9 de jun de 2012

ONG da Globo garfou R$ 2,9 milhões dos cofres públicos às custas da UNE

O jornalão O Globo critica convênios e patrocínios à UNE (União Nacional dos Estudantes) bem acima do tom.
Mas o que o jornalão não conta, é que a ONG da Globo, Fundação Roberto Marinho, usando da lei de incentivo à cultura, garfou R$ 2,9 milhões do dinheiro público dos impostos, para fazer a "Memória da UNE" (Ver PRONAC nº 030926 no Ministério da Cultura), quando queria melhorar um pouco sua imagem de empresa filhote da ditadura.
Por sinal, é difícil compreender como um site relativamente modesto, e que deveria ter o respaldo técnico da TV Globo na produção de vídeos, conseguiu consumir tanto dinheiro:
http://www.mme.org.br
O que os amigos leitores que são webmasters ou webdesign acham?
Que tal o jornalão fazer uma reportagem a respeito, abrindo com transparência a prestação de contas?

Detalhes sórdidos

Apesar do "site" ser feito com dinheiro público e com informações que pertencem à História da Brasil, a Fundação Roberto Marinho registrou todos os direitos autorais em seu nome.
Na proposta apresentada ao Ministério da Cultura, a ONG da Globo queria que os cofres públicos pagassem:
- R$ 5.000,00 para "coquetel"
- R$ 37.800,00 para compra de computador Pentium.
Estes itens foram vetados.
ZéAugusto
No Amigos do Presidente Lula
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A taxa de mediocridade acaba de dar um salto: Ivan Lessa saiu de cena

E, com ele, um Brasil que ele criou, em Londres, para consumo próprio

O Brasil deu um novo passo em direção à mediocrização ampla,geral e irrestrita : o coração de Ivan Lessa parou de bater, em Londres. Ivan Lessa saiu do Brasil no fim dos anos sessenta. Passou as décadas seguintes sem por os pés na ex-Terra de Santa Cruz. Ainda assim, mantinha uma relação absoluta com o país. Ivan Lessa convivia com um país que, provavelmente, só existia na imaginação de Ivan Lessa : um Brasil que que tinha com fronteiras a Ipanema dos anos sessenta e a Copacabana dos anos cinquenta. Eis aí a beleza da atitude de Ivan Lessa : uma bela saída para o absurdo da vida talvez seja criar países imaginários e cultivá-los com todo cuidado por décadas a fio. De resto, Ivan Lessa era o avesso de tudo o que pode haver de risível em intelectuais e jornalistas: a taxa de pretensão, pompa e empáfia circulando na corrente sanguínea de Mr. Lessa era zero. Aos que nasceram ontem: Ivan Lessa foi um talento reluzente na geração que criou um jornaleco que influenciaria as gerações seguintes: o Pasquim. Os textos de Ivan Lessa eram “inlargáveis”: quem começava ia até o fim. Era um espírito independente. Não seguia a boiada. Não implorava por aplausos. Escrevia estupidamente bem. O lamentável é escrever sobre ele no passado. C´est la vie.
Aqui, uma entrevista (extensa) que fiz com o homem:
O Decálogo de Ivan Lessa:
1. "Eu estou por fora de Orixá, Araçá Azul, Odara e Mandacaru Vermelho!".
2. "O Brasil deveria esquecer o cinema. Somos ruins".
3. "Pateta, Mickey e o Pato Donald são vizinhos melhores do que o pessoal que infesata a Barra da Tijuca".
4. "Não há motivo algum para nos sentirmos à vontade no mundo! Os alienígenas somos nós".
5. "O calor dá sono. O frio me civiliza".
6. "Não quero entrar com meu plangente violão do saudosismo, mas o nosso jornalismo piorou. Muito mesmo".
7. "Semprer fui muito mais velho e muito mais cético que Paulo Francis".
8. "Ainda estou moço. Só tenho 64 anos, pode ser que a depressão ainda venha".
9. "O que acho triste é o fato de o meu livro sair!".
10. "Uma das vantagens de estar fora é que só recebo o disco de Caetano Veloso: não sou obrigado a ouvir aquelas tolices enormes e aquelas bobajadas das entrevistas".
Atenção, arrivistas, subliteratos, emergentes, poetastros, politiqueiros, novos ricos, velhos baianos e poderosos em geral: já podeis respirar aliviados. Porque uma das mais ferinas penas já surgidas sob o sol da ex-Terra de Vera Cruz acaba de confessar, sem pompa nem solenidade: não voltará jamais ao Brasil. Acabou. Já era. Bye,bye Brasil – dessa vez é para sempre. O nome da fera? Ivan Lessa, claro. A confissão foi feita em Londres.(Que confissão? Que pompa? Que Londres? Que Brasil? – perguntará, em silêncio, nosso inquieto personagem, enquanto caminha, circunspecto, por suas florestas interiores).
Que ninguém pense que Mister Lessa – uma das mais reluzentes estrelas de uma geração marcada por monumentos jornalísticos do porte de Paulo Francis e Millôr Fernandes – foi acometido por algum surto extemporâneo de antibrasileirice aguda. Pelo contrário. Longe do país há ininterruptos vinte e um anos, desde que trocou o sol escandaloso do Rio de Janeiro pelo cinza made in Britain, Ivan Lessa cultua, a distância, suas paixões brasileiras. Todo dia dá uma navegada na Internet à procura de notícias da pátria-amada-idolatrada-salve-salve. É especialista em MPB. Provocado, é capaz de recitar horas sobre os tempos (áureos? prateados?) em que as ondas da Rádio Nacional embalavam o Gigante-pela-própria-natureza, ali pelos anos quarenta, cinquenta. (Que sol escandaloso? Que cinza? Que navegada? Que gigante? Leave me alone! Deixem-me em paz! – repetirá, levemente irritado, enquanto desliza pelos corredores da estação de Holborn).
Todo dia sai de casa, em Londres, para cumprir expediente no Servico Brasileiro da BBC. Depois de 7.665 dias sem rever o Brasil, deu-se conta de que não, não planeja voltar – nem em sonho. Deve estar, intimamente, se perguntando, como o poeta Drummond no verso famoso: "Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?". Mas o Brasil de Ivan Lessa existe, sim: é pessoal e intransferível. Dispensa o contato físico. (Que 7.665 dias? Que sonho? Que Brasil? Que contato? Leave me alone, please! – bradará, por seus alto-falantes internos, enquanto passa a vista pela primeira página do Financial Times).
Uma vez por ano, Mister Lessa vai passar férias com a mãe, a cronista Elsie Lessa, em Portugal. A ponte aérea Londres-Lisboa, com eventuais escalas em Paris, lhe basta.
A visão de Ivan Lessa dedicado a fazer transmissões radiofônicas de Londres para o Brasil desperta uma dúvida inevitável: não será um caso escandaloso de desperdício de talento? Quem conhece um ouvinte regular das transmissões da BBC, em português, para o Brasil? Cartas à redação. Em todo caso, o sentimento de desperdício pode ser parcialmente atenuado: graças ao zelo da mãe – que guardou os originais das crônicas - e à dedicacao de uma colega de trabalho – que organizou o volume – os leitores saudosos do Ivan Lessa dos tempos do Pasquim ganharam de presente um volume de crônicas, "Ivan Vê o Mundo".
Aos 64 anos, amarga, sem dramatizar, a ausência da alma gêmea, Paulo Francis. "Eu estou tendo agora de lidar com um buraco enorme chamado Paulo Francis, que, de repente, sem mais nem menos, se abriu diante de mim. O estrangeiro é espantosamente real, irreversível. Não me há mais Brasil. Fim de papo. Não tem mais ninguém do outro lado da linha" – escreveu na revista "Veja" nos dias seguintes à morte do amigo de quase cinco décadas.
Senhoras e senhores: com a palavra, Mister Lessa - ferino, inquieto, irônico, brasileiro como nunca.
(Que zelo? Que desperdício? Que alma gêmea? Que brasileiro? Um Valium, urgente! – murmurará, enquanto se mistura, anônimo, aos frequentadores das livrarias da Charing Cross Road).
1- Você diz numa crônica que o mundo é um lugar estrangeiro, "assim que a gente bota os pés na rua, fora de casa". O sentimento de estranheza diante do mundo é indispensavel à vida intelectual ou é algo que voce sempre teve?
Ivan Lessa: "Você me faz ficar sério… A gente vai ao Camus, a "O Estrangeiro", o encontro com o outro. Mas olhe aqui: nasci em Sao Paulo; garoto ainda, a primeira vez que entrei em colégio foi nos Estados Unidos; quando voltei, fui para o Rio. Depois, garotão ainda, fui para Paris. Isso não quer dizer nada, era viagem. Mas acho, sim, que o homem é estranho na terra. Deve manter, por uma questão de saúde mental, essa sensação de ser um estrangeiro aqui, no meio de árvores, pedras e seja lá o que for. Os alienígenas somos nós! É isso mesmo, é isso mesmo: manter a sensação de ser um estrangeiro tem um lado muito saudável. Nao há motivo nenhum para você ficar muito à vontade no mundo! Não há motivo para que se diga "estou à vontade". Não, não. Fique com uma certa timidez. Isso é bom: manter uma certa distância".
2- A essa altura,a ausência prolongada do Brasil (vinte e um anos) já se transformou num acontecimento importante em sua biografia. Não vou perguntar por que é que você passou tanto tempo sem ir ao Brasil…
Ivan Lessa (interrompendo): "Que bom!".
Mas vou perguntar: você planeja voltar um dia?
Ivan Lessa: "Não planejo, não planejo mesmo! Não digo que não, porque aí parece implicância. Mas simplesmente não é algo que esteja em meus planos. O que planejo é passar novamente as minhas férias de julho, no ano que vem, em Portugal, porque tenho um apartamento lá. É uma coisa de rotina. Sou rotineiro. Gosto de rotina porque a rotina me ajuda a me situar no mundo e a me sentir menos estrangeiro. Eu sei que, em novembro, darei uma chegada a Paris. Disso tudo eu sei porque são meus planos. Mas voltar ao Brasil não está nos meus planos, simplesmente. Nisso não vai birra nenhuma, querela nenhuma, disputa nenhuma. Não estou reclamando da acústica da plateia, ao contrário de João Gilberto…".
3- São irritantes para você essas teorias que se fazem sobre "por que é que Ivan Lessa não volta ao Brasil"? O motivo pode ser pessoal: a mãe mora em Portugal, você vai passar as férias lá e ponto final…
Ivan Lessa: "Sou ruim de número. Quantos são na diáspora brasileira? Nós, que estamos no estrangeiro? Quantos somos nós, agora? Há um milhão de brasileiros no estrangeiro? Então, pergunta a eles também! Não estou sendo desaforado com você - e você sabe que não. Sou apenas um imigrante a mais que foi tentar uma vida melhorzinha no estrangeiro. Ponto".
4- Uma das coisas que o fizeram sair do Brasil foi a mania do brasileiro de assoviar dentro do elevador. Qual é a outra mania brasileira que lhe "dá nos nervos",como você gosta de dizer?
Ivan Lessa: "Informalidade! Pra resumir numa frase: pegar na gente. Você sabe o que é que quero dizer? Inglês não pega em você!. Mas se você me encontra ou se eu encontro você na rua e eu digo "Olá, Geneton, como é que vai?…" e fico pegando, fico catucando… É como aquele camarada que, ao falar com você, cola a boca no seu ouvido, como se você fosse surdo. Dá para fazer toda uma galeria de tipos desagradáveis, num plano leviano…".
O inglês se limita a um aperto de mão, na primeira vez…
Ivan Lessa: "Uma apresentação, um aperto de mão, como diz o samba de Francisco Alves. Mas às vezes apertam a mão outra vez, quando veem você novamente. Francês é que aperta a mão o tempo todo. É um motivo para não ir muito à França. Se eu trabalhasse com você num escritório e todo dia apertasse a sua mão na hora de chegar e na hora de ir embora… Há uma certa pegação. E essa pegação pode ser transcendental: podem querer pegar na sua alma também! Pegar no seu pé, pegar na sua alma, você pode estender a metáfora".
Uma das coisas que falam - bem - do brasileiro é esta efusão…
Ivan Lessa: "Nunca vi ninguém falar bem! Não estamos saindo com as mesmas pessoas…".
Quando comparam o brasileiro com estrangeiro…
Ivan Lessa (interrompendo): "Mas efusão para mim é barulho! Um dos motivos por que saí - mesmo! mesmo! – é que eu não podia nem conversar na sala com um amigo quando morava no décimo-primeiro andar na avenida Atlântica, esquina com a rua Bolívar, no Rio, em cima de um bar chamado, veja você, Transa! Isso que você chama de "animação" …Lúcio Alves ia cantar lá em casa, eu tinha de fechar as janelas por causa do barulho – que criava um "funil acústico" capaz de enloquecer qualquer João Gilberto! E sem ter um Caetano para mediar!" (Ivan Lessa se refere ao episodio da vaia sofrida por João Gilberto na inauguração de uma casa de espetáculos em São Paulo, num show em que Caetano tentou conter a reação da plateia).
5- De que maneira você detectou, fora do Brasil, uma piora nos modos do brasileiro? Isso foi através do telefone?
Ivan Lessa: "Nestas novas gerações de brasileiros com quem vou me encontrando por um motivo ou por outro, noto, cada vez mais, um excesso de informalidade. O cara que assoviava no elevador - e me irritava – hoje piorou muito mais. Hoje em dia, ele já entra assoviando dentro da minha alma, não apenas no elevador".
6- A vaia a João Gilberto criou um certo escândalo, porque abriu um precedente: um monumento da MPB levando uma vaia durante um show. Isso assustou você? Em que situação você justitificaria uma vaia a esses monumentos da MPB?
Ivan Lessa: "Não me assustou. Com todos "esses" e "erres", não. Em 1958, eu, com vinte e três anos, economizo meu dinheiro para ir ver Billy Eckstine cantar no Fredy’s, na esquina da avenida Princesa Isabel com Atlântica. Peguei uma mesa quase ao lado do palco. Entre mim e o palco, havia uma mesa com Abrahão Medina e Sônia Dutra. Nesta época, Abrahão Medina patrocinava nada mais, nada menos que o programa "Noite de Gala", em que Billy Eckstine iria se apresentar na segunda-feira. Eles falaram o tempo todo! Billy Eckstine, então, parou de cantar e pediu para eles calarem. Delicadamente. Eu estava ali vendo o Billy Eckstine fazendo aquilo, porque a importância de Billy Eckstein para mim é uma loucura. Para quem tem vinte e três anos e economizou para ver o show… Ele estava cantando "Blue Moon". Se em 1958 este era o comportamento da plateia com um astro internacional, por que é que vão interromper o papo para um sujeito chamado João cantar ou tocar violão? Nós somos muito mal-educados! É o negócio do cara que entra assoviando no elevador. Há gente que não assovia no elevador, só assovia no show de João…".
Caetano Veloso deu, depois, uma entrevista irritada dizendo que eram cinquenta imbecis… .
Ivan Lessa(interrompendo): "Deu uma entrevista irritada, mas era uma daquelas falas demagógicas dele. Disse que os que vaiavam "não me estão no coração" ou algo assim. Em vez de chamar de filhos da puta! Rodou a baiana, mas rodou muito mal pra cima deles. Deveria ter dito assim: "Respeitem! João está reclamando da acústica! Parem de fazer barulho!" - e não ficar falando "meu coração não se alegra…". Não! Respeitem o artista, deixem-no cantar, mesmo que fosse uma merda! Mas deixem que ele cante! Fiquem quietos por cinco minutos. Não demora mais do que cinco minutos uma música!".
Um caso que foi lembrado, porque envolvia gente da estatura de João Gilberto, foi a vaia que Tom Jobim e Chico Buaque levaram naquele festival em que cantaram "Sabiá"…
Ivan Lessa: "Mas ali havia torcida, era festival no Maracanãzinho, povão, todos eles insuflados, incentivados pela Globo. Aquilo vai adquirindo um clima de Fla-Flu, coisa que não havia no Credicard Hall. Era um pessoal que pagou – ou não – apenas para ver um cantor. O pessoal, no Maracanãzinho, estava torcendo, "eu torço por Tom Jobim"… Não era o ano de Geraldo Vandré? Ele todo de preto, naquela época só ele e o violão. Mas aí é pra torcer. Se você não torcer num Fla-Flu, se quer ficar sentadinho, deve ter algo de errado com você. É melhor vir para Londres, porra!".
7- Quando publicou o primeiro romance, "Cabeça de Papel", Paulo Francis ficou deprimido ao constatar a falta de repercussão cultural do que se faz no Brasil. Francis achava que o romance iria ter uma repercussão muito maior. Disse que ficou deprimido, deitado, olhando para o teto. Você tem também tem essa sensação? Assim como Paulo Francis, você acha que o Brasil vive num "sertão cultural"?
Ivan Lessa: "Francis era meio ingênuo em certos troços. Eu disse: "Oh, rapaz, esse negócio de romance, livro, o pessoal fala pra burro, você dá entrevista de duas páginas pra Veja e pra Istoé, sai nos quatro jornais de sempre - Folha, Estadão, Globo e JB - e, depois, acabou! É isso mesmo, porra!. Assim como aqui na Inglaterra, você vai e escreve um novo romance! Investe mais dois anos nisso!".
Mas Francis não pegou isso. Nesse ponto, eu sempre fui muito mais velho e muito mais cético do que Francis: talvez por este motivo é que ele tenha ido para Nova Iorque e eu, para Londres".
…Paulo Francis teve sucesso como romancista…
Ivan Lessa: "Mas ele tinha o "post-romance-tristis…". Adaptando o post-coitum tristis, é o que tinha. Ficava deprimido. Mas não penso em sertão cultural nenhum não. Eu acho que há sertão cultural sim, mas não por causa do livro de Francis. Ele estava partindo do livro que tinha lançado. Eu não tenho porra nenhuma. O que acho triste é o fato de o meu livro sair! Fiz as crônicas na esperanca de que fossem se perder no éter… Nunca guardei cópia".
8- …Mas você não guarda o que você escreve?
Ivan Lessa: "Não! Quem guarda isso é mãe, tia…"
9- Sua mãe não guarda?
Ivan Lessa: "…Mas essas crônicas só saíram porque minha mãe guardou! Eu escrevi entre 1978 e 1992 para o serviço brasileiro da BBC. Revezava, nos primeiros anos, com Vamberto Morais. Num domingo era eu, no outro era ele. Depois, fiquei eu. São quatorze anos de crônica. Eu escrevia em casa, entrava no estúdio, gravava, botava aquela fita amarela no comeco e a vermelha no fim e deixava lá numa caixa azul, com uma cópia para que o sujeito que fazia o transmissão da noite soubesse o começo e o tempo. Depois, alguém arquivava lá. Mas nunca guardei cópia pra mim. Um dia, uma secretária escocesa estava limpando lá e me perguntou: "Você quer isso aqui?", Era um punhado de crônicas, um cadernão daqueles grandes. Eu disse: quero. Por um acaso, era fim de ano, época em que minha mãe vem para cá, passar o Natal. Botei tudo dentro da pasta de trabalho, cheguei em casa e disse: "Elsie, você quer isso aqui?". Então, ela levou tudo com ela, para Cascais, Portugal. Helena Carone – que estava preparando um livro baseado em contribuições que eu fazia sem script para a parte cultural das transmissões do servico brasileiro da BBC – iria fazer a transcrição do que eu tinha falado com ela. Mas aí eu estava em Cascais, como todos os anos, monótonamente, passando minhas férias, mexendo na caixa da Elsie depois do almoço. Terminei achando as crônicas. Desci, fui ao português lá de baixo tirar xerox do que sobrou. Desses quatorze anos, sobraram umas oitenta crônicas, só. Trouxe para cá. Dessas oitenta, Helena selecionou quarenta. As menores, as que não chegam a uma página, evidentemente não eram crônicas: eram transcrições da minha colaboração com o programa cultural".
Numa gravação que fez com você, na BBC, Paulo Francis disse que, diante da sociedade de massas, filistina e medíocre, ele se sentia "tecnicamente morto"…
Ivan Lessa: "Agora eu me lembro…"…
10- Você tem também essa sensação de ser um peixe fora do aquário?
Ivan Lessa: "Absolutamente! Absolutamente! Talvez porque Francis vivesse muito mais no Brasil e dependendo do Brasil. Repare que o dinheiro de Francis vinha do Brasil. Então, muito corretamente, ele tinha de ir lá para regar a flor da carreira dele. De seis em seis meses, Francis estava no Brasil, não só para rever os amigos – e ele os tinha, muitos – mas para se acertar com o pessoal da Folha e, depois, o Estadão. Francis ganhava em dólar, mas era dinheiro que deixava o país. Eu, não. Eu ganho aqui mesmo, em Londres. O dinheiro quem paga é o contribuinte britânico. A verba da BBC é do ministério do interior. Em resumo: o que quero dizer é que não tenho necessidade de regar a flor da minha profissão. Como ia ao Brasil, Fancis talvez sofresse com esse deslocamento. Dava o choque de ida e vinda. A cada vez que descia no Galeão, sentia uma emoção, possivelmente. A cada vez que descia no Aeroporto Kennedy de Nova Iorque, também. Eu, não. Meus aeroportos são o Charles De Gaulle, o de Heatrow e o da Portela, em Lisboa, onde me mexo mais".
Mas quando Francis se declarava "tecnicamente morto" não estava se referindo apenas ao Brasil, mas a uma situação geral…
Ivan Lessa: "Francis tinha uma variação nos "moods". Eu não traduzi essa. Tinha as suas ruas. Como é que que se diz quando alguém sobe e baixa…"
Era ciclotímico…
Ivan Lessa: "Tecnicamente, era ciclotímico. Eu,não. Estou na média ponderada. Não sou muito entusiasmado, mas não tenho depressões, graças a Deus. Também estou muito moço ainda: só tenho sessenta e quatro anos. Pode ser que a depressão venha ainda".
Eu me lembro que você me disse uma vez que quer é ficar na arquibancada – olhando o jogo…
Ivan Lessa: "Agora, nem na arquibancada! Quero ver o jogo pela TV a cabo".
Em breve, a TV brasileira vai chegar à Inglaterra, por assinatura….
Ivan Lessa: "Tomei contato com o Brasil agora nas minhas férias em Portugal, porque tinha o GNT e o Canal Brasil.Vi filme que não acabava mais. Tudo o que podia. Fico muito tempo em casa, na piscina. Depois que saio da piscina, entro no apartamento e faço questão de ver tanto a programação do GNT como, principalmente, os filmes. Honestamente, pra ver chanchadas, essa coisa toda, eu não morria de saudades. Não tive surpresa nenhuma em constatar que eram muito ruins. Eu, na epoca, já achava ruim, mas via e gostava de ver. Já os filmes mais pretensiosos, esses foram uma luta para ver. Puta que o pariu! Eu acho que, em cinema, a gente é ruim. Cinema a gente deveria esquecer. Com uma exceção. Você vai brigar comigo: gostei muito de todos os filmes que vi do Júlio Bressane. Vi "Brás Cubas", "Tabu", "Matou a Família e Foi ao Cinema" e "Cara a Cara". Eu não tinha visto quando estava no Brasil. Quando morava no Brasil, eu não via filme brasileiro porque achava um saco. Gostei muito, achei muito pessoal".
Júlio Bressane tem um estilo…
Ivan Lessa: "Exatamente! Um estilo urbano, safado – de citação. Eu sinto que ele faz para seis pessoas, seis entendidos, no bom sentido".
Você escreveu que aqui no Brasil são trinta pessoas vendo um o que o outro faz…
Ivan Lessa: "Num artigo sobre 68, eu disse que eram quarenta pessoas fazendo coisas para quarenta pessoas assistirem: teatro, cinema, bossa-nova. Eram só quarenta pessoas. Aliás, eram quarenta fazendo e quarenta consumindo. De vez em quando, havia um troca-troca".
Um dos dos problemas do cinema é industrial. Se o Brasil não tem uma indústria de ponta, não vai ter um cinema. Se você não tem equipamento de última geração, não vai fazer, porque cinema não cai do céu. Vai haver sempre um problema técnico…
Ivan Lessa: "Isso tudo completa o que estamos falando. Nós estamos ligadíssimos a tudo o que é americano. Então, a narrativa vai ser a convencional americana, com começo, meio e fim americano. Você pega um filme francês: eles tentam escapar. O nocivo que vem dos Estados Unidos nao é a Barra da Tijuca que sofre não. É o proprio Central do Brasil".
11- O Brasil aparece como sonho ou como pesadelo em suas noites londrinas?
Ivan Lessa: "Estou fora do Brasil há vinte e um anos enfileirados. Mas sonho é sempre desinteressante, é sempre bobagem. De vez em quando é ruim, é pesadelo. Hoje, segunda, por exemplo, eu entro na Internet para imprimir colunas de Elio Gaspari, Carlos Heitor Cony, Janio de Freitas. Em resumo: passando os olhos, fico horrorizado com o Brasil. Claro que fico. Acho o jornalismo de muito baixa qualidade. O nosso jornalismo piorou muito. Muito mesmo. Não quero aí entrar com meu plangente violão do saudosismo, mas piorou mesmo. Quanto a sonho e pesadelo, digo o seguinte: até os dez, quinze anos de ausência do Brasil, um e outro ocontecem. Depois, quando você completa dezoito anos fora, o Brasil fica longe, no tempo e no espaco. Nesta hora, você tem de botar Einstein na equação, porque o negócio fica totalmente imponderável. O Brasil fica mais distante do que um assunto como o tráfico de escravos e a Grã-Bretanha, tema de um documentário que gravei em vídeo ontem e hoje na tv. Por incrível que pareça, é um assunto que fica mais próximo de mim e dos problemas atuais que vivo no sentido de sair de casa, pegar o metrô e ir para o trabalho’’.
12- Você reclama de que o calor "’prega peças em nossa sensibilidade, inteligência e discernimento". Você faz alguma relação entre calor e incivilidade? Historicamente, parece que existe alguma…
Ivan Lessa: "O calor dá sono. Você dorme, fica de calção ou até pelado. Fica ali pelo Rio, dá uma porrada no peixe. Mas o frio obriga você a ter roupa, a sair para matar um urso. É mais complicado matar urso do que matar peixe. "Matar urso" quer dizer fazer um guarda-roupa de inverno mais adequado. Com o frio, você tem de fazer casa, é obrigado a produzir calor. Não adianta estender a carne no sol- Pernambuco que me desculpe. Então, vou naquela que diz que o frio civiliza. Qual é o outro lugar comum? "Nunca houve uma civilização abaixo dos trópicos". Não discordo muito. A mim, pelo menos, num aspecto pessoal, o frio me civiliza".
Há o lado estético também: o frio obriga as pessoas a se vestirem melhor…
Ivan Lessa: "Exatamente! Eu,como estou engordando, disfarco melhor a barriga com roupa de frio…".
13 – Você escreve que desenhos e caricaturas de seus amigos, pendurados na parede de casa, parecem dizer: "era uma vez, era uma vez, era uma vez…". É natural achar o passado sempre mais interessante que o presente?
Ivan Lessa: "Nao é questão de ser interessante. Há no livro – o que sobrou das crônicas que faço na BBC – um nítido saudosismo. Quem escreve crônica tem a tendência a se autobiografar, no sentido de se entender. Procuro evitar a babaquice, a nostalgia pela nostalgia, o saudosismo pelo saudosismo, mas é uma maneira de a gente se entender e se autobiografar. Todo mundo, numa certa altura da vida, quer se botar em ordem. Já que vimos, neste fim de milênio, que o sofá de Freud não deu certo, queremos nos botar em ordem, então.
Mas há um detalhe que acho importante na ligação com o passado. É uma coisa muito, mas muito importante mesmo. Poucas pessoas entenderam o que vou dizer agora: o passado não só ajuda você (nós, a gente, um povo) a se entender, mas também nos ajuda a compreender aquilo a que aspirávamos! Isso é muito importante! Se você pegar a arquitetura do Recife ou da Bahia ou do Rio ou de São Paulo, há uma aspiração ali! Vamos para Brasília: há uma aspiração naquela arquitetura. Um dia, possivelmente, vão derrubá-la para fazer outra coisa em cima. Então, não é endeusar o repertório de Orestes Barbosa ou de Noel Rosa… Aliás, devemos endeusar sem esquecer jamais que aquilo é uma contribuição à cultura. Mas a conexão com o passado é tambem a conexão com a nossa aspiração como um povo, como um todo. O lugar comum é aquele: você vai ao passado para se entender. Mas é para entender aquilo a que a gente um dia aspirou,rapaz!"
Quem olhar para a Barra da Tijuca, daqui a trinta anos, vai ver que aquilo é uma cópia de Miami. Hoje, então, existe um Brasil que aspira a ser Miami…
Ivan Lessa: "Eu li, no New York Times, um artigo excelente sobre a Barra, escrito por um americano, dizendo exatamente isso. O autor do artigo vai enfileirando desde a arquitetura até os nomes dos lugares, feito este Credicard Hall. Eu acho até que ele errou um pouco, ao dizer que o Leblon e Ipanema estavam mais ligados à Franca. Dá como exemplo aqueles edifícios do Sérgio Dourado, já nos anos setenta, com nomes franceses. Mas ai ele errou, porque nossa influência francesa é muito anterior, pode ser vista no Teatro Municipal – que é o Opera’’.
14 – Quando a Disneylândia Paris foi inaugurada, os franceses disseram que aquilo era o Chernobyl cultural. Ariano Suassuna escreveu que aquele era o maior monumento à imbecilidade humana. Você, que esteve lá ,concorda com essas duas avaliações?
Ivan Lessa: "Sem dúvida nenhuma! Mas acontece que, como tudo o mais, vai ficando natural. Os japoneses devem ter ficado muito mais chocados que os franceses, mas aceitaram docilmente. Os franceses já aceitaram também. Devem rir um pouco das pessoas que vão lá. Mas acabam aceitando, como parte da paisagem. Hampstead, aqui em Londres, é um bairro metido a besta, intelctual, mais ou menos como Ipanema nos anos sessenta. Não tinha McDonald’s lá. Para conseguirem abrir um McDonald’s lá, foi uma luta. Então, fizeram uma fachada meio disfarcada, mas abriram um McDonald’s em Hampstead, sim. Você acaba aceitando. Vai em frente! É a globalização,rapaz, a escrotidão! É essa Barra da Tijuca. O artigo do New York Times lembra que a Califórnia também aparece na Barra da Tijuca".
É americana nesse sentido: para viver e se deslocar na Barra da Tujuca, você tem de ter carro…
Ivan Lessa: "Como na costa oeste americana! Se a polícia vê você andando, em Los Angeles ou Beverly Hills, ela para imediatamente para pedir documento. É o que estou dizendo: qual é a diferenca entre a Barra da Tijuca e a Disneylândia? Apenas que a Disneylândia é mais organizada. Pateta, o camundongo Mickey e o Pato Donald são vizinhos melhores do que o pessoal que infesta a Barra da Tijuca".
….Onde haverá uma réplica da Estátua da Liberdade…
Ivan Lessa: "A história da réplica da Estátua é que motivou a reportagem do New York Times…".
As agências do Banco do Brasil exibem placas dizendo "personal banking" junto dos caixas eletrônicos. Sem patriotada: por que nao escrever em português?
Ivan Lessa: "Isso é grotesco. Eu abro o jornal. Todo mundo tem "personal trainer". Não! É demais! Você aceita, na lingugem da economia, um "over" aqui, ou uma "net", ou palavras como "deletar". Mas o presidente da República falar em "cenário" no sentido de hipótese, não! Um absurdo! A Academia Brasileira de Letras foi criada para proteger a língua e para ajudá-la a lidar com inovações. Então, ao invés de ficarem se premiando, deveriam dar uma mãozinha, porque supostamente são alfabetizados! Não digo forçar a barra como os franceses tentaram, ao baixar uma lei para que quarenta por cento de toda música tocada tem de ser francesa… Computador na Franca é "ordinateur". O software é "logiciel". Pelo menos tentaram. E essas duas palavras pegaram. O aparelho de gravar é "magnetophone". O que quero dizer é o seguinte: deve haver um esforço no sentido de tentar traduzir. O jornalismo entra aí…".
Um deputado brasileiro vem tentando criar uma lei que limite o uso de expressões inglesas em locais publicos…
Ivan Lessa: "Nao dá. Legislar a língua não pode. A Academia Brasileira, já que é um dos poucos lugares onde há supostamente intelectuais reunidos, e com algum poder, poderia tentar sugerir. Antonio Houaiss não estava lá com um projeto de reforma ortográfica que era uma besteira enorme? A Folha, o Estado de S.Paulo não têm manual de estilo? Sempre que possível, deveriam tentar traduzir as palavras, porque elas pegam…".
15- Você - que é especialista em música popular brasileira dos anos quarenta e cinquenta – acha que a MPB daquele tempo era melhor do que a de hoje?
Ivan Lessa: "Não estou no Brasil para acompanhar, mas acho que, em matéria de música popular, a gente é danado de bom. O último que ouvi foi Ginga, qualquer coisa que Aldir Blanc faz eu acho sensacional. Honestamente! Outros nunca ouvi. Anunciaram um concerto enorme aqui em Londres com a turma de sempre - Caetano, Gil, Chico Buarque - e uma de quem nunca ouvi falar: Virgínia Rodrigues. O que quero dizer, então, é que não estou acompanhando. Caetanices à parte, tiro o chapéu para Caetano Veloso e Gilberto Gil, porque não sou idiota. Brinco com eles, mas não sou idiota para não ver o extraordinário talento que existe ali. Eu acho que estamos melhores em música do que em futebol. Vi trechos do Brasil e Holanda… Há o lugar comum que diz nós, brasileiros, sempre fomos bons de futebol e bons de música. Somos bons! Então, acho que a música não piorou…".
Houve brigas com os baianos, herança da época do Pasquim, principalmente com Caetano Veloso…
Ivan Lessa: "Jaguar chamava de baiunos…"…
As brigas eram com Millôr Fernandes, o próprio Paulo Francis…
Ivan Lessa: "Os baianos enchiam muito o saco, com muita autopromoção. Era odara, oxalá, como é aquele negócio azul? Araçá azul! Uma fase de Caetano Veloso. Então, Caetano tem aquele negócio de se reiventar. É a fórmula de David Bowie, a de ter "personas" artísticas. Implico um pouco com a parte promocional, mas o produto final, o que me interessa, é o disco. Uma das vantagens de não estar no Brasil é que só me chega o disco; não tenho de acompanhar as entrevistas, ver aquelas tolices enormes e aquelas bobajadas que as pessoas são obrigadas a dizer para promover. De certa maneira, estou dizendo minhas bobajadas aqui para ajudar a vender o meu "disquinho",o livro. Mas quanto ao produto final nao tenho dúvida nenhuma".
16 – Durante anos houve aquela briga, entre aspas, entre o público de Caetano e de Chico Buarque, hoje inteiramente superada. Você chegou a tomar partido?
Ivan Lessa: "Não, porque era bobagem tomar partido. Eu poderia gostar mais do que Chico fazia. Meu Deus do céu: eram anos em que Chico não errava uma! Com essa mania de fazer listas neste fim de milênio, se você tiver de fazer uma lista de cinquenta álbuns (vamos falar de álbuns conceituais, com começo, meio e fim), "Construção", o álbum de Chico Buarque, é uma loucura, rapaz! Chico fazia uma atrás da outra. Pá,pá,pá! Havia, em Chico Buarque, uma consistência de qualidade que era absolutamente extraordinária. Então, eu apenas gostava mais de Chico, o que não significava que eu fosse brigar com Caetano Veloso. Os dois davam concerto, cantavam juntos aquela "Bárbara,Bárbara…"(cantarola a música do disco "Chico e Caetano Juntos e ao Vivo", lancado em 1972). Então, essa briga, para efeitos de Pasquim ou de sacanagem no botequim da esquina ou na mesa de bar, tudo bem, acho que vale. Mas – falando sério mesmo – acho que não vale não! Apenas Chico me falava mais. Sou mais urbano, estou por fora de orixá, araçá azul, odara e mandacaru vermelho! Eu estou por fora dessas porras! Letra de Aldir Blanc marca minha vida. Eu manjo o "dois prá lá, dois prá cá". Eu estive lá!".
17 – Você constata que o fôlego literário brasileiro é curto, com exceção de Euclides da Cunha. Enquanto o resto da América Latina produz escritores que você chama de "caudalosos", nós seriamos "excelentes" no ping-pong do conto, com Machado de Assis, Dalton Trevisan, entre outros. Você não acha que um país que, pelo menos geograficamente, tem vocação para grandeza, como o Brasil, não deveria produzir também uma literatura mais épica?
Ivan Lessa: "Se não produzir, há algum motivo. Cabe a pessoas mais bem qualificadas do que eu entender o por quê.
Mas há o reverso do que falei. Citei o conto, mas me esqueci de citar os nomes de três gigantes: Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. O que é a poesia se não a linguagem em alta tensão? Você tem aí três poetas de estatura mundial em qualquer época! Já que vivemos esta febre de fazer listas neste fim de milênio, seguramente você pode botar essses três em qualquer lista dos maiores poeta do século! Você sabe muito bem que não sou ufanista nem nacionalista. Era apenas uma crônica o que escrevi. E crônica é para sair no jornal e, no dia seguinte, estar embrulhando peixe, aquela velha história. Se você parar e pensar, além de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca ou dos cronistas que não citei, como Rubem Braga, basta citar estes três poetas. Nossa Senhora! O Brasil dá um banho em poesia! Do outro lado do Atlântico, você tem Fernando Pessoa".
18- A presença do Brasil no exterior se deve basicamente ao futebol – em primeiro lugar – e à musica popular, em segundo. O fato de o Brasil ser sinônimo de futebol e música é sempre um motivo de orgulho ou é um incômodo para você – que vive fora do país?
Ivan Lessa: "Para efeito externo, faço assim (e sei que estou fazendo conscientemente de birra; senão, teria enlouquecido há muito tempo): "Ah, esse time não é de nada, é uma cambada de vagabundos, esse Ronaldinho não vale porra nenhuma, vai perder para os franceses, eu torco pelo Zidane e essa coisa toda… Mas não. O que me chateia é o torcedor! O inimigo é o amigo. O inimigo é esse cara que vive dizendo "somos os maiores, o Brasil já ganhou, é o tetra, é o penta, Caetano Veloso é o maior do mundo, a música brasileira é a melhor!". O inimigo é esse!".
19- Qual é a grande música brasileira do século vinte? Qual é a canção que você vai passar o resto da vida ouvindo?
Ivan Lessa: "O título do romance que não escrevi seria "Nos Astros, Distraído". Então, por aí você tem uma ideia (Nota: o título vem da letra da música "Chão de Estrelas", o clássico de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas). O livro que não escrevi fala de um camarada que, em 1949, vivia de biscate, um tipo que conheci muito no Rio de Janeiro dos anos quarenta e cinquenta. Era um sujeito que escrevia para a Rádio Nacional, tentava escrever. Para cinema, ele estava tentando fazer uma daquelas cinebiografias terríveis da Atlântida, filmes de meio de ano, sobre Noel Rosa. Para rádio, ele vai tentar fazer a de Orestes Barbosa. Então, esse era o tema do romance: eu ia levando num tom de deboche. Resolvi escolher 1949 porque em 1949 não existia ditadura: era Dutra. Ainda não tinha Maracanã e, principalmente, não existia televisão. É por isso que o romance se passava em 1949. Era um tipo que tinha como influência cultural os cinemas da praça Saenz Peña e o rádio que ele ouvia… Então, quanto à musica, estou entre Noel e Orestes, entre asfalto e morro, se bem que, a rigor, Noel falava de morro mas não subia morro não. Era asfalto tambem".
20- Você parou em que altura o romance? Chegou a escrever?
Ivan Lessa: "A sinopse do Noel foi publicada no primeiro exemplar da revista dos meninos do Casseta & Planeta. Eu dei pro Reinaldo".
21- Quase tão irritantes quanto as cobranças sobre por que você não vai ao Brasil deve ser a cobrança sobre por que você nao escreveu até agora "o romance da sua geração". Você não tem vontade?
Ivan Lessa: "Não tenho nenhuma vontade mais. Eu escrevi alguns capítulos, porque tinha um negócio bolado. Mas veio a preguiça. Bateu-me o Caboclo Macunaíma. Ai, que preguica (dá uma gargalhada)… Pura preguiça! Nada mais brasileiro que Ivan Lessa. Preguiça! Macunaíma!".
22- Você confessa que sentiu mais uma manhã de Sol em Copacabana, num banco com a namorada, do que o suicidio de Ana Karenina de Leon Tolstoi. Isso quer dizer que, invariavelmente, a vida é superior à literatura? Ou a literatura pode ter também o poder de marcar a gente pelo resto da vida, através de uma frase, uma passagem?
Ivan Lessa: "Eu, levianamente, escrevi essa frase numa crõnica. Mas, para ficar pretensioso, qual é o subtexto do que eu escrevi? É que talvez, ao ler Ana Karenina, você se empolga, acompanha a mulher até ela se jogar embaixo de um trem, mas, se você se lembrar dessa meia hora na praça ou num jardim, evidentemente essas experiencias têm, em você, um impacto pessoal que a literatura jamais vai dar. Posso, agora, ler um poema terrível, terrível. Vamos ficar no João Cabral. Pego o poema O Rio, é um horror aquilo que ele narra, mas é tao bonito, é tao bem-feito que você sai quase empolgado. Então, esse é um velho problema de arte: você pode despertar a atenção para uma coisa, mas termina filmando bonitinho… Tenho um tape guardado com o "Morte e Vida Severina", dirigido por Avancini. Há umas nuvens bonitas. Nunca vai ser o horror que é a vida real. O que quero dizer é que um livro pode me ajudar para que eu busque, em mim, os meus próprios dados para entender certos problemas básicos, como vida, copulação e morte. Isso soa pretensioso. Minha crônica é leve".
23- Logo depois da morte de Paulo Francis, você deu um depoimento obviamente desencantado dizendo que já não tinha interlocutores: "Só sei que de repente passei a me sentir mais sozinho do que nunca, mais distante ainda de um Brasil que deixou de existir, talvez nunca tenha existido. O estrangeiro é espantosamente real, irreversível". A sensação permanece?
Ivan Lessa (depois de um breve silêncio): "Permanece. Permanece. Mas tudo bem".
(Entrevista gravada em 1999)
Geneton Moraes Neto
No Dossiê Geral
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Enquanto isso, em Belo Horizonte...

Quinho
Dalcio
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Abril assume oposição à política econômica

Braço de negócios da editora de Roberto Civita, a revista Exame condena a “mão pesada” da presidente Dilma em setores como bancos, automóveis, energia e até hotéis; Planalto seria excessivamente intervencionista, como se Dilma seguisse Mao ou Stálin; a população, porém, está feliz
Em reportagem de capa, a edição desta quinzena da revista Exame, braço de economia e negócios da Editora Abril, faz um contundente ataque à política econômica adotada pela presidente Dilma Rousseff. Intitulada “A mão forte da economia”, a reportagem defende uma mudança de rumo urgente. E diz ainda que Dilma, ao suceder Luiz Inácio Lula da Silva, subiu alguns degraus numa política intervencionista que já vinha crescendo desde a chegada do PT ao poder, em 2003.
Numa retranca à parte, Exame lista ainda os setores onde esta “mão pesada” estaria mais presente. E faz uma provocação ao estilo duro da presidente ao dizer que “grito não resolve”. De acordo com a publicação de Roberto Civita, o intervencionismo estaria se manifestando, por exemplo, no setor bancário, onde instituições públicas, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, vêm sendo usadas para induzir bancos privados a também reduzirem seus spreads. Outro exemplo seria o do setor hoteleiro, onde, graças à intervenção do governo federal, foi possível reduzir as tarifas que seriam cobradas na Rio+20 – várias comitivas internacionais estavam decidindo não vir ao Brasil, em função dos preços.
Exame menciona ainda o setor automobilístico, afirmando que o governo brasileiro tem a intenção de forçar as montadoras a baixar os preços dos carros no Brasil – que, por sinal, são os mais caros do mundo, e não se cansam de receber incentivos tributários. Outro exemplo de “mão pesada” seria a energia elétrica, onde, para substituir a espanhola Iberdrola, que está de malas prontas, o governa tenta fazer com que seus negócios em distribuição de eletricidade sejam assumidos por um grupo brasileiro – e não por uma empresa chinesa.

Estado versus mercado


A discussão sobre mais ou menos intervenção na economia existe há séculos. E é inegável que, desde a crise financeira de 2008, o pêndulo tem se virado na direção mais Estado – e menos mercado. O que não significa que a adoção de políticas de um “capitalismo de Estado” devam ser permanentes.
No entanto, o Brasil tem hoje a oportunidade de corrigir distorções em sua economia. Como o país ficou, de certa forma, protegido em relação à crise internacional e tem a menor dívida pública de sua história (35,7% do PIB), há espaço, sim, para reduzir impostos e exigir contrapartidas do setor privado. No caso dos automóveis, por exemplo, se há tantos incentivos, por que os veículos continuam tão caros? Na energia e nas telecomunicações, Dilma já solicitou estudos aos ministros das respectivas áreas para que apontem o impacto de eventuais reduções tributárias nas tarifas. Afinal, por que razão o Brasil deve ter as contas de energia e telefone mais altas do mundo, e serviços tão precários?
O caso dos bancos, então, é evidente de uma distorção que persistia há décadas na economia brasileira, com taxas mais próximas da agiotagem do que da intermediação financeira.
O que Exame classifica como “mão pesada”, na verdade, é apenas uma tentativa de aproximar o Brasil do resto do mundo. Não há nenhuma razão para que tudo aqui seja tão caro – e muitas vezes ineficiente. E a população, ao que tudo indica, aprova.
No 247
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Procuradora tenta "justificar" crime com tese machista

Eu fico aqui imaginando se tivesse sido um homem o escrevinhador da estultice acima. A nobre procuradora (bonita!) de acordo com sua tese que "as mulheres perdem o autocontrole com mais facilidade" vem dar razão aos machistas e misóginos que durante séculos colocaram a mulher em um patamar inferior.
Se sua tese for verdadeira então voltemos aos velhos tempos em que suas colegas eram impedidas de dirigir; entrarem para as forças armadas; pilotarem aviões; virarem polícia (desarmadas podem) e outras profissões que exigem autocontrole. Cirurgiãs nem pensar.
Ah, e a grande maioria dos crimes passionais - em que a pessoa perde o controle sobre suas emoções - são praticados por homens, e não por nossas "descontroladas" mulheres.
E assim caminhamos nós...rumo ao pasto. Saco!
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#SerraJagger assistindo Brasil x Argentina

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#aUNEsomosNos

Não nos causa espanto o ataque arquitetado por parte da imprensa conservadora contra a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o conjunto dos movimentos sociais. Primeiro, foi a revista Veja. Agora, é pelas páginas do jornal O Globo que a microfonia da mídia golpista tenta nos atingir. A UNE é alvo porque participa da luta democrática para romper o monopólio que meia dúzia de famílias exerce sobre a comunicação no Brasil. A UNE está na mira porque demonstra a necessidade de imediata regulação das responsabilidades dos meios de comunicação.
É importante deixar claro, em respeito a todos os que acompanham a nossa trajetória de 75 anos de vida, que a UNE não cometeu irregularidades e não é alvo de investigações de nenhum tribunal de contas. Se, o pedido de investigação feito pelo procurador do ministério público junto ao TCU apontar qualquer equívoco em nossa prestação de contas, – não há provas de que tenha ocorrido- será fruto de imperícia técnica, mas nunca de má fé.
Sobre um ponto da matéria publicada nesta sexta-feira, dia 8 de junho, pelo jornal O Globo, cobramos responsabilidade na veiculação e análise das informações e esclarecemos que a compra de alguns itens de vestuário foram feitas para a construção de instalações (artes visuais) e para o figurino de peças de teatro, atividades da Bienal da UNE, o maior festival estudantil da América Latina.
Sobre a compra de bebidas alcóolicas é necessário esclarecer que os valores referentes a estes itens constavam em algumas notas fiscais, mas não foram contabilizados como parte dos gastos com o dinheiro público. Ou seja, a UNE não usou dinheiro público para pagar esses itens. A montagem de camarins e uma intervenção artística sobre a religiosidade afro-brasileira no qual se utilizava cachaça, búzios e velas foram compradas com o dinheiro privado da entidade.
Quanto a existência de notas fiscais supostamente irregulares, a UNE esclarece que o processo de contratação foi feito via pregão eletrônico, por meio da empresa “Terceiro Pregão”, especializada em licitações para o terceiro setor. A UNE cumpriu a sua parte contratual. Caso tenha ocorrido qualquer irregularidade por parte das empresas contratadas, a UNE apoia a investigação do ocorrido e a adoção de medidas legais cabíveis.
A União Nacional dos Estudantes participa das políticas de financiamento público a atividades culturais, esportivas e educacionais desde 1999, sempre cumprindo todas as exigências técnicas de seus convênios. Parte das nossas prestações de contas já estão aprovadas, sendo que algumas se encontram ainda em análise pelos órgãos responsáveis. A UNE reafirma seu compromisso de zelo com os recursos públicos e, se comprovado qualquer tipo de imperícia técnica em qualquer prestação de contas, compromete-se a saná-las de acordo com o que lei determina, inclusive, se for o caso, com a devolução de recursos. Dessa forma, a UNE reafirma também o seu compromisso com o Erário, honrando seus 75 anos de vida.
Infelizmente, para as poucas famílias que exercem o monopólio da comunicação no Brasil, ser verdade ou não é apenas um detalhe. O que importa, para eles, é a versão, sempre comprometida com os interesses das elites dominantes. A UNE já enfrentou batalhas piores contra estes mesmos personagens, por exemplo, durante a ditadura civil-militar. Esperamos que a Comissão da Verdade revele os responsáveis destas empresas pela cooperação com a tortura, o assassinato e outros crimes bárbaros cometidos pelo regime de exceção, assim como a luta contra a corrupção no Brasil revele as relações mantidas entre corruptores, como o bicheiro Carlinhos Cachoeira, e os donos destas mesmas empresas.
Como não nos intimidamos no passado, não nos intimidaremos agora. Pelo contrário, ampliaremos nossa luta pela democratização da mídia, por uma educação para todos e por um Brasil mais justo.
União Nacional dos Estudantes
08 de junho de 2012
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Jesuton, uma garota de Londres que apenas adora cantar

Cantora britânica faz sucesso cantando nas ruas do Rio
Uma artista britânica está encantando os cariocas, apresentando-se nas ruas do Rio. Seu nome é Jesuton, cantora de voz poderosa e afinadíssima, que lembra um pouco a saudosa estrela Amy Winehouse. Ela costuma se apresentar apenas com microfone, um aparelho de som que toca a base das músicas e, é claro, muita paixão. À sua frente, fica a caixinha para receber as contribuições dos passantes. Muitas vezes, ela também segura um cartaz, onde se lê: "Jesuton - curte meu Facebook". A tal da página, criada dia 30 de abril e agora perto de 6 mil fãs, exibe vídeos e os horários e locais de seus shows. A moça se identifica como “uma garota de Londres que apenas adora cantar”.
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A maledicência de Lauro Jardim


Não é por falta da assuntos, acontecimentos importantes e relevantes que o jornalista Lauro Jardim, responsável pela seção Radar, da Veja (só podia), publica que o presidente Lula teve a sua devolução no primeiro lote de restituição do IR. É maledicência, safadeza, cretinice. No dia 8 a Receita Federal divulgou uma mega restituição aos contribuintes. Ao todo, 1,844 milhão de contribuintes, entre os quais todos os idosos sem problemas na declaração, receberão R$ 2,4 bilhões de restituição do IR cobrado a mais, que será paga no próximo dia 15. O Lula recebeu, ótimo, meu marido também, minha tia, meu vizinho, amigos também receberam. O Serra e o FHC, que também são idosos, se tivessem imposto a restituir (pouco provável) também receberiam. E se recebessem, qual é a importância disso? Se recebeu a restituição é porque tem direito a ela. Deixa de ser cretino, Lauro Jardim!
Jussara Seixas


No Blog do Saraiva
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Demóstrio, o genial

“Não é preciso concordar com tudo que ele pensa ou faz para homenageá-lo. Demóstenes não é mais um comerciante no mercado em que se trafica influência em troca de cargos ou privilégios. Ele tem princípios e convicções.”
Demétrio Magnoli, na revista Época, dezembro de 2009.
Demóstenes Torres foi um “100 brasileiros mais influentes” do ano, segundo a publicação). Magnoli colabora com os jornais “O Globo”, “Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”, com a TV Cultura e com a rádio Bandeirantes.
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Presidenta Dilma lamenta morte do jornalista Ivan Lessa

A presidenta Dilma Rousseff lamentou hoje (9) a morte do jornalista Ivan Lessa. Em telegrama, Dilma afirma que o Brasil perde um de seus cronistas mais talentosos.
Leia abaixo a íntegra do telegrama:
“Ivan Lessa foi um escritor indomável. Foi irônico, mordaz, provocador, iconoclasta e surpreendentemente lírico – acima de tudo brilhante no trato com as palavras. Sua contribuição à resistência democrática está registrada nas páginas do Pasquim, um espaço de liberdade e crítica que Ivan e seus companheiros souberam abrir, com humor e astúcia, para toda uma geração de brasileiros, num momento em que isso parecia impossível. O Brasil perde um de seus cronistas mais talentosos.”
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Charge online - Bessinha - # 1284

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PSDB tenta evitar que "Caixa Preta" do Mineirão seja aberta

PSDB tenta desqualificar decisão do MPF com receio que revisão das contas das obras do Mineirão traga a tona esquema criminoso montado
O tradicional comportamento adotado pela alta direção do PSDB mineiro de tentar desqualificar os denunciantes em vez de aguardar e contribuir com as apurações das denúncias poderão render ao PSDB mineiro um tremendo desgaste. O posicionamento oficial, através de seu presidente, torna inevitável a conclusão do consentimento e omissão diante da comprovação das irregularidades que vem ocorrendo na PPP do Mineirão. Utilizando as palavras de um líder tucano mineiro ao referir-se ao governo da presidente Dilma: O PSDB de minas "navega impassível e equidistante em meio às trovoadas e à verdadeira tempestade que se forma à sua volta e, aos poucos, engolfa seu governo".
Na tentativa de levar a questão para o campo político, Pestana qualificou como um movimento familiar do “quanto pior melhor”, a recomendação do Ministério Público Federal (MPF) para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não libere mais recursos para a reforma do Mineirão até que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) comprove a ausência de irregularidades na obra. O procurador que tomou a decisão, Álvaro Ricardo de Souza Cruz, é irmão do deputado estadual Sávio Souza Cruz (PMDB), oposição ao governo de Antonio Anastasia (PSDB).
Para Pestana, o objetivo é criar obstáculos para que Minas não tenha um dos primeiros estádios prontos para receber a Copa do Mundo de 2014. “Foi uma atitude estranha. Há estádios que sequer deram os primeiros passos para abrigar os jogos”, disse. Omitindo que a decisão foi tomada pelo procurador na terça-feira, em obediência ao acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU), e diante de comprovadas irregularidades cometidas na gestão dos recursos destinados ao Mineirão.
Embora em sua entrevista Pestana afirme que dois pontos seriam analisados na execução da reforma do estádio: as contratações, sem licitação, do escritório de arquitetura Gustavo Penna, por R$ 17 milhões, e da empresa EBP, por R$ 6,5 milhões, responsável pelo orçamento do projeto da obra, esta afirmação não corresponde a verdade. Irregularidades na gestão e aplicação dos valores já recebidos, são as principais irregularidade a serem apuradas. O BNDES já liberou R$ 240 milhões para o consórcio Minas Arena, que vai administrar o Mineirão. A segunda parcela prevista é de R$ 200 milhões.
Álvaro Ricardo avaliou as declarações de Pestana como uma ofensa pessoal e ao MPF. “Minha decisão foi lastreada em posicionamento do TCU. É o caso de se perguntar ao presidente do PSDB de Minas Gerais se os ministros do tribunal também são irmãos do deputado Sávio Souza Cruz”, afirmou o procurador, que estuda mover um processo por calúnia e difamação contra o tucano. “É uma irresponsabilidade alguém que não viu os autos dar uma declaração dessas”, reclamou.
Para o deputado Sávio Souza Cruz, o comportamento de Pestana é uma forma dele se desobrigar a enfrentar o problema. “O deputado não tinha outra resposta para dar e acabou falando dessa forma. É um modo de fugir do assunto”, disse o parlamentar.
Na avaliação do MPF é “inadmissível que uma empresa pública federal repasse verbas a um empreendimento desse porte sem a certeza de que o projeto e sua execução estejam isentos de vícios ou irregularidades”, e “o zelo pela probidade administrativa e pela correta aplicação dos recursos públicos é um direito e dever de cada cidadão e de todo o estado brasileiro”.
O Ministério Público deu prazo de 10 dias para que o BNDES envie dados e documentos sobre a adoção de medidas para cumprimento da recomendação, sob pena de responsabilização pessoal do presidente do banco, Luciano Coutinho, por improbidade administrativa. A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado Extraordinária da Copa do Mundo informou que todas as informações já foram enviadas ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e garantiu que as obras não serão paralisadas por envolver recursos privados, já que se trata de parceria público-privada (PPP).
Documento que fundamenta esta matéria
No Novojornal
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Marcha dos Marcianos

Ícone. Quando O Globo via o golpe
como retorno à democracia
Recebi de um leitor a imagem que ilustra este editorial. Primeira página de O Globo pós-golpe de 1964, Presidência interina de Ranieri Mazzilli, enquanto os donos do poder e seus gendarmes decidem o que virá. Treze dias depois o então presidente da Câmara volta a seu assento de congressista e a ditadura é oficialmente instalada. Comentário do amável leitor: eis aí os defensores midiáticos da democracia sem povo.
De fato, acabava de ser desferido um golpe de Estado, mas seus escribas, arautos e trompetistas declamam e sinfonizam a história oposta. O marciano que subitamente descesse à Terra, diante da página de O Globo, e de todas as dos jornalões, acreditaria que o Brasil vivera anos a fio uma ditadura e agora assistia à sua derrubada. Em editorial, nosso colega Roberto Marinho celebrava: “Ressurge a Democracia!”
É o jornalismo nativo em ação, entre a ficção e o sonho, a hipocrisia e a prepotência, sempre na sua função de chapa-branca da casa-grande. Vaticinava a invasão bárbara da marcha da subversão, passou, entretanto, a Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade. A Marcha dos Marcianos, me arrisco a dizer. Não é que faltassem entre os marchadores os hipócritas e os prepotentes. A maioria, contudo, era marciana. Só mesmo um alienígena para acreditar em certos, retumbantes contos da carochinha.
Agora, observem. Quarenta e oito anos depois, a Marcha dos Marcianos ainda desfila, sem deixar de arrolar hipócritas e prepotentes. Ocorre que muitas mudanças aconteceram neste tempo longo. Inúteis ferocidades e desmandos a ditadura praticou, para esvair-se em suas próprias contradições enquanto fermentava a fortuna de empreiteiros, banqueiros e barões midiáticos. A pretensa redemocratização teve seus lances de ópera-bufa. Collor foi louvado por abrir os portos, mas cobrou pedágios nunca vistos. O governo tucano quebrou o País três vezes.
Fernando Henrique Cardoso contou de fio a pavio com os aplausos febris da mídia, seduzida pelo príncipe dos sociólogos disposto, oh, surpresa, a encarnar as preferências da reação, impávido ao conduzir a privataria tucana e a comprar congressistas para garantir a reeleição. A vitória de Lula é o divisor de águas, não somente porque um homem dito do povo chegou ao trono, mas também em virtude de um governo que elevou o teor de vida dos setores menos favorecidos da população e ganhou prestígio internacional nunca dantes navegado. A presidenta Dilma garante a continuidade. Para entender melhor, leiam a coluna Vox Populi de Marcos Coimbra.
Sim, os bairros ricos, alguns dubaienses, ainda pululam de marcianos, assinantes fiéis e parvos dos jornalões, sem falar das pilhas de Veja que abarrotam no fim de semana os saguões dos seus prédios. Não enxergo, porém, a maioria dos brasileiros debruçados sobre estes textos sagrados e consagrados pela chamada classe A e parte da B. É possível que os da maioria ainda não tenham atingido o grau adequado de consciência da cidadania, de resto incomum em geral, mas estão maciçamente com Dilma como estiveram com Lula. E, quem sabe, pouco se preocupem com os destinos do processo do mensalão.
Leio e ouço até agora que a questão incomoda sobremaneira tanto Lula quanto Dilma, e que a CPI do Cachoeira foi excogitada para desviar as atenções da Nação. CartaCapital entende que é do interesse geral, inclusive do PT, que o julgamento se faça o mais rapidamente possível e que o assunto seja finalmente encerrado por sentença justa.
Insistimos na convicção de que o mensalão, conforme a denúncia original de Roberto Jefferson, como mesada oferecida a um certo número de congressistas, não será provado. Outros crimes, acreditamos, terão prova. Crimes igualmente gravíssimos, uso de caixa 2, lavagem de dinheiro, aquele que o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos recebe do contraventor Cachoeira para defendê-lo. CartaCapital arrisca-se a prever condenações óbvias, e nem tanto, e espera que o conspícuo envolvimento do banqueiro Daniel Dantas venha à tona neste enredo. Difícil imaginar como a mídia se portará ao cabo. Vale acentuar apenas o silêncio que manteve sem pestanejar diante dos “mensalões” tucanos. De todo modo, limpar a mancha convém ao País.
Mino Carta
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Os três equívocos da “grande imprensa”

A cobertura de nossa “grande imprensa” da atualidade política gira em torno de três equívocos. Por isso, mais confunde que esclarece.
Os três decorrem da implicância com que olha o governo Dilma Rousseff, o PT e seus dirigentes. A mesma que tinha em relação a Lula quando era presidente.
Há, nessa mídia, quem ache bonito – e até heróico – ser contra o governo. E quem o hostilize apenas por simpatizar com outros partidos. Imagina-se uma espécie de cruzada para combater o “lulopetismo”, o inimigo que inventaram. Alguns até sinceramente acreditam que têm a missão de erradicá-lo.
Não é estranho que exista em jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio, e nos portais de internet, quem pense assim, pois o mundo está cheio deles. E seria improvável que os empresários que os controlam fossem procurar funcionários entre quem discorda de suas ideias.
Até aí, nada demais. Jornalismo ideológico continua a ser jornalismo. Desde que bem-feito e enquanto preserve a capacidade de compreender o que acontece e informar o público. O problema da “grande imprensa” é que suas antipatias costumam levá-la a equívocos. Como os três de agora. Vejamos:

O Desespero de Lula

Pode haver suposição mais sem sentido do que a de que Lula esteja “desesperado” com o julgamento do mensalão?
Ele venceu as três últimas eleições presidenciais, tendo tido na última uma vitória extraordinária. Só ele se proporia um desafio do tamanho de eleger Dilma Rousseff.
Hoje, em qualquer pesquisa sobre a eleição de 2014, atinge mais de 70% das intenções de voto, independentemente dos adversários.
Seu governo é considerado o melhor que o Brasil já teve por quase três quartos do eleitorado, em todos os quesitos: economia, atuação social, política externa, ecologia etc. (sem excluir o combate à corrupção).
O mensalão já aconteceu e foi antes que galvanizasse a imagem que possui. Lula tem, portanto, esse conceito depois de passar pelo escândalo. O ex-presidente não tem nenhuma razão para se importar pessoalmente com o julgamento do mensalão. Muito menos para estar “desesperado”.
O que ele parece estar é preocupado com alguns companheiros, pois sabe que existe o risco de que sejam punidos, especialmente se o Supremo Tribunal Federal for pressionado a condená-los. Solidarizar-se com eles – e fazer o possível para evitar injustiças – não revela qualquer “desespero”.

A Batalha Paulista

Não haverá um “enfrentamento decisivo” na eleição para prefeito de São Paulo. Nada vai mudar, a não ser se a gestão local, se José Serra, ou Fernando Haddad, ou Gabriel Chalita sair vitorioso.
Como a “grande imprensa” está convencida de que José Serra vai ganhar – o que pode ser tudo, menos certo -, a eleição está sendo transformada em um “teste” para Lula, o PT e o governo Dilma. Ou seja, quem “nacionaliza”a disputa é a mídia. Apenas porque acha que Haddad vai perder. Se Serra vencer, o PSDB não aumenta as chances de derrotar Dilma (ou Lula) em 2014. Caso contrário, terá sua merecida aposentadoria. O melhor que os tucanos podem tirar da eleição paulista é a confirmação da candidatura de Aécio Neves.
Quanto ao PT e ao PMDB, vencendo ou perdendo, saem renovados. No médio e no longo prazo, ganham. Por enquanto, a mídia está feliz. Cada pesquisa em que Haddad se sai mal é motivo de júbilo, às vezes escancarado. Quando subir, veremos o que vai dizer.

É a Economia, Estúpido

Sempre que pode, essa mídia repete reverentemente a trivialidade que consagrou James Carville, o marqueteiro que cuidou da campanha à reeleição de Bill Clinton.
Lá, naquele momento, foi uma frase boa.
Aqui, não passa de um mantra usado para desmerecer o apoio popular que Lula teve e Dilma tem. Com ela, pretende-se dizer que “a economia é tudo”. Que, em outras palavras, a população, especialmente os pobres, pensa com o bolso. Que gosta de Lula e Dilma por estar de barriga cheia.
Com base nesse equívoco, torce para que a “crise internacional”ponha tudo a perder. Mas se engana. É só porque não compreende o País que acha que a economia é a origem, única ou mais importante, da popularidade dos governos petistas.
Nos últimos meses, a avaliação de Dilma tem subido, apesar de aumentarem as preocupações com a inflação, o emprego e o consumo. E nada indica que cairá se atravessarmos dificuldade no futuro próximo.
Lula não está desesperado com o julgamento do mensalão. Se Serra for prefeito de São Paulo, nada vai mudar na eleição de 2014. As pessoas gostam de Dilma por muitas e variadas razões, o que permite imaginar que continuarão a admirá-la mesmo se tiverem de adiar a compra de uma televisão.
Pode ser chato para quem não simpatiza com o PT, mas é assim que as coisas são.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
No CartaCapital
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A maior notícia do século

Benito Mussolini havia sido enforcado dez dias antes e Adolf Hitler tinha se suicidado na semana anterior; os russos estavam em Berlim e as tropas nazistas já haviam se rendido na Itália, Dinamarca, Noruega e Países Baixos. A Segunda Guerra Mundial estava por um fio, com Winston Churchill, Josef Stalin e Harry Truman prontos para fazer seus discursos de vitória. Faltava, porém, um comunicado oficial atestando o final da carnificina que já durava seis anos.
Eram 3h24min da tarde de 7 de maio de 1945 quando o escritório da agência de notícias Associated Press (AP) em Londres recebeu o telefonema que acabou com a guerra antes do combinado. A ligação chegara através de um canal militar não sujeito à censura e tinha o chefe do escritório de Paris da AP no outro lado da linha. “Aqui é Ed Kennedy. A Alemanha capitulou incondicionalmente. Repito, capitulou incondicionalmente. É oficial. Coloque Reims, França, como procedência e solte a notícia, já.” Não discutiu sua decisão com nenhum chefe. O texto tinha perto de 300 palavras. “Agora é esperar para ver o que acontece”, comentou, após desligar.
Dois minutos mais tarde, Londres transmitia a bomba para a central em Nova York, que ainda segurou a notícia por oito minutos antes de colocá-la no ar. Instantaneamente, rádios por toda a América interromperam suas programações para dar a grande nova, edições extras de jornais inundaram as ruas e o furo tinha tudo para ser o momento de maior triunfo profissional e pessoal de Edward Kennedy, já consagrado como um dos grandes nomes de sua geração.

Desculpas póstumas

Os fatos seguiram outro roteiro. Passadas menos de 24 horas, Kennedy foi suspenso por tempo indeterminado e seria demitido mais tarde, sem alarde. No mesmo dia, o presidente do Conselho da AP divulgava um comunicado lamentando “profundamente” o monumental furo obtido pelo jornalista.
Perto de 50 correspondentes de guerra do front europeu recomendaram a revogação de sua credencial. Kennedy acabou expulso da França pelo Comando Supremo das Forças Aliadas e teve de retornar aos Estados Unidos. “Faria tudo de novo”, declarou apenas, ao desembarcar. Conseguiu emprego como redator-chefe num pequeno jornal da Califórnia, o Santa Barbara News-Press, fez uma tentativa como publisher do Monterrey Peninsula Herald e morreu num acidente de automóvel aos 58 anos de idade. Seu pecado capital foi ter desafiado a censura e atropelado um embargo de notícia.
Passaram-se 67 anos desde então. Somente agora, três semanas atrás, a Associated Press admitiu oficialmente que Edward Kennedy fizera o certo. “Foi um dia negro para a Associated Press, que administrou o fato da pior maneira possível”, desculpou-se em nome da empresa Tom Curley, atual diretor-executivo da agência noticiosa e coautor do prefácio do livro de onde foram tiradas as informações para este artigo. O pedido póstumo de desculpas veio junto com a chegada às livrarias do livro de memórias do jornalista – Ed Kennedy’s War: V-E Day, Censorship and the Associated Press, disponível na Amazon.

Acordo para bloquear a notícia

Recomenda-se a leitura a todo jornalista, uma vez que o dilema que se apresentou para Kennedy, além de universal, é atualíssimo. “Se você dá a alguém uma caneta e a autoridade de um censor, estranhas coisas acontecem”, costumava dizer Kennedy, que seguiu à risca a demarcatória definida por Franklin D. Roosevelt: a censura só é justificada se estiver a serviço da proteção das forças aliadas em combate. Na noite da rendição, Kennedy integrava o grupo de 17 correspondentes de guerra reunidos às pressas pelo comando aliado para testemunhar o momento. Todos tiveram de assinar um termo de sigilo a bordo do avião militar que os levou de Paris para Reims, no nordeste da França, onde o general Dwight Eisenhower havia instalado seu QG avançado. Só divulgariam o que veriam quando autorizados pelo comando aliado.
Em princípio, o embargo acordado duraria apenas algumas horas, mas logo os jornalistas foram informados de que o fim da Segunda Guerra Mundial só poderia ser noticiado 36 horas depois, às três da tarde do dia seguinte. Só que passadas doze horas da capitulação, uma pequena rádio alemã da cidade de Flensburg vazara a informação e Kennedy procurou dobrar os censores americanos. Nada feito. “O general Eisenhower até desejaria que a notícia seja divulgada de imediato para que vidas sejam salvas, mas suas mãos estão atadas por esferas políticas superiores”, respondeu-lhe à época o porta-voz do comandante.
As esferas políticas superiores chamavam-se Stalin, Truman e Winston Churchill. Os três haviam concordado em bloquear a notícia da capitulação por um dia para dar tempo ao marechal russo de também preparar a cerimônia de rendição que presidiria em Berlim. Assim, todos fariam comunicados simultâneos a seus povos, pontualmente às 3 horas da tarde do dia 8 de maio de 1945.

A mesma coisa

Kennedy tomou a decisão de furar unilateralmente o acordo ao constatar que não estaria colocando em risco a vida de nenhum soldado. Pelo contrário, abreviaria a matança em algumas horas, o que já era muito. De fato, naquele mesmo 7 de maio, um submarino alemão afundara duas embarcações na costa da Escócia e os combates prosseguiram na Checoslováquia e na Iugoslávia. Ademais, com a assinatura da rendição, a própria função dos censores militares perdia validade, a seu ver.
Duas vozes contundentes saíram em sua defesa à época. A primeira foi a de A. J. Liebling, na revista New Yorker, em artigo intitulado “A rendição da AP”. A segunda foi a de Wes Gallagher, despachado pela Associated Press para substituir Kennedy no escritório de Paris.
Por ocasião de seu primeiro encontro com Eisenhower, o repórter comentou com o general que no lugar do antecessor teria feito a mesma coisa, acrescentando: “Apenas teria lhe telefonado antes.” Ike retorquiu que, nessa hipótese, teria ordenado sua prisão. Resposta de Gallagher: “Mas isso não teria abortado a notícia.”
Dorrit Harazim, jornalista
No Observatório da Imprensa
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Blogueiro sujo é perseguido

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Premier britânico comparecerá à comissão que investiga a imprensa

A comissão foi criada em julho do ano passado pelo próprio
David Cameron (foto) para analisar o escândalo dos grampos.
 Foto: AFP
LONDRES (AFP) – O primeiro-ministro britânico David Cameron comparecerá na próxima quinta-feira 14 à comissão Leveson que investiga as práticas da imprensa britânica, após o escândalo de escutas telefônicas no extinto tabloide News of the World, do grupo News Corp. de Rupert Murdoch.
O ministro das Finanças, George Osborne, e o vice-premier, Nick Clegg, também devem testemunhar, respectivamente na segunda-feira e quarta-feira, na comissão presidida pelo juiz Brian Leveson, que evidenciou nas audiências os vínculos estreitos entre algunos executivos do grupo Murdoch e Cameron.
A comissão foi criada em julho do ano passado pelo premier britânico para analisar o escândalo dos grampos, após o fechamento do News of the World em consequência da onda de indignação provocada pela revelação de que o tabloide ouviu as mensagens do telefone celular de uma adolescente desaparecida que posteriormente foi encontrada morta.
A polícia suspeita que o News of The World procedeu escutas ilegais de centenas de pessoas para obter furos de reportagem.
Cameron teve que justificar em várias ocasiões nos últimos meses a contratação de Andy Coulson, ex-diretor de redação do jornal, que atuou durante alguns meses como secretário de comunicação do primeiro-ministro.
A investigação independente confiada ao juiz Leveson também destacou os estreitos vínculos entre o premier conservador e Rebekah Brooks, ex-diretora da News International, a divisão do grupo Murdoch que edita jornais na Grã-Bretanha, e o marido desta, um amigo de infância de David Cameron.
Segundo os depoimentos ouvidos pela comissão, David Cameron confiou o processo da compra da BSkyB ao ministro da Cultura, Jeremy Hunt, que notoriamente era favorável à oferta apresentada por Rupert Murdoch para adquirir 100% da operadora de TV.
A oposição exigiu nas últimas semanas a renúncia de Hunt.
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O último texto de Ivan Lessa

Ivan Lessa
* 9 de maio de 1935  + 08 de junho de 2012

Ivan Lessa: Orlando Porto

Atualizado em  8 de junho, 2012 - 06:22 (Brasília) 09:22 GMT
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Orlando Porto. Taí um nome como outro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, deputado, ministro, farmacêutico. Mas não é. Trata-se de um anagrama de um escritor francês – e ator e ilustrador bom e autor e figurinha difícil francesa e aquilo que se poderia chamar de “frasista”.
Feio como um demônio, no meio da década de 50 cansei de dar com ele dando comigo lá pelo Boulevard St. Germain, cheretando o Flore, o Lipp, fazia uma cara que quem ia dizer algo importante e logo sumia na companhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluquinho dos filmes autobiográficos do Truffaut.
Dupla estranha. Os desenhos do — esse seu nome, artístico ou de batismo, Roland Topor — eram bacaninhas. Mas sempre foi Orlando Porto para mim.
Fez cinema também. O Inquilino do Polanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner Herzog. Até que bateu o que ocultava seus pés: umas botas estranhas como ele.
De vez em quando, numa revista esotérica, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com “100 boas frases para eu matar agorinha mesmo”. Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo cachê. Meros galicismos literários.
E aí trago à cena, mais uma vez, porque cismei, mestre Millôr Fernandes. Esse era profissional. Nada a ver com “frasista”. Trabalhava com a enxada dura da língua. Nunca para dar a cara no Flore, principalmente com Topor e Léaud.
Reli umas 100 frases do Orlando, ou Topor, e não resisti à tentação de, em algumas delas dar-lhes uma ginga por cima e outra por baixo, à maneira do frescobol querido do mestre, só para exercitar os músculos muito fora de forma.
Cem razões: Faço por bem menos, mas mais Copacabana e Leblon. Algumas raquetadas minhas em homenagem ao mestre cuja falta continuo sentindo:
- Melhor maneira de verificar, antes, se já não estou morto.
- Mas não se mata cavalos e malfeitores?
- Pelo menos eu driblaria o câncer.
- Milênio algum jamais me assustará.
- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação!
- Levo comigo a reputação de meu terapeuta.
- Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!
- Aí está: uma cura definitiva para a calvície.
- Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê.
- A vida está pelos olhos da cara. Pra morte eles fazem um precinho especial, combinado?
- Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.
- Ao menos é uma boca de menos a sustentar.
- Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.
- Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.
- Sabe que minha vida não daria um filme. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraçado em paz, peço-lhes.
- Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.
- Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.
- Roncar, nunca mais. Nem eu nem ninguém ao meu lado.
- Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!
- Consegui preservar o mistério sempre giarando em meu torno.
- Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.
- Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.
- Ei, juventude, pode vir que pelo menos uma vaga está aberta.
- Emagrecer é isso aqui.
- Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim.
E assim, cada vez que um”frasista” passar por perto de mim, leve uma nossa: minha e de Millôr. Dois contra um a gente ganha mole.

Morre o jornalista e escritor Ivan Lessa

Autor morreu na sexta-feira (8) em Londres, segundo a família.
Ele tinha enfisema pulmonar e problemas respiratórios graves.
O jornalista, cronista e escritor Ivan Lessa morreu na noite de sexta-feira (8) em Londres, segundo a família.
O motivo da morte nao é conhecido, segundo sua viúva, Elizabeth.
Lessa sofria de enfisema pulmonar, tinha problemas respiratórios graves e saía pouco de casa, segundo ela.
Elizabeth disse que encontrou Lessa morto ao chegar em casa. Ela estima que ele tenha morrido entre as 16h e as 18h pelo horário local.
O jornalista, cronista e escritor Ivan Lessa (Foto: Divulgação/Companhia das Letras)
O jornalista, cronista e escritor Ivan Lessa
(Foto: Divulgação/Companhia das Letras)
Ivan Pinheiro Themudo Lessa nasceu em 9 de maio de 1935.
Ele era filho do também escritor Orígenes Lessa.
Ivan Lessa foi fundador e um dos principais colaboradores do jornal "O Pasquim", durante a resistência à ditadura militar brasileira.
No jornal, ele escrevia, entre outras, a coluna "Gip Gip Nheco Nheco".
Lessa escreveu "Garotos da Fuzarca" (contos, de 1986), "Ivan vê o mundo" (crônicas, de 1999) e "O luar e a rainha" (2005).
Desde janeiro 1978, Lessa morava em Londres, onde era cronista da BBC Brasil.
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