18 de mar de 2012

Petição pela retirada de Deus do real já tem mais de mil adesões

A petição on-line ao CMN (Conselho Monetário Nacional) da LiHS (Liga Humanista Secular do Brasil) pela retirada da expressão “Deus seja louvado” das cédulas do real já tem mais de mil adesões.
A LiHS congrega céticos, agnósticos, ateus e livres-pensadores em torno de valores éticos. Tem se destacado na defesa do Estado laico.
Em dezembro de 2011, o Ministério Público Federal em São Paulo encaminhou ao Banco Central pedido pela supressão da frase de cunho religioso. Como resposta, o BC disse que se trata de uma questão da alçada do CMN.
Algumas pessoas estão justificando sua adesão à petição, como Henrique Jucá. Ele disse que o Estado brasileiro deve estimular a diversidade, mas não pode privilegiar a divulgação de nenhum credo.
Para Natasha Avital, é uma afronta aos brasileiros não cristãos terem de “passar adiante uma profissão de fé” toda vez que usam uma cédula do real.
Rafael Andrade argumentou que, em um Estado laico, abonar a frase “Deus NÃO seja louvado” seria tão inconcebível quanto propagar “Deus seja louvado”, como está ocorrendo.
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Algumas dicas para ler jornais

Na foto, o último furo do JB impresso: antecipar a demolição da horripilante passarela do obelisco de Ipanema (tinha que ser na Zona Sul, ou não seria o JB)
Aproveitando o texto Jornalismo para iniciantes, aqui vão algumas dicas de um jornalista experiente para que você consuma produtos da indústria da informação com um mínimo de segurança, ou seja, sabendo o que é realmente informação e o que é conversa fiada com interesses camuflados.
I - Comece a ler a primeira página dos grandes jornais de baixo para cima. Normalmente, o espaço superior, que os editores julgam ser mais nobre, é ocupado por manchetes destinadas a prejudicar a imagem de alguém ou de alguma corrente política, além disso, é no lá alto que os jornais colocam as promoções que usam para atrair o leitor que já não se interessa tanto por suas reportagens (tipo dar relógio de presente). É no alto também que são estampadas notícias de grande apelo popular mas discutível relevância, como o resultado do jogo do Flamengo ou a bela modelo eliminada do reality show.
Outro dia, a importante notícia de que o desemprego entre os jovens no Brasil havia caído pela metade estava lá embaixo, pequenininha, enquanto o desfile da Unidos da Tijuca era escancarado lá no alto...
Em geral, as marolas e intrigas políticas de ocasião, ganham grande destaque, enquanto fatos de importância para além da nossa época são negligenciados. Veja o destaque dado agora à suposta "crise" na base de apoio do governo.
II -  Repare nos verbos usados. Em jornalismo, o verbo é tudo. Se escrevem que o governador "afirmou", é uma coisa. Mas escrevem que ele "admitiu", já vem uma carga desfavorável implícita na semântica.  "Sustentar", "reconhecer", "argumentar", entre outros, são verbos usados para colocar alguém em posição defensiva, jogando sobre este sempre alguma suspeição.
Por outro lado, se optam por "decretou", "sentenciou", "definiu" e "concluiu", isso  mostra que o fulano em questão é um grande amigo do jornal. "Garantiu", então, é assinar embaixo do que o entrevistado falou.
Se o fulano "sacramentou", ele é amicíssimo!
III - Aos amigos, tudo, principalmente uma boa foto. Aos inimigos, uma careta. Uma vez, um ator e diretor de TV e teatro ligou para o jornal em que eu trabalhava para reclamar de uma foto dele publicada em ângulo desfavorável, Vaiodoso que só, não gostou de sair nas páginas de rosto franzido, Bolas, ele fazia um papel de vilão, a foto, do personagem, era pertinente... Com os políticos, essa distinção de imagem é muito usada. Algumas fotos chegam a ser sonegadas ao público, como foi recentemente aquela em que Dilma Rousseff e o ator Sean Penn apareceram lado a lado. Você viu?
IV - Um jornal não é do dono, é das empresas que nele anunciam. Por isso, H.L. Mencken, grande jornalista americano, dizia, já nos anos 1920, que um pasquim popularesco é mais confiável do que um gigante da mídia. Sem anúncios, um jornal é verdadeiramente independente (pena que não dura).
Imagine se um dos jornais em que eu trabalhei publicaria a denúncia de que o banheiro do Mc Donalds da Cinelândia havia se transformado em ponto de encontro de homossexuais e garotos de programa. Um absurdo, funcionários dizendo que nada podiam fazer e crianças se arriscando a se deparar com aquelas cenas. Claro que o editor disse pra eu jogar a apuração no lixo...
Outro chefe meu ignorou a situação caótica que testemunhei no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu, porque a divulgação daquilo não seria nada boa para a facção política que detinha o poder na época.
Da mesma forma, jornais com muitos anúncios dos governos estaduais, municipais ou federal pensam dez vezes antes de publicar algo que realmente vá incomodar seus mantenedores. Fica sempre aquele morde e assopra entediante, em que pequenas denúncias frívolas se alternam a matérias escancaradamente chapa branca. Quando o governo Lula pulverizou a verba de publicidade em impressos, diluindo-a por jornais menores do interior, os grandes da mídia ficaram fulos da vida.
V - Leia os editoriais. Ali, onde os editores manifestam de forma mais clara a posição do jornal, fica evidente que corrente política eles apoiam e qual querem ver longe do poder, ou melhor, da chave dos cofres públicos. Gozado é que lá, onde têm a prerrogativa de opinar, eles procuram fazê-lo da forma mais suave possível, com uma linguagem rebuscada e fugidia que torna todo editoral chatíssimo de ler.
VI - Dê uma olhada na escalação do time de colunistas. Em geral, todos dizem o que o patrão quer, e por isso ele os coloca lá. Esses papagaios permitem ao dono reverberar suas opiniões e posições. já que só pensam em garantir seus empregos e têm como traço comum, além da cara de pau, a mediocridade. A tarefa calhorda é considerada tão nobre hoje em dia que alguns colunistas até se tornam imortais da Academia Brasileira de Letras.
Não deixe que aluguem a sua cabeça, mas, se não houver outro jeito, cobre um aluguel bem caro.
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Perícia para que?

Pelo "estrago" no Mercedes esportivo podemos afirmar que o filho de Eike trafegava normalmente, não é?
"O coração dele foi parar dentro do carro, por isso eu sei que ele foi pego de frente. Se ele tivesse atravessando a rodovia como estão falando, teria sido pego de lado"
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Como deixar de ser um estado teocrático?

Apesar de teoricamente vivermos em um estado laico, na prática o estado não é tão laico assim.
Desde o descobrimento em 1500 até os dias de hoje, boa parte de nossos legisladores tentaram e tentam fazer uma nação cada vez mais livre e soberana, mas a forma como a nação foi formada e também a colonização, tornam esta tarefa realmente complicada.
O Brasil descoberto e colonizado pela coroa portuguesa quase sempre copiou leis e regras de outras nações, como da própria coroa portuguesa, dos cânones de Roma, das leis e sistemas ingleses, franceses e americanos.
A coisa era e é tão levada nas coxas que até a proclamação da república em 1889 não existia uma legislação brasileira que regulasse o casamento, este era regulamentado pelo de direito canônico da igreja de Roma.
“Cân. 1055 – § 1. O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio de toda a vida, por sua índole natural ordenado ao bem dos cônjuges e a geração e educação da prole, entre batizados foi por Cristo Senhor elevado à dignidade de sacramento.”
(se o casal não fosse batizado na igreja, não era considerado um casal. É mole?)
Desde 1889 até a constituição de 1988 só eram legalmente reconhecidas as uniões oriundas do casamento. Qualquer outro tipo de união não tinha nenhum efeito legal e muitas mães viúvas ou abandonadas sofreram duras penas por este lapso da legislação.
Com a constituição de 1988 ficou estabelecido que:
Art. 1º É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família.
Depois, somente em 2011, o Supremo Tribunal Federal decidiu sobre o caso de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. Apesar da decisão, em partes, ser contraditória com a constituição, ficou definido que: Os direitos civis de casais do mesmo sexo não podem ser negados.
Neste caso um grande avanço, mas ainda há muito que fazer.
O aborto, por exemplo, não foi regulamentado ainda devido a pressões de religiosos sobre o tema. Uma miríade de discussões inúteis sobre o que pode ser considerado vida, já causou quantas mortes de mães que optaram por abortar e, sem amparo ou técnicas regulamentadas, perderam suas vidas no procedimento.
Eu aqui, Polaco, Doido e Ateu “por casualidad” também sou contra o aborto, mas não é um caso de ser contra ou a favor, é um caso de saúde pública! Que incoerência é essa? A lei protege fetos e condena as mães ao sofrimento e muitas vezes a morte?
E a prioridade que certos legislativos e judiciários dão as religiões católicas e neo-pentecostais?
Estamos em 2012 e o presidente da ALEP, Valdir Rossoni, ainda inicia as sessões da assembléia com a frase:
“Sob a proteção de deus… “
Sob a proteção de deus! Colé? E os ateus, hinduístas, budistas que não acreditam em um deus, não fazem parte do estado?
Meu amigo Cequinel do blog O Ornitorrinco, entrou com um requerimento para a retirada do crucifixo e pelo fim da leitura de versículo da bíblia no início das sessões da câmara municipal de Antonina.
O pedido foi analisado nas coxas e sumariamente negado. Agora, o Cequinel que apenas exerceu seu direito de cidadão, é diariamente vítima de impropérios caluniosos conta a sua pessoa numa rádio de propriedade da igreja católica!
E a constituição federal como fica nessa?
Artigo 5:
(…)
IV – É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou imagem;
VI – É inviolável a liberdade de consciência e de crença (…)
O Cequinel não tem a quem recorrer e as religiões ganharam mais uma!
Apesar da população brasileira ser majoritariamente católica, existem uma infinidade de outras religiões que compõe todo esse sincretismo religioso do país. É garantido a todos os brasileiros a liberdade de crença (ou a falta dela), porém, não existe nenhuma lei ou artigo na constituição que corrobore a idéia de um estado realmente laico.
Ainda hoje, todas as associações religiosas no Brasil são livres de impostos (renda, IPTU, ISS etc.)  muitas delas ainda recebem subsídios financeiros para suas instituições de ensino e/ou assistência social. O ensino religioso faz parte do currículo de muitas escolas públicas e privilegia as religiões cristãs, principalmente católica e neo-pentecostal, em detrimento de todas as outras. Existe uma discriminação muito forte contra todos os “não crentes”.
Existem também fortes pressões das religiões em todos os legislativos do país e estas pressões dificultam muito a promulgação leis sobre pesquisas científicas, direitos aos homossexuais e tantas outras.
O estado brasileiro ainda tem muitos tratados com o vaticano (a igreja católica), coisas como o laudênio, um resquício medieval sobre a venda de imóveis sujeitos a esse laudênio, onde o estado paga de 2,5% a 5,5% do valor da transação para o vaticano. Muitos terrenos em áreas centrais das cidades mais antigas estão sujeitos a esse imposto ainda hoje.
Em contra partida, as igrejas evangélicas beneficiam-se de outros privilégios, como a facilitação para concessões de emissoras de rádio e TV.
Durante a preparação da visita do papa Bento XVI, em maio de 2007, o Vaticano pressionou o governo brasileiro a assinar um pacto para consolidar os privilégios da Igreja Católica, assim como para estabelecer outros, como o livre acesso às terras indígenas, para ação religiosa. Naquela ocasião, denúncias de entidades laicas e matérias na imprensa, de que um acordo secreto estava sendo elaborado, frustraram a iniciativa, que, aliás, recebeu a rejeição do Presidente da República Lula, que afirmou ser “o Brasil um Estado laico”. No entanto, os entendimentos continuaram, secretamente, e culminaram na assinatura da Concordata, em Roma, em novembro de 2008. O texto encontra-se no Congresso Nacional para ser homologado ou rejeitado. [para saber mais sobre essa Concondata Brasil-Vaticano, clique aqui] (http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/posicionamentos2.html)
Pois é, ao fim e ao cabo, chega-se a conclusão de que o Brasil não é, de maneira nenhuma, um estado verdadeira laico. Estamos nós brasileiros, sujeitos aos caprichos de líderes religiosos e de crenças e crentes muito dispostos a transformar esta nação num estado cada vez mais poli-teocrático (católico pentecostal). Claro que avançamos muito, mas ainda há muito que fazer.
Eu aqui, polaco doido e ateu, “por casualidad,” inevitavelmente tenho que concordar com a citação atribuída a Jesus Cristo:
“A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.
Não dá para usufruir de plenas liberdades individuais em um estado teocrático, para tanto, é imprescindível separar o que é de incumbência do “estado” das incumbências das “religiões,” qualquer religião!
Pensa nisso, mas não durante a missa ou o culto, seu padre ou pastor, se descobrir pode te excomungar!
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Charge online - Bessinha - # 1106

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Nova Regra na Eleição

Cerca de 10 milhões de eleitores brasileiros se preparam para viver, este ano, sua primeira eleição municipal moderna. Até 2008, a grande maioria deles permanecia no passado.
Não moram em pequenas cidades do interior, perdidas em regiões remotas. Ao contrário. São vizinhos e em tudo iguais aos que residem nas metrópoles nacionais.
Na verdade, em alguns casos, suas casas estão em ruas que começam na capital e alcançam os municípios aonde votam. Não há fronteira ou qualquer tipo de separação espacial.
No entanto, quando chegam as eleições locais, é como se viajassem no tempo. Diferentemente do que acontece na época de escolher presidente, governador, senador ou deputado - quando são como os demais brasileiros -, nesse período, retrocedem.
São os cidadãos dos grandes municípios - fora as capitais - que integram as regiões metropolitanas. Muitos são enormes e têm mais população que as capitais de diversos estados.
No total, existem 25 municípios nessa condição com mais de 200 mil eleitores, o que quer dizer que poderão ter um segundo turno na eleição de prefeito. O maior número está na Grande São Paulo, onde são nove.
Outros seis fazem parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A seguir vem a Grande Vitória, com três. As Regiões Metropolitanas de Belo Horizonte e Recife têm dois cada. Os três últimos estão em Goiás, no Pará e no Rio Grande do Sul.
Em nenhum deles existe emissora de TV de sinal aberto. Por isso, nas eleições municipais, não existe campanha dos candidatos a prefeito ou vereador na televisão - nem programas eleitorais, nem inserções.
Nessa época, seus moradores veem as emissões da capital. Sabem, provavelmente, mais a respeito dos que pretendem administrar a capital do que dos candidatos de sua cidade.
Os que aspiram a governá-las – ainda que disputem cargos em municípios com 800 mil eleitores, como Guarulhos, ou 650 mil, como São Gonçalo -, têm que fazer como os candidatos de cidades pequenas: caminhadas, comícios (agora sem atrações musicais), visitas de casa em casa. Desnecessário dizer que alcançam uma parcela mínima do eleitorado.
Tudo porque a sede das emissoras é na capital. Mesmo quando, como no Espírito Santo, ela é menor que duas cidades vizinhas e tem quase o mesmo número de eleitores que a terceira: Vitória possui 251 mil eleitores, menos que Vila Velha - com 285 mil - e Serra - com 266 mil -, e perto de Cariacica - com 239 mil.
Se não houvesse remédio, paciência. Mas há. E nasce no Judiciário.
Está para ser editada uma Instrução do Tribunal Superior Eleitoral que vai fazer com que essas 10 milhões de pessoas vivam suas primeiras eleições municipais com televisão.
(A rigor, as maiores cidades da Região Metropolitana do Rio já passaram pela experiência: na eleição de prefeito de 2008, por decisão do TRE do Rio de Janeiro, houve televisão. O que se debate agora, no entanto, é mais amplo e institucionalizado.)
A solução pensada é simples: se existem, por hipótese, seis emissoras na capital e seis municípios com mais de 200 mil eleitores no seu entorno, a de maior audiência transmite a programação eleitoral do maior, a segunda a do segundo maior colégio e assim por diante. Antes do início do horário, os espectadores são avisados da emissora que transmite o programa de cada cidade.
Para quem não gosta e não costuma ver os programas, tanto faz. Mas, para quem quer se informar a respeito dos candidatos, ótimo. O eleitor do Recife vê o de sua cidade, o de Jaboatão sintoniza o de lá e o de Olinda não é obrigado a assistir ao que não interessa.
Não está claro, até agora, o que vai acontecer com as inserções. A mesma lógica prevalecerá? Como são o instrumento de propaganda eleitoral mais decisivo, a resposta é crucial para a evolução das eleições em algumas cidades.
O certo, no entanto, é que estamos presenciando um avanço, originado no Judiciário.
Ainda bem que o TSE não ficou à espera que o Congresso incluísse a medida na prometida reforma política. O risco de que nunca viesse seria grande.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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Dilma tirar Ideli? Podem tirar o cavalo da chuva

Manhã de domingo com céu azul e muito sol em Toque Toque Pequeno, pacata praia de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Como aqui não chega jornal, meu velho vício, logo que acordo abro o computador e entro em vários sites e portais para ver se encontro alguma novidade. Nada. É o de sempre: o resultado da Fórmula-1, a rodada do futebol, a futricalhada da baixa política em Brasília.
A maioria dos meus colegas ainda trata do assunto que atravessou a semana e certamente permanecerá em destaque até o Natal: as crescentes dificuldades do governo Dilma com a sua indócil base aliada, que reclama mais carinho, cafezinho, verbas, ministérios e cargos em geral, o de sempre.
A bola da vez é a ministra Ideli Salvatti, teoricamente responsável pela coordenação política do governo, mas apenas uma fiel tarefeira da própria presidente. Todos querem a sua cabeça, querem jogar pedras na Ideli, vão se queixar para Lula. Perdem seu tempo.
Quem colocou a ex-senadora catarinense no Ministério da Articulação Política, em maio do ano passado, sem consultar ninguém, foi Dilma. Só quem não conhece a presidente pode imaginar que, menos de um ano depois, ela vai abrir mão da sua fiel colaboradora, que só cumpre ordens.
Todo mundo sabia que era uma iniciativa de alto risco colocar nesta função a companheira Ideli, que não é propriamente uma jeitosa diplomata de punhos de renda, para lidar com a cacicada toda da variada fauna aliada dos PMDB, PR, PDT,  PP e tal da vida, sem falar nas belicosas correntes do próprio PT. Dilma, claro, também sabia.
O problema não é Ideli, mas a ingovernável aliança do presidencialismo de coalizão, que já está com o prazo de validade vencido há tempos, e acabou virando nos últimos meses um presidencialismo de colisão.
Em 27 de outubro do ano passado, quando da troca de Orlando Silva por Aldo Rabelo, ambos do PC do B, no Ministério do Esporte, escrevi aqui mesmo um post sob o título "Dilma precisa inaugurar um novo ciclo político" para acabar com as capitanias hereditárias dos ministérios loteados entre os partidos. Parece que esta semana, finalmente, a ficha caiu.
A alta aprovação popular do governo Dilma certamente não se dá pela qualidade do seu volumoso ministério, nem pelos partidos reunidos na monumental base aliada, mas por sua disposição de mudar este cenário, a sua atitude de não aceitar o prato feito dos velhos caciques e ousar enfrentá-los para criar um novo tipo de relação política com o Congresso Nacional.
É hora de abandonar o velho varejão do toma-lá-dá-cá, a arte de trocar seis por meia duzia, a fulanização das crises, como agora acontece com Ideli Salvatti, e buscar uma aliança mais ampla com a sociedade, enquanto não vem a sempre decantada reforma política, que, como todos sabemos, tão cedo não virá, pela simples e boa razão de que depende dos políticos.
Se Dilma não ceder aos seus desejos, o que farão os valentes líderes dos partidos aliados que ameaçam abandonar o governo? Vão se aliar aos probos Demóstenes Torres e Álvaro Dias nas trincheiras da moribunda oposição?
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O fracasso do Grupo Abril

Na década de 1990, dois grupos empresariais brasileiros despontavam entre os principais grupos de mídia da América Latina. Depois da Globo, o outro grupo brasileiro era a Abril.
Desde então, a Abril Mídia é uma coleção de fechamentos e venda de empresas ou participações acionárias. A Abril fechou a gravadora Abril Music, o site Usina do Som e os canais de TV paga Fiz TV e Idea TV. Vendeu sua participação na HBO Brasil, na DirecTV Latin America, na ESPN Brasil, no Eurochannel, na TVA MMDS, na TVA Cabo e no UOL, dentre outras.
Atualmente, a Abril se resume basicamente à editora e sua gráfica, à DGB (holding de distribuição e logística que é um verdadeiro monopólio nas bancas de jornais), à Elemídia (que instala monitores informativos em hotéis, elevadores, aeroportos etc.) e ao canal de TV paga MTV Brasil, além dos sites de cada um destes veículos. Um grupo de mídia pequeno para o cenário de convergência que vivemos.
Cabe registrar que a MTV Brasil (que licencia a marca da Viacom) vive às voltas com o fantasma dos cortes de gastos e demissão de pessoal. Sua duração no longo prazo é constantemente posta em dúvida.
Para piorar, os Civita venderam 30% da Abril (o limite permitido pela Constituição Federal) aos sul-africanos do Naspers (donos, no Brasil, do site Buscapé). O Naspers, quando se chamava Die Nasionale Pers, foi o órgão de imprensa oficioso do povo africâner e porta-voz do apartheid. Pieter Botha e Frederik de Klerk foram membros do board do Naspers.
Ou seja, a Abril vive hoje do prestígio da revista Veja. Sem ela, os Civita já teriam virado empresários de porte médio do setor de comunicações, irrelevantes para o futuro do setor no Brasil. E, segundo denúncias de Luis Nassif, sabedores dessa situação, os Civita tratam de inflar de todos os modos as vendas da Veja, inclusive com uma ajuda substancial do governo de São Paulo, que adquire milhares de assinaturas.
Cada vez mais fracos, mais temerosos do futuro, a tendência é que elevem o tom de voz na crítica a qualquer regulação das comunicações no Brasil. E se aproveitem da falta de vontade política do governo para enfrentar o tema e blefem com um poder político que, se um dia o tiveram, hoje com certeza já se esvaiu quase todo.
PS.: como não são bobos e sabem que seu horizonte se estreita, os Civita resolveram colocar os ovos em outro cesto e passaram a investir em educação, criando uma outra empresa, sem relações com a Abril Mídia, chamada Abril Educação. Quando a Veja for de vez para as calendas, é de educação privada que eles irão viver.
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E se a TV Brasil doasse horário nobre à Carta Capital?

Na mesma semana em que a Folha de São Paulo repercutiu em suas páginas, em tom de denúncia, um contrato de publicidade por prazo determinado celebrado entre um banco controlado pelo governo federal e um dos blogs políticos mais conhecidos do Brasil, o jornal foi premiado pelo governo de São Paulo com um programa no horário mais nobre da TV brasileira, o das noites de domingo, e bem na emissora pública paulista, a TV Cultura.
Entre as poucas reações que se viu a negócio da natureza do que foi firmado entre a emissora pública paulista e uma empresa de comunicação privada que há anos vem sendo acusada de tomar partido do PSDB paulista e do governo de São Paulo ao praticamente não cobrir a gestão do Estado nos últimos quase vinte anos, sobressaiu a do jornalista e proprietário da revista Carta Capital, Mino Carta, em artigo do qual reproduzo trechos.
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– (…) Sou informado a respeito do nascimento de uma TV Folha. Triunfa nas páginas 2 e 3 da Folha de S.Paulo a certidão do evento, a prometer uma nova opção para as noites de domingo na tevê (…)
– (…) A tevê pública paulista acaba de oferecer espaço não somente à Folha, mas também a Estadão, Valor e Veja. (…) Só o jornal da família Frias aproveitou a oportunidade (…)
– (…) Tucanagens similares já foram cometidas em diversas oportunidades nos últimos anos, uma delas em 2010, o ano eleitoral que viu José Serra candidato à Presidência da República. Ainda governador, antes da desincompatibilização, Serra fechou ricos contratos de assinatura dos jornalões (…) Do volumoso pacote não constava obviamente CartaCapital, assim como somos excluídos do recente convite da Cultura (…)
– (…) Volta e meia, Carta Capital é apontada como revista chapa-branca, simplesmente porque apoiou a candidatura de Lula e Dilma Rousseff à Presidência da República. (…) Há quem se abale até a contar os anúncios governistas nas páginas de Carta Capital, e esqueça de computar aqueles saídos nas demais publicações (…)
– (…) Fomos boicotados durante os dois mandatos de Fernando Henrique e nem sempre contamos com o trato isonômico dos adversários que tomaram seu lugar. (…) E nem por isso arrefecemos no alerta perene do espírito crítico. (…) Quanto ao Partido dos Trabalhadores, jamais fugimos da constatação de que no poder portou-se como os demais. (…)
– (…) No mais, desta vez dirijo minha pergunta aos leitores em lugar dos meus botões: qual é a mídia chapa-branca?
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Então surgem os questionamentos que não estão sendo feitos, ainda que o jornal, como diz Mino Carta, tenha se “abalado” a dar explicações que não lhe foram pedidas até agora por aqueles que deveriam zelar pela preservação do interesse público sobre ativos estatais como é a emissora pública de São Paulo, que, por ser “fundacional” (como bem observa um leitor), está sob fiscalização do Ministério Público Estadual de São Paulo.
Apesar da falta de ímpeto do MPE-SP, a ombudsman do Jornal Folha de São Paulo, neste domingo, oferece explicações. E em tom crítico.
Reproduzo, abaixo, coluna de Suzana Singer de 18 de março de 2012
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Folha ‘descobre’ vida inteligente na TV
18/03/12
Suzana Singer
Jornal precisa segurar o impulso de autopromoção e ser transparente ao tratar do seu programa na Cultura
Sem nenhuma modéstia, a campanha publicitária do “TV Folha”, que invadiu até as sagradas páginas de opinião do jornal, decretou: o telespectador finalmente terá algo para ver nas noites de domingo.
Ainda é cedo para dizer se a promessa foi cumprida ou se cabe procurar o Procon. Uma estreia é pouco até para avaliar um restaurante.
Mas o que já ficou claro é que o “TV Folha” tenta se diferenciar dos outros telejornais: não tem âncora alinhavando as reportagens, os colunistas aparecem “descontraídos”, a edição busca uma linguagem de documentário e o tom é de crítica -sobrou até para o Chico Buarque.
O primeiro programa começou com um assunto velho, a ação policial na cracolândia, que aconteceu há dois meses, mas serviu de recado aos que acreditam que a Folha, ao usar um espaço da TV Cultura, engatou um namoro com o governo do Estado. A tese da reportagem era que a operação, ineficaz no combate ao problema dos viciados em drogas, visava às eleições.
Louvável, a independência editorial não é suficiente para encerrar a discussão sobre a validade dessa parceria, em que uma empresa privada explora espaço de uma emissora pública.
O jornal não explicou direito as bases desse acordo. Trata-se de uma permuta: em troca dos 30 minutos na televisão, a Folha cede páginas de anúncios para a Cultura. As despesas do “TV Folha” são do jornal, mas são compensadas pela receita publicitária. “A TV Cultura tem como ganhos um programa jornalístico de qualidade a custo zero, além de espaço de divulgação na Folha”, diz a assessoria de imprensa da emissora.
Não houve concorrência, mas a Folha não foi a única convidada. “Não cabe licitação, porque todos os grandes jornais de São Paulo foram chamados em condições de igualdade”, diz a Cultura. Segundo a emissora, o programa do “Estado de S. Paulo” deve estrear no segundo semestre, o “Valor” ainda não apresentou uma proposta e a revista “Veja” desistiu.
A Secretaria de Redação diz que considera válida a terceirização de espaço em emissora pública, desde que seja um recurso para “melhorar e diversificar a programação”.
A audiência da estreia mostrou que “melhorar” a televisão não é fácil. Mesmo com tanta propaganda, o programa obteve 1 ponto no Ibope, um aumento de 0,3 em relação ao da semana anterior (cada ponto equivale a 60 mil domicílios na Grande São Paulo).
O modesto crescimento e a “boa receptividade do público” foram alardeados numa série de pseudorreportagens autopromocionais, que chamavam de “pesquisas Datafolha” sondagens feitas com um número pífio de participantes. Só um texto crítico foi publicado, sob a vinheta “não gostei”, na “Ilustrada”.
“Está exagerado, querem nos convencer de que o programa foi um sucesso. Mas isso tem que ser feito com conteúdo, não com essa espécie de merchandising”, reclamou o leitor Robinson Alves, 28, curador.
O jornal, que noticia com destaque cada perda de audiência da Rede Globo, será submetido agora a um teste de transparência. Para mostrar respeito pela inteligência do leitor, como prometeu na campanha publicitária do “TV Folha”, precisará ser duro com a sua nova criação, que já nasceu petulante, desdenhando a concorrência.
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Assisti ao programa e ao fim do post ofereço ao leitor a sua íntegra em vídeo (em três partes). Minha opinião: foi bem feito, isento, como deveria ser. Estaria tudo bem, caso fosse prática da própria Folha e da grande imprensa em geral tratar com olhos de ver, e sem ilações maldosas, uma parceria entre o poder público e o jornalismo privado? Nesse caso, penso que não.
Busque-se na Folha o que diz sobre a TV Brasil, as suposições acusatórias que esse jornal e os outros veículos contemplados pela extrema generosidade do governo paulista sempre fizeram em relação à emissora pública do governo federal – inclusive quanto à audiência, como diz a ombudsman ao lembrar a audiência pífia que teve o primeiro TV Folha – e, por fim, verifique-se se a TV Brasil, alguma vez, foi menos crítica com o governo federal ou se foi mais crítica do que deveria com os governos controlados pela oposição. Garanto que não se encontrará uma só diferença.
Pelo contrário: a TV Brasil é criticada com freqüência, por setores da militância petista, por não ser usada no jogo político em prol do governo federal.
É por isso que sempre digo que acho corretíssimo que emissoras públicas não sirvam, de maneira alguma, de instrumentos políticos, pois hoje quem controla um desses veículos é o partido que você apóia, mas, amanhã, pode ser controlada por aquele ao qual você se opõe, sendo, portanto, a medida ideal aquela em que uma emissora pública, nesse âmbito, seja usada para fazer apenas jornalismo. E não qualquer jornalismo, mas um jornalismo exemplar.
Prova disso foi a disposição da TV Brasil, recentemente, de pedir desculpas públicas por matéria sobre a invasão do bairro Pinheirinho que repercutira informações veiculadas primeiro pelo UOL, do Grupo Folha, de que havia denúncias de mortos naquela operação policial, informação que ainda não foi confirmada.
Detalhe: a TV Brasil fez isso mesmo após o presidente da EBC, Nelson Breve, ter sido alvo da fúria de um blogueiro da Veja ligado ao PSDB, que partiu para cima dele acusando-o de atuar em prol do governo a que serve.
É óbvio, portanto, que a Folha não faria diferente logo no programa de estréia. Tal seria se o primeiro uso do presentaço que ganhou do governo de São Paulo fosse para agraciá-lo ou até para não lhe fazer alguma crítica. A isenção do primeiro TV Folha foi uma espécie de “vacina” contra questionamentos que sobreviriam.
E assim foi por uma razão muito simples, da qual o texto da ombudsman dá pistas: a concessão do horário nobilíssimo para a Folha foi um péssimo negócio para a TV Cultura. Segundo Suzana Singer, o presentão decorreu de “Uma permuta: em troca dos 30 minutos na televisão, a Folha cede páginas de anúncios para a Cultura”.
Que negócio da China, hein! Dá a entender que o jornalão, que tem (bem) menos de 300 mil assinantes (incluídos, aí, aqueles que recebem o jornal em casa sem pedir e de graça), fará publicidade para um tipo de meio de comunicação que certamente tem muito mais de 300 mil domicílios de audiência.
Ou alguém acha que uma TV como a Cultura, que tem décadas de visibilidade, precisa que um jornal diga que ela existe? Existirá um só paulista que não conhece a TV Cultura? Quanto custa tanto tempo de publicidade no horário mais nobre da TV Brasileira e quanto custarão os anúncios “gratuitos” da emissora no jornal?
Aliás, a programação da emissora já consta de cada edição da Folha, que é muito bem paga por isso pelo governo de São Paulo, que também lhe compra milhares e milhares de exemplares do jornal impresso.
Esse horário extenso que a TV Cultura concedeu a jornais e a uma revista que dificilmente fazem críticas ao governo que controla essa emissora pública enquanto se dedicam a fuzilar os adversários desse mesmo governo custa muito mais do que anúncios em papel-jornal, mas quem deveria notar isso não deu um pio.
Se a contratação pela TV Brasil de um jornalista renomado – e ex-membro do conselho editorial da Folha – como Luis Nassif foi alvo de fuzilaria da Folha, apesar de os valores envolvidos na contratação serem muito mais explicáveis do que a doação do mais nobre horário da televisão brasileira ao jornal, que diria esse jornal se a emissora do governo federal fizesse semelhante acordo com a Carta Capital e, ainda, sem a mesma licitação que ele criticou por não ter existido na contratação daquele jornalista?
* * *
Assista, abaixo, ao primeiro programa da “TV Folha”, que será acompanhado muito de perto por este blog, até porque talvez o Ministério Público de São Paulo venha a ter que ser informado daquilo pelo que não nutre a curiosidade exigível.
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A TV Cultura não é pública. Ela é tucana

Escolha certa. A Folha celebra a traição de uma função democrática
Uma tevê pública é uma tevê pública, é uma tevê pública e é uma tevê pública, diria a senhora Stein. Pública. Um bem de todos, sustentado pelo dinheiro dos contribuintes. Uma instituição permanente, acima das contingências políticas, dos interesses de grupos, facções, partidos. A Cultura de São Paulo já cumpriu honrosamente a tarefa. Nas atuais mãos tucanas descumpre-a com rara desfaçatez.
A perfeita afinação entre a mídia nativa e o tucanato está à vista, escancarada, a ponto de sugerir uma conexão ideológica entre nossos peculiares social-democratas e os barões midiáticos e seus sabujos. A sugestão justifica-se, mas, a seu modo, é generosa demais. Indicaria a existência de ideias e ideais curtidos em uníssono, ao sabor de escolhas de vida orientadas no sentido do bem-comum. De fato, estamos é assistindo ao natural conluio entre herdeiros da casa-grande. - Nada de muito elaborado, entenda-se. Trata-se apenas de agir com a soberana prepotência do dono da terra e da senzala.
E no domingo 11 sou informado a respeito do nascimento de uma TV Folha. Triunfa nas páginas 2 e 3 da Folha de S.Paulo a certidão do evento, a prometer uma nova opção para as noites de domingo na tevê, com a jactanciosa certeza de que no momento não há opções. E qual seria o canal do novo programa? Ora, ora, o da Cultura. Ocorre que a tevê pública paulista acaba de oferecer espaço não somente à Folha, mas também a Estadão, Valor e Veja. Por enquanto, que eu saiba, só o jornal da família Frias aproveitou a oportunidade, com pífios resultados, aliás, em termos de audiência na noite de estreia.
Até o mundo mineral está em condições de perceber o alcance da jogada. Trata-se de agradar aos mais conspícuos barões da mídia, lance valioso às vésperas das eleições municipais no estado e no País. E com senhorial arrogância, decide-se enterrar de vez o sentido da missão de uma tevê pública. Tucanagens similares já foram cometidas em diversas oportunidades nos últimos anos, uma delas em 2010, o ano eleitoral que viu José Serra candidato à Presidência da República. Ainda governador, antes da desincompatibilização, Serra fechou ricos contratos de assinatura dos jornalões destinados a iluminar o professorado paulista.
Do volumoso pacote não constava obviamente CartaCapital, assim como somos excluídos do recente convite da Cultura. O que nos honra sobremaneira. Diga-se que, caso convidados (permito-me a hipótese absurda), recusaríamos para não participar de uma ação antidemocrática ao comprometer o perfil de uma tevê pública, amparada na indispensável contribuição de todos os cidadãos, independentemente dos seus credos políticos ou da ausência deles.
Volta e meia, CartaCapital é apontada como revista chapa-branca, simplesmente porque apoiou a candidatura de Lula e Dilma Rousseff à Presidência da República. Em democracias bem melhor definidas do que a nossa, este de apoiar candidatos é direito da mídia e valioso serviço para o público. Aqui, engole-se, sem o mais pálido arrepio de indignação, a hipocrisia de quem se pretende isento enquanto exprime as vontades da casa-grande. Há quem se abale até a contar os anúncios governistas nas páginas de CartaCapital, e esqueça de computar aqueles saídos nas demais publicações, para provar que estamos aos préstimos do poder petista.
Fomos boicotados durante os dois mandatos de Fernando Henrique e nem sempre contamos com o trato isonômico dos adversários que tomaram seu lugar. Fizemos honestas e nítidas escolhas na hora eleitoral e nem por isso arrefecemos no alerta perene do espírito crítico. Vimos em Lula o primeiro presidente pós-ditadura empenhado no combate ao desequilíbrio social, embora opinássemos que ficou amiúde aquém das chances à sua disposição. E fomos críticos em inúmeras situações.
Exemplos: juros altos, transgênicos, excesso de poder de Palocci e Zé Dirceu, Caso Battisti, dúbio comportamento diante de prepotências fardadas. E nem se fale do comportamento do executivo diante da Operação Satiagraha. Etc. etc. Quanto ao Partido dos Trabalhadores, jamais fugimos da constatação de que no poder portou-se como os demais.
Hoje confiamos em Dilma Rousseff, de quem prevemos um desempenho digno e eficaz. O risco que ela corre, volto a repetir na esteira de agudas observações de Marcos Coimbra, está no fruto herdado de uma decisão apressada e populista, a da Copa de 2014. Se o Brasil não se mostrar preparado para a empreitada, Dilma sofrerá as consequências do descrédito global.
No mais, desta vez dirijo minha pergunta aos leitores em lugar dos meus botões: qual é a mídia chapa-branca?
Mino Carta
No CartaCapital
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Ratos charmosos

Minha neta entrou correndo no escritório e pulou no meu colo. Contou que vira dois ratos no quintal, um rato malvado e um rato charmoso.
— E você está fugindo do rato malvado? — perguntei.
— Não — disse ela. — Estou fugindo do rato charmoso.
Não sei bem onde ela aprendeu “charmoso”, mas achei a sua lógica irretocável. Lição inconsciente de vida: um rato charmoso é mais perigoso do que um rato malvado. Um rato malvado é um rato malvado, sem fingimento. Um rato charmoso é um dissimulado. Esconde a sua condição de rato. Pode convencer menininhas a mimá-los como coelhinhos, antes de mostrar sua malvadeza. Você sabe o que esperar de um rato malvado. Você não sabe o que há por trás da falsa fachada de um rato charmoso.
Assim é na vida, muito particularmente na vida brasileira. Temos bandidos sem qualquer encanto que os redima, e temos bandidos que usam seu charme para fazer carreira, progredir, se eleger, ganhar respeito e cargos oficiais e às vezes até monumentos e, finalmente, imunidade vitalícia. Todo o mundo sabe que são ratos, mas o disfarce os salva.
Há casos, é verdade, em que os ratos charmosos são pegos como reles ratos malvados, nos raros casos em que a ratoeira funciona da mesma maneira para uns e para os outros. Mas os ratos charmosos sempre conseguem se safar. Voltam à vida pública, são reaceitos no Congresso, mantêm o cargo na confederação, etc. Os ratos malvados têm julgamentos sumários, os ratos charmosos podem contar com processos longos e inconclusivos.
Os dois vistos no quintal eram imaginários, mas espero que minha neta e sua geração saibam diferenciar os ratos, na realidade. Talvez quando ela crescer já tenham inventado algum modo de imunização para diminuir os efeitos do charme na vida nacional.
Uma espécie de dedetização moral. Sei lá.
Luís Fernando Veríssimo
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