24 de abr de 2012

Muita Calma Nessa Hora

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Propina de Cachoeira no palácio de Perillo

Perillo
Foi no Palácio das Esmeraldas que o governador de Goiás Marconi Perillo (PDSB) recebeu de Carlinhos Cachoeira um pacote de dinheiro no valor de R$ 500 mil. Isto foi parte do pagamento de “negócios” entre o governador e o bicheiro. O contato era feito por Wladimir Garcês, preso na operação Monte Carlo e, apontado como braço direito do contraventor. Cachoeira monitorou a entrega do dinheiro pelo telefone e chegou a brincar com Garcês pedindo pra que tomasse cuidado para não se envolver em acidentes que pudessem incendiar e queimar as notas.
O governador de Goiás Marconi Perillo aguardava no Palácio ansioso. Tudo isso e muito mais está dentro do processo da Operação Monte Carlo. O que é curioso é que o procurador geral da República Roberto Gurgel em nenhum momento pensa em denunciar Perillo. Mas comentou com um dos procuradores do caso que está cada vez mais difícil deixar Perillo fora disso por conta do episódio envolvendo propina. O inquérito que era extremamente sigiloso, hoje circula livremente nas mãos da imprensa e de políticos com interesse em pinçar adversários envolvidos no escândalo.

Demóstenes, Perillo e Cachoeira
Tudo parecia estar sob controle do ex-presidente Lula para se vingar de Perillo e do senador goiano Demóstenes Torres (sem partido), mas o vazamento do processo trouxe à luz a maior empreiteira e fornecedora do Governo. A Delta teve uma ascensão meteórica no Governo Lula. Como disse o presidente da empresa, Fernando Cavendish, políticos se compram, principalmente durante as campanhas, quase todos têm seu preço.  As declarações bombásticas de Cavendish foram reveladas na semana passada com exclusividade pelo Quidnovi.
Agora Lula desembarcou em Brasília a fim de tomar as rédeas dessa história novamente para evitar que Cavendish sofra a falência, só que revelando a parceria com os políticos que ajudaram a Delta a crescer.
O mais estranho é que o procurador Gurgel não está rezando na cartilha de Lula e Marconi Perillo diz ao vento que com ele nada vai acontecer. Até agora, não tinha sido revelado o envolvimento de Perillo com Cachoeira falando-se em dinheiro. Mas o inquérito não pode esconder o pagamento de propina que o bicheiro fazia para conquistar espaço no poder e engordar sua fortuna usando empresas de fachada com a conivência das autoridades.
Perillo tem algo a mais para explicar. O ex-governador José Roberto Arruda esteve depondo secretamente no Ministério Público Federal para o procurador criminal Ronaldo Albo e fez revelações bombásticas entregando documentos e mostrando como o governador de Goiás amealhou parte de sua atual fortuna.
É preciso se aprofundar nas relações políticas de Perillo, porque Carlinhos Cachoeira atuava em todo o Brasil, credenciado por Perillo e Demóstenes. O pagamento de propina a Perillo no Palácio das Esmeraldas teve uma ação cinematográfica. O Quidnovi trouxe à tona mais um capítulo da Operação Monte Carlo.
Com a CPI instalada no Congresso e outra na Câmara Distrital em Brasília, que fisgou o governador do DF Agnelo Queiroz, passam a ser três alvos: Demóstenes, Marconi e Agnelo. Não vai sobrar pedra sobre pedra. 
Agnelo
Mino Pedrosa
No Quid Novi
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Décio Sá, blogueiro do Maranhão, está enterrado. E agora?

Décio Sá
Conversei há pouco com o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Maranhão, Leonardo Monteiro. Ele saía do enterro do jornalista e blogueiro Décio Sá, assassinado covardemente na noite de ontem, às 23h30, com seis tiros no bar Estrela D´alva, na Avenida Litorânea, em São Luis.
A cena se repetiu. Um rapaz que estava na garupa de uma moto, desceu, fez de conta que ia ao banheiro e na volta, passou por Décio Sá e descarregou sua arma. Mais uma vez. Do mesmo jeito.
Há alguns dias escrevi um texto cujo título era: “Ainda há tempo para agir contra a tomada do Estado pelo crime organizado”. Mas os governantes estão dando mole. Os que não estão no bolso dos esquemas, têm medo de mexer com eles. Essa é a sensação que se tem.
Enquanto isso, blogueiros e jornalistas, principalmente os que não têm a proteção de uma grande empresa de comunicação, vão sendo assassinados e ameaçados. “Ele mexeu com coisas que arrepiam e era um blogueiro muito acessado. Algum bandido achou que ele estava incomodando, decidiu que era hora de ele pagar com a própria vida”, afirmou Leonardo Monteiro.
Entre as coisas que arrepiam, nas palavras de Leonardo Monteiro, este ingênuo blogueiro achou o seguinte trecho de um dos seus últimos posts:
A defesa dos pistoleiros Moises Alexandre Pereira e Raimundo Pereira, acusados de matar no ano de 1997, em Barra do Corda, o líder comunitário e sem-teto Miguel Pereira Araújo, o Miguelzinho, a mando do empresário Pedro Teles, ajuizaram nesta segunda-feira pedido no Tribunal de Justiça do Maranhão solicitando a transferência do julgamento para São Luís.
A alegação é de que das 25 pessoas selecionadas para participar do júri popular, pelo menos 20 têm ligação com o empresário, seu pai, o prefeito Manoel Mariano de Sousa, o Nezim, e o deputado Rigo Teles (PV), irmão de Pedro (veja relação abaixo).
“Verifica-se que a lista de jurados sorteados é totalmente viciada, não havendo qualquer imparcialidade dos mesmos, nem tampouco haveria possibilidade de excluir aqueles que poderiam ser imparciais, já que dos listados com alguma ligação com a família do pronunciado Pedro Teles, só sobrariam cinco jurados, número insuficiente para compor o corpo de jurados, pois todos são amigos ou tem alguma ligação com a família do pronunciado”, diz o pedido.
A petição é assinada por Leandro Morais Sampaio Peixoto, filho do ex-prefeito Avelar Sampaio (PTB). Na época, foi Avelar quem cedeu Moisés e Raimundo para atuarem como segurança de Nenzim. O ex-prefeito deve prestar depoimento durante o julgamento.
Este ingênuo blogueiro não está acusando o empresário Pedro Teles pelo assassinato de Décio Sá, mas considera que é uma vergonha que o ministro da Justiça não se manifeste com clareza acerca da suspeita levantada por Décio Sá nesta nota.
Quando Chico Mendes foi assassinado no Acre, um líder político que depois se tornaria presidente da República disse: “Chegou a hora de a onça beber água”. Foi muito criticado porque alguns entenderam a frase como uma incitação a uma reação dos seringueiros.
Está mais do que na hora de os blogueiros dizerem para as autoridades que “chegou a hora da onça beber água”.
O que o ministro da Justiça vai fazer em relação a este caso? Vai ficar quieto esperando que caia no esquecimento como outros? E a ministra dos Direitos Humanos, vai fazer de conta que não é com ela? E os pilantras que governam o Maranhão e são aliados do governo federal?
A blogosfera precisa reagir. Como não somos bandidos e não é possível sair atirando em quem atira contra os nossos, precisamos gritar alto contra aqueles que têm o dever de garantir o Estado de Direito. Eles tem nome.
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Cristina K. dá uma no prego outro na ferradura

Para ninguém achar que a presidenta Cristina K é a nec plus ultra da esquerda latinoamericana (depois da correta expropriação da petroleira YPF-Repsol), quero sugerir a leitura de um livro - El Mal - do respeitado jornalista argentino, Miguel Bonasso.
Recomendo porque eu já o li. É de arrepiar.
Trata-se de uma denúncia contra o entreguismo disfarçado do casal K. Bonasso é um ex-peronista de esquerda, privou da amizade de Néstor e de Cristina K. e depois rompeu com eles, antes da morte de Néstor. Foi deputado na Argentina, quando teve oportunidade de conhecer a política de mineração do ouro e da prata dos governos Néstor e Cristina. É uma história de escândalos, corrupção, envolvimento no caso Irã/Contras, máfia internacional da mineração, família Bush, contrabando e comércio internacional de armas, políticos-ratazanas e muito-muito dinheiro azeitando essa máquina de malfeitos.
Conceito do jornalista Miguel Bonasso sobre o casal Kirchner: "O gatopardismo [mudar para tudo continuar igual], a venda do mesmo cachorro com diferentes coleiras é uma constante no Modelo K".
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O modelo latinoamericano

O que melhor caracteriza o cenário mundial é a recessão no centro do capitalismo e a capacidade de manter níveis de expansão de suas economias, acompanhadas de distribuição de renda, no Sul do mundo. Claro que o crescimento de tres décadas seguidas da economia chinesa é alavanca essencial desse fenômeno. Mas ele é parte integrante do cenário, que revela a reiteração do modelo neoliberal no centro e modalidades de expansão com extensão dos mercados internos de consumo popular no Sul.
Antes do ciclo de crises atual, uma recessão no centro era devastadora para o sistema no seu conjunto, com efeitos ainda mais agudos na periferia, pela dependência da demanda, dos investimentos e dos créditos. Desta vez nossas sociedades sofrem os efeitos dessa retração, baixam seu ritmo de crescimento, mas não entram em recessão. Já existe uma certa multipolaridade econômica no mundo, de forma que o que sucede no centro não se transfere mecanicamente para a periferia.
A América Latina pode assim exibir ao mundo um outro modelo, que não apenas mantem ritmos de desenvolvimento econômico, mas o faz simultaneamente com a distribuição de renda. Tem portanto não apenas uma superioridade econômica, mas política, social e moral. Como uma de suas consequências, enquanto na Europa todos os governos que se submetem a processos eleitorais - de esquerda ou de direita – são derrotados, porque responsabilizados por politicas recessivas e devastadoras socialmente, os governos que colocam o modelo alternativo em prática na América Latina, tem sido eleitos, reeleitos e tem conseguido eleger seus sucessores.
Enquanto na Europa se produz um processo sistemático de empobrecimento da população, aqui tem diminuído sistematicamente a pobreza e a miséria. Os países europeus, que tinham recebido grande quantidade de trabalhadores imigrantes, veem agora uma parte destes retornar a seus países, enquanto nacionais passam a buscar trabalho em outros países e continentes.
A maior disputa política hoje no mundo se dá entre o modelo neoliberal mantido no centro do capitalismo e o modelo latinoamericano.
Emir Sader
No Blog do Emir
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PAC Mobilidade Grandes Cidades

A presidenta Dilma Rousseff afirmou hoje (24) que o Brasil tem que priorizar o transporte de massa como principal forma de deslocamento nos grandes centros urbanos. Ela anunciou investimento conjunto de R$ 32 bilhões entre governo federal e estados e municípios, no âmbito do PAC Mobilidade Grandes Cidades, para a construção de 600 quilômetros de vias, 200 quilômetros de trilhos, 381 estações e terminais e aquisição de 1.060 veículos para sistemas sobre trilhos.
“Nós somos um país que progressivamente seremos obrigados a ter no transporte de massa a forma preferencial de entrar nos grandes centros urbanos. Isso é inexorável. É inexorável, porque não vai ser possível, principalmente, porque o nosso país caminha – e nós queremos que ele caminhe celeremente para melhorar o seu perfil de renda, o seu perfil de necessidades – e, portanto, o nosso país caminha para a situação que países desenvolvidos têm hoje em termos de posse de veículos”.
Os investimentos vão beneficiar 51 municípios em 18 estados, ampliando e elevando a capacidade dos sistemas de transporte coletivo nas grandes cidades brasileiras.
No Blog do Planalto
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SIP volta à velha catilinária sobre ameaças à liberdade de imprensa

Pouco objetivos, fogem completamente à realidade dos países do continente os informes apresentados na reunião de meio de ano da Socieade Interamericana de Imprensa (SIP), que neste 2012 se realiza em Cádiz, na Espanha. Foram apresentados informes sobre Argentina, Brasil, Equador, Cuba e Venezuela, entre outros países, referentes aos últimos seis meses, desde a assembleia geral realizada em outubro passado, em Lima.
O representante brasileiro na reunião, Paulo de Tarso Nogueira, consultor do Estado, citou a “censura” imposta ao jornal, impedido de publicar informações sobre investigações da Polícia Federal; a tramitação, no Congresso, da lei que regulamenta o direito de resposta; e a reação de alguns magistrados às noticias sobre altos salários no Judiciário.
Nenhumapalavra do representante brasileiro sobre o caso do contraventor Carlos Cachoeira, que agora virá à tona com a CPI em toda sua nudez de como pratica de jornalismo bandido. Nem sobre as relações da mídia com o crime organizado no Brasil na produção de notícias contra seus adversários.

Desafio aos jornalistas: ver a liberdade de imprensa na Venezuela

Tampouco houve menção ao caso do Hotel Naoum, no qual um jornalista de Veja tentou invasão de domicílio, quis invadir ilegalmente o apartamento em que eu estava no hotel. Foram mais ou menos na mesma linha, de insinuação de que há censura ou tentativa de impô-la em países como a Argentina, Equador e Venezuela, os relatos apresentados por representantes da mídia desses países.
No caso do informe da Venezuela foram destacadas as dificuldades de cobertura jornalística para os crescentes casos de violência urbana e a falta de informações oficiais em acontecimentos como rebeliões e outros incidentes em presídios. Desafio qualquer jornalista brasileiro a passar uma semana na Venezuela para constatar a mais absoluta liberdade de imprensa que existe no pais, com a maioria dos órgãos de imprensa fazendo oposição aberta e radical ao governo Chávez.
É um absurdo apontar a violência existente num país, ou o embate politico radical entre governo e oposição, como fator de limitação do exercício da profissão. Embate político, sim, entre governo e oposição, porque porque a própria imprensa assume e assumiu assim, e criou esta situação quando conspirou e apoiou abertamente o golpe de 2002 contra o presidente constitucional Hugo Chávez. E quando, há um mês, apoiou as primárias que escolheram o nome do concorrente à presidência da República pela oposição, e agora apoia seu candidato ao Palácio de Miraflores, Henrique Capriles.

Mídia conservadora apoiou golpe contra presidente Hugo Chávez

Fora isto, crimes contra a honra - sobre os quais os relatos se queixaram, apresentando-os como tentativas de cenrua à imprensa - são puníveis em todas as legislações. Os jornalistas não estão acima da lei. Multas, suspensão e fechamento de órgãos da imprensa também existem em todas democracias se concessionários de veículos de comunicação não cumprem as exigência legais das concessões que receberam.
Não podem ser taxadas de medidas de exceção ou contra a liberdade de imprensa sem uma análise caso a caso. Assim o informe dado na SIP por donos de meios de comunicação da Venezuela não podem e nem deve ser tomado como verdade, mas sim como ação da oposição e luta política contra o governo Chávez.
No Blog do Zé
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No divã da Cantanhêde

Agora que não é mais especialista em aviação de caça, com a saída de Nélson Jobim do Ministério da Defesa, a colunista Eliane Cantanhêde, da Folha, dedida-se a um assunto mais estratosférico: a interpretação telepática da mente humana.
Sua coluna de hoje  – leia aqui a transcrição feita pelo Paulo Henrique Amorim – traça um diagnóstico psicológico de “alta precisão” sobre o ex-presidente Lula.
“Dilma tem que administrar um dado político fundamental -o ego do padrinho.”
“Quanto mais Dilma acerta e cresce, mais ele alimenta a paranoia de que tentam “desconstruir a sua imagem”.
“Lula está absolutamente convencido de que foi o melhor presidente da história da humanidade, mas os adversários (entre os quais inclui a imprensa) não reconhecem.”
“Ele não suporta ver a sua criatura se tornando mais admirada do que o criador. Sente-se injustiçado, senão perseguido, e reage com mágoa e rancor.”
Impressionante. Isso é que é objetividade jornalística. Não é preciso um fato, uma declaração sequer, nada. Nem mesmo uma horinha de divã foi necessária para D. Cantanhêde traçar um perfil assim profundo da personalidade ególatra e rancorosa de Luiz Inácio Lula da Silva.
Sigmund Freud não faria melhor. Não sei como Cantanhêde não falou algo sobre D. Lindu, a mãe de Lula, para tornar mais precisa sua patética incursão pela psicanálise.
A colunista da “massa cheirosa” não pode ver em um operário – nem num ex-operário que chegou à Presidência – nada senão mesquinhez e baixeza.
Passa batido pelo fato de que Dilma foi candidata e elegeu-se pela força de Lula – e ninguém mais que a presidenta sabe e valoriza isso. E, muito menos, não percebe o óbvio: que Lula é o maior interessado em que Dilma continue acertando, porque – se resolver ser candidato -  terá a seu favor uma presidenta extremamente bem avaliada pela população, como ela o teve em Lula em 2010.
Mas Cantanhêde vive num mundo povoado por Serras, Jobins  e FHCs, onde a vaidade e a egolatria são os combustíveis de mentes sem compromissos com a massa mal-cheirosa.
E acaba julgando a todos pelos mesmos critérios e pelos critérios que lhe ditam seus próprios sentimentos e conceitos.
É realmente um caso de psicanálise, não de jornalismo político.
Fernando Brito
No Tijolaço
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Sader: Lula provoca mais ódio que Vargas

Saiu hoje na pág. 2 da Folha:
(…)
A pesquisa – clique aqui para ler “Popularidade da Dilma não inibe Golpe contra ela” – ajuda a acalmar a ansiedade e a espantar os fantasmas de Lula, que, nas conversas com aliados, não para de reclamar da imprensa, da oposição e da “elite”. Quanto mais Dilma acerta e cresce, mais ele alimenta a paranoia de que tentam “desconstruir a sua imagem”.
Lula está absolutamente convencido de que foi o melhor presidente da história da humanidade, mas os adversários (entre os quais inclui a imprensa) não reconhecem. Insistem em dizer que o mensalão existiu, que ele impôs ministros que Dilma teve de defenestrar e que seu governo foi marcado por uma alegre convivência com fichas-sujas e oligarcas.
Ele não suporta ver a sua criatura se tornando mais admirada do que o criador. Sente-se injustiçado, senão perseguido, e reage com mágoa e rancor. Seu apoio à CPI é resultado desse sentimento: “doa a quem doer”, ou seja, “doa ou não em Dilma”.
O Datafolha é um bálsamo para as dores de Lula, que agora pode vangloriar-se pela escolha de Dilma como sucessora e continuar sentindo-se o “mais”, o “melhor”, o “mais amado”, o “candidato dos sonhos”.
Bálsamo para Lula, alívio para Dilma, que é cheia de dedos com Lula, ouvindo-o, reverenciando-o, mantendo-o no pedestal.
O resto é questão de tempo: até 2014, o “volta Lula” deve lentamente deslizar para o “fica Dilma”.
Em recente debate na Bienal do Livro – clique aqui para ler “CPI vai desmontar o ‘espetáculo’ da Globo” e aqui para ler “Costa e a visibilidade do crime organizado” – Emir Sader ofereceu uma explicação para o ódio contra Lula que habita o coração das Marine Le Pen do Brasil.
Lula desperta mais ódio do que Vargas despertou, disse Sader.
É um ódio de classe, disse Sader.
E por que?
A elite, por meio de seus funcionários no PiG e no PSDB de São Paulo, não perdoa o fracasso de Fernando Henrique e o sucesso retumbante de Lula.
Era para ser o contrário.
O cheiroso tinha que ser maior que o metalúrgico nordestino, que não tem um dedo e não fala inglês.
E não foi.
Pior: o sucessor de FHC foi Cerra, um derrotado.
O de Lula, uma vitoriosa.
(Sader foi entusiasticamente aplaudido!)
Paulo Henrique Amorim
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Aécio deu emprego à prima de Cachoeira a pedido de Demóstenes

Demóstenes recorreu ao colega e ex-governador Aécio Neves para emplacar Mônica Vieira

Leia transcrição dos grampos da PF sobre nomeação de prima de Cachoeira
1) 13 de maio de 2011, Carlinhos Cachoeira liga para o senador Demóstenes Torres às 18h18:42.
Cachoeira: Ô doutor.
Demóstenes: Fala professor.
Cachoeira: Aquele currículo que eu te falei lá de Uberaba, da minha prima pô. O Manuel não te entregou, não?
Demóstenes: Não, deixa eu ligar prá ele aqui... tá dentro do carro. Esse rapaz ele é difícil, ele é muito burro, sabe? Eu vou olhar aqui.
Cachoeira: Não esquece de levar isso. É importantíssimo prá mim. Que tá tendo vaga lá, senão... você consegue por ela lá com Aécio... em Uberaba, pô, a mãe dela morreu. É irmã da minha mãe.
Demóstenes: Não, tranquilo. Deixa eu só ligar pro rapaz lá. Deixa eu ligar prá ele e te ligo aí.
2) 16 de maio de 201, Demóstenes fala com Cachoeira às 20h51:31.
Demóstenes: Tá tudo certo, tá lá, amanhã cedo eu pego. Amanhã antes de eu falar com ele eu te ligo e você me explica direito, falou?
Cachoeira: Tá excelente, brigado doutor.
3) 17 de maio de 2011, às 7h19:45.
Demóstenes: Fala professor, só tô vendo currículo aqui. Tá assim, cargo, qualificação profissional, diretoria CEDECI, o que é CEDECI?
Cachoeira: Ele sabe lá. É Estadual lá, um cargo.
Demóstenes: Precisa decifrar, eu vou encontrar com o Aécio lá pelas 10 horas, só o que é CEDECI, prá perguntar direito, pra pedir direito.
Cachoeira: Tá, eu vou decifrar aqui e te falo aí.
Três minutos depois, às 7h21, Cachoeira liga para Demóstenes e o informa que a repartição chama-se Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social.
4) 18 de maio de 2011, às 11h52:05, Demóstenes liga para o bicheiro.
Demóstenes: Fala professor. A mulher trabalha no Estado?, ela é funcionária do Estado? O Aécio quer saber.
Cachoeira: Não, ela trabalha na Prefeitura Municipal de Uberaba.
5) 20 de maio de 2011, às 20h48:28, numa ligação de 39 segundos, Demóstenes diz ao contraventor que Aécio conseguiu o emprego para a prima.
Demóstenes: Seguinte, o Aécio arrumou o trem lá, e vão dar pro deputado um outro cargo. Agora, ele perdeu o currículo da mulher, então na hora que eu chegar aí você me dá o nome inteiro dela e o telefone prá eles ligarem, falou?
Cachoeira: Então tá. Qual cargo que é, você sabe?
Demóstenes: O que você pediu, ué.
6) 21 de maio de 2011, às 12h05, Cachoeira liga para Mônica Beatriz, sua prima.
Cachoeira: Eles vão te ligar aí, tá? O governador deu o OK aí no seu emprego aí de chefia.
Mônica: Hum.
Cachoeira: O Aécio acabou de ligar pro senador aqui, viu.
Mônica: Então tá.
Cachoeira: Já pegou seu telefone, mas fica com o telefone ligado que eles vão te ligar. Alguém do governo vai te ligar.
Mônica: Tá ok, pode deixar, tá bom.
Cachoeira: Então tá, tchau, me ajuda por lá.
7) 26 de maio de 2011, às 22 horas, Cachoeira e Mônica conversam durante 3 minutos e 47 segundos.
Cachoeira: A pessoa te ligou?
Mônica: Ligou, ligou no sábado de manhã.
Cachoeira: Quem foi?
Mônica: O Danilo de Castro.
Cachoeira: Ele é forte ali.
Mônica: Secretário de Governo, isso, daí me fez umas perguntas. Daí na segunda eu já me reuni com o Marcos Montes, né? Ele falou: ‘Mônica, a sua nomeação deve sair na próxima semana’. Ele ficou de...ele iria prá Brasília e retornava amanhã e assim que ele chegasse ele me ligaria prá gente sentar e conversar.
Cachoeira: Sim, mas qual cargo?
Mônica: Diretor regional do Sedese.
Cachoeira: Uai, bom demais. Melhor ainda do que você queria.
Mônica: Nossa, eu fiquei feliz demais, inclusive tenho que agradecer muito, Carlinhos.
Cachoeira: A pessoa que vai sair do cargo é que não vai gostar, né?
Mônica: Eu falei isso com o Danilo, Falei: ‘Danilo, eu não queria que prejudicasse a pessoa, ainda mais se for pai de família’. Ele falou: ‘Você não se preocupe com isso porque nós já arrumamos um cargo, me parece que ele vai ficar até lá mesmo’.
Cachoeira: É o Aécio, viu: Direto com Demóstenes, viu?
Mônica: Isso, ele falou que era uma solicitação do Aécio, ele enfatizou isso bem. ‘É uma solicitação do senador Aécio, através do senador Demóstenes, e com o aval do governo Anastasi, bem claro, né? Mas eu te agradeço muito, muito mesmo.
Cachoeira: O salário lá é bom, né?
Mônica: Eu não sei o que que é, eu tentei pesquisar, mas não sai. Esses cargos comissionados não sai o salário.
Cachoeira: Aqui (em Goiás) no mínimo um cargo desses aí é uns 10 mil reais.
Mônica: Aqui eu não sei, eu tentei pesquisar.
Cachoeira: É um c argo de superintendente aqui, dessa forma, diretor, aí deve ser uns 10 mil.
Mônica: Então, é uma superintendência que eu tô assumindo, é a Superintendência de Desenvolvimento Social.
Cachoeira: A que você estava era qual?
Mônica: Eu estava na diretoria de qualificação profissional.
Cachoeira: Municipal?
Mônica: É municipal, até briguei, falei ‘se for menos eu tô perdida’.
Cachoeira: Quanto você ganhava lá?
Mônica: 5.
Cachoeira: deve ser uns 10, você vai ver, você me liga o dia que você assumir, tá?
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Sobre a corrupção

A instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira abre uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar interessses econômicos e políticos.
Ao contrário do que torcem - e em parte patrocinam significativos setores da mídia - não está se abrindo uma crise com a instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim, uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos econômicos - criminosos ou não - ou interesses dos diferentes partidos aos quais estes órgãos são simpáticos.
Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém, que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham medo de que o seu passado seja revelado - um passado complicado fragilizaria o resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada pelo grupo ora apontado como criminoso.
Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e às condutas que propiciam a corrupção.
O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e “globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.
O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso meio. Então, o que se trata, não é de "amaciar" os fatos, mas de disputar o seu “uso” - o tratamento político dos fatos - para fortalecer uma das duas principais concepções de República que caracterizam o grande embate político nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus propósitos republicanos e democráticos.
A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos (através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se, reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e sofisticação.
O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar” resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido republicano da nossa democracia.
Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é uma boa oportunidade de virada republicana na democracia brasileira.
Tarso Genro, governador do Estado do Rio Grande do Sul
No CartaMaior
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Como preparar uma crise institucional

No dia 1º de setembro de 2008, os Ministros Gilmar Mendes, Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto saíram da sede do STF (Supremo Tribunal Federal) atravessaram a Esplanada dos Ministérios e entraram no Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente da República, Luiz Ignácio Lula da Silva.
Foi uma reunião tensa, a respeito da suposta conversa grampeada entre Gilmar e o senador Demóstenes Torres. Os três Ministros chegaram sem nenhuma prova concreta sobre a autoria ou mesmo a existência do tal grampo. Mas atribuíam-no irresponsavelmente à ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) e exigiam de Lula providências concretas.
No auge da reunião, Gilmar blasonou: “Não queremos apenas apuração, mas punição”.
Bastaria Lula ter perdido a paciência e endurecido o jogo para criar uma crise institucional sem precedentes, entre o Supremo e o Executivo. Sua habilidade afastou o risco concreto de uma crise institucional, à custa do sacrifício do diretor-geral da ABIN, delegado Paulo Lacerda, afastado enquanto durassem as investigações.
Tanto no Palácio como na Polícia Federal e no Ministério Público Federal sabia-se que o grampo, se existiu, não havia partido da ABIN nem da Operação Satiagraha, já que nenhum dos dois – Demóstenes e Gilmar – eram alvo de investigação.
Foi aberto um inquérito na PF que concluiu pela não existência de qualquer indício, por mínimo que fosse, de que o grampo tivesse existido.
O país esteve à beira da mais grave crise institucional pós-redemocratização devido a uma conspiração envolvendo Demóstenes Torres-Carlinhos Cachoeira, a revista Veja e, direta ou indiretamente, o Ministro Gilmar Mendes.
Pouco antes do episódio, o assessor da presidência, Gilberto Carvalho, foi procurado por repórteres da revista com a informação de que ele também havia sido grampeado. Descreviam diálogos que teria tido com interlocutores.
A intenção era criar um clima de terror, passar ao governo a impressão de que a ABIN e a Satiagraha haviam saído de controle e estavam espionando as próprias autoridades. E, com isso, obter a anulação da operação que ameaçava o banqueiro Daniel Dantas.
É bem possível que os tais diálogos de Gilberto tenham sido gravados pelo mesmo esquema Veja-Cachoeira que forjou um sem-número de dossiês, muitos deles obtidos de forma criminosa e destinados ou a vender revista, impor o medo nos adversários, ou a consolidar o império do crime do bicheiro.
Durante anos e anos foi um festival de assassinatos de reputação, de jogadas pseudo-moralistas visando beneficiar o parceiro Cachoeira.
A revista tentou se justificar, comparando essas jogadas ao instituto da “delação premiada” – pelo qual promotores propõem redução de pena a criminosos dispostos a colaborar com a Justiça. No caso de Cachoeira, suas denúncias serviam apenas para desalojar inimigos e reforçar seu poder e o poder da revista.
Esses episódios mostram o poder devastador do crime, quando associado a veículos de grande penetração.
É um episódio grava demais, para ser varrido para baixo do tapete.
Luis Nassif
No Advivo
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A estupidez da inteligência

“Uma das lições que Hitler deixou é como, às vezes, é estúpido ser inteligente.” Eis uma frase de Adorno e Horkheimer que os franceses deveriam meditar. Os filósofos de Frankfurt aludiam a essas explicações articuladas e cheias de dados que provavam, de maneira absolutamente convincente, a impossibilidade dos nazistas chegarem ao poder na Alemanha.
Em 2002, após o resultado das eleições francesas que colocou a extrema direita de Jean-Marie Le Pen no segundo turno, lembro-me de ouvir explicações da mesma natureza.
Um professor universitário amigo demonstrava, por exemplo, que o problema todo fora a inépcia do governo socialista em marcar eleição em época de feriado escolar, o que teria aumentado a abstenção dos professores.
Como no caso de Adorno e Horkheimer, ninguém queria ver o óbvio, a saber, que havia uma enorme faixa de eleitores racistas, xenófobos dispostos a, agora, falar em voz alta. Faixa que devia ser combatida como prioridade política número um, em vez de “analisarmos sem preconceitos”.
Exatos dez anos depois, um fenômeno semelhante acontece. Agora, a França é o país europeu que tem a extrema direita mais forte (17,9% para sua candidata, Marine Le Pen).
No entanto esse número é muito maior, já que seu presidente, Nicolas Sarkozy, é daqueles que não sente dor no coração quando mobiliza os sentimentos mais baixos da população (como a islamofobia, a caça a ciganos e os discursos sobre “o homem africano que não entrou na história”).
O verdadeiro objetivo maior dessa eleição era retirar a Frente Nacional da posição de definidor da pauta do debate político. O único candidato que compreendera isso foi o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, que levou uma batalha solitária contra os temas da extrema direita e em favor de uma sociedade mestiça. Ele chegou a aparecer em terceiro lugar nas pesquisas, mas perdeu fôlego na reta final.
A razão para tal esgotamento lança luz sobre a estupidez da inteligência. Um dos traços maiores dessa eleição foi a exposição da inutilidade dos intelectuais.
Em vez de insistir na importância de retirar a Frente Nacional da cena política, os mais midiáticos se deleitaram em atirar contra Mélenchon e seus traços “jacobinos” (como o fez Michel Onfray e os verdes) ou fazer pregação suicida pelo voto nulo (como o fez Alain Badiou), como se estivéssemos em 68, com suas brigas entre a esquerda libertária, os comunistas e a miríade de grupelhos.
Com isso, os intelectuais de esquerda só serviram para desmobilizar e fazer vista grossa diante de uma catástrofe anunciada. Prova de que a inteligência é sempre a última a ver o abismo. Há de perguntar quem precisa de inteligência parecida.
Vladimir Safatle
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Os desafios da esquerda na gestão municipal, segundo Pochmann

O presidente do Ipea, Márcio Pochmann, e o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, vão concorrer às prefeituras de Campinas e São Paulo, respectivamente, por interferência direta do ex-presidente, e dentro de um projeto de mudança no perfil de um partido que, para Lula, esgotou o ciclo que vai de sua criação até a ascensão social de grandes massas da população não organizadas.
São Paulo - A intervenção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições dos dois mais importantes municípios paulistas - São Paulo, capital e Campinas – tem um objetivo que transcende o pleito de outubro. Lula colocou em andamento uma estratégia que consiste em oxigenar o PT via seu núcleo paulista, estruturado a partir dos movimentos sindicais dos anos 80, e trazê-lo para uma realidade de democracia consolidada no país, mas de onde emerge uma classe desgarrada do sindicalismo, das associações de base ou da militância em movimentos sociais.
Essa visão dos desafios que o partido terá que enfrentar para se adequar a esse novo ciclo político foi exposta por Lula ao economista Márcio Pochmann, no ano passado, quando o chamou para conversar sobre a possibilidade de aceitar a candidatura petista à prefeitura de Campinas. Simultaneamente, Lula investiu no seu ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, para que assumisse igual papel, em outubro, na disputa pela prefeitura da maior cidade do país e da América Latina, São Paulo.
Pochmann e Haddad têm biografias parecidas. Ambos, muito jovens, estavam nas articulações que resultaram na fundação do PT. Os dois, em algum momento, tornaram-se quadros intelectuais do partido, ao seguirem carreira acadêmica. Ambos integraram a administração de Marta Suplicy (2001-2004) - Pochmann comandou a pasta do Trabalho e Haddad foi chefe de gabinete da Secretaria de Finanças, cujo titular era João Sayad. Haddad foi ministro de Lula; Pochmann assumiu, em 2007, a presidência do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).
Ambos podem ser enquadrados na classificação de "técnicos", por terem feito carreiras mais ligadas à academia do que à política institucional, mas não há como negar que, também por essas qualidades, foram parte e articuladores de políticas de gestão pública importantes.
"O PT é muito grande e terá candidatos a prefeitos de diversas origens. Haddad e eu somos os únicos que viemos do sistema universitário e com experiências mais intelectuais", afirmou Pochmann, em entrevista à Carta Maior. A escolha de dois acadêmicos que tiveram experiências na gestão pública federal, na opinião do pré-candidato em Campinas, é uma inversão na ideia de que uma prefeitura é apenas o início de uma carreira política: o espaço municipal é retomado como um elemento fundamental para o êxito de políticas públicas. “O sucesso do governo federal em políticas públicas decorre de experiências exitosas de prefeituras, como os bancos populares municipais, o orçamento participativo, políticas de distribuição de renda e o próprio Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirma Pochmann.
O movimento municipalista dos anos 70 e 80, se foi fundamental para a inovação da gestão, vive hoje uma fase de esgotamento, pela “pasteurização das políticas públicas”, afirma o economista. As inovações daquele período foram absorvidas indistintamente pelas administrações municipais, independentemente dos partidos políticos a que pertenciam os gestores. Pochmann acredita que desafio para ele e Haddad é propor um novo ciclo de renovação de políticas públicas, numa realidade econômica em que o país tem uma melhor distribuição de renda e adquire maior importância no cenário internacional.
Pochmann, que se intitula da “esquerda democrática, que tem como valor fundante a radicalização da democracia”, considera que essa vertente ideológica tem desafios próprios. O primeiro deles é o de reconhecer “um certo esgotamento da experiência democrática representiva” e, a partir daí, avançar e propor novos instrumentos de participação da população na gestão municipal. Um avanço seria associar os conselhos municipais, que hoje existem em todas as áreas da administração, a orçamentos participativos territorializados. “Hoje há áreas geográficas enormes, com grandes populações, e a ideia de um município centralizado na prefeitura, em um único espaço, distancia a participação popular”, afirma o presidente do Ipea.
Outro desafio, segundo o pré-candidato, será lidar com cidades que tiveram uma forte experiência industrial e hoje se transformam em municípios de serviços. A cidade industrial empurrou as pessoas mais pobres para as periferias e comprometeu uma grande parte do tempo das pessoas com todos tipos de deslacamento. A cidade de serviços, com o avanço das tecnologias de informação e comunicação, não pressuporá grandes deslocamentos “se houver uma mudança da centralidade da cidade”. O novo modelo é aquele em que o trabalho e a residência são mais próximos, “com forte presença do espaço público e da educação, que é o principal ativo dessa sociedade”, diz Pochmann.
O outro grande desafio é a alteração na demografia das grandes cidades brasileiras. “Estamos vivendo uma transformação importante na queda da fertilidade brasileira e em duas décadas teremos uma regressão absoluta no número de habitantes e um aumento na proporção de pessoas idosas”, observa. Esta é uma realidade para a qual o país não está preparado. “Vão sobrar escolas, haverá uma mudança no perfil profissional da população e será uma sociedade de jovens e adultos muito complexa, com forte dependência do conhecimento”.
Maria Inês Nassif
No Carta Maior
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Contratos da Delta estão na web. E as ligações do Policarpo?

Quem achava – e, sobretudo, quem escrevia nos jornais – que a presidenta Dilma Rousseff estava temerosa do que a CPI do Cachoeira pudesse descobrir sobre os contratos da empreiteira Delta com o Governo Federal, vai ter de arranjar outra história para contar.
Ela mandou e o Ministério dos Transportes colocou na internet todos os contratos entre Dnit e a empresa. Que vai ser auditada até à medula dos ossos.
Enquanto isso, continuam secretos os diálogos – seriam mais de 200 – entre o padrinho da Delta, aquele que a Veja chama de “empresário de jogos” e seu editor de escândalos, Policarpo Júnior.
Em matéria de transparência, o placar é de 100 a zero.
Por mais mistificação que se faça, os fatos vão deixando claro quem tem medo que aflore toda a verdade.
E ela vai surgir, revelando a central de conspiração Veja-Cachoeira, uma associação para obter vantagens. Econômicas para o bicheiro, políticas para a revista.
Uma relação de cúmplices  que já dura quase uma década.
Agora, por mais que tente abafar, a Veja é a protagonista do escândalo. Um escândalo que vai deixar o caso Murdoch parecendo brincadeira de criança.
Fernando Brito
No  Tijolaço
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Charge online - Bessinha - # 1203


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IPCA-15 de abril fica em 0,43%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) teve variação de 0,43% em abril, superior à taxa de 0,25% de março. O acumulado no ano foi de 1,87%, bem abaixo do resultado de igual período de 2011 (3,14%). Considerando os últimos 12 meses, o índice situou-se em 5,25%, também abaixo dos 12 meses anteriores (5,61%). Em abril de 2011, a taxa havia ficado em 0,77%. Os dados completos do IPCA-15 podem ser acessados na página
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/ipca15/defaultipca15.shtm.
Os grupos habitação (de 0,44% em março para 0,75% em abril) e despesas pessoais (de 0,60% para 1,43%) foram os principais responsáveis pela aceleração no ritmo de crescimento do IPCA-15 de março para abril. Juntos, responderam por 58% do índice no mês, com impacto de 0,25 ponto percentual, sendo 0,14 ponto relativo às despesas pessoais e 0,11 à habitação.
Em despesas pessoais, os destaques foram cigarro (de 0,00% para 5,56%), cujos preços foram reajustados 25% em média a partir de 6 de abril, e empregado doméstico (de 1,38% para 1,87%), o maior impacto individual no mês (0,07 ponto percentual). Cabeleireiro (de 0,23% para 1,86%) e manicure (de 0,23% para 1,29%) também pressionaram o resultado.
Em habitação, a pressão veio de aluguel residencial (de 0,45% para 0,82%), condomínio (de 0,48% para 1,01%), mão de obra para pequenos reparos (de 1,03% para 1,31%), artigos de limpeza (de 0,46% para 0,95%), água e esgoto (de 0,19% para 1,60%). A alta nas contas de água e esgoto foi decorrente do reajuste de 11,17% em Brasília, vigente desde 1º de março, além do aumento de 16,50% ocorrido em Curitiba a partir de 21 de março.
Já a alta nos medicamentos (de 0,47% para 0,48%) se deu em razão do reajuste ocorrido a partir de 31 de março. Subiram, também no grupo saúde e cuidados pessoais (de 0,54% para 0,62%), os serviços médicos e dentários (de 0,79% para 1,30%) e os serviços laboratoriais e hospitalares (de 0,36% para 0,81%).
Comunicação passou de –0,49% para 0,24% em virtude das ligações de fixo para móvel terem voltado ao valor anterior, eliminando a redução de 10,78%, concedida pela Anatel em 24 de fevereiro. Isto se deu por causa da concessão de uma liminar, em março, a uma das operadoras.
Os artigos de vestuário voltaram a subir, passando de 0,16% para 0,49%, assim como os alimentos, que foram de 0,22% para 0,31% em razão, principalmente, dos altos preços do feijão carioca (de 0,81% para 6,74%), pescados (de 1,67% para 3,73%), ovo (de 1,88% para 3,36%), óleo de soja (de 0,82% para 2,66%), refeição fora (de 0,06% para 0,67%) e leite longa vida (de –0,15% para 0,45%). Em queda, o destaque foi o item carnes (de –1,57% para –1,59%), apresentando o mais intenso impacto para baixo: -0,04 ponto percentual.
A taxa de variação de preços dos produtos não alimentícios subiu de 0,26% para 0,47%. A seguir, os resultados de todos os grupos de produtos e serviços pesquisados:
Dentre os índices regionais, o maior foi o do Rio de Janeiro (0,65%) em virtude do item empregado doméstico (7,37%). O menor foi o de Salvador (0,09%) sob influência dos alimentos consumidos no domicílio (-0,16%). A seguir, a tabela com os resultados por região:
Para o cálculo do IPCA-15 os preços foram coletados no período de 15 de março a 13 de abril de 2012 (referência) e comparados com aqueles vigentes de 11 de fevereiro a 14 de março de 2012 (base). O indicador refere-se às famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos e abrange as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia. A metodologia utilizada é a mesma do IPCA, a diferença está no período de coleta dos preços.
No IBGE
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#erronacontadeluz

Nesta terça-feira (24), a Frente de Defesa dos Consumidores de Energia Elétrica promove um tuitaço com a hashtag #erronacontadeluz para mobilizar o maior número de pessoas pelo ressarcimento de R$ 7 bilhões, cobrados indevidamente dos consumidores de todo o Brasil, no período de 2002 a 2009, por conta de erro no cálculo de reajuste das tarifas de energia elétrica.
A Frente de Defesa dos Consumidores de Energia Elétrica é uma iniciativa conjunta da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Fundação Procon-SP e Proteste.
A ação no Twitter - e também no Facebook - faz parte da campanha “TCU: o erro não foi nosso. Devolução já!”. O objetivo da mobilização nas redes sociais é reunir o maior número de assinaturas de consumidores na petição que será enviada aos ministros do Tribunal de Contas da União (TCU). Assine aqui.
Entre final de abril e início de maio (data ainda não definida), o TCU irá decidir sobre o ressarcimento dos R$ 7 bilhões.
A Frente conta com a participação popular para pressionar o TCU para que a lei seja cumprida e o consumidor seja ressarcido. A campanha no Facebook está disponível em http://www.facebook.com/frenteconsumidoresenergia.
O erro na conta
Devido à estabilidade econômica do país, os brasileiros passaram a consumir mais energia elétrica, pois adquiriram mais televisores, geladeiras, micro-ondas acarretando o aumento da demanda de energia. Esse aumento não foi causado pela eficiência das distribuidoras de energia e, sim, pelo momento econômico satisfatório do Brasil. Portanto, as distribuidoras não poderiam lucrar com esse aumento de consumo. No entanto, havia um erro nos contratos de concessão que permitia o lucro indevido das empresas pelo aumento da demanda.
Esse equívoco se repetiu até 2009. Pela regra do setor elétrico, isso não poderia ocorrer, porque a distribuidora não pode auferir nenhum tipo de ganho se não tenha dado causa a ele. Sua remuneração só pode ser obtida pela prestação do serviço de distribuição com eficiência - já prevista na composição da tarifa paga pelos consumidores.
A Frente de Defesa do Consumidor de Energia Elétrica foi criada em março de 2011 por representantes de diferentes entidades de defesa do consumidor, com o objetivo de identificar os problemas do setor para contribuir de forma mais eficiente nos processos regulatórios, de fiscalização e no âmbito legislativo, visando a melhoria do mercado de consumo.
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Um lorde bom de briga

Advogado dos mais intrigantes litígios que envolvem grandes empresas do Brasil, Modesto Carvalhosa chega aos 80 com homenagens e muitas histórias para contar. Sem papas na língua, fala sobre o Poder Judiciário, sua atuação na política e o País: “O Brasil não é de Terceiro nem de Primeiro Mundo, é um país colonial. As instituições são coloniais”
O advogado Modesto Carvalhosa ostenta, com o testemunho redundante de seus bigodes retorcidos, a expressão maliciosa de um lorde inglês que acaba de dar com os costados nos trópicos. Mas é só impressão: ele entende muito bem tudo o que está a sua volta. Há 60 anos trafega pelos salões, pelos corredores e pelos bastidores da Justiça, craque que é dos mais intrigantes litígios entre sócios e entre empresas. Hoje mesmo, está imerso na defesa dos interesses da família Gradim, sócia minoritária da Odebrecht (20,6% das ações), que acusa a família Odebrecht (62,3%) de tentar lhe passar uma rasteira ao troco de um mísero R$ 1,5 bilhão em uma empresa que vale no mínimo vinte vezes isso.
Modesto Carvalhosa é uma figura enciclopédica, de mil interesses, curiosidade aguda, humor londrino. Chega aos 80 anos a bordo de um segundo casamento, com Cláudia, e de uma vitalidade que faz tempo se espelha no exercício múltiplo de sua versatilidade. Foi presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), e ali comprou empolgantes brigas. Na condição de membro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sob o comando do mineiro Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, consolidou para todo o litoral, com o aval da UNESCO, a iniciativa que Modesto já tinha ousado tomar em São Paulo, em 1985: o tombamento integral da Serra do Mar e da biosfera da Mata Atlântica.
Uma série de homenagens à Modesto foram feitas no mês de março. Sua filha, Sofia, finaliza o documentário Modesto à Parte (45 minutos), sobre a desassombrada atuação do pai em vários episódios da história do Brasil de meio século para cá. Não há de faltar, claro, menção ao momento em que ele, em nome do IPHAN, conseguiu embargar um mostrengo que a influente, persuasiva Fundação Roberto Marinho pretendia fincar em plena Marina da Glória. Amigos e parceiros de advocacia preparam também um livro sobre sua trajetória jurídica. Em seu jeito sem papas na língua, Carvalhosa fala aqui à Brasileiros.
Brasileiros – Aos 80 anos, o senhor está na linha de frente da maior questão societária em curso hoje no Brasil: a disputa da família Gradim, sócia da Odebrecht, com os controladores da empresa.
Modesto Carvalhosa – Não é só a maior hoje. É a maior de todos os tempos.
Brasileiros – No que diz respeito ao patrimônio da empresa, a Odebrecht, é o volume do dinheiro que está sendo disputado, não é?
M.C. – É briga de duas famílias que envolve bilhões de reais. Cinco bilhões? Cinquenta bilhões? Nem consigo imaginar. Estou nessa história aí como o garçom que ouve uma conversa de negócio bilionário enquanto serve à mesa. Eu sou o garçom. Ouve falar em bilhões, mas não sabe bem do que se trata.
Brasileiros – Mas o senhor sabe bem do que se trata, não é? Defende o lado minoritário.
M.C. – É uma tradição na minha vida profissional. Sempre defendi os minoritários nos meus livros e nas minhas palestras. Sou conhecido como uma pessoa que defende os minoritários. O que cria uma situação bastante irônica. Muitas vezes, os controladores de uma empresa também vêm buscar meus serviços. Ganha um sentido simbólico: o tradicional defensor do minoritário que de repente defende o majoritário vale mais do que o advogado que só defende os majoritários.
Brasileiros – E conhece as manhas do outro lado… Mas, enfim, em que pé anda a briga dentro da Odebrecht? Vai dar acordo ou a disputa vai até as últimas consequências?
M.C. – Vai para arbitragem. É o que espero. Estava prevista em contrato a arbitragem, em caso de disputa. Mas a Odebrecht resistiu. Achou que a arbitragem seria arriscada, porque, de fato, fez tudo errado, não tem razão nenhuma no que foi feito. Aí, optou por despejar o poder de uma das maiores companhias do Brasil e do mundo, nascida na Bahia, sobre o Judiciário da Bahia. Imaginou que teria uma influência enorme sobre os juízes baianos. Só que o Judiciário repeliu unanimemente as pretensões da Odebrecht – da juíza que trata o caso às instâncias superiores. Ainda tentou entrar com um recurso no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, e o Tribunal de Justiça da Bahia recusou o envio do recurso para Brasília. O placar está 12 a 0 contra a Odebrecht. É um número expressivo: das 12 medidas tomadas pela família Odebrecht, 12 foram repelidas. Vai acabar em arbitragem. Que é uma forma moderna, independente e rápida de resolver questões societárias dessa monta. Ninguém consegue usar de influência política sobre um árbitro independente.
Brasileiros – Pelo tamanho da causa, pode ser um árbitro internacional?
M.C. – Internacional, nacional, não importa. Um sujeito de notável saber não vai ser influenciado. É um sistema cada vez mais usado. O Supremo tem incentivado a arbitragem e a conciliação. O STJ também. Essa é uma causa interessante, já que pode ganhar um sentido exemplar. Começou em setembro de 2010 e continua na mídia.
Brasileiros – Só para lembrar: que outra disputa importante foi para a arbitragem fora ou dentro de sua alçada?
M.C. – A questão Bradesco versus Daniel Dantas em torno das ações da Brasil Telecom. Um caso enorme e que também está em regime de arbitragem é o do Pão de Açúcar, o Casino francês contra o Abilio Diniz, na Câmara de Comércio de Paris. É a tendência em 100% dos contratos societários hoje.
Brasileiros – Já ouvi falar em casos de conflitos em empresas de sócios judeus em que o árbitro é o rabino.
M.C. – Isso é mais ou menos recente. Uns cinco mil anos, por aí.
Brasileiros – E o Papa? Ninguém nunca se lembrou de chamar Sua Santidade para uma arbitragem entre católicos?
M.C. – Você já viu isso? (rindo) Na minha longa carreira de advogado, só participei uma vez do que chamam de conciliação de rabino. Um caso seriíssimo. O rabino era da família Feffer.
Brasileiros – Max Feffer?
M.C. – Daniel Feffer, acho. O rabino tem autoridade absoluta. Os conflitos na colônia judaica geralmente são tratados assim. Ancestralmente. Há milênios. É uma forma de conciliação. Hoje, no Brasil, a conciliação está sendo implantada pelo Conselho Nacional de Justiça. E também incentivada pela ministra Nancy Andrighi, no STJ. O ministro Asfor Rocha também é a favor. No Tribunal de São Paulo, há muitos anos se aceita a conciliação.
Modesto Carvalhosa discursa em um dos tombamentos realizados quando atuava no CONDEPHAAT, em São Paulo, 1984. Ao lado dele, estão Jorge da Cunha Lima, Franco Montoro (então governador de São Paulo) e Orestes Quércia
Da esq. para a dir.: Carvalhosa, como professor e paraninfo da Turma do Sesquincentenário da Faculdade de Direito da USP, senador Paulo Brossad, pofessor Ruy Barbosa Nogueira, Drenadir Coelho, secretária da Faculdade de Direito, e os professores Goffredo da Silva Telles Júnior e José Luiz de Anhaia Mello
Fotos Arquivo pessoal
Brasileiros – Agiliza a Justiça, não é? E dispensa muito papel.
M.C. – É um sistema mais rápido e informal. Participei de uma arbitragem interessante. Éramos dois árbitros, eu e um outro. Chegaram as partes. Gente importante. E os advogados, antipáticos pra caramba. Vi aquilo e falei: “Vamos tirar o paletó, gente”. Quebrou a empáfia, o formalismo.
Brasileiros – Por que os processos duram anos no Brasil? Excesso de burocracia?
M.C. – O problema não está no detalhe, está no todo. Sob o ponto de vista do serviço público, o Brasil é um país colonial. O exercício do poder público é absolutamente arcaico e corporativista. O juiz, por exemplo, tem o direito à inamovibilidade. Não pode ser removido a não ser que queira, não pode ser demitido. Isso vem da colônia. Como aqui era um território absolutamente inóspito, os juízes vinham de fora. Daí a expressão: juiz de fora. Os juízes vinham de Portugal protegidos por esses três requisitos: inamovível, irredutível e absolutamente não podia ser demitido. Para o resto da vida. Nenhum país desenvolvido tem uma tradição assim. Nos Estados Unidos, os juízes são eleitos e têm mandatos. Depois de algum tempo, vão embora. Aqui são essas figuras que não precisam dar satisfação a ninguém. Criam uma noção corporativa de autobenefícios. É um poder. Não é que “Poder Judiciário” seja apenas uma designação constitucional. Ele é um poder mesmo. As pessoas se sentem poderosas. Não têm nada a ver com a necessidade de atender o interesse público na hora de proclamar as sentenças. Estão aí pelas solenidades, os rituais da toga e a politicagem interna. Grupos que se odeiam, entende? Um é candidato a presidente, o outro entra com mandato de segurança. E trabalham pouco. Os juízes, pode-se dizer que trabalham um pouco mais; mas os desembargadores não trabalham nada. Vivem indo a congressos, a simpósios, seminários, cursos no exterior, férias de dois meses, licença prêmio. Que mais? Nojo. Sabe o que é nojo?
Brasileiros – Nojo?
M.C. – Licença-nojo é o seguinte: quando morre um parente, você fica uma semana em casa chorando por ele. Coisa das Ilhas Gregas, daquele filme Zorba, o Grego, com as carpideiras… Há uma série de benefícios, rendimentos fabulosos, auxílio moradia, auxílio isso e aquilo. É a mesma coisa que se vê no Poder Legislativo: nada a ver com o compromisso de prestar serviço público. Nenhuma ligação com a população e seus interesses. Todos querem o poder. Meu partido reivindica um Ministério. Sai um ministro corrupto, entra outro político. O Brasil, na política, está no estágio das Capitanias Hereditárias. O Brasil não é de Terceiro nem de Primeiro Mundo, é um país colonial. As instituições são coloniais. O Poder Executivo ainda tem de batalhar, de quatro em quatro anos, para manter o poder. No Judiciário, ele é vitalício.
Brasileiros – Essa briga do CNJ com o Supremo está nesse contexto? Uma disputa pela transparência e prestação de serviço no Judiciário ou a questão é a suspeita de corrupção em um e outro caso?
M.C. – Em todo o mundo civilizado, democrático, na vigência do estado de Direito, existe um controle externo das atividades de cada poder. O Poder Executivo tem de se explicar ao Tribunal de Contas, certo? O Legislativo é cobrado pelo eleitor. O Judiciário não tinha um controle externo, mas havia essa demanda, vamos dizer, internacional da criação de um controle externo do Judiciário para o Brasil ser admitido como um país de ranking internacional aceitável. Aí, criou-se o Conselho Nacional de Justiça. Acontece que o CNJ, por alguma razão, virou uma entidade muito ativa. Não só na questão da fiscalização de juízes, como também no plano humanitário. Ao decidir mergulhar nas penitenciárias, como fez. Tem gente presa há dez anos e sem nenhum processo. O Judiciário não julga e fica lá o sujeito mofando dez anos no presídio porque bateu no carteiro. O CNJ foi lá e tirou gente que não devia estar. E faz uma série de coisas ligadas ao interesse público de prestação jurisdicional. Prestigia a arbitragem. O controle da moralidade no Judiciário é uma entre essas outras atividades. Mas há uma resistência enorme. Os magistrados têm vitaliciedade. Nunca foram tocados. Então, como pode vir agora um sujeito fiscalizar a atividades deles? Não admitem. É como um feudo do século 12 na Normandia, chega o rei da França com seu exército e diz que agora o território também é jurisdicionado também por ele, o rei da França. “No meu feudo você não entra”, diz o outro. O feudo é meu tribunal.
Brasileiros – Então não é uma briga pessoal de uma corregedora Eliana Calmon com uns tantos magistrados.
M.C. – A questão é cultural. O exercício do poder com pompa. Por que contar à sociedade quais são seus rendimentos? O Supremo Tribunal, a princípio, refletiu essa cultura do feudo judiciário, mas afinal se retratou, pelo menos parcialmente, dizendo que CNJ tem toda a obrigação de fiscalizar.
Brasileiros – Não conheço um único país, com a exceção talvez dos Estados Unidos, onde a opinião pública seja exposta diariamente às figuras do alto escalão do Judiciário. Os ministros do Supremo têm uma superexposição de mídia. Falam o tempo todo sobre tudo – até o que está fora da alçada deles. Discutem política, só falta falar de carnaval e de futebol, se é que já não falaram. Na França, ninguém conhece um único juiz da Corte Suprema. Ou na Inglaterra, na Alemanha, no Japão…
M.C. – É, não dão entrevista e só falam nos autos.
Brasileiros – É um paradoxo que me intriga: querem preservar a intimidade dos juízes e do Judiciário, mas são loucos por um holofote.
M.C. – Aconteceu aqui um fenômeno interessante. Quando Collor foi eleito presidente, depois de quase 30 anos sem eleição direta, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral era o Francisco Rezek. Um brilho de pessoa. Mas era uma eleição especial, e a imprensa ficou ali enchendo a paciência do Rezek que, além de presidente do TSE, era ministro do Supremo. Foi aí que a moda pegou. Rezek dava entrevista todo dia. Culpa de 20 e tantos anos de ditadura. Mas, no resto do mundo, você não vê nenhum ministro falar fora dos autos.
Brasileiros – Não é só vaidade?
M.C. – Nem sempre isso é ruim. Veja o caso recente do ministro do Supremo, Ricardo Lewandowski. Foi ao jornal e disse que pode haver prescrição no processo do mensalão. Ele é um juiz brilhante, correto e honesto. Talvez tenha sido um pouco ingênuo, mas acabou prestando um serviço ao País. Se não tivesse dado a entrevista, talvez o mensalão acabasse prescrevendo. mesmo.
Brasileiros – O senhor fez parte de uma Comissão de Ética criada pelo presidente Itamar Franco. O que vinha a ser aquilo? Funcionou?
M.C. – Itamar queria que o grupo fizesse um Código de Ética para o servidor público. Passamos um ano trabalhando de graça, dentro do Palácio do Planalto, levantando todas as infiltrações que vinham daquele escândalo dos “anões do Orçamento”, está lembrado? O escândalo tinha ramificações no Ministério e nós ficamos um ano investigando as gangues ligadas aos “anões do Orçamento” dentro do Executivo e como o dinheiro vazava dos cofres públicos para os bolsos particulares. O objetivo não era só fazer um Código de Ética, era também implantar. Evangelizar os agentes públicos com um comportamento fundado na cidadania. Acontecia uma crise, íamos lá ao Ministério e discutíamos com os funcionários. Os chefões resistiam, mas os funcionários iam lá buscá-los para ouvir. O Código de Ética era um primor.
Brasileiros – O que aconteceu com ele?
M.C. – O governo Itamar foi muito curto, fizemos o que pudemos, com um entusiasmo juvenil, todo o nosso grupo. Produzimos o Código de Ética e iniciamos o processo de implantação. E, a partir do escândalo do Orçamento, fizemos um relatório mostrando as infiltrações da corrupção dentro dos ministérios. Itamar chamou o então presidente eleito, Fernando Henrique, e lhe entregou solenemente nosso relatório. A primeira coisa que Fernando Henrique fez foi arquivar o relatório e demitir a comissão.
Brasileiros – Demitiu uma comissão de voluntários?
M.C. – Demitidos. Sem nenhuma satisfação. Sem nenhuma condecoração. Nada. Em seguida, Fernando Henrique fez outro ato heroico: revogou o Código de Ética. A partir daí, entendi que Fernando Henrique é de fato um ser superior.
Brasileiros – Um nobre feudal.
M.C. – É que as campanhas eleitorais na época ainda não tinham o controle que existe hoje, só um controle muito relativo – ou nenhum. Fernando Henrique deve ter sido persuadido pelos empreiteiros, que lhe deram milhões na campanha, a revogar o Código de Ética, demitir a comissão e jogar no lixo o relatório. Que, aliás, era contundente. Mas está tudo registrado no Livro Negro da Corrupção, que organizei e lancei em 1995. Acabamos ganhando o Prêmio Jabuti de Literatura Jornalística. Veja a grandeza desse notável sociólogo, o Fernando Henrique!
Brasileiros – Do ponto de vista da corrupção, o que mudou de lá para cá?
M.C. – Mudou bastante. Houve aquela fase de passar a mão no caixa, direto, hábito disseminado no Brasil. Veio o governo Fernando Henrique e esse tipo de corrupção, não digo que foi abandonada… Mas a corrupção se sofisticou. Era a corrupção do inside trading, do sujeito que sabe para onde vai o câmbio, que compra o dólar a R$ 0,85 e no dia seguinte chega a mais de R$ 3. Muita gente se aproveitou daquela informação privilegiada. Gente que saiu do governo trilionária. Passar a mão no caixa ficou ultrapassado, mesmo porque havia o perigo de ser pilhado e o roubo ainda era considerado uma vergonha. O exemplo dos “anões do Orçamento”: todos cassados, menos um. No governo Lula, ninguém foi cassado. É uma diferença brutal.
Brasileiros – O que acabou, então, foi o pudor?
M.C. – Não existe mais. Na maior cara de pau, o corrupto diz: “Prove que sou corrupto”. O ministro sai por corrupção e diz: “Sou inocente”. E todos os presentes na posse do novo ministro se levantam e batem palmas para o ex-ministro. O que há é o elogio da corrupção, no sentido escolástico da palavra elogio. A exceção que tivemos foi o governo Itamar. Ele foi corretíssimo.
Brasileiros – Pelo visto, Itamar foi um presidente subestimado.
M.C. – Subestimado, sim. Depois que morreu o acharam lindo. Enquanto estava vivo, era só Itamar, o encrenqueiro. Então, resumindo: houve a fase de passar a mão no caixa, mas havia o perigo da cassação. Depois, houve o período do inside trading, o período do sofisticado sociólogo. Agora, passar a mão no caixa é a regra geral. Não há cassação, não há processo. Os ministros são demitidos pela presidente da República e nada acontece. Corrupção é um hábito nacional, generalizado. Um País totalmente patrimonialista, que confunde o dinheiro público com o dinheiro privado. Se tenho um orçamento de 16 bilhões no meu ministério, por que é que vou sair pobre? O cara compra apartamento no exterior e quadros do Fernand Léger. Inflaciona o mundo todo. É a turma da Quinta Internacional, a Internacional dos corruptos. Corruptos brasileiros e corruptos russos inflacionando o mercado de imóveis em Paris e em Miami. Comprando quadros caríssimos.
Brasileiros – O senhor é a favor do financiamento público das campanhas eleitorais?
M.C. – Sou. Acho importante proibir qualquer tipo de financiamento privado. Sou também a favor do sistema de lista por partidos. Funciona em vários países. A lista pode criar uma oligarquia dentro dos partidos. Mas pelo menos você vota no partido, não vota no assassino, no cara da motosserra. Os partidos terão seus donos, seus potentados, o (governador Geraldo) Alckmin será eternamente o primeiro da lista do PSDB. Mas é um avanço. A democracia perfeita não existe. Ela está aí para melhorar o processo civilizatório. São pequenas melhoras. No Brasil, por causa dessa democracia sórdida e corrupta, a gente tem de se proteger com coisas como o Código do Consumidor, a lei Maria da Penha, a legislação da união civil dos homossexuais, a Ficha Limpa. O voto de lista tem esse sentido. Diminui o número de candidatos bandidos. O cara de direita vai votar no partido do Maluf. Tem os que votam no PT. Eu voto no PSDB.
Brasileiros – No PSDB?
M.C. – No PSDB. Sempre fui muito ligado ao ex-governador Franco Montoro.
Brasileiros – O senhor já foi mais radical. Comandou a primeira greve de professores na USP, durante o regime militar.
M.C. – A primeira greve, professores e servidores juntos. O Geisel era um presidente mais civilizado, mas com uma terrível vocação ditatorial. Não queria que torturassem e matassem, mas era louco para cassar. Eu era presidente da Associação de Docentes da USP (Adusp), e em um seminário ouvi a professora Eunice Durham dizer: “A melhor maneira de atacar a ditadura é tratar de assuntos da sociedade, porque aí não há censura”. Um exemplo foi o episódio da Escola Caetano de Campos, em 1975. A gente não deixou demolir a escola. Foi uma baderna. A imprensa dava manchete todos os dias. Desafiamos o Metrô, desmoralizamos a Prefeitura.
Brasileiros – Mas e a tal greve?
M.C. – Meu vice era o professor Antonio Candido. Além de outras qualidades, um enfant terrible. A gente pensou: não faz sentido sair à rua gritando “abaixo a ditadura” porque vem a cavalaria e todo mundo sabe o que acontece. E o povo não gosta dessas coisas que lhe tiram o sentimento de segurança. Fizemos a greve. Começou com os professores e funcionários da USP, mobilizou o Hospital das Clínicas e foi se ramificando até virar greve de todo o funcionalismo. Ao mesmo tempo, sem que houvesse nada combinado, os metalúrgicos faziam greve em São Bernardo. As ideias estavam no ar. Somados, os movimentos abalaram profundamente as autoridades e tinha um general aí, apelidado de Bebê de Rosemary, de tão pequenino que era, não me lembro o nome…
Brasileiros – General Milton Tavares.
M.C. – O Bebê de Rosemary… Ele andava de helicóptero sobre nós. O Bebê era tão baixinho, pesava tão pouco, que o helicóptero podia ficar parado no ar. Nós nos divertimos para caramba. Acabou todo mundo no DOPS.
Brasileiros – Imagino que foi um bom treino para o trabalho no Patrimônio Histórico: comprar brigas e contrariar interesses. Tombar a Serra do Mar, por exemplo, deve ter sido uma parada.
M.C. – Ainda é. De vez em quando, tentam pegar um pedacinho. Tinha um louco a meu lado, naquela briga: o Montoro. Não é porque ele morreu que digo isso, mas o Montoro tinha uma sensibilidade que ia muito além da política. Tinha visão do Direito, da Filosofia, do meio-ambiente. Gostava de delegar. Ele colocou no CONDEPHAAT porque sabia que eu era um louco por esse negócio de patrimônio. Eu disse: “Vamos tombar a Serra do Mar”. E o Aziz Ab’Saber: “É um absurdo”. O Ab’Saber era o dono da Geografia. Sugeriu que tombássemos uma ou outra mancha vegetal. Insisti: “Vamos tombar tudo”. O Montoro comprava as brigas até o fim. Foi também o caso do tombamento dos Jardins, em São Paulo. O Montoro morava no Jardim Paulista e aceitou a ideia.
Brasileiros – Tombar bairro de uma cidade, nunca tinha acontecido, não é?
M.C. – E o prefeito era o Jânio Quadros. Tinha ódio do Montoro, ficou com ódio de mim. Ele me chamava de El Tombador: “O que El Tombador aprontou hoje?”. A gente anunciava os tombamentos em cerimônias extraordinárias, centenas de pessoas, o governador. Jânio nunca foi convidado. Disse aos repórteres que ia destombar tudo o que tínhamos tombado, plantar torres altíssimas nos Jardins, que ia arrasar o sistema viário. Os repórteres vinham me entrevistar e eu respondia (com ironia): “Não acredito que o prefeito tenha dito isso. Ele é um homem ilustre, uma das pessoas mais inteligentes que o Brasil tem”. O Jânio falava tão mal de mim que um dia a secretária me avisou que o governador Montoro estava marcando uma audiência comigo. Estranhei: o governador? Afinal, o CONDEPHAAT era um órgão de décimo escalão. Peguei o carro oficial, um fusquinha, se você quisesse andar a mais de 50 KM por hora era capaz de morrer asfixiado pelo gás carbônico. Eu me apresentei ao Montoro e ele explicou que não tinha nada a dizer, não. “Só quero mostrar que estou prestigiando você”.
Brasileiros – Em que consiste o tombamento dos Jardins?
M.C. – Tombamos a cobertura vegetal, o sistema viário, a chamada área de edificância. Quer dizer, não pode reunir lotes, não pode construir mais do que já estava construído no momento do tombamento, não dá para construir prédios. O Montoro era incrível. Me disse, literalmente: “Daqui a 90 anos, aquilo ali vai ser um Central Park”. Disse 90, podia ter dito 50 ou 100 anos. Mas a profecia é esta: vai ser, do Ibirapuera à Avenida Rebouças, uma área de respiro para a cidade. Era um visionário.
Brasileiros – Aos 80 anos, com apartamento alugado em Paris, quais são os seus planos?
M.C. – Vou continuar trabalhando. E quero continuar me divertindo com as coisas que acontecem.
Texto Nirlando Beirão; Fotos Marcelo Pereira
No Brasileiros
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