9 de mai de 2012

Sob o Domínio do Medo

Eles sentiram o golpe. Repare só na imagem abaixo:
Vemos no destaque (primeira manchete na coluna da direita) o patrão, dono da editora e da revista e, ao lado dele, uma chamada forte: Civita não é Murdoch. Quando o leitor curioso clica no link, ao invés de encontrar um texto editado pela própria Veja, é levado direto para o editorial dO Globo de hoje. Só um gesto de desespero levaria a maior revista semanal do país a se apegar a conteúdo de um jornal cada vez mais provinciano, editado no Rio de Janeiro.
Mas a sutileza vai além do que os olhos alcançam à primeira vista. Civita mostra assim que não está sozinho. Tem atrás dele as Organizações Globo, maior conglomerado de mídia da América do Sul e um dos maiores do mundo. Trata-se de um recado do tipo: - Não mexam conosco!
Temo em dizer que agora é tarde. O escândalo Veja-Demóstenes-Cachoeira já chegou à opinião pública, por um caminho até ontem impensável. Começou uma semana antes na blogosfera. Sábado último foi parar na capa da revista CartaCapital, de tiragem modesta, se comparada à Veja, e no Domingo Espetacular da Rede Record, no dia seguinte.
Aí a coisa apertou. A Record está em mais de 120 países e a reportagem deu uma audiência de 14 pontos no Ibope (se bem que eu preferia outro instituto mais confiável para fazer a medição). Se cada ponto equivale a algo em torno de 60 mil aparelhos ligados e se cada aparelho tem, em média, três pessoas acompanhando a programação, estamos falando para 60.000x14x3, só em São Paulo.
São 2,5 milhões de paulistanos! Se formos extrapolar esse número grosseiramente para todo o país estamos falando em algo como 40 milhões de pessoas. Significa que de cada cinco brasileiros, um teve conhecimento do caso. Sem contar o efeito reverberador depois na internet, nas redes sociais e outros caminhos.
O que esses senhores de engenho precisam entender, de uma vez por todas, e isso vale para Marinhos, Civitas, Mesquitas, Frias e Sirotskys é que a sociedade brasileira mudou, está mudando e não vai parar de mudar. Não adianta bater o pé. Vamos até o fim. Portanto, dominem o medo que está tomando conta de vocês, para que não fiquem imobilizados diante da nova engrenagem do Brasil, que vem com a força de uma moenda de cana, igualzinha àquelas que vosmicê tinham lá na fazenda.
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O Dilema da Oposição

Em mais um de seus elegantes artigos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso repetiu coisas conhecidas. Lá estavam, por exemplo, o cosmopolitismo de sempre e as contradições que marcam seu pensamento de uns anos para cá. Disse, porém, algo novo.
Publicado no último domingo, o texto tem o título “Política e Moral” e foi escrito a propósito do livro recém lançado de um amigo - e ex-comensal dos tempos de Palácio da Alvorada -, o sociólogo francês Alain Touraine.
Aos 86 anos, Touraine permanece ativo na discussão dos rumos de seu país e dedica o ensaio à campanha bem sucedida de François Hollande, que terminou por levá-lo à vitória contra Sarkozy e a se tornar o primeiro presidente socialista francês desde Mitterrand.
Mas não foi isso que motivou o artigo de FHC.
Discutir as reflexões do colega foi uma oportunidade para que exibisse sua familiaridade e conhecimento da situação internacional. Transitando com facilidade entre temas tão complexos quanto o cotidiano das sociedades avançadas e os acontecimentos recentes nos países árabes e na China, FHC deixou claro que não pendurou as chuteiras: provou que - a seu modo - entende tudo que acontece no mundo.
(Daí, provavelmente, vem sua preferência por assinar-se “sociólogo”, deixando em segundo plano a menção a que “foi presidente da República” - um modo curioso de dizer quem é (não seria engraçado se Lula continuasse a se apresentar como “sindicalista”?).
Não foi, no entanto, apenas para mostrar-se cidadão do mundo que FHC decidiu comentar o livro.
Ele mesmo explica a razão: “Porque, mutatis mutandi, também no Brasil se sentem os efeitos da crise (da sociedade industrial)” diagnosticada por Touraine. Que adviria da “petrificação” das instituições e de sua perda de legitimidade, em um mundo regido por um economicismo que nega espaço ao humanismo.
Para enfrentá-la, seria necessário ir além da social-democracia, e libertar o “pensamento político da mera análise econômica”. Nas palavras de FHC: “É preciso contrapor os temas morais ao predomínio do econômico”.
Como fazê-lo?
O caminho estaria em sair do espaço convencional da política, superar os partidos, buscar as ruas. Como diz o ex-presidente: “Só os movimentos sociais e de opinião, movidos por um novo humanismo expresso por lideranças respeitadas, pode despertar a confiança perdida”.
Talvez seja uma receita adequada para o sociólogo Fernando Henrique.
Mas será boa para os partidos de oposição? Se só os movimentos sociais são confiáveis, para que serviriam os partidos - incluído o PSDB?
O ex-presidente se sente bem no papel de “sábio maduro”. Afinal, integra o grupo dos Elders (os “Anciãos”), que congrega lideranças experientes do mundo inteiro - de Desmond Tutu a Jimmy Carter. E tem proposto a discussão de temas polêmicos, como a descriminalização do uso de drogas leves.
Quem lideraria o “novo humanismo”? Quem conseguiria transformar o “rosário do mal-estar cotidiano” dos brasileiros e mobilizá-los? Quem melhor que ele?
Mas seria com esse discurso que as oposições deveriam se apresentar nas próximas eleições municipais? Ou na sucessão de Dilma?
É difícil acreditar que Fernando Henrique não perceba que a agenda da vasta maioria da sociedade brasileira nada tem de “pós-econômica”. Que a discussão relevante para ela é como alcançar níveis satisfatórios de vida, de acesso ao consumo e aos bens públicos.
E que não compreenda que não será inventando prioridades que as oposições terão de volta o apoio popular que perderam.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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IPCA de abril fica em 0,64%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA do mês de abril apresentou resultado de 0,64%, três vezes mais do que a taxa de 0,21% registrada em março. Foi o maior índice mensal desde abril de 2011 (0,77%).
O acumulado no ano ficou em 1,87%, bem abaixo da taxa de 3,23% relativa a igual período de 2011. Considerando os últimos 12 meses, o índice situou-se em 5,10%, inferior aos 5,24% relativos aos doze meses imediatamente anteriores.
A publicação completa da pesquisa pode ser acessada na página http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/defaultinpc.shtm
De março para abril, a maioria dos grupos de produtos e serviços mostrou crescimento nas taxas de variação, conforme a tabela a seguir.
O principal destaque no mês foram os cigarros, cujos preços subiram 15,04% diante do reajuste médio de 25% em vigor a partir de 6 de abril. Com 0,12 ponto percentual, constituíram-se no principal impacto no mês. Foi o item cigarros mais os salários dos empregados domésticos (de 1,38% de março para 1,86% em abril) que levaram as despesas pessoais à liderança dos resultados de grupos, com 2,23%. Outros itens exerceram pressão no grupo das despesas pessoais, a exemplo das excursões (1,88%), hotéis (1,63%) e serviços bancários (1,42%).
Os remédios, cujos preços subiram 1,58% em abril após 0,02% em março, também tiveram forte influência sobre o índice tendo em vista reajuste vigente desde 31 de março. Foram os principais responsáveis pelo resultado de 0,96% no grupo saúde e cuidados pessoais.
Desta forma, juntando-se os remédios (0,05 ponto percentual) com os empregados domésticos (0,07 ponto) mais os cigarros (0,12 ponto), a soma dos impactos resulta em 0,24 ponto, o que significa que estes três itens foram responsáveis por 38% do IPCA de abril.
Mas, além destes, outros gastos influenciaram o índice do mês. É o caso dos artigos de vestuário, que, com a entrada da nova coleção no mercado, aumentaram 0,98% ao passo que, em março, haviam apresentado queda de 0,61%.
O consumidor também passou a gastar mais com habitação (de 0,48% em março para 0,80% em abril). Os preços dos artigos de limpeza subiram 1,38% ante 0,59% em março, com destaque para o sabão em pó (de 0,85% para 1,33%). Os aluguéis subiram bem mais, indo para 0,82%, enquanto em março haviam ficado em 0,45%. O condomínio também subiu mais, passando de 0,48% para 1,01%. A taxa de água e esgoto foi de 0,93% para 0,98% tendo em vista o reajuste de 16,50% vigente em Curitiba desde o dia 21 de março. O valor da mão-de-obra contratada para pequenos reparos aumentou 1,30% após já ter subido 1,03% no mês anterior. Subiram, inclusive, os preços do gás de botijão, passando de 0,41% para 0,65%, mostrando aumentos expressivos em cinco das onze áreas pesquisadas, destacando-se Goiânia, cuja alta foi a 2,32%. Quanto à energia elétrica, apresentou variação de 0,46%, maior do que a de 0,21% de março, com reajuste nas tarifas de três áreas pesquisadas, além de forte aumento nas alíquotas do PIS/COFINS da região metropolitana de Fortaleza.
Comunicação passou de –0,36% para 0,46% em virtude das ligações da telefonia fixa para móvel terem voltado ao valor anterior, eliminando a redução de 10,78% concedida pela ANATEL em 24 de fevereiro, levando o resultado do item telefone fixo de –1,07% para 0,57%. Isto se deu devido à concessão de liminar, em março, a uma das operadoras. Aumentaram, também, as contas de telefone celular, cuja variação passou de 0,00% para 1,00%, em virtude do reajuste médio de 6% nas tarifas de uma das operadoras a partir de 15 de abril.
Nos gastos com transportes (de 0,16% para 0,10%), embora itens como passagens aéreas (de 1,34% para 2,06%) e táxi (de 0,19% para 1,44%) tenham mostrado significativo aumento de preços, outros gastos importantes no orçamento do consumidor se mostraram em queda. É caso do automóvel novo (de –0,06% para –0,55%) e da gasolina (de 0,11% para –0,27%), destacando-se, ainda, o crescimento de preços mais moderado do etanol (de 1,88% para 0,81%).
O grupo artigos de residência (de –0,40% para –0,79%) intensificou a queda verificada no mês anterior devido, principalmente, ao item mobiliário (de 0,31% para –0,49%), que mostrou influência da redução do IPI.
Dessa forma, os produtos não alimentícios atingiram alta de 0,68%, mais do que o triplo da taxa de 0,20% registrada em março.
Porém, os alimentos também subiram, passando de 0,25% para 0,51%, o dobro da variação do mês anterior. A região metropolitana de Belém chegou a 1,30% no grupo alimentação e bebidas, a maior alta. Já Brasília registrou queda de 0,07%, o mais baixo resultado.
Em período de menor oferta, o destaque foi o feijão de maior consumo no país, o tipo carioca, cujos preços subiram 12,66%. Na tabela a seguir encontram-se os principais alimentos em alta.
Entre os índices regionais, o maior foi o do Rio de Janeiro (0,81%), em decorrência do aumento dos salários dos empregados domésticos (7,37%). Com os preços do litro da gasolina em queda de 2,97%, Goiânia (0,30%) apresentou o menor resultado do mês.
O IPCA é calculado pelo IBGE desde 1980, se refere às famílias com rendimento monetário de 01 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte, e abrange nove regiões metropolitanas do país, além do município de Goiânia e de Brasília. Para cálculo do índice do mês foram comparados os preços coletados no período de 29 de março a 27 de abril de 2012 (referência) com os preços vigentes no período de 1º a 28 de março de 2012 (base).
INPC varia 0,64% em abril
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC apresentou variação de 0,64% em abril, acima do resultado de 0,18% de março em 0,46 ponto percentual. Com isto, o acumulado do ano fechou em 1,73%, abaixo da taxa de 2,89% relativa a igual período de 2011. Considerando os últimos 12 meses, o índice situou-se em 4,88%, abaixo dos doze meses imediatamente anteriores (4,97%). Em abril de 2011 o INPC havia ficado em 0,72%.
Os produtos alimentícios apresentaram variação de 0,57% em abril, enquanto os não alimentícios aumentaram 0,67%. Em março, os resultados ficaram em 0,25% e 0,15%, respectivamente.
Dentre os índices regionais, Porto Alegre (0,92%), apresentou a maior taxa, devido ao aumento do grupo de despesas pessoais (4,27%) e dos remédios (3,64%).
Os menores índices foram os de Brasília e de Salvador, ambos com 0,32%. Em Brasília, os alimentos apresentaram queda de 0,07%. Em Salvador, o grupo despesas pessoais teve o menor resultado entre as áreas (0,85%).
O INPC é calculado pelo IBGE desde 1979, se refere às famílias com rendimento monetário de 01 a 05 salários mínimos, sendo o chefe assalariado, e abrange nove regiões metropolitanas do país, além do município de Goiânia e de Brasília. Para cálculo do índice do mês foram comparados os preços coletados no período de 29 de março a 27 de abril de 2012 (referência) com os preços vigentes no período de 1º a 28 de março de 2012 (base).
No IBGE
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Charge online - Bessinha - # 1232

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Como operava o esquema Cachoeira

Pelas primeiras avaliações dos parlamentares que compõem a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) funcionava assim a associação criminosa entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a construtora Delta.
1. A Delta se habilitava a uma licitação na qual houvesse garantia de aditamento do contrato (isto é, de reajuste posterior do contrato).
2. Tendo essa garantia, apresentava um preço imbatível, muitas vezes inexequível. No caso do aeroporto de São Paulo, por exemplo, o maior lance foi de R$ 280 milhões. A Delta apresentou uma proposta de apenas R$ 80 milhões.
3. Ganhava a licitação e depois aguardava o aditivo. Enquanto isto, a empresa ficava sem caixa para bancar seus fornecedores - de peões de obra a vendedores de refeições e cimentos. Aí entrava Cachoeira garantindo o capital de giro da empresa com dinheiro clandestino, do jogo. Ou com o fornecimento de insumos, através de empresas laranjas. Estima-se que o desembolso diário do bicheiro fosse de R$ 7 milhões, mais de R$ 240 milhões por mês.
4. Quando vinha o aditivo, a Delta utilizava o recurso - legal - para quitar as dívidas com Cachoeira, através das empresas laranja. Era dessa maneira que Cachoeira conseguia legalizar o dinheiro do jogo.
Quando algum setor relutava em fazer o aditivo, Cachoeira recorria ao seu arsenal de escândalos e chantagens, valendo-se da revista Veja.
Foi assim no episódio do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte). Aparentemente houve um conflito entre Cachoeira e o diretor Luiz Antonio Pagot. Providenciou-se a denúncia, destinada apenas a derrubar as resistências de Pagot. Como dizia um bom observador das cenas brasilienses, Cachoeira pretendeu assar o porquinho e acabou colocando fogo na choupana.
O que era para ser um alerta para Pagot coincidiu com a ação do governo de demitir a diretoria do DNIT.
O rastreamento das ações de Cachoeira pela CPMI se concentrará nos aditivos contratuais. E também nos pagamentos efetuados pela Delta a fornecedores. A partir daí será possível identificar o enorme laranjal que constituía o esquema Cachoeira, assim como os esquemas de corrupção nos órgãos contratantes.
Outro trabalho será identificar as reportagens da revista que serviram aos propósitos de Cachoeira. No caso da propina dos Correios, por exemplo, sabe-se que o grampo foi armado entre Cachoeira e o diretor da revista, com vistas a expulsar um esquema rival dos Correios. Detonado o esquema, o próprio Cachoeira assumiu o novo esquema, até ser desmantelado pela Polícia Federal.
Em todo esse processo, foi crucial a ligação do bicheiro com a revista. Foi graças a ela que Cachoeira conseguiu transformar seu principal operador político - senador Demóstenes Torres - em figura influente, capaz de pressionar a máquina pública em favor do bicheiro. E foi graças a ela que intimidava recalcitrantes na máquina pública.
Ontem O Globo saiu em defesa da Veja, com um editorial em que afirma que "Civita não é Murdoch". Referia-se ao magnata australiano Rupert Murdoch, cujo principal jornal, na Inglaterra, foi flagrado cometendo escutas ilegais para gerar reportagens sensacionalistas.
Em uma coisa O Globo está certo: Murdoch negociava os grampos com setores da polícia; já Roberto Civita negociou com o crime organizado.
Luis Nassif
No Advivo
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Miguel Nicolelis transfere título para SP e declara apoio a Haddad

O neurocientista Miguel Nicolelis declarou nesta terça-feira, 8, apoio ao pré-candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad:
"Não tenho a menor dúvida de que o ministro Fernando Haddad é o melhor candidato para prefeito de São Paulo, para transformar e criar um novo espírito nessa cidade ... Vou transferir o meu voto do Rio Grande do Norte só para votar nele. Essa eleição é uma eleição emblemática pro Brasil e para São Paulo”, disse.
Nicolelis está contribuindo no programa de governo de Haddad, na parte de ciência e tecnologia.
Ele classificou o pré-candidato como "o melhor ministro da Educação que o Brasil já teve".
Haddad, quando no ministério, destinou verbas federais para a construção de um centro de referência e pesquisa em neurociência na cidade de Macaíba (RN).
O cientista afirmou que a principal medida municipal em sua área é disseminar a educação científica, de forma a aproveitar o potencial dos estudantes com vocação para a ciência.
Ele disse que o Brasil é um dos poucos países do mundo que não tiram proveito da “grande criatividade natural da sociedade para a produção cientifica”. “Nós fazemos isso na arte e em outros domínios, mas não democratizamos a produção científica.”
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O Esperado Não de Hollande a Berlim

A senhora Ângela Merkel, tenha disso consciência ou não, age de acordo com a velha arrogância prussiana, ao convidar François Hollande a visitar Berlim, no próximo dia 16 – logo depois de empossado. Foi quase uma convocação. Ela deixou claro, ao cumprimentar o novo presidente, que podem falar de tudo, menos do essencial: da “austeridade” orçamentária. Austeridade, na visão germânica da política européia, significa seguir o caminho percorrido até agora, com os bancos recebendo bilhões e bilhões de euros, emitidos sem lastro, e os usando para as especulações de seu interesse e para encalacrar ainda mais os países meridionais. Os bancos receberam o dinheiro do Banco Central Europeu a 1% ao ano e os repassam, ao estados em crise a juros de 6 a 9% ao ano. Um “spread” escorchante.
Se François Hollande, fatigado pela campanha e pelos festejos da vitória, não estivesse desatento, poderia ter sugerido que o encontro se fizesse em Bruxelas, sede da União Européia, e não em Berlim. Se ela pretende discutir o desenvolvimento econômico continental, o lugar do encontro não poderia ser outro que não Bruxelas, a menos que ela, em gesto de boa diplomacia, houvesse proposto visitar Paris.
A senhora Merkel faz lembrar um de seus antecessores na Chancelaria do Reich, que convocou a Munique os primeiros ministros da França (Daladier), da Itália (Mussolini) e da Inglaterra (Chamberlain) a fim de lhes impor sua vontade, a de apoderar-se de grande parte do território tchecoslovaco. O fantasma de Hitler está sob o portal de Brandenburgo.
Hollande só conseguirá reaver-se do descuidado “oui”, que deve ter soado aos ouvidos de Ângela Merkel como um obediente “jawohl!”, se – diante da imposição alemã – se mantiver firme, em seu propósito de aliviar os sacrifícios impostos aos trabalhadores europeus, com a chamada “austeridade”. A Europa será devolvida aos seus cidadãos, ou continuará dirigida e saqueada pelos banqueiros do Goldman Sachs e associados menores, que hoje exercem o poder de fato no continente, e disso retiram seu proveito.
Para os observadores desinformados e irônicos, o encontro – antes mesmo que Hollande se sinta em seu gabinete presidencial – poderá ser entendido como uma audiência para o recebimento de normas e instruções.
Atenas pode não ter a importância – e não tem – de Paris, mas é um símbolo do poder e da razão política bem mais antigo.
A derrota da coligação que se encontrava no governo (só se obtiveram as cadeiras no parlamento, pela legislação que lhe assegurou 50 vagas a mais do que os escrutínios), e a vitória da esquerda, eram esperadas. Não se contava com a atrevida emersão do partido neonazista, sob o nome inocente de “Aurora Dourada” e a suástica, redesenhada, como seu símbolo. Começou bem, já com tropa de assalto formada, exigindo dos jornalistas que se levantassem para receber o líder, e expulsando da sala os que se recusaram ao “gesto de respeito” para com o novo palhaço, louco e racista. Seu primeiro projeto é o de minar as fronteiras gregas, a fim de impedir a entrada de estrangeiros.
Uma vez que a coligação que se encontrava no poder não conseguiu formar o novo governo, caberá à esquerda faze-lo, e nas próximas 48 horas. Espera-se que as lições européias dos anos 30 inspirem os democratas gregos, e que eles estabeleçam uma aliança de centro, capaz de vencer as pressões externas com habilidade, e reendereçar a economia do país mediante o fortalecimento do Estado e uma política de desenvolvimento social em busca do pleno emprego.
Hollande lembrou o new deal de Roosevelt em sua campanha. Foi bom que o fizesse. Há oito décadas, em 1932, diante de uma recessão que alguns consideram menor do que a de hoje, o Estado foi compelido, à esquerda e à direita, a intervir diretamente na economia. Na Alemanha, a resposta foi a do nazismo, com a eleição de Hitler; na Itália, a do Instituto de Reconstrução Industrial – criado por Alberto Beneduce – que interveio fortemente nas atividades produtivas, política mantida depois da vitória aliada, até o neoliberalismo dos anos 80 e 90, que jogou a Europa na crise atual.
Roosevelt conseguiu impor o seu programa de recuperação industrial, ao encoleirar os banqueiros e intervir, sem vacilação, em todos os aspectos da economia e da cultura de seu país, levando-o à vitória na Segunda Guerra Mundial, que se celebra exatamente hoje. Hollande tem razão: projeto semelhante ao de Roosevelt pode salvar a Europa.
É preciso impedir que o atrevimento do novo nazismo atinja, de igual forma, a Itália, a Espanha e a Alemanha – como o de Hitler nos anos 30. A França de Hollande deve resistir ao Diktat alemão, o que a França de Pétain não foi capaz de fazer diante de Hitler.
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