25 de jul de 2012

Charge online - Bessinha - #1365

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Em Londres, Dilma se encontra com David Cameron

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A sujeira da CIA passada a limpo

A jornalista francesa Marie-Monique Robin fez um documentário interessante: Esquadrões da morte: a escola francesa. De acordo com seu trabalho de garimpagem científica, aprendemos que a França formou a verdadeira escola de tortura tipo exportação. O terreno de aprendizagem francesa – ou seja, de cobaias – foram os argelinos que lutavam pela libertação. Oficiais das três forças armadas testemunham neste documentário, tecendo uma realidade há tempos ocultada aos meios de comunicação.
Sabia-se que o filósofo militante Albert Camus havia assumido a causa da libertação na Argélia e que o pensamento político e filosófico francês levou muitos decênios para defender a causa argelina. Jean-Paul Sartre, por exemplo, que não gostava de Camus, preferia reafirmar seu comunismo ideológico entre quatro paredes, jamais na militância de uma causa política. Ainda porque a França não queria entregar a Argélia, era preciso continuar o ciclo da colonização. Mas Camus morreu antes da libertação argelina. Ha tempos, soubemos da influência americana nos golpes de Estado de todos os países da América do Sul. Entretanto, Robin descreve que a experiência e a prática francesas de jogar pessoas de pés e mãos atados no mar não é invenção dos oficiais argentinos e as piores crueldades cometidas contra a resistência são um aprendizado made in France. No país dos direitos humanos, onde Helder Câmara discursou em maio de 1970 denunciando os abusos militares no Brasil, tudo era repassado aos donos do poder e do medo no Brasil.

Guerra suja da CIA

Sabe-se, no entanto, que os EUA tinham bases no Panamá com o intuito de “ideologizar e doutrinar” os militares brasileiros e sul-americanos contra o perigo comunista. Os experts franceses eram convidados especiais para ensinar táticas de interrogatório e estiveram no Brasil, no Chile e na Argentina. O desaparecimento de líderes da oposição foi inaugurado pelos franceses na batalha da Argélia. A França criou os esquadrões da morte. Desta forma, os sociólogos franceses Yves Dezalay e Bryant Garth, no livro La mondialisation des guerres de palais, confirmam que os EUA tiveram papel importante a partir de 1950 no Brasil, Chile e Argentina, no interesse de investir na educação superior. De fato, alguns chilenos foram premiados com vagas nas melhores universidades americanas e depois ocuparam cargos importantes na ditadura de Pinochet. O objetivo americano, de acordo com Dezalay e Garth, era mergulhar nas ajudas filantrópicas, como as fundações Rockefeller e Ford, geradas no início pela CIA. A Fundação Ford rompe com a CIA e se torna uma força de oposição.
A inteligência americana derrubava governos em nome do interesse financeiro e político. O chefe da CIA era sempre o presidente americano. Por trás desta cortina de aparência cortês estava a guerra-fria. Um exemplo macabro nos lembra a eleição de Jacobo Arbenz na Guatemala de 1953. O pano de fundo da eleição de Arbenz era a reforma agrária porque 2,2% dos proprietários rurais detinham 70% das terras cultiváveis. A Guatemala era a maior produtora de banana e frutos tropicais, pertencentes aos irmãos John Foster Dulles e Allen Dulles. Eles eram sócios majoritários das ações da United Fruit Company. Mas os brothers Dulles ocupavam cargos importantes no governo Eisenhower e as terras monopolizadas por americanos não seriam nacionalizadas. No lugar de Arbenz, Allen Dulles, então diretor da CIA, colocou uma junta militar na responsabilidade de um amigo fantoche. A ditadura militar matou na Guatemala centenas de milhares de camponeses. Alguns anos mais tarde, Cuba sofreria as mesmas investidas da CIA e Fidel Castro teria escapado de mais de vinte tentativas de assassinato.

Imprensa engessada

Não é de hoje a história do controle dos meios de comunicação. A revista Time não deu nenhum crédito sobre a responsabilidade americana no complô da Guatemala. Já o New York Times foi menos cínico, de acordo com William Blum, e deixou correr os rumores de golpe indicando que aquilo não fora uma reunião sindical de líderes comunistas. Hoje, a imprensa pena para encontrar as razões da existência dos talibãs no Afeganistão. O mundo pira com a ideologia do bem e do mal, mas segundo os ex-diretores da CIA tudo aquilo é obra da inteligência americana. A contraespionagem da CIA criou os grupos de resistência afegã contra a invasão russa de 1979, armou os rebeldes da mesma forma como fez a CIA de Ronald Reagan com os contras da Nicarágua.
O resultado pró-americano é que Osama bin Laden foi cooptado para ser espião ao lado do bem nos EUA, desertou e dizem que destruiu as duas torres gêmeas. O que aqui escrevi é apenas uma pincelada da história em que a tão potente imprensa ficou engessada dos pés à cabeça. Os oficiais franceses da batalha da Argélia não permitiram que se guardassem arquivos e um dos únicos resquícios desse período é o filme ítalo-argelino boicotado pelos meios de difusão cinematográfica.
Mario Doraci Pinheiro é jornalista, radicado na França, mestre em Sociologia da Comunicação
No Observatório da Imprensa
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Charge online - Bessinha - # 1364

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A saga dos lacerdinhas e o fim do monopólio do rótulo

Durante muito anos, ouvindo rádio, vendo televisão e lendo jornais, eu me espantava com uma unanimidade: todos os dias os mesmos rotulavam as mesmas pessoas.
Todos os dias os mesmos rotulavam pomposamente seus oponentes de:
– Radicais
– Xiitas
– Fundamentalistas
– Ecochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Fanáticos
– Raivosos
– Obcecados ideológicos
Faziam isso em vários registros: ataques diretos, tom de ironia, pretenso humor, etc.
Tinham o monopólio do insulto, da rotulação, da etiquetagem. Só eles falavam. Era tanta convicção que não parecia haver espaço para a dúvida ou para o questionamento. Quem ia ver de muito perto o que estava acontecendo, claro, descobria o óbvio:
– Radicais, xiitas, fundamentalistas, malas, ecochatos, ignorantes, retrógrados, intransigentes, raivosos, fanáticos e obcecados ideológicos era todos os que atrapalhavam os interesses daqueles que tinham o monopólio do rótulo na mídia amiga.
Curiosamente quase todos os rótulos aplicados por eles cabiam-lhes perfeitamente. Os lacerdinhas podem ser definidos, caracterizados e explicados aos marcianos como:
– Radicais
– Xiitas
– Fundamentalistas
– Agrochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Raivosos
– Fanáticos
– Obcecados ideológicos
Há uma diferença: um lacerdinha é fanático, um obcecado ideológico que se acha neutro, acima das ideologias, objetivo, imparcial, detentor da verdadeira verdade.
Cansei de ver pessoas de diferentes partidos, marxistas ou não, sendo rotulados com a maioria das etiquetas aqui apresentadas como sendo meras constatações.
– Leonel Brizola era radical
– Maria do Rosário era fanática, raivosa, intransigente, etc.
– Luciana Genro idem
– Henrique Fontana também
– Heloísa Helena nem se fala.
Toda a esquerda era fundamentalista, fanática, ideológica, intransigente, etc.
Que estranho, que curioso: Paulo Maluf nunca recebia esses rótulos. Podia ser chamado de ladrão, mas de fanático e obcecado ideológico, pelos rotuladores da mídia, não.
Aprendi que todos os fanáticos e radicais eram bem menos fanáticos e radicais que seus rotuladores, que chegavam, e chegam, a babar de raiva e fanatismo quando os rotulam.
Nos últimos anos, depois da morte do fanático principal da mídia fashion, Paulo Francis, que herdara a verve inescrupulosa de Carlos Lacerda, surgiu uma penca de lacerdas com menos brilho, mas com muita baba ideológica: Olavo de Carvalho, o autodenominado filósofo Pondé, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Ali Kamel, Demétrio Magnoli e outros lacerdões, campões de mediocridade obscena, que são os ídolos de lacerdinhas regionais e de lacerdinhas sem mídia, numa cadeia ideológica disseminada.
Falo tudo isso pelo seguinte: muitos lacerdinhas estão ofendidos. Não aceitam ser rotulados. Acham que rotulá-los é desqualificação inaceitável, agressiva e injusta.
Não admitem expressões como “cérebro de ervilha”.
Sentem-se saudades do tempo em que só eles podiam rotular.
Dez maneiras de identificar um lacerdinha:
1 – Um sujeito que, em nome da direita, diz que não há mais direita e esquerda, fazendo, em seguida, um discurso furioso, radical e fanático contra a esquerda que não existe.
2 – Um cara que, em defesa da sua ideologia, afirma que não existem mais ideologias e, na sequência, faz um discurso ideológico fanático contra o ideologismo de esquerda.
3 – Um sujeito que treme de fúria ideológica, chamando seus oponentes de burros, atrasados, imbecis, perigosos e radicais, em nome da neutralidade analítica.
4 – Um cara que, ao ouvir uma crítica a um ditador de direita, acha que haverá necessariamente a defesa de um ditador de esquerda.
5 – Uma figura que jamais criticou a Lei do Boi – cotas para filhos de fazendeiros em universidades públicas –, mas é contra cotas raciais e até sociais.
6 – Um tipo que defende a democracia, mas está disposto a apoiar ditaduras de direita se elas lhe trouxeram benefícios econômicos e silenciarem seus oponentes.
7 – Um “ponderado” analista, defensor do Estado mínimo, que exigirá um Estado máximo quando sua empresa estiver falindo ou precisando de um empréstimo a juros baixos.
8 – Um crítico ferrenho de políticas de compensação por falta de oportunidades equivalentes salvo quando, como produtor, exige compensações por se sentir sem condições equivalentes para competir, por exemplo, no mercado internacional.
9 – Um indivíduo que passa a vida classificando as pessoas em nós e eles, fanáticos e razoáveis, estúpidos e racionais, xiitas e ponderados, e, quando classificado de lacerdinha, faz longos discursos contra esse tipo de simplificação classificatória.
10 – O representante de grupos que sempre encontraram maneiras de obter benefícios a partir de casuísmos, leis de exceção, contingências mais ou menos justificadas, contextos sociais e históricos, mas que, quando seus oponentes se organizam para tirar-lhes privilégios ou reparar prejuízos históricos, transformam-se em defensores de princípios pretensamente racionais, abstratos e universais de concorrência.
Há outras maneiras de identificar um lacerdinha, mais práticas:
– Contra o golpismo de Chávez, mas a favor do golpe no Paraguai
– Contra cotas, aquecimento global, áreas de proteção permanente, pagamento de multas por destruição do meio ambiente, código florestal ambientalista, impostos sobre grandes fortunas, bolsa-família, Prouni e outras políticas ditas assistencialista.
– A favor de incentivos fiscais para empresas multinacionais.
– Contra comissão da verdade e qualquer investigação que possa deixar mal os torturadores do regime militar brasileiro implantado em 1964.
– Contra a corrupção, especialmente se envolver políticos de esquerda, sem a mesma verve quando se trata de alguma corrupto de direita.
– Sempre pronto a chamar de petista quem lhe pisar nos calcanhares.
– Estrategicamente convencido de que a corrupção no Brasil foi inventada pela esquerda.
– A favor da universidade pública para os melhores, desde que o sistema não se alterne e os melhores continuem sendo majoritariamente os filhos dos mais ricos e com melhores condições de preparação e de ganhar uma corrida pretensamente objetiva e neutra.
– A favor, quando se fala em cotas, de melhorar o nível do ensino básico e de ampliar as vagas para evitar políticas discriminatórias, esquecendo das tais melhorias assim que o assunto sai da pauta da mídia ou é superado por alguma final de campeonato.
– Defensor da ideia de que, na vida, é cada um por si, salvo se houver quebra de safra, redução nos lucros, crise econômica internacional ou qualquer prejuízo maior. Nesses casos, o Estado deixa de ser tentacular, abstrato e opressor para ser uma associação de pessoas em favor dos interesses da sociedade na sua totalidade.
Faça o teste: quem preencher 60% dessas características é um lacerdinha.
Teste definitivo: lacerdinha é todo cara que se ofende ao ser chamado de lacerdinha.
Juremir Machado
No Esquerdopata
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Protestantismo à brasileira

Os evangélicos continuam em forte ascensão no Brasil. Apenas na última década, mais de 16 milhões brasileiros se converteram às mais variadas denominações protestantes. De acordo com dados do Censo de 2010, divulgados recentemente pelo IBGE, os evangélicos somam 42,3 milhões de fiéis, ou 22,2% da população. Trata-se da religião que mais cresce no País, a custa de um constante declínio católico. Os seguidores da Igreja de Roma passaram de 73,6% em 2000 para 64,6% em 2010.
Artigos a venda em loja evangélica. Foto: Pedro Presotto
Se mantida a tendência, os evangélicos podem chegar a um terço da população em dez anos. Não é bem o que os pastores mais otimistas previam, mas ainda assim é um grande feito. Há três anos, o Serviço de Evangelização para a América Latina, organização protestante de estudos teológicos conhecida pela sigla Sepal, estimou que a metade dos brasileiros seria evangélica até 2020. Mas o crescimento protestante parece ter atingido o seu ápice nos anos 1990, quando o número de fiéis aumentou 71%. Na década seguinte, a expansão diminuiu o ritmo e ficou em 41%.
O boom evangélico estaria próximo do fim? “Não dá para tratar uma expansão tão acentuada como algo banal ou como a expressão de um enfraquecimento deste segmento religioso”, afirma a socióloga Christina Vital, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).  “Seria um grande equivoco dizer isso, já que se trata de um crescimento de mais de 40%!”. Em entrevista a CartaCapital, a especialista avalia o fenômeno da explosão numérica dos fiéis e as suas consequências para a sociedade.
CartaCapital: O boom evangélico está próximo do fim?
Christina Vital: Parte das análises sobre os dados de religião do Censo 2010 nos conduzem para uma conclusão: o crescimento evangélico atingiu o seu auge. Estas análises privilegiam a perspectiva do “copo vazio”. Logo, acentuariam a desaceleração do crescimento evangélico em detrimento de buscarem entender o que significa um crescimento de mais de 40% de um segmento religioso. Entendo que as análises do tipo “copo vazio” estão referidas a expectativas vindas do próprio campo evangélico e também anunciadas por estudiosos da religião no Brasil que anunciavam um crescimento mais expressivo.
CC: O que explica o boom dos anos 1990?
CV: O aumento de décadas passadas estava referido a um contexto de mudanças na sociedade ao longo da década de 1980 e que se refletiria no Censo de 1990: êxodo rural (os evangélicos são mais presentes no meio urbano) e a forte rede de solidariedade que os evangélicos oferecem para estes que estão, muitas vezes, longe da família. Também o crescimento dos evangélicos no espaço público seja através da política, seja através da presença na mídia televisiva, além da nova perspectiva cristã que o surgimento dos neopentecostais ofereceu para os que já estavam acostumados com a mensagem bíblica nas igrejas evangélicas históricas, nas pentecostais mais tradicionais ou mesmo no catolicismo.
CC: O movimento neopentecostal foi o grande protagonista da explosão numérica dos evangélicos?
CV: A partir, sobretudo, de meados da década de 1990, uma série de embates começam a emergir no campo religioso brasileiro. O elemento central das várias controvérsias em curso foi o segmento neopentecostal. Estas controvérsias atingiram também, em termos de imagem pública, os pentecostais de modo geral. Mas, com todas as polêmicas e críticas em torno das doutrinas e rituais evangélicos, eles continuaram em crescimento. Assim, eram 3,4% em 1950; 4% em 1960; 5,2% em 1970, 6,6% em 1980, 9% em 1990; 15,5% em 2000 e agora atingiram 22% da população nacional. Para além de pensar no crescimento percentual que é expressivo, saliento, vale uma reflexão sobre o papel que este segmento religioso tem em nossa cultura.
CC: Quais são as principais contribuições?
CV: O Brasil que tem sua identidade social e cultural amplamente atravessada pelo cristianismo católico. Das últimas décadas para cá, vem sendo afetado pela cultura evangélica seja através do mercado gospel, seja através da articulação de uma gramática tão singularmente acionada pelos seus fiéis. Sendo assim, é comum escutarmos expressões como “só Jesus”; “fulano é um abençoado”, “o sangue de Jesus tem poder”, “tá amarrado”, entre outras. No País, falou-se sempre de uma religiosidade católica difusa que envolvia uma crença compartilhada em certos valores professados pela igreja católica e em um certo repertório sagrado que tinha a ver com a não prática da religião, mas na crença em alguns de seus sacramentos e na força de alguns de seus santos. Mais recentemente observa-se uma religiosidade evangélica difusa, sobretudo no meio popular, mas que se espraia, paulatinamente, para toda a nossa sociedade.
CC: Trata-se de um fenômeno cultural?
CV: Sim, e o meio artístico tem sido importante para isto. Há duplas sertanejas e grupos de pagode que cantam canções evangélicas ou fazem menções a elas. Existem grupos de rap e de funk que articulam a gramática evangélica através de expressões e de acionamento de imagens e situações comumente articuladas pelas lideranças evangélicas em seus cultos seja nas igrejas, nas prisões ou entre traficantes nas favelas. Sendo assim, não olho para o crescimento de mais de 40% dos evangélicos no Brasil do Censo de 2000 para 2010 como algo banal ou como a expressão de um enfraquecimento deste segmento religioso! Mas esta perspectiva, comso disse inicialmente, está muito informada pelas projeções que marcavam um crescimento maior, sem considerar que em momento anterior a sociedade como um todo passava por muitas transformações em diferentes campos da vida social (econômico, político, cultural) e que o campo religioso foi somente mais um deles a ser grandemente afetado.
CC: A senhora acredita que o Brasil terá maioria evangélica em algum momento?
CV: A força da nossa tradição cultural forjada pela articulação política, social e econômica entre Estado, Igreja Católica e elites rurais nos dificulta pensar numa maioria evangélica que implicasse na formação de uma sociedade ascética. No entanto, chamo atenção para o fato de que a sociedade está em movimento e também o campo religioso que pode promover adaptações que venham a surpreender e resultar num crescimento igualmente surpreendente.
CC: O que explica o elevado percentual de “evangélicos não determinados” do último Censo (4,8% da população brasileira)?
Os evangélicos já somam um quinto da população e exercem mais
influência na sociedade do que se imagina, analisa especialista.
Foto: Adriana Lorete
CV: Estes dados podem indicar que o fluxo de entrada e saída de fiéis das denominações evangélicas é muito acentuado. Isto poderia, por seu turno, indicar que tanto os fiéis estão mudando quanto podem estar sendo mais flexíveis as próprias igrejas evangélicas na relação com o seu público alvo. Por outro lado, observamos um crescimento das igrejas históricas renovadas, que seria o movimento pentecostal entre as denominações ditas tradicionais ou históricas. Este crescimento poderia sinalizar, como alguns sociólogos da religião vem defendendo, um modo de viver a fé pentecostal sem se expor à imagem controversa que desfrutam os evangélicos pentecostais. Uma imagem negativa por vezes ligada à intolerância, ao baixo nível educacional, ao enriquecimento ilícito dos líderes religiosos.
CC: Alguns pesquisadores sustentam que a expansão também se deve à flexibilização dos costumes entre os evangélicos.
CV: É fato que as igrejas evangélicas, pela descentralidade que caracteriza este universo, em oposição à Igreja Católica Apostólica Romana, são mais flexíveis. As igrejas evangélicas têm grande capacidade de se adaptarem ao público alvo desta e daquela denominação. Adaptam-se em termos discursivos, doutrinários e ritualísticos ao meio urbano e ao meio rural, às minorias (lembrando que há igrejas evangélicas chamadas inclusivas, isto é, que são dirigidas por gays), etc. No entanto, não vejo esta flexibilidade como uma continuidade em relação a padrões culturais existentes. O mundo evangélico é de acolhimento, de aproximação para a transformação para os padrões morais que professam. Sendo assim, avançam entre grupos que poderiam parecer antagônicos a esta fé, mas o fazem justamente numa perspectiva de cura. Sempre a cura!
CC: Curar os que se desviaram da doutrina cristã?
Produtos trazem mensagens de fé em lojas segmentadas.
Foto: Pedro Presotto
CV: Esta é uma dimensão importante no imaginário evangélico. E assim avançam entre os rockeiros, funkeiros, traficantes, prostitutas, pagodeiros, mas com uma perspectiva proselitista que visa transformar grupos e pessoas. Em termos políticos, sociais e econômicos este segmento já causou muito impacto e continua causando. Só para tratarmos do primeiro ponto, no cenário político nacional e de alguns estados, o elemento religioso é absolutamente fundamental, decisivo.
CC: Qual é o grau de influência política dos evangélicos?
CV: Vimos como eles tiveram importância nas eleições presidenciais de 2010, na qual assumiram papel de destaque na polêmica em torno do aborto. O tema entrou na agenda política a ser tratada pelos candidatos. Também tiveram papel de destaque na controvérsia em torno do Kit Anti-homofobia para as escolas públicas e do caso Palocci. Enfim, a presença evangélica remexeu tanto o campo político nacional que começamos a assistir nas campanhas para os cargos eletivos nacionais, estaduais e municiais a apresentação da identidade religiosa dos candidatos. A identidade católica, que de tão hegemônica não precisava ser mencionada, passou a ser mencionada. Também a identidade de candidatos espíritas e ligados a religiões de matriz africana. Todos nós assistimos recentemente a formação do que vem sendo chamada de frente parlamentar de terreiros, por exemplo.
Rodrigo Martins
No CartaCapital
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“Estado de Exceção no Brasil?”

Carl Schmitt (foto), jurista e filósofo alemão de formação católica que deu sustentação às teses do nazismo, foi o grande inspirador da teoria do “estado de exceção permanente”. Dizer que no Brasil vivemos num estado de “exceção permanente” é um arroubo esquerdista e não uma formulação teórica séria. Validada a ideia de que estamos num “estado de exceção permanente” nos restaria, como estratégia central, buscar a quebra do atual Estado Democrático de Direito, pois este Estado seria em si mesmo um “estado de exceção”.
Leio um texto de Bia Barbosa na “Carta Maior”, cujo título é “Brasil forjado na ditadura representa estado de exceção permanente”. Ele cobre um Seminário realizado em São Paulo, com a participação de importantes personalidades da esquerda intelectual do país e ativistas dos direitos humanos. A matéria informa que ali foi consagrado que o Brasil vive um “estado de exceção permanente”, condição ensejada pela própria Constituição de 88 ; que a “elite brasileira branca” permitiu-se molhar a mão de sangue e freqüentar e financiar câmaras de tortura; que a ditadura se retirou, não porque foi derrotada, mas porque cumpriu os seus objetivos; e que paira no Brasil, sobre os mortos e desaparecidos, um grande acordo do “não esclarecimento”.
O que parece (pelo menos pela matéria que foi publicada na Carta Maior), é que o radicalismo das visões ali expostas, joga para outro lado da cerca - para a cumplicidade com a transição conciliada - todos os que defendem que não há um “estado de exceção permanente” no Brasil, logo, quem não concorda com a estratégia política que parte desta constatação original (oposição extrema aos governos Lula e Dilma) é um cúmplice da legitimação do tal “estado de exceção permanente” em nossa democracia.
O suposto radicalismo desta análise levou - pelo menos alguns dos seus destacados representantes - a jogarem água no moinho da direita autoritária e neoliberal durante a chamada “crise do mensalão”, cujo objetivo, como se vê pelo destino de um dos seus mais destacados jacobinos da moral (o Senador Demóstenes), não era combater a corrupção, mas inviabilizar o governo democrático reformista do Presidente Lula. Certamente os que participaram daquele movimento fizeram-no pela concepção, ora esclarecida, de que vivemos numa “exceção permanente” e, assim, Lula encarnaria (como Líder no sentido schmittiano), a plena soberania estatal. Por isso poderia ditar reformas e mudanças profundas, inclusive expressamente de natureza anticapitalista, usando as prerrogativas da “exceção” para realizá-las.
Felizmente, a cobertura que a mídia lhes deu naquele momento, não somou a ponto de potencializar a derrota do Presidente. O resultado é que quase 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza, começaram a comer e a estudar, o que aparentemente não sensibiliza os nossos teóricos da exceção.
Pretendo problematizar algumas das premissas ou conclusões, que aparecem na matéria para, logo após, deter-me um pouco mais na tese de que vivemos um “estado de exceção permanente”. Atento mais para este ponto, porque desta concepção medular podem partir conclusões graves para a não aceitação de uma estratégia democrática, no difícil processo de construção da democracia no país, tendo como referência a Constituição de 88. Validada a ideia de que estamos num “estado de exceção permanente” nos restaria, como estratégia central, buscar a quebra do atual Estado Democrático de Direito, pois - segundo os referidos críticos - este Estado é em si mesmo um “estado de exceção”.
Entendo que se isso acontecesse, estaríamos perante um tremendo retrocesso da democracia política no Brasil, que assim transitaria de mais liberdades políticas para menos liberdades políticas, de menos elitismo para mais elitismo, de mais coesão social e combate às desigualdades dentro do capitalismo para mais desigualdade e fragmentação social dentro do mesmo sistema do capital.
Parto, na minha análise, das seguintes convicções: é preciso defender e expandir o Estado de Direito no Brasil, mesmo que ele só garanta avanços lentos e moderados para reduzir as desigualdades; não vivemos nenhum “estado de exceção” no Brasil, mas um Estado Democrático de Direito, com democracia política limitada, como em todas as democracias, pela força que o poder do capital exerce sobre as instituições do Estado e sobre a própria política em quaisquer sistemas democráticos do mundo; a democracia atual permite a inclusão de milhões de pessoas na vida produtiva, na sociedade formal, na educação e na política, criando sujeitos sociais novos e novas demandas, que tendem a alargar a democracia econômica e social e bloquear as reformas neoliberais ainda em curso no mundo; finalmente, além de termos sido derrotados na luta pela derrubada da ditadura (o que ocorreu foi uma transição negociada), nosso processo de mudanças institucionais e econômicas é mais difícil, porque enfrentamos um ambiente internacional de derrota das idéias libertárias da esquerda socialista, “queimadas” pela nossa escassa capacidade de renovação e também pelo fracasso das ditaduras burocráticas dos partidos comunistas tradicionais.
Esta transição, que teve como conseqüência altamente negativa as “salvaguardas” para os criminosos civis e militares dos aparatos clandestinos ou institucionalizados da repressão, por outro lado teve o mérito de evitar uma guerra civil de conseqüências certamente brutais para o nosso país e que jogaria, na sua base, brasileiros contra brasileiros, já que as pessoas do povo – de ambos lados - são sempre a “bucha-de canhão” de qualquer guerra ou revolução.
Passo a dar uma outra versão das premissas que sustentam a conclusão da “exceção permanente” em nosso país. Não é verdadeira a tese de que a “elite brasileira branca” permitiu-se molhar a mão de sangue e freqüentar-financiar câmaras de tortura. A “elite brasileira branca” (categoria política e sociológica tipicamente populista, engendrada para cortejar emoções insanas), enquanto a ditadura lhe servia foi majoritariamente indiferente às câmaras de tortura, como foram a classe operária e as camadas médias da sociedade. Parte minoritária da elite branca, empresarial ou não, inclusive não apoiava a ditadura nem a tortura, mas preferia uma oposição acordada, por dentro do regime ou a oposição através do partido consentido, o MDB. Uma minúscula parte da burguesia brasileira (elite branca) financiou ou frequentou câmaras de tortura.
Não é verdadeiro, também, que a ditadura retirou-se porque foi vitoriosa. Ela, na verdade, foi acuada e desenvolveu uma bem estruturada retirada em ordem, sem ser vitoriosa, apoiada por amplos setores da burguesia (a tal “elite branca”), porque o seu projeto não tinha mais condições de ser sustentado social e politicamente. A ditadura recebia uma forte oposição no plano internacional e os cofres começavam a esvaziar-se em função da primeira e da segunda crise do petróleo. Um certo “estatismo” de Geisel -embalado por uma ideologia nacionalista de direita- só poderia ser fulminado pelo empresariado liberal, dentro da democracia, não por dentro de uma ditadura.
A ditadura também sofreu severos golpes, com fortes reflexos internacionais, tanto da esquerda armada como da esquerda que militava dentro do MDB, com grandes repercussões internacionais e no plano interno. O consenso que ela conquistara, com o desenvolvimento industrial e o emprego, dissolveu-se confrontado com uma dura luta política e a resistência armada.
Não há, no Brasil, finalmente, nenhum acordo de “não esclarecimento”. Pelo contrário, dentro da transição conciliada este tema tem sido tratado com arrojo e seriedade, sem fazer provocações às corporações da Forças Armadas. Não só pelas organizações que defendem os direitos dos familiares dos mortos e desaparecidos e militam na defesa dos Direitos Humanos, mas também pelo Estado. Este, com as Caravanas da Anistia, que instituímos no Ministério da Justiça (interpretando a Lei da Anistia), anistiou os guerrilheiros do PC do B, Lamarca e Mariguela, além de outras centenas de resistentes ou revolucionários.
Posso testemunhar, como orientador destas políticas de governo naquele período, que isso foi feito com o estímulo e o apoio do Presidente Lula e com a sustentação de parte da base do governo no Congresso. O STF é que, numa decisão lamentável, interpretou a Lei de Anistia como aplicável aos torturadores, acolhendo o sentido que o regime militar em recuo, emprestou à Lei na época da sua aprovação.
Esta interpretação trouxe, sim, para dentro da transição democrática, até agora, a imunização penal dos assassinos e torturadores, fato que não caracteriza um regime de “exceção permanente”, mas uma limitação das democracias que sucedem ditaduras militares e não emergiram de revoluções. Através da Comissão da Verdade e das centenas de comissões que deverão se abrir no país, reabrir-se-á o tema da impunidade dos assassinatos e das torturas, que a ditadura promoveu inclusive fora da sua própria legalidade arbitrária. A continuidade desta luta seria impossível num regime de “exceção permanente”.
Passo a analisar a tese da “exceção permanente”.
Carl Schmitt, jurista e filósofo alemão de formação católica que deu sustentação às teses do nazismo, foi o grande inspirador da teoria do “estado de exceção permanente”. Schmitt, embora não admitisse de forma expressa, deu um estatuto histórico ao “estado da natureza”, de Hobbes. Para Schmitt, a soberania do Estado não consiste no monopólio da coerção ou da dominação - fundamentado e organizado artificialmente pelo Constituinte - mas na capacidade de decidir acima do artifício das instituições criadas pela política. Na sua época, a política liberal-democrática, segundo ele, degradada durante a República de Wheimar.
A soberania é identificada por Schmitt diretamente com a força indiscriminada, ou seja, ela, a soberania, reside na força que permite agir para suspender a própria validade das leis, o que faz do ordenamento uma pendência da própria vontade do soberano que, para Schmitt, está presente no Poder Executivo: através do Presidente, do Ditador, do Líder, o sistema de direito instaurado (o ordenamento), está sempre “à disposição” de quem decide. A exceção, portanto, a capacidade de declarar a exceção, é a regra que define a própria soberania: o uso da exceção é o seu verdadeiro conteúdo e a garantia ou a suspensão do Direito, tanto na normalidade política e na estabilidade social, como na crise e na instabilidade.
No seu famoso e brilhante texto “O Fuhrer protege o Direito” - sobre o discurso de Adolf Hitler no Reichstag em 13 de julho de 1934 - Carl Schmitt, citando o próprio Hitler, faz um esclarecimento lapidar da sua teoria da normalidade e da exceção e, ao mesmo tempo, mostra como promove a exceção à condição de regra e fundamento do Estado soberano: “ O Fuhrer protege o direito do pior abuso, quando ele no instante do perigo cria o direito sem mediações, por força da sua liderança (Fhurertum) e enquanto Juiz Supremo: (e Schmitt cita Hitler) – “Nessa hora fui responsável pelo destino da nação alemã e com isso juiz supremo do povo alemão. O verdadeiro líder (Fuhrer) sempre é também juiz. Da liderança (Fuhrertum) emana a judicatura (Richtertum). Quem quiser separar ambas ou mesmo opô-las ou transforma o juiz no contra-lider (Gegenfuhrer) ou em instrumento do contra-líder e procurar paralisar (aus den Angeln heben) o Estado com a ajuda do Judiciário. Eis um método muitas vezes experimentado, da destruição não apenas do Estado, mas também do Direito.”
Mais adiante, Schmitt assevera dois fundamentos importantes da definição da exceção, como base da soberania estatal, ao criticar os juristas democráticos de Wheimar. Primeiro argumento: “Do mesmo modo o Direito Constitucional tornou-se, nessa corrente de pensamento, a Magna Carta dos que cometem alta traição e traem a pátria. Com isso o Judiciário se transforma em uma engrenagem de imputações (Zurechnungsbetrib), sobre cujo funcionamento previsível e por ele calculável o criminoso tem um direito subjetivo adquirido.” (Neste argumento, Schmitt fundamenta que a exceção deve estar disponível à vontade do líder, porque as garantias constitucionais do Estado de Direito Liberal Democrático, permitem que os criminosos contra o Estado - os revolucionários ou sociais-democratas, que apoiavam as conquistas de Wheimar - teriam a proteção do Judiciário, como guardião da Constituição, pois só ele poderia definir a “exceção”, segundo aquele ordenamento “artificial” do Estado de Direito).
Segundo argumento: “Todo o direito tem a sua origem no direito do povo à vida. Toda a lei do Estado, toda a sentença judicial contém apenas tanto direito quanto lhe aflue dessa fonte (o Líder, o Fuhrer). O resto não é direito, mas ‘um tecido de normas coercitivas, do qual um criminoso hábil zomba’.” (Neste argumento, ele identifica sem mediações o Líder com o Povo, depois de mostrar que esta vigilância dos interesses do povo – que é uma “comunidade concreta” como teorizava Schmitt - está na soberania do Estado, que , por seu turno é realizada pelo Líder (“fonte superior” do Direito).
Schmitt deixa claro, nesta parte do seu discurso teórico - sem nenhuma sofisticação diga-se de passagem - porquê o “Fuhrer protege o direito” e, principalmente, de quem ele protege: daquele povo concreto em movimento contra o Estado e contra o seu Líder. Assim, o “estado de exceção permanente” é a regra do ditador unipessoal, como executivo que comanda o Estado e como Juiz que decide sobre a suspensão das leis e do Direito – do ordenamento.
Dizer que no Brasil vivemos num estado de “exceção permanente” é um arroubo esquerdista e não uma formulação teórica séria. Tanto pode ser uma idealização de um regime democrático, que está num horizonte improvável, como uma abstração dos seus ideais de origem, plebeus e revolucionários. Também pode ser uma provocação à margem da História, para estimular que não se faça política dentro da democracia, pois num regime de exceção o que se deve perseguir, conscientemente, é a sua derrubada. Sim, a sua derrubada, pois a “exceção permanente” extingue a política e o crime, absorvendo ambos, internalizando-os no Estado, monopolizando, tanto a fabricação das leis como a sua violação impune.
A “exceção permanente” é, pois, a supressão radical das condições do Estado minimamente público, pois este se torna um grande ente privado, propriedade de um Líder, cuja força está na transformação do poder de polícia e do poder do sistema repressivo em força política, capaz de promover a sua aparente legitimação pelo terror e pelo silêncio.
O sucedâneo da Constituição de 88 é a democracia política, a inclusão social e educacional massiva. É o início da revolução democrática no Brasil, que tanto pode retroceder como avançar, aí restaurando a idéia do socialismo, conjugada com a democracia, a pluralidade política e a inserção soberana do país num mundo hostil e globalizado. A “exceção permanente” faria todos os democratas, socialistas ou não, comunistas ou não, esquerdistas ou não, encontrarem-se no fundo dos cárceres, para novamente revisar as concepções que lhes levaram à divisão ou à impotência.
Tarso Genro, Governador do Estado do Rio Grande do Sul
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Ai, fones!

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Justiça nega habeas corpus a secretário de Beto Richa

Ricardo Barros (PP) é suspeito de fraude em licitações
Secretário Ricardo Barros (PP)
O desembargador Lídio José Rotoli de Macedo, do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Paraná, negou na tarde de ontem (24) habeas corpus (HC) solicitado pelo secretário de Indústria e Comércio de Beto Richa (PSDB), Ricardo Barros (PP). O pedido foi ajuizado na última sexta-feira (20) e pedia o trancamento da investigação da notícia crime na qual ele figura como noticiado, suspeito de manipular licitações no governo do irmão mais velho, Silvio Barros II, prefeito de Maringá.
No HC, Barros relata que a denúncia é nula por se originar de uma denúncia anônima, que levou à interceptação telefônica de vários números de telefone, pedidos feitos pelo Gaeco e deferidos pelo juízo da 2ª Vara Criminal, no final do ano passado.
A intercepção acabou flagrando uma conversa entre o secretário de Beto Richa e Leopoldo Fiewski, supersecretário de Silvio Barros II e de Carlos Roberto Pupin, levando à instauração da notícia crime, “em face da suspeita de envolvimento do paciente em fraude à licitação para serviços de publicidade e propaganda”.
Ricardo Barros tenta anular as gravações como provas de ilícitos penais, alegando que a notícia crime foi instaurada com base em conversa telefônica extraída da Operação Quebra Galho, que visava outros investigados e que, portanto, a investigação desenvolvida por seu intermédio deve ser trancada, além do periculum in mora “afigura-se certo, porque a exploração política do fato importa desgaste para o paciente junto aos seus eleitores” (Barros não é candidato, como quis fazer parecer, e sim coordenador geral da candidatura de Pupin).
Ao indeferir o pedido de trancamento da denúncia, o desembargador considerou que não restaram demonstrados os requisitos necessários para a concessão da liminar da ordem, “quais sejam, o periculum in mora e o fumus boni iuris“.
O despacho é de segunda-feira (23) e foi disponibilizado na tarde de ontem. Barros também tem recurso contra a denúncia em análise no Supremo Tribunal Federal (STF).
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Baltasar Garzón comandará defesa de Julian Assange e do Wikileaks

Julian Assange aguarda resposta do governo
do Equador sobre pedido de asilo político
O juiz espanhol Baltasar Garzón assumirá a direção da equipe de advogados que representa Julian Assange e o site Wikileaks no processo movido pelos Estados Unidos. O jurista já se reuniu com Assange, que ainda aguarda resposta sobre pedido de asilo ao governo do Equador na embaixada do país em Londres. Garzón manifestou sua preocupação quanto à ausência de garantias e o assédio a que está sendo submetido o fundador do Wikileaks.
Julian Assange ingressou na sede diplomática equatoriana em junho para evitar a sua extradição para a Suécia – onde sofre processo por suposta tentativa de estupro. Por conta desse processo, ele estava sob prisão domiciliar em Londres e seria extraditado para o país escandinavo. Ele acredita que, uma vez em solo sueco, seria detido e levado para os Estados Unidos, onde o governo de Barack Obama já realizou um processo conhecido como “grande júri” para preparar uma possível acusação criminal contra Assange, ainda que o procedimento seja secreto até emitir a sua conclusão.
O site Wikileaks, criado pelo australiano Julian Assange, vazou milhares de documentos oficiais de diversos países, inclusive dos Estados Unidos.
No Sul21
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A crença míope nos superpoderes de blogueiros

Confesso que, de uns tempos para cá, minha tolerância com a hipocrisia é próxima de zero.
Acho perda de tempo participar de polêmicas cuja função essencial é mascarar a realidade, além de alimentar o desejo de alguns por circo.
Circo move tráfego na rede.
A ação do PSDB relativa aos blogueiros Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif não busca debater o essencial, ou seja, o uso do dinheiro público em publicidade ou propaganda. Se buscasse, haveria de tratar do conjunto: quais são os gastos de governos federal, estaduais e municipais com propaganda? Quanto recebem a Globo, a Veja, a Folha e o Estadão proporcionalmente ao bolo? Os governos não poderiam reduzir estes custos investindo mais na internet, por exemplo, dada a crescente capacidade de disseminação de informações através das redes sociais? É viável fazer como o agora senador Roberto Requião, que quando governador do Paraná cortou todas as verbas publicitárias, a não ser as de campanhas de utilidade pública? Cabem políticas públicas para promover a pluralidade e a diversidade de opiniões?
Há outras questões, tão interessantes quanto. Deve um partido tentar definir a pauta de um blog eminentemente pessoal? Por que o anúncio de empresas públicas supostamente compra um blogueiro mas não compra um dono de jornal? Crítica é ataque às instituições? Ao criticar o Congresso, o governo federal ou o Judiciário os colunistas dos grandes jornais estariam ‘atacando as instituições’? Mas, se o financiamento dos jornais para os quais escrevem — ou das emissoras de rádio e TV nas quais trabalham — é feito parcialmente com dinheiro público, eles podem ‘atacar as instituições’ livremente e os blogueiros não? E a liberdade de expressão e o direito ao contraditório?
Trato destes temas com tranquilidade. O Viomundo, pelo menos por enquanto, é mantido com anúncios Google. O Leandro Guedes, que nos representa comercialmente, desenvolve ferramentas para que nosso financiamento seja proporcionado pelos próprios leitores. Desde que começou a fazer isso, há dois meses, não está autorizado nem a enviar os media kits (com dados de audiência, etc) a empresas públicas ou governos federal, estaduais ou municipais. Esperamos que a grande mídia siga nosso exemplo.
[Pausa para gargalhar]
Não sei o que moveu o PSDB. Provavelmente, pela escolha dos alvos, José Serra. Tenho comigo que algum mago, daqueles que cobram fortunas para fazer campanha, tenha concluído que existe uma relação entre a altíssima taxa de rejeição de Serra e a blogosfera/mídias sociais.
Não sei se o diagnóstico está certo ou errado, mas a cura é duvidosa. Parte do pressuposto de que blogueiros sejam capazes de mover legiões de internautas. A crença nisso é uma farsa, muitas vezes alimentada por quem está chegando agora ou está “investido” na blogosfera. Quem lida com os internautas no dia a dia e respeita a diversidade de opiniões descobre que este é um meio horizontal. Não é estruturado hierarquicamente. Não obedece a comandos. O valor das opiniões não está na autoridade, nem no currículo, nem no status do autor: deriva da qualidade, da lógica, da originalidade da argumentação. Deriva da capacidade de apontar algo que outros não notaram. De desvendar conexões encobertas. De colocar fatos em perspectiva histórica. De ajudar a concatenar e, portanto, fixar ideias que circulavam desconexas no “inconsciente coletivo digital”. Simplificando, quando a piada é boa ganha o mundo.
Aquela foto de Serra sobre o skate, na capa da Folha, pode ter sido feita num momento autêntico de descontração, mas cristalizou a imagem de um candidato tentando parecer o que não é: jovem. Se dezenas de milhares de pessoas perceberam isso ao mesmo tempo e puderam conversar sobre isso nas redes sociais — o que não poderiam ter feito no passado, quando dependiam de passar pelo crivo de um repórter, de um editor e do dono de um grande jornal e de escrever carta para a coluna do leitor  – é culpa dos blogueiros?
Acreditar que dois blogueiros — ou duas dúzias —  sejam capazes de mover a rede é subestimar a inteligência dos internautas. Ou alguém acredita que tem um comunista escondido embaixo de cada Curtir? Com ferramentas razoavelmente simples como o twitter e o Facebook, hoje cada leitor pode exercer como nunca seu direito de escolha, de interagir e de se fazer ouvir. É natural que quem vive no mundo das hierarquias rígidas estranhe, se sinta intimidado ou frustrado. O que está em curso nas redes sociais é o equivalente a uma segunda revolução do controle remoto.
Portanto, não estamos diante de uma tentativa do PSDB de defender as instituições ou de zelar pelo dinheiro público. Pode ser uma resposta exagerada ou míope diante de um fenômeno que o partido não consegue entender ou pretendia replicar e não consegue. Quem sabe exista um desejo subjacente de controle, de um ‘choque de ordem’ que preceda a privatização da crítica e do conhecimento intelectual, colocando ambos dentro de parâmetros aceitáveis pelo mercado (sobre isso, escreveu Slavoj Zizek). Ou é tentativa de intimidação, pura e simples.
Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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PSDB: O Estado-anunciante e a liberdade suja

A representação do PSDB ao Procurador Geral Eleitoral contra blogs que criticam suas lideranças e agenda partidária, é um pastel revelador. O recheio exala as prendas do quituteiro; a oleosidade da fritura qualifica o estado geral da cozinha. Na primeira mordida fica explícito que a referência de 'bom' jornalismo do PSDB é a revista VEJA, uma ferradura editorial adestrada para escoicear três dimensões da sociedade: agendas progressistas; lideranças que as representem; governos que lhes sejam receptivos.

Curto e grosso, o poder tucano pleiteia a asfixia publicitária - com supressão de publicidade estatal - de qualquer outra forma de imprensa que não se encaixe no tripé que o espelha. A singular concepção de pluralidade afronta boa parte dos sites e blogs alternativos que se reservam o direito de exercer a crítica política da sociedade e do desenvolvimento de uma perspectiva não conservadora. 'São blogs sujos', fuzila a representação tucana, cuja coerência não pode ser subestimada. Há esférica sintonia entre a forma como o PSDB se exprime e o higienismo de uma prática que São Paulo, a 'cidade limpa', tão bem conhece.

O tema da publicidade estatal mereceria um discernimento mais amplo do que o reducionismo estreito do interesse eleitoral tucano. O Estado deve se comunicar com a sociedade. A comunicação deve se pautar pelo interesse público. Campanhas educativas e institucionais não podem ser confundidas com propaganda partidária, nem servir aos seus interesses, sejam eles quais forem. Dito isso, resta o ponto sensível ao PSDB: quem merece veicular tais mensagens de pertinência pública reconhecida?

O tucanato e certos 'especialistas em comunicação' parecem convergir, ainda que por caminhos diversos, a um consenso: a mídia alternativa deve ser alijada dessa tarefa. O 'Estado anunciante', uma corruptela do cacoete neoliberal 'Estado interventor', teria atingido, asseguram, uma hipertrofia perigosa; deslizamos a centímetros do abismo anti-democrático. No país que tem um dispositivo com o poder intromissor da Rede Globo, insinua-se que a principal ameaça à democracia é o Estado impor seu 'monólogo' à sociedade. Afirma-se isso com ares de equidistância acadêmica e engajamento liberal.

Passemos.

Evitar essa derrocada exigiria um veto cabal a toda e qualquer publicidade oriunda da esfera pública? Em termos. Na verdade, não seria exatamente essa essa a malha do coador tucano. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo esclarecedor no 'Estadão', de 3 de junho último, foi ao ponto: “Será que é democrático", disse ele, "deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? (...) O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único impera sem contraponto.”

É isso. O grão tucano adiciona nuances na investida contra o Estado anunciante. Nas páginas de 'Veja', e sucedâneos, não haveria risco de influencia editorial. Ali a 'voz do consumidor e a concorrência' preservam a 'isenção do jornalismo'. "Mas nas mídias locais e regionais...' Quais? Sobretudo aquelas que incomodam ao engenho e à arte tucana de governar e fazer política.

'Especialistas em comunicação' com passagem pelo governo Lula - experiência descrita sempre como 'traumática, mas de uso conveniente nos salões conservadores - reivindicam, é bem verdade, uma intolerância mais abrangente contra o 'Estado-anunciante'. No limite, advertem, o uso da máquina publicitária instrumentalizaria um poder de coerção de tal forma desproporcional que ameaçaria a própria alternância no poder. A evocação colegial de um ambiente quase-nazista sob o terceiro Reich petista tem, como se sabe, audiência cativa em certos veículos e tertúlias filosóficas de endinheirados. Mas o libelo anti-totalitário tropeça nos seus próprios termos ao não adotar idêntica ênfase na denúncia de uma oligárquica estrutura de propriedade do sistema de comunicação que, esta sim, instituiu um verdadeiro diretório paralelo no país, arvorado em corregedor das urnas, da economia e da ética.

A hipocrisia que perpassa esse descuido pertence a mesma matriz ideológica que inspirou agora a representação tucana contra os 'blogs sujos'. Contra ela Brecht resolveu cunhar um dia a metáfora de hígida atualidade: 'O que é assaltar um banco, em comparação com fundar um banco?' Leia neste endereço, a íntegra da sugestiva representação do PSDB que pede, especificamente, a investigação dos blogs de Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim.
Saul Leblon
No Blog das Frases
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Uma imagem fala mais que mil palavras, né Cachoeira?

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É hoje...

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A história de Raí que não nos contaram

Depois de pendurar as chuteiras, ao contrário de outros famosos, o craque fez e faz muito pelo social. Mas foi lembrado agora só por causa de sua sexualidade
Hipocrisia da mídia e das redes sociais: Raí tem um belo
projeto social com crianças, chamado Gol de Letra (foto
abaixo). Mas vira notícia por suposto caso com Zeca Camargo
Raí com certeza está na galeria dos maiores jogadores da história recente do futebol brasileiro. Não foi um gênio da bola, nem perto do que foi  Pelé, Zico ou mesmo de seu contemporâneo Romário ou seu irmão mais velho, Sócrates — aliás o ex-craque do São Paulo foi salvo pela mãe de se chamar Xenofonte: o pai, Raimundo, fã dos gregos clássicos, já havia batizado outros dois filhos como Sófocles e Sóstenes.
No futebol e nas relações pessoais, Raí Souza Vieira de Oliveira sempre primou pela elegância. Jogava o fino da bola nos gramados e era um gentleman fora deles. No fim da carreira, Raí resolveu "curtir a vida": com o amigo e também jogador Leonardo, idealizou e criou em 1998 a Fundação Gol de Letra, que assiste mais de 1,2 mil crianças em suas duas sedes — Vila Albertina, em São Paulo, e no bairro do Caju, no Rio de Janeiro.
A entidade filantrópica foi resultado de sua experiência na França, onde jogou de 1993 a 1998, tornando-se ídolo no Paris Saint-Germain. Lá, percebeu que sua filha estudava na mesma escola que a de sua empregada. Achou aquilo bem justo e bem oposto ao que ocorria e ocorre em sua terra natal. Hoje, a Gol de Letra é considerada uma instituição referência pela Unesco, o braço social da ONU para educação e cultura.
Em 2006, ele novamente saiu à frente de outros colegas famosos do esporte: nasceu a Atletas Pela Cidadania, uma organização sem fins lucrativos que reúne atletas e ex-atletas de diferentes épocas e várias modalidades para usar seu prestígio na mobilização por causas sociais importantes para o Brasil. A entidade apoiou a Lei do Aprendiz e investe seus esforços principalmente em oportunidades para a juventude. Monitorando a execução de políticas públicas, pressiona o governo para o cumprimento de ações concretas em prol do desenvolvimento do País. Preocupa-se com o apoio a pesquisas e debates de relevância para o futuro nacional.
Raí nunca se envolveu em escândalos e farras. Nem como atleta nem como ex-atleta. Foi pai aos 17 anos e avô aos 34 — sua neta, hoje, tem já 13 anos. Casou-se duas vezes, a última com a chef Daniela Dahoui, de quem se separou há dois anos. Tem, ao que parece, uma ótima relação com as ex-mulheres e a família em geral.
Alguns meses atrás, soube-se de um suposto envolvimento entre o jornalista Zeca Camargo e o ex-jogador Raí. Boatos, nada mais do que boatos, como aquele que espalha que Jô Soares é gay, ou o que coloca a cantora Paula Fernandes em casos amoroso com políticos, ou, ainda, o que conta um pacto com o "coisa ruim" feito por Xuxa para chegar ao sucesso. É a vingança daqueles que não chegaram à fama e se incomodam, de alguma forma, com o fato.
No último fim de semana, os boatos sobre um caso entre Raí e Zeca se agravaram e chegaram ao ápice nas redes (de intrigas) sociais durante o "Fantástico", programa do qual o jornalista é apresentador.Dizem que o global é gay. Dizem que ambos têm sido vistos juntos muitas vezes ultimamente. Não sei.
O que sei é que temos nós, raça humana, uma atração sedutoramente mórbida por aquilo que o outro (ou a outra) faz entre as quatro paredes. Engraçado: culpa-se a religião, especialmente a dos cristãos, por se ater ao pecado sexual. Mas, nos dizendo "laicos" ou "agnósticos", não conseguimos deixar de querer saber o procedimento de outras pessoas  em questões íntimas. Estranho, não? Freud explica. Explica?
O que não se explica — ou, pelo contrário, talvez explique muita coisa — é não darmos pelo menos o mesmo peso às outras facetas da mesma pessoa. No futuro, o que se saberá mais de Raí? O que fez pelas milhares de crianças do Gol de Letra? Ou o que ele supostamente fez — ou não fez, já que ninguém que espalha boatos esteve realmente lá para contar — na cama com mulheres e homens?
O cara salva milhares de crianças de uma vida marginal, mas fica marcado por gostar de alguém do mesmo sexo. Somos mesmo uma raça ruim.
Elder Dias
Do Jornal Opção
No OpenSante
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Conclusões Apressadas

Apesar de tudo que sabemos a respeito da falta de capacidade preditiva das pesquisas de intenção de voto realizadas a esta altura do processo eleitoral, a cada vez que são publicados resultados - especialmente quando se referem a um conjunto um pouco mais amplo de cidades -, um mesmo cenário se repete.
Entre os candidatos, os líderes se animam, achando que estão fazendo tudo certo. Os outros olham seus assessores com desconfiança, tentando descobrir onde erraram.
Na opinião pública, os que torcem pelos que estão na frente se alegram. Quem prefere um dos demais se angustia.
Os analistas saem em disparada para comentá-las, cada um querendo dar a interpretação definitiva. A imprensa se enche de elucubrações sobre o “recado das urnas” e vaticínios sobre as consequências da eleição – sem que ela tenha sequer começado.
Isso acaba de acontecer a propósito da recente rodada de pesquisas que o Datafolha realizou em sete capitais.
Em nenhuma houve novidades relevantes. Todas repetiram o que já havia sido apontado por levantamentos anteriores.
A razão para isso é simples: embora, oficialmente, as campanhas tenham se iniciado há vinte dias, elas não chegaram à televisão.
Por isso, nada mudou de relevante na informação que atinge a grande maioria do eleitorado. Ela permanece desinteressada e desinformada.
O tempo anda depressa no meio político e devagar para o eleitor. Enquanto os profissionais correm contra o relógio, o cidadão vai passo a passo até a eleição.
Ela começa, de fato, nos 45 dias finais. Só então entra no cotidiano.
Agradeça-se à nossa legislação por isso. Com sua obsessão por controlar a “antecipação” da campanha, o que ela faz é retardá-la para muito depois do que seria recomendável na democracia.
Como se fosse superior a decisão eleitoral tomada em cima da hora!
É inútil querer descobrir quem vai ganhar a eleição de prefeito com base nas pesquisas atuais. Repetindo um chavão pouco inspirado, elas não são mais que fotografias de um momento que pouco tem a ver com o que acontecerá de 21 de agosto em diante, quando começa a propaganda eleitoral gratuita.
Nas cidades com televisão, só ocasionalmente elas conseguem antecipar o resultado.
Quem duvidar, que considere as mesmas sete que entraram nessa rodada nas duas últimas eleições.
Em julho de 2004, apenas no Rio de Janeiro o vencedor já aparecia em primeiro lugar. César Maia (DEM) tinha uma folgada frente sobre os adversários, semelhante à que obteve na urna. Em todas as outras, o campeão na pesquisa perdeu.
Mesmo quem não precisou do segundo turno estava atrás - como Fernando Pimentel (PT), em Belo Horizonte. E candidatos que amargavam o quarto lugar terminaram ganhando - como Luizianne Lins (PT), em Fortaleza.
Em 2008, coisa semelhante. Dos líderes de antes da televisão, só dois acabaram vitoriosos: José Fogaça (PMDB), em Porto Alegre, e Beto Richa (PSDB), em Curitiba. Os restantes se deram mal.
Vários candidatos que estavam em terceiro lugar comemoraram em outubro: Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, Gilberto Kassab (PSD), em São Paulo, Eduardo Paes (PMDB), no Rio de Janeiro, João da Costa (PT), no Recife.
Em outras palavras: de 14 processos eleitorais, somente em três o prognóstico de julho foi confirmado, o que equivale a uma taxa de acerto de 20%. Ou a não acertar em 80% dos casos.
Melhor fariam os comentaristas se evitassem precipitar-se e procurassem apenas entender os resultados de agora.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.
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49% seguem Lula, mas 76% não votam com Luizianne

Pesquisa O Povo/Datafolha mostra o efeito positivo e o negativo causado pelos apoios de Lula, Dilma, Cid, Luizianne e Tasso Jereissati
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá definir a eleição a favor do candidato que apoiar em Fortaleza, segundo mostra pesquisa O Povo/Datafolha, a primeira consulta de intenções de voto após o início da campanha. O respaldo da prefeita Luizianne Lins (PT) também é capaz de decidir o pleito, mas contra aquele que tiver seu apoio.
O paradoxo, todavia, é que o mesmo candidato reúne o apoio tanto de um quanto de outra. Saber qual deles irá prevalecer poderá definir o rumo da candidatura de Elmano de Freitas (PT), talvez com efeito direto para o resultado da eleição.
Os números do Datafolha mostram que a força de Lula como cabo eleitoral é incomparável. Houve 49% de eleitores entrevistados que responderam que o apoio do ex-presidente os levaria a votar, com certeza, nesse candidato. Outros 18% admitiram a possibilidade de escolher em função do respaldo do líder petista. Entretanto, 32% disseram não votar no candidato de Lula.

Luizianne e Dilma

O impacto positivo do apoio de Luizianne é bem menor, segundo o Datafolha. Responderam que certamente votariam no candidato da prefeita 11% dos eleitores. Outros 13% disseram que talvez optassem pelo candidato em função da ligação com ela. Mas a maioria – 76% - afirmou não votar em quem estiver ao lado de Luizianne na disputa.
Outra apoiadora de Elmano, a presidente Dilma Rousseff (PT) divide opiniões. A maior parcela de eleitores ouvidos na pesquisa disse que não votaria em quem fosse apoiado por ela: 45%. Os que disseram que seguramente escolheriam o aquele que estivesse vinculado à presidente da República somam 28%, enquanto 26% admitem a hipótese de talvez aderir a essa candidatura.
O apoio do ex-presidente, da atual governante do País e da prefeita de Fortaleza são os principais trunfos de Elmano, que apareceu com 3% das intenções de voto na pesquisa O Povo/Datafolha. Foi o menor percentual entre os sete candidatos mais competitivos, embora tecnicamente empatados com Roberto Cláudio (PSB), que tem 5%, e com Marcos Cals (PSDB) e Renato Roseno (Psol), com 6%.

Apoio do governador

O apoio do governador Cid Gomes (PSB) a um candidato a prefeito de Fortaleza também divide opiniões. A maioria, 52%, respondeu que não votaria em quem recebesse o respaldo do chefe do Poder Executivo estadual. Os que responderam que certamente definiriam o voto em função da posição de Cid somam 22%. Outros 25% admitem a possibilidade de escolher o concorrente aliado ao governador.
A aliança com Cid é o principal trunfo de Roberto Cláudio (PSB), que aparece com 5% das intenções de voto na pesquisa.

Fator Tasso

Segundo os eleitores ouvidos pelo Datafolha, a presença do ex-governador Tasso Jereissati (PSDB) ao lado de um candidato a prefeito de Fortaleza tem mais impacto em afastar que em atrair adesão. Responderam que não votariam em quem recebesse o apoio dele 62% dos pesquisados.
Os percentuais tanto dos que disseram que com certeza escolheriam o postulante em função do apoio de Tasso quanto o dos que talvez se definissem com base nesse critério ficaram iguais: 19%.

Metodologia

O Datafolha ouviu 831 eleitores de Fortaleza nos dias 18 e 19 de julho. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) com o número CE-00004/2012.
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Investigações sobre indígena morto no Mato Grosso do Sul são encerradas com 18 prisões

Após controversas, Polícia Federal admite que cacique Guarani-Kaiowa foi morto, mas o corpo ainda não foi encontrado
Nísio Gomes foi morto no ano passado, quando a comunidade Guaviry, 
no Mato Grosso do Sul, sofreu um ataque de dez pistoleiros 
(Foto:Survival)
São Paulo – A Polícia Federal concluiu as investigações para identificar os responsáveis pelo assassinato do cacique Guarani-Kaiowa Nísio Gomes, morto em novembro do ano passado, quando a comunidade Guaviry, próxima ao município de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, sofreu um ataque de dez pistoleiros. As prisões começaram em junho, e nesta semana, de acordo com nota divulgada ontem (20), a PF encerrou a segunda fase do inquérito policial. Foram indiciadas 23 pessoas, das quais 18 estão em prisão preventiva. Entre elas, os cinco fazendeiros que travam o conflito por terra com a comunidade indígena e o proprietário da empresa de segurança Gaspem, o ex-militar Aurelino Arce, de quem os assassinos eram funcionários.
Foi indiciado também um funcionário da Funai por crime de formação de quadrilha e coação de testemunhas, e um indígena, líder guarani de uma aldeia próxima, contratado pelos fazendeiros para atrapalhar as investigações. O funcionário da Funai teria orientado testemunhas a darem informações equivocadas. A PF não pôde informar seu nome porque o processo tramita em segredo de justiça. O líder guarani, por sua vez, dizia que Gomes estava escondido em território paraguaio – a região do massacre é fronteiriça com o país vizinho.
No início de julho, entretanto, ele confessou que Gomes fora de fato assassinado durante o massacre, e que era pago por fazendeiros para dar essa informação equivocada, segundo o delegado da Jorge André Figueiredo, da PF em Ponta Porã, um dos responsáveis pela investigação. “A gente fez várias diligências, com oitivas de testemunhas, pesquisas de campo e contatos com autoridades do Paraguai, o que deu para fazer uma contraposição com algumas informações que ele estava fornecendo. Constatamos que elas não eram verídicas. Chegou um determinado momento, em que ele ficou sem ter o que dizer, não conseguindo encontrar sustentação para a mentira dele”, contou Figueiredo. De acordo com ele, além do dinheiro, do qual boa parte já foi paga, os fazendeiros prometeram ao indígena que promoveriam uma campanha eleitoral para elegê-lo vereador. O nome do indío, a aldeia à qual ele pertence e a quantia de dinheiro prometida são dados que a PF não forneceu.
Agora, resta encontrar o corpo de Nísio Gomes. Segundo a nota da PF, a investigação para localizá-lo é o motivo para os 18 envolvidos permanecerem em prisão preventiva. “Alguns dos fazendeiros presos sabem exatamente onde o corpo estaria escondido”, diz a nota, “no entanto nenhum deles demonstrou interesse em colaborar com as investigações”. Os fazendeiros negam qualquer envolvimento. As defesas de envolvidos, como o dono da empresa de segurança e o presidente do Sindicato dos Ruralistas de Aral Moreira, Osvin Mittank, entraram com pedidos de habeas corpus, que foram negados, e até agora, os advogados não conseguiram tirá-los dos presídios em que se encontram. Ainda falta apurar, também, o exato envolvimento das cinco pessoas indiciadas que não estão presas.
Figueiredo disse que o processo de investigação se deparou com constantes empecilhos, criados pelos fazendeiros, como essas técnicas de fornecer informações erradas. “A experiência no Brasil mostra que quanto maior o poder aquisitivo das pessoas envolvidas mais dificuldades se encontram nas investigações. Esse caso não fugiu essa regra.”
Ele comentou que o resultado do inquérito é um marco na história dos conflitos por posses de terras indígenas no Mato Grosso do Sul. “Nunca tantas pessoas tinham sido indiciadas e presas no estado por terem se utilizado da violência para tentar expulsar indígenas da área de fazendas invadidas. É um exemplo de que a melhor forma é sempre buscar os meios legais existentes para qualquer resolução de conflitos”, disse Figueiredo.
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