3 de abr de 2012

"Aética" do DEMo Agripino Maia

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Aprendendo o Folhaspeak

Chegou ao nosso conhecimento que vários de nossos ex-alunos gostariam de aprender o novo idioma jornalístico que se tornou uma sensação na Web, o Folhaspeak, estimulados pela mais recente aplicação: a denominação do contraventor (para citar um dos vários crimes de que é acusado) Carlinhos Cachoeira (Carlos Augusto Ramos) como “empresário do jogo”, visando dar-lhe respeitabilidade aos olhos dos leitores.
Como se sabe, a Lei de Paulo Preto (“Não se abandona um companheiro ferido na estrada”) vige em nosso meio.
Não é difícil aprender essa forma elegante de distorção jornalística da realidade – muito pelo contrário: basta entender o espírito do Folhaspeak: encontrar a denominação mais incriminadora ou degradante para qualquer fato relativo a um integrante do “outro lado” ou criar uma denominação atenuadora, ou mesmo enobrecedora, para qualquer fato constrangedor relativo a um integrante do “nosso lado”.
Imbuindo-se dessa intenção, as palavras fluirão normalmente, e você poderá assombrar seus amigos (e potenciais patrões) com inúmeros exemplos de Folhaspeak, quem sabe se tornando uma celebridade instantânea no Twitter com a tag #Folhaspeak.
Daremos apenas alguns exemplos, já que certamente você é capaz de criar dezenas deles em pouco tempo – se partir da intenção apropriada.
* * * * *
PROTEGENDO O “NOSSO LADO”
1. O caso acima.
Um contraventor (isto é, um criminoso) => Um empresário de jogos (isto é, um homem de bem).
Folhaspeak em seu momento “Omo”: limpando reputações.
2. Se um governante foi incompetente na gestão do transporte público, o que resultou em vários “apagões” no sistema de metrôs, ele pode recorrer ao Folhaspeak e afirmar:
“Cresceram muito os trens, todos eles com ar-condicionado, então aumentou a demanda por energia.”
Incompetência administrativa (isto é, um erro gerencial grave) => “Crescimento” dos trens refrigerados + aumento de demanda por energia (isto é, um autoelogio do governante seguido da atribuição de culpa à população).
Folhaspeak delirante, elevando a linguagem tecnoburocrática a patamares inimagináveis.
3. Se o seu patrão for flamenguista, não escreva que “Deivid, membro de honra do Inacreditável Futebol Clube, perdeu o gol mais feito da história do futebol”. Escreva assim: “O artilheiro, muito bem colocado no lance, foi traído por um desvio inesperado da bola, e não conseguiu marcar o gol”.
Incompetência colossal (isto é, erro profissional gravíssimo) => Desvio inesperado da bola (isto é, um acaso infeliz).
Folhaspeak é linguagem multiuso.
4. Se você trabalha para um jornal que denuncia, julga e pune, sem dar direito de defesa, qualquer integrante do “outro lado”, com base na menor suspeita, e se alguém acusa um integrante do “nosso lado” com base em provas obtidas pela Justiça, Folhaspeak é a resposta ideal para essa situação constrangedora:
“Reza o bom jornalismo que a denúncia em si não é notícia. Só depois de apurada e ouvida (sic) as partes envolvidas.”
Ditado que vale para o “outro lado”: “Denúncia em si é condenação” x ” Ditado que vale para o “nosso lado”: “Denúncia em si não é notícia”.
Folhaspeak também é ditado (e contraditado).
5. Se um jornalista utiliza um bandido como fonte, durante cerca de 10 anos, obtendo dele gravações ilegais que lhe permitiram subir na hierarquia da empresa (“Os grandes furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz”) e que permitem ao bandido obter benefícios em suas atividades, entre eles a ocupação progressiva de espaços no Estado, e se esse jornalista mantém com esse bandido um acordo implícito de não revelar o que sabe sobre ele e de não investigar a extensão de suas atividades criminosas, e até de protegê-lo quando em situação desesperadora (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/veja-livrou-cachoeira-da-prisao-em-2004-com-materia-falsa), mas uma operação da Polícia Federal revela a existência de mais de 200 ligações entre o jornalista e o bandido, em poucos meses, é hora de apelar para o Folhaspeak.
Divulga-se um trecho de uma das 200 ligações, em que o bandido tem recusado um favor extra nesse acordo, apresenta-se esse trecho como prova de honestidade profissional e afirma-se “Policarpo é fo**!”
X se fu*** => X é fo**.
Folhaspeak também é palavrão.
As principais matérias da carreira de um jornalista foram, na verdade, mérito de um bandido que realizou gravações ilegais? X é fo**.
Esse jornalista ascendeu na carreira por causa da preservação da fonte, sabidamente criminosa? X é fo**
* * * * *
ATACANDO O “OUTRO LADO”
 1. Se o ex-presidente Lula venceu o câncer, contra todas as expectativas do “nosso lado”, e a literatura médica registra que 80% dos pacientes ficam permanentemente curados da doença, obviamente você não escolherá esse dado para informar aos leitores. O título de sua matéria será: “Risco de volta da doença é de 20% em casos similares”.
Perpectiva de cura definitiva (isto é, um futuro tranquilo) => Risco de volta da doença (isto é, um futuro ameaçador).
Folhaspeak também é praga.
2. Se o principal expoente do “outro lado” recebe a notícia chocante de que está com câncer, luta cinco meses contra a doença e consegue superá-la, contando nesse tempo com o acompanhamento agouren… isto é, interessado da Grande Mídia, entra em ação o Folhaspeak e…:
Lutar contra uma doença mortal (isto é, uma reação humana, óbvia e saudável) => Obter espaço na mídia (isto é, uma intenção politicamente deplorável).
Folhaspeak é a linguagem ideal para o exercício da crueldade.
3. Se você foi contratado pelo patrão para defender a qualquer custo a Joia da Coroa da Oposição (São Paulo), e está escrevendo um post sobre a visita de FHC a Lula no Hospital Sírio Libanês, embeba seu texto em Folhaspeak:
“Logo estarão, de novo, em campos opostos. Lula a defender Fernando Haddad, o candidato que fabricou em São Paulo. FHC a advogar a causa de José Serra, o candidato que o tucanato escolheu para defender a cidadela de São Paulo da hegemonia do petismo.”
Candidato escolhido pelo Partido (isto é, o vencedor da disputa política interna) => Candidato fabricado por Lula (isto é, alguém sem legitimidade política).
Candidato que defende uma causa (isto é, uma motivação nobre) x Candidato que defende uma hegemonia (isto é, uma motivação condenável).
Partido que elegeu 5 governadores em 27 unidades da Federação e 547 prefeitos em mais de 5.500 prefeituras (isto é, a minoria dos governadores e prefeitos) => Partido que detém a hegemonia nos Estados e prefeituras (isto é, a maioria dos governadores e prefeitos).
Folhaspeak também serve para criar uma cachoeira de distorções jornalísticas.
* * * * *
Acreditamos que os exemplos acima são suficientes para que se entenda a estratégia geral do uso do Folhaspeak.
1. Deixe-se imbuir do espírito do Folhaspeak: encontrar a denominação mais incriminadora ou degradante para qualquer fato relativo a um integrante do “outro lado” ou criar uma denominação atenuadora, ou mesmo enobrecedora, para qualquer fato constrangedor relativo a um integrante do “nosso lado”.
2. Identifique o ponto-chave do fato: aquele que permite um ataque a um integrante do “outro lado” ou que exige uma defesa de algum integrante do “nosso lado”.
3. Use a sua criatividade e a sua falta de escrúpulos jornalísticos para criar uma denominação, expressão, frase ou ditado que represente o espírito do Folhaspeak.
Mantenha sua consciência moral e seu amor à verdade inativos, durante a aplicação dessa estratégia.
No Curso Básico de Jornalismo Investigativo
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Operação “Some, Demóstenes”

Na charge de O Globo, o que a mídia pretende de Demóstenes:
 faze-lo sumir rapidamente pelo esgoto, com medo do que
pode respingar
Os grandes jornais pedem a renúncia do Senador Demóstenes Torres. A TV Globo fez o mesmo hoje de manhã.
Parece haver uma cruzada nacional para varrer rapidamente Demóstenes Torres das páginas dos jornais, fazendo com que entregue o mandato e não se inicie um processo de cassação, com audiências, testemunhas, versões e, sobretudo, fatos vindo à tona.
O Demóstenes grego, ao ver-se cercado pelos soldados de Antípatro, suicida-se.
O goiano, entretanto, não parece disposto a isso. Na carta de desfiliação que apresentou ao DEM, teve o cuidado de destacar que a alegação que contra ele se fazia (descumprimento reiterado do programa partidário) estaria contemplada pela Resolução nº 22.610, de 25 de outubro de 2007 do TSE, que o protegeria de um processo de perda de mandato.
Ou seja, que vai ficar no cargo.
Ora, experiente que é, Demóstenes sabe que não há a menor perspectiva política de sobreviver no Senado. Seu esforço não visa a preservação do mandato, inexoravelmente perdido.
Está, sim, sinalizando que tem como despejar cachoeiras de lama a torto a direito. O fato de ter representado o papel de paladino da moralidade, enquanto recebia presentes e fazia favores a um bicheiro já mostra como este homem é frio e cínico.
É por isso que querem sepultá-lo rápido, tirando, pela renúncia, um mandato de senador que, pelos trâmites legais, vai permitir muitas e muitas sessões – com direito a televisão – de defesa, de testemunhos e de acusações a muitos que estão posando de vestais.
Demóstenes ameaça tornar-se um cadáver político insepulto e e seus odores ameaçam “meio submundo” da política.
Fernando Brito
No Tijolaço
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Charge online - Bessinha - # 1148

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Governador tucano Marconi Perillo pagou para deputados votarem contra professores

Em reunião com professores no colégio estadual Gabriel Issa o deputado estadual Carlos Antonio (PSC / Goiás) confessou para todos que ali estavam, que recebeu R$ 150.000,00 (Cento e cinquenta mil reais ) do Governo do Estado para votar contra os professores do estado. Carlos Antonio ainda disse que errou ao votar em tal projeto pois não sabia de que se tratava. Quanto ao dinheiro recebido o deputado explicou que não ficou com ele, disse que distribuiu para três escolas de Anápolis-GO.
Obs: O vídeo acima foi editado, onde foi usando o trecho a partir de 8 minutos, o original com o conteúdo completo pode ser visto abaixo:
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Ao anunciar medidas, Dilma afirma que governo não vai abandonar indústria brasileira


Empresários comentam medidas de estímulo à indústria

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Bertrand Russell fala sobre deus

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Charge online - Bessinha - # 1147

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O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

Ultimate Fighting Championship: Marx vs. Cristo
"As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas.
O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos
e às consolações da fé."
Alexis de Tocqueville, "A Democracia na América" (1830), p. 220.

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.
Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.
O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.
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O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um trabalho incansável
de aproximação com o povo
Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)
O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.
O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.
Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.
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A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico
George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas
Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.
Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.
Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.
Autor desconhecido, via Senshô Posterous
No Blog Limpinho & Cheiroso
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O PSDB e a leveza do paquiderme

Coordenadora tenta forçar repórter da
CartaCapital a se retratar sobre suposta
participação da legenda na demissão de
dois jornalistas
A cúpula do PSDB, ao lidar com jornalistas que criticam seus integrantes e legenda, age com a leveza de um paquiderme. Deixa pegadas por onde passa na sua tentativa de forçar repórteres a se retratarem – no caso de CartaCapital esforço vão. Foi o que fez Adriana Vasconcelos, coordenadora de Comunicação Social da Executiva Nacional do PSDB, em conversa telefônica na sexta-feira 30 com Gabriel Bonis, jornalista de CartaCapital.
Vasconcelos ligou acelerada e a falar em tom alto para reclamar de artigo publicado pelo website do semanário intitulado “Resenha de A Privataria Tucana causa demissão de jornalistas da Revista de História da Biblioteca Nacional”. Em poucos termos, Bonis aprofundou uma nota do jornalista Elio Gaspari, no qual o colunista conta como uma resenha de autoria de Celso de Castro Barbosa favorável ao livro de Amaury Jr. sobre as falcatruas do PSDB deixou “possessos” os líderes da legenda. Em seguida, Barbosa e o editor-chefe da publicação, Luciano Figueiredo, foram demitidos.
A lógica de Vasconcelos, repetida em carta para a direção de CartaCapital após a escaramuça telefônica com Bonis, é a seguinte: o “jovem repórter” (ela cisma em associar sua juventude a uma suposta falta de experiência ao longo do texto) teria sugerido que o deputado Sérgio Guerra, presidente do PSDB, “pediu a cabeça” dos jornalistas. E, “segundo as regras da ética do bom jornalismo” o “jovem” deveria ter ouvido a direção nacional do PSDB antes de publicar sua matéria.
Pequeno e crucial detalhe: em momento algum Bonis sugere que Guerra teria, como enfatizou Vasconcelos, “pedido a cabeça” dos jornalistas da Revista de História. O jornalista simplesmente relata o que constava na mídia, e inclusive no website do PSDB.
A cúpula do PSDB não acha esquisito dois jornalistas serem demitidos após a legenda ter colocado pressão na Revista de História?
O PSDB, vale exprimir, considera a Revista de História como uma publicação governamental. E pelo fato de receber verba da Petrobrás deveria se manter isenta de questões políticas. Vasconcelos, de fato, defendeu essa tese no entrevero com Bonis. No entanto, a publicação é da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional (Sabin,) que, embora seja uma sociedade sem fins lucrativos, cobra taxas de associação anuais a variar de um salário mínimo a mais de 20 mil reais. A Sociedade é composta inclusive por bancos como o Bradesco e o Itaú. Além disso, a Revista de História é vendida em bancas e por assinatura, logo tem fins comerciais.
Por meio de uma nota, o presidente da Sabin, Jean-Louis Lacerda Soares, afirmou que “não interfere no conteúdo editorial da revista”. E emendou: “A atribuição relacionada ao conteúdo é do Conselho Editorial”. Em suma, Barbosa tem o direito de opinar sobre A Privataria Tucana na Revista de História. Deveria.
A Petrobrás anuncia, aliás, em várias publicações e mesmo assim todas elas têm a liberdade de criticar o PSDB. Isso, claro, acontece pouco, para não dizer nunca, visto que a vasta maioria desses periódicos têm tangíveis pendores tucanos.
Por exemplo, Luciano Figueiredo, o editor-chefe da Revista de História, portou-se de forma nebulosa. Em entrevista para CartaCapital, Barbosa contou que Figueiredo “concordou com quase tudo que eu havia escrito”.
No entanto, tudo leva a crer que houve pressão para levá-lo a mudar de ideia. Guerra enviou uma carta de protesto a Figueiredo, e outra à ministra da Cultura, Anna de Hollanda. Consta que Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central no governo de FHC, teria sido um dos mais ativos mobilizadores na campanha contra a resenha de A Privataria Tucana.
Resultado: Figueiredo escreveu nota, assinada pelo presidente da Sabin, na qual diz que o texto do jornalista não havia sido revisado pelos editores da publicação e se desculpa com os possíveis ofendidos. Em seguida demitiu Barbosa, e, ironia das ironias, foi dispensado pela Sabin por “razões administrativas”.
Por sua vez, o PSDB reagiu na sexta através da seguinte nota: “A própria Revista de História da Biblioteca Nacional constatou um erro ao publicar o artigo”.
Mas que erro cometeu Barbosa?
Vasconcelos teve a bondade de nos presentear com uma nota redigida, em 28 de março, por Sérgio Guerra. O deputado nega interferência nas demissões. E escreve: “O PSDB tem todo o direito de protestar contra a resenha do livro “A Privataria Tucana” pela “Revista História”, da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional. Terá também todo o direito de ir à Justiça”.
E Barbosa não tem direito de protestar contra os protestos tucanos?
Pressão por parte da legenda houve. Na conversa telefônica com Bonis, de fato, Vasconcelos não negou que o PSDB fez pressão, embora não tenha pedido cabeças. Houve as cartas para Figueiredo e para a ministra Anna de Hollanda.
E houve o telefonema para Bonis.
Vasconcelos diz na carta (mais uma) endereçada para CartaCapital que o jornalista da revista ficou “irritado”. Foi Bonis, aliás, quem a incentivou a enviar a carta. Este que escreve estava ao lado de Bonis durante a contenda telefônica. Ele é um jornalista calmo, prolífico e um dos mais talentosos que temos. Continuou calmo, mas foi duro quando a coordenadora tucana começou a repetir, ininterruptamente e aos berros, que ele não havia falado com o Guerra. Bonis então disse que se a coordenadora não o deixasse se exprimir seria obrigado a desligar.
Vasconcelos continuou a gritar que ele não tinha procurado Guerra e desligou o telefone na cara do jornalista. Disse que vai “estudar a possibilidade de um processo”.
Leia o artigo de Gabriel Bonis aqui.
Gianni Carta
No CartaCapital
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A Historia da Maconha

Em A História da Maconha acompanharemos a trajetória desta droga psicotrópica na América. A maconha é um produto global que nos Estados Unidos produz mais de 36 bilhões de dólares por ano. Enquanto muitos acham que é uma droga medicinal, outros a consideram uma "droga ponte", que abre caminho para o uso de outras drogas mais fortes. Neste programa é mostrado o paradoxo que existe com relação a esta substância: o governo dos Estados Unidos investiu 100 bilhões de dólares para lutar contra o plantio, venda e distribuição da droga, enquanto em 14 de seus estados o uso foi legalizado por razões medicinais.
No Poemas e Conflitos
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Policarpo-Cachoeira: uma dupla para limpar o Brasil

A Veja "desencarnou" Demóstenes:
parceria cívica com Carlinhos Cachoeira
Um dos principais argumentos para dizer que o ex-Presidente Lula tinha conhecimento dos esquemas de depósitos ilegais de dinheiro para parlamentares em seu primeiro governo é o fato de que o governador de Goiás, Marconi Perillo, afirma tê-lo avisado de que estaria ocorrendo o “mensalão”.
Perillo diz ter sido alertado pelo deputado tucano Carlos Leréia. Ambos, como todos sabem, mais do que ligados a Carlinhos Cachoeira.
O caso começou, todos se recordam, com a filmagem de um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, recebendo R$ 3 mil de interlocutores, num “furo de reportagem” de Policarpo Júnior, da Veja.
Sabe-se agora que a gravação foi providenciada pelo araponga Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, sargento reformado da Aeronáutica a serviço de Carlinhos Cachoeira. Dadá é aquele que “revelou” a Policarpo Júnior o suposto “dossiê” que se fazia contra a candidatura Serra que, de tão secreto, virou o livro “A privataria tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior.
Cachoeira é, por sua vez, o autor da gravação de Waldomiro Diniz, na época dirigente da empresa de loterias do Governo do Rio de Janeiro, pedindo propina, outro “furo” de Policarpo Júnior.
Agora, não podendo mais ocultar a “série de coincidências” – embora, ao contrário de outras vezes, tenha poupado uma capa sobre o escândalo – Veja mostra que associação entre seu editor e o banqueiro do bicho era de natureza “cívica”.
Sabendo que o áudio vazara, o publica como prova de sua “total transparência”, com a garantia do próprio bicheiro: “‘O Policarpo nunca vai ser nosso’.
Não, apenas estão trabalhando juntos pela moralidade pública:
- Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho pro Brasil, essa corrupção aí. Quantos (furos de reportagem) já foram, rapaz? E tudo via Policarpo.
Chega a ser comovente tanta pureza. Ouça o diálogo aqui.
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E é também tocante o discernimento de toda a grande imprensa brasileira, que se convenceu, automaticamente, que a associação Policarpo-Cachoeira era quase uma benemerência, uma cruzada moralizadora para livrar o Brasil da corrupção.
É certamente por esse elevado sentido de honradez que todas estas informações foram sonegadas aos leitores. O homem que mandava corromper e gravava a propina queria apenas o bem do Brasil e Policarpo, dono de um altíssimo sentido de dever pátrio, seguia suas orientações, profusamente transmitidas em dezenas e até centenas de telefonemas.
Só falta dizer que é dele a imagem no Santo Sudário, ao qual apelou a Veja para esconder sob Cristo o seu pecado Demo-Cachoeirista.
Enquanto isso, Lula, com a garganta – aquela que ele salvou do impeachment que a Veja desejava – recém recuperado, vai fazendo o milagre de contar, como prometera, tudo o que esteve encoberto na história do “mensalão”.
Sem ter de dizer uma palavra.
Fernando Brito
No Tijolaço
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Lilián Celiberti três décadas depois

Prova viva da chamada Operação Condor, a uruguaia que foi presa e torturada em Porto Alegre-RS encara o passado sombrio “como um dever cidadão” . Em entrevista concedida à Carta Maior, Lilian Celiberti, que hoje trabalha na Articulação de Organizações Feministas do Mercosul, se descreve como uma “militante dos direitos das mulheres, dos afrodescendentes, dos direitos humanos”. E é nessa luta pelos direitos humanos que seu passado tem espaço em sua vida.
Passaram-se quase trinta e quatro anos do momento em que, na rodoviária de Porto Alegre, a polícia brasileira prendeu a uruguaia Lilián Celiberti. Depois daquele dia, a então militante de oposição à ditadura do Uruguai (1973-1985) foi torturada, presenciou a prisão dos filhos e foi separada deles. Levada para Montevidéu, foi condenada a cinco anos de prisão e conseguiu sobreviver. Para quem espera dela um relato carregado de comoção, com voz embargada e revanchista, Lilián se mostra uma mulher serena, obstinada e, sobretudo, consciente de sua tarefa política.
Em entrevista concedida à Carta Maior, ela conta que hoje trabalha na Articulação de Organizações Feministas do Mercosul e se descreve como uma “militante dos direitos das mulheres, dos afrodescendentes, dos direitos humanos”. E é nessa luta pelos direitos humanos que seu passado tem espaço em sua vida: Lilián é uma das únicas provas vivas da existência da Operação Condor, uma manobra clandestina planejada e coordenada pelas ditaduras sul-americanas para capturar aqueles que pudessem representar alguma ameaça aos regimes. Ou, como define ela, é a “expressão planejada de um fundamentalismo genocida que foi parte da doutrina que animou exércitos latino-americanos nas décadas de 60 e 70”.
Enquanto testemunha, já deu diversos depoimentos relatando seu sequestro e já precisou reconhecer pessoalmente seus torturadores – uma tarefa que realizou “sem nenhum ódio singular”. “Simplesmente pude olhar em sua cara e dizer: 'Sim, é ele'”, contou.
Para ela, enfrentar passado “é como um dever cidadão”: “Não tenho medo, não tenho ódio. Vejo hoje com uma certa distância pessoal. Claro, tenho minhas dores basicamente em relação ao que meus filhos suportaram nessa experiência tão traumática”.
***
Quando chegou ao Brasil, em 1976, Lilián não imaginava que se tornaria, junto de seus filhos, a primeira testemunha daquela operação. Ela e seu colega Universindo Rodriguez Díaz trabalhavam em uma campanha para tentar localizar uruguaios desaparecidos. “Pegávamos seus depoimentos, sistematizávamos e apresentávamos para divulgar porque não se tinha tanta consciência do desaparecimento forçado como método de repressão”, disse.
O que levou à sua prisão, em 1978, foi a captura, em Montevidéu, de uruguaios enviados clandestinamente para o Brasil com objetivo de identificá-la. Depois de presa, com um capuz na cabeça, ficou em um lugar desconhecido, onde foi torturada “com eletricidades no corpo e com água”. Até que, em sua bolsa, os policiais encontraram seu endereço – um prédio da rua Botafogo, número 621, também em Porto Alegre, onde estavam seus filhos e Universindo. “Eu tinha mais medo porque sabia o destino dos desaparecidos. Tínhamos trabalhado desde 76 com militantes de esquerda e sabíamos que o desaparecimento significava a morte. E eu queria evitar que meus filhos desaparecessem”.
Lilián conta que, para ela, a única salvação era tentar ficar em Porto Alegre e denunciar o sequestro. Isso porque, “no Brasil, havia situação política diferente do Uruguai. No Uruguai, havia um terror absoluto. Nenhuma palavra poderia chegar ao nível público”. A estratégia para enganar os militares era oferecer seu apartamento como isca para atrair companheiros na clandestinidade. Como já estava havia cinco dias longe dos lugares que habitualmente frequentava, ela contou com a possibilidade de seus amigos perceberem que havia algo errado. “Era uma coisa muito perigosa porque meus companheiros poderiam pensar que eu estava colaborando com os miliares”, disse.
Seu plano finalmente prosperou quando um de seus colegas telefonou para o jornalista Luiz Cláudio Cunha, então chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, e denunciou que dois uruguaios estavam detidos no endereço da rua Botafogo. Com isso, Luiz Cláudio e o fotógrafo João Baptista Scalco foram ao apartamento e comprovaram o que se denunciava no telefonema anônimo.
Para Lilián, é certo que a presença dos jornalistas em seu apartamento salvou sua vida, principalmente porque a visita dos dois rendeu uma série de reportagens publicadas na revista Veja e deu visibilidade para o caso. “Se desaparecêssemos, o Brasil ficaria muito comprometido, porque dois jornalistas já tinham nos visto. Se nos matassem, deixaríamos uma pista”.
Nos dias em que ficou presa em sua própria casa, Lilián não sofreu tortura física. “Só estava eu. Universindo e meus filhos já estavam no Uruguai. A tortura era não ter meus filhos. Tortura maior não conheço. Não me tocaram. Primeiro, porque pensaram que eu ia entregar gente. Depois, porque tinham a maior carta na manga contra mim: os meus filhos”.
Na época, Camilo tinha sete anos e Francesca, três. Com a mãe na prisão durante os cinco anos que se sucederam ao sequestro, foram criados pelos avós maternos, Lilia e Homero.
Ao contrário do que possa se pensar por conta de traduções incautas da palavra “pareja”, ela e Universindo nunca foram casados, mas foram sempre companheiros de militância. Segundo Lilián, ele, historiador e pesquisador da Biblioteca Nacional do Uruguai, esteve doente, mas já está se recuperando. “Nós dois temos sido muito amigos e unidos para sempre por um episódio que nos fez viver as mesmas coisas”.
***
Em fevereiro de 2012, a Justiça uruguaia aceitou reabrir o caso do sequestro dos uruguaios no Brasil, arquivado pela ditadura daquele país, e Lilián já formalizou sua denúncia, aceita pela juíza Mariana Motta. Essa mesma juíza, em fevereiro de 2011, condenou Bordaberry a 30 anos de prisão por liderar o golpe de 1973 e por sua responsabilidade pelos desaparecidos naquele período. O ex-ditador cumpriu três meses na prisão e foi transferido para casa por razões de saúde. Morreu dois meses depois.
Quando questionada sobre a possibilidade de seus torturadores serem punidos, Lilián responde otimista. “No Uruguai, há vários casos abertos. Nosso caso também está aberto e a justiça também está investigando esses militares que participaram. Estão descobrindo cadáveres de pessoas desaparecidas. Há um trabalho de investigação e também confio que, no Brasil, também haja esse movimento, que é um direito de todos”, afirmou.
Ela acredita, porém, que existe um caminho a ser percorrido não apenas por meio das autoridades – que também têm sua responsabilidade –, mas por toda a sociedade. “Os homens e mulheres deste momento têm que reclamar, que querer saber, buscar a verdade, voltar a esses episódios do passado. A cumplicidade é um sistema muito mais amplo, está no poder político, mas também na sociedade”.
Daniella Cambaúva e Waldemar José
No Carta Maior
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Promotor militar explica tese jurídica que abre brecha na Lei da Anistia

Após uma semana em que os apoiadores do golpe civil de 1964 foram alvos de protestos, o Sul21 publica uma entrevista com o promotor militar Otávio Bravo que obteve reabrir, em fevereiro de 2010, 29 casos de desaparecimentos forçados praticados no Rio de Janeiro e Espírito Santo durante a ditadura.
Tese jurídica abre novo caminho para investigar desaparecimento forçados e reanima debate sobre a validade da Lei da Anistia | Foto: STF
“Eu tenho curiosidade de saber como o STF vai julgar a tese que define desaparecimentos políticos na ditadura brasileira como sequestros. Essa tese o Supremo não avaliou ainda”. A declaração é do promotor militar Otávio Bravo. Equiparando o crime de desaparecimento forçado ao crime de sequestro, o promotor encontrou um novo caminho para investigar estes crimes cometidos durante a ditadura e reanimou o debate sobre a validade da Lei da Anistia.
Nesta entrevista exclusiva concedida ao Sul21, ele explica em detalhes a tese jurídica utilizada para retomada das investigação e faz interessantes avaliações sobre os desafios que a Comissão da Verdade terá para trazer à tona informações relevantes sobre o período de exceção. Sobre a instalação da comissão, Bravo destacou um dos principais entraves para investigar os anos de chumbo: a dificuldade de ter acesso a documentos dentro e fora das Forças Armadas.
O promotor conhece bem as barreiras impostas não só pelos militares para ter acesso a arquivos que demonstrem o que ocorreu nos porões da ditadura. Ele revelou que a seccional da OAB do Rio de Janeiro também está criando empecilhos para encaminhar documentos solicitados.
Mesmo sabendo das inúmeras dificuldades e ainda com sérias dúvidas do potencial da Comissão da Verdade, Bravo disse que apoia a iniciativa. “Qualquer investigação sobre ditadura militar é válida”, lembrou.
Promotor militar Otávio Bravo | Foto: Reprodução
Sul21 – Vinte e nove casos de desaparecimentos forçados foram reabertos pela Procuradoria da Justiça Militar. Quero que o senhor comece explicando a tese utilizada para reabrir esses casos.
Otávio Bravo - Foram três fatos determinantes. O primeiro foi a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o caso Araguaia, a qual determinou que o Brasil tem obrigação genérica de investigar os casos de desaparecimentos forçados, não só os que ocorreram no Araguaia, mas em geral. O segundo foi o fato do Brasil ter ratificado no final de 2010 a “Convenção Internacional contra o Desaparecimento Forçado” da Organização das Nações Unidas (ONU). E a tese jurídica que permitiu a abertura dos processos veio do próprio Supremo Tribunal Federal (STF), de dois casos de extradição julgados em 2009 e 2011 de pessoas que teriam participado de crimes durante o estado de exceção na Argentina. Existe uma figura jurídica que só permite ao Estado a extradição de uma pessoa quando o crime não está prescrito no país da extradição, ou seja, o Brasil só pode extraditar pessoas se o crime não está prescrito na lei brasileira. Ao tratar das várias acusações contra essa duas pessoas, o STF até negou a extradição para uma série de atos que eram imputados a estes militares, mas entendeu que os desaparecimentos forçados equivaliam ao crime de sequestro que é considerado no Brasil um crime permanente.
Sul21 – O que é exatamente um crime permanente? Que mudança esse entendimento trouxe para a investigação de desaparecimentos forçados?
Otávio Bravo - É crime permanente aquele crime cujo final não se comprova. Portanto, presume-se que ele ainda está acontecendo até que se tenha certeza que acabou. De modo que o prazo de prescrição destes crimes permanentes é quando o sequestro chega ao final. A minha iniciativa foi apenas transportar essa tese utilizada nas extradições para os casos de desaparecimentos forçados no Brasil que também equivaleriam a sequestro pois não se sabe quando terminaram, não estão prescritos e logo não são cobertos pela Lei da Anistia que vai até 1979. Isso tudo deu embasamento jurídico para iniciar as investigações. Não significa dizer que todos os casos levarão militares ao banco dos réus já que as investigações podem levar a conclusão de que desaparecidos podem ter morrido antes de 1979 e os casos estarão prescritos e anistiados. A ocultação de cadáver também é permanente é só é considerado prescrito quando o cadáver aparece. Aí eu teria uma opinião para remeter para o Ministério Público Federal (MPF), a Procuradoria da República, porque o crime de ocultação de cadáver não é de competência da Justiça Militar, é da Justiça Federal. A base jurídica, em resumo, é essa.
Corte Interamericana de Direitos Humanos recomenda
que  casos de desaparecimentos forçados não sejam
julgados pela Justiça Militar| Foto: Reprodução
Sul21 – Por que estes crimes permanentes são de competência da Justiça Militar?
Otávio Bravo - Esses casos particulares são de competência da Justiça Militar porque envolvem sequestros ocorridos dentro de unidades militares, pessoas desapareceram dentro de unidades militares com militares exercendo função. Isso faz, pela legislação brasileira, que seja competência da Justiça Militar. É verdade que em determinado momento eu pretendo abrir mão dessa investigação com base na recomendação expressa da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) de que casos de desaparecimentos forçados não devem ser julgados pela Justiça Militar.
Sul21 – Qual é a alegação da Corte?
Otávio Bravo - Seria um contra-senso usar o argumento de uma decisão da corte e no final levar um caso desses para a Justiça militar. Embora eu seja da Justiça militar, eu sou um promotor civil. Eu entendo a posição da corte, eu milito na área dos direitos humanos, eu entendo, mas eu acho até um pouco injusta essa recomendação da corte porque a Justiça militar que nós temos no Brasil faz parte do Judiciário e ela não tem uma série de vícios que a Justiça militar de outros países tem. O fato é que a corte determinou isso: que casos de desaparecimentos forçados praticado por agentes militares não sejam julgados pela justiça militar. Então eu devo encaminhar para o MPF.
Sul21 – Essa tese de desaparecimento forçado por agentes públicos foi utilizada em outros países que tiveram ditaduras militares como a Argentina, Uruguai e Chile?
Otávio Bravo - Na verdade, nesses países as teses foram mais amplas, decretaram na Argentina, por exemplo, uma abrangência muito maior, são os chamados crimes contra a humanidade, crimes de genocídios que são crimes imprescritíveis por causa de convenções internacionais. No Brasil, o STF não aceitou essa tese e declarou válida a Lei da Anistia. O que se fez na Argentina, Uruguai e Chile foi muito mais amplo do que se fez no Brasil. No Brasil, se está discutindo ainda e, na primeira manifestação, o Supremo declarou que a Lei da Anistia continua de pé. Isso que está se falando de sequestro é uma tese única para investigar o crime de sequestro. Mas, por exemplo, se chegar a conclusão que houve um homicídio ou o crime de tortura não se pode fazer nada enquanto a decisão do Supremo não mudar. O Supremo já julgou, mas agora vai reavaliar um embargo de declaração. Eu sinceramente não acredito que o Supremo mude de posição, para mim vai continuar deixando a Lei da Anistia válida. Mas eu tenho curiosidade de saber como o supremo vai lidar com essa tese de sequestro, já que essa tese o Supremo não avaliou ainda.
Sul21 – Quem foram os relatores do STF que abriram essa brecha para que pelo menos os crimes de sequestro fossem investigados? E que dia foram reabertos os casos?
Otávio Bravo - Foram reabertos em fevereiro de 2010. A extradição de 2009 foi relatada pelo ministro Ricardo Lewandowki e a outra foi relatada pela ministra Carmem Lúcia. As duas extradições foram pedidas pela Argentina. Eu tenho curiosidades de como o STF vai dizer que isso não se aplica a desaparecimentos forçados no Brasil.
Rubens Paiva teve o mandato de deputado
federal cassado pelos ditadores | Foto: Reprodução
Sul21 – O senhor está investigando o caso do ex-deputado Rubens Paiva que desapareceu em 1971 nas dependências do Doi-Codi no Rio. Como está sendo essa apuração?
Otávio Bravo - Na apuração do caso do ex-deputado Rubens Paiva já cheguei a algumas coisas interessantes: a filha dele — que nunca tinha sido ouvida e que tinha quinze anos na época do desaparecimento — prestou depoimento. A verdade é que não havia investigação até agora do caso, houve um inquérito que acabou arquivado. A copia deste inquérito está desaparecida, uma coisa meio estranha. Está em algum lugar incerto.
Sul21 – Outro caso emblemático dos anos de exceção é o caso do Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, que teria sido espancado e arrastado por um carro com a boca no cano de escape. O senhor poderia contar como está sendo a investigação?
Otávio Bravo - Ainda não iniciei esta investigação. 29 casos foram abertos mas apenas 3 investigações estão em curso.
Sul21 – Qual sua opinião sobre as investigações que serão realizadas pela Comissão da Verdade? Que impacto os relatórios produzidos pela comissão poderão ter?
Otávio Bravo - Eu não sei. Depende muito da extensão que a Comissão da Verdade possa ter. Eu ainda não tenho nada que possa me assegurar qual será o impacto político da comissão. Necessariamente acho que uma comissão que tenha amplos poderes para investigar o que passou e que tenha acesso a documentos poderá ser ótima. Não sei se será mais um palco político do que propriamente um espaço de investigação, mas qualquer iniciativa para apurar o que aconteceu naquele período eu acho importante. Agora, não tenho realmente como fazer juízo de valor porque ainda não está funcionando.
Sul21 – Mas o senhor conhece bem a dificuldade de acesso a dados sobre este período da história brasileira.
Otávio Bravo - Eu tentei várias vezes ter acesso a dados nas Forças Armadas, mas foram negados; dizem que todos foram destruídos. Criam situações até meio ridículas, situações burocráticas que não têm sentido. Por exemplo, uma vez encaminhei uma requisição e eles alegaram que teria que ser encaminhada pelo procurador geral. Criam dificuldades, falta vontade de contribuir. Ao mesmo tempo há umas surpresas desagradáveis, a seccional da OAB no Rio de Janeiro, por exemplo, é uma vergonha. Diversas vezes mandei ofício pedindo informações e nunca me responderam. Eles tem uma campanha contra tortura e pelos desaparecidos políticos que, para mim, não tem valor nenhum. Se existe um órgão que está investigando o assunto e eles não encaminham informações é bastante estranho. Mas também tenho que ressaltar o apoio que tive da Secretaria de Direitos Humanos, da qual não tenho do que me queixar.
No Sul21
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Espantoso: uma capa da Veja que diz a verdade!

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Lo que los Estados Unidos quieren de Brasil

Algo nuevo se está fraguando entre Brasil y los Estados Unidos. Aunque pueda parecer una paradoja, son los Estados Unidos los que en este momento tienen los ojos puestos en la sexta potencia económica mundial y en un país estratégico en América latina.
Dilma-fala-da-visita-de-obama-ao-brasil-e-sobre-o-conselho-de-seguranca-da-onu-1_0 Del 9 al 13 de este mes de abril, la Presidenta Dilma Rousseff hará una visita oficial a los Estados Unidos para encontrarse con su colega Obama y según los analistas políticos, es Washington, en este momento el que tiene un interés especial en abrir unas relaciones nuevas, de mayor envergadura entre ambos países y no sólo en el campo económico.
El tema ha sido discutido en un seminario en São Paulo donde Myron Brillant de la Cámara de Comercio de los Estados Unidos lo ha dicho claramente. "Ha llegado la hora", afirmó "de que los Estados Unidos y Brasil se reconozcan mutuamente como socios estratégicos".
Myron BrillantMyron Brillant
El viaje de Dilma a Washington podrá significar una nueva era en las relaciones entre ambos países. La mandataria brasileña conoce muy bien el interés de Obama y en general de los Estados Unidos en abrir un nuevo capítulo de estrecha colaboración con Brasil.
Y no se va a tratar sólo de abrir barreras a los mercados entre ambos países. Son ya en este momento 11.000 artículos de intercambios comerciales entre Estados Unidos y Brasil.  La colaboración deberá ser mucho más importante y deberá abarcar campos estratégicos como las nuevas energías, la innovación tecnológica, el petroleo y la estrategia militar.
Ambos países son hoy líderes en los nuevos combustibles. Estados Unidos está interesado en el etanol y Brasil es también líder en este campo. Pero hay más: Brasil con los grandes yacimientos petrolíferos del Pre-sal, se convierten en un objeto de deseo de los Estados Unidos.
Hoy , Brasil es el segundo productor de petroleo de la región después de Venezuela y a los Estados Unidos les es más fácil adquirir el oro negro de Brasil que de Venezuela o del Medio Oriente. Y Dilma lo sabe. Como explica, la analista política de Folha de Sâo Paulo, Eliane Cantanhêde, Brasil, la zona del Orinoco en Venezuela y el Golfo de Guinea en África, forman un triángulo poderoso en la nueva geopolítica mundial.
Dilma-e-obama (2) Y Brasil no quiere sólo vender petroleo, sino invertir en Brasil como polo de producción, distribución y referencia en ciencia y tecnología en el sector. Y Estados Unidos puede dar una buena mano y constituirse como socio importante en este cometido.
Y es que a los Estados Unidos les interesa esta nueva estrategia con Brasil también por motivos de seguridad. El triángulo del que hemos hablado, se ubica, como analiza Cantanhêda, "en un área patrullada por la Marina norteamericana, el Atlántico sur y lejos del tenso y conflictivo Golfo Pérsico. Y eso lo dice todo".
Y hay aún más, Obama ya ha dejado indicar que los tres países con los que desea estrechar unas relaciones especiales son Brasil, China e India, lo que indica que las relaciones con Brasil pueden llegar a tener una importancia a nivel mundial.
No hay que olvidar que Estados Unidos y Brasil son además los dos mayores productores de comida del mundo y que se calcula que en los próximos 30 años, la necesidad de alimentos se duplicará en el Planeta.
Para que ese horizonte de futuro pueda convertirse en realidad, Dilma empezó a preparar el terreno desde el primer día de su Presidencia cuando aceptó recoger en su nuevo gobierno a la mitad de los ministros de su antecesor Lula, pero no al de Asuntos Exteriores, Celso Amorim, que junto con Lula eran más bien reacios a un acuerdo estratégico con los Estados Unidos.
Dilma cambió a Amorim, de la izquierda de su partido, el PT y lo substituyó por Antonio Patriota, que había sido embajador de Brasil en los Estados Unidos y cercano a Washington. Y es él el que trajo a Obama a Brasil y el que está preparando este viaje de Dilma a los Estados Unidos que podría de alguna forma poner las bases para un acuerdo estratégico nuevo entre ambos países .
De ahí la expectativa política, económica y diplomática ante dicho viaje oficial de la primera Presidenta mujer y exguerrillera a la Casa Blanca.
Vi~eta de Dilma y Obama Cena  con Obama
Juan Arias
No Vientos de Brasil
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Charge online - Bessinha - # 1145

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Recordar é viver
Demóstenes: 'Bandido perigoso tem que ir para a cadeia'
Trecho do programa de propaganda eleitoral do DEM levado ao ar em dezembro último.
No Blog do Noblat
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Governo de Goiás vai processar CartaCapital

Segundo o procurador-geral Ronald Bicca, a matéria de capa da publicação que associa o Estado ao crime é ofensiva ao governador Marconi Perillo (à esq.), cria estigma e merece direito de resposta com o mesmo espaço. No domingo, a edição desapareceu das bancas depois de ter sido comprada de uma só vez por grupo não identificado
Depois de desaparecer das bancas, a revista CartaCapital vai ser processada. O procurador-geral do Estado de Goiás, Ronald Bicca, confirmou nessa segunda-feira que vai acionar judicialmente a publicação por considerar a capa e a matéria principal ofensivas ao Estado e ao governador Marconi Perillo (PSDB). Segundo Ronald Bicca, o Estado de Goiás vai pedir direito de resposta e que a revista publique, com o mesmo espaço, material de desagravo ao governador e a Goiás.
No último domingo, carros sem placa de identificação percorreram as bancas de jornal de Goiânia, capital de Goiás, com homens comprando, de uma só vez, todos os exemplares disponíveis. A operação tentou conter a repercussão da manchete "O crime domina Goiás", onde são associadas as imagens de Perillo, do senador Demóstenes Torres (DEM) e do empresário e bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
Leia as declarações de Ronald Bicca publicadas pelo Terra:
"O governador do Estado não é ligado a nenhum tipo de atividade ilícita. Nosso objetivo é defender nossa honra. Foi um ataque ao Estado de Goiás, ao governo e ao governador do Estado", disse o procurador, que acredita que a revista cria um estigma para todo o Estado.
"Nós já fomos atacados violentamente em 1982, estigmatizados com a questão do Césio 137, os goianos foram discriminados. Os goianos não merecem ser taxados como moradores de um Estado que é dominado pelo crime. Isso não é verdade", disparou o procurador, assegurando que todas as medidas judiciais cabíveis serão tomadas para que se publique, "da mesma forma que foi publicado este ataque indevido e leviano ao Estado de Goiás, para defender o nosso povo e o nosso governo", sublinhou.
"Os outros veículos estão tendo algum cuidado no sentido de não chegar a uma conclusão daquela, em nenhum outro houve a afirmação de que o crime domina Goiás, colocando a foto do governador, fazendo ligação dele com coisas que não lhe dizem respeito e que não estão nas gravações (da Polícia Federal)", disse. Ronald Bicca disse que a CartaCapital fez uma interpretação política dos fatos.
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O caso Demóstenes-Cachoeira-Gilmar-Veja

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Telefónica convierte a Latinoamérica en su principal motor de riqueza

La operadora batió el récord en 2011 de fondos netos repatriados al alcanzar los 3.074 millones
El resultado de las filiales españolas cae un 44,6%
El presidente de Telefónica, César Alierta / EFE
Latinoamérica no es solo el principal motor de crecimiento de Telefónica en ingresos y clientes. También es su principal granero de fondos. La multinacional española batió el récord en 2011 de repatriación de fondos netos desde las compañías latinoamericanas hasta alcanzar los 3.074 millones de euros, un 44,6% más que el saldo neto de 2010 (2.125 millones), y por encima de los 2.491 millones de 2006, récord hasta la fecha, según figura en el informe anual de la compañía registrado el viernes en la Comisión Nacional el Mercado de Valores (CNMV).
Como una de sus políticas para mitigar el riesgo país, Telefónica repatría los fondos generados en Latinoamérica no necesarios para acometer nuevas oportunidades de desarrollo rentable del negocio en la región, según explica la empresa en su informe anual. En él, señala que en 2011 se recibieron 3.139 millones desde Latinoamérica (2.379 en concepto de dividendos, 402 millones por préstamos intragrupo —devolución de principal y pago de intereses—, 112 millones por inversiones financieras, 28 millones de euros por reducciones de capital y 219 por otros conceptos). Estos importes fueron en parte compensados por importes adicionales invertidos en Latinoamérica, fundamentalmente, en México (65 millones de euros).
Telefónica mantiene un fuerte compromiso en la región. En 2011, la inversión, incluyendo la compra de espectro radioeléctrico, ascendió a 5.299 millones de euros, consolidando a la operadora española como el principal inversor en la zona.
La compañía sigue sin lograr autorización para repatriar los dividendos de su filial en Venezuela. A 31 de diciembre de 2011, está pendiente por la Administración venezolana, a través de la Comisión de Administración de Divisas (CADIVI), de la aprobación de dos dividendos acordados por la compañía de 1.029 millones de euros (5.882 millones de bolívares fuertes).
Telefónica recibió ayer otra buena noticia de la región al llegar a un acuerdo con el Gobierno colombiano para fusionar sus negocios de telefonía fija y móvil en el país, una operación que le permitirá reducir su deuda financiera neta en unos 1.300 millones. La operación será efectiva a partir del próximo 24 de abril.
La operadora española fusionará Telefónica Móviles Colombia y Colombia Telecomunicaciones (controlada en un 52% por Telefónica y en un 48% por el Estado colombiano). La compañía que surja de la fusión será el segundo operador integrado del país, y estará participado en un 70% por Telefónica y en un 30% por Colombia.
En España cae el beneficio
Al contrario de lo que ocurrió en Latinoamérica, la operadora que preside César Alierta sufrió en España los efectos de la crisis y la caída del consumo. Las dos grandes filiales de Telefónica en España lograron un beneficio neto de 1.733 millones, lo que supone un retroceso del 60,7% con respecto a los 4.412 millones que alcanzaron Telefónica de España y Telefónica Móviles España conjuntamente en 2010.
De las dos, la que más sufrió en su resultado de explotación fue la filial de fijo y banda ancha, cuyo beneficio neto cayó un 87,7% hasta los 298 millones de euros, debido fundamentalmente al impacto de los costes del expediente de regulación de empleo (ERE) pactado en julio pasado, que prevé la salida de 6.500 trabajadores en los próximos tres años, y cuyos gastos (incluyendo el desempleo) ha asumido la compañía. La filial de móviles vio descender su resultado neto en 2011 un 27,5% hasta los 1.435 millones, aunque en este caso por la caída de ingresos por el descenso de los precios.
El informe anual de Telefónica recoge que la plantilla promedio del ejercicio 2011 fue de 286.145 personas, con un aumento neto de 17.098 respecto a 2010, sobre todo por Atento (servicios de atención telefónica). Sin Atento, la plantilla media se elevó a 122.472, con un aumento del 4,7%. La plantilla final a cierre de año alcanzó un récord de 291.027 empleados, con un aumento de 5.921.
En la memoria, también figura, que Telefónica está dispuesta a llegar hasta el final en el proceso que mantiene abierto para recuperar parte del desembolso que realizó de 8.400 millones de euros por la licencia de UMTS en 200 a través del consorcio Quam.
Tras haber sido desestimados sus recursos tanto ante el regulador como los tribunales ordinarios, en octubre pasado Quam GmbH presentó recurso de amparo ante el Tribunal Constitucional Federal de Alemania (Karlsruhe).
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Heróis de um Brasil perdido

Foto: Ricardo Chaves/AE
Quando cheguei ao Brasil, agosto de 1946, a revista semanal chamava-se O Cruzeiro, da frota dos Diários Associados do almirante Chatô. Tratava-se de uma publicação provinciana na forma e no conteúdo, mas algumas de suas páginas nada tinham de provinciano. Aquelas ilustradas por uma equipe de excelentes fotógrafos, entre os quais se destacava Jean Manzon. Outra, sorrateiramente ocupada pelo Amigo da Onça, a maligna criatura do humorista Péricles. E as duas entregues ao “Pif-Paf” de Millôr Fernandes encantariam Saul Steinberg, honrariam a melhor New Yorker.
Encantaram também a família Carta, que se passou à disputa acirrada do exemplar do Cruzeiro, da sala aos aposentos. Mas quem era este Millôr? Descobrimos um jovem de 23 anos, capaz de um humor que não desdenhava desatar o riso, embora, com naturalidade, fizesse pensar. De resto “livre pensar é só pensar”. Não é mesmo?
Dez anos depois fui para a Itália e lá fiquei por mais de três. De regresso a São Paulo no começo da década de 60, capturou-me no vídeo um comediante de 30 anos chamado Chico Anysio, capaz de encarnar dezenas de personagens que faziam rir sem deixar de convocar a inteligência dos espectadores. Millôr e Chico, talentos extremos, morreram nos últimos dias, depois de vidas bem vividas a bem da graça e da leveza, na sua função de elevar o espírito, sem descurar da consistência e da densidade. Ambos produziram muito e sem tropeços, aprumados e certeiros.
Conheci os dois, com Chico estive ralas vezes, de Millôr fui bom amigo e com ele cheguei a trabalhar. Não é disso, porém, que pretendo falar agora, e sim de como as duas figuras são representativas de um Brasil perdido. Entre o imediato pós-guerra e o golpe de 1964. O Brasil do futuro que nunca chegou.
Foto: Dario de Dominicis
Estranho o destino dos tempos. O futuro de então queria ser moderno sem manias de grandeza, desenvolvido na medida justa, contemporâneo culturalmente, equilibrado socialmente, habilitado a explorar em seu proveito os humores populares ampliando-lhes os alcances e a dar guarida digna aos seus talentos. Independente porque livre de qualquer gênero de colonização.
Hoje há quem enxergue novamente o Brasil como país do futuro, este, porém, não é aquele. Sonha-se é com a potência pela força da economia, a despeito das abissais disparidades internas ou da condição de exportador de commodities, sem falar das lacunas culturais. Há 60 anos o papel entregue à generosidade da natureza era bem diferente em relação ao atual. Cogitava-se explorá-la, a natureza, no quadro de um projeto muito amplo. Era o tempo da campanha do “petróleo é nosso”, com todas suas implicações. Nestes dias atuais a natureza é protagonista absoluta enquanto o neoliberalismo, resistente impávido, gera felizes fabricantes de dinheiro. Sobra a convicção de que o Brasil progride por conta própria à revelia dos homens.
Até o tempo conjugado no futuro está exposto a mudanças brutais. Tínhamos Chico Anysio, temos o Big Brother. Tínhamos Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Erico Verissimo, Jorge Amado, temos Paulo Coelho. Sim, a saudade daquele menino chegado aos 12 há 66 anos proporciona certas decepcionantes constatações. Tudo quanto a realidade do Brasil da minha adolescência e de minha juventude prometia foi miseravelmente descumprido.
Penso em um país cuja arquitetura era referência mundial e hoje se inspira em Gotham City, a cidade de Batman e Robin. Às vezes, parece-me surpreendê-los a sobrevoar em São Paulo a área da Avenida Berrini. Os pensadores agora atendem pelo sobrenome de Magnoli ou Mainardi, e já foram Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Hollanda. Ao sair do curso noturno da Faculdade do Largo de São Francisco comprava a Última Hora e no bonde, de volta para casa, lia Nelson Rodrigues, com sua A Vida como Ela É, como anos após leria Stanislaw Ponte Preta a falar do Febeapá, o festival de besteiras que assola o país. Motorneiro, cobrador e os escassos passageiros surpreendiam-se com minhas gargalhadas.
Estava alegre e tinha razões para tanto. A marchinha de carnaval recomendava tirar o anel de doutor na hora da folia, “para não dar o que falar” ao passo que o samba via a lua “furando o nosso zinco”, a salpicar “de estrelas nosso chão”. E tu? “Tu pisavas os astros, distraída.”
Já não se fazem a alegria e a melancolia de antigamente, diria Millôr. A energia criativa, a santa ironia. À espera, então, de um futuro feliz para todos.
Mino Carta
No CartaCapital
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O Ficha Limpa

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São Paulo supera o Rio

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O caso Demóstenes Torres e as raposas no galinheiro

O rumoroso caso Demóstenes Torres é uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos, venal. E hipócrita também.
O rumoroso caso Demóstenes Torres (DEM-GO) não é apenas mais um caso de corrupção denunciado pelo Ministério Público. É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos, venal. E hipócrita também.
Teoricamente, todos os jornais e jornalistas sabiam quem foram os arautos da moralidade por eles eleitos nos últimos anos: representantes da política tradicional, que fizeram suas carreiras políticas à base de dominação da política local, que ocuparam cargos de governos passados sem nenhuma honra, que construíram seus impérios políticos e suas riquezas pessoais com favores de Estado, que estabeleceram relações profícuas e férteis com setores do empresariado com interesses diretos em assuntos de governo.
Foram políticos com esse perfil os escolhidos pelos meios de comunicação para vigiar a lisura de governos. Botaram raposas no galinheiro.
Nesse período, algumas denúncias eram verdadeiras, outras, não. Mas os mecanismos de produção de sensos comuns foram acionados independentemente da realidade dos fatos. Demóstenes Torres, o amigo íntimo do bicheiro, tornou-se autoridade máxima em assuntos éticos. Produziu os escândalos que quis, divulgou-os com estardalhaço. Sem ir muito longe, basta lembrar a “denúncia” de grampo supostamente feita pelo Poder Executivo no gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, então presidente da mais alta Corte do país. Era inverossímil: jamais alguém ouviu a escuta supostamente feita de uma conversa telefônica entre Demóstenes, o amigo do bicheiro, e Mendes, o amigo de Demóstenes.
Os meios de comunicação receberam a suposta transcrição de um grampo, onde Demóstenes elogia o amigo Mendes, e Mendes elogia o amigo Demóstenes, e ambos se auto-elegem os guardiões da moralidade contra um governo ditatorial e corrupto. Contando a história depois de tanto tempo, e depois de tantos escândalos Demóstenes correndo por baixo da ponte, parece piada. Mas os meios de comunicação engoliram a estória sem precisar de água. O show midiático produzido em torno do episódio transformou uma ridícula encenação em verdade.
A estratégia do show midiático é conhecida desde os primórdios da imprensa. Joga-se uma notícia de forma sensacionalista (já dizia isso Antonio Gramsci, no início do século passado, atribuindo essa prática a uma “ imprensa marrom”), que é alimentada durante o período seguinte com novos pequenos fatos que não dizem nada, mas tornam-se um show à parte; são escolhidos personagens e conferido a ele credibilidade de oráculos, e cada frase de um deles é apresentada como prova da venalidade alheia. No final de uma explosão de pânico como essa, o consumo de uma tapioca torna-se crime contra o Estado, e é colocado no mesmo nível do que uma licitação fraudulenta. A mentira torna-se verdade pela repetição. E a verdade é o segredo que Demóstenes – aquele que decide, com seus amigos, quem vai ser o alvo da vez – não revela.
Convenha-se que, nos últimos anos, no mínimo ficou confusa a medida de gravidade dos fatos; no outro limite, tornou-se duvidosa a veracidade das denúncias. A participação da mídia na construção e destruição de reputações foi imensa. Demóstenes não seria Demóstenes se não tivesse tanto espaço para divulgação de suas armações. Os jornais, tevês e revistas não teriam construído um Demóstenes se não tivessem caído em todas as armadilhas construídas por ele para destruir inimigos, favorecer amigos ou chantagear governos. Os interesses econômicos e ideológicos da mídia construíram relações de cumplicidade onde a última coisa que contou foi a verdade.
Ao final dos fatos, constata-se que, ao longo de um mandato de oito anos, mais um ano do segundo mandato, uma sólida relação entre Demóstenes e a mídia que, com ou sem consciência dos profissionais de imprensa, conseguiu curvar um país inteiro aos interesses de uma quadrilha sediada em Goiás.
Interesses da máfia dos jogos transitaram por esse esquema de poder. E os interesses abarcavam os mais variados negócios que se possa fazer com governos, parlamentos e Justiça: aprovação de leis, regras de licitação, empregos públicos, acompanhamento de ações no Judiciário. Por conta de um interesse político da grande mídia, o Brasil tornou-se refém de Demóstenes, do bicheiro e dos amigos de ambos no poder.
Não foi a mídia que desmascarou Demóstenes: a investigação sobre ele acontece há um bom tempo no âmbito da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Nesse meio tempo, os meios de comunicação foram reféns de um desconhecido personagem de Goiás, que se tornou em pouco tempo o porta-voz da moralidade. A criatura depõe contra seus criadores.
Maria Inês Nassif
No Carta Maior
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