8 de jun de 2012

Carta: sócio acusa Gilmar de desvio e sonegação

Na edição da Carta que chega essa semana às bancas, Leandro Fortes publica estarrecedora reportagem:
Cobras e lagartos – disputa empresarial – em um processo judicial conturbado, Inocêncio Coelho, ex-sócio de "Gilmar Dantas" no IDP – Instituto Brasiliense de Direito Público – acusa o ex-Supremo Presidente Supremo de “desvio de dinheiro e sonegação” de impostos.
O título da capa é sugestivo: “Fraude na escolinha do professor Gilmar”.
Fraude.
Sonegação.
Desvio.
Desvio de conduta, também, porque um Ministro da Suprema Corte não pode ser empresário – só pode ser professor.
Tudo pronto para um impeachment!
Está tudo lá na estarrecedora reportagem de Leandro Fortes, que já tinha identificado as impressões digitais da Globo nas operações do Carlinhos Cachoeira.
A história que Leandro conta essa semana mostra que Inocêncio Mártires Colho, último Procurador da República do regime militar, entrou na Justiça contra Gilmar, porque:
– Gilmar atacava o cofre da empresa sob a alegação de que precisava custear festas familiares e fazia retiradas significativas;
– atacava o cofre na esperança de cobrir depois, com “acertos futuros”- o que jamais acontecia e, portanto, praticava o que se chama de “evasão fiscal”;
– Gilmar queria uma “vantagem diferenciada” na empresa, porque se cansou de ser o “garoto propaganda” do IDP;
– será que isso explica a obsessão pelos holofotes da Globo, essa “vantagem diferenciada”?;
– apavorado com o processo judicial do ex-sócio, Gilmar contratou o segundo advogado mais poderoso do Brasil – Sergio Bermudes, aquele que aparece no processo de impeachment que o Dr Piovesan movia e move contra Gilmar (o primeiro é Márcio Thomaz Bastos, cujo escritório move, em nome de Daniel Dantas, uma ação contra Mino Carta);
– da Alemanha, na edificante companhia do amigão Demóstenes Torres, Gilmar conseguiu “trancar” o litígio com Inocêncio e submetê-lo a um providencial “segredo de Justiça”. Viva o Brasil!
– segundo auditoria contratada no litígio, as “remunerações extras” – eufemismo usado pelos auditores para se referir a “retiradas ilegais” – do ex-Supremo chegavam a 14%(!) da receita bruta – não há negocio capitalista que resista a tal voracidade;
– eram pagamentos “feitos por fora”, ou seja, sem recolhimento de impostos
Os sócios fizeram um acordo para encerrar o litígio judicial.
E ministro (ou ex-Ministro) do Supremo “indenizou” Inocêncio em 8 milhões e um Real – onde um ministro do Supremo consegue esse dinheiro, Ministro Celso de Mello, decano da Casa?
Onde?
Onde um Ministro do Supremo levanta R$ 8 milhões?
Leandro Fortes já demonstrou de forma irrefutável – e por isso mereceu ações judiciais movidas pelo ex-Ministro Supremo do Supremo – que o IDP só existe porque:
– recebeu um terreno do notável governador de Brasília, Joaquim Roriz, outra Catão do Cerrado, com um desconto camarada de 80%;
– e obteve um empréstimo no Banco do Brasil do fundo de “para estimular a produção em zonas rurais”.
Quanto tempo dura Gilmar no Supremo?
Ministro Ayres Britto, o senhor permitirá que este “empresário” se sente ao seu lado e vote o mensalão?
É este o Catão de Mato Grosso que denunciou a chantagem do Nunca Dantes – chantagista que ele não processou?
Ele pode continuar a “desonrar a Magistratura”, como previram dois brasileiros íntegros, Joaquim Barbosa e Dalmo Dallari?
A reportagem de Leandro Fortes deveria ser dedicada a Fernando Henrique Cardoso.
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
Leia Mais ►

Documento oficial derruba versão de Perillo sobre venda da casa

A própria escritura de venda, um documento oficial, com fé pública, desmonta todas as versões anteriores apresentadas pelo governador Marconi Perillo (PSDB-GO), sobre a venda de sua casa, onde morava e foi preso o bicheiro Carlinhos Cachoeira.
Segundo a narrativa da escrevente na escritura, detentora de fé pública, o ato da venda foi na presença dos vendedores; Marconi Perillo e da mulher, e na presença do comprador,Écio Antônio Ribeiro, sócio e representante da empresa Mestra Administração.
http://diariodegoias.com.br/ultimas-noticias/497-escritura-de-transferencia-da-casa-de-marconi-perillo-para-mestra
A versão não bate com nenhuma das anteriores. Na última delas, apresentada na CPI por Walter Paulo Santiago, ele quem seria o representante da empresa Mestra no ato da compra, e quem teria comparecido representando o vendedor (Perillo) seria o ex-vereador Wladimir Garcez junto ao ex-assessor do governador, Lúcio Fiúza. Nenhum dos tês são sequer citados pela escrevente na escritura.
Outra contradição é quanto ao pagamento. Perillo havia confirmado ter recebido o pagamento em três cheques de uma empresa da família de Carlinhos Cachoeira. Walter Santiago disse ter pago em dinheiro vivo, no ato da compra.
A escritura conta outra história um pouco diferente das duas. No documento declara-se que o pagamento foi anterior ao ato da escritura, e não no próprio ato, como descreveu Walter Santiago em seu depoimento na CPI. E diferente do que diz Perillo, está escrito que foi em dinheiro vivo, e não em cheques.
http://diariodegoias.com.br/ultimas-noticias/497-escritura-de-transferencia-da-casa-de-marconi-perillo-para-mestra
Então, ou mentiram o governador e os depoentes, ou a escritura não expressa a verdade, o que coloca em cheque a própria lisura do documento e do cartório.
Em qualquer um dos dois casos, a situação de Perillo só piora.
ZéAugusto
No Amigos do Presidente Lula
Leia Mais ►

Em Goiás, todo mundo tem culpa no cartório

Oposição e situação, ninguém está livre de ter o que responder e explicar em Goiás; questionamento atinge desde o governador Marconi Perillo (PSDB) a Iris Rezende (PMDB), Paulo Garcia (PT) e Demóstenes Torres (ex-DEM), seja por Cachoeira ou pelo mensalão
Está proibida em Goiás a sentença bíblica: quem não tem o que explicar, que atire a primeira pedra. Ela constrange geral, de mensalão a Cachoeira, ou vice-versa, ou tudo junto e misturado. De maneira geral, os políticos de ponta - e muitos coadjuvantes também - no xadrez eleitoral goiano, uns mais, outros menos, têm o que explicar. Como na expressão popular, "eles têm culpa no cartório".
Eis uma explicação razoável para os desacertos do governo, que quanto mais tenta explicar o inexplicável mais se afunda nas desconfianças, e o silêncio, bem, sepulcral da oposição, que diante do bombardeio do inimigo, faz de conta que não existe.
Mas não é apenas o governador Marconi Perillo (PSDB), atolado até o alicerce no caso mal explicado da negociação da casa que vendeu e onde Cachoeira foi preso, que está emparedado e desgastado. É o que mais está, porém não é o único.
Há outros. Muitos outros. Alguns:
Demóstenes Torres (ex-DEM)
Basta dizer que era o braço político do contraventor Carlinhos Cachoeira. Tudo, do caso, surgiu com ele e a partir dele. Está por um fio para perder o mandato no Senado.
Iris Rezende (PMDB)
Segundo o secretário de Articulação Institucional do Governo de Goiás, Daniel Goulart (PSDB), o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, e o diretor da empresa para o Centro Oeste, Cláudio Abreu, visitaram na segunda quinzena de maio de 2009 o então prefeito Iris Rezende com duas sacolas. Nelas havia, disse, dinheiro. Testemunha da história: o secretário da Educação e deputado federal Thiago Peixoto, eleito pelo PMDB mas agora no PSD, para desgosto de Iris.
Outra: segundo reportagem da revista Veja, dados do Coaf, o órgão do governo federal que identifica transações suspeitas de lavagem de dinheiro, a Delta Construções, considerada braço empresarial de Cachoeira, repassou R$ 6 milhões a uma empresa cujo proprietário trabalhou para a prefeitura durante a gestão de Iris.
O dono da empresa, Alcino de Souza, foi nomeado para cargo comissionado no município, e disse à Veja que sacou o dinheiro na conta e entregou a Fábio Passaglia, ex-diretor de Compras e Licitações da prefeitura de Goiania e presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Aparecia (Ippua), que cuida de obras na administração de outro peemedebista, Maguito Vilela, em Aparecida. Fábio, disse Iris depois, foi para a prefeitura por indicação de Thiago, seu amigo de infância.
Paulo Garcia (PT)
O prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), assinou Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, oficializando a suspensão junto ao órgão de obras tocadas pela Delta Construções. Uma das obras contestadas é a do Mutirama. Gravações apontam conversas de assessor de Garcia com vereadores para evitar uma CPI. Segundo o prefeito, a prefeitura ficou de contratar de forma emergencial empresas para substituir os trabalhos que estavam sendo executados pela Delta Construções.
Outro ponto negativo para Paulo Garcia: ele chegou a anunciar publicamente o cancelamento do contrato da prefeitura com a Warre Engenharia para as obras do Mutirama, mas nada fez; o contrato, portanto, foi mantido. Meses depois, a suspensão do mesmo contrato da obra foi determinada pela Justica Federal, e a Warre Engenharia, incluída entre as empresas com negócios ligados a Carlos Cachoeira.
Ainda sobre Paulo: candidato à reeleição em outubro, terá de conviver, por seu lado, com o desgaste do julgamento do mensalão, e por outro, com os desdobramentos do caso Cachoeira, que chegou a Iris, seu principal cabo eleitoral, e a ele próprio, com os contratos da Delta na prefeitura e os assessores que pediram para sair por aparecem em gravações da Polícia Federal relacionadas à Operação Monte Carlo.
Rubens Otoni (PT), Vanderlan Cardoso (PMDB) e Júnior Friboi (PSB)
O primeiro teve vídeo divulgado pela revista Veja em que aparece negociando apoio financeiro de Cachoeira para sua campanha à Prefeitura de Anápolis, em 2004. O segundo, foi citado por ter feito doação, durante sua campanha ao governo, em 2010, para um jornal ligado ao Cachoeira. O terceiro é sócio da JBS, que quis comprar a Delta e recuou, e está na linha de tiro dos tucanos.
Os três tem três coisas em comum, neste momento: são oposição a Marconi Perillo, são pré-candidatos a governador em 2014 e estão em completo silêncio sobre Cachoeira. Evitam tocar no assunto e adotaram estratégia de ir para o interior do Estado para não ter de falar para a imprensa da capital.
Maguito Vilela (PMDB)
A informação já havia saído no 247 e agora está no site Congresso em Foco: “Em mais um desdobramento das revelações da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que desmontou a quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira, o Ministério Público de Goiás abriu dois procedimentos que, se aceitos pela Justiça, podem levar à prisão e ao bloqueio de meio milhão de reais em bens e contas bancárias do ex-governador e ex-senador de Goiás Maguito Vilela (PMDB). Hoje prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito contratou a Delta Construção para fazer a coleta de lixo na cidade que administra, que é a segunda maior cidade do estado. De acordo com a PF e a Procuradoria Geral da República, Cachoeira e o senador Demóstenes Torres são sócios ocultos da empreiteira de Fernando Cavendish.”
O prefeito de Aparecida de Goiania, ja foi governador do estado e e citado como a pessoa que entregou a loteria do estado para cachoeira. Quando foi senador Maguito também atuou para a legalização dos bingos no pais, projeto de sua autoria e que foi motivo de conversas entre Cachoeira e Demostenes.
Alcides Rodrigues (PP)
A contratação dos carros da Delta para a Secretaria de Segurança Pública foi feita durante o governo do ex-governador Alcides Rodrigues (PP). O contrato é alvo de desconfiança e é usado pelo atual governo para tentar dividir responsabilidades com o anterior.
Mensalão X Cachoeira
Uma palavra: todos os candidatos a prefeito e vereador do PMDB e PT em Goiás vão sofrer as consequências do julgamento. Inevitável. A aliança entre os dois partidos está selada, a partir de Goiânia, e um terá de conviver com o outro na adversidade.
O mesmo vale para todos os candidatos ligados ao governador de Goiás, Marconi Perillo.
Ou seja: está todo mundo pago pra ficar calado. Ou não?
Tudo junto e misturado
Além dos envolvidos acima, foram citados no caso Cachoeira ou têm o que explicar sobre negócios com a Delta Construções, políticos e não políticos: deputados federais Leonardo Vilela e Carlos Alberto Lereia (PSDB), Armando Vergílio (PSD), Sandes Junior (PP), Jovair Arantes (PTB); os prefeitos de Anápolis, Antônio Gomide, de Aguas Lindas de Goiás, Geraldo Messias (PP), e de Nerópolis, Gil Tavares (PTB); os secretários estaduais de Educação, Thiago Peixoto, e de Segurança Pública, João Furtado Neto; o presidente da Agetop, Jaime Rincon; o ex-presidente do Detran, Edivaldo Cardoso; a ex-chefe de gabinete, Eliane Pinheiro, e o ex-Assessor Especial da Governadoria, Lucio Fiuza; o ex-prefeito de Catalão e presidente estadual do PMDB Adib Elias, e os vereadores de Goiânia Elias Vaz (PSOL), Santana Gomes (PSD) e Mauricio Beraldo e Geovani Antônio (ambos PSDB).
Naturalmente, todos ou estão diretamente na política, com cargos e mandatos, ou indiretamente, como indicações.
Ministério Público
Também entra no rol de questionados o Ministério Público de Goiás. O procurador-geral de Justiça, Benedito torres, irmão do senador Demóstenes Torres, é citado em conversa com vereadores, em ação de interesse de Cachoeira para que o beneficiasse, via MP, em negócios próprios, como a investigação de licitação das obras do Mutirama.
Um desgaste contornado foi a ida do promotor Umberto Machado para a Secretaria de Meio Ambiente. Os promotores agiram nos bastidores e derrubaram a autorização da instituição para que assumisse o cargo. Ele teve de sair.
Mas saiu chorando por Marconi, e fazendo esta declaração de amor: “Vim para compor o seu governo por acreditar na sua firmeza de propósito, na sua honestidade... (aqui, o momento do choro)... no seu caráter. E, talvez, em função das questões que todos têm conhecimento também, há uma atmosfera que não corresponde à realidade, e o tempo dirá que o senhor está com a verdade.” Outro constrangimento anotado.
Goiás é bom
Isso não quer dizer que em Goiás só tem notícia ruim e o Estado está perdido. Nada disso. Goiás é um Estado com crescimento industrial forte, agronegócio consolidado e de beleza natural por todos os cantos. Não tem culpa se os políticos estão com culpa no cartório. O Estado está acima dos erros de seus filhos. Vai sobreviver.
Ao fim de tudo, o que pode acontecer? Como no poema de Drummond... “Chega um tempo em que não se diz mais meu amor, porque o amor resultou inútil... Tempo de absoluta depuração.”
No 247
Leia Mais ►

Promotores querem prisão de ex-governador goiano

Atual prefeito da cidade de Aparecida de Goiás, o ex-governador e ex-senador Maguito Vilela é outro político goiano acusado de envolvimento com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Ele é acusado de beneficiar a Delta em contratos de recolhimento de lixo na cidade que administra
Para procuradores, Maguito direcionou licitação para
 beneficiar a Delta em Aparecida de Goiânia
Em mais um desdobramento das revelações da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que desmontou a quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira, o Ministério Público de Goiás abriu dois procedimentos que, se aceitos pela Justiça, podem levar à prisão e ao bloqueio de meio milhão de reais em bens e contas bancárias do ex-governador e ex-senador de Goiás Maguito Vilela (PMDB). Hoje prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito contratou a Delta Construção para fazer a coleta de lixo na cidade que administra, que é a segunda maior cidade do estado. De acordo com a PF e a Procuradoria Geral da República, Cachoeira e o senador Demóstenes Torres são sócios ocultos da empreiteira de Fernando Cavendish.
Na avaliação de quatro promotores do Ministério Público de Goiás (MPGO), Maguito favoreceu a Delta numa licitação de “cartas marcadas”, com indícios de “um acordo monetário” e “espúrio” entre o prefeito e a construtora, que incluiu a prestação de serviços mesmo sem contrato.
Os promotores Élvio Vicente da Silva, Ana Paula Vieira Nery, Fernando Krebs e Villis Marra Gomes ajuizaram uma ação civil pública contra Maguito; a Delta; o ex-diretor da empresa no centro-oeste, Cláudio Abreu; a prefeitura, e uma série de servidores do município na Vara de Fazenda Pública de Aparecida de Goiânia. Pelo suposto favorecimento à empreiteira, eles pedem o cancelamento do contrato atual e a realização imediata de uma nova licitação. Mais: exigem que sejam bloqueados, liminarmente, R$ 20 milhões em bens e nas contas da Delta e R$ 3,5 milhões no patrimônio e contas de Maguito e dos outros acusados – meio milhão cada um. O Ministério Público ainda pede a cassação do mandato do prefeito, a suspensão dos seus direitos políticos dos demais acusados por cinco a oito anos, pagamento de multa e indenização, além da proibir todos de contratarem com o governo por cinco anos. O caso está nas mãos do juiz Gustavo Dalul Faria. Veja a íntegra da ação.
Como só um procurador de Justiça pode processar um prefeito, os promotores também enviaram uma representação criminal contra Maguito ao procurador-geral do MPGO, Benedito Torres, que a encaminhou ao órgão especializado em ajuizar ações contra prefeitos (íntegra do despacho). Pelos mesmos fatos narrados na ação civil, eles pedem a prisão do ex-governador. Entre os supostos delitos, estão dispensa ilegal de licitação (três a cinco anos de prisão), fraude em licitação (dois a quatro anos), crime de responsabilidade por deixar de prestar contas (três meses a três anos), prevaricação (três meses a um ano) e falsidade ideológica (um a cinco anos). A Procuradoria Especializada do MPGO analisa os documentos para decidir se oferece ou não denúncia criminal à Justiça.

Trabalho sem contrato


De acordo com um relatório da prefeitura de Aparecida de Goiânia, até 25 de novembro de 2010, a coleta de lixo era feita pela empresa Vital Engenharia Ambiental. Nessa data, a Vital Engenharia teria abandonado o trabalho, deixando a cidade sem o serviço de coleta. No relatório 21/2011, assinado em 2 de fevereiro de 2011, o diretor de Limpeza Urbana, Sebastião Ferreira, e o secretário de Meio Ambiente, Juliano Tadeu Cardoso, dizem que a Delta presta o serviço à cidade “há mais de dois meses”, em substituição à Vital.
O problema é que o contrato efetivo com a prefeitura só foi assinado em 30 de dezembro, como admite Maguito e o advogado terceirizado do município, Roberto Vilela. Houve ainda uma tentativa de contrato emergencial em 15 de dezembro de 2010. Mesmo assim, a Delta estaria trabalhando sem assinar qualquer contrato. Em depoimento à 9ª Promotoria de Justiça da cidade, Juliano Tadeu e Ferreira confirmaram que a Delta já trabalhava bem antes de assinar o contrato.
Roberto Vilela disse que foi a prefeitura quem fez, diretamente, a coleta de lixo a partir de 26 de novembro até 30 de dezembro de 2010, sem ajuda da Delta. Ele afirmou que Juliano Tadeu e Ferreira estavam “totalmente equivocados” ao prestarem as informações no documento e nos depoimentos ao Ministério Público.
De acordo com despacho da comissão de licitação, em 15 de dezembro passado, a Delta já havia vencido a licitação que hoje lhe garante coletar lixo na cidade até 2015, pelo preço de R$ 51,4 milhões ou R$ 857 mil por mês. Mas o advogado Roberto Vilela informa que as duas empresas que perderam a disputa, a Leão Leão Ambiental e a própria Vital Engenharia recorreram e suspenderam a contratação. Por isso, a prefeitura optou por contratar emergencialmente a Delta em 15 de dezembro.

Falsidade ideológica


Documentos colhidos pelo MPGO mostram que, num só dia, a administração de Maguito fez o convite à empreiteira, assinou o contrato e emitiu uma nota de empenho, que reserva dinheiro no orçamento para pagar o fornecedor. “Vários atos feitos mentirosamente num único dia – indícios de falsidade ideológica”, comentam os promotores de Justiça.
Mas tudo isso foi cancelado por Maguito. Segundo os promotores, o objetivo foi escapar da fiscalização do Tribunal de Contas dos Municípios, para quem deveria prestar contas do negócio. Enquanto isso, sustenta o MPGO, a Delta trabalhava e deixava a dívida, de R$ 604 mil, para depois. “A empresa não ficaria no prejuízo de mais de meio milhão de reais, gratuitamente, sem uma contrapartida”, analisam os promotores. A contrapartida seria ganhar a licitação definitiva, que realmente foi vencida pela Delta e cujo contrato foi assinado quinze dias depois. Houve “claras evidências e sintomas de que houve um direcionamento ou um favorecimento para que a empresa Delta fosse vencedora”.
O problema é que, de acordo com despacho da comissão de licitação, usado na própria denúncia do MPGO, a licitação principal já havia sido vencida pela empreiteira de Carlinhos Cachoeira e Fernando Cavendish. A reportagem procurou um dos promotores do caso na noite de quarta-feira (6), mas não obteve retorno dos telefonemas e mensagens.

“Conversas de bastidores”


Para os promotores, na contratação emergencial, “a escolha da Delta (…) foi feita a partir de “‘conversas de bastidores’ entre o prefeito e ‘alguém’ da Delta”. O advogado Roberto Vilela afirma que o cancelamento do negócio emergencial se deveu ao julgamento dos recursos da Leão Leão e da Vital no processo de licitação definitiva. Com isso, passou a ser desnecessário a contratação de emergência. Bastava assinar o definitivo, o que aconteceu em 30 de dezembro. Até lá, garante o defensor da prefeitura, a Delta não trabalhou – o que seria ilegal.
A licitação foi vencida pela Delta ao preço de R$ 51,4 milhões, enquanto a segunda colocada, a Leão Leão, ofereceu preço de R$ 52,6 milhões. Mas a prefeitura aumentou o valor do contrato da Delta para R$ 56,4 milhões, superior ao preço da segunda classificada. Maguito disse ao site que esse aditamento não existiu. Afirmou que o valor seria aumentado, sim, mas desde que a Delta fizesse um serviço extra de compactação de lixo nas ruas onde não há asfalto em Aparecida de Goiânia. De acordo com o prefeito, esse trabalho adicional não foi feito e, portanto, nada foi pago além do contratado na licitação.
No Congresso em Foco
Leia Mais ►

Apagão dos transportes em São Paulo não merece editorial?

O Folhão trouxe neste feriado (ontem) um editorial cobrando das autoridades a "precariedade" em que se encontram os aeroportos brasileiros, e das companhias aéreas que cumpram a determinação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e publiquem em seus portais o percentual de vôos atrasados e cancelados.
O editorial cobra o governo quanto a necessidade de maior fiscalização no setor por parte da ANAC. Até aí, tudo bem, realmente são 33 milhões de passageiros/ano viajando pelos ares, brasileiros que felizmente, agora sim, podem dispor de um transporte, de um benefício antes destinado a poucos. É natural que problemas ocorram e perfeito que o jornal cobre essas mudanças da parte do governo.
Agora, eu fiquei pensando neste conceito de situação de "precariedade". Ela existe não só para os 33 milhões de brasileiros que agora sim podem voar mas, também, para aqueles 4 milhões de paulistanos que dia sim e no outro também sentem na pele precariedade parecida.

Caos nos transportes públicos em São Paulo? Quem disse?

São os que se utilizam do metrô e dos transportes de subúrbio da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que não apenas trafegam como sardinhas em lata pelos trilhos de São Paulo, mas tem que aguentar lentidão e panes sucessivas nos sistemas de trens e metrô, os mais lotados do mundo.
E, mais, trafegam desde o choque dos dois três na Linha 3 do Metrô há duas semanas sob uma grande insegurança, fruto da ineficiência acumulada por sucessivas administrações tucanas ao longo dos últmos 30 anos no Estado. Desconforto, precariedade, insegurança, desrespeito ao trabalhador que precisa chegar no horário ao local de trabalho e merece voltar em segurança para o lar.
Pensando nisso, procurei nos demais editoriais do jornalão nesta 5ª algum sobre o verdadeiro apagão no transporte público na capital. Nada, nenhuma referência, em nenhum. Será que o jornalão só vê apagão quando olha pra cima, para o governo federal?

Mídia cúmplice

Isso sem falar da cobertura diária da mídia em geral sobre o tema em São Paulo. Cúmplice, quase pedindo desculpas, citando o mínimo possível ou nunca o governo e os responsáveis pelo caos, o apagão de transportes públicos de massa que vivemos.
Só citam nomes do governante e seu partido quando apresentam o outro lado adversário dos tucanos. E nunca em editoriais ou acusando como fizeram no caso do governo Lula, na chamada “crise da aviação” que a mídia transformou em “apagão dos aeroportos” num passe de mágica.
Vocês se lembram. O fato, meus caros, é que salta aos olhos a diferença e o jornalismo chapa branca tucano da mídia paulista. Começando pela inefável rede Globo.

Rotina de panes no tranporte tucano continua

Enquanto isso o metrô continua entrando em pane toda semana na capital paulista. Os trens da CPTM, que servem os subúrbios da Grande São Paulo idem. Só na semana passada, a linha 9 da CPTM ficou dois dias com problemas - lentidão na circulação e maior período de chegada entre uma estação e outra.
Na antevéspera do feriado, idem. A mesma linha apresentou o mesmo problema e só conseguiram resolver depois de três horas (das 11h55 às 15h). E na véspera, problema semelhante levou pane à linha 8 da CPTM. Metrô e trens tucanos transportam milhões por dia, muito mais do que as empresas aéreas. Não merecem um editorial de cobrança contra o descalabro em que se encontram?
No Blog do Zé
Leia Mais ►

"Banqueiro de Deus" revela trama diabólica

Polícia encontra na casa de Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do Banco do Vaticano, um dossiê que dizia: “Se me assassinarem, esta é a razão da minha morte”; escândalo mancha o pontificado de Bento XVI
Um documento obtido pela polícia italiana na casa de Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do Banco do Vaticano, amplia um dos maiores escândalos de todos os tempos na Igreja Católica. Era um pequeno pacote, com vários documentos, onde se lia: “Se me assassinarem, esta é a razão da minha morte”. Ou seja: o “banqueiro de Deus” temia ser assassinado por homens da própria igreja.
Tedeschi comandou o Instituto para as Obras da Religião (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, entre setembro de 2009 e maio deste ano. Saiu em meio a um escândalo de vazamentos da Santa Sé, que já vem sendo chamado de “Vatileaks”, numa referência ao site Wikileaks.
Agora, sabe-se que Tedeschi tentou se proteger contra um possível assassinato. Seus dossiês citam o cardeal Tarcísio Bertone, sempre cogitado como possível papa, e o secretário particular de Bento XVI, George Ganswein, como personagens envolvidos em operações financeiras irregulares.
De acordo com as investigações, o Banco do Vaticano é acusado de funcionar como uma grande lavanderia, incrustada na capital romana, que se presta à lavagem de recursos da máfia e também de donos de grandes fortunas, que mantêm recursos na Suíça.
Um dos responsáveis pelas denúncias é o jornalista Gianpaolo Nuzzi, que escreveu dois livros sobre o caso. O primeiro se chama Vaticano S/A e já foi publicado no Brasil. O segundo, intitulado Sua Santidade, continua inédito.
No 247
Leia Mais ►

Gravadora libera música inédita de Michael Jackson!

Assim que um grande nome das artes se vai, quem fica por aqui faz de tudo para reeditar suas grandes obras e, consequentemente, ganhar dinheiro. Mas ao invés de apenas relançar o álbum Bad, em comemoração aos seus 25 anos de lançamento oficial, a gravadora de Michael Jackson resolveu dar um presente especial para os fãs: uma música inédita, três anos após a morte do cantor!
A faixa Don't be messin' around foi gravada e regravada diversas vezes, desde as sessões do álbum Thriller, e deveria entrar na edição original de Bad (lançada em 1987), mas acabou sendo descartada na escolha final das músicas. A faixa ainda conta com um trecho instrumental de Michael ao piano e, pela primeira vez, podemos ouvir o talento do Rei do Pop com as teclas.

Leia Mais ►

Brasil concede asilo politico a senador boliviano

Roger Pinto Molina
O Ministério das Relações Exteriores, Antonio Patriota, decidiu nesta sexta-feira conceder asilo político ao senador boliviano Roger Pinto Molina, líder da oposição no Congresso do país vizinho. O parlamentar está abrigado na embaixada do Brasil em La Paz desde o último dia 28.
Molina alega sofrer perseguição política por parte do governo boliviano por sua atuação em prol dos direitos humanos. O presidente Evo Morales nega a acusação e afirma que o senador está envolvido em corrupção e desvio de recursos públicos.
Agora o Brasil passa a ser responsável pela segurança de Molina. Autoridades brasileiras deverão garantir a saída do parlamentar da Bolívia e sua chegada ao Brasil.
O anúncio foi oficializado por meio de um comunicado do Ministério das Relações Exteriores, que explica que a decisão foi tomada "à luz das normas e da prática do Direito Internacional Latino-Americano". O governo da Bolívia, no entanto, disse que o Brasil não comunicou oficialmente o país sobre a decisão.
Leia Mais ►

A crise da razão e a destruição do mundo

Grandes pensadores, e não apenas os sacerdotes menores, recorrem ao mito de Adão, a fim de associar o fim da inocência ao pecado. Uma teologia mais alta repelirá a idéia ortodoxa: Deus, existindo, não criaria seres dotados das sementes da inteligência para serem parvos. Ao dotá-los da mente, dotou-os, naturalmente, da dúvida e da busca da verdade. Da busca da verdade, ainda que não do encontro desta mesma verdade. A verdade absoluta, como todas as idéias que ocupam a inteligência do homem, é uma categoria de fé. Apesar da advertência de que só ela nos libertará, nunca a teremos, a não ser cada um de nós em sua própria fé. Aquilo em que cremos – mesmo a dúvida – é a nossa verdade.
Em todos os tempos, convivemos com o conflito entre os grandes pensadores e os reitores das sociedades políticas. O poder – e a tese se alicerça nos fatos históricos – sempre esteve associado ao medo, à loucura e à fome do ouro. Cabe, assim, aos que pensam, moderar os desatinos dos poderosos e – quando a situação de insensatez chega ao insustentável – favorecer o retorno à normalidade. Esse retorno se faz com as revoluções, não necessariamente sangrentas. Na visão de Vitor Hugo – e a citação é sedutora – o poder muitas vezes se sustenta em ficções rendosas, e a tarefa da revolução é a de promover o retorno da ficção à realidade.
A realidade está submetida à necessidade, que é a grande legisladora, e que atua, de tempo em tempo, para corrigir os seus desvios, ou seja, restituir o real ao campo do necessário. É assim que podemos pensar um pouco na questão chave de nossos dias, a da preservação da vida na Terra.
Uma inteligência do Universo, se houvesse alguma além dos homens – mesmo sendo a divina – talvez chegasse à conclusão de que a espécie humana perdeu a sua razão de ser. A mente dos homens – seu atributo maior – abandonou a sua razão essencial, que era a de contemplar o mistério do universo, tanto nas grandes constelações e galáxias, como no vôo de um inseto e buscar o seu sentido. Ao contrário, vem pretendendo fazer do Universo um submisso servidor.
O homem não convive mais com o mundo, mas o agride com a plena consciência do crime. Ele pode, e deve, usufruir dos bens do planeta, mas não destruí-los, sem que se destrua a civilização que conhecemos. Há uma razão para que a visão estética do mundo e a construção de planos mentais se reúnam no vocábulo grego teoria, contemplação. Conciliar a contemplação do mundo com o projeto, que transforma o homem em criador e êmulo da natureza, é associar a idéia do desígnio, de Prometeu, à da esperança, de Epimeteu.
Há quarenta anos que a comunidade internacional se reúne periodicamente, para discutir o estado do planeta. O Jornal do Brasil, ao noticiar a Primeira Conferência do Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, deu às matérias um titulo geral que continua válido: A Terra está doente. A agressão continua, até mesmo no simulacro de providências, que agravam o problema, em lugar de resolvê-lo, como as ONGs e os protocolos daqui e dali, para iludir os bem intencionados e fazer a fortuna dos espertos.
A ciência em pouco tem contribuído para resolver o problema. Ao contrário, as grandes descobertas científicas, sobretudo as do campo da química e da bioquímica, têm agravado o quadro de caquexia geral do planeta – como é o caso dos defensivos agrícolas e da engenharia genética, com as sementes transgênicas. As multinacionais do agronegócio, que criam sementes transgênicas e agrotóxicos assassinos, se associam aos gananciosos produtores de grãos, senhores de vastas extensões de terras férteis.
Esses empreendedores, se optassem por uma agricultura mais racional, teriam, segundo alguns especialistas, mais retorno econômico e preservariam o solo, as águas, o meio ambiente, enfim, o futuro. Um exemplo da insensatez da tecnologia capitalista na produção rural é o caso da superprodução de leite na Europa, com vacas alimentadas com proteínas vegetais – como a soja – importadas dos paises em desenvolvimento. Com o excesso, produzem leite em pó, que é depois reconstituído para alimentar os bezerros – e liberar mais leite para o mercado, ou seja, para a superprodução e o retorno aos bezerros. É o lucrativo ciclo da insensatez.
A razão capitalista impede que esse leite possa salvar da morte milhares de crianças na África. É provável que nessa razão prevaleça a idéia dos clubes de blidelberg do mundo (que são vários) de que o planeta será muito melhor e mais saudável sem os pobres.
Entre outras formas de tornar impossível a sobrevivência dos homens e de outras manifestações de vida no planeta, encontra-se, em primeiro lugar, esse modelo de produção de nossos dias, que se revela no prefixo trans. É um recurso da tecnologia, como tantos outros, para servir ao lucro imediato, à fome do ouro, a que se refere Lucrécio.
A Conferência que se abre no Rio não conduzirá a resultados realmente importantes se for movida pela idéia de que a ciência e os bons sentimentos poderão salvar o mundo. A questão é política, de poder. E enquanto o poder estiver, como está hoje, na mão dos banqueiros e dos grandes conglomerados industriais, que controlam as universidades, os laboratórios de pesquisas, os grandes meios de informação universal, e remuneram cientistas, tecnólogos e, sobre todos eles, os políticos e os policy makers, o planeta continuará a ser deliberadamente assassinado, em benefício de algumas famílias. Elas mesmas já desertaram da espécie humana e, em seu egoísmo doentio, vivem as ficções rendosas.
O mundo está à espera de que a necessidade imponha aos homens a ação imediata para o retorno à realidade, enfim, à normalidade, à solidariedade que salvará o planeta. E convém lembrar que norma, em latim, é a denominação do esquadro, que marca o ângulo reto, princípio imemorial das construções sólidas.
Leia Mais ►

Os pesos e as medidas dos mensalões

Nunca na história deste país, como diz Lula, o STF esteve tão exposto aos humores da mídia e às pressões ditas “populares” em torno de julgamentos.
O recente julgamento da Lei do Ficha Limpa é um exemplo, com ministros acuados pela repercussão de suas opiniões e um julgamento moroso que deixou diversos políticos em clima de incerteza e manteve resultados eleitorais pendentes de confirmação.
Agora temos uma situação esdrúxula gerada pela proximidade do julgamento de um dos casos conhecidos como “mensalão”. Vários aspectos são merecedores de profunda reflexão. Uma das reflexões possíveis aponta para uma grave questão: crimes semelhantes sendo tratados de forma distinta.
A razão desse sério desvio reside na pressão da mídia. Infelizmente, em um país ainda em construção, onde a mídia de qualidade existe apenas para poucos, não é de estranhar que muitos, ao invés de noticiar, busquem “editorializar” o noticiário de modo a influir no curso dos acontecimentos.
Considerando que tal situação é do amplo conhecimento, juízes, em especial do STF, deveriam estar mais do que blindados para tentativas de manipulação e de influências indevidas no curso de processos. Sejam elas quais forem.
No caso dos mensalões, vemos uma distinção no tratamento de crimes assemelhados. Tal distinção revela quanto exposto está o STF às pressões midiáticas para agilizar ou retardar as investigações e, até mesmo, dar tratamento desigual a assuntos iguais.
Por exemplo, o conhecido mensalão mineiro, que envolve políticos do PSDB, caminha lentamente ao largo da lupa da mídia e razoavelmente incólume das pressões indignadas. Na semana passada, a audiência do caso quase passou despercebida da atenção geral.
Comparando-se os dois mensalões, percebem-se fortes incongruências no tratamento de denúncias e de acusações semelhantes.
O mensalão mineiro tramita morosamente desde 1998 e foi desmembrado. Políticos com mandato estão sendo julgados no STF; pessoas sem mandato estão sendo julgadas na primeira instância. Isso significa que, além da lentidão no andamento do processo, houve um desmembramento que beneficia – justamente – quem não é autoridade com o duplo grau de jurisdição. Nada disso ocorreu no mensalão do PT, cuja eclosão se deu em 2005, isto é, sete anos depois de iniciado o processo de Minas Gerais!
Porém, os achados da Polícia Federal no caso do mensalão mineiro são tão extravagantes quantos os encontrados no mensalão do PT, e que serão comprovados no mensalão candango.
Em tempo: antes que me acusem de querer minimizar as condutas identificadas nas investigações dos mensalões, devo dizer que tenho convicção de quem em ambos os casos houve condutas ilegais passíveis de condenação política e judicial. Não tenho dúvidas quanto aos malfeitos; tenho dúvidas acerca das responsabilidades dos nomes aventados.
Preocupa-me, no entanto, que, no afã de se fazer justiça, se atropele o estado de direito, não se reconheçam direitos básicos de ampla defesa e deixe de existir um ambiente saudável para o julgamento de tão importantes questões. Não pode haver dois pesos e duas medidas.
Murillo de Aragão é cientista político
Leia Mais ►

Democracia e falência da moralidade da direita

O episódio envolvendo a conversa do Presidente Lula com o Ministro Gilmar Mendes só adquiriu notoriedade e importância, em função do debate político que atravessa marginalmente a sociedade brasileira. Um debate que se faz através de códigos, de discursos não explícitos, de alusões ligeiras a temas relevantes, que refletem visões sobre o estado e o modelo de desenvolvimento em curso e também sobre os efeitos da crise mundial sobre este modelo. O encontro, na verdade, serviu para rememorar posicionamentos anteriores sobre estes dois temas – Estado e modelo de desenvolvimento - que vem marcando a última década. O resto é manipulação política para, mais uma vez, a grande mídia tentar desgastar Lula, o Presidente que iniciou uma grande virada democrática e social no Brasil, contra as idéias da direita conservadora e do neoliberalismo, hegemônicos no período anterior.
A grande mídia tem composto a agenda política do país em torno da questão da corrupção, como nunca ocorrera. É uma agenda importante e permanente do país e muito se avançou, até agora, com as ações do governo federal na Controladoria Geral da União, com a reorganização e a autonomia investigativa da Polícia Federal e, até mesmo, com algumas denúncias fundadas que saíram na grande imprensa, que ajudaram o Ministério Público nas suas tarefas de fiscalização da legalidade. Mas a transformação da corrupção no assunto político principal da República obedece a outros objetivos: transferir à esquerda que governa todas as mazelas do país, para esconder o fracasso político dos governos anteriores, que não só foram ineptos para governar, mas também incompetentes para atacar a corrupção enraizada no Estado, promovida diretamente por setores da iniciativa privada mancomunados com agentes públicos.
A oposição conservadora de matiz neoliberal, que promoveu as privatizações selvagens, que pretendia privatizar a Petrobras, vender ativos públicos que hoje se configuram como “chaves” para enfrentar a crise - como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil - a mesma oposição que defendia e defende uma política externa de subserviência aos EUA (e não relações de cooperação interdependente com soberania) - esta oposição - tinha adquirido através da campanha midiática, formalmente contra a corrupção, a condição de paradigma da moralidade.
O processo teve realmente efeito em vastos setores das classes médias, mas o povo de baixa renda, que ganhou com o emprego, com a renda, com o Pronaf, com o Prouni, com os aumentos reais do salário mínimo, com as centenas de obras públicas, com o bolsa-família, não se enganou. O moralismo udenista voltou-se contra a própria direita e a sua saída agora é recuperar o mensalão.
Esta falência “múltipla dos órgãos” oposicionista tem conseqüências negativas e positivas para a democracia. Negativas, porque ajuda a campanha contra os partidos e a esfera da política, contra os políticos em geral que, “na sua maioria, estão aí para roubar”, como disse recentemente um conhecido jornalista. A afirmativa permitiria qualquer um dizer que “todos os jornalistas estão aí para mentir e manipular informações”, o que em ambos os casos não é verdade.
A falência oposicionista, neste momento, também tem conseqüências positivas, pois o debate sobre ética pública, que está em curso, pode abrir espaços para uma discussão de fundo sobre a questão democrática: debate que também pode incidir sobre a recuperação das funções públicas do Estado e sobre o sistema político vigente. Se esquerda que apóia Lula e Dilma acordarem uma agenda mínima, unitária, sobre a reforma política e, ao mesmo tempo, utilizarem a CPI para fazerem um trabalho sério e profundo, este episódio da CPI pode se tornar um grande evento republicano.
Um trabalho republicano exige que as investigações e os debates na CPI não sejam pautados pela mídia, que eles tenham foco, que não se preocupem com as colorações partidárias dos envolvidos, porque o esquema Cachoeira não é um simples evento de criminalização de políticos, mas é um vasto esquema de dominação de partidos pelo crime organizado. É um esquema de interferência na agenda política da nação, para falsificá-la e colocá-la a serviço da corrupção e do atraso neoliberal, inclusive usando para isso - criminosamente, portanto - a liberdade de imprensa e os órgãos de imprensa que se prestam para isso.
A melhor forma de ajudar a recuperação da oposição direitista é transformar a CPI num repto moralista, aproveitando a “onda” anti-Demóstenes (a direita quer se livrar dele), apenas invertendo a mão do que vinha acontecendo contra Lula. Com isso deixando de lado a gravidade do que ocorreu: não apenas atos isolados de corrupção, mas uma conspiração criminosa que usava a luta contra a corrupção para promover uma corrupção ainda maior, a destruição no atacado do espaço político democrático com falsificação de informações, destruição de reputações, negócios ilegais com bens públicos, articulação com o submundo do crime e aparelhamento do estado para fins ilícitos.
Entendo que a esquerda deve pensar que, em todos os partidos, há pessoas - em maior ou menor número - que gostariam de fazer o Brasil avançar na luta contra a corrupção. O udenismo reacionário é que divide o espaço político, entre a oposição “pura” e os “governos corruptos”. Não podemos estabelecer, agora, em função do caso Demóstenes, uma dialética inversa. Ou seja, os que estão no governo são “puros” e progressistas e os que estão na oposição são “falsos moralistas”.
É óbvio que o próprio olhar sobre a corrupção é derivado do lugar social e político que se olha e, segundo esse lugar, a corrupção será vista com mais, ou menos, leniência. Mas há uma questão democrática preliminar, que pode alargar a influência da esquerda e ampliar a base do governo na sociedade: a corrupção pode ajudar a destruir a democracia e também reduzir, ainda mais, as funções públicas do Estado. Esta questão democrática é que deveria ser considerada pela esquerda para dar um destino exemplar à CPI: dar uma nobre função política à CPI, não transformá-la num mero inquérito policial que, de resto, é o espaço real de construção da persecução criminal. Apurar rigorosamente todos os fatos (que servirão para o Ministério Público cumprir as suas funções) e mostrar que a malha grossa do sistema político, erguido sobre o financiamento privado das campanhas, é o grande alicerce da corrupção no Brasil.
Tarso Genro, Governador do Estado do Rio Grande do Sul.
No Carta Maior
Leia Mais ►

Ken Robinson: "As escolas acabam com a criatividade"

Sir Ken Robinson defende de maneira divertida e profunda a criação de um sistema educacional que estimula (em vez de enfraquecer) a criatividade
Vídeo: TED - Ideas Worth Spreading
“Se você não estiver preparado para errar, nunca chegará a criar algo original”, diz Sir Ken Robinson, um dos mais importantes especialistas contemporâneos em criatividade. Nesta palestra, proferida no âmbito da organização TED-Ideas Worth Spreading, ele defende de maneira divertida e profunda a criação de um sistema educacional que estimula (em vez de enfraquecer) a criatividade. Robinson critica a maneira pela qual estamos educando nossas crianças. Propõe uma reformatação radical do nosso sistema educacional e escolar, de modo a que nele se torne possível cultivar e incrementar a criatividade e o desenvolvimento dos vários tipos de inteligência. O vídeo da conferência possui legendas em português.
Leia Mais ►

Blog de Demóstenes vira espaço de cinema

Acusado de envolvimento com chefe de quadrilha e sob risco de perder o mandato, Demóstenes Torres não escreve desde abril no próprio blog, que agora registra resenhas sobre cinema
Demóstenes no passado: sob risco de perder o mandato,
senador abandonou o próprio blog
Desde que um outro lado do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) veio a público, com as revelações sobre seu envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira, preso desde fevereiro, o que atualmente se vê no Senado é um vácuo diário do que foi a figura do oposicionista aguerrido. Ex-presidente atuante da Comissão de Constituição e Justiça, entre 2009 e 2010, e presença assídua na tribuna com o dedo em riste contra o que considerava antiético no governo petista, Demóstenes hoje mal vai ao plenário – e, quando vai, vê-se cada vez mais isolado, espalhando constrangimento entre os pares que o olhavam com admiração, exemplo a ser seguido na política. Quando vai ao Senado, o gabinete é seu refúgio.
O isolamento se repete no outrora combativo Blog do Demóstenes, que desde abril não recebe textos de seu criador. “Parece que o poder de pensar é o que nos torna sinistros”, diz o link para texto localizado sob a foto em que o (cada vez menos) sorridente senador é ladeado por um selo, com as cores do Brasil, em que se lê: “CPI da Corrupção: eu assinei”. No lugar de críticas, por exemplo, a eventuais irregularidades da Delta Engenharia, núcleo financeiro do esquema de Cachoeira; pedidos de informação sobre a prestação de contas do Programa de Aceleração do Crescimento; ou mesmo reflexões sobre o iminente julgamento do mensalão, marcado para 1º de agosto no Supremo Tribunal Federal, o que mais se lê agora na página pessoal de Demóstenes é… crítica de cinema.
Quem passa a assinar os textos postados é João Paulo Teixeira, espécie de colaborador cultural que passou a abastecer o conteúdo do blog, em épocas de reticência por parte do senador. “Eu não estou falando nada. Meu advogado fala por mim, tá bom?”, disse Demóstenes no mais recente contato feito pela reportagem, referindo-se a Antônio Carlos de Almeida Castro, que capitaneia sua defesa – bem como a da cinematográfica atriz Carolina Dieckmann. “Carolinda” Dieckmann – como gosta de brincar o colunista do jornal O Globo Ancelmo Gois, quem primeiro percebeu a falta de Demóstenes em seu blog – recentemente teve sua privacidade virtual violada, e recorreu ao advogado.

Luzes (apagadas) da ribalta

Como bem apontou o colunista de O Globo em sua coluna, entre as mais recentes resenhas de cinema postadas no blog, três delas chamam a atenção pela associação entre título de filme e a realidade vivida por Demóstenes. Citemos três: Os bons companheiros (“Good fellas”, Martin Scorsese, 1990), O delator (“The informer”, John Ford, 1935) e Um sonho de liberdade (“The Shawshank redemption”, Frank Darabont, 1994). “Faz sentido”, observou o colunista, em referência indireta, respectivamente, aos “companheiros” do grupo de Cachoeira; à vasta relação de delações até agora registradas no caso; e à liberdade almejada por qualquer um que sofra as agruras do cárcere. Como Cachoeira, preso desde 29 de fevereiro.
Em outras épocas, talvez o próprio Demóstenes fizesse uma analogia textual entre arte e vida real usando o caso dos petistas e outros agentes que, no governo Lula (2003-2010), foram acusados de participar do mensalão, que consistia na compra de apoio político com dinheiro público desviado. O senador poderia brincar inclusive com o título da película examinada no blog por João Paulo Teixeira, Todos os homens do presidente (“All the president’s men”, Alan J. Pakula, 1976), na crítica postada em 12 de maio.
Em tempo: na seção “Na mídia”, nenhum registro de reportagem de qualquer veículo sobre o envolvimento do senador com Cachoeira, chefe de uma organização criminosa que, desvendada pela Polícia Federal por meio das operações Vegas e Monte Carlo, tinha o jogo clandestino e o tráfico de influência entre suas atividades. Mas há menções indiretas ao caso feitas pelo próprio Demóstenes, por meio do Twitter: “O sofrimento provocado pelos seguidos ataques a minha honra é difícil de suportar, mas me amparo em Deus e na certeza de minha inocência [...]”, diz o post mais recente, de 75 dias atrás, em sintonia com discurso usado no depoimento que fez, em 29 de maio, no Conselho de Ética do Senado, onde enfrenta processo de cassação.
No Congresso em Foco
Leia Mais ►

Os desafios da Rio+20

Los retos de Rio+20

Brasil acoge en Río de Janeiro, del 20 al 22 de junio, la Conferencia de las Naciones Unidas para el Desarrollo Sostenible, llamada también “Rio+20” porque se ­celebra dos décadas después de la primera gran Cumbre de la Tierra de 1992. Asistirán a ella más de 80 jefes de Estado. Las discusiones se centrarán en torno a dos temas principales: 1) una “economía verde” en el contexto del desarrollo sostenible y la erradicación de la pobreza; y 2) el marco institucional para el desarrollo sostenible. En paralelo al evento oficial, también se celebra la Cumbre de los Pueblos que congrega a los movimientos sociales y ecologistas del mundo.
Las cuestiones ambientales y los desafíos del cambio climático siguen constituyendo urgencias mayores de la agenda internacional (1). Pero esta ­realidad está siendo ocultada, en España y en Europa, por la gravedad de la crisis económica y financiera. Normal.
La eurozona atraviesa uno de sus momentos más difíciles a causa del ­fracaso manifiesto de las políticas de “austeridad a ultranza”. La recesión se ha instalado en varias economías, con un desempleo en alza y dramáticas ­tensiones financieras. España, en particular, vive sus momentos más preocupantes desde 2008; peores que cuando ­quebró el banco Lehman Brothers. La economía ha debido someterse a la auditoría de los inspectores de Bruselas. La prima de riesgo se disparó entrando en zona de intervención, y se han vuelto a despertar todas las dudas sobre la solvencia del sistema bancario español, arrastrado por la escandalosa quiebra de Bankia.
Ante el fracaso del Banco de España, y las dudas sobre la credibilidad del sistema financiero, se ha tenido que recurrir a un grupo de firmas “independientes” extranjeras para analizar la morosidad oculta de los bancos españoles (2). Entre los ciudadanos se extiende la idea de que España va a necesitar, de manera más o menos inmediata, el apoyo del Fondo de Rescate Europeo, como ya le ocurrió a Irlanda, Grecia y Portugal. El 62% de los españoles lo teme.
Cunde pues el pesimismo. El premio Nobel de economía Paul Krugman echó leña al fuego cuando, el mes pasado (3), avisó que es “muy posible” que Grecia abandone el euro en el curso de este mes de junio... Una salida de Atenas de la moneda única europea tendría como consecuencia inmediata la fuga de capitales hacia los paí­ses vecinos y la retirada en masa de los depósitos bancarios. Fenómenos que se contagiarían inevitablemente a Portugal e Irlanda y, sin duda, a España e Italia. Krugman vaticinó por cierto que no descartaba que, después, llegara a España y a Italia un corralito bancario (4)...
En esas preocupaciones estamos. Y por eso los ciudadanos europeos siguen con tanta atención la agenda electoral europea: elecciones legislativas francesas el 10 y el 17 de junio; nuevas elecciones griegas ese mismo día 17 de junio. Y la cumbre de Bruselas del 28 y 29 de junio que decidirá por fin si la Unión Europea sigue la senda alemana de la austeridad hasta la muerte, o si adopta la vía francesa del crecimiento y del resurgimiento. Dilema vital.
Pero ello, a pesar de su dramatismo, no debe hacernos olvidar que, a escala del planeta, hay otros dilemas vitales no menos decisivos. Y el principal de ellos es el desastre climático del que será cuestión, también este mes, en Río de Janeiro. Recordemos que, en 2010, el cambio climático fue la causa del 90% de los desastres naturales que ocasionaron la muerte de unas 300.000 personas, con un quebranto económico estimado en más de 100.000 millones de euros…
Otra contradicción: en Europa, los ciudadanos reclaman, con razón, más crecimiento para salir de la crisis; pero en Río, los ecologistas advertirán que el crecimiento –si no es sostenible– significa siempre mayor deterioro del medio ambiente y mayor peligro de agotamiento de los limitados recursos del planeta...
Los líderes mundiales, junto con miles de representantes de gobiernos, empresas privadas, organizaciones no gubernamentales, movimientos sociales y otros grupos de la sociedad civil, se reúnen pues en Río de Janeiro para definir precisamente una agenda global a fin de garantizar la sostenibilidad ambiental y también reducir la pobreza y promover la igualdad social. El debate central estará entre el concepto de “economía verde” que defienden los portavoces del neoliberalismo, y el de “economía ­solidaria”, promovida por los movimientos que creen que sin la superación del modelo actual de “desarrollo predatorio”, basado en la acumulación privada de riqueza, no habrá preservación ambiental.
Los países ricos acuden a Río con esa propuesta principal de la “economía verde”. Un concepto-trampa que se limita a designar, la mayoría de las veces, un simple camuflaje verde de la economía pura y dura de siempre. Un “enverdecimiento”, en suma, del ­capitalismo especulativo. Esos países desean que la Conferencia Rio+20 les otorgue un mandato de las Naciones Unidas para empezar a definir, a ­escala planetaria, una serie de indicadores de medición para evaluar económicamente las diferentes funciones de la naturaleza, y crear de ese modo las bases para un mercado mundial de servicios ambientales.
Esa “economía verde” desea no sólo la mercantilización de la parte material de la naturaleza ­sino la mercantilización de los procesos y funciones de la naturaleza. En otras palabras, la “economía verde”, como afirma el activista boliviano Pablo Solón, busca no sólo mercantilizar la madera de los bosques sino mercantilizar también la capacidad de absorción de dióxido de carbono de esos mismos bosques (5).
El objetivo central de esa “economía verde” es crear, para la inversión privada, un mercado del agua, del medio ambiente, de los océanos, de la biodiversidad, etc. Asignando precio a cada elemento del medio ­ambiente, con el objetivo de garantizar las ganancias de los inversores privados. De tal modo que la “economía verde”, en vez de crear productos reales, organizará un nuevo mercado inmaterial de bonos e instrumentos financieros que se negociarán a través de los bancos. El mismo sistema bancario culpable de la crisis financiera del 2008, que recibió miles de millones de euros de los gobiernos, dispondrá así, a su antojo, de la Madre Naturaleza para seguir especulando y realizando de nuevo cuantiosas ganancias.
Frente a estas posiciones, paralelamente a la Conferencia de la ONU, la sociedad civil organiza en Río la Cumbre de los Pueblos. En este foro se presentan alternativas en defensa de los “bienes comunes de la humanidad”. Producidos por la naturaleza o por grupos humanos, a nivel local, nacional o global, estos bienes deben ser de propiedad colectiva. Entre ellos están el aire y la atmósfera, el agua, los acuíferos –ríos, océanos y ­lagos–, las tierras comunales o ancestrales, las semillas, la biodiversidad, los parques ­naturales, el lenguaje, el paisaje, la memoria, el ­conocimiento, ­Internet, los productos distribuidos con licencia libre, la información genética, etc. El agua dulce empieza a ser vista como el bien común por excelencia, y las luchas contra su privatización –en varios Estados– han tenido notable éxito.
Otra idea que preconiza la Cumbre de los Pueblos es la de una transición gradual entre una civilización antropocéntrica y una “civilización biocéntrica”, centrada en la vida, lo que implica el reconocimiento de los derechos de la Naturaleza y la redefinición del buen vivir y de la prosperidad de modo que no dependan del crecimiento económico infinito. También defiende la soberanía alimentaria. Cada comunidad debe poder controlar los alimentos que produce y consume, acercando consumidores y productores, defendiendo una agricultura campesina y prohibiendo la especulación financiera con los alimentos.
En fin, la Cumbre de los Pueblos reclama un vasto programa de “consumo responsable” que incluya una nueva ética del cuidado y del compartir; una preocupación contra la obsolescencia artificial de los productos; una preferencia por los bienes producidos por la economía social y solidaria basada en el trabajo y no en el capital; y un rechazo del consumo de productos realizados a costa del trabajo esclavo (6).
La Conferencia Rio+20 ofrece así la ocasión a los movimientos sociales, a escala internacional, de reafirmar su lucha por una justicia ambiental en oposición al modelo de desarrollo especulativo. Y su rechazo del intento de “enverdecimiento” del capitalismo. Según esos movimientos, la “economía verde” no constituye una solución a la crisis ­ambiental y alimentaria. Al contrario, se trata de una “falsa solución” que agravará el problema de la mercantilización de la vida (7). En suma, un nuevo disfraz del sistema. Y los ciudadanos están cada vez más hartos de los disfraces. Y del sistema.
(1) Léase Ignacio Ramonet, “Urgencias climáticas”, Le Monde diplomatique en español, enero de 2012.
(2) El País, Madrid, 21 de mayo de 2012.
(3) The New York Times, Nueva York, 13 de mayo de 2012. http://krugman.blogs.nytimes.com/2012/05/13/eurodammerung-2/?smid=tw-NytimesKrugman&seid=auto
(4) “Corralito” es una palabra surgida durante la crisis económica argentina de 2001, cuando ante la avalancha de clientes a los bancos para retirar sus ahorros, el ministro Domingo Cavallo decidió que cada titular de cuenta sólo podría retirar un máximo de 250 pesos por semana. El ministro español de Hacienda, Cristóbal Montoro, declaró, al revuelo causado por la palabras de Krugman, asegurando que un corralito en España es una posibilidad técnicamente imposible.
(5) Pablo Solón, “¿Qué pasa en la negociación para Rio+20?”, 4 de abril de 2012. http://rio20.net/documentos/que-pasa-en-la-negociacion-para-rio20
(6) http://rio20.net/en-camino-a-rio
(7) Léase, “Declaración de la Asamblea de movimientos sociales”, Porto Alegre, 28 de enero de 2012. http://redconvergenciasocial.org/?p=160
Ignacio Ramonet
No Le Monde Diplomatique
Leia Mais ►

80% dos usuários do Facebook ignoram publicidade na rede social

Um estudo realizado pela Reuters/Ipsos, empresa global de pesquisas, indica que 4 em 5 usuários do Facebook não compram os produtos em anúncios ou comentários colocados na rede social.
Entre os 900 milhões de usuários identificados, 80% deles ignoram os anúncios publicitários e não aderem às sugestões que circulam na rede, aponta a pesquisa. A empresa fundada pelo americano Mark Zuckerberg sofreu uma queda de 29% na bolsa desde o mês passado.
44% dos usuários ainda afirmam ter uma opinião negativa sobre a empresa desde sua entrada nas Bolsas de Valores, e 34% dizem passar menos tempo agora na rede social. A pesquisa ainda reforça que publicidade via email é mais efetiva que no Facebook.
Uma possível comprovação destes dados constatados foi a notícia de que a General Motors, uma das maiores montadoras automobilísticas do mundo, iria retirar seus anúncios do Facebook, que custavam 10 milhões de dólares a empresa (aproximadamente R$ 20.300 milhões).
Leia Mais ►

Em defesa do STF

Agora, quando a lama da trinca Cachoeira-Demóstenes-Veja se aproxima de sua cadeira, Gilmar Mendes busca a sua defesa dizendo que há um ataque à instituição do STF
Reza uma história, provavelmente fictícia, sobre Tomás de Aquino, um dos maiores filósofos da Idade Média, que, com muita facilidade e ingenuidade, tornava-se a vítima preferida das brincadeiras dos outros frades. Contam que Tomás estava estudando quando um jovem frade veio chamá-lo para ver uma vaca que estava voando. O filósofo apressou-se para chegar até a janela e vasculhar os céus em busca da vaca. Quando se voltou, desapontado com a inexistência do fenômeno, enfrentou a gargalhada coletiva dos frades, com a ferina frase: “Achei que seria mais fácil ver uma vaca voar do que um frade mentir”.
O ensinamento do santo da Igreja Católica deveria estar fixado em local de muita visibilidade no STF, nossa mais alta Corte Judicial. Se é inconcebível imaginar um frade mentir, o que pensar de um membro do Supremo?
A história contada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a conversa que manteve com o ex-presidente Lula no escritório do jurista Nelson Jobim, é tão inconsistente, contraditória e inverossímil que não necessita nem mesmo que a única testemunha do encontro ateste sua falsidade.
A blogosfera progressista já se encarregou de desmascarar a farsa montada (sempre!) com a ajuda da revista Veja.
Na medida em que a farsa foi sendo desmontada, restava o desafio de desvendar o objetivo que moveu a revista direitista do grupo Abril, o ex-presidente do STF e o ex-governador José Serra, a protagonizar mais uma cena patética no cenário político do país. Estes sim, verdadeiros aloprados da política brasileira.
Além de tentar atingir a imagem do ex-presidente da República, não restam dúvidas de que foi mais uma das tentativas de desviar o foco das investigações da CPMI do Cachoeira que, a cada nova investigação e informação divulgada causa tremores no prédio do grupo Abril e na pernas de uma das cadeiras do Supremo.
Ou serão apenas suspeitas infundadas as informações que apontam que as relações do ministro Gilmar Mendes com o senador Demóstenes Torres (ex-Dem) vão além de uma saudável amizade, e os aproximam na penumbrosa trama montada pelo crime organizado de Goiás?
O ministro Gilmar Mendes, pródigo em ocupar espaços na mídia patronal, a quem não esconde sua condição de partido de oposição ao governo Dilma, tem repetido inúmeras vezes que não possui um histórico de mentiras. A partir de quando ele poderá incorporar esse legado em seu curriculum vitae?
Na eleição de 2010 ele atendeu um telefonema do candidato tucano José Serra (sempre!) pedindo para interromper o julgamento de um recurso do PT contra a obrigatoriedade de apresentação de dois documentos na hora de votar. O ministro atendeu o amigo. O senador Álvaro Dias (PSDB/PR) não viu nenhuma interferência de poderes, muito menos pediu uma CPI para investigar a pressão exercida sobre o STF. A Veja silenciou. A única exceção foi um jornalista da Folha de S.Paulo que registrou o momento do telefonema. Depois, tudo voltou à normalidade da dupla: tanto Serra quanto Mendes negaram a existência do telefonema. Esse fato não poderia contar para o curriculum mencionado?
Ao dar uma entrevista para o jornal Nacional da rede Globo para explicar seu encontro com Lula, Gilmar Mendes estava tão inseguro e nervoso que, num trecho de 3 minutos da entrevista, foram detectados pela empresa Truter Brasil, que faz análises de arquivos de voz, 11 ocorrências de alto risco – alto risco é a maneira de dizer que a pessoa está mentindo. Não deixa de ser um feito surpreendente para quem não tem um histórico de mentira.
O Ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes denunciaram, ainda no governo Lula, que seus telefones foram grampeados pela Agencia Brasileira de Inteligência (Abin), presidida pelo delegado Paulo Lacerda. Mendes usou o fato para dizer que iria “chamar às falas” o presidente da República. O delegado Lacerda perdeu o cargo na Abin. A Veja usou seus informantes privilegiados para fazer mais uma das suas matérias sensacionalistas, sem nenhum compromisso com a verdade e a ética jornalística. Mais tarde, a investigação da Polícia Federal comprovou que não houve nenhum grampo. Esse fato também não deve entrar para o curriculum, uma vez que a mentira pode te sido dita pelo Demóstenes e o Gilmar apenas a ouviu.
O ministro aproveitou a invencionice do grampo telefônico para contratar um especialista em serviços de inteligência, um personal araponga. Contratou o ex-agente da Abin, Jairo Martins, o que prestava o mesmo tipo de serviços para Carlinhos Cachoeira e foi quem gravou o vídeo da propina que originou a denúncia do mensalão. Hoje, esse araponga está preso, juntamente com o Carlinhos Cachoeira e o sargento aposentado da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá – prisões que desfalcaram a equipe de fontes e pauteiros das principais “reportagens” bombásticas da revista Veja.
Agora, quando a lama da trinca Cachoeira-Demóstenes-Veja se aproxima de sua cadeira, Gilmar Mendes busca a sua defesa dizendo que há um ataque à instituição do STF. Seria o mesmo que Demóstenes dizer que quem está sentando no banco dos réus na sua pessoa é o Senado Federal.
Quem atenta contra o STF é o próprio Gilmar Mendes quando faz denúncias vazias e irresponsáveis, como ataque que fez ao presidente da Venezuela, dizendo que Hugo Chávez “prende juiz”.
Já antes de assumir uma cadeira do STF, quando era Advogado da União no governo de FHC – que nos legou esse ministro – Gilmar Mendes recomendava aos agentes do Poder Executivo a não cumprir determinadas ordens judiciais.
Como Advogado da União, quando sofria derrotas judiciais, esse ex-presidente do STF não hesitava em afirmar que o sistema judiciário brasileiro era um “manicômio judiciário”. Quem, sistematicamente, atenta contra as instituições democráticas do país?
Profético foi o artigo do jurista Dalmo Dallari, escrito em 2002 na Folha de S.Paulo: “Se essa indicação [a de Gilmar Mendes] vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional”.
Quinze senadores votaram contra a indicação de Mendes para o STF. Mas prevaleceu o rolo compressor de FHC e ele assumiu uma cadeira na Corte mais alta do sistema que ele considerava ser um manicômio.
Até quando esse senhor continuará tripudiando das instituições e atentando contra a democracia do país?
Editorial do Brasil de Fato
Leia Mais ►

Cinquenta anos sem Marilyn Monroe

Aproveitando o título de um ciclo de seus filmes (Quanto Mais Quente Melhor, O Pecado Mora ao lado, Os desajustados, etc.) em cartaz este mês no Telecine Cult, aproveito para fazer um tributo a MM (1926-1962) que, ao lado de James Dean (este um pouco menos, porque morreu cedo demais) e Marlon Brando (e este ainda menos, porque entrou em decadência, isto é, viveu demais), constituiu o último triunvirato de mitos hollywoodianos produzidos no pós-segunda guerra e já prenunciando a revolução dos costumes que ocorreria a partir dos anos 60, pacote que incluía sexo livre, drogas e rockenroll.
Aliás, a morte de Marilyn aos 36 anos, em 5/8/1962, causada por uma overdose de barbitúricos, foi caracterizada, segundo a versão oficial, como “suicídio acidental”. Morte cujas circunstâncias causaram polêmica na época pois, em virtude de seu relacionamento com os Kennedy (quem não se recorda do “Happy Birthday, Mr.President” cantado por ela, deliciosamente embriagada e em cadeia nacional?), cogitou-se ter sido perpetrada pela própria CIA à guisa de queima de arquivo.
O fato é que MM abalou a América puritana e fundamentalista, apesar da pungente vulgaridade com a qual a própria indústria cinematográfica a revestia, a partir dos cabelos platinados, do falso rebolado (dizem que ela cortava um dos saltos do sapato para simular o famoso andar), das roupas provocantes, dos escândalos de sua vida pessoal cultivados até à vertigem por todos os colunistas de cinema, a começar pelas lendárias Hedda Hopper e Louella Parsons.
Enfim, Marilyn era uma espécie de monstro sagrado cercado de factóides por todos os lados.
Aos aficionados recomendo (se é que ainda existe nas livrarias) sua biografia, Marilyn, escrita por Norman Mailer (Rio, Civilização Brasileira, 1970), um livro de capa dura onde estão encartadas suas fotos mais famosas – desde a do calendário onde pousou nua, “coberta apenas com a música do rádio”, segundo ela mesma, até às últimas clicadas por Richard Avedon, nas quais este consegue captar com extremo requinte sua beleza sutil, rarefeita, inapreensível, de beija-flor, algo que só poderia ser registrado pela câmera cinematográfica.
Mas isto não significa que, profissionalmente, ela não fosse dura de roer: quando perguntaram a Tony Curtis, seu parceiro em Quanto mais quente melhor, qual era a sensação de beijar Marilyn Monroe, este desabafou: “Você já beijou Hitler?”. E estava sendo sincero. Porque ela sabia como ninguém “catimbar” os outros atores para roubar a cena: seus atrasos, os esquecimentos das falas, faziam com que as tomadas fossem obrigatoriamente repetidas zilhões de vezes, de forma que, à medida em que a interpretação de Marilyn melhorava, os demais iam a nocaute.
A propósito, Truman Capote escreveu dois contos – dois testemunhos magistrais sobre MM –publicados em Os cães ladram (Rio, Civilização Brasileira, 1977) e Música para Camaleões (Rio, Nova Fronteira, 1980). Naturalmente, estas são primeiras edições que, em geral, somente escritores conservam; não sei se foram reeditados, embora sejam obras fundamentais.
TC diz: “Monroe? Uma desleixada, na verdade, uma divindade relaxada – no sentido em que uma banana split ou um pudim de cerejas é esparramado mas divino. Os lábios lúbricos, a exuberância loira, as contorções rítmicas, os requebros caricaturais, supostamente deveriam torná-la universalmente reconhecível. No entanto, na vida real, a Monroe não é facilmente identificada. Ela anda pelas ruas de Nova York sem que ninguém a perturbe, acena para taxis que não param, toma suco de laranja à beira da calçada servida por um garçon que sequer desconfia ser a freguesa o objeto de suas mais alucinadas fantasias.” (Bem. É preciso não esquecer que se estava nos anos 50).
“Contudo, é preciso que nos digam que Marilyn é Marilyn, pois, vista de relance, não passa duma beldade de cabaré cuja carreira progride de cabelos oxigenados aos doze anos a um par de maridos confiscados aos vinte e termina aos trinta no fundo dum vidro de Seconal”. (proféticas palavras…)
TC ainda observa: “Mas por fiel que seja ao tipo, ela não pertence a esse gênero, é frágil demais para isso. A personagem que representa, uma figura de cão sem dono pateticamente atrevida, é perfeita e tem um encanto convincente, pois sua imagem na tela e a impressão que ela passa são idênticas: ela é uma órfã, em espírito como de fato, marcada e iluminada pelo estigma da orfandade. Sem confiar em ninguém, ela se esforça como um trabalhador braçal para agradar a todos”.
A sua profunda ansiedade – quem se atrasa nunca menos de uma hora para um encontro é detido por incerteza e angústia, não por vaidade; e é angústia também, a tensão criada pela contínua necessidade de agradar, a responsável por suas dores de garganta, unhas roídas, palmas úmidas, e risadinhas histéricas – induz a uma pena terrível que o fascínio de seus trejeitos não disfarça: que encanto pode ser mais poderoso, mais sedutor, mais desarmante, que o duma celebridade festejada que desperta nossa compaixão?
A propósito, no título de um desses contos, Truman Capote a define como “Uma criança linda”.
Inapreensível, inesquecível Marilyn Monroe.
Márcia Denser
No Congresso em Foco

Leia Mais ►

Biografia de Getúlio abre guerra entre intelectuais

Lira Neto (esq.), autor da trilogia política que começa a ser publicada pela Companhia das Letras, apresenta como inéditos documentos que, segundo outros autores, como Juremir Machado (dir.) já eram amplamente conhecidos; divulgação do “ineditismo” começou pela revista Veja
Getúlio Vargas foi, sem dúvida, o maior político brasileiro de todos os tempos. É ele quem ainda divide o imaginário nacional e alimenta o confronto entre aqueles que defendem um capitalismo de estado e os adeptos de uma economia mais liberal. Portanto, estudos e biografias sobre Getúlio são sempre iniciativas louváveis. A mais recente é a trilogia da Companhia das Letras, escrita por Lira Neto, autor de outras biografias de sucesso, como a do Padre Cícero.
No caso de Getúlio, no entanto, Lira Neto está no meio de uma grande polêmica. Ele apresentou como inéditos documentos que, segundo outros autores, já haviam sido publicados há vários anos. A divulgação do “ineditismo” começou por uma nota publicada na coluna Radar, de Lauro Jardim, na Veja. Leia abaixo:
Um Getúlio Vargas surpreendente emerge das páginas de Getúlio, o primeiro volume da trilogia que o jornalista Lira Neto lança pela Companhia das Letras em maio. Uma das revelações do livro é o discurso de formatura do jovem Vargas, na Faculdade de Direito de Porto Alegre,em 1907.
Ali, aos 25 anos, surge um Vargas seduzido pela filosofia de Nietzsche (“esse alucinado genial”) e crítico à condição da mulher de então (“Amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal”).
Noutro trecho, investe contra o cristianismo (“A moral cristã é contrária à natureza humana, inimiga da civilização”) e ataca sua moral sexual (“O cristianismo desnaturou a grandeza da sexualidade” ou seja, “a união dos seres numa transfusão do magnetismo amoroso, considerado pelos cristãos como um comércio impuro”).
Se hoje tal discurso já causaria polêmica para um político, há cem anos impediria qualquer carreira de decolar. Por isso, os anos se passaram e Vargas trancafiou o libelo, do qual nunca mais se teve notícia.
Escondeu o seu conteúdo da própria família. Em 1977, Alzira, sua filha, doou uma série de documentos à Fundação Getúlio Vargas (FGV ), mas, por escrito, recomendou expressamente sobre o texto inflamado: “não pode e não deve ser publicado, sob hipótese alguma”.
A recomendação, ainda bem, não foi respeitada por Lira Neto.
Ocorre que os tais documentos inéditos já haviam sido publicados. Um dos intelectuais a denunciar a questão foi Juremir Machado – por sinal, autor de um romance histórico sobre Getúlio, que também fez relativo sucesso. Fosse em outro país, diz ele, estaríamos diante de um escândalo de grandes proporções, envolvendo uma fraude intelectual na maior editora do País. Leia, abaixo, o artigo de Juremir:
Caso Lira Neto, ou Brasil, o país da indiferença e da impunidade
Sim, estou chocado com o que chamarei de Caso Lira Neto.
Fosse na França, país de grandes historiadores, seria um escândalo.
Se um jornalista, penetrando na campo da historiografia, dissesse ter descoberto documentos e informações inéditos sobre a Revolução de 1789 e alguém provasse imediatamente se tratar de material requentado, intelectuais marchariam de faca nos dentes para denunciar a fraude, a falsificação, a tentativa de manipulação mercantilista do passado e do presente.
Editora e mídia seria duramente atacadas.
Haveria manifestações de repúdio. Intelectuais se sentiriam ultrajados.
O caso Lira Neto, com sua biografia de Getúlio Vargas, é sintomático: explicita a ignorância e a má-fé de jornalistas, a conivência da mídia, a indiferença da academia, o conluio entre uma grande editora e certos veículos de comunicação.
Lira Neto poderia ter dito que abordou melhor tema, que explorou melhor a documentação, que interpretou melhor, mas não poderia ter dito que descobriu o discurso de formatura de Getúlio Vargas (abordado e citado antes por Fernando Jorge), que foi o primeiro a manusear o processo de um crime cometido pelos irmãos Vargas em Ouro Preto (amplamente citado por Augusto de Lima Júnior)  e que inocentou Getúlio de um crime cometido por um homônimo contra um índio (esclarecimento que se encontra no livro de Lutero Vargas, citado, entre outros, por mim). Essa tentativa de legitimação é um embuste, uma trapaça, um lance desonesto, uma atitude entre infantil e arrogante de alguém que parece apostar na impunidade e na certeza de que ganhará a disputa por ter a força midiática do seu lado, zombando dos pudores dos pesquisadores acadêmicos.
O caso do discurso de formatura foi plantado por Lira Neto na coluna de Lauro Jardim, na revista Veja. Fernando Jorge contestou imediatamente o ineditismo da descoberta enviando carta a Jardim. Foi ignorado.
Álvaro Larangeira publicou no Observatório de Imprensa artigo desmascarando as falsas descobertas de Lira.
Eu mesmo mostrei o ridículo desse procedimento (ver outros post neste blog).
Inútil. Repercussão zero.
A versão de Lira Neto se imporá.
O caso Lira Neto prova que a mídia produz fatos, manipula e impõe sua visão.
Demonstra o que Pierre Bourdieu e Serge Halimi denunciaram em pequenos livros que provocaram muito polêmica: o sistema de conivência no campo cultural entre editoras, mídia e certos autores em operações de interesse comercial.
O contra-argumento mais trivial a este tipo de crítica é: ressentimento, inveja.
Como disse Guy Debord, o espetáculo se apresenta como uma enorme positividade. É incriticável. Toda crítica é reduzida a uma confissão de fracasso. Escrevi um romance sobre Getúlio Vargas. Não estou em concorrência com Lira Neto.
Getúlio é objeto permanente de livros. Depois de meu romance, o historiador da USP Boris Fausto publicou uma boa biografia do maior político da história brasileira. Não se gabou de fazer descobertas sensacionalistas. Foi quase ignorado.
O caso Lira Neto deve ser estudado em Crítica de Mídia como o famoso Caso da Escola Base ou como o Caso Cachoeira – Policarpo Jr. São casos de incesto midiático, de precipitação e de falta de rigor no jornalismo.
O que chama mais a atenção, no entanto, é a indiferença. A mentira se impõe como verdade. O silêncio impera.
Admira-se no Brasil mais o sucesso do que a seriedade. Lira Neto, com seu golpe midiático, já conseguiu agendamento na mídia: um veículo segue o outro e tem-se a onipresença, o que cria sensação de importância e verdade.
Num país de cultura, o caso Lira Neto chamaria tanto a atenção quanto a confissão de Xuxa de que sofreu abuso sexual quando era criança. No Brasil, país de entretenimento, uma polêmica de intelectuais só arranca bocejos.
O compradismo impera: jornalistas com alguma grife emprestam seus nomes para legitimar a fraude.
Nenhum historiador europeu calaria diante deste blefe de Lira sobre o caso do homônimo: “O processo se referia a esse Getúlio como nascido em ano e município que não condiziam com os do ex-presidente. Pensei: ou está errado ou é outro”, disse Neto.
Após pesquisar as certidões de nascimento, descobriu que de fato havia, no Rio Grande do Sul, um segundo Getúlio Dorneles Vargas, homônimo ao presidente. “Era um erro histórico que estava sendo perpetuado”, concluiu Neto.
Em “Getúlio Vargas: a revolução inacabada”, como já escrevi, Lutero Vargas, no item “Os quatro crimes da Tribuna de Imprensa”, trata dos “quatro crimes de morte da vida pregressa de Getúlio Vargas”, conforme denúncia caluniosa de Carlos Lacerda em 10 de agosto de 1954. Diz: “O relatório foi apresentado em 15 de agosto de 1923; um dos assassinos chamava-se Getúlio Vargas e o outro Soriano Serra. Os dois foram presos em flagrante. O que tem Getúlio a ver com isso? Somente o nome”.
Por que estou repetindo isso?
Pelo espanto que me causa.
Os casos do discurso de formatura e do processo de Ouro Preto são ainda mais chocantes.
Entramos na era dos falsos biógrafos, os biógrafos jornalistas, marqueteiros, com grandes amizades na mídia, dispostos a tudo por uma manchete sensacional, prontos a requentar o passado e a esquentar o presente, certos de qualquer contestação irá para o ralo da história como uma marca de amargura. A biografia de Getúlio feita por Lira Neto é um epitáfio para a academia.
Também é a prova definitiva da morte da mídia de cultura no Brasil.
Finalmente a História transformou-se em mercadoria total e não é mais escrita pelos vencedores, salvo pelos vencedores atuais, aqueles que dominam a mídia. São Paulo terá, enfim, a biografia de Getúlio capaz de atender aos seus interesses.
A verdade histórica dobra-se diante da narrativa de mídia.
Lira Neto inaugura um novo tempo, o tempo da história documental como ficção da mídia.
A voz de Boris Fausto dizendo que a biografia de Lira Neto “não traz nenhuma grande novidade” já foi abafada pela potência da revista Veja assegurando que a esfinge foi, enfim, decifrada.
A legitimação não vem da academia, mas da mídia.
Na França, programas no estilo Jô Soares e Marília Gabriela mergulhariam no debate.
No Brasil, certamente levantarão a bola para que Lira Neto confirme sua falsificação.
Eis porque a mídia brasileira não é respeitável.
No 247
Leia Mais ►