21 de mai de 2012

Lula paulistano

“Recebo com orgulho esse carinho da Câmara de Vereadores de São Paulo. E o recebo como um carinho destinado a todos os nordestinos que vieram para São Paulo, que ajudaram a construir a cidade e nela encontraram oportunidades, e hoje são pais, avós e bisavós de paulistanos”, diz Lula em seu discurso de agradecimento ao títulos de Cidadão Paulistano, à Medalha Anchieta e ao Diploma de Gratidão da cidade de São Paulo.
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As grilagens de terras no Rio de Janeiro

A questão não indenizar, a questão é mais uma vez roubar dos pobres para dar ao ricos. Jogar, empurrar os pobres cada para mais longe!
A questão é prender essa turma e destituí-lo de seus bens e dar a estes que eles já prejudicaram e aos que pretendiam! Isso é justiça!
Em Vargem Grande ,Recreio dos Bandeirantes a banda podre do judiciario junto dos grileiros de terras já citados nas CPI das terras da Barra continuam levando na mão grande as terras de pessoas pobres e proprietários.
No SOA-Brasil
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Sarney na Cachoeira

Em grampo, Sarney tenta promover aliado de Cachoeira


“O cara tá avisado, já”, responde o presidente do Senado a um ex-servidor do Palácio que tentava promoção na Infraero, de acordo com grampo da PF. O problema é que esse ex-servidor é acusado de facilitar a entrada de mercadorias contrabandeadas para a quadrilha do bicheiro
Ex-porteiro da Presidência pedia, segundo a PF,
interferência de Sarney para se tornar superintentende
da Infraero
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), aparece em diálogos captados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo. Em um deles, é ele mesmo quem fala. Em outros, ele é mencionado pelos interlocutores. No grampo em que aparece a voz de Sarney, ele atua em favor da promoção de um servidor da Empresa de Infra-Estrutura Aeoroportuária (Infraero), que estava cedido à Presidência da República quando o presidente era Sarney, para trabalhar na portaria. Ocorre que o servidor, Raimundo Costa Ferreira Neto, conhecido como Ferreirinha, segundo a investigação da Polícia Federal, facilitaria a entrada de produtos contrabandeados nos aeroportos para a quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira.
Nas demais conversas em que Sarney é mencionado, outros membros da quadrilha de Cachoeira conversam sobre um método de incineração de lixo de tecnologia da Alemanha. E dizem que “o pessoal do Sarney” teria interesse em comprar a parte deles no negócio.
Em nota ao Congresso em Foco, o presidente do Senado disse que o pedido de promoção de Ferreirinha “não foi atendido” pela Infraero. Mesmo questionado especificamente sobre isso, a assessoria de Sarney não responde na nota se ele sabia das ligações de Ferreirinha com o grupo de Cachoeira, embora, em conversas com a reportagem, seus assessores neguem essa possibilidade. Além do próprio Sarney, são citados nos grampos o deputado federal Sarney Filho (PV-MA) e Adriano Sarney, neto do presidente do Senado. Eles aparecem nos grampos sobre lixo. Sarney nega que sua família tenha negócios no setor de resíduos sólidos. Também negam qualquer envolvimento com as pessoas do grupo de Cachoeira que são flagradas nas conversas.
Na conversa monitorada pela PF, Ferreirinha e Sarney falam sobre o cargo na Infraero

Porteiro superintendente

De acordo com Sarney, Ferreirinha trabalhou com ele como porteiro no Palácio do Planalto durante seu mandato presidencial (1985-1990). Estava cedido pela Infraero. Os grampos da PF mostram uma conversa entre ele, que vinha sendo monitorado por fazer parte do esquema de Cachoeira, com Sarney no dia 31 de março de 2011, às 11h37. Ferreirinha fala primeiro com um assessor de Sarney chamado Vanderlei, que passa o telefone para o próprio presidente do Senado. O ex-porteiro presidencial reclama que sua promoção não saiu. E menciona mudanças nos aeroportos de Brasília e do Rio de Janeiro. Sarney responde: “Mas o cara tá avisado, já”. Não se sabe quem seja “o cara”.
Em um diálogo anterior, de 18 de março de 2011, Ferreirinha conversa com o ex-sargento da Aeronáutica Idalberto Maias de Araújo, o Dadá, araponga que fazia trabalhos de espionagem para o esquema de Cachoeira. Na conversa, eles tratam da liberação de mercadorias no aeroporto de Brasília. De acordo com o juiz da 11ª Vara Federal em Goiânia, Paulo Augusto Lima, há indícios de que Raimundo Costa prestava o serviço de facilitar a entrada de contrabando para o grupo de Cachoeira “mediante vantagem”.
No meio da conversa, os dois terminam por falar em José Sarney. Ferreirinha diz que o presidente do Senado já havia conversado com “Meirelles”. (A PF supõe que possa ser o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles). É porque, na sequência, fala-se que Meirelles pediu para Sarney procurar Gustavo do Vale, ex-diretor do BC na gestão de Meirelles e atual presidente da Infraero. Para a PF, o objetivo era “aparentemente indicar Raimundo Costa Ferreira Neto”, um ex-porteiro da Presidência da República, para uma Superintendência Regional” da Infraero.
Segundo a PF, Ferreirinha ambicionava um cargo de "superintentende"
Na nota, Sarney não respondeu se conversou com “Meirelles” sobre a promoção de Ferreirinha. O ex-presidente do Banco Central não retornou os contatos feitos com seus assessores. Hoje, ele é presidente da J&F, holding do grupo JBS, que recentemente comprou a empreiteira Delta Construções, também envolvida com Cachoeira.
Sarney não foi, porém, a única tentativa de Ferreirinha para tentar a promoção. Um dia depois da conversa com Sarney, ele ligou, no dia 1º de abril de 2011, para o ex-diretor da Infraero Rogério Bazelatti. Ele comenta que a nomeação não tenha sido. “Eu fui com o véio, né?”, diz Ferreirinha, provavelmente referindo-se ao presidente do Senado. Bazelati responde: “Você foi no cargo errado, e não com a pessoa errada”.
Na sequência da mesma conversa, o ex-porteiro afirma que, apesar dos reveses, está “tranquilo”, uma vez que tinha “o apoio até do senador Demóstenes Torres (sem partido, ex-DEM-GO). Demóstenes hoje está ameaçado de perder o mandato por conta das evidências do seu envolvimento com a quadrilha de Cachoeira. “Tem cara até da oposição”, vangolria-se Ferreirinha.
Ouça em 3 min50seg: “O Demóstenes diz que vai me ajudar”
Demóstenes disse ao site que nunca foi procurado por Ferreirinha e nunca atendeu nenhum pedido dele. “Se ele disse isso, o fez para se jactar”, afirmou o senador por meio de seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

“Não conheço Sarney”

Procurado pelo Congresso em Foco, Raimundo Costa, o Ferreirinha, dá uma versão que difere da versão dada em nota pela assessoria de Sarney. Ele não quis comentar as acusações feitas pela PF, de desvio de mercadorias para facilitar a atuação da quadrilha de Cachoeira. “Eles vão ter que provar o que dizem. Não sou eu que tenho que provar”, afirmou Ferreirinha.
Em seguida, embora apareça em grampo falando com Sarney e o presidente do Senado admita que houve a conversa, Ferreirinha negou qualquer relacionamento com o presidente do Senado. “Eu não conheço Sarney, eu não conheço ninguém”, disse. Ferreirinha, que tem 34 anos de Infraero, negou ainda ter trabalhado na Presidência da República. Como se não bastasse a própria conversa com Sarney, há outro grampo em que ele diz a um interlocutor que, naquele momento, estava chegando na casa do presidente do Senado.
Ferreirinha pediu à reportagem que procurasse a Infraero e a PF para esclarecer o assunto. O site não conseguiu contato com Gustavo do Vale ou com a assessoria da Infraero.
~ o ~

Lobista dá a entender que Sarney queria comprar negócio de lixo


Segundo a conversa, o “pessoal do Sarney” estaria interessado em comprar uma empresa do grupo. Como eles falavam sobre empresa de incineração de lixo, a suposição era que fosse esse o negócio que interessava
Integrantes da quadrilha dizem em grampo
 ter acesso ao gabinete de Sarney Filho
Diálogos captados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo apontam para um suposto interesse de familiares do presidente do Senado, José Sarney, de uma empresa que usaria uma técnica importada da Alemanha para a incineração de lixo. Segundo uma das conversas grampeadas, o lobista Dagmar Alves conversa com Gleyb Ferreira, uma espécie de “faz-tudo” de Carlinhos Cachoeira. A intenção era marcar uma apresentação de negócios na Delta. Segundo a gravação, ele queria mostra à empresa, que também opera no ramo de coleta de lixo, uma tecnologia alemã para incineração de lixo.
Em 29 de abril, outra conversa gravada pela PF mostra Gleyb dizendo para usar uma pessoa chamada Eduardo para interceder no negócio. Ele é, segundo a PF, um suposto assessor do gabinete de Sarney Filho (PV-MA). Na conversa, diz-se que ele teria nfluência no Instituto Brasília Ambiental (Ibram), onde segundo a PF, o grupo de Cachoeira pretendia pagar propinas para regularizar uma fazenda grilada em Brasília.
Ouça a conversa:
Em outra conversa, em 27 de julho de 2011, Dagmar afirmou a Gleyb que “o pessoal daqui” em conjunto “com o do Sarney” pretende “comprar a parte deles no negócio”. A gravação não deixa claro que tipo de negócio é, nem quais integrantes do clã Sarney estão envolvidos.
As conversas apontam para uma tentativa de ligação de pessoas do grupo de Cachoeira e a Delta com a família Sarney. A gravação traz Gleyb dizendo ter “acesso direto” ao gabinete do deputado Sarney Filho (PV-MA) em Brasília. É citado também nas conversas José Adriano Sarney, filho do deputado e neto do presidente do Senado. Um grampo de 14 de julho mostra uma pessoa identificada como Rodolfo dizendo a Gleyb ser necessário resolver “o negócio da moto” e afirmando ter conversado com “o filho de Sarney”. A PF suspeita que a conversa era, na verdade, sobre Adriano Sarney. “Adriano?”, pergunta a PF no inquérito.
Dagmar e Gleyb falam sobre o negócio do lixo
De acordo com as assessorias do senador José Sarney (PMDB-AP) e do deputado Sarney Filho, a família não possui qualquer negócio com a Delta, com Carlinhos Cachoeira ou com o lobista Dagmar Alves. Também disseram desconhecer a presença de um assessor chamado Eduardo no gabinete na Câmara e quais são os negócios referidos pela Polícia Federal. As assessorias negaram que a família tenha atividades relacionadas à coleta de lixo. Sobre o negócio da moto, a assessoria de Sarney Filho disse desconhecer do que se trata.
"Pessoal do Sarney" quer comprar o negócio

Defensores

A reportagem não conseguiu falar com o advogado Márcio Thomaz Bastos , defensor de Carlinhos Cachoeira, preso desde 29 de fevereiro. Não foram localizados os defensores de Gleyb Ferreira e Idalberto Matias, presos nas Operação Monte Carlo, e Dagmar Duarte, preso na Operação Saint-Michel . A reportagem também não localizou Rogério Bazelati, ex-diretor da Infraero e amigo de Ferreirinha.
~ o ~

A íntegra das notas de José Sarney e Sarney Filho sobre o caso Cachoeira


Veja as respostas enviadas ao Congresso em Foco pelo presidente do Senado e pelo deputado Sarney Filho
A nota de José Sarney:
1. Ferreirinha já trabalhava no Palácio do Planalto – funcionário cedido pela Infraero – quando o senador José Sarney lá chegou para exercer a presidência. Hoje Ferreirinha atua no aeroporto – em cargo de 4º ou 5º escalão – e pediu a interferência do senador Sarney para uma promoção. É esse o assunto do dialogo em questão. O pedido não foi atendido.
2. A família Sarney não tem negócios com lixo, nem com empresa citada. O senador Sarney não conhece nenhuma das pessoas relacionadas no diálogo em questão.
As respostas de Sarney Filho:
1- A família Sarney tem negócios com a Delta, Carlinhos Cachoeira ou com o lobista Dagmar Alves? Qual?
Não
2- Qual era a “parte no negócio” que a família gostaria de comprar?
A pergunta fica prejudicada pela anterior
3- A família Sarney cuida de empreendimentos na área de resíduos sólidos (lixo)?
Não
4- Algum desses projetos usa tecnologia de incineração de lixo da Alemanha? Algum usa tecnogia de incineração por plasma?
A pergunta fica prejudicada pela anterior
5- Quem da família toca esses eventuais negócios?
Também prejudicada pelas duas anteriores
6- Qual a relação do deputado e de Adriano com Gleyb e Carlinhos Cachoeira?
Nenhuma
7- O deputado ou o Adriano ajudaram em algum tipo de pendência no Ibram? Fizeram alguma intermediação entre eles e a direção do Ibram?
Não
8- Quem é Eduardo, assessor citado nas conversas obtidas pela PF? Qual a relação dele com Gleyb e Carlinhos Cachoeira?
Desconheço
9- Que negócios são esses referidos na gravação da PF?”
Desconheço
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Para quem não é vítima de racismo

Uma proposta de exercício e de ética da escuta para quem não é vítima de racismo

Este texto é dedicado à família Miguel.
À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e Twitter, algumas discussões sobre racismo brasileiro que, apesar sempre saudáveis, com frequência repetem uma dinâmica bastante comum no país. Aprendi, com os anos, que essa dinâmica tem que ser descrita com cuidado, para que a própria descrição não termine reforçando-a. Eu me refiro à dinâmica estudada pela Ana nesse texto magistral, Não é sobre você que devemos falar.
Trata-se de um dos maiores obstáculos que se enfrenta no combate ao racismo brasileiro, e ele pode ser resumido mais ou menos nos seguintes termos. Os brancos brasileiros tendemos a acreditar sinceramente, a crer piamente, a estar convictos, de que sabemos o que é o racismo sem jamais termos feito o exercício de escutar suas vítimas. A dinâmica se agrava pelo fato extraordinário e mui curioso, bastante próprio do Brasil, de que 86% dos brancos brasileiros afirmam não ter preconceito contra negros, mas nesse mesmíssimo universo, 92% reconhecem que existe racismo no Brasil.
Conclusão: o branco brasileiro se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, racismo ao qual, curiosamente, ele se crê imune.  É um caso inédito na história da sociologia. Ao mesmo tempo em que se crê imune, o branco brasileiro tende a ter, sobre o fenômeno, uma opinião bastante convicta, sem jamais ter tomado a iniciativa de tentar escutar um negro sobre o que é ser vítima de racismo. O branco não vê, nessa atitude, nenhuma herança racista.
O resultado é extraordinário: praticamente todos os brancos brasileiros reconhecem que há racismo no país, praticamente todos eles dizem que não são parte dele, e mantêm ambas opiniões sem jamais ter feito o esforço metódico, sistemático, de ouvir as vítimas do racismo. Não se costuma, no Brasil, ver a contradição entre essas três coisas. Coisa mais incrível ainda é que, ao serem perguntados se conhecem alguma pessoa racista, os entrevistados, em sua grande maioria, apontavam pais, irmãos, tios, amigos ou namorados. Ou seja, o ambiente ao redor está inteirinho contaminado de racismo, só eu que não!
O racismo brasileiro, que está em todos os lugares mas nunca em nós mesmos, produz, a partir daí, um segundo efeito bastante perverso: conversar sobre a discriminação racial, sobre a segregação e a exclusão raciais, e sobre a luta dos afrobrasileiros por cidadania tende a provocar, na maioria da população branca brasileira, um visível desconforto, um claríssimo mal estar, um mal disfarçado desejo de que a conversa termine logo. É como se o racismo não existisse até o momento em que passamos a conversar sobre ele.
No caso da discussão sobre as cotas, por exemplo, eu ouvi, algumas dezenas de vezes, a reclamação de brancos brasileiros de que não dava pra discutir aquilo porque não se sentiam confortáveis para se oporem a essas medidas de reparação sem serem chamados de racistas. A apreensão é bizarríssima, porque estou nesse debate há mais de uma década e jamais vi um ativista do movimento negro, um militante pró-cotas, um representante de organização afrobrasileira chamar alguém de racista porque se opõe às cotas. Na verdade, eu nunca vi essa acusação ser feita nesses termos “ah, se você é contra as cotas, você é racista”. Mas esse é o fantasma evocado uma e outra vez para terminar a conversa. Se algum marciano pousasse no Brasil, sem conhecimento do contexto, e escutasse tudo isso, ele provavelmente concluiria que o grande problema racial brasileiro é que muitos brancos bem-intencionados estão sendo chamados de racistas.
Vi gente de esquerda (esquerda mesmo) me escrever esta semana dizendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?” A angústia é genuína e o fato de que ela seja expressa assim, sem a menor consciência de que talvez ela tenha algo a ver com o racismo, só mostra como é longo o caminho que temos que andar. São 386 anos de escravidão. Décadas e décadas de violência policial racista e exclusão. 512 anos de discriminação. O movimento negro decidiu que queria essa vitória, essa conquista: as cotas. Elas foram implantadas. Os resultados são melhores do que os esperados: a evasão dos cotistas é menor que a dos não cotistas e suas notas são iguais ou melhores. O Supremo Tribunal Federal validou a constitucionalidade do projeto. E há branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escrevendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?”, como se ela fosse contraditória com outras formas, como se ela tivesse que ser a melhor para ser eficaz. Pior de tudo, o branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escreve isso e não vê na frase nenhuma herança racista.
O remédio para se combater esse fenômeno só pode ser um: desenvolver uma ética da escuta. E é com esse chamado que eu termino, para que você realize um exercício que venho realizando há duas décadas: se você é um branco brasileiro, seja lá de que origem for, que tal tentar procurar, na sua cidade, ao longo do próximos meses, cinquenta cidadãos afrobrasileiros? Pergunte a eles sobre sua experiência. Concentre-se em ouvir. É a experiência deles que importa aqui. Não é sobre você que devemos falar. Pergunte, por exemplo, como é andar de noite por uma metrópole brasileira sendo negro. Pergunte se ele/ela já foi objeto de revista policial arbitrária. Pergunte se eles já foram agredidos com epítetos raciais. Pergunte se já foram barrados em algum lugar sem razão aparente. Pergunte se já foram interpelados ou olhados como se não tivessem o direito de estar onde estão. Pergunte se já viram parentes serem humilhados por causa da cor da pele. Faça estas e outras muitas perguntas possíveis (por exemplo, sobre a experiência de somente ver garis, porteiros e flanelinhas parecidos com você, enquanto seus amigos brancos veem médicos, advogados e engenheiros parecidos com eles). Leve em conta, neste tipo de exercício, que se você, branco, estiver conversando com um negro que lhe é subordinado, há uma possibilidade de que, dependendo de como a pergunta for feita, ele diga o que você quer ou precisa ouvir, por falta de confiança, por falta de costume, pela dor e pela humilhação envolvidas, pelos anos todos em que foi quase proibido de falar sobre o assunto (já há, inclusive, estudos acadêmicos sobre esse fenômeno). Lembre-se que o racismo é assunto delicado, mesmo no interior de famílias negras, e a conversa sobre ele, envolvendo negros e brancos, uma grande novidade no Brasil. Paute sua sensibilidade a partir desses fatos.
Ouça, ouça, ouça. Concentre-se na experiência deles, não na sua. Depois que concluir esse experimento, com cinquenta co-cidadãos seus, volte aqui e me conte. Se você estiver disposto a escrever um texto sobre a experiência, eu o publico na Revista Fórum.
Idelber Avelar
No Outro olhar
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O Xou não pode parar

A semana começou com as pessoas discutindo em todo Brasil o impacto e a veracidade ou não das declarações de Xuxa ao Fantástico, ontem à noite.
Ao mesmo tempo, e-mails começam a circular na rede provocando os leitores a refletir sobre a veracidade ou não de fotos da estrela.
São vários ensaios nus de Xuxa para revistas masculinas nos anos 80 e três situações em que ela é fotografada em cenas de sexo (montagens?).
Xuxa acaba de ganhar ações na justiça em que exige reparação judicial, pela exibição de imagens relacionadas a seu passado, antes dela se tornar "A Rainha dos Baixinhos".
Sua exposição, seja para o bem, ou para o mal, a promove. E isso é incontestável.
Considerando-se que na semana passada ela anunciou que pretende entrar no ramo de festas infantis, franqueando sua marca para bufets, não é absurdo supor que, assim, o que a apresentadora procura é sair do ostracismo imposto pelo esgotamento do modelo de apresentadora mirim.
Potencial para alavancar seus negócios, agora como "A Rainha dos Grandinhos" ficou claro que ela ainda tem, afinal, suas declarações ao Fantástico renderam ao programa o recorde de audiência no ano: 26 pontos.
Seu e-mail também é um sucesso.
Assim, Xuxa não tem com o que se preocupar, sempre haverá público para uma celebridade disposta a expor sua intimidade no horário nobre, para todo país.
No DoLaDoDeLá
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Seguir o dinheiro

Oposição anda para trás na hora se seguir o caminho do dinheiro na CPMI do Cachoeira

Há um enorme esforço na velha imprensa para abortar a CPMI do Cachoeira, antes mesmo de ela ter começado na prática. Agora tentam desacreditá-la, dizendo que vai “acabar em pizza” porque, por exemplo, ainda não se justificou quebrar o sigilo bancário da matriz da Delta.
A estratégia oposicionista, abraçada pela velha imprensa, é não seguir o caminho do dinheiro rumo aos políticos, autoridades e jornalistas. Ou seja, é investigar na direção inversa à do crime, blindando Cachoeira e os políticos mais próximos dele, como Marconi Perillo (PSDB) e Demóstenes Torres (DEM). A tática é jogar uma quantidade inviável de informações para investigar de forma a embaralhar a CPMI, para não chegar a lugar nenhum.
Já se sabe pelos relatórios da Polícia Federal que a empreiteira Delta pagou empresas ligadas à turma de Cachoeira. Segundo a PF, a empresa de fachada Pantoja Construções e Transportes, recebeu R$ 26,2 milhões da matriz da Delta. Logo, até aí já se sabe o caminho do dinheiro. Falta saber para onde e para quem foi este dinheiro: se para o bolso de políticos, ou de funcionários corruptos, ou de policiais, juízes, procuradores etc.
Pois a CPMI quebrou o sigilo da Pantoja Construções e Transportes e de diversas outras empresas já identificadas como pertencendo ao esquema Cachoeira, exatamente para seguir o caminho do dinheiro em direção às atividades criminosas.
Por ora é perda de tempo quebrar o sigilo na ponta da matriz Delta, pois o dinheiro que vem de lá já aparece nestas empresas receptoras que tiveram o sigilo bancário quebrado.
A matriz da Delta deve pagar milhares, talvez dezenas de milhares de fornecedores. Sem ter nenhuma pista, seria como procurar agulha em palheiro tentar identificar empresas ilícitas usadas para transferir dinheiro da corrupção, em meio a tantos fornecedores, a maioria lícitos, pois a empreiteira tem obras e contratos de verdade em 23 estados.
Quem quer quebrar o sigilo da matriz da Delta, neste momento da CPI, quer andar para trás. E quer embaralhar as investigações sobre o esquema Cachoeira. É como perder agulhas em meio ao palheiro de propósito, para dificultar encontrá-las.
Governadores: quem blinda quem?
É razoável, antes de convocar governadores, conhecer bem o conteúdo das operações Vegas e Monte Carlo. Sem isso, qualquer governador vai apenas repetir o que já disse na imprensa. CPMI nunca foi confessionário, onde corruptos e corruptores confessam seus pecados.
E a convocação de governadores neste momento seria meramente política, para desgastá-los. E, à exceção de Marconi Perillo, sobre quem sobram evidências, ainda não há qualquer critério racional para dizer que só três governadores devem ser chamados.
Agnelo Queiroz, do PT, talvez não tenha nada a fazer na CPMI, já que o esquema Cachoeira queria era derrubá-lo. Outros governadores, como Siqueira Campos, do Tocantins (PSDB), podem ter mais a explicar sobre o esquema Cachoeira do que o do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), cujo nome não aparece nem citado, ainda. Se o critério for ter contratos com a Delta, então deve-se convocar o ex-governador de São Paulo, José Serra, o prefeito paulistano, Gilberto Kassab (PSD) e outros.
Ao que parece, quando a oposição fixa a mira em três governadores, está querendo apenas dividir o ônus de Perillo com um governador do PT e outro do PMDB. E blindar os demais.
Helena Sthephanowitz
No Rede Brasil Atual
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A estadista em construção

Muitos serão os desafios que Dilma enfrentará;
não sabemos quanta fortuna terá, mas que terá 'virtù'
Primeiro, foi a demissão de ministros comprometidos com a corrupção; depois, a firmeza que vem mostrando em baixar os juros, enfrentando para isso muitos interesses, inclusive os dos seus eleitores, pequenos poupadores; há alguns dias, foi o discurso na instalação da Comissão da Verdade em que fez uma bela defesa dos direitos humanos e do seu caráter suprapartidário; agora, é sua decisão histórica de, aplicando a Lei de Acesso à Informação, publicar os salários dos servidores do Executivo.
Todos atos que mostram coragem e firmeza, sugerindo que a presidente brasileira é uma estadista em construção.
Sua decisão que me levou a esta conclusão foi a da última semana - a de tornar pública a remuneração dos servidores públicos. Saber quanto recebem os servidores públicos eleitos e não eleitos é um direito inconteste dos cidadãos. Mas é um direito que sempre foi negado aos brasileiros.
Quando fui ministro da Administração Federal, decidi publicar os vencimentos dos servidores públicos no "Diário Oficial". Caiu uma tempestade sobre mim. Servidores indignados vieram me falar sobre seu "direito à privacidade".
Nas democracias, em relação ao dinheiro público, não há direito à privacidade; não há o "direito" de receber valores absurdos que nada têm a ver com o nível de seu cargo.
Alguns poderão dizer que meu entusiasmo em relação à presidente é apressado. De fato, é cedo para dizermos que Dilma Rousseff preenche as condições muito raras que definem um estadista. Mas estou dizendo que ela está "se construindo" como estadista. Ela está demonstrando a firmeza e a coragem que são necessárias.
Mas não basta isso. Conforme disse classicamente Maquiavel, além da "virtù", o príncipe necessita da fortuna. "Virtù" não significa apenas virtude, e sim competência para governar, discernimento ao tomar decisões, capacidade de fazer compromissos e, finalmente, bom êxito em seu governo. O que depende também da sorte - da fortuna.
Estadista é o governante que tem a visão do todo, olha para o futuro e tem a coragem de buscá-lo, confrontando os interesses de muitos, inclusive dos seus seguidores. É quem conhece seu país, sabe quais são seus grandes problemas e contribui para resolvê-los.
Os estadistas são geralmente identificados nas guerras em defesa de seu país, mas podem sê-lo em momentos decisivos de seu desenvolvimento econômico e social.
O estadista brasileiro do século 20 foi Getúlio Vargas, porque comandou a revolução nacional e industrial brasileira. A presidente Dilma poderá ser uma nova estadista, agora em um contexto democrático, se lograr vencer os dois grandes males brasileiros: a corrupção de suas elites e a armadilha da alta taxa de juros e do câmbio sobrevalorizado.
Em seu discurso na instalação da Comissão da Verdade, a presidente declarou: "A verdade é algo tão surpreendentemente forte que não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem tampouco o perdão... é, sobretudo, o contrário do esquecimento". Deixo essa bela frase como fecho desta coluna. Muitos serão ainda os desafios que Dilma terá que enfrentar; não sabemos quanta fortuna terá, mas já sabemos que terá "virtù".
Luiz Carlos Bresser-Pereira
No Esquerdopata
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Separados ao nascer?

Bicheiro Carlinhos Cachoeira
Senador Pedro Taques

No Inter Ação

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Robert Spitzer pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

Famoso psiquiatra pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays
O fato foi simplesmente que ele fez tudo errado, e ao final de uma longa e revolucionária carreira, não importava com quanta frequência estivesse certo, o quão poderoso tinha sido ou o que isso significaria para seu legado.
O dr. Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, que completa 80 anos nesta semana, acordou recentemente às 4 horas da madrugada ciente de que tinha que fazer algo que não é natural para ele.
Ele se esforçou e andou cambaleando no escuro. Sua mesa parecia impossivelmente distante; Spitzer sofre de mal de Parkinson e tem dificuldade para caminhar, se sentar e até mesmo manter sua cabeça ereta.
A palavra que ele às vezes usa para descrever essas limitações – patéticas – é a mesma que empregou por décadas como um machado, para atacar ideias tolas, teorias vazias e estudos sem valor.
Agora, ali estava ele diante de seu computador, pronto para se retratar de um estudo que realizou, uma investigação mal concebida de 2003 que apoiava o uso da chamada terapia reparativa para “cura” da homossexualidade, voltada para pessoas fortemente motivadas a mudar.
O que dizer? A questão do casamento gay estava sacudindo novamente a política nacional. O Legislativo da Califórnia estava debatendo um projeto de lei proibindo a terapia como sendo perigosa. Um jornalista de revista que se submeteu à terapia na adolescência, o visitou recentemente em sua casa, para explicar quão miseravelmente desorientadora foi a experiência.
E ele soube posteriormente que um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado na quinta-feira (17), considera a terapia “uma séria ameaça à saúde e bem-estar – até mesmo à vida – das pessoas afetadas”.
Os dedos de Spitzer tremiam sobre as teclas, não confiáveis, como se sufocassem com as palavras. E então estava feito: uma breve carta a ser publicada neste mês, na mesma revista onde o estudo original apareceu.
“Eu acredito que devo desculpas à comunidade gay”, conclui o texto.

Perturbador da paz

A ideia de estudar a terapia reparadora foi toda de Spitzer, dizem aqueles que o conhecem, um esforço de uma ortodoxia que ele mesmo ajudou a estabelecer.
No final dos anos 90 como hoje, o establishment psiquiátrico considerava a terapia sem valor. Poucos terapeutas consideravam a homossexualidade uma desordem.
Nem sempre foi assim. Até os anos 70, o manual de diagnóstico do campo classificava a homossexualidade como uma doença, a chamando de “transtorno de personalidade sociopática”. Muitos terapeutas ofereciam tratamento, incluindo os analistas freudianos que dominavam o campo na época.
Os defensores dos gays fizeram objeção furiosamente e, em 1970, um ano após os protestos de Stonewall para impedir as batidas policiais em um bar de Nova York, um grupo de manifestantes dos direitos dos gays confrontou um encontro de terapeutas comportamentais em Nova York para discutir o assunto. O encontro foi encerrado, mas não antes de um jovem professor da Universidade de Columbia sentar-se com os manifestantes para ouvir seus argumentos.
“Eu sempre fui atraído por controvérsia e o que eu ouvi fazia sentido”, disse Spitzer, em uma entrevista em sua casa na semana passada. “E eu comecei a pensar, bem, se é uma desordem mental, então o que a faz assim?”
Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.
Ele também viu uma oportunidade de fazer algo a respeito. Spitzer era na época membro de um comitê da Associação Americana de Psiquiatria, que estava ajudando a atualizar o manual de diagnóstico da área, e organizou prontamente um simpósio para discutir o lugar da homossexualidade.
A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.
Apesar da linguagem arcana, a homossexualidade não era mais um “transtorno”. Spitzer conseguiu um avanço nos direitos civis em tempo recorde.
“Eu não diria que Robert Spitzer se tornou um nome popular entre o movimento gay mais amplo, mas a retirada da homossexualidade foi amplamente celebrada como uma vitória”, disse Ronald Bayer, do Centro para História e Ética da Saúde Pública, em Columbia. “‘Não Mais Doente’ foi a manchete em alguns jornais gays.”
Em parte como resultado, Spitzer se encarregou da tarefa de atualizar o manual de diagnóstico. Juntamente com uma colega, a dra. Janet Williams, atualmente sua esposa, ele deu início ao trabalho. A um ponto ainda não amplamente apreciado, seu pensamento sobre essa única questão – a homossexualidade – provocou uma reconsideração mais ampla sobre o que é doença mental, sobre onde traçar a linha entre normal e não.
O novo manual, um calhamaço de 567 páginas lançado em 1980, se transformou em um best seller improvável, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. Ele estabeleceu instantaneamente o padrão para futuros manuais psiquiátricos e elevou seu principal arquiteto, então próximo dos 50 anos, ao pináculo de seu campo.
Ele era o protetor do livro, parte diretor, parte embaixador e parte clérigo intratável, rosnando ao telefone para cientistas, jornalistas e autores de políticas que considerava equivocados. Ele assumiu o papel como se tivesse nascido para ele, disseram colegas, ajudando a trazer ordem para um canto historicamente caótico da ciência.
Mas o poder tem seu próprio tipo de confinamento. Spitzer ainda podia perturbar a paz, mas não mais pelos flancos, como um rebelde. Agora ele era o establishment. E no final dos anos 90, disseram amigos, ele permanecia tão inquieto como sempre, ávido em contestar as suposições comuns.
Foi quando se deparou com outro grupo de manifestantes, no encontro anual da associação psiquiátrica em 1999: os autodescritos ex-gays. Como os manifestantes homossexuais em 1973, eles também se sentiam ultrajados por a psiquiatria estar negando a experiência deles – e qualquer terapia que pudesse ajudar.

A terapia reparativa

A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, é enraizada na ideia de Freud de que as pessoas nascem bissexuais e podem se mover ao longo de um contínuo de um extremo ao outro. Alguns terapeutas nunca abandonaram a teoria e um dos principais rivais de Spitzer no debate de 1973, o dr. Charles W. Socarides, fundou uma organização chamada Associação Nacional para Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (Narth, na sigla em inglês), no sul da Califórnia, para promovê-la.
Em 1998, a Narth formou alianças com grupos de defesa socialmente conservadores e juntos eles iniciaram uma campanha agressiva, publicando anúncios de página inteira em grandes jornais para divulgar histórias de sucesso.
“Pessoas com uma visão de mundo compartilhada basicamente se uniram e criaram seu próprio grupo de especialistas, para oferecer visões alternativas de políticas”, disse o dr. Jack Drescher, psiquiatra em Nova York e coeditor de “Ex-Gay Research: Analyzing the Spitzer Study and Its Relation to Science, Religion, Politics, and Culture”.
Para Spitzer, a pergunta científica no mínimo valia a pena ser feita: qual era o efeito da terapia, se é que havia algum? Estudos anteriores tinham sido tendenciosos e inconclusivos.
“As pessoas me diziam na época: ‘Bob, você vai arruinar sua carreira, não faça isso’”, disse Spitzer. “Mas eu não me sentia vulnerável.”
Ele recrutou 200 homens e mulheres, dos centros que realizavam a terapia, incluindo o Exodus International, com sede na Flórida, e da Narth. Ele entrevistou cada um profundamente por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.
Spitzer então comparou os resultados de seu questionário, antes e depois da terapia. “A maioria dos participantes relatou mudança de uma orientação predominante ou exclusivamente homossexual antes da terapia, para uma orientação predominante ou exclusivamente heterossexual no ano passado”, concluiu seu estudo.
O estudo – apresentado em um encontro de psiquiatria em 2001, antes da publicação – tornou-se imediatamente uma sensação e grupos de ex-gays o apontaram como evidência sólida de seu caso. Afinal aquele era Spitzer, o homem que sozinho removeu a homossexualidade do manual de transtornos mentais. Ninguém poderia acusá-lo de tendencioso.
Mas líderes gays o acusaram de traição e tinham suas razões.
O estudo apresentava problemas sérios. Ele se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes – uma lembrança às vezes vaga. Ele incluía alguns defensores ex-gays, que eram politicamente ativos. E não testava uma terapia em particular; apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia.
Vários colegas tentaram impedir o estudo e pediram para que ele não o publicasse, disse Spitzer.
Mas altamente empenhado após todo o trabalho, ele recorreu a um amigo e ex-colaborador, o dr. Kenneth J. Zucker, psicólogo-chefe do Centro para Vício e Saúde Mental, em Toronto, e editor do “Archives of Sexual Behavior”, outra revista influente.
“Eu conhecia o Bob e a qualidade do seu trabalho, e concordei em publicá-lo”, disse Zucker em uma entrevista na semana passada.
O artigo não passou pelo habitual processo de revisão por pares, no qual especialistas anônimos avaliam o artigo antes da publicação.
"Mas eu lhe disse que o faria apenas se também publicasse os comentários” de resposta de outros cientistas para acompanhar o estudo, disse Zucker.
Esses comentários, com poucas exceções, foram impiedosos. Um citou o Código de Nuremberg de ética para condenar o estudo não apenas como falho, mas também moralmente errado.
“Nós tememos as repercussões desse estudo, incluindo o aumento do sofrimento, do preconceito e da discriminação”, concluiu um grupo de 15 pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, do qual Spitzer era afiliado.
Spitzer não deixou implícito no estudo que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos socialmente conservadores de citarem o estudo em apoio a esses pontos, segundo Wayne Besen, diretor executivo da Truth Wins Out, uma organização sem fins lucrativos que combate o preconceito contra os gays.
Em uma ocasião, um político da Finlândia apresentou o estudo no Parlamento para argumentar contra as uniões civis, segundo Drescher.
“Precisa ser dito que quando este estudo foi mal utilizado para fins políticos, para dizer que os gays deviam ser curados – como ocorreu muitas vezes. Bob respondia imediatamente, para corrigir as percepções equivocadas”, disse Drescher, que é gay.
Mas Spitzer não conseguiu controlar a forma como seu estudo era interpretado por cada um e não conseguiu apagar o maior erro científico de todos, claramente atacado em muitos dos comentários: simplesmente perguntar para as pessoas se elas mudaram não é evidência de mudança real. As pessoas mentem, para si mesmas e para os outros. Elas mudam continuamente suas histórias, para atender suas necessidades e humores.
Resumindo, segundo quase qualquer medição, o estudo fracassou no teste do rigor científico que o próprio Spitzer foi tão importante em exigir por muitos anos.
Foram necessários 11 anos para ele reconhecer publicamente.
Inicialmente ele se agarrou à ideia de que o estudo era exploratório, uma tentativa de levar os cientistas a pensarem duas vezes antes de descartar uma terapia de cara. Então ele se refugiou na posição de que o estudo se concentrava menos na eficácia da terapia e mais em como as pessoas tratadas com ele descreviam mudanças na orientação sexual.
“Não é um pergunta muito interessante”, ele disse. “Mas por muito tempo eu pensei que talvez não tivesse que enfrentar o problema maior, sobre a medição da mudança.”
Após se aposentar em 2003, ele permaneceu ativo em muitas frentes, mas o estudo da terapia reparativa permaneceu um elemento importante das guerras culturais e um arrependimento pessoal que não o deixava em paz.
Os sintomas de Parkinson pioraram no ano passado, o esgotando física e mentalmente, tornando ainda mais difícil para ele lutar contra as dores do remorso.
E, em um dia em março, Spitzer recebeu um visitante. Gabriel Arana, um jornalista da revista “The American Prospect”, entrevistou Spitzer sobre o estudo sobre terapia reparativa. Aquela não era uma entrevista qualquer; Arana se submeteu à terapia reparativa na adolescência e o terapeuta dele recrutou o jovem para o estudo de Spitzer (Arana não participou).
“Eu perguntei a ele sobre todos os seus críticos e ele disse: ‘Eu acho que eles estão certos’”, disse Arana, que escreveu sobre suas próprias experiências no mês passado. Arana disse que a terapia reparativa acabou adiando sua autoaceitação e lhe induziu a pensamentos de suicídio. “Mas na época que fui recrutado para o estudo de Spitzer, eu era considerado uma história de sucesso. Eu teria dito que estava fazendo progressos.”
Aquilo foi o que faltava. O estudo que na época parecia uma mera nota de rodapé em uma grande vida estava se transformando em um capítulo. E precisava de um final apropriado – uma forte correção, diretamente por seu autor, não por um jornalista ou colega.
Um esboço da carta já vazou online e foi divulgado.
“Você sabe, é o único arrependimento que tenho; o único profissional”, disse Spitzer sobre o estudo, perto do final de uma longa entrevista. “E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente. Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores.”
Ele desviou o olhar e então voltou de novo, com seus olhos grandes cheios de emoção. “Isso é alguma coisa, você não acha?”
Benedict Carey
The New York Times, em Princeton (EUA)
Tradutor: George El Khouri Andolfato
O original no The New York Times Psychiatry Giant Sorry for Backing Gay ‘Cure’
Åsa Heuser
No Uma ateia de bom humor
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Verdade

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Carlos Cachoeira na Globo

Em vez de CPI, Cachoeira será convocado para o quadro O que vi da vida, do Fantástico



Carlinhos Cachoeira ainda não foi depor na CPI do Congresso Nacional, mas um outra ideia está na mente dos parlamentares: eles acreditam que há mais chances de Cachoeira dizer tudo que sabe no quadro O que vi da vida, do Fantástico.
O governo cogita ainda passar algumas sessões da recém-inaugurada Comissão da Verdade para o programa dominical da TV Globo. Incluindo aí o depoimento de Glória Maria sobre, afinal, qual a sua idade.

Desiree Aparecida
Do Sensacionalista
No Maria da Penha Neles!
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Repórter da Globo chama Herrera de babaca

O repórter Marco Aurélio Souza, da Sportv/Globo, chamou de “babaca” o argentino Herrera, atacante do Botafogo, pela recusa em pedir música para o Fantástico pelos três gols que fez na vitória deste domingo (20) sobre o São Paulo.
“O tolerante”
O jornalista expressou sua “opinião” sobre o jogador através da sua conta no Twitter.
A “normalidade” e o “humor” exaltados pelo profissional não o fizeram ter tolerância suficiente para se abster de xingar o atleta.
Cada um pode julgar como quiser a atitude do Herrera. Eu achei um gesto sensacional, pelo simbolismo que representa, o que expliquei aqui.
A assoberbada emissora do Jardim Botânico não costuma ouvir não como resposta a qualquer pedido. Quando ocorre, muita gente por lá fica descontente, para dizer o mínimo. A primeira manifestação do incômodo partiu do repórter.
Nem acho a história do “artilheiro musical” uma babaquice como tantas outras da Globo, tal qual o quadro “inacreditável futebol clube”, que é absolutamente ridículo.
Daí a ofender o sujeito que se recusou a participar da brincadeira… é babaquice pura!
Vinda de um profissional do jornalismo é pior ainda.
Imaginem se o Herrera, numa entrevista ao vivo, chama o seu entrevistador de babaca, apenas por não gostar do sujeito…
Curioso é ver tal atitude partir de alguém que, em tese, deveria promover a tolerância, sobretudo por trabalhar no esporte, ainda mais no futebol, um fenômeno social que gera tanta paixão, mas não deixa de contribuir com sua cota de tragédias sociais, especialmente quando a violência entra em jogo.
Como diria um outro cronista esportivo, “que desagradável”.
O “babaca”, segundo o global
Nessas horas é bom lembrar que a arrogância é irmã da soberba e prima da prepotência.
[Atualização: Mal cliquei no botão "publicar" aqui e fui informado que o dito cujo abaixo apagou o que escreveu. Curioso que, após xingar o jogador do Botafogo, o repórter escreveu, também no seu microblog: "No meu twitter, escrevo o que bem entender."]
No Conexão Brasília Maranhão

Um leitor, no twitter, fez o comentário certeiro: 
@adamastaquio “Essa é a Globo e seu modo truculento de agir! Imagina o q a Globo n faz com coisa séria então… Tipo eleição!”




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Cutrale é processada. Cadê a mídia?

Na semana passada, o Ministério Público do Trabalho (MPT) protocolou na Justiça de Araraquara, no interior de São Paulo, uma ação contra a empresa Cutrale - uma das maiores produtoras de suco de laranja do mundo - por cometer vários abusos contra os seus funcionários, desrespeitando a legislação trabalhista. Entre outros crimes, a empresa efetua descontos salariais abusivos e não garante estabilidade às gestantes.
A Procuradoria do Trabalho solicitou da Cutrale o pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos. A ação teve início a partir da demissão de uma trabalhadora durante a gravidez. A Justiça do Trabalho enviou uma sentença ao MPT sobre o caso. Na decisão, o juiz considerou que houve discriminação da funcionária gestante, condenando a empresa ao pagamento de indenização por dano moral.

Mídia protege a empresa

Esta não é a primeira vez que a poderosa empresa é condenada na Justiça. Ela é conhecida por desrespeitar a legislação trabalhista, por cometer inúmeros crimes ambientais e por estrangular financeiramente os pequenos produtores de laranja. Além disso, a empresa já foi denunciada por invadir terras devolutas do Estado. Apesar deste histórico tenebroso, a mídia comercial evita dar destaque para os seus crimes. Afinal, a Cutrale gasta fortunas com publicidade nos jornalões, revistonas e emissoras de rádio e televisão.
Bem diferente é a atitude da mídia venal quando os trabalhadores lutam contra os abusos desta empresa. A recente decisão do MPT de processar a Cutrale não foi destaque em nenhuma TV. Já quando os sem-terra ocuparam uma terra grilada pela empresa no interior de São Paulo, o assunto foi manchete nos jornalões e a cena dos tratores destruindo alguns pés de laranja foi repetida dezenas de vezes pelas emissoras, principalmente pela TV Globo. Só mesmo os laranjas acreditam em neutralidade da mídia!
Altamiro Borges
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Record expõe o desespero da 'Veja'

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Barão de Itararé comemora dois anos

Noite fria, um bom vinho e show do grupo de chorinho de Luis Nassif. Esse foi o cenário que reuniu cerca de 150 pessoas no Restaurante Villa Tavola, na Avenida 13 de maio, São Paulo, para comemorar o aniversário de dois anos do Centro de Mídia Barão de Itararé.
Em entrevista ao Vermelho, Altamiro Borges, presidente do Barão de Itararé, falou que a entidade completa dois anos com um balanço muito positivo. “Penso que o Barão conseguiu se firmar, se projetou e ganhou respeitabilidade. Acho que isso tem muito a ver com a filosofia de sempre somar, sem vícios partidistas, exclusivistas e sectários”.
Altamiro, que também é secretário nacional para Assuntos de Mídia do Partido Comunista do Brasil, disse que esses resultados são fruto de uma ação aglutinadora que fez do atual grupo o combustível para construir e levar o Barão a este patamar.
“Essa unidade do Barão tem muito a ver com o time que se formou. Um grupo plural e com muita vontade de fazer uma comunicação diferente. Além disso, acho que as atividades desenvolvidas pelo Centro também estão na base do nosso amadurecimento. Então, os cursos, seminários debates, encontro de blogueiros, participação em campanhas, banda larga, TV Cultura foram fundamentais para nosso crescimento”, disse Altamiro.
Ele acrescenta que com esse posicionamento agregador, que ao mesmo tempo é dinâmico, foi possível cimentar ainda mais as propostas pensadas há dois anos. “Avançamos muito, estamos mais maduros. Porém, penso que ainda temos um longo caminho pela frente. Exemplo: precisamos investir mais na parte de formação de novos comunicadores, precisamos estreitar relação com as rádios e televisões comunitárias e fortalecer nossa estrutura enquanto entidade”, finaliza o dirigente.
A jornalista Maria Inês Nassif, que compõe o Conselho Consultivo da entidade, compareceu ao evento e destacou o papel singular do Barão na construção de uma esfera política ampla e democrática. “Componho o Barão desde sua origem. E por ter assumido um papel organizativo, os debates empreendidos no interior da blogosfera se tornaram férteis e com resultados proposições concretas”.
Ela frisou que “o papel do Barão foi de alguma forma tornar orgânica essa rede de colaboradores, que é uma rede que defende uma liberdade de imprensa, uma liberdade para todos. Ou seja, uma liberdade que visa garantir o acesso de todos à informação e dar a possibilidade de todos emitirem a sua opinião”.
Rodrigo Viana, que é diretor de Comunicação do Centro, concorda e lembra que o Barão de Itararé não nasceu por acaso.
“O Barão não nasceu em um ano qualquer, nasceu em 2010. Um ano eleitoral, no qual, do meu ponto de vista, vivemos a maior batalha no interior do setor de comunicação no Brasil. Esse Centro foi aglutinador, mas ao mesmo tempo sistematizou o intercâmbio entre sites que já estavam por aí. Além disso, o Barão organizou os dois encontros de blogueiros, bem como diversos debates. Tudo isso com um único objetivo, estimular a crítica aos meios de comunicação no Brasil e contribuir para a luta pela democratização da comunicação no país”, explica o jornalista.

“Blogueiros Sujos”

O jornalista Paulo Henrique Amorim também prestigiou a entidade e destacou que o Centro de Mídia desempenha um papel extremamente importante que é o dar voz, visibilidade a uma comunidade cada vez mais importante para o ambiente jornalístico e do ambiente político brasileiro, que são os blogueiros sujos.
“O Barão é a nossa ANJ, é a nossa Associação Brasileira de Imprensa, o nosso Supremo Tribunal Federal. Uso a expressão blogueiros sujos com muito orgulho, porque foi assim que o José Serra nos chamou. E ele é um adversário político nosso. O Serra é contra a independência da mídia, é contra essa corrente avassaladora que corre em defesa da liberdade de expressão no Brasil”, alerta o jornalista.

Marco regulatório

Na oportunidade, Altamiro Borges explicou como andam as movimentações sobre a consulta pública do novo marco regulatório.
“O Barão, bem como as demais entidades que lutam pela democratização da mídia, está aguardando à consulta pública que foi sinalizada pelo Ministério das Comunicações. Se a consulta sair, avalio que ela virá em um ambiente muito favorável. Ou seja, a presidente Dilma está em sua melhor fase, pois ela deixa de ser pautada pela mídia e passa a pautá-la, exemplo disso foi sua postura em relação aos bancos e à Comissão da Verdade. E por outro lado, essa mídia conservadora vive a sua pior fase, o caso da Veja retrata bem este cenário”, reflete o dirigente.
Eduardo Guimarães, editor do Blog da Cidadania, endossa e destaca que a atual conjuntura é sinal de novos tempos. “O processo da CPI do Cachoeira e sua repercussão nas redes sociais ratifica todo o trabalho empreendido pelos que lutam por uma mídia não golpista. A grande mídia, em especial a revista Veja, esta incomodada com as mobilizações ocorridas na rede. De fato vivemos um novo cenário, e a revista Veja tem sentido isso na pele nas duas últimas semanas. Visto que, torna-se o assunto mais comentado, só que de forma negativa”, finaliza.
Joanne Mota
Do Vermelho
No Blog do Miro
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Charge online - Bessinha - # 1255

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