26 de abr de 2012

Querô

Leia Mais ►

Assange:“Esquerda e direita, no século 21: Zizek e Horowitz”

Julian Assange: Hoje, temos conosco dois intelectuais superstars. O filósofo esloveno Slavoj Zizek, ex-dissidente e anticomunista, que hoje se autodescreve como “comunista”. Convidamos também David Horowitz, ex-radical de esquerda, aliado dos Panteras Negras, hoje ardente direitista. Quero saber o que pensam sobre o futuro da Europa e dos EUA. A conversa esquentou. Zizek teve de ser fisicamente contido. Gritaram, discutiram, depois falamos mais tranquilamente sobre nazistas e palestinos, os Panteras Negras, Obama, Romney e Stálin.
David [para Horowitz], você se autodescreve como conservador. Zizek, você se autodescreve como comunista. Apesar disso, os dois têm [tiveram?] retratos de Stálin [o telefone toca na casa de Horowitz, que atende: ‘Não posso falar agora. Estou numa conferência internacional’.
Zizek [ri]: “É Stálin. Telefonou p’rá dizer: não mexam comigo!” [Risos. Horowitz volta à câmera do computador.]
Assange: David, pode dizer o que entende por ‘conservador’ e por que tem [teve?] um retrato de Stálin?
Horowitz: O retrato de Stálin apareceu no meu escritório depois da morte dele. E sou conservador porque os esquerdistas, os utopistas, não têm ideia do que é a natureza humana. Por isso, quando chegam ao poder, enfrentam o grande problema de as pessoas não seguirem o programa deles, e eles as matam ou as metem nos gulags. O problema da ideia utopista é a ideia.
Assange [para Zizek]: E você?
Zizek: Primeiro, sobre o retrato de Stálin. [Está lá] precisamente para lembrar-me, e talvez, mesmo num nível marginal, você concorde, dos riscos, dos perigos, de experimentos políticos radicais.
Horowitz: Não sei o que Slavoj diz, quando diz que Stálin o faz lembrar os riscos dos experimentos totalitários aos quais a ideia utopista pode levar, porque ele apoia todos os movimentos totalitários do mundo. Você apoia o que temos de mais próximo dos nazistas, das ideias utopistas, no Oriente Médio. Você apoia os palestinos. Não sei que diferença há, entre os palestinos que querem matar judeus, e os nazistas.
Zizek: Mas, você alguma vez visitou a Cisjordânia? [Horowitz intromete-se: “Não. Nunca estive em Israel”. Ininteligível] Posso garantir que é absolutamente seguro para judeus. Eu estive lá com meus amigos judeus e posso garantir. Não estou dizendo, quero destacar isso: acho ruim essa ideia de o que os nazistas fizeram aos judeus, os judeus fazem agora aos palestinos. Concordo: é ruim, não faz sentido. Mas, me desculpe, os palestinos lá são ferrados. Muito ferrados.
Horowitz interrompe: ‘São ferrados pelo Hamás!
[Zizek tenta responder: “Não, não”]
Horowitz insiste: “São ferrados pela OLP! São ferrados pela Arábia Saudita! São ferrados pelo Egito!’]
Zizek [tenta concluir a resposta]: Tenho de discordar. São ferrados pelos israelenses. Os israelenses humilharam Arafat e outros e tal, e as políticas israelenses abriram caminho para a influência do Hamás. Em segundo lugar...
Horowitz: Ah, sim, agora vai culpar os judeus pelo Hamás! Ótimo!
Zizek: Ah, meu deus, você está vendo?! Isso é que eu não gosto em você. Qualquer coisa que eu diga, estou culpando os judeus?! [Assange interfere, para acalmar Zizek. Horowitz ri. Parece estar satisfeito por ter conseguido o que queria com a provocação.] Por favor, só uma coisa, agora, a sério. Vejam uma coisa. Vejam a situação das mulheres, agora, no Iraque.
Horowitz: Slavoj, e quem é o responsável por isso?
Zizek: Os EUA e sua política de intervenção.
Horowitz: A esquerda internacional e o [partido] Democratas nos EUA que foram à guerra por Saddam e contra George Bush, quando Bush atacou o Iraque. Deveríamos ter resolvido aquilo, deveriam ter acertado suas diferenças... Quero dizer... Deveríamos ter ocupado por muitos anos...
Assange: Essa é uma declaração incrível...
Horowitz: Deveríamos ter atacado a Síria, depois deveríamos ter atacado o Irã. Mas Bush recebeu tal ataque... Houve verdadeira sedição, dos grandes partidos nos EUA. Todos apoiaram a guerra. Nem todos, mas as lideranças apoiaram a guerra, votaram no Senado a favor da guerra. Mas depois se voltaram contra a guerra, e mentiram, dizendo que Bush mentiu. Bush não poderia ter mentido sobre a inteligência sobre a guerra, porque Kerry e Rockfeller e Feinstein e todos os Democratas estavam comprometidos com a inteligência. Tinham inteligência melhor que Julian [Assange].
Assange: No trabalho que fazemos, no trabalho que WiliLeaks faz, estamos forçando adiante os limites de um certo tipo de liberdade, que dizemos protegida pela 1ª. Emenda, a liberdade para revelar a verdade sobre o mundo, proteger os registros históricos de qualquer interferência etc. Vi aquele pôster incrível, que o exército americano produziu. É um pôster de Jefferson, uma grande estátua de Jefferson, dizendo que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Esse é o preço da liberdade. E mostrava um grande esquema de interceptação, gente armada e olhando para o mar com binóculos. Interpretaram a frase de Jefferson, que significa que, para conter o estado forte, temos de ser vigilantes, como se significasse que temos de ter estado forte, estado agressivo, estado de vigilância, para preservar a liberdade.
Horowitz: Acho lastimável que o Estado seja tão grande, que nossa Defesa tenha de ser tão grande, é absolutamente lastimável, mas é real. Gostaria de voltar à ideia de liberdade e igualdade. Claro que se as pessoas são desiguais, se as pessoas têm talentos desiguais, inteligências desiguais, nesse caso, querer fazê-las iguais é retirar-lhes a liberdade. Não há outro modo de produzir igualdade, sem tirar a liberdade. Claro que, portanto, há um conflito entre a liberdade e a igualdade.
Zizek: Ouça, eu não sou idealista, em contraste ao que você diz. Não sou pela liberdade total, tudo deveria ser feito publicamente. Mas acho que o que WikiLeaks faz não é isso. O que estou dizendo é que no poder das grandes potências sempre se alcança um certo grau de hipocrisia. Assim, como dizer... Nós somos sempre convocados a confiar no poder do Estado, no sentido de, sinto muito, mas temos de fazer certas coisas discretamente, melhor ninguém saber. E concordo: temos de jogar esse jogo. Não sou estúpido a esse ponto. Mas, obviamente, quando essa confiança é traída, mal usada... WikiLeaks pode desempenhar um papel muito positivo nisso tudo. Desculpe, mas não vejo aí nenhum perigo de colapso...
Assange: Se tivéssemos uma nova revolução no governo, e WikiLeaks tivesse acesso aos documentos do atual governo e publicássemos tudo, eu estaria acuado contra a parede?
Zizek: Não posso resistir a uma piada. É muito difícil responder essa pergunta agora. Mas quando eu estiver no poder, nesse seu governo revolucionário, mandarei minha resposta para a sua célula no gulag da Sibéria [risos].
Horowitz: A ideia é que não se pode ordenar que alguém seja livre. Não pode haver liberdade mandada.
Zizek: Mas a liberdade é ordenada, num certo sentido.
Assange: David, o lema da baía de Guantánamo é “Honra é defender a liberdade”. No Iraque há um campo de prisioneiros chamado “Liberdade”. Parece-me mau uso da palavra “liberdade”. Quero saber de você se realmente pensa que o Estado tremendo que está crescendo nos EUA é inteiramente necessário para combater os concorrentes que os EUA têm, a China, a Europa, ou já é hoje um sistema que se retroalimenta?
Horowitz: O problema é as pessoas. Pessoas são gananciosas, elas mentem, elas enganam, elas manipulam, elas são perigosas, são egocêntricas. Gente no poder é a mesma gente perigosa, com mais poder, Por isso temos de ter os controles e equilíbrios. Sou a favor de mais vigilância, mais investigação, o que for. Vivemos em contexto. Os EUA – isso é real – estão sob ataque da esquerda internacional, que é muito poderosa. De todos os ditadores latino-americanos, amigos de Slavoj, dos islamo-fascistas. E vivemos numa época em que há armas nucleares, químicas e biológicas. Acho que, por causa disso, estamos ante uma catástrofe, no século 21, muito maior que as catástrofes do século 20.
Assange: Você não vê que a criação de um enorme burocracia do segredo, do sigilo, que vive de trocar favores, a porta rotatória entre empresas e estado, não lhe parece que tudo isso é muito parecido, talvez, com o que ocorreu na União Soviética?
Horowitz: Você não pode eliminar a competição. Ponha um esquerdista na Casa Branca. O sujeito foi treinado e formado por comunistas, toda sua carreira política foi na esquerda política. Mesmo assim, a competição não muda. Se preferir, são várias máfias, todos uns na garganta dos outros. E é isso que nos mantém mais ou menos em segurança.
Zizek: Com licença, bem rapidamente, e sem nenhum antiamericanismo...
Horowitz: O problema são países como a Rússia, onde calam a oposição.
Zizek: Ah, já sei: a Rússia de Putin. A Rússia é Putin. Não é aquele sujeito que falou com Bush e Bush, quando encontrou Putin, você se lembra? Bush disse “olhei nos olhos de Putin e vi que é homem em quem posso confiar”. Mas, esqueça. Não é importante.
Horowitz: Foi uma das estupidezes que Bush disse [risos].
Zizek: Você diz que os comunistas gostam de calar a verdadeira oposição. Você deve saber que os comunistas chamam de “fascistas” todos que lhes fazem verdadeira oposição. Se você for modestamente democrático, já é a contrarrevolução fascista. O que me preocupa, é que você usa a palavra “comunista” de modo muito parecido. Qualquer pequena crítica ao establishment conservador americano, já é comunista. Assim, claro, Obama é comunista...
Horowitz: Calma. Eu não falei de Barack Obama [1]. Você não tem ideia de quem, na verdade, é Barack Obama, do passado dele, para dizer isso.
Zizek: Não me interessa o passado de ninguém. Stálin tem passado de poeta religioso. Escrevia poemas religiosos e tenho alguns deles. Deixe-me continuar, rapidamente. Você não acha que o grande fracasso das políticas da presidência não inteligente de Bush – e não vou usar a palavra “agressiva” –, o resultado da década Bush, foi que os EUA efetivamente se aproximaram de perder a posição de potência mundial? No governo Bush, os EUA perderam o controle efetivo da América Latina etc. Não estou dizendo com ânimo esquerdista, “uh-uh, afinal conseguimos”. Em certo sentido concordo com você, que estamos nos aproximando de um mundo multipolar muito perigoso. Todos os sonhos de que os EUA possam de algum modo reconquistar o controle estão, para mim, acabados.
[Horowitz tenta interromper: “O estado natural do homem é a guerra”.]
[Zizek prossegue] Vamos encarar os fatos. E, por isso, muitos esquerdistas me acusarão de eurocentrismo ou coisa que o valha. Mas o sonho do estado europeu de bem-estar é mais inclusivo que o sonho dos EUA, se me permite esse elogio à Europa. Não teria sido aquele o único período na história humana, depois da II Guerra Mundial, quando muita gente vivia com segurança, liberdade? Quero dizer: não riam tanto da Europa.
Horowitz: Desastre, só desastre. A Europa é uma “Disney” da cultura. Não tem importância alguma. Foi período de desastre. Isso é que o estado de bem-estar trouxe à Europa.
Assange: Tenho alguma experiência de primeira mão com o paraíso socialista sueco, e posso dizer que não é o que diz a publicidade.
Zizek: Antes desses trinta anos. Insisto nisso. Alguma coisa quebrou, lá.
Horowitz: Os suecos não têm moral.
Assange: David, a busca adiante, de um mundo melhor, a busca de uma posição melhor que as pessoas têm de ter, mesmo que essa posição seja a liberdade, é busca de mais liberdade. Podem-se avaliar os eventos contemporâneos pela direção dos ideias, das esperanças. Será que hoje abandonamos essa busca, pela religião?
Horowitz: As pessoas, a maioria das pessoas, não consegue viver com a ideia de que a própria vida não tem sentido algum. Que nascem, morrem e são esquecidas. Se você é religioso, há uma divindade que oferece uma saída depois da vida, uma redenção. Se você não é religioso, você quer a redenção nessa vida. A esquerda é isso: é um movimento religioso, e não por acaso sempre houve utopismos, comunismo, fascismo, nazismo...
Zizek [interrompe]: E o liberalismo!. Também é uma utopia.
Horowitz: As pessoas querem alguma coisa melhor. É preciso muita ambição, para fazer uma pequena mudança. Fico pensando no que você quer fazer, e os meios radicais podem ter consequências muito destrutivas.
Zizek: Mas há momentos em que você tem de ser radical. Há Hitler e o Holocausto e você não chega e diz a um líder nazista “vamos ser amigos”, fazer as coisas com modéstia. Há momentos em que você tem de ser agressivo.
Horowitz: Você tem toda a razão.
Zizek: Concordamos nesse ponto. E sobre a utopia, minha posição é modesta. Eu vejo, como todos vemos, que estamos nos aproximando de situações de catástrofes. E só estou dizendo que temos de enfrentar essas catástrofes com plena consciência. Sem utopias, essas merdas de utopias liberais, comunistas ou quaisquer outras.
Horowitz: Deixe-me resumir essa conversa...
Zizek: Ele é que é o Stálin, secretário-geral, sempre querendo fazer, ele mesmo, o resumo da conversa! Ele é o comunista, aqui.
Horowitz: Em resumo, a guerra é a condição natural da humanidade. Sempre foi, desde o início. A paz só ocorre, quando há um poder conservador, uma força única que consiga intimidar os possíveis agressores. Pergunto: quem você quer que seja esse poder, se não forem os EUA?
Zizek: Não sei, mas, para mim, os EUA já não são mais nem candidatos.
Horowitz: Sim, por isso estamos a um passo dessas catástrofes, mas vocês estão contribuindo para as catástrofes, dando força aos esquerdistas.
Assange: E dar responsabilidades ao Estado, não é ter um mercado livre nos EUA?
Zizek: Você quer dizer, com outras opções políticas?
Assange: Sim, com outras opções. E quem não gostar das condições num estado pode mudar-se para outro, mudar seus bens, o patrimônio, a família?
Horowitz: Os EUA não estão equipados. Os EUA não estão preparados. Já se viu no Iraque. Não conseguimos nem ocupar um país. Mal conseguimos fazer uma guerra de quatro dias. Imagine uma guerra de seis semanas. Esse é um país onde há tantas oportunidades. As pessoas só pensam em se divertir. Não querem ir à guerra. Os americanos não querem ir à guerra.
Assange: Os americanos têm de ser enganados, para irem à guerra...
Horowitz: Quem disse, acho, foi Tony Blair: que os EUA estão encolhidos, em boa parte, porque o comandante-em-chefe é esquerdista.
Zizek: Sério. Permita-me discordar, com todo o respeito. Se os EUA ainda tem algum atrativo para o mundo, lamento informá-lo, é por causa de gente como Obama.
Assange: A primeira ordem de ataque de drones, quatro dias depois de Obama assumir o governo, foi contra o Paquistão. Você acha que Obama realmente decidiu alguma coisa?
Horowitz: Quando ele assumiu o governo, a guerra estava em andamento. Sabia que os militares não o apoiavam. Então escolheu o Paquistão. Obama já matou mais civis. E a esquerda nada lhe cobra, porque a esquerda é uma força religiosa. Nada tem a ver com princípios. A esquerda não se incomoda com asiáticos sendo mortos por drones... [Assange: E o que você quer fazer?] Ir para as ruas protestar contra o que Obama está fazendo no Afeganistão, no Paquistão. Já não tenho nenhum respeito pela esquerda, porque já não tem princípios.
Zizek: Aqui há uma diferença entre nós. Nós dois criticamos Obama. Você critica Obama, porque pensa que ele é esquerdista, comunista? Eu critico Obama porque, bem ao contrário, acho que ele não é esquerdista escondido, criptoesquerdista. O problema é que ele finge que é de esquerda, mas não é.
Horowitz: Você nem sabe o que está dizendo, Slavoj. Devia ouvir o que diz Tarik Ali. Ele odeia o que Obama está fazendo.
Zizek: São os seus velhos amigos esquerdistas. Tarik Ali não é meu amigo. Não engulo essas bobagens democráticas esquerdistas, local, movimentos de base, simples democratismo básico. O que estou dizendo é que o problema que fez crescer o comunismo continua aqui, entre nós. Tenho medo do que pode acontecer, se não encontrarmos uma solução.
Horowitz: Não, nada disso. Os problemas sempre estarão aí. Meu ponto de vista é realista.
Assange: Senhores, temos temas demais.
Zizek: Nós dois somos fanáticos e ele é liberal. Temos de unir forças e livrar-nos desse liberal.
Assange: Temos muitos temas por discutir e quero falar sobre outras coisas. Você, Horowitz, esteve no Partido dos Panteras Negras…
Horowitz: Eu? Nunca fui membro desse partido. Só arrecadava dinheiro para eles.
Assange: Você os ajudava. Esteve envolvido com as atividades deles e os apoiava.
Zizek: Você é como aqueles banqueiros que ajudaram Hitler, se puder usar essa metáfora.
Horowitz: Não acho.
Assange: E você esteve hospedado na casa da contadora da revista Ramparts, da qual você era o editor, Betty Van Patter. Você recebeu uma carta em que se lia: “Na minha opinião, você é responsável pela morte de Betty. Mandá-la acertar as contas e a contabilidade dos Panteras Negras naquele momento, foi como vesti-la no camisolão branco da Ku Klux Klan e mandá-la para a rua…”
Horowitz: Julian, essa é só uma carta de calúnias, de um sujeito que esteve envolvido com os Panteras Negras antes de mim, e que jamais dissera coisa alguma. Os esquerdistas sacrificam qualquer um e nesse caso o sacrificado fui eu...
Assange: Aquela tragédia, inclusive um assassinato, deve ter influenciado seu ponto de vista sobre o mundo. Acha que passou a ver a realidade com outros olhos? Como influenciou suas opiniões?
Horowitz: Betty foi assassinada... o corpo foi encontrado em fevereiro de 1975. Em seguida, passei nove anos sem me envolver em política. Em 1984 votei em Reagan e foi quando me tornei conservador. Sofri ataque muito violento da esquerda, mas não respondi. Naqueles nove anos, não tive nenhuma atividade política contra a esquerda, mas me sentia traído, me sentia culpado pelo movimento que havia apoiado. Esperei até me acalmar. É uma coisa de caráter, não importa o quanto se está apaixonado ou não…
Assange: Depois da morte de Betty Van Patter, você escreveu biografias de grandes famílias norte-americanas, dos Rockefeller e outras. Você entrevistou membros dessas famílias bem relacionadas?
Horowitz: Entrevistei.
Assange: E seu círculo social mudou, depois daquelas biografias?
Horowitz: Nada mudou. Minha vida foi sempre a mesma. Perdi todos os amigos da esquerda e na maturidade reconstruí minhas amizades. Acho que um fator que prende as pessoas na esquerda é que sabem que, se pisarem na linha, todos os amigos desaparecerão. [O telefone toca.] Com licença.
Zizek: Fique à vontade. Sou a favor de comunismo humano, que deixa atender o telefone.
Horowitz: Não quero menosprezar o ativismo em geral, mas tenho de ter guarda-costas para ir às universidades, por causa da esquerda fascista dos EUA...
Assange: E eu estou ameaçado de morte por todos os lados.
Zizek: Nessa sala, só eu fui fisicamente atacado pela direita por ser comunista; e pelos comunistas, por ter traído os nacionalistas.
Horowitz: Não acredito!
Zizek: Verdade. Estou falando sério.
Assange: David, você votará em quem, nas eleições?
Horowitz: Ainda não há candidatos.
Assange: Dentre os possíveis candidatos...
Horowitz: Romney, me parece, tem melhores condições para derrotar aquele sujeito.
Assange: Para derrotar Obama?
Horowitz: É. Não estou satisfeito com coisa alguma.
Zizek: Nisso, concordamos. É trágico e pode até ser mau para a vitalidade dos EUA, no longo prazo, que os Republicanos não consigam produzir candidato com carisma. É triste. Não é coisa que me alegre.
Horowitz: Concordo. Não é bom, de modo algum.
Assange: Obrigado, David.
Zizek: Pior que comunista, é socialista com cara humana. É a forma mais inferior de vida. São sapos que se arrastam por aí
Assange: Obrigado, senhores.
Zizek: Acho que você terá de cortar coisas, fazer um pouco de trabalho de Stálin. Foi uma loucura. Você entendeu o que quero dizer.
Nota dos tradutores
[1] Aqui parece ter havido um mal entendido [que, parece, repete-se na versão em espanhol]. Na fala anterior, Horowitz fez um argumento do tipo “nem que você ponha um comunista na Casa Branca, conseguirá acabar com a competição”. Zizek parece ter entendido que Horowitz teria dito que Barack Obama é comunista.
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu
No Redecastorphoto
Leia Mais ►

O Uruguai, por Eduardo Galeano

Até um certo momento o Uruguai só era mencionado no Brasil por duas coisas: ricos iam se divorciar e/ou casar e ter lua-de-mel em Punta del Este e pela derrota no fatídico dia 16 de julho de 1950 para a seleção Uruguai no Maracanã, de virada, na Copa do Mundo feita para o Brasil ser campeão. Alguns haviam passado por Montevidéu e diziam que ficava a meio caminho entre Porto Alegre e Buenos Aires.
“Os uruguaios temos certa tendência a crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”, diz Galeano. “Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, jamais mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.”
Um país de poucos milhões de habitantes que, como diz ele, tem população similar a alguns bairros das grandes cidades do mundo, mas que provocaria algumas surpresas para quem se arriscasse a chegar por ali.
Um país que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha. O Uruguai adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes da França. Teve lei do divórcio setenta anos antes da Espanha e voto feminino quatorze anos antes da França.
O Uruguai teve proporcionalmente o maior exílio durante a ditadura militar, em comparação com sua população. Assim, tem cinco vezes mais terra do que a Holanda e cinco vezes menos habitantes. Tem mais terra cultivável que o Japão e uma população quarenta vezes menor.
O país ficou relegado a uma população escassa e envelhecida. Tristemente Galeano diz que “poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenês”.
Ainda assim, Galeano consigna bons motivos para gostar do seu país: “Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, único que fosse, disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais continuaram sendo públicos. A notícia não mereceu sequer uma linha na imprensa mundial, embora se constituísse numa insólita prova de senso comum.” Talvez por esses “maus exemplos” tentam desconhecer o Uruguai, apesar da insistência dos uruguaios de afirmar que seu país existe.
Por tudo isso, Galeno se orgulha do seu “paisito”, “este paradoxal país onde nasci e tornaria a nascer”.
Leia Mais ►

Tribunal de Justiça garante direito de ir e vir a morador de rua de São Paulo

São Paulo – A 1ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu uma ordem de salvo-conduto para garantir o direito de livre locomoção do morador de rua Carlos Eduardo de Albuquerque Maranhão, na região conhecida como "cracolândia", área central da capital paulista. A decisão foi divulgada no dia 23 de abril e atendeu ao habeas corpus preventivo pedido pelos defensores públicos Daniela Skromov de Albuquerque e Bruno Shimizu. A extensão da garantia a todos os moradores de rua da capital paulista foi recusada pelo relator do caso, desembargador Marcio Bartoli, mas pode ocorrer em “hipóteses semelhantes”.
Em depoimento aos defensores públicos, Maranhão denunciou ter sofrido abordagens seguidas de policiais militares, com humilhações e ameaças, durante a “Operação Sufoco”, deflagrada pela Polícia Militar a pedido da prefeitura da capital paulista, em janeiro deste ano, na região da cracolândia. Em um período de sete dias, o morador de rua foi abordado três vezes. Os defensores defendem que Maranhão “não possui anotação de antecedentes criminais, nem mandado de prisão expedido em seu nome, não havendo suspeita de que ele estivesse praticando qualquer tipo de delito, especificamente tráfico ilícito de drogas”.
No pedido de habeas corpus, os defensores apresentaram provas de que Maranhão vive “patente ameaça de violação do direito de locomoção” e seria preciso garantir ao morador de rua “o direito de circular e permanecer em locais públicos de uso comum do povo a qualquer hora do dia, não podendo ser removido contra a sua vontade salvo se em flagrante delito ou por ordem judicial”.
A Defensoria Pública juntou outros 70 testemunhos de pessoas em situação de rua e de moradores da região que comprovam a denúncia. Um Guarda Civil Metropolitano que não foi identificado também depôs confirmando a ação dos policiais.
Entre os depoimentos juntados ao processo pela Defensoria Pública, o magistrado destacou em seu parecer trechos de relatos de violações cometidas por policiais: “Dizem: 'bando de noia tem que morrer e não ir para o hospital” e “Está gestante (2 meses). E obrigada a andar o dia inteiro, sequer consegue dormir porque os policiais abordam sem motivo. Já foi agredida com chutes, tapas e ameaçada com armas”.
Para o desembargador Bartoli, é “fato notório” que houve irregularidades na ação da PM no mês de janeiro, durante a operação na cracolândia. Bartoli julgou ainda que o comandante geral da Polícia Militar de São Paulo é autoridade coautora por “inércia em fazer cessar a ação irregular dos agentes que lhe são subordinados”. E pediu o envio dos relatos de abuso policial ao Ministério Público do Estado de São Paulo para investigação.
Suzana Vier
No Rede Brasil Atual
Leia Mais ►

STF 10 x 0 Globo/Kamel. Cotas raciais são aprovadas

"A partir dessa decisão, o Brasil tem mais um motivo para olhar no espelho da história e não se corar de vergonha".
Ayres Britto
Leia Mais ►

As capas médicas de Veja e os laboratórios

Concordo com tudo que foi escrito no texto "A pseudociencia de Veja", porém como médico, tenho uma visão um pouco diferente sobre a matéria. Também compartilho da opinião de que a Veja seja um veículo conservador ao extremo e, como tal, elitista, preconceituoso e com discurso que beira o fascismo. Todavia, não consigo ter a visão inocente de que matérias como esta da última edição sejam apenas fruto de mentes burguesas reacionárias. Acho que o buraco é mais embaixo. Acho que podem existir outras forças por trás desta reportagem.
Para explicar meu ponto de vista é preciso retornar a setembro de 2011. Todos devem se lembrar de outra polêmica matéria, também sobre aparência e aceitação social, onde a revista faz uma descarada propaganda para a droga Liraglutida, comercializada pela empresa farmacêutica Novo Nordisk, sob o nome comercial Victoza® (aqui). Esta medicação aprovada mundialmente apenas para uso no diabetes foi tratada como milagrosa no combate à obesidade, em uma das reportagens mais irresponsáveis que já vi a nossa imprensa publicar. Na época, houve grande repercussão no meio médico e inúmeros especialistas e entidades médicas criticaram abertamente a revista. Até a ANVISA solicitou uma nota de esclarecimento à Veja.
Tenho um colega endocrinologista que, incomodado com a matéria, questionou um dos representates da Novo Nordisk que costuma fazer visitas ao seu consultório. A resposta do rapaz foi a esperada, que a empresa nada tinha a ver com a matéria, que a mesma era de responsabilidade total do jornalista que a escreveu. O próprio representante reforçou que o uso do Victoza® para tratar o excesso de peso não está aprovado e não é encorajado oficialmente pela Novo Nordisk. Bom, o fato é que os pacientes foram pressionar seus médicos e as vendas da droga explodiram. Até faltou remédio para os diabéticos, aqueles que realmente tinham indicação de tomar o medicamento.
O problema é que uma semana depois, apesar de todas as críticas, a Revista Mdemulher, também da Editora Abril, trouxe uma outra reportagem, assinada por outra jornalista, com a mesma falsa propaganda sobre a droga (aqui). Para completar ao circo, em novembro, outra publicação da Abril, a Revista Claudia, em nova reportagem, assinada por uma terceira jornalista, faz novamente irresponsável apologia ao uso do Victoza® como remédio para emagrecer (aqui). Tudo muito estranho.
Mas o que a reportagem desta semana tem a ver com estes fatos? Bom, a empresa farmacêutica Novo Nordisk atua basicamente em apenas 3 áreas da saúde: diabetes, distúrbios da coagulação e... distúrbios do crescimento.
Quem leu a matéria da Veja pode notar como é enfatizado a importância do crescimento na infância. Agora, pensem nas mães de crianças baixinhas lendo esta matéria, imaginando que seus filhos não serão tão bem sucedidos se não atingirem o "padrão de qualidade" citado pela revista. A revista quase que avisa: a hora de intervir é agora, este é o momento mais importante do crescimento. Como médico acostumado a lidar com modismos de saúde impostos pela grande imprensa, imagino quantas mães não estão questionando os pediatras sobre o que pode ser feito para o filho crescer mais.
Me desculpem, mas do mesmo modo que o atual padrão de magreza imposto pelos meios de comunicação social é um incentivo ao uso desregrado de moderadores do apetite e drogas emagrecedoras, este tipo de reportagem é, indiretamente, um estímulo ao uso sem indicação de GH (hormônio do crescimento) em crianças baixinhas.
Obviamente que baseado apenas nestas reportagens convenientes não se pode acusar a empresa Novo Nordisk de ter comprado espaço nas publicações da Editora Abril para fazer propaganda travestida de jornalismo. A gente sabe que a qualidade das apurações da Veja é lastimável e isso tudo pode ser somente mau jornalismo. Mas que é estranho, isso é.
Pedro Saraiva
No Advivo
Leia Mais ►

O tucano Perillo ruma para o abate

O PSDB tem feito de tudo para livrar a cara do governador de Goiás, Marconi Perillo, acusado de estreitas relações com o mafioso Carlinhos Cachoeira. Até José Serra jurou em entrevista que daria “um voto de confiança” ao amigo – ele também queria Arruda, ex-governador do Distrito Federal preso por corrupção, com o seu “vice-careca”. Mas com a instalação da CPI, o tucano metido a “ético”, que até já sonhou em ser presidente da República, parece caminhar para o abate.
Num primeiro momento, Perillo negou ter transformado o governo estadual numa repartição da quadrilha, com a nomeação de vários aspones do mafioso para cargos públicos. Nesta semana, porém, ela admitiu uma “pequena” influência de Cachoeira em seu governo, segundo matéria de Josias de Souza, da Folha. A confissão pode significar o enterro definitivo do tucano.

Pacote com R$ 500 mil

Desde os primeiros vazamentos dos grampos da Operação Monte Carlo da Polícia Federal, Marconi Perillo já ceifou a cabeça de três auxiliares próximos: sua chefe de gabinete, Eliane Gonçalves Pinheiro; o presidente do Detran-GO, Edvaldo Cardoso; e o procurador-geral do Estado, Ronald Bicca. A tentativa de sair do foco do escândalo, porém, não conteve a sangria.
As denúncias continuam a pipocar. Ontem, vários veículos noticiaram que um pacote recheado de dinheiro teria sido entregue em plena sede do governo goiano. Escutas da Polícia Federal levantam a suspeita de que a grana foi enviada pelo mafioso Carlinhos Cachoeira. O próprio “Jornal da Globo” especulou que o valor enviado ao Palácio das Esmeraldas teria sido de R$ 500 mil.

A aparente tranquilidade do tucano

Diante da cachoeira de denúncias, o governador Marconi Perillo ainda tenta aparentar tranquilidade. “Eu não sou investigado. Só há algumas citações irresponsáveis em relação ao meu nome... O governo do Estado não tem envolvimento em nenhuma destas investigações da Operação Monte Carlo”. Ele também jura contar com a “absoluta solidariedade” do seu partido, o PSDB. Será?
Até Josias de Souza, o blogueiro da Folha, parece não acreditar na conversa fiada do governador tucano. Em tom irônico, ele conclui seu artigo: “Como se vê, Marconi Perillo defende-se com a segurança retórica de alguém que, tendo caído de um edifício de dez andares, solta fogos ao passar pelo sétimo pavimento: Até aqui, tudo bem”.
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 1207

Leia Mais ►

Deputados tucanos se irritam com cartaz de ‘A privataria tucana’

O que antes era só uma acusação, agora está documentalmente provado: no dia 7 de fevereiro passado, os deputados tucanos Rogério Marinho (RN) e Sérgio Guerra (PE), acompanhados de um assessor ainda não identificado, participaram de um ato de destempero no sétimo andar do anexo IV da Câmara dos Deputados, em Brasília. Estimulado por Guerra, que é presidente nacional do PSDB, Marinho simplesmente arrancou um cartaz de propaganda do livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., então afixado na porta do gabinete do deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP). CartaCapital teve acesso às imagens captadas pelas câmeras de segurança pelas quais se constata, quadro a quadro, como dois parlamentares do maior partido de oposição do País se comportam de forma pouco democrática nas dependências do Congresso Nacional.
Os dois primeiros quadros das imagens captadas pelas câmeras de segurança mostram a dupla de deputados deixando o gabinete de Sérgio Guerra, localizado a 50 metros do gabinete de Protógenes Queiroz. Depois, no terceiro quadro, Marinho é flagrado à distância por uma das câmeras no momento em que arranca o cartaz, com Guerra bem às suas costas, enquanto o assessor observa a cena, um pouco mais atrás. O último quadro mostra o trio se afastando, Marinho com o cartaz na mão, ao mesmo tempo em que fala ao celular. O cartaz de “A Privataria Tucana”, livro que conta as peripécias de parentes, sócios e amigos do tucano José Serra em movimentações bilionárias por contas secretas no Caribe, acabou numa lata de lixo, ao lado de um elevador.
Protogenes 4Protogenes 3Protogenes 1Protogenes 2

A atitude dos deputados tucanos poderá acabar mal. Isso porque o deputado Rogério Marinho confessou o crime. Segundo ele, arrancar o cartaz da porta de um outro parlamentar foi “um ato político”. O Código de Ética da Câmara dos Deputados enquadra a ação de Marinho, contudo, como infração “às regras de boa conduta nas dependências da Casa”, passível de ação de quebra de decoro parlamentar. O deputado Queiroz prestou queixa do ocorrido no Departamento de Polícia Legislativa da Câmara e, na quarta-feira 26, requereu ao presidente da Casa, deputado Marco Maia (PT-RS), abertura de procedimento disciplinar contra Marinho e Guerra.
Caso o assunto chegue a ser julgado pela Comissão de Ética, os parlamentares do PSDB poderão sofrer censura verbal em sessão do plenário da Câmara e uma suspensão de seis meses do mandato parlamentar. É uma briga que vai se estender à CPI do Cachoeira, da qual Queiroz e Marinho são titulares. Guerra, ao saber da queixa do colega do PCdoB à polícia legislativa, apressou-se em também acusar Queiroz, delegado licenciado da Polícia Federal, de quebra de decoro por ter sido citado em gravações da Operação Monte Carlo, nas quais conversa com o araponga Idalberto Araújo, o Dadá, com quem trabalhou na Operação Satiagraha, em 2008.
Leandro Fortes
No CartaCapital
Leia Mais ►

A freira que roubava bebês

Foto: Susana Vera - Reuters
Maria Gómez Valbuena (à esq.) é julgada na Espanha por participar de esquema de roubo de recém-nascidos, que envolvia médicos e religiosos, para entregar a outras famílias; há 1,5 mil denúncias no processo
Um tribunal da Espanha deu início ao julgamento da freira Maria Gómez Valbuena. Ela é acusada de roubar bebês para as entregar a outras famílias, processo no qual há 1,5 mil denúncias. Maria Gómez se recusou a prestar declarações perante o juiz, saindo escoltada do edifício.
Conhecido como o processo das "crianças roubadas", o caso foi denunciado por milhares de mães na Espanha que acusam responsáveis religiosos e médicos de as terem enganado e raptado seus bebês logo após o nascimento.
De acordo com a denúncias, freiras, padres e médicos simulavam a morte das crianças no parto para entregá-las a outras famílias, muitas vezes em troca de dinheiro.
Maria Gómez Valbuena tem 80 anos e vive num convento das Irmãs da Caridade em Madrid. Ela é a primeira acusada a ser chamada por um juiz depois da denúncia feita por Maria Luisa Torres à procuradoria espanhola.
A mulher acusa a freira do roubo de sua filha, em março de 1982, na clínica madrilena de Santa Cristina, onde a religiosa era então assistente social.
No dia 3 de abril deste ano, Maria Luisa Torres disse ao tribunal que a freira alegou que sua filha Pilar estava morta por a considerar "adúltera", já que o pai da criança não era o seu marido.
Maria Luisa Torres descobriu a farça depois que foi localizada pelos pais adotivos de Pilar. Há mais de dez anos, eles estavam a procura dos pais biológicos a pedido da menina. O caso foi comprovado por um teste de DNA.
Com informações do El País
No Brasil 247
Leia Mais ►

Globo, Abril e Folha se unem contra CPI da mídia

Principais grupos de comunicação fecham pacto de não agressão e transmitem ao Planalto a mensagem de que pretendem retaliar o governo se houver qualquer convocação de jornalistas ou de empresários do setor; porta-voz do grupo na comissão é o deputado Miro Teixeira; na Inglaterra, um país livre, o magnata Rupert Murdoch depôs ontem
Há exatamente uma semana, o 247 revelou com exclusividade que o executivo Fábio Barbosa, presidente do grupo Abril e ex-presidente da Febraban, foi a Brasília com uma missão: impedir a convocação do chefe Roberto Civita pela CPI sobre as atividades de Carlos Cachoeira. Jeitoso e muito querido em Brasília, Barbosa foi bem-sucedido, até agora. Dos mais de 170 requerimentos já apresentados, não constam o nome de Civita nem do jornalista Policarpo Júnior, ponto de ligação entre a revista Veja e o contraventor Carlos Cachoeira. O silêncio do PT em relação ao tema também impressiona.
Surgem, aos poucos, novas informações sobre o engavetamento da chamada “CPI da Veja” ou “CPI da mídia”. João Roberto Marinho, da Globo, fez chegar ao Palácio do Planalto a mensagem de que o governo seria retaliado se fossem convocados jornalistas ou empresários de comunicação. Otávio Frias Filho, da Folha de S. Paulo, também aderiu ao pacto de não agressão. E este grupo já tem até um representante na CPI. Trata-se do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).
Na edição de hoje da Folha, há até uma nota emblemática na coluna Painel, da jornalista Vera Magalhães. Chama-se “Vacina” e diz o que segue abaixo:
“O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) vai argumentar na CPI, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que é vedado o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo, como jornalistas. O PT tenta levar parte da mídia para o foco da investigação”.
O argumento de Miro Teixeira é o de que jornalistas não poderão ser forçados a quebrar o sigilo da fonte, uma garantia constitucional. Ocorre que este sigilo já foi quebrado pelas investigações da Polícia Federal, que revelaram mais de 200 ligações entre Policarpo Júnior e Carlos Cachoeira. Além disso, vários países discutem se o sigilo da fonte pode ser usado como biombo para a proteção de crimes, como a realização de grampos ilegais.

Inglaterra, um país livre

Pessoas que acompanham o caso de perto estão convencidas de que Civita e Policarpo só serão convocados se algum veículo da mídia tradicional decidir publicar detalhes do relacionamento entre Veja e Cachoeira. Avalia-se, nos grandes veículos, que a chamada blogosfera ainda não tem força suficiente para mover a opinião pública e pressionar os parlamentares. Talvez seja verdade, mas, dias atrás, a hashtag #vejabandida se tornou o assunto mais comentado do Twitter no mundo.
Um indício do pacto de não agressão diz respeito à forma como veículos tradicionais de comunicação noticiaram nesta manhã o depoimento de Rupert Murdoch, no parlamento inglês. Sim, Murdoch foi forçado a depor numa CPI na Inglaterra – não na Venezuela – para se explicar sobre a prática de grampos ilegais publicados pelo jornal News of the World. Nenhum jornalista, nem mesmo funcionário de Murdoch, levantou argumentos de um possível cerceamento à liberdade de expressão. Afinal, como todos sabem, a Inglaterra é um país livre.
O Brasil se vê hoje diante de uma encruzilhada: ou opta pela liberdade ou se submete ao coronelismo midiático.
Leia Mais ►

Brasil compartilha o crescimento com a população, diz Dilma

Leia Mais ►

E o Oscar vai para...

A situação envolvendo o jogador de futebol Oscar equivale à conhecida prática da escravidão por dívida, legalizada no Brasil no período da imigração européia, quando se considerava crime o fato do imigrante deixar, ou, mais propriamente, fugir da fazenda antes de pagar a dívida que tinha com o dono da fazenda. O caso do Oscar é ainda mais grave porque mesmo que este proponha pagar a dívida, o seu “dono” não o quer libertar. Essa analogia é pertinente até para refletir sobre o fato de que as relações de trabalho no futebol ainda guardam muito da lógica escravagista.
A conhecida frase acima virou tradição no maior evento do cinema. O Oscar, de fato, é uma estatueta, uma coisa, que simboliza a premiação do trabalho realizado em nome da arte cinematográfica.
O que estamos presenciando no debate entre o São Paulo e o Internacional, no entanto, é uma inversão plena de valores. De fato, o homem, o Oscar, foi transformado, ele próprio, na coisa, na estatueta, que será entregue a um dos dois clubes não como reconhecimento de um trabalho realizado, mas para satisfação de um interesse econômico, fixado em um contrato.
Imaginemos a cena: o representante de um dos clubes fazendo o gesto de levantar, orgulhoso, a estatueta, o Oscar, e agradecendo, na seqüência, aos advogados e juízes, que souberam decifrar as cláusulas do contrato.
Sem entrar nos meandros dos termos contratuais, sem me posicionar, portanto, quanto a quem tem, ou não, razão nesta contenda, o que me parece inegável é que, de modo algum, essa discussão jurídico-formal pode conduzir ao efeito que ora se verifica de uma pessoa ser tratada como posse de alguém, e, pior, como uma coisa, um troféu que se possa erguer e, com isso, ser impedida de exercer um direito fundamental, que é o direito ao trabalho.
Em concreto, juridicamente falando, visualizando o Direito na perspectiva da proteção da condição humana, uma questão patrimonial, fixada em um contrato, não pode se constituir como fundamento para impedir o pleno exercício de um direito fundamental, que está ligado, inclusive, à noção básica da liberdade.
A consideração jurídica de que o Oscar “pertence” ao São Paulo, ou ao Internacional, é, portanto, totalmente ineficaz no aspecto da limitação do direito ao trabalho. Não é possível, por exemplo, que um Oficial de Justiça, por ordem judicial, pegue o Oscar e o conduza, à força, até um local determinado e o obrigue a treinar e a jogar. Do mesmo modo, não é possível que o efeito contratual, patrimonial, mesmo sem o necessário adimplemento, impeça alguém de exercer a sua liberdade.
Sem exagero, a situação equivale à conhecida prática da escravidão por dívida, que fora, até, legalizada no Brasil no período da imigração européia, quando se considerava crime o fato do imigrante deixar, ou, mais propriamente, fugir da fazenda antes de pagar a dívida que tinha com o dono da fazenda, sendo que a dívida em questão advinha do custeio da própria imigração e, depois, do valor devido pelo alojamento e pela alimentação concedidos na fazenda, sendo que o valor pago pelo trabalho era sempre menor que o montante da dívida que crescia diariamente.
O caso do Oscar é ainda mais grave porque mesmo que este proponha pagar a dívida, o seu “dono” não o quer libertar...
Essa analogia é pertinente até para refletir sobre o fato de que as relações de trabalho no futebol ainda guardam muito da lógica escravagista, na qual o trabalhador (o jogador) é dito como um patrimônio de seu dono (o clube), o qual se vê, inclusive, legitimado para exigir condutas, modos de agir e até de pensar por parte do jogador, chegando a interferir no seu direito de manifestação, atingindo, quase que por completo, a sua vida privada.
Os negócios no futebol, porque envolvem muito dinheiro, cegam as pessoas, gerando deturpações valorativas muito graves, a ponto do jogador ser entendido como o objeto do contrato que se realiza por terceiros interessados (os clubes) e não como sujeito.
Não é possível, repito, impedir alguém de exercer um direito fundamental sob o argumento de que há um direito patrimonial pendente.
No caso concreto, a solução só pode ser pensada a partir da vontade do jogador, conferindo-lhe a necessária liberdade para exercer seu direito fundamental de trabalhar, de praticar seu ofício, de se conceber, enfim, como um autêntico ser humano, o que não representa negligenciar as eventuais repercussões patrimoniais (que não me proponho a analisar neste texto) que possam advir de seu ato, mas que, mesmo sem solução, repito, não constituem empecilho à efetividade dos Direitos Humanos.
Em suma: o Oscar, a estatueta, vai para quem a Academia considerar que o mereça. O Oscar, o cidadão, vai para onde ele quiser!
Jorge Luiz Souto Maior | Graduação em Direito pela Faculdade de Direito Sul de Minas (1986), Mestrado (1995) e Doutorado (1997) em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Pesquisa, em nível de pós-doutorado, realizada na França em 2001, financiada pela CAPES, sob orientação do Prof. Jean-Claude Javillier, professor da Universidade de Paris-II. Atualmente é professor livre docente da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: Direito do Trabalho, Teoria Geral do Direito do Trabalho, História do Direito do Trabalho, Direitos Humanos, Processo do Trabalho e Justiça do Trabalho.
No Carta Maior
Leia Mais ►

Globo sempre esteve na contramão do Brasil, ao longo da história. Cotas, ProUni, Getúlio, Lula

Se a política de cotas nas universidades brasileiras e o ProUni estão levando milhares de jovens brasileiros às universidades, qual a posição da Globo? Confira editorial de ontem publicado no O Globo. Contra, é claro.
É uma tradição da Globo, que eles fazem questão de manter: tudo o que for popular, que leve a uma melhoria na condição de vida especialmente do mais pobre, O Globo é contra.
Rapidamente, só o que me vem à cabeça (quem se lembrar de mais, acrescente, à vontade, porque há muito):
  • Governo Getúlio Vargas - O governo do salário-mínimo, da legislação trabalhista. Povo a favor, Globo contra. Tanto que, após suicídio de Getúlio, carros de O Globo foram atacados.
  • Golpe de 1964 - Golpe foi contra reformas que beneficiariam o povo. Globo a favor do golpe.
  • Diretas Já - Povo nas ruas queria escolher pelo voto o presidente. Globo contra. Chegou a mostrar multidão na Praça da Sé exigindo Diretas Já, como se fosse apenas uma manifestação pelo aniversário de São Paulo.
  • Leonel Brizola - Povo a favor, Globo contra. Chegou a armar o caso Proconsult para tentar impedir a vitória do governador que vinha do exílio. Durante toda a vida de Brizola fez oposição sem tréguas a ele, e foi a causa principal de Brizola não ter conseguido ser presidente do Brasil.
  • CIEPs - O maior programa de educação popular jamais desenvolvido no Brasil. Povo a favor, Globo contra.
  • Governo do presidente Lula - Assim como o governo do presidente Vargas, o povo a favor, uma aprovação de quase 90%, mas O Globo contra.
  • Bolsa Família - Povo a favor, Globo contra.
  • Governo Dilma - o mesmo dos governos Vargas e Lula. Povo a favor, Globo contra.
  • Queda dos juros bancários - Povo a favor, Globo contra.
A Globo sempre foi a favor da remoção das favelas no Rio. Seu atual ideólogo, Ali Kamel, chegou a escrever sobre isso.
Como remover a Rocinha, por exemplo, é impossível, a Globo se rendeu (e por receber verbas milionárias do governo Cabral) ao programa das UPPs. Favelas ocupadas pela polícia (a solução do problema dos pobres é sempre a polícia para eles), com serviços legalizados, o que inclui pagamento de mensalidades da NET e Sky, de que a Globo é sócia, e vários "eventos sociais" (orquestra na favela, show na favela etc), em que a Globo fatura com sua empresa de eventos.
Sem contar que todo o projeto de UPPs é desenhado para a segurança da Copa 2014 e das Olimpíadas de 2016. Depois disso, podem apostar, a Globo volta a defender remoção e "porrada neles".
Porque as Organizações Globo estão onde sempre estiveram, na contramão do Brasil e do povo brasileiro.
Leia Mais ►

A política de cotas raciais nas universidades

Leia Mais ►

Novo método de diagnóstico precoce é desenvolvido para prevenir Alzheimer

Uma equipe de cientistas alemães da Universidade de Leipzig desenvolveu um novo método de diagnóstico do mal de Alzheimer que permite identificar a doença anos antes de o paciente apresentar os primeiros sintomas.
O procedimento foi apresentado no 50º Congresso da Sociedade Alemã de Medicina Nuclear, realizado até o próximo sábado na cidade de Brêmen, no norte do país, por um grupo de cientistas dirigidos pelo especialista Osama Sabri.
Os pesquisadores desenvolveram duas substâncias que permitem reconhecer alterações do tecido cerebral no qual são depositadas determinadas proteínas muito antes de o paciente apresentar os primeiros sintomas de perda de memória.
As deposições de proteínas, as chamadas placas beta-amiloides, se produzem no cérebro pelo menos dez anos antes do surgimento dos primeiros sintomas da doença, assinalou a equipe da Universidade de Leipzig, no leste da Alemanha.
Um novo produto farmacêutico de baixa radiação permite reconhecer essas placas com uma tomografia especial de emissões de positróns, segundo o estudo de Sabri, que espera lançar sua criação ao mercado ainda neste ano.
Diretor da Clínica e Policlínica de Medicina Nuclear da Universidade de Leipzig, Sabri sublinhou que o novo método representa "uma significativa melhoria do diagnóstico" do mal de Alzheimer.
O procedimento permite não só reconhecer de maneira muito precoce a doença, mas também diferenciá-la de outras formas de demência, assim como controlar o desenvolvimento do mal de Alzheimer em pacientes e comprovar se o tratamento consegue frear a degeneração cerebral.
O especialista de Leipzig assinalou em Brêmen que sua equipe realiza atualmente um estudo com uma segunda substância em 20 pacientes que sofrem o mal de Alzheimer em sua fase inicial para reconhecer alterações de determinados receptores no cérebro provocadas pela mesma proteína.
"Os novos procedimentos melhoram o atendimento ao paciente", assinalou Sabri, que reconheceu, no entanto, que segue sem existir um tratamento adequado para fazer frente ao mal de Alzheimer.
Os organizadores do congresso sublinharam que o novo método de diagnóstico é importante do ponto de vista científico, mas fornece pouco ao paciente, uma vez que não existe um tratamento efetivo para lutar contra a doença.
Também apontaram que, embora permita reconhecer as citadas proteínas, não serve para saber se a doença se desenvolverá posteriormente, nem a que idade isso aconteceria.
Leia Mais ►

‘Quero humanizar São Paulo’

Confiança. O ex-ministro acredita que as circunstâncias
 eleitorais o favorecem. Foto: Olga Vlahou
O ex-ministro Fernando Haddad está mais longilíneo. E mais confiante. Acredita que as circunstâncias eleitorais o favorecem, embora, no momento, a realidade pareça bastante madrasta. O PT perdeu um tempo precioso na tentativa de fechar um acordo eleitoral com o prefeito Gilberto Kassab, do PSD, que no fim das contas lançou-se aos braços de seu padrinho José Serra. Agora busca tirar o prejuízo e formar um arco de alianças sólido. Para piorar, o partido foi punido pela Justiça Eleitoral e perdeu o horário gratuito no rádio e na tevê do primeiro semestre, uma chance de ouro para apresentar um candidato desconhecido pelos paulistanos. Na única pesquisa de intenção de votos divulgada, Haddad aparece com 3%, menos da metade do peemedebista Gabriel Chalita e a quilômetros de Serra (e seus 30%). “É uma pesquisa de 60 dias atrás”, incomoda-se o ex-ministro. “Vamos ver a próxima rodada.”
Depois de um longo período mergulhado em articulações internas, Haddad colocou o bloco na rua. No sábado 14, durante um evento em São Bernardo do Campo, apareceu pela primeira vez ao lado de Lula e Marta Suplicy, fiadores de sua campanha (ainda que a senadora continue a não demonstrar empenho e entusiasmo). E tem intensificado os contatos com os eleitores. Seu principal alvo é a qualidade do transporte público. Segundo o petista, São Paulo vive um “apagão” no setor. Ele promete retomar os investimentos em corredores de ônibus, ampliar a parceria no metrô, desde que o governo estadual aceite estabelecer metas de entrega de estações, e melhorar a engenharia de trânsito. Promete ainda acabar com a taxa de inspeção veicular – e mudar o modelo. “Ela não produziu o efeito desejado. A qualidade do ar não melhorou.” Como ele vê São Paulo daqui a quatro anos, caso ganhe a eleição? “Uma cidade mais humana.”
CartaCapital: O senhor é o candidato do Lula e de um partido, o PT, que costuma ter ao menos 30% dos votos na cidade de São Paulo. Ainda assim, está estacionado na casa dos 3% nas pesquisas. O que acontece?
Fernando Haddad: Você se refere a uma pesquisa de 60 dias atrás, a única feita até o presente momento. A sua obsessão – e a de muita gente – por essa pesquisa me parece imprópria. Vamos aguardar uma nova rodada de pesquisas e verificar a evolução do quadro. Estamos no início do trabalho. É minha estreia em eleições e tenho total confiança: ao tomar conhecimento do nosso projeto, a população da cidade vai apoiá-lo naturalmente.
CC: No início das articulações políticas para a sua candidatura, o PT e as forças aliadas parecem ter ignorado a alta probabilidade de o ex-prefeito José Serra participar da disputa. Não foi um erro de estratégia?
FH: Se houve erro não foi da minha parte. Em todas as minhas declarações públicas, sempre deixei claro que, no meu entender, a maior probabilidade era de o Serra participar das eleições. Até porque nos últimos 12 anos ele participou de cinco das seis eleições. O Serra está sem mandato e precisava encontrar uma forma de se reposicionar na vida política.
CC: O senhor elegeu o transporte público como o primeiro mote de sua campanha. O que pretende fazer nessa área?
FH: São Paulo vive um apagão do transporte. É visível. Todas as pesquisas apontam queda na aprovação dos serviços públicos prestados. Há claramente uma falta de investimentos. Em primeiro lugar, os prefeitos posteriores abandonaram os planos em curso durante a gestão da Marta Suplicy. Quando a Marta assumiu, a prefeitura de São Paulo, herdada do Celso Pitta, estava quebrada e tinha um terço do Orçamento atual. Mesmo assim, foram construídos 70 quilômetros de corredores de ônibus. E o que foi feito depois? Outra coisa: a prefeitura colocou dinheiro nas obras do metrô, mas não fez um acordo com o governo estadual para estabelecer metas. Mais dinheiro não tem significado mais estações e linhas. Só tem representado um preço maior por quilômetro construído. Após 18 anos de governo do PSDB no estado, ainda não temos clareza sobre o cronograma de obras do metrô em virtude do constante adiamento daquilo que é prometido.
CC: O senhor manteria os investimentos?
FH: Sim, até me disporia a investir mais no metrô. Mas desde que sejam estabelecidas metas claras. Ainda sobre o transporte: é preciso melhorar a engenharia de trânsito da cidade, completamente abandonada. A CET está sucateada e com baixo contingente para enfrentar os desafios. Nesses anos de inclusão social e maior oferta de crédito, um grande número de cidadãos conseguiu comprar um carro. E a gestão do trânsito não acompanhou essa mudança. Hoje há congestionamento nos bairros no fim de semana, algo que não acontecia. Não há planejamento, não há engenharia, não há duplicação de vias. Para piorar, as panes dos trens da CPTM e do metrô são recorrentes. No caso do metrô, acumulam-se problemas. Houve o horrível acidente da cratera, a acusação de fraudes na licitação, gestores afastados por denúncias. Tudo isso somado à queda nos investimentos em manutenção. Isso é ou não é um apagão?
CC: A CPTM e o metrô não são da alçada do prefeito.
FH: Mas e o dinheiro aplicado pela prefeitura, qual é a contrapartida? No mundo moderno, a administração pública se pauta por metas. Tive o privilégio de inaugurar no Ministério da Educação um plano de desenvolvimento com metas quantitativas e qualitativas. Todas cumpridas até o momento.
CC: No ponto em que estamos, não seria preciso tomar medidas mais drásticas? Ampliar o rodízio, por exemplo?
FH: Não são só os brasileiros que compram carro. Nas nações desenvolvidas, o indivíduo tem automóvel, mas usa de maneira parcimoniosa, pois a cidade, o Estado, é capaz de oferecer uma opção de boa qualidade. Políticas restritivas de uso do carro só são implantadas após a oferta de um bom sistema de transporte público. Ampliar as restrições neste momento em São Paulo representaria empurrar mais gente para um sistema saturado por falta de investimentos estaduais e municipais. O que pretendo fazer é melhorar a gestão do trânsito e, simultaneamente, aumentar os investimentos em transporte público. Com metas, transparência, de forma que a sociedade possa acompanhar e fiscalizar.
CC: Como ex-ministro da Educação, quais são seus planos para melhorar o ensino público na cidade?
FH: São Paulo é o estado mais rico da Federação. A renda per capita da cidade é superior àquela da Argentina, do Chile, do Uruguai, do México. Apesar desse dado, o sistema educacional paulista está aquém do de todos esses países. Não faz sentido. A cidade pode se tornar uma referência, mas é preciso investir da creche à pós-graduação. É preciso ter mais vagas em universidades públicas, mais escolas técnicas. O governo federal tem recursos disponíveis. Também necessitamos de mais creches e pré-escolas. E existe um programa federal com dinheiro destinado a São Paulo que a cidade ainda não foi capaz de usar. É questão de disposição para fechar as parcerias, os convênios. Outro ponto: vamos implantar a educação de tempo integral. Vamos estabelecer metas para atingir em quatro anos um determinado porcentual de estudantes em dois turnos.
CC: Como o senhor imagina São Paulo no final de sua gestão, caso ganhe as eleições?
FH: Quero fazer de São Paulo uma cidade mais humana. Uma cidade promove o encontro das pessoas. Ela tem de ser convidativa. O governo Lula melhorou a vida dos brasileiros da porta para dentro. Os brasileiros, e os paulistanos em particular, tiveram acesso a bens e serviços antes proibidos à maioria. O prefeito tinha a responsabilidade de cuidar da porta para fora. Houve um aumento sensacional da arrecadação. O Orçamento é três vezes maior do que há oito anos. O prefeito Gilberto Kassab possui cerca de 5 bilhões de reais para investimentos e não consegue aplicar os recursos. Quando a vida melhora da porta para dentro e não melhora da porta para fora é sinal de que a cidade não cumpre sua função de aproximar os cidadãos. E isso se faz melhorando a iluminação, a mobilidade, a educação, os serviços públicos.
CC: Como a prefeitura pode atuar para deixar a cidade menos violenta?
FH: A segurança é uma atribuição do governo estadual, mas a prefeitura pode tomar algumas providências. Uma cidade limpa, iluminada, com calçamento adequado, muro nos terrenos vazios favorece a segurança. Até a melhora do trânsito provoca efeitos positivos. Os arrastões pelas avenidas acontecem por causa dos congestionamentos. Os motoristas, parados, tornam-se presas fáceis dos ladrões. E há a Guarda Civil Metropolitana, desprestigiada na atual gestão. Podemos ter uma combinação de esforços da prefeitura e do governo do estado.
CC: Como resolver o problema da Cracolândia? O senhor é a favor da internação compulsória dos viciados?
FH: Fui um dos primeiros a defender a necessidade de uma política de ocupação da Cracolândia, com força policial, por causa da presença de traficantes e crianças. Mas supunha que a ocupação seria feita de maneira conjugada com a oferta de assistência social e de saúde. Não com o simples intuito de espalhar os viciados pela cidade, como ocorreu. Entendo que a internação compulsória sem a participação do Poder Judiciário é muito temerária. Podemos abrir espaço para práticas das quais vamos nos arrepender no futuro. Ela tem de ser usada com parcimônia, quando se tratar de riscos à vida das pessoas.
CC: O próximo prefeito administrará a cidade durante a Copa do Mundo, um evento fundamental para imagem do Brasil no exterior. Estamos preparados?
FH: Temos todas as condições para nos preparar. A prefeitura tem feito pouco…
CC: O que falta?
FH: Coisas básicas. Falta um plano de sinalização para estrangeiros, por exemplo. Vamos precisar de quem fale uma segunda língua para orientar os turistas. E isso precisa ser planejado já. Faltam praticamente dois anos para o Mundial. Não sabemos se temos estrutura para receber bem a todos os que virão, para que eles voltem à cidade e ao Brasil. Certamente um dos grandes legados da Copa será transformar o País em um lugar mais atrativo para os turistas. Se eles não foram bem tratados, levarão uma imagem deformada dos brasileiros. Não vejo um esforço da prefeitura para preparar a cidade.
CC: Como tornar São Paulo uma cidade ambientalmente mais sustentável?
FH: Existem dois aspectos fundamentais. Avançar na coleta seletiva de lixo é um deles. Estamos estagnados nessa área. Há tecnologias avançadas e experiências internacionais bem-sucedidas e fáceis de ser usadas e reproduzidas. O Brasil aprovou um novo marco regulatório do manejo dos resíduos sólidos. Todos os municípios têm prazo para se adaptar às novas regras. O tempo está correndo.
CC: A prefeita Marta Suplicy ficou marcada pela criação de um imposto destinado a investir na coleta seletiva. Era chamada de “martaxa”. Dá para investir em coleta seletiva sem criar um novo imposto?
FH: Na verdade, o Serra e o Kassab substituíram uma taxa por outra, de pior qualidade, e não fizeram nada para melhorar a coleta de lixo. Mas não dá para ressuscitar taxas ou impostos no Brasil. Veja o caso da CPMF, criada pelo Fernando Henrique Cardoso. O Congresso a extinguiu e assim ficou. Vou além. Pretendo acabar com a taxa de inspeção veicular, pois ela não produziu os efeitos desejados do ponto de vista ambiental.
CC: E como manter a inspeção?
FH: Nos moldes do que se faz no resto do mundo, principalmente nos países desenvolvidos. Não há sentido em fazer inspeção em veículos recém-saídos das concessionárias e ainda dentro do prazo de garantia das fábricas. Se está na garantia, a regulagem do motor para a emissão de poluentes tem de estar contemplada. Além do mais, o paulistano paga a maior alíquota de IPVA do Brasil. Metade dessa arrecadação é repassada ao município. A outra metade é do estado. Vamos atingir 2 bilhões de reais em arrecadação, dez vezes mais do que deveria custar a inspeção veicular de toda a frota. Essa taxa é contraproducente. Por causa dela, boa parte da frota de automóveis da cidade não está licenciada. Outra parte está licenciada fora do município e do estado, pois os motoristas buscam uma maneira de pagar menos impostos. Já a qualidade do ar não melhorou. Diria até que piorou.
Sergio Lirio
No CartaCapital
Leia Mais ►

Intolerância Religiosa

Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.
Dráuzio Varella
No Blog Limpinho & Cheiroso
Leia Mais ►

Dieese ‘desmonta’ justificativas de bancos para manterem alto spread

Com dados apurados antes da atual onda de corte de juros, que ainda permanece restrita a determinados pacotes de serviços e segmentos de clientes, Dieese revela que maior parte do spread é formada por lucro, compulsório representa apenas 4 pontos percentuais da taxa e índice de inadimplência é estimativa, e não dado real.
São Paulo – Estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos (Dieese) desmonta alguns dos principais argumentos dos bancos brasileiros para manterem spreads elevados na intermediação financeira.
No início deste mês, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pressionada pelo governo federal, condicionara a queda do spread a uma série de medidas a serem tomadas pelo governo, como redução do compulsório e de impostos.
Como se sabe, a resistência durou pouco. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, sob ordens do governo, cortaram os spreads, obrigando as instituições privadas a fazerem o mesmo para não perderem mercado – ainda que os benefícios permaneçam restritos a alguns pacotes de serviços e segmentos de clientes.
O que o estudo da subseção do Dieese no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região confirma agora, com base em dados do Banco Central (BC), é que o spread é alto no Brasil por conta das altas margens de lucro embutidas na taxa.
Em 2010, última pesquisa feita pelo BC, o spread era formado por 32,7% de margem líquida, 28,7% de inadimplência, 21,9% de impostos diretos, 12,6% de custo administrativo e 4,1% de despesas referentes ao compulsório, subsídio cruzado e fundo garantidor de crédito.
“Alguns analistas dizem que é preciso reduzir o compulsório para cortar o spread, mas isso é um desvio de foco, porque o compulsório representa apenas quatro pontos do spread”, afirma o economista do Dieese Gustavo Cavarzan, um dos autores do trabalho.
Ele lembra ainda que está embutido no spread um custo administrativo de mais de 12 pontos percentuais, apesar de os bancos já obterem uma remuneração via tarifas de 130% do valor das despesas com pessoal.
Por fim, com relação à inadimplência cobrada via spread, ele aponta que o valor é uma estimativa, e não a “inadimplência real”. Isso sugere que em determinados períodos os bancos cobram um valor referente à taxa de inadimplência que, na verdade, poderia ser menor.
Antes da atual onda de corte nos spreads, os bancos brasileiros eram um ponto fora da curva no mundo, onde alguns países chegavam a ter “spreads negativos”. Em janeiro de 2012, enquanto a taxa média paga para aplicações financeiras no Brasil estava em 38% ao ano, a taxa média de captação era de 10,2% anuais, resultando em um spread de cerca de 27,8 pontos percentuais ao ano.
Na Argentina, esse número estava em 3,39 pontos, no Chile, em 4,49, no México, em 3,82, na Colômbia, em 7,37, e na Bolívia, em 9,61. Agora, aguarda-se um novo estudo para confirmar se os spreads no Brasil convergem rumo a padrões normais.
Apesar das novidades, Cavarzan afirma que não acredita que os bancos do país deixarão de registrar lucros relativamente mais elevados do que em outros países. “Eles vão deixar de ganhar na margem, mas vão ganhar na escala,”, diz.
O mercado de crédito no país realmente tem um amplo potencial de crescimento. Enquanto por aqui o volume de crédito alcança patamares de 48% (metodologia do BC, em janeiro de 2012) ou 57% (metodologia do Banco Mundial, em 2010), esse número chega a 225% na Dinamarca, 169,2% no Japão, 145,5% na África do Sul e 130,0% na China - conforme dados do Banco Mundial.
Leia Mais ►

Dicró

Carlos Roberto de Oliveira
Dicró
Mesquita, 14 de fevereiro de 1946 – Magé, 26 de abril de 2012


Leia Mais ►

Como imaginar uma orgia

A minicâmera e o grampo telefônico ainda podem fazer mais pela moral na política do que toda a fiscalização e todos os mandamentos cristãos juntos.
Supõe-se que depois dos escândalos recentemente grampeados as pessoas fiquem mais cautelosas, ou mais reticentes. Corruptos e corruptores continuarão a existir, mas não agirão nem falarão mais tão livremente, pelo menos não antes de procurar a câmera e o microfone escondidos. O que deve no mínimo dificultar os negócios.
Os avanços da técnica revolucionaram o registro histórico.
Imagine se quando o Kennedy foi assassinado já existissem as gravadoras e os celulares que hoje substituem as câmeras fotográficas até no aniversário do cachorro. Em vez daquele precário filme em 8mm do atentado, estudado e reestudado quadro a quadro na busca de vestígios de uma conspiração, haveria teipes e fotos de todos os ângulos e com todas as respostas, como a cara, o nome e o CIC dos possíveis conspiradores.
Mas a técnica, ao mesmo tempo que desestimula a falcatrua, comprova a denúncia, desmancha o mistério e enriquece a notícia, pode empobrecer nossa percepção dos fatos. As grandes batalhas e os grandes eventos da era pré-fotográfica foram registrados em quadros épicos em que o artista ordenava a cena em função do efeito, não do fato, ou não exatamente do fato.
A Primeira Guerra Mundial não foi mais terrível do que muitas guerras anteriores, só foi a primeira guerra filmada, a primeira com a imagem tremida e sem cor, e por isso parece tão mais feia do que as guerras heroicamente pintadas.
A Guerra do Vietnã foi a primeira transmitida pela TV, a primeira em que o sangue respingou no tapete da sala. Por isso deu nojo. Os americanos aprenderam a lição e transformaram sua invasão do Iraque num videogame.
Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim.
Sua culpa — até se ouvir sua voz gravada combinando a divisão dos milhões, ou ver sua imagem forrando os sapatos com dinheiro — era sempre uma conjetura. Imaginávamos o que acontecia nos bastidores do poder corrupto, mas era um pouco como imaginar uma orgia romana, ou visualizar uma orgia romana através da imaginação de um artista.
Agora, não. Com a banalização do grampo telefônico e da minicâmera escondida, temos o que faltava no quadro. Temos todos os sórdidos detalhes e a orgia às claras. Temos o que enoja.
Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►