25 de ago de 2012

Venezuela - XIII

Integração regional é principal aposta internacional de Chávez


Adesão ao Mercosul, desde sua primeira eleição, foi traçada como objetivo prioritário para presidente venezuelano
Logo que chegou de viagem ao Brasil no começo de agosto, onde formalizou a entrada da Venezuela no Mercosul (Mercado Comum do Sul), Hugo Chávez anunciou a intenção de várias empresas internacionais de se instalarem em seu país. Para o presidente, são os primeiros resultados de um esforço de adesão que, segundo seus relatos, começou antes de sua posse em 1999.
Chávez reuniu sua equipe, ainda na base aérea de Maiquetia, para anunciar que a norte-americana GM (General Motors), as japonesas Yamaha e Samsung e a francesa Renault pretendiam abrir plantas no país. Lembrou das conversas que teve, logo após sua primeira eleição, com os ex-presidentes Carlos Menem, da Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil. “Eu disse que desejava ver a Venezuela filiada ao bloco”, declarou. “Mas a resposta foi fria. Somente com as vitórias de Lula e Kirchner criou-se uma correlação de forças a favor da integração e de mudanças.”
Wilson Dias/ABr (31/07/2012)
Chávez em Brasília ao lado dos presidentes do Brasil, Dilma Roussef, Uruguai, José Mujica e Argentina, Cristina Kirchner
O primeiro protocolo de candidatura ao Mercosul foi assinado em 2006, mas houve forte oposição do parlamento brasileiro. A aprovação veio apenas em 2009, após muita negociação entre governistas e oposição no Senado.  Argentina e Uruguai já haviam superado essa etapa. A aceitação da Venezuela, porém, foi barrada por deputados e senadores do Paraguai, apesar de apoiada pelo presidente Fernando Lugo. Como todas as decisões no organismo regional são tomadas por consenso, instalou-se um impasse.
A derrubada do mandatário paraguaio, por ironia, acabou facilitando o processo. Suspensos por quebra da cláusula democrática, os guaranis perderam provisoriamente o direito de voto e veto no Mercosul. Bastou o consenso dos demais três integrantes para a adesão venezuelana ser chancelada.
“Não éramos membros do Mercosul pela oposição sistemática do Congresso paraguaio”, ressalta Maximilien Arvelaiz, embaixador venezuelano no Brasil. “Os parlamentares que boicotavam nossa adesão são os mesmo que deram o golpe contra Lugo.” Cumprida essa etapa, no entanto, novos problemas começam a surgir.
A Fedecâmaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), a Conindustria (Confederação Venezuelana de Industriais), a Favenpa (Câmara dos Fabricantes Venezuelanos de Produtos Automotivos), algumas das principais entidades empresariais, de perfil oposicionista, mostram-se ressabiadas com a novidade. Os argumentos são parecidos: todos reclamam que as empresas nacionais, com exceção da PDVSA, não têm competitividade, encontrarão dificuldades para competir no Mercosul e perderão ainda mais espaço no mercado local.
O governo prometeu criar um fundo para melhorar a capacidade de produção, com aporte inicial de 500 milhões de dólares. A Venezuela anunciou sua primeira exportação dentro do regime do Mercosul, no último dia 8 de agosto. Trata-se de uma carga de 82 mil toneladas de vasilhames de vidro destinadas ao Brasil e Argentina, fabricados pela estatal Venvidros (Empresa Venezuelana de Vidros).
Mudança
O ingresso no Mercosul, contudo, foi apenas o fato mais recente de um giro radical na política internacional venezuelana. No início do seu governo, em 2000, Chávez deu seu primeiro passo nas relações internacionais ao promover, em Caracas, a 2ª Cúpula de Chefes de Estado de Governo dos Países Membros da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo). Pela primeira vez, estiveram na Venezuela ao mesmo tempo presidentes da Argélia, Indonésia, Irã, Nigéria, Qatar, Emirados Árabes, Iraque, Líbia e Kuwait. Esse encontro foi decisivo para controlar a oferta mundial de petróleo e forçar a elevação de seu preço no mercado mundial.
“Apesar de ser um dos países fundadores da Opep, a Venezuela estava voltada para a Europa Ocidental e para os Estados Unidos”, destaca Arvelaiz. “A partir dessa conferência, o governo expandiu suas relações internacionais, rompendo progressivamente com a dinâmica ditada pelos interesses das potências ocidentais. O preço baixo do petróleo arruinava as nações produtoras, beneficiando apenas as multinacionais e os países consumidores.”
Chávez gosta de dizer que trabalha “por um mundo pluricêntrico, multipolar”. Seu arco de iniciativas, além da Opep, expandiu-se também para alianças duradouras com Irã, Bielorrússia, Rússia e a China. A Venezuela mantém com esses países crescentes relações comerciais, além de acordos financeiros, projetos industriais e pactos de cooperação militar.  Apesar dos Estados Unidos continuarem a ser um grande cliente, especialmente na compra de petróleo, o objetivo do governo tem sido o de diversificar ao máximo seus parceiros.
América Latina
Mas o foco principal dessa estratégia se concentra na América Latina. “Todas as iniciativas regionais que estamos ajudando a construir - Unasul (União de Nações Sul-Americanas), Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Carirbenhos) -  são espaços para consolidar um bloco integrado e soberano”, explica Arvelaiz.
Arquivo pessoal
A Alba talvez seja a mais audaciosa investida do mandatário venezuelano, proposta na 3ª Cúpula dos Chefes de Estado da Associação de Estados do Caribe, também no início do seu governo.
[Maximilien Arvelaiz: Venezuela quebrou dinâmica ditada pelos interesses das potências ocidentais]
"Esse modelo neoliberal não pode ser a base de nossa integração", propagou na época. "Queremos um modelo que nos integre de verdade. Ou nos unimos ou nos afundamos.”
A aliança, fundada em 2004, é integrada por Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua, República Dominicana, Equador, São Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda.
Esse pacto proporcionou a criação de empreendimentos comuns, além de uma zona monetária regional. Parte das relações comerciais entre os países-membros já é feita através do sucre, moeda contábil comum a esse grupo de países.
Ao contrário de outros blocos, a Alba não tem como pilar a liberalização comercial ou alfandegária, mas a tentativa de estabelecer um mecanismo de auxílio-mútuo na economia, nas políticas sociais e no intercâmbio cultural. Ao seu redor reúne-se o que se poderia chamar de “núcleo duro” dos governos aliados a Chávez.
Brasil
Mesmo sem participar dessa associação, o Brasil também é um dos grandes parceiros do presidente venezuelano. A balança comercial entre os dois vizinhos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro, cresceu cerca de 300% nos últimos 14 anos, passando de U$ 1,46 bilhões de dólares em 1998 para U$ 5,8 bilhões em 2011.
O Brasil leva vantagem porque viu suas exportações multiplicadas por seis nesse período, atingindo em 2008 a soma de U$ 5,15 bilhões de dólares. Outro marco histórico: de quinto maior fornecedor de produtos para o país caribenho, o Brasil passou para terceiro, somente atrás de Estados Unidos e Colômbia.
Antonio Cruz/Agbr (28/04/2010)
As relações comerciais entre Brasil e Venezuela ganharam um novo capítulo com as eleições de Chávez e Lula
O petróleo e seus derivados representam 65% das vendas da Venezuela para o Brasil. O restante das exportações é de derivados do óleo cru, alumínio, ferro, aço, minerais e energia elétrica. Já a Venezuela compra do Brasil principalmente itens básicos de alimentação, como açúcar, carnes bovinas, carne de frango, ovos, café e grãos. Com o incremento da cooperação brasileira na agricultura venezuelana, máquinas, tratores, caminhões e pneus também cresceram sua fatia no mercado do país vizinho.
Além das relações comerciais, também tiveram significado aumento os investimentos de empresas brasileiras, que tocam várias obras importantes de infraestrutura. Esses projetos estão concentrados em construção de moradias, plantas siderúrgicas, sistemas de irrigação agrícola e refinarias. Algumas dessas empreitadas são financiadas pelo BNDES. Outras, por linhas de crédito privadas contratadas pelas próprias companhias investidoras.
Também há um gigantesco empreendimento associado em solo brasileiro. Aos trancos e barrancas, forçadas pelos dois governos, a Petrobras e a PDVSA estão juntas para colocar de pé, em Pernambuco, a Refinaria Abreu e Lima. Apesar de atraso no aporte venezuelano e de dificuldades para consolidar o financiamento do projeto, o plano aos poucos ganha corpo e pode ser tornar em uma unidade poderosa para o refino de combustível e outros derivados.
Com a adesão ao Mercosul, avalia-se que o ritmo dessa integração deva ser acelerado e institucionalizado. Uma das iniciativas que deve ser beneficiada é o Banco do Sul, idealizado por Chávez e Lula como uma sociedade entre os países da sub-região para financiar projetos locais, a partir do depósito de parte das reservas internacionais das nações signatárias. Outra cartada estratégica é o desenvolvimento da infraestrutura energética, integrando fontes hidroelétricas com reservas de hidrocarbonetos, especialmente gás e petróleo.
Veja também: Venezuela - I - II - III - IV - V - VI - VII - VIII - IX - X - XI - XII 
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Venezuela - XII

Cinecittà venezuelana pretende combater 'ditadura de Hollywood'


A Cidade do Cinema é o primeiro complexo de estúdios e um dos principais motores da produção cinematográfica do país
Com uma mochila nas costas, um garoto de 13 anos abandona sua casa em ruínas e segue em viagem pela costa venezuelana. No caminho, consegue sensibilizar as pessoas ao narrar uma tragédia que marcou sua vida e, dessa forma, obtem ajuda para sobreviver. Cada vez que repete a história, no entanto, dá uma versão diferente. Para alguns, diz que está atrás de sua mãe; para outros, que ela se sacrificou para salvá-lo; ou então afirma que é órfão de pai. As mentiras, ou verdades, são conectadas por um fio condutor: o trágico deslizamento de terra ocorrido em 1999 no estado de Vargas, na Venezuela, que deixou milhares de mortos e desaparecidos.
O filme O garoto que mente (El chico que miente, 2009), de Marité Ugas, sucesso de público e um dos selecionados para a edição de 2011 do Festival de Berlim, é um dos mais recentes exemplos de renascimento do cinema venezuelano. Parte dessa transformação se deve às novas políticas de incentivo e produção cultural do governo de Hugo Chávez, declaradamente voltadas para "o rompimento com a ditadura dos filmes norte-americanos".
A qualidade do cinema local, de acordo com o cineasta e roteirista Diego Sequera, caiu sensivelmente nos anos 1990, tanto em quantidade de produções quanto na qualidade desse material. “Foi o boom dos filmes identificados com Hollywood, uma forma de colonização por meio do cinema”, diz o venezuelano, que trabalha na Cidade do Cinema (Villa del Cine, em espanhol), o primeiro complexo de estúdios e um dos principais motores da produção do país.
Divulgação/Villa del Cine
Situada na cidade de Guarenas, 33 quilômetros ao leste de Caracas, o empreendimento fundado em 2006 já produziu mais de 500 filmes - entre longas-metragens, curtas e documentários. A maioria aborda temas nacionais, especialmente ícones ou momentos da história.
[Vista aérea da Cidade do Cinema, criada em 2006 pelo governo da Venezuela]
O que levou Chávez a investir recursos nesse centro foi saber, segundo suas próprias palavras, que "oito grandes estúdios de Hollywood dividem 85% do cinema mundial e representam ao menos 94% da oferta cinematográfica na América Latina".
Esse novo perfil de cinema foi alvo de críticas de cineastas e produtores independentes, que consideram a Cineccità venezuelana mais um instrumento da propaganda chavista. Somente roteiros identificados com a esquerda estariam recebendo investimentos. Jonathan Jakubowicz, diretor que ganhou reconhecimento internacional com o filme “Sequestro Express”, de 2005, denuncia que a Cidade do Cinema só apoia filmes “que retratam a revolução como solução para todos os problemas da nação, ou aqueles que contam histórias dos líderes da independência, sempre com uma versão que favorece valores apropriados pela revolução bolivariana”.
“Quem dera fosse verdade que a Cidade do Cinema fosse voltada apenas para filmes inspirados pela revolução", contesta Sequera. "Mas não é assim. Muitos opositores do governo trabalham lá. Adversários abertos do regime, que têm liberdade total para criar.” Para o roteirista, a crítica que deveria ser feita está na forma de produção de alguns filmes, ainda bastante influenciados pelo modelo norte-americano. “Em 2005, o processo de industrialização do cinema começa a mudar as estruturas da produção audiovisual venezuelana. Porém, filmes como Miranda regresa e La Clase trazem um formato gringo, de superproduções. Acredito que deveria haver mais criatividade”, desabafa.
O primeiro filme citado por Sequera contava a biografia de Francisco de Miranda, um dos precursores da independência venezuelana. Com 140 minutos de duração e orçamento de 2,32 milhões de dólares, envolvei mais de mil figurantes.  Miranda Regresa foi rodado na Venezuela, em Cuba e na República Tcheca. Connta com uma pequena participação do ator e ativista norte-americano Danny Glover, admirador público de Chávez. Já La Clase narra a história de um jovem violinista de origem humilde dividido entre a carreira musical e a história da Venezuela.
Divulgação/Villa del Cine
Cena do filme Miranda Regresa, que conta a história de Francisco de Miranda, um dos precursores da independência venezuelana
Junto com a Cidade do Cinema, foi criado o curso da Escola Nacional de Cinema, na UCV (Universidade Central da Venezuela), e o curso de Licenciatura em Arte Audiovisuais na Unearte (Universidade Experimental das Artes). A Unearte, criada em 2008, é totalmente voltada para as artes, com cursos de teatro, dança, artes plásticas, música e, desde 2011, cinema.
A Cidade do Cinema, também em 2011, abriu o Centro de Formação Profissional. “Ha áreas em que temos um só especialista. Isso poderia funcionar quando fazíamos um ou dois longas por ano, mas não quando estamos fazendo 10, 12 ou 14 como agora", explicou Pedro Calzadila, ministro da Cultura, na época da inauguração.
Veja também: Venezuela - I - II - III - IV - V - VI - VII - VIII - IX - X - XIXIII
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O País traído

Paisagem corriqueira.
Vinte e oito por cento da população brasileira vive em favelas.
E não é porque queira.
Foto: Wilton Junior/AE
Em São Paulo, tempos ásperos. Leio: uma residência particular é assaltada a cada hora, o roubo de carros multiplica-se nos estacionamentos dos shopping centers. Entre parênteses, recantos deslumbrantes, alguns são os mais imponentes e ricos do mundo. Que se curva. Um jornalão, na prática samaritana do serviço aos leitores, fornece um receituário destinado a abrandar o risco. Reforce as fechaduras, instale um sistema de alarme etc. etc.
Em vão esperemos por algo mais, a reflexão séria de algum órgão midiático, ou de um solitário editorialista, colunista, articulista, a respeito das enésimas provas da inexorável progressão da criminalidade. Diga-se que uma análise honesta não exige esforço desumano, muito pelo contrário.
Enquanto as metrópoles nacionais figuram entre as mais violentas do mundo, acima de 50 mil brasileiros são assassinados anualmente, e um relatório divulgado esta semana pelas Nações Unidas coloca o Brasil em quarto lugar na classificação dos mais desiguais da América Latina, precedido por Guatemala, Honduras e Colômbia. O documento informa que 28% da população brasileira mora em favelas, sem contar quem vive nos inúmeros grotões do País.
Vale acrescentar que mais de 60% do nosso território não é alcançado pelo saneamento básico. Ou sublinhar a precariedade da saúde pública e do nosso ensino em geral. Dispomos de uma cornucópia maligna de dados terrificantes. Em contrapartida, capitais brasileiros refugiados em paraísos fiscais somam uma extravasante importância que coloca os graúdos nativos em quarto lugar entre os maiores evasores globais.
É do conhecimento até do mundo mineral que o desequilíbrio social é o maior problema do País. Dele decorrem os demais. Entrave fatal para o exercício de um capitalismo razoavelmente saudável. E evitemos tocar na tecla do desenvolvimento democrático. Mas quantos não se conformam? Não serão, decerto, os ricos em bilhões, e a turma dos aspirantes, cada vez mais ostensivos na exibição de seu poder de compra e de seu mau gosto. Não serão os profissionais da política, sempre que não soe a hora da retórica. Não será a mídia, concentrada no ataque a tudo que se faça em odor de PT, ou em nome da igualdade e da justiça.
Nada de espantos, o Brasil ainda vive a dicotomia casa-grande–senzala. CartaCapital e especificamente o abaixo assinado queixam-se com frequência do silêncio da mídia diante de situações escusas, de denúncias bem fundamentadas, de provas irrefutáveis de mazelas sem conta. Penso no assunto, para chegar à conclusão de que há algo pior. Bem pior. Trata-se da insensibilidade diante da desgraça, da miséria, do atraso. Da traição cometida contra o País que alguns canalhas chamam de pátria.
Exemplo recentíssimo. Há quem lamente os resultados relativamente medíocres dos atletas brasileiros nas Olimpíadas de Londres. Parece-me, porém, que ninguém se perguntou por que um povo tão miscigenado, a contar nas competições esportivas inclusive com a potência e a flexibilidade da fibra longa da raça negra, não consegue os mesmos resultados alcançados em primeiro lugar pelos Estados Unidos. Ou pela Jamaica. Responder a este por que é tão simples quanto a tudo o mais. O Brasil não é o que merece ser, e está muito longe de ser, por causa de tanto descaso, de tanto egoísmo, de tanta ferocidade. De tanta incompetência dos senhores da casa-grande. Carregamos a infelicidade da maioria como a bola de ferro atada aos pés do convicto.
Mesmo o remediado não se incomoda se um mercado persa se estabelece em cada esquina. Basta erguer os vidros do carro e travar as portas. Outros nem precisam disso, sua carruagem relampejante é blindada. Ou dispõem de helicóptero. Impávidos, levantam seus prédios como torres de castelos medievais e das alturas contemplam impassíveis os casebres dos servos da gleba espalhados abaixo. A dita classe média acostumou-se com os panoramas da miséria, com a inestimável contribuição da mídia e das suas invenções, omissões, mentiras. E silêncios.
Às vezes me ocorre a possibilidade, condescendente, de que a insensibilidade seja o fruto carnudo da burrice.
Mino Carta
No CartaCapital
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Venezuela - XI

Master, o rapper que canta a revolução bolivariana


Jorney Madriz, ou “Master”, como é conhecido, usa há 14 anos o hip-hop como ferramenta de mudança social
Cai o país, um golpe já está em prática/ Empresas atacam de forma midiática/ Um novo presidente se levanta sem sufrágio/ Derrubam um comandante, mas não calam o “barrio”
Pela letra de “Patriotas”, escrita pelo rapper venezuelano Master em conjunto com os outros três integrantes do coletivo Area 23, é difícil imaginar que esse filho de 23 de Enero, um dos “barrios” mais pobres e também mais politizados de Caracas, não tenha se importado com a eleição do presidente Hugo Chávez em dezembro de 1998. “Não me interessou quando ele chegou ao poder”, revela Master, nome de batismo Jorney Madriz. “Mas sim quando sofreu o golpe, em 2002”.
“Antes de Chávez, a juventude venezuelana experimentava um período de apatia política”, ressalta o rapper. “Com a chegada do presidente, porém, essa enorme camada da população despertou  e é quase impossível não adotar uma postura política.” Master era um desses jovens que viveu a turbulência venezuelano no início do século. A partir daquele momento crucial, sua história pessoal se mesclou com a do país.
A rebelião nos “barrios” esmagou seu descaramento/ O que aconteceu Venezuela, mataram sua vocação?/ Eliminaram nossa luta e derrubaram a revolução?
Assim como a resistência popular ao golpe contra Chávez em abril de 2002, a estreia de Master no universo das rimas foi espontânea. “É difícil explicar como comecei. Não houve uma razão política ou consciente”, explica o artista, com a fala cadenciada, suave. Ele conta que caminhou muito antes de firmar seu estilo. “Você segue a corrente que acaba de encontrar, do rap norte-americano, comercial, ou vai contra a corrente. Escolhi ir contra. Tinha somente 12 anos”, lembra, agora com 28, vestido da cabeça aos pés com o uniforme do hip-hop, calças e camiseta largas, boné.
Opera Mundi
A entrada da política em suas composições foi ainda mais natural. No 23 de Enero, a politização pulsava bem antes da chegada do “comandante”, como Master se refere ao presidente venezuelano. O rapper viveu em um dos complexos habitacionais do bairro, construídos durante o governo do general Marcos Pérez Jiménez (1952-1958).
[Master: “acreditamos em Chávez porque vimos nele um aliado estratégico"]
Rebatizado para homenagear a data da derrubada do ditador, “el 23”, como os moradores se referem a esse pedaço de Caracas, se firmou como uma tradicional trincheira popular. Virou lenda quando, em 2002, de lá saíram multidões para ocupar as ruas da capital e exigir o retorno ao poder do presidente Chávez, sequestrado por militares golpistas.
De madrugada militares preparam emboscadas/ Revelar-se ao processo será uma empresa muito cara/ Programação especial para que ninguém tenha consciência/ Que o povo está na rua e que sairá em resgate
Não se tolera um sequestro, que as vozes se unam/ O bravo se defende a partir de um forte em Tiuna/ Paraquedistas libertários que não se detiveram/ Marcharam, atacaram, resgataram nosso céu
O golpe cívico-militar, impulsionado pela imprensa e apoiado pelo governo dos Estados Unidos, não durou mais que umas poucas horas. Chávez, que havia sido apeado na madrugada do dia 11, voltou ao Palácio de Miraflores, pelas mãos da Brigada Paraquedista, 48 horas depois. “Nesses dias conheci de verdade a oposição. Isso me incentivou a compor”, conta o rapper, que na época vivia em Carabobo, estado nortista.
Agora com tantas vozes, que o mundo inteiro escute/ Venezuela não teme a força de um império/ Não, já não teme
“Acreditamos em Chávez, porque vimos nele um aliado estratégico, que abre fissuras no Estado para que pessoas como nós tenhamos participação”, defende Master. Somente em 2005 foi criado o Ministério da Cultura - antes o setor era tratado por um instituto autônomo. A Missão Cultura, lançada no mesmo ano, é especialmente dedicada a promover a cultura de raízes venezuelanas, formando grupos culturais e artistas.
“Somos uma ferramenta que pode ser empregada de muitas formas. Falamos pela revolução”, destaca Master, enquanto cai a tarde na ruidosa Praça Bolívar, em Caracas. A metros dali, o Teatro Nacional já se enchia com venezuelanos de todas as idades para um dia de apresentação com diferentes grupos de rap. Na plateia, um senhor de cerca de 70 anos sacudia uma das mãos ao sabor das batidas, enquanto a outra segurava uma minitelevisão. Chávez anunciava um novo plano de segurança.
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Franco, Master, Shaman e Doggy, os quatro integrantes do coletivo de rap Area 23, nascido no empobrecido bairro de Caracas
Além de fazer rap, Master também é produtor visual na Ávila TV, criada há oito anos pelo governo do Distrito Metropolitano de Caracas como uma escola de audiovisual. “A ideia era pegar uma câmera, microfone, computador, coisas que sempre estiveram nas mãos de outros na Venezuela, e sair às ruas. Foi tão significativo que assumimos o canal como trincheira de luta”, afirma. Pouco depois foram criadas 31 Epatus (Escola para as Artes e Tradições Urbanas), sob o guarda-chuva do Ministério do Poder Popular para as Comunas e Proteção Social, onde cidadãos de todas as idades podem conhecer a cultura hip-hop.
Personagem da cultura e da política, Master arregaça as mangas para a campanha presidencial. “Para nós é estratégico que o comandante continue onde está”, declara de forma categórica. “Às vezes penso que seria bom outras opções de poder. Mas agora não. É preciso buscar os milhares de Chávez nas ruas, que ainda estão em formação.”
Veja também: Venezuela - I - II - III - IV - V - VI - VII - VIII - IX - XXII - XIII
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Mídia: fila de espera na seção "Erramos"

1) Mídia: 'o chavismo fez da Venezuela o pior lugar da América Latina para se viver'; Fatos: a Venezuela é o país menos desigual da América Latina (Habitat-ONU);
2) Mídia: 'a xeonofobia e o populismo de Cristina Kirchner isolaram o país e afundaram sua economia'; Fatos: o investimento estrangeiro direto na Argentina cresceu no primeiro semestre acumulando um saldo de US$ 2,2 bi, 40% acima do registrado no mesmo período de 2011 (Banco Central argentino);
3) Mídia: 'o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) desviou dinheiro público em benefício próprio e para a compra votos' do mensalão; Fatos: as operações imputadas a João Paulo foram legais; a subcontratação de terceiros pela agência SMP&B, de Marcos Valério, que prestava serviços licitados à Câmara, é praxe no mercado; dos R$ 10,9 milhões pagos à SMP&B, R$ 7 milhões foram transferidos aos grandes grupos de comunicação para veiculação de publicidade: TV Globo (a maior fatia, R$ 2,7 milhões), SBT, Record, Abril, Folha e Estadão. (ministro Ricardo Lewandowski). Ou seja, os mesmos grupos de comunicação que sabiam da lisura do processo, lucraram com ele, martelavam a condenação do deputado.
4) Mídia: 'a carga' é intolerável e não se reflete nos serviços oferecidos'; Fatos: a arrecadação fiscal do Estado brasileiro é de US$ 3.797 per capita; a média dos países do G -7 é de US$ 11.811. Para ter recursos que permitissem oferecer serviços públicos de padrão europeu a receita (em sintonia com o PIB) teria que triplicar, o que só seria possível gravando os mais ricos, ao contrário do que apregoa o conservadorismo (dados FMI/FGV).
5) Mídia: 'O problema da saúde pública é de gestão'; Fatos: o gasto público per capta com saúde no Brasil é de US$ 320/ano; a média mundial é de US$ US$ 549/ ano; a dos países ricos é dez vezes maior que a brasileira (OMS-2012). Em tempo: em 2006, o conservadorismo logrou extinguir a cobrança da CPMF. Foram subtraídos R$ 40 bi em recursos à saúde pública, mesmo depois de o governo propor emenda vinculando indissociavelmente a receita CPMF ao orçamento da saúde pública.
Saul Leblon
No Blog das Frases
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Venezuela - X

País do beisebol, Venezuela se curva ao futebol


Aliando investimentos e boa safra de jogadores, seleção cavou seu espaço no coração dos venezuelanos
“Quem é Neymar?”, pergunta Jefferson Blanco, de 15 anos, morador do bairro caraquenho 23 de Enero – um dos mais pobres do país. “Ele é jogador da seleção do Brasil? Não conheço direito o time, mas posso te dizer quem são todos os jogadores da Vinhotinto”, responde sorridente o menino, que guarda certa semelhança física com o franzino jogador santista.
Gustavo Borges/Opera Mundi
O futebol, impulsionado pelo bom desempenho da seleção nacional, a Vinhotinto, ganha os corações dos venezuelanos
As paixões mudaram na Venezuela, como comprova Jefferson. Se antes o beisebol dominava preferências e os poucos amantes do futebol precisavam adotar uma segunda seleção, como a do Brasil, Espanha ou Itália, durante as Copas do Mundo, agora a Vinhotinto, como é carinhosamente chamada a equipe venezuelana, é sinônimo de orgulho e confiança. Gradativamente substitui o bastão pela bola nos campos venezuelanos. “Vamos ganhar do Brasil no próximo Mundial”, alerta Jefferson, sem soltar um riso sequer.
Antes tradicional saco de pancadas, a Vinhotinto virou febre nacional justamente pelos impressionantes resultados alcançados em tão pouco tempo. O principal momento, até hoje, foi o quarto lugar na Copa América de 2011, na Argentina. Chegou  às quartas-de-final de final batendo o Chile, enquanto o Brasil tombava diante do Paraguai, que acabou se tornando também o algoz venezuelano na semifinal. Mesmo derrotados em sua tentativa de disputar a final do torneio, os jogadores da Venezuela foram recebidos como campeões em Caracas.
Opera Mundi
Para Nicolás “Miku” Fedor, de 26 anos, membro da seleção e jogador do Getafe, da Espanha, o momento-chave para a mudança no futebol venezuelano foi o 3 a 0 contra o Uruguai em 2004, nas eliminatórias para a Copa de 2006 – a partida ficou conhecida na Venezuela como o Centenariazo.
["Miku" Fedor, uma das estrelas da seleção venezuelana, joga no Getafe da Espanha]
“Nesse dia houve uma mudança de mentalidade, vimos que era possível ganhar desses times”, afirma o jogador.
Integrante desse grupo exitoso, o jogador venezuelano Rafael Acosta, de 23 anos, aponta o investimento no esporte como outro elemento fundamental para a evolução em campo.
“A percepção de que a Venezuela não tem força no futebol mudou. De oito anos para cá a qualidade cresceu muito, principalmente com as escolinhas de futebol. Agora se entende que o futebol vem das bases, das crianças”, explica.
“Miku” pontua que a profissionalização do futebol caminhou junto com o desenvolvimento econômico da Venezuela nos últimos anos. “O futebol acompanhou o crescimento de toda a sociedade. O esporte cresceu não só em nível internacional, como nacional. Isso porque a renda aumentou. Se um jogador, ou se qualquer trabalhador é bem pago, seu nível de trabalho e compromisso são muito maiores”, defende.
Beisebol x futebol
A empolgação com a seleção nacional contagiou até Hugo Chávez, um aficionado pelo beisebol, mas que frequentemente se manifesta durante os jogos por meio de sua conta no Twitter. Mas o presidente não está sozinho.
Uma pesquisa feita pelo Gis XXI (Grupo de Pesquisa Social Siglo XXI), em outubro de 2011, mostrou que é evidente o aumento do interesse dos venezuelanos pelo futebol, especialmente entre os mais jovens.
[Rafael Acosta: "A percepção de que a Venezuela não tem força no futebol mudou"]
Vinte e nove porcento deles afirmam que praticaram o esporte no último ano, enquanto o índice nacional foi de 17%. O beisebol ficou em segundo, com 15% das preferências dos jovens e 15% da fatia nacional.
Na mesma pesquisa, questionados se estavam “muito de acordo” ou somente “de acordo” com a frase “com o êxito da seleção nacional agora a Venezuela é Vinhotinto”, 95% dos jovens escolheram a primeira resposta, enquanto o montante nacional somou 89%.
Todavia, à pergunta “outros esportes viram moda, mas o beisebol é o esporte nacional da Venezuela”, 93% dos jovens responderam “muito de acordo” e todas as faixas etárias, 94%.
No entanto, na opinião de “Miku”, é questão de tempo para que o futebol se torne a paixão nacional número um. “Há mais crianças federadas em futebol do que em beisebol atualmente na Venezuela. A Federação Venezuelana de Futebol, os clubes e a própria sociedade têm um papel fundamental nisso”, destaca o jogador.
Na esteira dessa “febre”, a marca de material esportivo Adidas, responsável pelo uniforme da seleção, preparou uma campanha publicitária que aflorou as emoções na nação bolivariana. No filme, o primeiro feito para a Vinhotinto, uma criança viaja até o Brasil de ônibus e no percurso narra seu amor pela seleção canarinho, especialmente por Kaká. “Queria ser meio-campo como você, fazer os gols que você faz”, conta o menino.
Já maravilhado com as praias cariocas, ele diz a Kaká que todos os dias pratica para ser como ele: “você para sempre será o meu preferido”. Até que a declaração de amor vira um agradecimento – e uma despedida. Já em frente a uma casa, o menino retira sua camisa do Brasil e por baixo, está a da Venezuela. A antiga é colocada em uma carta de correio. “Você é o melhor, mas fico com as cores da minha verdadeira paixão”, se justifica.
A peça publicitária foi bastante elogiada na Venezuela e computa atualmente mais de um milhão de acessos no canal da marca no YouTube. Em um país polarizado politicamente é indiscutível que a “Vinhotinto” poderia facilmente se tornar alvo de disputas, porém, o efeito é exatamente o contrário, como confirma Acosta: “O futebol une ainda mais a Venezuela. Alguém pode ser de um partido político, ser negro ou branco, mas quando começa a partida, a harmonia é definitiva.”
Investimentos
O entusiasmo com o futebol reflete o novo fôlego esportivo depois que Chávez chegou ao governo e decidiu fazer da educação física um instrumento de inclusão social. O desfecho institucional dessa decisão é a Lei Orgânica para o Esporte, criada em 2011, que determina objetivos como a massificação da atividade e a criação de um fundo nacional para seu financiamento, sob controle do Estado.
O investimento público anual em esportes, entre 1992 e 1998, equivaleu a 3,75 milhões de dólares, segundo dados do governo. Nos primeiros onze anos da administração Chávez, entre 1999 e 2010, essa cifra saltou para 131,7 milhões – multiplicando por 35 as verbas desembolsadas pelos antigos governos.
Opera Mundi/Fonte: Ministério do Poder Popular para os Esportes, 2011
Como parte dessa política, foi criada, em 2002, a Missão Barrio Adentro Deportivo, um programa que universaliza o direito à atividade física nas comunidades mais pobres, com equipamentos e professores. Também foi fundada, em 2006, a Universidade Esportiva do Sul, no estado Cojedes, que  prepara treinadores e gestores no setor para todo o país.
Aos poucos, inspirando-se na experiência cubana e apoiada por vários convênios com a ilha caribenha, a Venezuela vai criando um sistema de pirâmide desportiva, que alia a democratização na base da sociedade (especialmente nas escolas) com uma cadeia de etapas superiores que vão selecionando e preparando atletas até o topo, onde se encontram os esportistas de alto rendimento, escolhidos para disputar os grandes campeonatos e jogos olímpicos.
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Venezuela - IX

Reforma agrária é aposta para independência alimentar na Venezuela


O país, no final do século XIX, chegou a ser o terceiro exportador mundial de café
A área rural de El Tigre, município do estado Azoátegui, no oriente venezuelano, parece um formigueiro binacional. O espanhol se mistura ao português. Desde que, em 2009, um convênio entre o Brasil e a Venezuela começou a ser implementado, possibilitando a criação de uma companhia destinada ao plantio e à colheita de produtos agrícolas, chegaram dezenas de trabalhadores brasileiros para ajudar no desenvolvimento do projeto.
O nome do empreendimento: Empresa Socialista José Inácio de Abreu e Lima. Seu batismo é homenagem a um general brasileiro que lutou ao lado de Simón Bolívar nas jornadas pela independência venezuelana. De propriedade estatal, seu objetivo é funcionar como centro produtor e distribuidor da região. Articulada com os agricultores locais, através do apoio às suas atividades e a compra de seus produtos, a Abreu e Lima busca principalmente reforçar a oferta nacional de soja e milho.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, dirige um trator nos campos cultiváveis do Estado Barinas‎
Chávez cumprimenta agricultores no Estado Barinas‎ em 17 de julho de 2012
Chávez dirige um trator nos campos cultiváveis do Estado Barinas‎
Silos de armazenagem de grãos com capacidade de 10 toneladas cada em El Tigre, município do estado Azoátegui
Vista aéra da construção de seis novos silos e da fábrica de refino de óleo de soja em Azoátegui
Centro de treinamento dos trabalhadores em Azoátegui
Com apenas 25 dias de plantada, a safra 2012 deve ocorrer em setembro desde ano
Escritório da Empresa Socialista Abreu e Lima
Pivotes de irrigação da soja
De macacão laranja, Yonairo D'ávila já conversa em "portunhol" com amigos braileiros
Yhonny Zabaleta, vice-presidente da Empresa Socialista Abreu e Lima
Roupa utilizada pelos trabalhadores da Empresa Socialista Abreu e Lima
Horta comunitária no Centro Gestão Comunitária da Empresa Socialista Abreu e Lima
Esse ano a empresa prevê estender o plantio a 20 mil hectares, saltando para 25 mil no próximo ano e chegando a 110 mil em 2019. “Atingimos, até agora, 20% de nossa meta”, relata Yhonny Zabaleta, vice-presidente da companhia. “Mas o crescimento tem sido acelerado, ano passado nossa área produtiva era de apenas 4 mil hectares. Mas já começamos a vender soja e milho para todo o país.”

A empresa possui uma estrutura industrial sofisticada para exercer sua função econômica. São quatro silos com capacidade para 10 mil toneladas de grãos cada um, outros seis em construção. O processo industrial é mecanizado e controlado por computadores. Uma fábrica de refino e embalagem de óleo, carne e leite de soja está sendo erguida.

Segundo o presidente da Abreu e Lima, Alfredo Herrera, o consumo anual de soja é de 1,2 milhão de toneladas, quase tudo importado. “Se você não tem soja, não desenvolve a pecuária, a produção de ovos, a piscicultura, porque a soja é a mais barata fonte de proteína”, constata o dirigente. “Mas atualmente nossa produção não chega a cem mil toneladas, quando apenas o consumo de óleo de soja é de 1,5 litro por habitante.”

Dependência

Iniciativas com Abreu e Lima fazem parte de um esforço para reverter uma das heranças malditas do modelo econômico que se consolidou na Venezuela durante o século XX. Beneficiado pela renda petroleira, o país trocou sua base agrícola e sua perspectiva industrial pelo recurso ao comércio exterior.

A Venezuela, no final do século XIX, chegou a ser o terceiro exportador mundial de café, atrás apenas do Brasil e das ilhas holandesas. Mas as facilidades das receitas com o petróleo e a concentração do Estado e capitais nesse ramo incomparavelmente lucrativo colocaram a agricultura de joelhos. No início do governo Chávez, o país importava 70% dos alimentos e a atividade rural não chegava a 5% do PIB.

“Praticamente tínhamos uma economia baseada na agricultura de porto” explica Javier Alejandro Ramos, vice-ministro da Agricultura. “Todos os alimentos que ingressavam no país chegavam pela via de importação. Importávamos até feijão enlatado.” Sem assistência técnica, financiamento, maquinário e incentivos, a produção rural era de subsistência e em poucas culturas havia produção significativa. “Saia mais barato comprar alimento fora”, registra Ramos.

Opera Mundi
Ramos: "Todos os alimentos que ingressavam no país chegavam pela via de importação. Importávamos até feijão enlatado."
O governo decidiu enfrentar essa chaga histórica através de um conjunto de medidas elencadas na Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário, aprovada no final de 2001, que desde então fixa os parâmetros para políticas de reforma agrária. A nova legislação passou a proibir uma única pessoa de possuir mais que cinco mil hectares, estabeleceu impostos progressivos sobre propriedades, adotou mecanismos para desapropriação de latifúndios improdutivos e determinou a recuperação de áreas públicas ilegalmente ocupadas.

“Os quatro eixos principais da nossa política são distribuição de terras, financiamento ao setor agrícola, assessoramento técnico e distribuição de alimentos”, destaca o vice-ministro. “A autossuficiência é uma meta fundamental de nossa revolução.”

Nos últimos treze anos, mais de 6,4 milhões de hectares foram regularizados e distribuídos entre 168 mil famílias. Os bancos, públicos e privados, passaram a ser obrigados a oferecer uma carteira de créditos para o financiamento dos camponeses. Os fundos financeiros aportados pela renda do petróleo viabilizaram programas de alimentação escolar e de distribuição subsidiada de alimentos nas cidades, obrigatoriamente abastecidos pelas terras da reforma agrária.

Os registros do Ministério da Agricultura demonstram que o Banco Agrícola da Venezuela emprestou aos produtores rurais 1,22 bilhões de bolívares em 2010, cifra 6.352% maior que em 2006. Desde a criação do Fundo para o Desenvolvimento Agrário Socialista (Fondas), em 2008, mais de 3,7 bilhões de bolívares foram emprestados aos agricultores do país.

As fazendas privadas produtivas não foram alcançadas pelas desapropriações, mas o Estado passou a ser o grande vetor da atividade agrícola.

Corporações agroindustriais

Apesar do patamar de importação alimentar continuar próximo aos 70%, autoridades governamentais analisam que ocorreram avanços estruturais no quadro agrário. O consumo energético por habitante subiu de 2,2 mil calorias em 1998 para 3,2 mil em 2011, sem aumentar as compras no exterior. A produção nacional de carne bovina, por exemplo, já atende 78% da demanda. A de arroz, 96%. A de leite, 64%.
Opera Mundi
A estratégia governamental combina ampliação da agricultura familiar com grandes corporações estatais. Essas empresas, além de terem sua própria produção, compram a safra dos pequenos agricultores e das cooperativas locais, além de fornecerem crédito e assistência.

Também distribuem os alimentos nas cidades, tanto através da rede privada quanto do sistema Mercal, controlado pelo governo e com preços subsidiados. Vários desses projetos contam com apoio e sociedade da PDVAL, o braço agrícola da gigantesca estatal do petróleo, que canaliza parte de seus lucros para programas de reforma agrária.

Companhias agroindustriais desse tipo, estatais que articulam a produção regional com o mercado nacional, parecem ser uma grande aposta de Chávez. Várias delas, em diferentes ramos, proliferam por distintas províncias. Empresas como a Los Andes, de engarrafamento de leite, sucos e água; Café Fama da América; Café Venezuela; Cacao Oderi, de chocolates.

O próprio estatuto dessas companhias determina o papel social. “A Abreu e Lima está obrigada a dar suporte para as comunidades da região, em uma área de 30 quilômetros ao redor da área industrial”, explica Pedro Orellana, coordenador de Gestão Comunitária. “Há 711 pequenos e médios produtores beneficiados pela empresa, em 19 comunidades indígenas e criolas.”

Segundo dados oficiais, a produção de alimentos na Venezuela, entre 1988 e 1998, cresceu 8%, de 15,9 milhões de toneladas anuais para 17,1 milhões. Em 2010, esse volume tinha subido para 25 milhões de toneladas, representando um aumento de 44% da produção agrícola nacional durante a era Chávez.

O fato é que o venezuelano passou a comer mais e a ter mais alimentos nacionais no prato, apesar de ainda estar longe de ser superada a dependência do mercado mundial.
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Venezuela - VIII

Na Venezuela, missões reorganizam serviços públicos e enfrentam pobreza

Apesar de reconhecerem que programa tem eficácia e obteve conquistas, oposicionistas criticam "manipulação política"
Conforme o carro se afasta do centro de Caracas pela autopista que leva até a cidade de La Guaira, a paisagem se transforma em questão de minutos. Se antes a profusão de prédios e outdoors de propaganda era maioria, agora é a aglomeração de construções humildes de Catia, área metropolitana da capital, que chama a atenção. Justamente nesse mar de casas de alvenaria empilhadas umas nas outras desponta um prédio vermelho e branco, com cara e cheiro de novo. “Mudei faz só 15 dias”, conta Suyin Morales, assim que abre a porta do elevador.
“Sejam bem-vindos ao A4-03”, diz sorridente ao entrar em seu apartamento, um dos 40 dessa construção feita com dinheiro da Gran Misión Vivienda, programa de moradia do governo da Venezuela lançado em 2011. Trata-se de um espaço de 70 metros quadrados, divididos entre sala, cozinha americana, dois quartos e um banheiro. “Toda a mobília foi entregue pelas autoridades”, afirma Suyin, que antes de chegar ali era sem-teto. “Perdi tudo em uma enchente, inclusive minha casa. Fui parar em um abrigo com meu marido, filhas e netos; éramos oito naquele buraco”, lembra.
Fachada do prédio da venezuelana Suyin Morales, que viveu por dois anos em um abrigo com a família
Vista do corredor da casa de Suyin. O bairro de Catia, em Caracas, é um dos mais pobres da capital
Suyin apresenta o apartamento, que tem 70 metros quadrados, com dois quartos e um banheiro
O apartamento de Suyin é um dos 40 dessa construção feita com dinheiro da Gran Misión Vivienda
“Toda a mobília foi entregue pelas autoridades”, afirma Suyin, que antes de chegar ali era sem-teto
Catia, bairro localizado na autopista Caracas-La Guaira, já recebeu outras construções da Misión Vivienda
Outras localizades de Caracas também contam com prédios residenciais da missão criada em 2011
Outras localizades de Caracas também contam com prédios residenciais da missão criada em 2011
Foram dois longos anos até ser chamada pelo Ministério de Habitação e Habitat. Suyin conseguiu sua casa, mas, de acordo com cálculos do governo, há um déficit habitacional de mais de 2,7 milhões de residências. São 3.742.226 chefes de famílias inscritos no registro – 73,6% precisam de casas novas. “Foi a primeira vez que um governo deu casa para as pessoas, de graça. Não se ajudava os mais pobres antes”, diz Suyin.
De acordo com estimativas levantadas pelo governo, pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e outras organizações internacionais, de 1984 a 1995 a população pobre venezuelana aumentou de 36% a 66% e a pobreza extrema triplicou: subiu de 11% para 36%. Além disso, entre 1981 e 1997, a participação dos pobres na renda do país caiu de 19,1% para 14,7% e o naco dos mais ricos aumentou de 21,8% para 32,8%.
Em 1998, 70% da população não tinham acesso aos serviços de controle de saúde ou não estavam cobertas por qualquer sistema de proteção financeira. A maioria dos adolescentes e jovens não se encontrava mais no sistema educacional. Frente a este panorama, as missões são criadas em um contexto de profunda crise social.
De acordo com a mestre em História pela UFF (Universidade Federal Fluminense) Mariana Bruce, em sua dissertação sobre as missões, esses programas se estruturam “a partir da preocupação em aliar reformas sociais ao fomento à atuação organizada das classes populares”. Para ela, foi assim que, “para além de um programa assistencialista, foi pensado como um dos principais instrumentos responsáveis pela construção de um novo modelo social e econômico”.
Opera Mundi
Construção de moradias em Caracas: governo venezuelano pretende cobrir o déficit de mais de 2,7 milhões de residências
Financiadas com o dinheiro do petróleo, as missões surgem em um momento de conflito político agudo. Com o governo ainda abalado pelo golpe de abril de 2002 e a paralisação patronal de dezembro do mesmo ano, transformações sociais de impacto tardavam e os venezuelanos estavam insatisfeitos. Buscando reorganizar e consolidar base política e eleitoral, o presidente Hugo Chávez apostou nas missões.
Em conversa com Fidel Castro, o líder venezuelano pediu apoio para seu plano. “Eu lhe disse: ‘olhe, tenho essa ideia, atacar por baixo com toda a força’. Ele me respondeu: ‘Se tem algo que sei é isso, conte com todo o meu apoio’. E começaram a chegar os médicos às centenas, uma ponte aérea, avião pra lá e pra cá”, relatou Chávez, em novembro de 2004.
As missões
A missão Barrio Adentro, cuja gênese é mencionada na conversa entre Chávez e Fidel, inaugurou a era das missões na Venezuela. Mas a cooperação entre Venezuela e Cuba e a real origem da missão de saúde remonta a 1999, quando voluntários cubanos foram ao país em caráter humanitário após um desastre natural que afetou dez estados. Estava semeada a primeira missão.
No início, os médicos cubanos ficavam hospedados em casas de família. Com o desenvolvimento do projeto, no entanto, pequenas casas, de dois andares, foram construídas no interior das localidades mais necessitadas da Venezuela. Ali, os cubanos prestavam serviço de saúde primária, como exames e aplicação de vacinas, com o intuito de prevenir o desenvolvimento de enfermidades e desafogar os corredores dos hospitais.
Até 17 de abril desse ano, quando a missão Barrio Adentro completou nove anos, foram realizadas mais de 500 mil consultas médicas gratuitas, de acordo com o governo. Com a ampliação do programa, mais de oito mil médicos venezuelanos se formaram na UBV (Universidade Bolivariana da Venezuela).
As missões obtiveram resultado significativo também na educação. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) declarou a Venezuela como território livre do analfabetismo em 2006, três anos após o começo da missão Robinson, programa que ensinou 1,6 milhão de venezuelanos a ler e escrever. Essa missão contou também com o apoio do governo cubano, que forneceu professores, tecnologias e o próprio método de alfabetização, o “Yo si, puedo”.
Gustavo Borges/Opera Mundi
A Missão Robinson, programa social do governo venezuelano que erradicou o analfabetismo, foi implementada em julho de 2003
A missão Robinson foi seguida pela missão Robinson II, que pretendia dar continuidade aos estudos, abrangendo até a 6ª série. Ainda em 2003 foi lançada a missão Ribas, dedicada aos venezuelanos secundaristas. Por fim, foi construída a missão Sucre, fechando o ciclo completo com o acesso ao ensino superior, culminando na criação da UBV.
Mais recentes são as missões Amor Maior e Filhos da Venezuela – a primeira voltada para idosos e a segunda, de transferência de renda, a adolescentes grávidas, filhos menores de 17 anos em situação de pobreza e pessoas com deficiências sem limite de idade. O governo pretende ajudar 1.500.543 venezuelanos que nunca puderam pagar as parcelas do seguro social no Instituto Venezuelano de Previdência Social (IVSS, por sua sigla em espanhol). De acordo com o governo, 216.492 idosos já foram beneficiados, passando a receber mensalmente um salário mínimo (cerca de 800 reais). Trinta mil participantes da segunda missão passaram a receber entre 430 (200 reais) e 600 bolívares (280 reais) ao mês.
Críticas
O sucesso das missões é um dos alicerces da popularidade do presidente Hugo Chávez. A tal ponto que a oposição, antes raivosa crítica da iniciativa, agora ressalta que elas serão continuadas caso ganhe as eleições. Mas rechaça aspectos da empreitada. “As missões deveriam ser um compromisso com a transformação social, mas passaram a ser um instrumento da revolução chavista, do socialismo”, reclama Leopoldo Lopez, ex-prefeito de Chacao e membro do partido Vontade Popular. “É preciso governar para todos os venezuelanos, incluindo as camadas mais ricas, e não somente para um segmento da população”.
Opera Mundi
Para Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, as missões sociais se tornaram um instrumento ideológico do governo chavista
O coro oposicionista é reforçado por vozes de especialistas. Na opinião dos pesquisadores venezuelanos Yolanda D'Elia e Luis Francisco Cabezas, do Instituto Latino-americano de Pesquisas Sociais, “as missões deixaram de ser um dispositivo para enfrentar adversidades políticas e econômicas e se tornaram mecanismo de controle político e social para avançar nos propósitos da revolução”. Para eles, essa mudança formou um obstáculo para o aprofundamento e para a própria institucionalização do projeto, refletindo na qualidade e quantidade das missões.
Onde os adversários enxergam problema, contudo, o governo vê avanços. “As missões foram a forma de romper com o mecanismo de um Estado burocrático, vertical e distante do povo”, afirma Aristobulo Istúriz, vice-presidente da Assembleia Nacional e do PSUV. “Não se trata apenas de aplicar política social, mas de ajudar na auto-organização das pessoas e transformar suas comunidades em espaço de poder e participação.”
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Venezuela - VII

Era Chávez colocou Venezuela no mapa do mundo

Mudanças profundas na política, economia e sociedade chamaram ao país andino os holofotes da política internacional
A mais de mil metros de altitude, na costa venezuelana do Caribe, uma cidade brota do zero. Ocupa uma área de 1,2 mil hectares, no estado de Vargas, encravada entre Caracas, a capital, e o principal aeroporto do país. O loteamento foi planejado para ser uma das grandes vitrines do governo de Hugo Chávez Frias, presidente da República desde fevereiro de 1999.
O projeto leva o nome em espanhol de Ciudad Caribia.  Sob responsabilidade de uma empresa mista cubano-venezuelana, a Construtora Alba Bolivariana, a empreitada já abriga quase sete mil pessoas em 1,1 mil apartamentos. Quando estiver concluída, em 2018, será uma urbanização com mais de 20 mil unidades habitacionais, moradias de 100 mil venezuelanos.
Efe
Marcadas para 7 de outubro, as eleições presidenciais serão um teste para a administração chavista nesses 14 anos
Apenas gente muito pobre já recebeu e continuará recebendo o direito de propriedade sobre esses apartamentos com 72 metros quadrados, distribuídos em três quartos, dois banheiros, área de serviço, sala de jantar, de estar e cozinha. Totalmente mobiliados e equipados.
Mas não é apenas um conjunto residencial. Abriga escolas, parques infantis, creches, biblioteca, delegacia, radio comunitária, clube esportivo, centro comercial, áreas para reuniões e eventos. Não podem circular automóveis em seu interior. A mobilidade será garantida por um sistema de transporte público que prevê até teleférico para levar seus moradores à costa e à capital.
O condomínio público é dirigido por conselhos comunais eleitos, que têm poder para criar empresas comerciais e industriais. Um dos projetos que já está de pé é a coleta de lixo e sua reciclagem. O funcionamento obedece a um modelo de autogestão, que conta com apoio do governo nacional e subverte o tradicional verticalismo estatal.
O percurso entre a autopista Caracas-La Guaira e Ciudad Caribia é tomado por obras e só poder ser feito de carro
Centenas de operários, contratados pelo governo, trabalham na ampliação da cidade socialista pensada por Chávez
Até o momento foram entregues 1.108 apartamentos como esses, onde vivem mais de seis mil pessoas
A área total de construção de Ciudad Caribia é de 1,2 mil hectares. Ao todo, 20 mil famílias serão beneficiadas
Ciudad Caribia fazer parte da "Gran Misión Vivienda", que pretende solucionar o déficit de 2 milhões de moradias
Há somente vans que fazem o transporte a partir de Ciudad Caribia e há longas filas todas as manhãs
Chávez quer aplicar em Ciudad Caribia a maioria das políticas desenvolvidas
 ao longo dos 14 anos de administração
Carlos Marques, de 45 anos, fez parte do primeiro grupo de pessoas que chegou a Ciudad Caribia
Os apartamentos têm 72 metros quadrados, com três dormitórios. Na imagem, a cozinha de Carlos
Os apartamentos têm 72 metros quadrados, com três dormitórios. Na imagem, a cozinha de Carlos
Os apartamentos têm 72 metros quadrados, com três dormitórios. Na imagem, a sala de estar de Carlos
Vista da janela do apartamento de Carlos, localizado no terceiro andar do prédio em Ciudad Caribia
O complexo habitacional está sendo feito pela empresa mista cubano-venezuelana Construtora Alba Bolivariana
Quadra poliesportiva em Ciudad Caribia. Há também uma creche e uma escola na cidade socialista
Alguns apartamentos têm varandas, além de sistemas de ar condicionado e de ventilação
Igreja construída em Ciudad Caribia. Todos os elementos de uma cidade comum foram levados para lá
Carlos Marques abraça a filha conforme caminha até o centro comercial de Ciudad Caribia
No centro comercial de Ciudad Caribia há uma padaria, salão de beleza, loja de ferramentas e de vestuário
Unidade da Arepera Socialista, que vende o tradicional prato feito de farinha de milho e preços módicos
A rede de supermercados Abasto vende produtos com preços menores que os do outros mercados
“Ouço muita gente dizer que Ciudad Caribia não existe, que é mais uma mentira do governo”, relata Carlos Marques, 45 anos, do primeiro grupo de famílias a chegar e porta-voz de um dos quatro conselhos comunais. “Somos parte de uma experiência. Não sou chavista, daqueles que acatam tudo o que fala o presidente, mas votarei nele em outubro. Ele mudou a minha vida.”
Essa sensação redentora, aparentemente generalizada entre os mais pobres, tem sua contrapartida na rejeição por vezes furiosa dos mais abastados. Quando Chávez foi eleito a primeira vez, em 1998, imaginava-se que ele seria um revolucionário na política e um suave reformador na economia. Parte do empresariado chegou mesmo a apoiá-lo, porque o sistema carcomido da chamada IV República (1958-1999) havia se tornado uma chaga insuportável. Tão corrupta que atrapalhava até os negócios.
O mecanismo que imperava era um duopólio de poder, repartido entre a Ação Democrática (AD), de centro-esquerda, e o Comitê de Organização Político Eleitoral Independente (COPEI), social-cristão, de centro-direita. Depois da queda do ditador Perez Jimenez, em 1958, essas duas agremiações fizeram um acordo (conhecido como Pacto de Punto Fijo, nome da localidade na qual foi assinado) e criaram regras implacáveis para quem quisesse atrapalhar a festa. Durante quarenta anos ficaram por cima da carne seca.
Petróleo
No caso venezuelano, a roda da fortuna é girada pelo petróleo. O país é o quinto maior exportador e possui as maiores reservas comprovadas. Até 1976, a exploração era privada e controlada principalmente por empresas norte-americanas. Os empresários locais acumulavam riquezas como sócios menores ou prestadores de serviço de grandes companhias.
No reino do capitalismo predatório, a Venezuela usava os dividendos do óleo da pedra para importar quase tudo o que consumia e tinha baixíssimo padrão de desenvolvimento industrial ou agrícola. Os que tinham acesso aos negócios com o ouro negro viviam como nababos. A maioria da população, sem emprego fixo ou renda estável, amontoava-se nas cidades e vivia de trabalhos precários.
A elite política também se refastelava. Os dois partidos, que se alternavam no governo, viviam das gordas comissões que eram pagas pelas licenças de exploração e outras concessões públicas. De alto a baixo, o país foi sendo enlaçado por um dos maiores propinodutos do planeta.
A alta dos preços petroleiros, a partir da crise mundial de 1973, inspirou o presidente Carlos Andrés Perez, da AD, a passar essa atividade para direção estatal e a criar, em 1976, a PDVSA - Petróleos de Venezuela SA. Sem atrapalhar os interesses multinacionais, pois as atividades de refino e comércio internacional continuavam em mãos privadas, o novo paradigma alimentou a roubalheira, apresentando como álibi um nacionalismo de fancaria.
Os ganhos com os hidrocarbonetos, geridos diretamente pelos políticos de Punto Fijo, engordaram uma plutocracia paraestatal beneficiada por contratos dos mais diversos tipos com a PDVSA. Esses barões do petróleo fortaleceram suas posições como banqueiros, controladores de cadeias televisivas, proprietários de companhias importadoras, entre outros ramos de baixo risco. O fato é que o estamento político fundiu-se de vez com os donos do dinheiro.
Durante os dez anos de bonança, nacos de felicidade chegavam ao andar de baixo. Afinal, mesmo com as bolsos cheios, políticos precisam de votos e isso demanda agradar a clientela. A Venezuela petroleira era um país saudita, mas em regime de democracia eleitoral.
Quando a cotação do petróleo despencou, a partir dos anos 80, o modelo foi à bancarrota. A inflação deu um pinote de 7,4% anuais em 1978 para 103% em 1996. Os juros da dívida passaram a representar 30% do orçamento nacional. O PIB per capita, descontada a inflação, caiu quase 19% entre 1978 e 1998. No mesmo período, o salário real perdeu 48% de seu valor, provocando uma queda de 25% no consumo familiar, enquanto o desemprego pulou de 4,3% para 14,5%.
A ruína, porém, não foi para todos. O setor privado, antes vivendo à tripa forra graças a escalada da renda petroleira, passou a compensar eventuais perdas com ganhos financeiros auferidos através dos juros que o Estado passou a oferecer para colocar no mercado títulos da dívida pública. A prova dessa fartura está nos mais de US$ 30 bilhões de dólares enviados para o exterior entre 1984 e 1998, quando o país sucumbia.
A transferência acelerada de recursos públicos para os grupos empresariais,  nos governos pré-Chavez, foi acompanhada por uma das versões mais radicais do programa de ajustes recomendado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional): reajuste das tarifas de serviços públicos, corte das verbas sociais, privatização de empresas estatais.
O fato é que, quando o atual presidente começou sua gestão, tinha diante de si um país com a economia quebrada e a sociedade esgarçada. Dez por cento da população de então, 23 milhões, estavam incluídos na pátria do petróleo e das finanças. Os demais 90% assistiam seu padrão de vida despencar, corroído pelo desemprego, o arrocho salarial e a eliminação de direitos. A maioria dessa gente deu a Chávez seu aval para enterrar a IV República e iniciar um impetuoso processo de mudanças.
Início
O primeiro passo do novo regime, denominado V República a partir da Constituição de 1999, foi explodir o sistema político que havia herdado. Amparado por maioria parlamentar, os partidários de Chávez puderam adotar uma série de mecanismos plebiscitários e de participação política que detonaram o controle institucional antes exercido pelo bipartidarismo. As forças derrotadas pelo chavismo perderam hegemonia sobre a assembléia nacional, o poder judiciário e as forças armadas.
As novas regras do jogo permitiam que consultas impositivas, através de referendos, fossem convocadas pelo presidente, o parlamento ou até por iniciativas populares com um mínimo de apoio. Mandatos legislativos ou administrativos poderiam ser revogados por voto popular. Leis poderiam ser aprovadas a despeito do parlamento, se fossem chanceladas pelas urnas.
Essa ofensiva política enfraqueceu os setores mais conservadores. No final de 2001, Chávez sentiu-se forte para deslanchar suas primeiras reformas estruturais na economia. As principais foram a Lei de Terras (que fixou os parâmetros de reforma agrária) e dos Hidrocarbonetos (que aumentou impostos sobre  as companhias privadas e o controle governamental sobre a atividade petroleira).
A reação da oposição e dos grandes grupos econômicos foi imediata, convocando às ruas a classe média e açulando os militares para que se rebelassem contra o governo. Aproveitando-se de seu amplo domínio sobre os meios de comunicação, esses círculos criaram um clima de caos e lançaram-se na empreitada do golpe de Estado, em abril de 2002. A aventura durou menos de 48 horas. Militares legalistas, impulsionados por centenas de milhares que se manifestavam nas ruas, restituíram a Chavez o mandato constitucional.
Trechos do documentário "A revolução não será televisionada", de 2002:
Nova intentona viria a ocorrer no final de 2002, dessa vez através de uma greve patronal que paralisaria a economia do país, centrada na PDVSA, ainda controlada por diretores e gerentes que se recusavam a obedecer ao governo. Novamente o presidente venceu a queda de braço, após uma batalha de 60 dias. Na sequência do golpe de abril, tinha desbaratado os grupos adversários dentro das forças armadas. Derrotada a paralisação petroleira, Chávez finalmente conseguiu colocar a estatal sob seu comando, ainda que às custas da demissão de 32 mil funcionários que aderiram ao locaute.
A oposição ainda teve energias para convocar, em 2004, um referendo revogatório, para destituir o presidente pela via constitucional. Aliás, na Venezuela de Chávez, tisnado por seus inimigos como déspota, a assinatura de 20% dos eleitores pode levar a um plebiscito para demitir o chefe de Estado. Apesar de ter conseguido essa subscrição mínima, os oposicionistas foram batidos na consulta popular. O presidente manteve seu mandato e foi reeleito, em 2006, com mais de 60% dos votos.
Teste para Chávez
Essa gestão se encerra em janeiro de 2013. Terá sido a terceira do líder bolivariano (a primeira durou apenas um ano e meio, entre 1999-2000, encerrada após a promulgação da nova Constituição). Depois de cinco anos nos quais sua principal preocupação foi levar a cabo uma revolução política que afastasse as velhas elites do poder e derrotasse suas empreitadas anticonstitucionais, Chávez dedicou os últimos seis anos à construção de um novo projeto econômico-social, que em outubro será julgado nas urnas.
O presidente abriu várias frentes. Sua primeira invenção foram as missões sociais, destinadas a enfrentar principalmente as carências na saúde e na educação. Ao mesmo tempo, acelerou um amplo processo de nacionalizações, a começar pela ramo petroleiro, mas atingindo também outras áreas estratégicas como sistema financeiro, siderurgia e comunicações, às vezes resvalando para segmentos menos importantes como a distribuição varejista e serviços. Parte dos lucros da PDVSA, do aumento dos impostos e da dívida pública foi destinada a pagar pela aquisição dessas companhias.
A estratégia chavista, desde 2006 batizada de “socialismo do século XXI”, tem como centro um Estado forte, provedor de direitos e regulador da economia, com expressiva participação direta na propriedade dos meios de produção. Não está no horizonte a eliminação dos capitalistas, como ocorreu em outras experiências socialistas. Seus oponentes, por sinal, costumam criticá-lo por ter criado uma “boliburguesia”, empresários atrelados ao governo e ao projeto bolivariano. De toda forma, não há dúvidas que, ao nadar contra a corrente das idéias liberais triunfantes após o colapso da União Soviética, Chávez despertou a atenção mundial para seu país.
Esse destaque atualmente é movido mais pela polarização político-ideológica com os Estados Unidos e demais potências ocidentais, além dos conflitos com a oposição interna. Defensor da integração latino-americana e de uma geopolítica sem o predomínio exercido pela Casa Branca, o presidente venezuelano virou ator importante no cenário internacional. A recente filiação de seu país ao Mercosul, celebrada dia 31 de julho, ressalta esse protagonismo.
Mas a Venezuela de Chávez merece ser investigada para além da batalha de ideias. Os resultados desses quase 14 anos não são desprezíveis. Apesar dos problemas, como as dificuldades para diversificar a indústria e a alta criminalidade nas grandes cidades, o país realizou feitos notáveis. Não é pouca coisa ter sido declarada nação livre do analfabetismo pela Unesco. Ou ser o país sul-americano com a melhor distribuição de renda, segundo o índice Gini. Ou apresentar o maior salário mínimo da região, conforme dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Ou comemorar o mais acelerado padrão de crescimento do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) no continente durante a última década, fato informado por relatório recente das Nações Unidas.
A pátria fundada por Simón Bolívar passou a jorrar mais do que petróleo. Suas experiências e mudanças, goste-se ou não, são assuntos relevantes para quem quiser discutir com seriedade os desafios contemporâneos.
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