13 de mar de 2012

O confisco italiano e a nossa soberania

Uma empresa de consultoria, a Italplan, situada em pequena cidade das proximidades de Arezzo, na Itália, com um capital de apenas 12 milhões de euros, conseguiu bloquear os depósitos do governo brasileiro, nas filiais do Banco do Brasil em Roma e em Milão. A sentença, inusitada nas relações internacionais, é de um juiz de primeira instância, e sem valor jurídico – segundo os especialistas. Apesar disso, autoridades italianas lhe deram razão e atacam o governo brasileiro. Se quiséssemos responder com a mesma insolência, seria o caso de congelar os ativos do governo italiano no Brasil, até resolver a questão. Mas, como é mais elegante, escolhemos outro caminho.
O México, tan lejos de Dios e tan cerca de Estados Unidos, insurge-se contra o nosso país, porque decidimos, em defesa de nossos interesses nacionais, rediscutir o acordo automotivo entre as duas nações. Em Madri – sempre em Madri – uma senhora de 77 anos foi ofendida e humilhada no Aeroporto de Barajas, onde passou três dias submetida aos mais duros constrangimentos. Devemos nos preparar para mais problemas dessa natureza, porque começamos a ter forte presença internacional.
Sempre foi de nossa índole tratar muito bem os estrangeiros. No entanto, como dizia Benjamin Franklin, no alto de sua versátil sabedoria, é preciso saudar com respeito o vizinho, mas manter o portão trancado. Infelizmente – e é triste constatar isso – há brasileiros que têm o “complexo de vira-lata”, conforme a observação ferina de Nelson Rodrigues. E, ao contrário do que se pensa, o sentimento de inferioridade é muito mais intenso – e mais grave – entre as pessoas da classe média e alta do que entre os brasileiros mais pobres.
Com todo o respeito pelos vira-latas que lutam pela sua sobrevivência nas ruas, a atitude dos brilhantes acadêmicos da PUC do Rio, e da USP de São Paulo, diante da Europa e dos Estados Unidos, não foi exatamente a de águias ou de leões – quando no governo do paulista Fernando Henrique Cardoso. Recorde-se que o chefe de Estado saudou a criminosa globalização do neoliberalismo como um novo Renascimento, e aplicou-se em implantá-lo. As conseqüências estão castigando hoje, também, os próprios países centrais.
Há, no entanto, razões para que nos sintamos realmente humilhados. Os escândalos que se sucedem, sobretudo os relacionados com a privatização dos ativos nacionais, não contribuem para a nossa auto-estima. Agora, temos os relacionados com o Ministério dos Transportes, a Agência Nacional de Transportes Terrestres e a VALEC, que são motivo de mal-estar entre os brasileiros de bem, ou, seja, a quase totalidade de nosso povo. Somos quase duzentos milhões de brasileiros honrados, que estudam e trabalham, amam o país, pagam seus impostos, mas exercem mal a sua cidadania, não examinando bem a vida daqueles que elegem.
O caso da Italplan é nisso emblemático. Há um estudo sério, feito pelo consultor legislativo da Câmara dos Deputados, Eduardo Fernandez Silva, que deve ser lido com atenção pelo Governo e pela Base Aliada. O acesso ao documento pode ser feito por www.bd.camara.gov.br?/bd/bitstream/handle/bdcamara/1283/trem_bala_fernandez.pdf?sequence+1
A primeira dúvida do analista é se haveria demanda que justificasse o trem de alta velocidade. O estudo da Italplan, de acordo com o consultor, é “furado”, sem nenhum apoio técnico. O documento previu que, em 2011 – quando o trem-bala deveria estar operando – o tráfego, pela linha, nos dois sentidos, seria de 32 milhões de passageiros/ano no percurso entre as duas cidades. Outras estimativas previam menos de 8 milhões.
Para se ter uma idéia da ficção do projeto italiano, o registro de entrada e de saída da cidade de São Paulo, de todas as procedências e para todos os destinos, e por todos os meios de transporte, é hoje de cerca de 20 milhões de passageiros por ano.
Por outro lado, o projeto chega a mencionar “passagens de nível” no percurso, o que é absolutamente inconcebível em um trem com essa velocidade. Os trens semelhantes trafegam dentro de muros altos, ou em túneis, uma vez que o choque com um pequeno animal, na velocidade em que se deslocam, pode causar acidentes catastróficos.
A Italplan, fundada no ano 2000, afirmou, na ocasião em que apresentou seu “projeto”, que adquirira experiência quando participara do projeto do trem de alta velocidade Roma-Florença. Ora, a linha Direttissima foi projetada em 1970, e concluída em 1992 – 22 anos depois de iniciada e oito anos antes que a firma de Arezzo se instalasse. No seu site na Internet, no entanto, registrava como sua experiência a realização de “uma linha férrea de alta velocidade entre o Rio e São Paulo e a requalificação da Estação do Rio de Janeiro”, ou seja, refere-se ao pré-projeto que apresentara ao Ministério dos Transportes como tendo sido aprovado pelo governo, e ao trem bala como se estivesse em operação.
O Ministério dos Transportes e a Valec não poderiam ter-se comprometido com a Italplan sem antes averiguar a sua competência técnica para elaborar um projeto dessa natureza, mesmo porque a empresa, em seu portfólio da época, só apresentava projetos de esgotos e reciclagem de lixo para a Argentina e para a China, e como experiência ferroviária exatamente o que pretendia ser o seu projeto brasileiro.
Do que houve, podemos tirar algumas lições. A primeira delas é a de que as escolhas políticas podem atribuir o poder de decisão a personalidades sem competência técnica, nem bom-senso administrativo – isso sem falar nas suspeitas de corrupção. E há um assunto que deve ser tratado com urgência: a da remuneração da eficiência. Os vencimentos e salários dos administradores públicos no Brasil, responsáveis por projetos de bilhões de reais, são irrisórios. Qualquer empresa privada compete, nisso, com todas as vantagens, com o Estado. O Estado deve remunerar seus altos executivos conforme as leis do mercado.
Constatamos também que sábio foi Juscelino quando, a fim de realizar a sua meta de avançar 50 anos em 5, criou sistema paralelo de ação executiva , independente da burocracia tradicional, com seus grupos de trabalho, constituídos de personalidades com reconhecida notoriedade nos assuntos a eles confiados.
A fim de consolidar o avanço destes últimos anos, temos que examinar, sem hipocrisia e com a consciência de que não podemos perder o impulso, problemas como os da remuneração da eficiência. O Estado não pode ter os piores executivos, em nome de uma equivocada economia. Muitíssimo mais perdemos, ao nomear executivos que recebem pouco – e se remuneram muito, mediante os recursos conhecidos.
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Vida e morte do blogueiro Mosquito

Conheço o Renan há exatos 20 anos. Ele foi meu primeiro chefe de reportagem em TV. Eu acabava de chegar à Cultura, em São Paulo, cheio de gás, mas sem experiência. Renan era ótimo chefe, mas (ou por isso mesmo?) gostava de aterrorizar os novatos: despachava as equipes pra rua, aos gritos. Antes, municiava-nos com parcas orientações e uma providencial cartela de fichas telefônicas. Na época, era assim que se dava “retorno” pra Redação: encontrava-se um orelhão pra discar e avisar a chefia sobre o andamento da reportagem. Renan atendia as ligações não com um “alô”, mas com um inconfundível “Meu nome é Renan”. Quando a gente se identificava do outro lado, ele devolvia: “intui que eras tu, guri”. Renan rodou o mundo, trabalhou para grandes  jornais, voltou à pátria gaúcha, ganhou prêmios e provocou polêmica. 
O Mosquito eu conheci bem depois, no Primeiro Encontro de Blogueiros, em 2010. O catarinense veio pra São Paulo com fama de briguento. E aprontou mesmo um sururu: discutiu com outros blogueiros, acusou alguns de “chapa-branca”, depois saiu rindo e tentando vender as camisetas do blog “Tijoladas”. Comprei uma, que está aqui na gaveta de casa. Mosquito provocou polêmica sem rodar o mundo. Sentado na mesa de um bar, escrevia o blog que aterrorizava poderosos  catarinenses. Não ganhou prêmio. Encheu-se de dívidas. Mas teve momentos de glória.
O Renan e o Mosquito se encontram agora. O primeiro, no papel de vivíssimo repórter. Mosquito, infelizmente, morto. Mas revive no belo - e triste – perfil traçado por Renan Antunes de Oliveira. (Rodrigo Vianna
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A porta já estava aberta quando o padre Elizandro procurou pelo blogueiro Mosquito na rua dos Maracanãs. Ele entrou e deu de cara com o corpo pendurado na escada, enforcado num lençol. A cena parecia de suicídio.
Eram quase cinco da tarde da terça 13 de dezembro. Em minutos a notícia da morte do destemido e temido jornalista catarinense de 52 anos caiu na blogosfera. Tornou-se trending topic no Twitter antes das 10 da noite. A suspeita de assassinato bombou na internet.
A morte dele encerrou a era do “terror midiático” imposta pelo blog ‘Tijoladas do Mosquito’ à política catarinense desde 2008.
As tijoladas eram críticas irreverentes e desbocadas disparadas contra tudo e todos por qualquer motivo e até sem motivo – Mosquito gostava de se apresentar como sendo “o primeiro terrorista midiático” da internet.
Nesta semana, 87 dias depois da morte de Amilton Alexandre, apelidado Mosquito, o Instituto de Perícias de SC confirmou a tese inicial de suicídio. Amigos e familiares acreditam que ele se matou por temer a prisão depois da segunda condenação por difamação.
O Tijoladas conduzia uma feroz campanha moralista contra autoridades, políticos e empresários. Muitas das denúncias eram frias, mas os textos tinham irreverência, humor e bastante palavrões. Ofendeu gaúchos, negros, judeus – e até os vizinhos da rua dos Maracanãs, no condomínio onde foi encontrado morto, o Pedra Branca, na pacata Palhoça, Grande Floripa.
Seus maiores alvos foram a hoje ministra das Relações Institucionais Ideli Salvatti, o ex-governador Leonel Pavan, o prefeito de Floripa Dário Berger e Fernando Marcondes de Mattos, dono do resort Costão do Santinho. Na política nacional deu uns pitacos, agredindo a presidente Dilma com baixarias impublicáveis – Brasília fez vista grossa.
“Ele acertava na dimensão universal de seus ataques contra poderosos, privilegiados e sacanas”, diz o sociólogo Remy Fontana, professor da UFSC, amigo dele por 33 anos. “Mas, algumas vezes foi inconsequente e injusto, expondo reputações à execração pública “.
O blog tinha como lema “jamais se calar”. A operação toda era apenas Mosquito, um netbook Asus e um modem da Claro. Não tinha anunciantes. Ele postava de uma mesa do bar Kibelândia, a central de fofocas da Ilha, onde garimpava notícias entre bebuns e barnabés fora do expediente.
Pela distribuição das tijoladas Mosquito enfrentou 22 processos e a invasão de hackers. O delegado Hudson Queiroz lhe deu uns sopapos e ameaçou matá-lo. Os demais preferiram processos por calúnia, com pedidos de indenização em dinheiro.
MANEZINHO
Amilton Alexandre era nativo, descendente dos colonizadores açorianos. O pai, seu Amadeu, tinha índole mansa. Criou quatro filhos consertando refrigeradores. Mosquito, agitado desde pequeno, foi o primeiro dos Alexandre com diploma universitário. Fez Administração na UFSC.
Em 1979, no episódio conhecido por “Novembrada”,  virou herói dos manezinhos: imagens dele liderando a passeata de estudantes de Floripa contra a ditadura militar apareceram no Jornal Nacional.
Ele e mais seis foram presos pela Polícia Federal. Dez dias de cana, um ano de processo na Auditoria Militar de Curitiba e a apoteótica absolvição dos sete estudantes catarinenses o transformaram numa celebridade local.
No episódio, o papel dele foi de mero agitador, sob ordens dos comunistas do Partidão.  Um dirigente queria sua participação reexaminada por psicólogos. Alguns companheiros o acusaram de ter colaborado com a polícia, mas o ex-senador Nelson Wedekin, advogado no histórico processo, garante que não.
A redemocratização tirou um pouco do brilho popular dele. Magrinho e elétrico na juventude, daí o “Mosquito” , virou obeso na vida adulta. Conseguiu seu primeiro emprego público na prefeitura do PMDB, gestão Edson Andrino. Cuidava de um projeto de cinema na periferia, com expediente nos findis – fosse outro, na certa seria chamado de funcionário fantasma pelo blog Tijoladas.
FAVORECIDO
Em 1987 Mosquito obteve do então senador Jaison Barreto (do Partidão, no PMDB) uma ajudinha pra comprar uma casa de três andares no Centro Histórico.
A bancada do PMDB-SC em Brasília intermediou o pedido à Caixa de financiamento habitacional fora das regras para o herói da luta contra a ditadura. Foi maracutaia. Fosse outro o beneficiado e teria levado uma tijolada daquelas.
Com o dinheiro Mosquito montou o bar Havana – point dos anos 80 e 90 com pouca política, boa música, excelentes feijoadas e carnavais memoráveis. Lá, rompeu com os amigos do PMDB.
O diploma de administrador não lhe serviu para muita coisa. Todos os negócios em que se meteu fracassaram. Transformou a casa da Caixa num sebo de livros. Depois restaurante, loja de informática, mais tarde em loja temática do time do Avaí – no fim, era só um cafofo para as namoradas.
Bolava promoções avançadas demais para Floripa, como vender computadores na feira livre. Fazia bicos. Durante eleições usava as suas capacidades de agitador profissional – chegava nas cidades do interior antes dos candidatos, armava o palanque e esquentava o eleitorado.
Ele era um solteirão convicto. Seu relacionamento mais duradouro foi com Elaine, 17 anos mais nova. Em 2000, tiveram Júlia. Ele sumiu por seis meses, até reaparecer e se dizer pronto para uma família.
Não estava. Sumiu de novo. Foi e voltou por 11 anos. Elaine disse que era louca por ele, mas que não poderia esperar tanto tempo. Meses antes de morrer, Mosquito pedia para juntarem os trapinhos outra vez. Aí ela não quis mais: “Não era homem para família, gostava de viver isolado”.
Ela conta que os dois se mantiveram bons amigos a vida toda. “Mosquito era generoso, quando tinha, tudo era de todos”. Não pagava a pensão de Júlia, mas a mãe não cobrava “porque ele mal podia se sustentar”. Os três almoçavam juntos quase todos os domingos na casa de Palhoça.
NEOPETISTA
Quando começou a Era Lula, Mosquito se filiou ao PT. O Havana já não existia mais. Vapt vupt e ele passou seis meses no Nordeste. Tinha avisado aos amigos que trabalharia num dos novos governos petistas – mas voltou de lá duro, desempregado e mais gordo, quase 130 quilos para 1m78.
Começou então a cavar embaixo dos pés: durante o caso do Mensalão foi num debate com José Dirceu na Assembleia Legislativa/SC e botou a boca nele. O PT viu no neopetista o mesmo Mosquito errático dos tempos do PMDB.
Endividado, vendeu a casa da Caixa. No Kibelândia, adotado como segundo lar, anunciou planos grandiosos com a grana. Iria abrir um jornal em Palhoça. Primeiro passo: comprou na cidade a casa onde morreria.
Ele disse que o plano furou porque os vizinhos do condomínio seriam uns “burgueses egoístas” – isto por não apoiarem seu natimorto jornal.
Logo o dinheiro acabou. De volta ao ócio no Kibelândia, pediu emprego ao PT, então já coligado com o PMDB. Ganhou um, para fiscalizar o programa Luz Para Todos, numa empresa terceirizada pela estatal Eletrosul – se fosse um adversário o beneficiado com o emprego teria sido chamado de aproveitador pelo blog.
Ali ele deu uma tijolada no próprio pé. Denunciou maracutaia na Eletrosul. Como ainda não tinha o blog, enviou para jornais um dossiê com fotos de propriedades rurais de dirigentes do PMDB que supostamente estariam se beneficiando de ligações de energia ilegais. Batendo no aliado, mordeu a mão dos petistas que o nomearam.
Ele foi demitido da Eletrosul. Estava convencido que sua cabeça foi pedida pela então senadora Ideli Salvatti. Recorreu à Justiça do Trabalho para reintegração, dizendo-se perseguido político “por ter feito a coisa certa”.
O juiz trabalhista mandou as denúncias de corrupção para o Ministério Público apurar, mas deram em nada. Mosquito levou só uma indenização de R$ 30 mil. Ele achou pouco e por isto brigou feio com a advogada, fechando uma era: Rosângela “Lelê” de Souza era amiga da primeira hora, uma dos sete da Novembrada.
Fora da Eletrosul e da política, recolheu-se de vez ao Kibelândia. Foi ali, no final de 2008, que ele criou seu Tijoladas. Se achou. E se fechou: “Vinha visitar a mãe e não saia da droga do notebook”, diz o irmão Ênio, eletricista. “Não via mais nada, só aquele blog”.
IRREVERENTE
Mosquito adorava o papel de jornalista blogueiro que criara para si mesmo. De sorriso aberto, gestos largos e em voz alta, dominava os ambientes recontando as tijoladas que dava e as que daria nos ‘inimigos’ – seu discurso público era do tipo “quem não está comigo está contra mim”.
Uma das primeira tijoladas foi sucesso de audiência no blog e reproduzida pela mídia tradicional. Mosquito postou o vídeo da desembargadora Rejane Anderson, do TJSC, gravado por um policial de trânsito. Ela aparecia dando carteiraço para evitar que o carro do filho fosse apreendido.
Os advogados dele acreditam que ali ele fez inimigos poderosos no Judiciário: “As ações contra Mosquito tramitavam mais rápido do que as outras”, garante Edson Silva Jardim, que vê no cliente um herói.
Mosquito bateu tanto em Ideli Salvatti que ela conseguiu uma ordem judicial para impedir que ele citasse seu nome. A mesma decisão ordenou ao Google que suprimisse tudo dele.
Aí ele foi para cima do vereador Marcos Souza, aliado de Ideli. Negro, brindado com o clássico “não faz na entrada faz na saída”. E disparou a tijolada mentirosa de que Souza empregava filha e genro em seu gabinete na Câmara de Floripa.
“Eu o conhecia desde os oito anos e por isso nunca lhe respondi.  Ele era um provocador, desbocado e racista. Para crescer, precisava de alguém para bater”, disse o vereador. Souza ganhou na Justiça e Mosquito fez acordo para um pedido público de desculpas – mas morreu antes de se retratar.
Ele também bateu pesado no ex-governador Leonal Pavan. Denunciado pelo MP às vésperas de tentar reeleição em 2010, desistiu da candidatura. No dia em que Mosquito morreu, Pavan obteve uma vitória tardia: a Justiça rejeitou as denúncias.
Quem ele pegou para Cristo foi o empresário Fernando Marcondes de Mattos, do Costão do Santinho. Mattos foi preso pela PF na Operação Moeda Verde, acusado de subornar vereadores e órgãos ambientais para favorecer seu hotel.
Mosquito só chamava o empresário de “meliante”. Processado, pegou dois anos de cadeia por difamação – pena substituída por serviços comunitários.
A juíza admitiu que Mattos poderia ser condenado. Mas isto não daria a ninguém “o direito de se arvorar em salvador da pátria”. Ela sentenciou: “O blogueiro confunde liberdade de expressão com ofender a honra alheia”.
PERSEGUIDO
Mosquito fez a mesma coisa com o prefeito de Florianópolis Dário Berger. Cheio de processos, mas sem nunca ter sido condenado, Berger se considerava ficha limpa. Os dois se enfrentaram na Justiça.
Audiência, 18 dias antes da morte: juíza, promotor e advogado  viram o blogueiro no banco dos réus quase prostrado. Respirava com dificuldades depois de sobreviver a quatro enfartes. Estava pressionado pela condenação anterior, financeiramente quebrado, com o blog esfacelado por hackers.
O queixoso viu ali uma oportunidade de ouro para dobrar seu algoz. Aí lhe perguntaram candidamente se ele confirmava as afirmações contidas no blog de que o senhor prefeito era corrupto. O velho Mosquito voltou lá do fundo como um vulcão. Apontou o dedo para o rosto de Dário Berger, manteve o escrito e ainda berrou: “Corrupto”!
Bafafá na sala de audiências. Mosquito foi preso na hora. Pagou fiança e saiu gritando da audiência, dizendo-se vítima de um complô legal. Seria  “retaliação pelo que publico” – seus advogados ajudaram na piração descrevendo a cena como prova de que o Judiciário era contra ele.
O ponto alto da carreira de Mosquito foi uma baixaria e uma maldade. Ele jogou no blog todos os detalhes sórdidos de um estupro cometido por dois adolescentes de Floripa – naquele dia obteve 75 mil acessos e se tornou ícone do jornalismo blogueiro independente.
O Tijoladas escancarou o nome dos estupradores, entre eles o filho de um dos donos da RBS, e o da vítima, afrontado a lei que protege menores.
No episódio da RBS Mosquito ganhou o apoio do programa Domingo Espetacular da Rede Record. O jornalista Paulo Henrique ficou alguns dias no Kibelândia para repercutir as denúncias dele contra a afiliada da Globo. Elogiava seu entrevistado como “um Quixote” – Mosquito se sentia supervalorizado e ia mais fundo na briga dos cachorros grandes.
SONHADOR
Em algum momento Mosquito acreditou que seria convidado para ser diretor da Rede Record no Espírito Santo. Estaria na etapa de discutir salários e a contratação de duas secretárias, tudo testemunhado por dona Cristina, garçonete do Kibe. Até que ele confidenciou ao compadre João Vianney ter demorado demais para acertar. Lamentou-se: “Perdi a chance”.
Em 2010 ele entrou noutra briga sonhando grande. Estudantes x polícia, no protesto contra o aumento de passagens de ônibus. Mosquito correu para o terminal e quis assumir a liderança do movimento.
Seria uma novembrada em maio. Os estudantes não entenderam nada. Então enxotaram do caixote aquele velhinho agitador, barbudo, gordo e careca – muitos nem sabiam quem era. Ele se achava vereador sem mandato, já sondava o PSOL para concorrer este ano.
Para se sustentar Mosquito passou a vender camisetas do Tijoladas. Ficava furioso quando os amigos não compravam. Achava que era obrigação deles manter a “mídia alternativa democrática” e ajudá-lo na luta contra a “corrup-i-ção”, como dizia com seu sotaque ilhéu.
“Menos”, diz o ex-presidente da Fenaj Sérgio Murillo de Andrade, amigo dele por 30 anos. “Mosquito não era jornalista, foi só um agitador”.
Ele passou então a viver de achaques. Aos amigos pedia que lhe pagassem   contas de luz, telefone, o rango no bar. Às vezes, não tinha nem o dinheiro da passagem para Palhoça – mas, teimoso, recusava-se a vender a casa.
Queixou-se uma vez que “o blog fez sucesso, ficou famoso, e eu ia levando, sem lastro econômico, minhas roupas acabando”.
Um certo Jairo Viana postou na internet o extrato da dependência dele em 2011: “…pude dar a ele uma cordinha de varal, grampos pra varal, comprei uma camiseta e paguei uma diária de hotel quando ele esteve em Criciúma. Dias depois depositei uns créditos no telefone dele”.  E Viana ainda ficou feliz de ter ajudado aquele “maluco beleza que queria reformar o mundo”.
ATOLADO
Aqui vão trechos da última correspondência de Mosquito com um amigo, onde admitiu que “a ficha demorou a cair… outro dia fui ver e tinha passado meses com 500 pila (reais)”. Logo ele descobriu o que todo mundo sabe: “Não dava para viver apenas pagando água, luz e comida”.
No fim: “Sou um cara que atolou o pé na lama e não sabe como sair”. A turma de fofoqueiros que o conhecia do bar espalhou que o atolado estava sendo sustentado pelo deputado federal Esperidião Amin (PP). Parecia verdade porque Mosquito já tinha declarado voto nele para prefeito.
“Nunca lhe dei um tostão”, disse Amin. “Me deve três úlceras que deu na minha mulher (a ex-prefeita Ângela) de tanto bater por causa dos ônibus”.
No Kibelândia, passou a ser levemente hostilizado. O psiquiatra Heitor Bráulio de Freitas, que bebe por lá todos os dias, disse que viu nele o perfil suicida: “O ego dele era grande demais, não poderia viver sem o blog”.
Desesperado em busca de emprego pediu ao compadre para trabalhar como consultor de educação à distância, mas ouviu um não: “Ele nunca tinha feito isto. As tijoladas assustavam todo mundo e ninguém o empregaria”.
Mosquito então apelou para o amigaço de infância Paulinho Carreirão, sócio da Brognoli PrestServ, a maior do ramo na cidade. Ele não lhe faltou. Ofereceu vaga de pintor de paredes ou fiscal de obras, oferta rejeitada.
ENCURRALADO
Mosquito anunciou o fim da carreira em 9 de dezembro. Fechou o blog e deletou suas 1298 postagens:  ”Não tenho mais como enfrentar as ameaças e retaliações pelo que publico” – fiel ao personagem vítima de poderosos.
Em seguida, num gesto teatral, destruiu o HD do laptop a marretadas, sumindo com as “provas de corrupção de vários casos” – quem viu sabe que era uma pilha de recortes digitalizados, alguns documentos apócrifos e sua coleção particular de fofocas recolhidas no Kibelândia.
Quatro dias depois ele estava morto. Por todos os relatos de amigos ele se sentia sem perspectivas. “Mosquito parecia transtornado quando o encontrei na quarta (7 de dezembro) na esquina da rua Osmar Cunha”, conta a amigaTatiana Lino, dona do café Trajano. “Conversamos bastante, tentei acalmá-lo, mas ele se despediu de mim dizendo que iria se suicidar”.
Na manhã do sábado, 10 de dezembro, ele iniciou a jornada sem volta. Encheu a banheira no andar superior de casa e tentou afogar-se nela.
Às 16h, chorando, chamou a ex-mulher. No telefonema de uma hora explicou para Elaine que fracassou “por covardia”.
Ele avisou que tentaria se matar com outro método. Mosquito ainda disse para Elaine ter destruído o HD do computador com o qual erguera seu reino de quase 1200 dias na internet.
Aquele telefonema choroso era o lado do Mosquito que poucos conheciam. Elaine fez o de sempre nas deprês dele: ouviu, confortou, incentivou. No fim do papo, desligou o telefone: “Achei que seria como das outras vezes”.
A menina também falou com ele. Apesar da pouca idade, deu conselho de gente grande: “Pai, sai dessa, parte pra outra”.
TRAÍDO
Mas, Mosquito estava sem perspectivas. “Ele fez muitas escolhas erradas na vida, inclusive a última”, analisa o ex-senador Wedekin, decepcionado com o cliente que tanto ajudou.
O professor Fontana vê uma trágica coerência na trajetória dele. Em gravação de 50 minutos do jovem estudante para o livro Novembrada, em 1980, recolheu a bravata de que Mosquito nunca iria “integrar-se ou entregar-se” ao sistema: “Foi se inviabilizando como pessoa, mas atacava alguns caras que mereciam. Fez mais bem do que mal à sociedade”.
Mosquito tentou explicar suas atividades num dos últimos posts. Eram quase como abraçar o mundo com as pernas: “O blog foi construído com o objetivo de denunciar corrupção, tratar de assuntos ligados à cidadania e versar sobre os mais diversos temas da blogosfera”.  E postou sua prestação de contas: “Contribui para tentar sanear a política catarinense”.
De Brasília, o poeta Emanuel Medeiros Vieira botou o cara nas alturas. Eis trechos de “Mosquitadas”, para “os amigos dos sonhos de antigamente”, criticando o sistema – sistema que teria provocado a morte dele:
Em silêncio, eu sei, muitos se rejubilam com a tua morte.
Eram inimigos fortíssimos, de vários matizes – fortes não pelo humanismo (são carecedores dele), mas pelo poder mesquinho e pela pecúnia.
Mais do que os processos, a falta de dinheiro, era insuportável enxergar quase todos fechados em si mesmos, a mídia imbecilizante, o egoísmo velhaco, o mundo dirigido pelos financistas, o país dos nossos sonhos na lata de lixo.
Mosquito: não conseguiste conviver com a traição.


CARENTE
Cacau Menezes, colunista mais popular do Estado, escreveu no Diário Catarinense que reconhecia o direito dele de se indignar com tudo e todos.
Os dois foram amigos na juventude, mas adversários na web. Ele viu Mosquito dizendo  ”coisas que a grande mídia não tem coragem… mídia e política estão cada vez mais juntos no que eles querem”.
O colunista deu a entender que Mosquito cometeu suicídio como sua última tijolada, de um jeito que deixaria os desafetos como suspeitos de crime – crime que não aconteceu, de acordo com o perito policial Milton Silva, autor do laudo de suicídio.
As dúvidas surgiram porque vizinhos invadiram a cena antes da chegada da polícia, logo depois que o padre Elizandro descobriu o corpo. A simples presença do padre na casa do ateu confesso já provocara especulações entre os que acreditavam em assassinato.
O padre chegou lá por acaso. Um amigo comum, o blogueiro religioso Nahor Lopes, distante 100 km, pediu para Elizandro, da paróquia do Aririu, a dois quilômetros da Pedra Branca, para dar uma checada em Mosquito, já quando ele não atendia mais o telefone nem emails.
Depois do susto de ver Mosquito morto o padre correu para a rua pedindo socorro aos vizinhos. Um psicólogo e um funcionário da Brasil Telecom que consertava fones no pedaço entraram na casa. Deram uma de CSI. Notaram que um dos pés do morto estava no chão. Foi o psicólogo que espalhou na vizinhança a teoria do assassinato.
Depois deles, um delegado aposentado da polícia gaúcha deu seu pitaco: “O lençol estava amarrado como quem tem caxumba, apenas no queixo”, portanto, seria crime. Mais: “A panturrilha esquerda dele tocava num banquinho, se fosse suicídio teria esperneado e o derrubaria”. Segundo a perícia, as teorias do psicólogo e do delegado são furadas.
SEM SAÍDA
Antes de morrer, Mosquito também falou com o irmão. Ênio fez mais do que Elaine: o convidou para voltar à casa da mãe, onde nada lhe faltaria: “A gente tinha diferenças, mas eu o amava”, disse, com os olhos marejados, sentindo-se culpado por não ter notado que daquela vez era sério.
Os últimos contatos dele foram com o blogueiro Canga. Pediu emprego, numa mensagem desesperada. Queria que o amigo encontrasse a oportunidade entre gente que ele teria ajudado com suas tijoladas, a quem  “nunca pedira nada em troca” – enfim o blog apresentava sua fatura.
Canga não tem dúvida de que o amigo se suicidou. Levou sua opinião ao delegado Attilio Guaspari – encarregado do inquérito e autor da singular tese de suicídio porque o homem estava muito pesado: “Precisamos de cinco para baixá-lo do lençol, logo, teriam que ser cinco ou mais para pendurá-lo”.
Depois que a polícia retirou o corpo da casa dona Elaine foi lá e queimou os arquivos do blog. “Ele era muito organizado com papéis, tinha até o manual de uma batedeira que não existia mais”.
Num momento de ternura e fraqueza, ela balança a cabeça e tenta negar o suicídio. Pergunta ao repórter se não teria sido possível alguém ter forçado Mosquito a se matar mediante ameaças à filha – ela lembra que meses atrás a menina foi seguida por um desconhecido que se dizia fotógrafo.
Ela mesma responde “possível, mas improvável”. Elaine pareceu levemente paranóica com a segurança da filha: “Tenho medo que alguém queira vingar-se nela”.
Elaine não quer mais voltar na rua Maracanãs. Deu o dog Ventania para uma amiga e botou a casa para alugar na Imobiliária Brognoli.
Amilton Alexandre foi sepultado no cemitério do Itacorubi. E ali deu a prova definitiva de nunca ter se integrado no sistema: os amigos tiveram que fazer uma vaquinha pelos R$ 2.600 devidos à funerária São Joaquim.
Um videomaker gravou o enterro para um documentário. O corpo do filho inquieto foi entregue ao infinito na mesma carneira do pacato seu Amadeu.
A viúva e a filha jogaram flores na cova. Amigos fizeram discursos emocionados. A última a falar foi Lelê, enfim reconciliada. Ela o descreveu como sendo “do bem”.
E alguém fez a homenagem símbolo do personagem: jogou um tijolo no caixão.
Renan Antunes de Oliveira, do jornal Já Porto Alegre
(Ilustração de Ênio Squeff / Fotos de Celso Martins)
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Charge online - Bessinha - # 1098

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Autor de “A privataria tucana” é detido em Mato Grosso

O Portal Imprensa divulgou na terça-feira, dia 13, que o jornalista Amaury Ribeiro Jr., autor do best-seller A privataria tucana, foi detido acusado de invadir uma propriedade da Igreja Mundial, em Rondonópolis, cerca de 200 quilômetros de Cuiabá.
A matéria afirma que “o repórter estava em Mato Grosso para fazer uma reportagem sobre uma fazenda adquirida pela igreja na cidade de Santo Antônio do Leverger”.
Amaury Ribeiro Jr. é repórter da Rede Record de Televisão, cujo proprietário é o bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, que, por sua vez, está em pé de guerra com o bispo Valdemiro Santiago de Oliveira, da Igreja Mundial. Edir afirma que Valdomiro está roubando fiéis de sua igreja. Tudo leva a crer que Amaury estava fazendo alguma matéria a mando do Edir.
Aonde o Amaury foi amarrar seu burro, hein?!
O Portal Imprensa diz que “os proprietários das terras não teriam gostado da presença do jornalista e chamaram a polícia. Amaury Ribeiro Jr. acabou detido e encaminhado à delegacia, mas o Boletim de Ocorrência não foi registrado”.
É importante lembrar que o livro A privataria tucana divulga um esquema usado no Brasil para lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, que foi utilizado pelo PSDB nas privatizações do governo de Fernando Henrique Cardoso com a participação do pré-candidato à Prefeitura de São Paulo José Serra e seus cupinchas.
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Charge online - Bessinha - # 1097

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Charge online - Bessinha - # 1096

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Jornal Nacional elege Ricardo Teixeira nova Madre Teresa de Calcutá

Publiquei aqui uma crítica ao necrológio que Merval, o Imortal, Pereira fez ao ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira.
Mal sabia que o Jornal Nacional iria adiante, faria ainda mais pelo homem que esteve à frente da CBF por razões que sabemos, lá permaneceu por 23 anos, por essas mesmas razões, e agora sai para "tratamento de saúde", e todos nós sabemos de que saúde se trata.
As Organizações Globo sabem. O Jornal Nacional também sabe. A Rede Globo sabe, tanto que fez um Globo Repórter todo dedicado ao ex-capo.
Mas as OG aprenderam a lição do sábio Paulo Preto, aquele caixa do Serra acusado de se apropriar de milhões, que ameaçou o eterno candidato com a frase: "Não se abandona um líder ferido na estrada".
O necrológio de Merval e a ainda mais veemente edição de ontem do JN mostram que as OG não abandonaram o agora ex-líder ferido.
Fica no ar a pergunta: Se todos sabemos por que Ricardo Teixeira está saindo da CBF, como anteriormente seu sogro também abandonou o cargo no Comitê Olímpico, por que esse comportamento das OG? Por que a edição de ontem do Jornal Nacional só faltou indicar Ricardo Teixeira para o cargo espiritual de Madre Teresa de Calcutá?
Por que do panegírico para o homem que foi flagrado na CPI da Nike pronunciando a imortal frase ‘Se o relatório for aprovado, nós estamos fodidos’?
Nós, quem?
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Um minuto de silêncio

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O Globo e os dominicanos

Muitas homenagens póstumas têm sido prestadas ao ex-deputado e guerrilheiro Carlos Marighella pelo centenário do seu nascimento, em 5 de dezembro de 2011. Nesse dia Marighella foi anistiado por unanimidade pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Mas em 1969 a morte do líder da Ação Libertadora Nacional levou o jornal O Globo a publicar editoriais que causaram indignação entre todos que se opunham à ditadura militar.
Seis de novembro de 1969. O Globo estampa, na primeira página, um editorial com o título "O beijo de Judas". Na opinião do jornal, "Judas", "beijoqueiros da traição", "delinquentes", covardes, "infelizes" são os frades dominicanos Fernando de Brito e Yves do Amaral Lebauspin, conhecido como Frei Ivo. Dias antes eles haviam sido presos em São Paulo na "Operação Batina Branca", comandada pelo delegado torturador Sérgio Fleury, chefe do DOPS paulista. Alguns dominicanos, ordem religiosa de Ivo e Fernando, davam apoio logístico à luta armada contra a ditadura. Levados para o DOPS, os dois são torturados para revelar o local onde teriam um encontro com o guerrilheiro Carlos Marighella, líder da ALN.
Terça-feira, quatro de novembro. Ivo e Fernando são conduzidos ao local pela equipe de Fleury. Ao se aproximar do fusca onde estão os dominicanos, Marighella é cercado e morto pela polícia. Na época, quase um ano após a decretação do Ato 5, qualquer empresa de comunicação sabia que a tortura, os sequestros e assassinatos de opositores do regime eram práticas comuns. Até porque, sob violenta censura, a imprensa era obrigada a publicar, em casos como esses, a versão oficial. Com editoriais como "O beijo de Judas", O Globo foi muito além do que exigia a ditadura.
O beijo de Judas
Carlos Marighella morreu, como Guevara, de armas na mão. Lutando. Foi fiel até o fim ao evangelho do ódio, da violência a que serviu com implacável fanatismo por mais de trinta anos.
Alguns dos crimes mais bárbaros da história policial do Brasil talvez hajam sido praticados pelo Grupo Marighella. A morte do Capitão Chandler, por exemplo, é dêsses episódios que figurarão nos anais da crueldade e da covardia humanas.
Dezenas de atentados, assaltos e alguns seqüestros tiveram a participação do bando ultra-radical do ex-deputado pelo PCB e que há dois anos representava a OLAS, de Havana, no Brasil, aqui espalhando a morte e a destruição.
Mas reconheça-se que Marighella pôs toda a sua sinceridade nessa vida de sinistras empreitadas que teria seu epílogo anteontem na Alameda Casa Branca em São Paulo.
Examinemos porém a participação dos frades dominicanos no fato Frei Ivo e Frei Fernando levaram a polícia a Marighela.
Há dois anos, num Convento paulista, realizou-se um congresso da UNE. Como se tratava de reunião ilegal, pois a entidade lá então não tinha existência reconhecida, as autoridades penetraram naquela casa "religiosa" e fizeram algumas detenções, inclusive de sacerdotes dominicanos.
Quase que o mundo desabou. Choveram os protestos contra a "perseguição religiosa". O fato de sacerdotes dessa Ordem, como Frei Josafá – redator principal do famigerado periódico "Brasil-Urgente" dos tempos de Goulart –, serem veteranos no radicalismo político não foi levado em conta pelos "liberais", que "não acreditavam" que padres tivessem feito aquilo por mal "Foram enganados” – argumentavam.
Agora, a morte de Marighella é um levantar de cortinas. Frades dominicanos integram o grupo que espalha a morte e o terror por este Brasil enlutando famílias, fabricando viúvas e órfãos.
Não apenas os dois que "entregaram" – Frei Ivo e Frei Fernando – fazem parte do grupo. Estão diretamente implicados nas atividades de Marighela Frei Tito, Frei Luís Felipe, o Ex-Frei Maurício.
Alguns outros já abandonaram a batina e encontram-se fora do País, como o Ex-Frei Bernardo Catão, também do Convento de São Paulo, que se casou com uma ex-freira e hoje vive nos Estados Unidos. Frei Chico, outro célebre agitador, também abandonou a Ordem dos Pregadores e emigrou para casar-se.
É uma trágica dissolução o que se contempla. Uma Ordem de sete séculos e meio, que deu à história nomes como São Domingos, São Tomás de Aquino, Santa Catarina de Sena, Fra Angelico, produz delinqüentes desprovidos de qualquer dimensão de grandeza como esses dois maus acólitos de Marighella.
Frei Ivo e Frei Fernando já haviam traído a Igreja e a Ordem a que pertencem quando, renegando os votos de amor e caridade impostos pelo Evangelho cristão, abraçaram a filosofia de ódio ensinada por Lenine APUD Marx.
Essa traição foi o primeiro beijo de Judas que deram. Todo o resto decorreu desta apostasia – ainda mais grave que o usual, pois fingiram que ainda continuavam dentro da Igreja, quando apenas dela se utilizavam para servir ao terror.
"Então um dos doze, que se chamava Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e lhes disse: Que me quereis dar, e vo-lo entregarei? E eles lhe deram trinta moedas de prata. E desde então buscava oportunidade para O entregar."
Quando aderiram ao comunismo, Frei Ivo e Frei Fernando repetiram o gesto de Iscariotes. Esvaziados da moral cristã, entregaram-se ao amoralismo marxista-leninista. Frei Ivo declarou em 1966 a uma revista mensal o seguinte: "Meu Deus não é o deus-ópio, que aliena: ao contrário, Ele engaja, compromete."
Êsse "DEUS" anticristão "engaja" os homens nisso: na volúpia de matar e na covardia diante do perigo de vida.
Frei Ivo e Frei Fernando, que rasgaram os votos que livremente firmaram diante de Deus, perderam a resistência moral e traíram os votos de fidelidade à própria doutrina da violência. Entregaram Marighella à polícia com meticulosa proficiência.
Foi um segundo beijo à maneira de Judas. Esses infelizes frades beijoqueiros da traição, bem encarnam o papel devastador desempenhado em certos setores da Igreja por determinadas alas ditas "renovadoras". Ontem mesmo Paulo VI fazia mais uma advertência a estes grupos, ao dizer: "Nada dentro da Igreja deve ser arbitrário, tumultuoso ou revolucionário."
Que a covardia desses infelizes frades pelo menos sirva de lição às ovelhas tresmalhadas que seguem por esses descaminhos escabrosos de traição a todos os valores.
Frei Fernando de Brito vive hoje na cidade de Conde, litoral da Bahia, onde desenvolve trabalhos sociais. Yves Lebauspin não é mais frei. Atualmente dá aulas em uma universidade do Rio. Além deles, 12 dominicanos foram presos em São Paulo na Operação Batina Branca. Um desses frades, o cearense Tito de Alencar Lima, citado no editorial do Globo, foi torturado durante vários dias pelo próprio delegado Sérgio Fleury. As torturas deixaram Tito mentalmente perturbado e o levaram ao suicídio, durante o exílio na França, em 10 de agosto de 1974. O martírio dos dominicanos é descrito no livro "Batismo de Sangue", de Frei Betto - também preso na época -, vencedor do Prêmio Jabuti em 1982.
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Charge online - Bessinha - # 1095

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Tabela de Salários do Magistério nos Estados

TABELA DE VENCIMENTOS/REMUNERAÇÕES E JORNADAS DE TRABALHO DAS CARREIRAS DO MAGISTÉRIO PÚBLICO DA EDUCAÇÃO BÁSICA (Redes Estaduais)
UF
NÍVEL MÉDIO
LICENCIATURA PLENA
CARGA
HORÁRIA
% HORA-
ATIVIDADE
CUMPRIMENTO DA
LEI 11.738
Vencimento
Remuneração
Vencimento
Remuneração
AC
 890,00
1.187,00
1.843,00
---
30H
33%
Não paga o piso
AL
 1.187,00
---
2.172,10
---
40H
 25%
Não paga o piso e não cumpre H-A
AM
---
---
1.807,52
2.584,75
40H
---
Sem informação sobre o piso (nível médio). Não cumpre H-A
AP
 1.085,00
2.046,36
1.283,07
2.566,14
40H
33%
Não paga o piso. Cumpre H-A
BA
 1.187,98
1.879,14
1.489,22
1.953,56
40H
 30%
Não paga o piso na forma de vencimento e não cumpre H-A
CE
 1.270,09
1.397,10
1.528,28
1.681,11
40H
 20%
Não paga o piso e não cumpre H-A
DF
1.777,61
1.121,95
2.260,08
3.958,04
40H
 20%
Paga o piso, mas não cumpre H-A
ES*
 510,05
963,13
775,72
1.023,32
25H
33%
Não paga o piso. Cumpre H-A (ver nota abaixo)
GO
1.460,00
---
2.016,03
---
40H
33%
Paga o piso, mas sindicato luta para adequar carreira
MA
725,81
1.270,16
927,27
1.891,63
20H
---
Paga o piso proporcional e não cumpre H-A
MG*
 369,00
1.122,00
580,00
1.320,00
24H
 25%
Não paga o piso e não cumpre H-A (ver nota abaixo)
MS
1.489,67
1.011,05
2.234,50
3.016,50
40H
 25%
Paga o piso, mas não cumpre H-A
MT
1.312,00
---
1.968,00
---
30H
33%
Paga o piso proporcional. Cumpre H-A
PA
1.451,00
--
---
----
40H
---
Paga o piso, mas não cumpre H-A
PB
 1.038,00
---
1.303,00
---
40H
33%
Não paga o piso. Cumpre H-A
PE
1.451,00
---
1.143,40
1.524,53
40H
 30%
Paga o piso, mas não cumpre H-A
PI
 1.187,00
1.407,08
1.418,15
1.678,15
40H
 30%
Não paga o piso e não cumpre H-A
PR
 611,81
---
874,03
---
20H
 20%
Não paga o piso e não cumpre H-A
RO
 943,21
1.273,21
1.587,55
1.917,55
40H
33%
Não paga o piso. Cumpre H-A
RN
 890,62
---
1.246,35
---
30H
 20%
Não paga o piso e não cumpre H-A
RJ
---
---
---
---
---
---
Sem informação
RR
 1.399,64
2.009,36
1.860,00
2.529,68
25H
 25%
Não paga o piso na forma de vencimento e não cumpre H-A
RS
 434,45
---
770,66
--
20H
 20%
Não paga o piso e não cumpre H-A
SC
 1.234,48
1.743,10
1.435,20
1.994,00
40H
 20%
Não paga o piso na forma de vencimento e não cumpre H-A
SE
 1.187,00
1.661,80
1.661,80
2.326,52
40H
37,5%
Não paga o piso na forma de vencimento. Cumpre H-A
SP
1.718,02
---
1.988,82
---
40H
 20%
Paga o piso, mas não cumpre H-A
TO
 1.329,00
---
3.062,00
---
40H
 20%
Não paga o piso e não cumpre H-A
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