acusado pelo Ministério Público de São Paulo de ter cometido o crime de falsidade ideológica. Para o órgão, o candidato mentiu sobre seu endereço eleitoral para disputar a prefeitura de Santo André em 2000. A lei eleitoral exige que os candidatos morem na cidade onde se vai disputar um cargo eletivo por três meses, antes de solicitar a transferência do domicílio eleitoral.
A acusação contra o candidato do PRB foi aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho. Após o Supremo receber a denúncia, o processo voltou para a primeira instância, uma vez que Russomano deixou o cargo de deputado federal e não possui mais direito ao foro privilegiado.
Para o Ministério Público, embora tenha afirmado em documento oficial que residia em um apartamento na região central de Santo André, Russomano jamais teria morado no imóvel. A ação é fundamentada no depoimento do porteiro do edifício e no vizinho de porta do apartamento de Russomano. Ambos afirmam nunca terem visto o candidato no prédio.
Outro indício contra Russomano é o consumo de energia do imóvel no período em que ele teria residido no mesmo. O consumo de energia no apartamento foi de zero kWh em dois meses e de 12 kWh em outro, média menor que o consumo mensal de uma geladeira.
Em sua defesa, Russomano apresentou quatro testemunhas. Porém, a promotoria as desqualificou, afirmando que uma era locador do imóvel, outra era filiada ao seu partido e as outras duas disseram tê-lo visto somente uma vez.
CPI do Cachoeira
Reportagem do jornal Correio Braziliense, publicada em julho deste ano, revelou que Russomano teria R$7 milhões em uma conta no exterior operada pela organização de Carlinhos Cachoeira.
Russomano teria recebido este dinheiro quando era deputado federal. De acordo com o jornal, a existência desta conta aparece em um relatório da Polícia Federal enviado à CPI.
Lobby para a Dolly
O empresário Laerte Codonho é o dono da marca de refrigerantes Dolly. Além disso, também é sócio de Celso Russomano na ND Comunicação e Publicidade desde 2007. Os dois se conheceram em 2003, quando Codonho patrocinava o programa 100% Brasil, apresentado por Russomano e exibido pela RedeTV.
Codonho também foi o maior doador para a campanha do candidato nas eleições de 2010, quando concorreu ao governo paulista. Na ocasião, deu R$250 mil para Russomano por intermédio da empresa Tholor do Brasil.
Com todo esse envolvimento, Russomano usou seu mandato de deputado federal para defender o empresário, que foi condenado à prisão por crime contra a ordem tributária.
Em 2004, Russomano apresentou à Comissão de Defesa do Consumidor, na Câmara dos Deputados, o requerimento de número 301, no qual pedia para que fossem investigadas denúncias sobre suposta concorrência desleal da Coca-Cola contra a Dolly.
Codonho armou uma guerra com a gigante multinacional. Acusou a Coca-Cola de espionagem, agressões fiscais e de querer “quebrar” sua empresa. Até funcionário plantado ele disse que a Coca-Cola colocou em sua empresa.
Nessa guerra, Russomano interveio ao defender que a Coca-Cola deveria informar se havia na composição do refrigerante extrato vegetal feito a partir da folha de coca – Codonho alegava que as substâncias derivadas da coca eram usadas e feriam normas brasileiras, além de causarem dependência. “O consumidor final precisa ter o direito de escolher no mercado de consumo o melhor e mais barato. Quero saber também se existe realmente algum derivado (da folha de coca)”, disse Russomano na época.
O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou Codonho e a Rede TV! a pagarem indenização de R$2 milhões por danos morais à Coca-Cola. Cabe recurso.
Bens bloqueados
Em 19 de março deste ano, a Vara da Fazenda Pública de Diadema bloqueou os bens da ND Comunicação, agência de publicidade da qual Celso Russomano é sócio juntamente com o dono da Dolly, Laerte Codonho, já citado no caso acima.
O bloqueio foi pedido pela Fazenda Nacional. Russomano admitiu em entrevista que a ND é devedora da Fazenda Nacional e está no Refis.
Lobby para a Valor Capitalização
Russomano procurou o governo federal em 2004 para defender interesses da Valor Capitalização (empresa controlada pelo Banco Santos), a mesma que um calote em 110 mil pessoas e quebrou pouco depois. A empresa e o banco estão em processo de liquidação judicial.
Então deputado federal, Russomano pediu à Advocacia Geral da União (AGU) um “parecer técnico” sobre a proposta da Valor Capitalização para que os bingos, fechados em fevereiro de 2004, pudessem vender títulos de capitalização.
Russomano alegava que essa era uma maneira de ocupar os imóveis que ficaram ociosos com o fim dos bingos e dar emprego a seus ex-funcionários. Porém, no caso da Valor Capitalização, seria uma maneira de ampliar suas receitas e salvar o negócio.
O pedido foi rejeitado por consultores do Ministério da Fazenda que examinaram o caso a pedido da AGU. Na época da proposta de Russomano, a Valor Capitalização era alvo de reclamações de investidores que consideravam-se lesados. Em 2004, a empresa acumulava 186 processos nos Procons e 1.957 na Justiça.
Passagens aéreas com dinheiro público
Celso Russomano, na época em que era deputado federal, utilizou sua cota parlamentar de passagens aéreas para levar seus familiares em viagens ao exterior. Segundo o relatório de passagens fornecidas para o gabinete do ex-deputado, entre 2007 e 2009, foram emitidos oito bilhetes de sua cota parlamentar para familiares do ex-deputado.
De acordo com informações do jornal O Estado de S.Paulo, em 2007, foram emitidos dois bilhetes de ida e volta para Nova Iorque em nome da filha do ex-deputado, Luara Russomano. O valor para cada trecho foi de R$2.373,00. A filha de Russomano realizou um programa de intercâmbio nesse ano.
Já em 2008, foi emitido um bilhete em nome da esposa do ex-deputado, Lovani Russomano. O bilhete teve como destino Montevidéu e custou R$1.281,14 aos cofres públicos. Na época, Russomano integrava o Parlasul (Parlamento do Mercosul) e realizava viagens frequentes ao Uruguai para sessões.
No período da emissão de passagens da cota parlamentar para familiares de Russomano, a Câmara não tinha regulamentação específica para a emissão dos bilhetes. Em 2009, o escândalo conhecido como a “farra das passagens” estourou e atingiu 261 dos 513 deputados federais. Pressionada pela repercussão negativa do caso, a Câmara instituiu uma regra que determinou que as passagens só podem ser emitidas para os deputados ou para funcionários de gabinete.
Difamação
Em julho de 2011, Russomano foi condenado a pagar R$100 mil ao ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, em primeira instância.
O candidato havia declarado ter presenciado a prisão do engenheiro, em junho de 2010, por suspeita de receptação de uma joia roubada, e disse ainda que Paulo Preto portava dinheiro nas meias. Afirmou também que a delegada do caso “estava sofrendo a maior pressão” de autoridades para liberá-lo, o que ela negou em depoimento.
Rádio ilegal
Russomano foi acusado, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de operar uma rádio em Leme, cidade do interior paulista, sem a devida concessão do Ministério das Comunicações.
À Justiça Eleitoral, o candidato declarou ser o dono da rádio Rede Brasil. Porém, a concessão pertence a uma empresa de Cametá, cidade do interior do Pará. A concessão foi destinada pelo Ministério das Comunicações à empresa Amazônia Comunicações, registrada em nome de um médico de Cametá, João Batista Silva Nunes.
O Ministério das Comunicações afirmou que não existe nenhum processo de transferência da concessão da Amazônia para a Rede Brasil.
Advogado sem OAB
Apesar de se apresentar como “advogado”, Russomano não passou no exame da OAB. O candidato é bacharel em Direito pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, mas não é advogado, uma vez que ele não passou no exame da Ordem, necessário para obter o registro que autoriza o exercício da profissão. Em 1988 ele foi processado pela OAB por exercício ilegal da profissão, o que configura crime.
Aliciamento de clientes
Celso Russomano também foi denunciado na OAB pela prática de aliciamento de clientes. A denúncia foi motivada por anúncios do Plantão Jurídico veiculados na televisão.
Russomano mantinha o serviço “Plantão Jurídico”, pelo sistema 0900, em que oferecia pessoalmente pelo telefone uma “orientação de seus direitos”. O serviço custava R$3,95 por minuto. Ainda que Russomano fosse advogado, a captação de clientes por meio de anúncios é ilegal.
Acusação de suborno
Durante a CPI do Narcotráfico, em 1999, o motorista Adilson Frederico Dias Luz acusou Russomano, sub-relator da comissão, de tentar suborná-lo. O objetivo, de acordo com Adilson, era que ele acusasse o advogado Artur Eugênio Matias.
O motorista afirma ter acusado o advogado em troca de sua liberdade. Na época, a OAB/SP comunicou o fato às corregedorias do Tribunal de Justiça e do Ministério Público de São Paulo.
Caso Inadec
No último mês de seu mandato como deputado federal, em 2010, Russomano tentou direcionar R$1,1 milhão ao Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (Inadec), entidade presidida por ele, por meio de emenda no Orçamento.
O deputado havia destinado a emenda para o Inadec com o argumento de que não seria mais deputado em 2011, quando o Orçamento seria executado e por isso não via irregularidade na emenda. A Lei de Diretrizes Orçamentárias proíbe que o parlamentar destine verbas para instituições que comanda.
Descoberta a manobra, Russomano remanejou metade dos recursos para o Instituto do Coração (Incor) e a outra metade para a Faculdade de Medicina da USP.
Ou seja, Russomano tem, digamos, muito a explicar. Como um outro candidato quer tem um livro todo dedicado a ele. Um certo livro cujo título é A privataria tucana.
Renato Rovai
No Blog Limpinho & Cheiroso
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É 13

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Primeira candidatura de Serra, em 1988, nasceu por acaso

Campanha para prefeito de São Paulo, 1988: após um comício noturno que reuniu poucas pessoas, na zona oeste, José Serra deixa o palanque improvisado e passa indiferente por três repórteres de jornais que tentavam entrevistá-lo: "Cadê a TV? Cadê a TV?" Ao perceber que não havia nenhuma emissora de televisão no local, ele volta e decide atender os jornalistas.
Na época a campanha já não ia bem. Foi uma disputa "realmente difícil, pela falta de estrutura do partido", recorda a candidata a vice na chapa, a então deputada Guiomar Namo de Mello.
O PSDB havia sido fundado cinco meses antes da eleição: não estava organizado na cidade e tinha pouco tempo no horário eleitoral. Diante disso, nenhum de seus líderes queria se arriscar.
"Na verdade ninguém queria ser candidato. Era um partido recém-criado", diz Getúlio Hanashiro, ex-secretário de Transportes da cidade.
Serra nunca figurou entre os três primeiros colocados nas pesquisas. Terminou em quarto lugar, com 6,9% dos votos válidos, atrás de Luiza Erundina (PT), com 36,8%; Paulo Maluf (PDS), 30,1%, e João Leiva (PMDB), 17,5%.
O peemebista tinha o apoio do presidente José Sarney, do governador Orestes Quércia e do então prefeito, Jânio Quadros - todos desgastados. Como não havia segundo turno, Erundina venceu.
Mas Serra não foi vítima só da falta de estrutura partidária: diferentemente de hoje, ele era relativamente pouco conhecido, a despeito de sua passagem pela Secretaria de Planejamento no governo Franco Montoro (1983-1987). Em 1986, ainda no PMDB, ele tinha sido eleito deputado federal com 160.868 votos, mas 70% deles vieram do interior.
Um episódio recolhido pela cientista política Judith Muszynski ("Eleições e Malufismo na Voz dos Motoristas de Táxi", 1989) é revelador.
Ao entrevistar um taxista sobre as razões de seu apoio a Serra - já que tinha colocado no carro um adesivo com o slogan do candidato e o desenho de um tucano -, o motorista ficou muito surpreso.
"Se estou apoiando Serra? Eu? Por quê? Ah! O plástico! Isso eu pus aí por causa do tucano, que é bem bonitinho, e por causa do que está escrito aí, que é engraçado: 'Serra essa mamata' [slogan do tucano, que prometia acabar com a corrupção]. É por causa da mamata... Não tô ligando muito para essas coisas, não. Acho que vou votar no Maluf, que é o menos pior."
Apesar de tudo, Serra manteve sua candidatura até o fim, sempre insistindo que seria eleito e negando ter recebido apelos de Montoro para apoiar Erundina e assim evitar a vitória de Maluf: "É uma mentira descarada", dizia.
Candidato por acaso
Tucanos nem gostam de falar daquela campanha. O próprio Serra lhe dedica apenas duas linhas de sua biografia, "O Sonhador que Faz": "Para a Prefeitura de São Paulo, em 1988, o Montoro era candidato e ficou doente. Eu entrei candidato em agosto, quase setembro, não tive tempo de fazer a campanha".
Sua candidatura surgiu por acaso. Fundado em junho daquele ano por dissidentes do PMDB liderados pelo senador Mario Covas, o PSDB avaliou que precisava marcar posição na capital paulista, base eleitoral de seus fundadores.
Cotado para disputar a Presidência em 1989, Covas queria se preservar e rejeitou todos os convites nesse sentido. Já o senador Fernando Henrique Cardoso, derrotado em 1985, temia concorrer de novo em condições ainda mais difíceis: "Nem pensar".
Restavam assim os nomes do ex-governador Franco Montoro e do ex-ministro Dilson Funaro (que lançou o Plano Cruzado), que aceitava concorrer, mas sofria, desde 1982, de câncer linfático.
A cúpula do PSDB decidiu pressionar Montoro. Este resistia à indicação porque ainda alimentava a esperança de ser o candidato do PSDB ao Planalto - e sugeriu Serra.
Sondado, Serra criticou Funaro - não unia o partido - e disse que aceitava ser candidato. Enfrentava, porém, fortíssima resistência de Covas.
Após muitas discussões, Montoro aceitou concorrer em 23 de julho, com a condição de que Serra fosse o seu vice, pois queria deixar a prefeitura com alguém de confiança, caso deixasse o cargo.
Contrário à indicação de Serra, Covas ainda tentou emplacar vários nomes de seu grupo. Mas acabou cedendo.
"Achava que talvez, eventualmente, se pudesse ter uma chapa eleitoralmente mais forte. O ideal seria um homem que não fosse tão próximo ao ex-governador Franco Montoro", disse Covas na convenção, em 7 de agosto. Serra evitou polemizar: "Esse episódio já está superado".
A campanha de Montoro durou só uma semana: em 15 de agosto ele deixou de ir a um comício alegando ter contraído uma gripe. Dois dias depois, o PSDB revelou que o ex-governador, com 72 anos, estava com pneumonia.
Recomeçaram as discussões. A maioria do partido insistia agora em lançar Covas, que tentava convencer o PSDB a bancar Funaro. O ex-ministro, porém, estava cada vez mais debilitado - e morreria oito meses depois.
Montoro finalmente desistiu em 18 de agosto, levando ao desespero os candidatos a vereador do PSDB, que já tinham gastado Cz$ 60 milhões (cerca de R$ 1 milhão hoje).
Covas reiterou, no dia 24, que não iria concorrer. No mesmo dia, Serra surpreendeu o PSDB e anunciou que também desistia da disputa.
Sem candidato, os tucanos passaram então a buscar uma aliança com o PT, sugerindo a troca da "radical" Luiza Erundina pelo "moderado" Plínio de Arruda Sampaio.
Porém o PSDB logo constatou que o PT não abriria mão de Erundina só "para resolver um problema nosso", como disse o então deputado federal Geraldo Alckmin.
Com o fracasso das negociações, a direção fez novo apelo a Serra, que aceitou concorrer em 31 de agosto. A eleição de 1988 foi a primeira em que ele só concordou em ser candidato após várias recusas - o que se repetiria em 1996, quando demorou 173 dias para se decidir: "Serra não gosta de enfrentar disputas, ele gosta de ser aclamado", diz Getúlio Hanashiro.

Editoria de Arte/Folhapress
Mauricio Puls
No Falha
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Joaquim pune e sorri

Por descuido de assessores de gabinete, vazaram para o site do Supremo Tribunal Federal cerca de 30 páginas onde estão alinhavadas as penas que o ministro Joaquim Barbosa planejou, nesta nova etapa, para os réus da Ação Penal 470, identificada pela imprensa como “mensalão”. A distração foi retirada do ar.
Foi exibido por tempo suficiente, no entanto, o rigor das punições projetadas pelo relator. Para o publicitário Marcos Valério, por exemplo, propõe 12 anos e 7 meses de reclusão pelo crime de lavagem de dinheiro, além de 340 dias-multa. A esse tempo vão se juntar as punições anteriores e as que ainda virão.
Barbosa. Talvez lhe conviesse ouvir o ex-colega Peluso ou ler o Marquês de Beccaria.
Foto: Gervásio Baptista / SCO / STF
A tendência de Joaquim Barbosa é a de punir com dureza. Segue, nestes momentos, o principio dura lex sed lex. (Anotou o latinista Paulo Rónai, que a expressão ficou popular no Brasil por um pitoresco anúncio comercial: “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex”.)
Respeitadas as decisões do magistrado, deve ser considerada, porém, a advertência de Beccaria sobre a relação entre os delitos cometidos e as penas aplicadas: “Toda severidade que ultrapasse os limites se torna supérflua e, por conseguinte, tirânica”.
Poucas semanas atrás, ao se aposentar, o se­vero ministro Cezar Peluso generalizou equivocadamente um sentimento pessoal: “Nada constrange mais o magistrado do que condenar o réu em uma ação penal”.
Joaquim Barbosa, no entanto, tem exibido sor­risos irônicos e meneios de cabeça ao desmanchar argumentos dos réus. Não mostra constrangimento. Esses gestos, esgares, dão um toque cruel ao poder soberano do julgador.
Os ilícitos chamados “mensalões”, do PT, do PSDB, do DEM, juntados à “CPI do Cachoeira”, envolvendo parlamentares, criminalizam a política como um todo e acirram o moralismo maniqueísta da sociedade. Nesse contexto ocorre o julgamento da Ação Penal 470 e, assim, o ministro relator ganha o papel de personagem principal do enredo, apoiado pela maioria do tribunal.
Barbosa, aplaudido pela mídia, é tratado como herói em restaurantes e outros ambientes fechados e privilegiados. Um heroísmo sem riscos. O ministro navega a favor do vento e em mar sem procelas.
Barbosa chegou ao STF, no governo Lula, beneficiado pelo princípio da cota racial e por indicação de Frei Betto, que tinha, então, trânsito fácil e grande influência junto ao presidente. É verdade, porém, que esse ex-procurador da República tem currículo robusto. Tem, também, uma história pessoal que mostra fôlego de maratonista em trajeto especial. Saltou obstáculos sociais e materiais.
De onde partiu, acertaria quem previsse que não iria longe. Ele frustrou as expectativas. Essa corrida de longa distância, porém, deixa marcas.
Na segunda quinzena de novembro, Joaquim Barbosa assumirá a presidência do STF. Não é fácil colar rótulos no perfil do magistrado que chega ao apogeu. A fé católica, por exemplo, não impede que declare com firmeza sua posição a favor da legalização do aborto. Na pequena biografia dele registrada na Wikipédia, pode-se ler: “No mais polêmico julgamento desde que tomou posse no tribunal, votou a favor da tese de que políticos condenados em primeira instância poderiam ter sua candidatura anulada”.
Foi voto vencido. Mas a manifesta aversão ao mundo político, que o favoreceu com uma cadeira no STF, é um caminho para compreender Joaquim Barbosa. Esse rancor faz dele vítima preferencial da política.
Mauricio Dias
No CartaCapital
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Marco Maia - Vote Lúdio, Vote 13!

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As previsões certeiras do Ibope para Recife

O candidato a prefeito do Recife pelo PSB, Geraldo Julio, se distanciou ainda mais dos seus concorrentes na nova nova pesquisa realizada pelo Ibope e encomendada pela TV Globo e Folha de Pernambuco, divulgada nesta segunda-feira (24). O socialista, que na pesquisa anterior, realizada no último dia 3, contabilizava 33%, subiu para 39% das intenções de voto.
Em segundo, de acordo a pesquisa, está agora Daniel Coelho, do PSDB, que inverteu de posição com o candidato Humberto Costa, do PT.
Daniel, que tinha 15% no levantamento anterior, saltou para 24%, enquanto Humberto, que possuía 25%, despencou para 16%.
Mendonça Filho, do DEM, se mantém na quarta colocação na intenção de voto dos recifenses, porém caiu mais: de 8% para 4%.
A candidata Edna Costa, do PPL, teve 1%. Já Roberto Numeriano (PCB) e Jair Pedro (PSTU) não pontuaram.
Os votos brancos e nulos somaram 9%, enquanto o percentual de quem não sabe e não respondeu foi de 6%.
No NE10
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Adoro o conservadorismo paulistano. É tão kitsch!

Pesquisa Datafolha divulgada, neste domingo (23), pelo jornal Folha de S. Paulo traz o posicionamento do paulistano diante de temas comportamentais. Com isso, busca checar a tese da relação entre o posicionamento frente a esses assuntos e a preferência do voto. Foram ouvidas 1.802 pessoas e a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.
Breves comentários sobre os resultados:
Causas da criminalidade: 60% dos entrevistados dizem que a maior causa é a maldade das pessoas.
Depois perguntam a razão de Carminha e Nina fazer tanto sucesso.
Adolescentes: 72% dizem que os que cometem crimes devem ser punidos como adultos.
Criança bandida tem que pagar. Menos se forem meus filhos. Nesse caso, uma boa conversa resolve.
Religião: 79% dizem que acreditar em Deus as torna pessoas melhores.
OK, isso pode ajudar, mas não determina. Hitler acreditava no divino. Chaplin era ateu… Parte considerável das fazendas onde há libertações de escravos contemporâneos no Brasil tem nome de divindades cristãs: Nossa Senhora, Menino Jesus, Santo Expedido…
Sindicato: 60% afirmam que servem mais para fazer política do que defender os trabalhadores.
Detesta política sindical. Mas gasta muito bem o dissídio que surgir no salário… 
Proibição do uso de drogas: 81% afirma que deve ser mantida porque toda a sociedade sofre com as consequências.
E para discutirmos, desce mais uma cerveja que não causa mal a ninguém. Se fizesse, não teria propaganda bacana na TV.
Em outras perguntas, o comportamento conservador foi minoria nas respostas. Mas vale uma observação: mesmo minoria, a quantidade assusta.
Pena de morte: 41% dizem que é a melhor punição para indivíduos que cometem crimes graves.
Olho por olho, dente por dente. Porque, como sabemos, a vingança traz de volta o ser amado do mundo dos mortos e diminui a criminalidade…
Migração: 28% dos pobres que migram acabam criando problemas para a cidade.
Eles deveriam construir nossos prédios calados, agradecendo o favor que fizemos a eles, e se retirarem para o lugar de onde vieram assim que terminassem o serviço. E não ficar zanzando por aí, ofendendo meu senso estético. Afinal, a cidade é nossa, não deles. Pagamos por ela.
Pobreza: 27% acha que está ligada à preguiça de pessoas que não queiram trabalhar.
Mesmo com longas jornadas e condições bisonhas de trabalho, o Brasil paga mal as empregadas domésticas porque elas são umas indolentes de uma figa.
Homossexualismo (sic – foi o Datafolha que usou a expressão, não eu): 23% acham que deve ser desencorajado pela sociedade.
Vamos desencorajar a heterossexualidade também, ué!  Filhão, você só trouxe infelicidade para esta casa! Onde já se viu? Namorar uma, uma, uma… mulher?! O que nós fizemos de errado, meu Deus?
Posse de armas: 22% dizem que armas legalizadas deveriam ser um direito do cidadão para se defender.
Sim. Então, o IML passa a ser desautorizado de ir buscar os corpos de quem foi morto com a própria arma tomada pelo bandido?
Tendo achar que se houvesse uma pergunta sobre “trabalho infantil”, o apoio a ele seria grande também. E sobre “prostituição infantil”, haveria uma minoria que martelaria a questão da liberdade individual, seguindo os argumentos do nobre vereador Agnaldo Timóteo.
Dizem que falta informação e, por isso, temos uma sociedade que pensa de forma tão conservadora. Mas informação não basta. Deve-se saber como trabalhar com essa informação que recebemos, refletir sobre ela. Entramos aqui na questão da consciência social, que não se aprende nos bancos de escola, mas no trato com a sociedade.
O contato com o “outro”, e com suas diferenças, contribui para fomentar essa consciência. Não através do filtro dos jornais e das lentes de TVs, mas pelo diálogo direto. Só dessa forma poderemos entender as razões desse outro. E se, mesmo assim, não concordarmos com sua posição, podemos, ao menos, ser tolerantes. E perceber que as pessoas têm direito à própria vida e ao próprio corpo e que não é com uma sociedade ditatorial e sumária que se resolverão os problemas.
(Esse movimento sofre uma inflexão no período eleitoral, é claro. Após a campanha de 2010, por exemplo, diminuiu o número de pessoas que apoiavam o direito ao aborto. O que era esperado uma vez que os candidatos transformaram o pleito em guerra religiosa).
De qualquer forma, ainda bem que as decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a interpretação da Constituição visando à garantia de direitos não têm sido tomadas com base em pesquisas de opinião ou usando uma biruta que aponte para onde sopra a opinião pública em determinado momento. Por isso, temos tido alguns avanços, como pesquisas com células tronco, direito a protestar pela legalização das drogas, união civil homoafetiva…
Afinal de contas, uma democracia verdadeira passa por seguir as decisões da maioria, desde que se respeite a dignidade das minorias. É tão fácil e tão difícil entender isso…
Leonardo Sakamoto
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Veja inventa “ginástica em gotas”

A revista Veja de 22/8 (edição 2.283) publicou (mais) uma capa apelativa.
Confesso que eu mesmo, afligido por incomodo e perigoso sobrepeso, bati o olho na “ginástica em gotas” e fiquei animado. Depois, pensei: “Não pode existir ginástica em gotas. É melhor olhar o que diz a matéria.“
Resumo: pesquisadores puseram camundongos a fazer “atividade física sobre rodas” (que a reportagem, como quem não quer nada, equipara a “esteira ergométrica”). A partir do 21º dia (novamente: “da décima semana no calendário humano”), os músculos dos bichinhos começaram a produzir o hormônio irisina em quantidade suficiente para acelerar o metabolismo do tecido adiposo e, portanto, fazer emagrecer.
Em dez dias, sem atividade física e ingerindo comida gordurosa em excesso, os camundongos perderam 2% do peso corporal ... e aí entra mais uma das passagens manipuladoras da reportagem: “o que, entre homens e mulheres, equivale a uma redução de quatro quilos em seis meses”.
A seguir, o texto apresenta o seu álibi: “As experiências com a irisina em humanos devem começar a partir de 2013”. Imediatamente, para evitar que se instale a dúvida, aparece uma declaração com carimbo de CRM. “’Confirmados os resultados obtidos com as cobaias, estará deflagrada a maior revolução no tratamento da obesidade desde o tempo da descoberta dos anorexígenos, na década de 40’, diz o endocrinologista Antônio Carlos do Nascimento”.
É o oba-oba, que o texto não deixará de celebrar, “trocando em miúdos” (foi ato falho?): “Trocando em miúdos, a irisina é a ginástica em cápsula − ou em gotas”, etc.
Vendendo doença
No blogue Imprensa Saudável, o professor da USP Gustavo Gusso publicou carta enviada pelo também médico Leonardo Graever à Veja. Graever reagiu ao que saltou diante dos seus olhos: a capa anunciadora de uma impossível ginástica em gotas. Antes mesmo de ler a reportagem, ele concluiu:
“(...) Mesmo que a reportagem desfaça essa primeira impressão, e acredito que o faça [não faz], dada a competência de seus jornalistas, para quem passa pela banca de jornal e recebe o imprint semântico dessa capa, o mal está feito. No afã de vender a revista, os senhores estão fazendo apologia à preguiça, e sendo profundamente irresponsáveis quanto à educação em saúde do cidadão. Estão vendendo doença.” (Leia a íntegra aqui.)
Na edição seguinte, Veja publicou cartas laudatórias (entre elas as de dois médicos) e críticas. Não a de Graever. Publicou a do endocrinologista pediátrico de Natal Ricardo Fernando Arrais. A retórica é menos inflamada, mas o conteúdo, coincidente:
“Já vimos esses filme antes... Começa como um murmúrio vindo das primeiras pesquisas ainda em animais de laboratório (que, muitas vezes, não apresentam nem de longe os mesmos resultados em seres humanos) e logo toma corpo na forma de um burburinho, transformado, depois, em franca gritaria. Finalmente, a obesidade será vencida, e, melhor ainda, sem esforço! O velho problema de sempre, com o velho roteiro batido: caso a irisina tenha efeito similar em humanos, certamente será transitório, já que o metabolismo celular é regido por interações muito complexas. Estamos sempre à procura da ‘bala de prata’ que pode nos tornar ‘imunes’ ao ambiente de excesso de oferta e falta de atividade física. Não quero ser pessimista, mas, enquanto buscamos soluções para situações pontuais, a obesidade segue aumentando e a lei de Darwin, que seleciona os mais aptos ao meio ambiente, vai fazendo o seu trabalho. Diminui a expectativa de vida dos ‘poupadores’ de energia (sedentários) e privilegia os ‘gastadores’.”
As necessárias precauções
Em janeiro, no New York Times, as pesquisas sobre a irisina foram apresentadas não como uma forma de evitar exercício (ressalvando-se que há pessoas impossibilitadas de fazê-los), mas como um incentivo à sua prática. A reportagem se baseava em texto publicado na revista Nature.
No início de agosto, o mesmo NYT publicou nova reportagem, agora baseada em artigo da revista Science. Aparece no relato um cientista sueco, Sven Enerback. Ele especula que uma terapia capaz de pôr em ação no organismo células de gordura marrom – a que é queimada para produzir calor – poderia permitir queima de gordura branca, precipuamente indesejada, “à razão anual de cinco quilos ou mais”, lê-se em tradução publicada no portal Terra.
Mas, advertência que faltou na matéria da Veja, “uma terapia como essa não deveria ser usada como forma única de tratamento da obesidade”, e precisaria “ser acompanhada por uma mudança de estilo de vida e outras intervenções.”
Ou, como destaca um artigo (em inglês) da Escola de Saúde Pública de Harvard, e aparece de forma superficial na Veja, “camundongos, ratos e macacos não são pessoas. Para entender melhor como alimentos (ou algum outro fator) afetam a saúde humana, é sempre necessário estudá-los em seres humanos.”
Mauro Malin
No Observatório da Imprensa
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