6 de fev de 2012

A chance do povo de São Paulo vingar Pinheirinho

Esta é a arma adequada, democrática e cidadã, para paulistas e brasileiros, de norte a sul, condenarem a violência do estado contra pobres em favor de especuladores
A coluna de Jorge Lourenço no Jornal do Brasil aponta uma série de prejuízos que o PSDB poderá colher após o lançamento do Livro "Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Jr., após a ação violenta e descabida contra a população de Pinheirinho, para reintegrar a posse de terras de um especulador, Naji Nahas, condenado pela justiça mas que circula no grand mondè em liberdade e a política de segurança pública de resultados pela "dor e sofrimento" contra moradores de rua usuários de crack.
"O ano eleitoral mal começou, mas o PSDB já acumula prejuízos graças à Privataria Tucana, lançada no fim de 2011, e a ação truculenta no Pinheirinho. Em alguns municípios, não são raros os partidos que estão evitando se associar aos tucanos para não parecerem associados à imagem negativa que a sigla conquistou.
Rio e São Paulo
Na capital paulista, principal reduto tucano, a aliança com o recém-criado PSD já era tida como certa. Só que o presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, garantiu que as conversas com os tucanos estão vetadas e abriu as portas para o PT. No Rio de Janeiro, a situação foi parecida com o PV. Até o fim do ano passado, os verdes ainda viam com bons olhos uma chapa de oposição ao lado do PSDB. A intenção desapareceu de dezembro para cá. Coincidência?"
Até onde se sabe a grande imprensa blindou e continuará blindando o quanto puder seus aliados paulistas, desinformando, distorcendo e relegando em indiferença editorial tais graves fatos para a população.
Mas enxergo nestes episódios, tristes e emblemáticos, a oportunidade de ouro do povo paulista e paulistano, empreendedores de um Brasil moderno e trabalhador, através do voto, varrer para o devido lugar o que exemplares condenáveis destas ações: o lixo!
A "remoção desta sujeira política", precisa ser rápida,a resposta, democraticamente exercida, contundente.
São Paulo, terá a chance de dizer ao Brasil que não compactua com o preconceito, a discriminação violenta e a política higienista dos atuais governantes da maior cidade da América do Sul e do estado mais rico do país.
O povo paulista poderá mostrar ao Brasil que convive bem com as diferenças, que não aceita injustiças e condena, irreversivelmente, a prática da lei dos mais fortes, a lei da selva desempenhada, desavergonhadamente, pelos ocupantes dos palácios do Bandeirantes e do Anhangabaú.
As urnas representam o arsenal das armas do povo pobre e trabalhador que vem sendo, diariamente, ameaçado por um pensamento ultra conservador, que domina as ações dos governos da capital e do estado, que, se dizem praticantes e se proclamam como agentes da "obra de Deus".
Será preciso mobilizar a opinião pública, furando o bloqueio midiático que se forma em torno dos tucanos, para levar ao cidadão comum a mensagem que condene e enterre, categoricamente, tais exemplos funestos.
É o momento de aglutinar agrupamentos políticos e sociais para vingar o povo de Pinheirinho e limpar a barra da grande maioria dos paulistas que deve estar envergonhado pelo que fizeram seus governantes.
Ilustração: Latuff
No Palavras Diversas
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Charge online - Bessinha - # 1031

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Roda Viva em Jaguarão - RS

Chico Buarque é considerado um dos grandes nomes da nossa cultura. Sua música é admirada por um público cada vez mais abrangente, ávido pela redescoberta da boa música brasileira.
Desde 2005 o Grupo RODA VIVA tem se dedicado a trabalhar e difundir a obra de Chico Buarque. Formado por jovens músicos no intuito de reunir amigos e celebrar sua obra, o grupo vem se apresentando em diversas casas noturnas e teatros de Porto Alegre e do interior do estado.
A RODA VIVA conta, atualmente, com mais de 80 canções de Chico Buarque em seu repertório. Efetuando uma cuidadosa reelaboração musical da obra, o conjunto se apresenta em espaços e situações diversas podendo adaptar seu repertório para cada situação.
O grupo é formado por José Leandro Luz (voz), Felipe Bohrer (violão, flauta e vocal), Juliano Luz (contrabaixo e vocal), Vinicius Ferrão (cavaquinho, bandolim e vocal), Jeferson Azevedo (percussão e vocal) e Lucas Dellazzana (bateria e percussão).
Nesta quinta-feira, dia 09 de fevereiro, as 21 horas, o Grupo apresenta-se no Teatro do Círculo Operário de Jaguarão, Rio Grande do Sul.
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Folha deixa Kamel nu em Pinheirinho

O Conversa Afiada reproduz crítica da Folha à cobertura parcial e partidária do Ali Kamel à obra filantrópica do grande financista Naji Nahas em Pinheirinho:
Jornalismo de guerra
Vanessa Barbara
Pode não parecer, mas o Código Brasileiro de Trânsito determina que os pedestres têm preferência, já que são o elo mais fraco do sistema -em comparação a carros, motos, caminhões. A imprensa deveria seguir lógica parecida: quando há um megaespeculador de um lado e 6.000 sem-teto de outro, a prioridade de entrevista seria dos últimos, que não têm tanto poder para se fazer ouvir.
Mas não é o que está havendo na cobertura televisiva da desocupação do Pinheirinho, uma área em São José dos Campos habitada há oito anos por 1.600 famílias. O terreno pertence à massa falida do grupo Selecta, do empresário Naji Nahas. É avaliado em R$ 180 milhões e foi objeto de desavenças em diferentes esferas do Judiciário, até que, há cerca de duas semanas, a Justiça estadual decretou a reintegração de posse.
No dia 22, o “Fantástico” dedicou pouco mais de dois minutos à cobertura. Abriu a reportagem com cenas dos policiais escancarando um portão e adentrando o terreno. Voz em off: “Seis e meia da manhã, a tropa de choque invade o Pinheirinho”. Deu para imaginar os policiais combinando com a equipe da Globo: um-dois- três-e-já.
A ação contou com um efetivo de 2.000 homens, dois helicópteros, 220 carros, 40 cães e cem cavalos. “A situação ficou fora de controle”, explicou a locutora, e a cena era de um sujeito jogando pedra contra policiais.
“Os moradores atearam fogo em prédios públicos e em oito carros, entre eles o da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo.”
Aparece a repórter, com um colete a prova de balas: “Segundo policiais que entraram aqui nesta área, esses barracos todos estão abandonados porque eles serviam para o tráfico de drogas. Aqui era uma espécie de cracolândia, onde se vendia e consumia droga”.
Outra coisa que ficamos sabendo pelo “show da vida”: em protesto, os sem-teto bloquearam por meia hora uma das pistas da via Dutra. Um homem foi atingido por um tiro de arma de fogo durante a operação, mas a polícia diz que só utilizou balas de borracha. Final da reportagem.
Nada foi dito sobre a presença de tanques de guerra e de soldados da cavalaria com suas espadas. Nada foi dito sobre o uso de força contra idosos e crianças e nem sobre o destino dos desalojados. Alguns receberam da Prefeitura de São José dos Campos passagens rodoviárias para seus “Estados de origem”.
Só que muitos são paulistas.
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Grevistas são hostilizados em carreata no Sul da Bahia

População argumenta que salário de policiais, de R$ 2.400, é equivalente a de médico iniciante; comerciantes temem Carnaval esvaziado
Grupos de policiais militares que saíram no início da tarde desta segunda-feira, 6, em carreata por cidades do litoral sul baiano puderam constatar que o movimento grevista não tem apoio algum da população. E a indignação não é só pelo caos causado em uma região turística, às vésperas do Carnaval.
O piso salarial da PM na Bahia chega a R$ 2.400 mensais, mais que o dobro do salário médio da região, o que tem gerado revolta contra a greve em todos os setores da sociedade, do empresário do ramo hoteleiro ao feirante.
O salário dos policiais é citado em qualquer conversa de padaria em cidades como Itabuna, Nova Ibiá, Itamarí, Teolândia, Wenceslau Guimarães e Gandu. Era visível a vontade que feirantes tinham de vaiar ontem a carreata de PMs que passou em frente à Centrais de Abastecimento de Ilhéus. “Eu vendo manteiga e queijo há mais de 30 anos e nunca consegui tirar R$ 2.400 por mês. É um aburdo o que esses policiais estão fazendo de novo com a gente, justo agora que o Carnaval tá chegando”, disparava no entreposto a sergipana Ednéia Francisca de Oliveira, de 61 anos. Ela iniciou a primeira de uma leva de desaforos disparados por outros feirantes contra o grupo de policiais.
No interior e em municípios pobres do sul baiano, onde 2.200 PMs estão parados, a renda média mensal da população não passa de R$ 910 mensais, segundo dados do Censo 2011 do IBGE. O vencimento de um policial baiano é quase igual ao piso de R$ 2.600 pago aos professores da rede municipal paulistana de ensino. Nos postos de saúde da rede estadual da Bahia, o vencimento de um médico plantonista em início de carreira é inferior ao salários dos policiais – são R$ 2.500 mensais por 40 horas por semana.
Até uma tímida vaia chegou a ser ensaiada por vendedores de coco contra os PMs que passaram no entreposto de Ilhéus para pedir apoio à paralisação. “Policial ganha melhor do que qualquer comerciante aqui em Ilhéus. Todos eles têm carro zero, casa, salário bom, trabalham 12 horas e descansam 36. E ainda fazem greve perto do Carnaval, quando todo mundo precisa fazer dinheiro para garantir o ano”, reclamava Francisco Antonio Teixeira, de 57 anos, dono de uma barraca de coco.
Cientes do clima hostil, os policiais nem chegaram a descer das motos para conversar com os feirantes, como estava previsto inicialmente. Pelo centro de Ilhéus também houve xingamentos. “Tem hóspede do Brasil inteiro me perguntando sobre reembolso de reservas. Isso vai quebrar a economia da cidade. Uma categoria que já foi tão valorizada nos últimos anos, que tem uma condição bem melhor que a maioria das famílias da cidade, não poderia fazer isso”, disparou Elton Pacheco de Souza, de 61 anos, dono de três hotéis em Ilhéus e em Porto Seguro.
No Estadão
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PMs cercados por Exército apelam para arcebispo

Foto: Lúcio Távaro/ Ag. Estado
Arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, d. Murilo Krieger virou personagem do movimento que completa sete dias; ele recebeu as associações de pms na sede episcopal; acordo não foi alcançado; 93 homicídios já foram registrados durante a paralisação; força nacional isola assembleia legislativa, onde grevistas estão acuados; movimento pode virar nacional
Até o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, se tornou hoje personagem da greve da Polícia Militar da Bahia, Estado que, durante o movimento que completa agora sete dias, registrou 93 homicídios, numa elevação sem precedentes dos niveis de violência. Na tentativa de negociar com o Exército o fim ao cerco feito por 600 homens à Assembleia Legislativa, onde muitos PMs e suas famílias estão acampados, cinco associaçóes de classe marcaram uma reunião com o comandante da operação na casa do arcebispo. Mas não se chegou a nenhum resultado concreto. Nos início da tarde, os grevistas recusaram uma proposta de reajuste salarial de 6,5%, oferecido pelo governo do Estado, e resolveram manter a greve.
A imprensa foi afastada do entorno da Asembleia, onde os acampados estão cercados. Perto do meio-dia, houve dispartos de bombas de gás lacrimogêneo e tiros com balas de borracha. um PM ficou gravemente ferido no rosto. Também outro soldado e um cinegrafista foram atingidos.
Paralisação nacional?
Três integrantes da Associação de Cabos e Soldados de Pernambuco (ACS-PE) viajaram, nesta segunda-feira (6), para Salvador com o objetivo de acompanhar de perto o movimento grevista que ocorre em toda a Bahia. Solidários com a manifestação no Estado vizinho, seguiram para a capital baiana o coordenador da associação, Renílson Bezerra, o diretor José Carlos dos Santos e o advogado Adalberto Neto. Segundo a própria ACS-PE, existe uma possibilidade de movimento nacional, articulado pela Associação Nacional de Praças (Anaspra). Ainda esta semana haverá uma reunião com associações de todo o País.
No próprio site da ACS-PE (www.acspe.com.br), existe um comunicado informando que “a qualquer momento a Associação Pernambucana dos Cabos e Soldados (ACS – PE) estará convocando uma Assembleia Geral para discutir assuntos de interesse da tropa, especialmente sobre as escalas de trabalho “escravizantes”, a falta de previsão das promoções e outras reivindicações que não foram atendidas, o que vem gerando grande insatisfação entre PMs e BMs (Bombeiros Militares)”.
No Brasil 247
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Charge online - Bessinha - # 1030

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Aécio é pego bêbado de novo

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"O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"

O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”. Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da modernidade, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres”.
Paris - Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil.
Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado.
Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componente não são a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”.
O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza as formas possíveis e não aceitas de oposição e coloca no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.
Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovedor, no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos podem firmar para viver. Sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.
Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para que sua ação conduza a uma autêntica construção?
Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização, a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a situação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo poderemos nos unir de forma duradoura.
Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades e injustiças da democracia parlamentar e em um mundo onde nossa relação com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação humana.
A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal; outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes, que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade. Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao menos algumas verdades.
Chamo "ideia" esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade, faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levante político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com sua lei de circulação mercantil, mas sim em um elemento novo de minha experiência.
O mundo moderno se caracteriza pela soberania das opiniões. E a opinião é algo contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião se relaciona com a distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive se suspeita da ideia e se dirá que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então, uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.
Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que não tem valor no sentido das trocas. Seu valor é intrínseco. E como não se pode distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o fato de que sempre há uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É preciso atravessar tudo isso.
Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.
Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama “a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando seu conteúdo histórico foi desastroso.
Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colônias africanas, apetites que não diziam respeito aqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.
No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos.
De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva. Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo, ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.
Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência, possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência.
Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira e econômica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.
Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito. Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras. Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.
Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?
Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação. Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer: é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França.
Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal.
A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.
Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?
O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.
Não é o caso de acreditar que, pelo fato de estarmos em uma crise sistêmica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índica, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.
Estamos vivendo agora esse fenômeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenômeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenômeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do fato de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Oriente Médio, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistêmicas do capitalismo – hoje estamos em uma grave crise sistêmica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.
Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.
Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.
Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?
O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não nos unir à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?
A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque todo mundo vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Todo mundo toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e econômicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.
Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Todo mundo sente que não, que se trata de um sistema patrológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos em uma fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e em um universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.
Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?
Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está perdendo confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos em um período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.
Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.
Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de passa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados.
O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe me parece mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, a desaparição de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.
Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.
O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.
Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?
Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.
E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.
O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.
A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?
Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.
O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?
Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no timão da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.
Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.
Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.
Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira se configura quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, que seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.
Eduardo Febbro - Direto de Paris
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
No Carta Maior
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A Globo e a Bahia: “não sei como se chama aquilo”

Hippolito e aquilo, num circuito em Pernambuco
O Conversa Afiada convida o amigo navegante a ter acessos de …
Ao ver como a Globo trata a Bahia, o Nordeste e o Carnaval de lá.
A notável comentarista Lucia Hippolito, da CBN, a rádio que troca a notícia, fazia comentário (inútil) sobre a necessidade de negociar com os grevistas PM da Bahia.
Uma "jenia"!
Mas, advertiu: é preciso não fazer politicagem com isso.
Quem faz política com isso é a Globo.
Com a cobertura que faz do episódio.
Com a cobertura de Pinheirinho.
Politicagem da grossa.
Mas, a certa altura a notável Hippolito, de tradicional família lacerdista do Rio, deixou-se trair.
Referia-se ao Circuito Barra-Ondina, onde o bicho pega no Carnaval de Salvador.
É como se o Sambódromo ficasse à beira-mar.
Um horror!
A notável "colonista" está muito preocupada com a greve e o Carnaval e deixou transparecer o fundo da alma:
Ali na orla … O Circuito Olinda (que fica em Pernambuco, como se sabe – PHA) não sei o que … Castro Alves … não sei como se chama aquilo.
Aquilo!, amigo navegante!
É um dos momentos mais edificantes do PiG e da Globo.
Paulo Henrique Amorim
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Governo do PT CONCEDE aeroporto, por 20 anos, por valor três vezes maior do que o PSDB VENDEU a Vale

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) realizou nesta segunda-feira um leilão para transferir ao setor privado a exploração de três terminais aéreos internacionais: o de Cumbica, em Guarulhos, o de Viracopos, em Campinas e o Juscelino Kubitschek, em Brasília. O aeroporto de Brasília foi o que teve o maior valor acima da oferta mínima exigida pelo governo. O consórcio Inframerica Aeroportos levou a concessão na capital federal com a oferta de R$ 4,5 bilhões, ante preço mínimo de R$ 582 milhões - um ágio de 673%.
O consórcio formado por Invepar, OAS e a sul-africana ACSA, apresentou a melhor oferta econômica pela concessão do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), no valor de R$ 16,2 bilhões, com ágio de 375% sobre o preço mínimo de R$ 3,4 bilhões. Já o consórcio que inclui a Triunfo Participações e a francesa Egis Airport Operation fez a proposta financeira mais elevada pelo aeroporto de Viracopos (SP), de R$ 3,8 bilhões. O preço mínimo era de R$ 1,47 bilhão - um ágio de 159%. Os três aeroportos respondem, conjuntamente, pela movimentação de 30% dos passageiros, 57% da carga e 19% das aeronaves do sistema brasileiro.
Após a abertura das propostas na sede da Bovespa em São Paulo, os consórcios que fizeram as melhores propostas iniciais continuaram a disputa em um leilão viva-voz. Encerrado o tempo de lances, as ofertas totalizaram R$ 24,53 bilhões a serem pagos ao governo - um ágio médio de 347%. O grupo Inframérica Aeroportos, que ficou com o aeroporto de Brasília, conta com a Engevix e a argentina Corporación América, que no ano passado venceu a disputa pelo aeroporto São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte.
A partir do contrato, haverá um período de transição de seis meses no qual a concessionária administrará o aeroporto em conjunto com a Infraero. Após esse período, que pode ser prorrogado por mais seis meses, o novo controlador assume o controle das operações do aeroporto. A Infraero, empresa pública federal, continuará operando 63 aeroportos no País, responsáveis pela movimentação de cerca de 67% do total de passageiros. Até o final da concessão de cada aeroporto estão previstos investimentos da ordem de R$ 4,6 bilhões em Guarulhos, R$ 8,7 bilhões em Viracopos e R$ 2,8 bilhões em Brasília. Além disso, os contratos assinados determinam o estabelecimento de padrões internacionais de qualidade de serviço.
Entenda
De olho na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016, a administração da presidente Dilma Rousseff conta com os recursos e a gestão de empresas privadas brasileiras e operadoras internacionais de aeroportos para realizar os necessários investimentos nos terminais. A presença de companhias de fora do Brasil foi uma exigência do edital, ao estabelecer que cada consórcio tivesse um operador que tenha transportado ao menos 5 milhões de passageiros no ano passado.
A estatal Infraero, atualmente responsável pelos aeroportos no Brasil, será sócia dos concessionários privados, com participação de 49% nos terminais. Os três aeroportos têm prazo de concessão diferentes. São 20 anos para Guarulhos, 25 anos para Brasília e 30 anos para Viracopos. Além da outorga, os concessionários terão que ceder um percentual da receita bruta ao governo, dinheiro que irá para um fundo cujos recursos serão destinados ao fomento da aviação regional.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai financiar até 80% do investimento total previsto no edital do leilão para os três aeroportos. O prazo do empréstimos será de até 15 anos para os terminais de Guarulhos e de Brasília e de até 20 anos no caso de Viracopos.
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Desafiamos o PSDB a mostrar o laudo do 'gringo' sobre a Lista de Furnas

Um grupo de tucanos mineiros, que se auto-intitula "turma do chapéu" (por ter como guru o blogueiro Reinaldo Azevedo), enrola, enrola, enrola, mas não mata a cobra, nem mostra a cobra morta.
Acusa quem duvida da "Operação Tio Sam da Lista de Furnas", ou seja, da estranha perícia "extra-judicial" e extemporânea encomendada por R$ 200 mil pelos tucanos, nos EUA, que ninguém entendeu direito pra que serve, nem como foi feita.
A turma do chapéu bate boca sobre as supostas virtudes do perito estadunidense, diz tratar-se do "maior perito do mundo", algo um tanto quanto duvidoso, mas não disponibiliza o relatório da perícia na internet para todo mundo ver.
Vamos lá... Coragem, tucanos! Publiquem a íntegra do relatório com o laudo do "gringo" na internet.
Enquanto os tucanos mineiros enrolam para confundir com sua "Operação Tio Sam da Lista de Furnas", o laudo oficial da Polícia Federal, que apontou para a autenticidade, está pronto desde 2006, e disponível para todo mundo ver na internet e tirar suas próprias conclusões:
Laudo PF Lista Furnas
Transparência e honestidade fazem bem.
Aécio vestiu a carapuça
O Ministério Público Federal (MPF-RJ) já concluiu há mais de 15 dias o inquérito sobre a corrupção tucuna da Lista de Furnas, e já apresentou denúncia à Justiça.
Detalhe: a procuradora Andréia Bayão, responsável pela denúncia, disse ter seguido o caminho do dinheiro movimentado entre fornecedores de Furnas e os políticos influentes demotucanos, independente da autenticidade da lista, o que, para ela, não é o relevante.
Infelizmente o processo corre em segredo de justiça, assim não sabemos o conteúdo. Mas a essa altura do campeonato, o PSDB pagar R$ 200 mil para encomendar nos EUA uma perícia "extra-judicial" para a Lista de Furnas, equivale a quase confissão de culpa e mostra que o processo que vem por aí vai complicar muitos tucanos do bico grande.
Afinal, por que o PSDB mineiro precisaria gastar R$ 200 mil para dizer que a lista é falsa, se ela fosse falsa? Ainda mais através de uma perícia sem valor jurídico, em outro país? Ora, só pode um gesto desesperado, de quem está está precisando criar factóides para confundir, e contrapor o que vem por aí.
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PM tucana: Bate e atira em foliões em Curitiba

Uma intervenção da Polícia Militar (PM), logo após a apresentação do bloco pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis, no Largo da Ordem, em Curitiba, terminou de forma violenta. Pelo menos quatro pessoas precisaram ser hospitalizadas (entre elas, um policial). Há registros de vários outros feridos, que não foram levados a hospitais.
Por volta das 21 horas, quando o bloco já havia encerrado a apresentação, milhares de pessoas ainda permaneciam no Largo da Ordem. Após um suposto ato de vandalismo contra uma viatura, próximo a Rua do Rosário, policiais da Rondas Ostensivas de Naturezas Especiais (Rone), começaram a dispersar a multidão. Eles desceram pelo Largo da Ordem, disparando balas de borracha e bombas de gás nos foliões.
O maior número de pessoas se concentrava na Rua Mateus Leme, próximo ao cruzamento com a Rua Treze de Maio, em frente ao Bar Brasileirinho. Dezenas de pessoas entraram dentro do estabelecimento, para fugir dos projéteis. Houve corre-corre e pessoas foram pisoteadas no tumulto.
O Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma de Emergência (Siate) levou pelo menos três pessoas ao Hospital Evangélico: um rapaz de 18 anos (atingido por um tiro de bala de borracha), um homem de 21 anos e uma garota de 18 anos (ambos atingidos por garrafadas). Um policial militar também teria sido ferido por uma pedrada e foi levado ao Hospital do Trabalhador.
Cerca de 20 minutos depois da intervenção policial, o cruzamento das ruas Mateus Leme e Treze de Maio estava interditado por várias viaturas da PM e da Guarda Municipal. Indignados, foliões questionavam os policiais pela truculência. Um deles era um integrante do bloco, identificado por Luiz. Ele foi atingido por um tiro de bala de borracha na perna e sangrava por conta do ferimento. “Minha filha também foi ferida. Eu vi mulher grávida sendo prensada na parede. Tinha cadeirante desesperado querendo sair do tumulto. Para que tudo isso?”, questionou.
O integrante do bloco, o vocalista Marcel Cruz, também se surpreendeu com a ação da polícia. Ele disse que guardava os instrumentos, quando começou a ouvir as explosões. Em princípio, Cruz diz ter pensado que se tratavam de rojões, mas quando os estampidos começaram a se repetir, ele desconfiou que algo estava errado. “Eles simplesmente evacuaram o Largo na maior agressividade. O bloco já tinha acabado e tinha sido a apresentação mais linda que a gente fez. Mas era o nosso público e isso dói na gente”, lamentou.
Polícia diz que reagiu a vandalismo
O tenente da Polícia Militar, Marco Antônio dos Santos, disse que a confusão começou depois que uma viatura teria sido alvo de vandalismo por parte de alguns foliões. O carro da corporação teria sido atingido por uma pedrada, quando os policiais pediram para ocupantes de um carro baixar o volume do som. Em seguida, os policiais teriam revidado e saturado a área.
Depoimentos
O jornalista Félix Calderaro foi um dos feridos que não foi hospitalizado. Ele contou que havia chegado ao Largo da Ordem havia apenas dez minutos, quando o tumulto começou. "Eu ouvi os tiros e vi a multidão descendo.Todo mundo correu pela Mateus Leme, sentido Treze de Maio. E a PM atirando. Atiraram pelas costas. Não tinha ninguém enfrentando. Foi uma enorme covardia", relatou.
Outras pessoas que estavam no Largo entraram em contato com a Gazeta do Povo para relatar o que viveram. "Eu estava na praça sentada na calçada com os meus amigos, o bloco já tinha parado de tocar quando ouvimos quatro tiros. Quando nos levantamos, vimos a tropa de choque da polícia descendo e dandos tiros de bala de borracha em quem estava lá. Todo mundo saiu correndo, motos e mesas de bar foram derrubados, os bares começaram a fechar as portas. Os policiais nos mandavam entrar nos estacionamentos e nos bares. Eles não queriam mais ninguém na praça", conta a estudante Gabriela Becker, 23 anos, que estava no Largo no momento da confusão.
O estudante Alison Gabriel Moreira Guerreiro, 23 anos, ficou com um hematoma no braço depois de ser atingido por uma bomba de efeito moral atirada pela polícia, segundo ele. Alison conta que a polícia chegou de repente, jogando bomba em todo mundo. A maioria das pessoas correu para a Rua Mateus Leme. Ele estava próximo à Igreja da Ordem quando tudo começou. Ele não soube informar o que motivou a reação da polícia. Ele diz que viu gente sendo atingido por cassetetes e bombas. "Teve gente que foi atingido na cabeça", afirmou.
Gostaria primeiramente de pedir desculpas à todas as profissionais do sexo de Curitiba, sei que os policiais não são necessariamente seus filhos. Peço desculpas pelas referências exaltadas aqui proferidas em detrimento à sua respeitável profissão. Queridas profissionais, me desculpem.
Esse vídeo será parte de uma trilogia que será completada assim que conseguir dar upload nos dois outros vídeos que somam aproximadamente 25 minutos. Consegui registrar a entrada até a saída da polícia (militar e municipal) e no meio disso há registro de trabalhadores (que trabalhavam durante o evento) correndo da polícia, mulheres feridas e diversos veículos da imprensa cobrindo o acontecimento.
Em segundo lugar gostaria que este vídeo servisse como solidariedade à todos os movimentos antifascistas que existem neste mundo. Sabemos que o inimigo é comum.
Que tenhamos força e doçura para continuar com a luta diária pela defesa da simples dignidade, do simples direito, da simples alegria de ser, ver, falar, morar, ocupar, afetar, dançar, mijar, cantar, viver e deixar viver.
Todo meu apoio à todas as pessoas que lutam diariamente por uma vida não fascista.

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Procurados

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Neoconquistadores

Instalados no coração da vida social, os bancos estiveram por muito tempo ligados a um território, em cuja organização interferiam. Criado na Cantábria, no século XIX, o espanhol Santader lançou-se, na década de 1990, à conquista da América Latina, trocando os mosquetes pelas taxas de juros
Quando o semanário do jornal El País traçou “O retrato do poder” na Espanha, em 31 de outubro de 2010, foi seu rosto que apareceu na capa da revista. De quem? Emilio Botín – sobrenome que, na língua de Cervantes, significa “butim”. Décima fortuna espanhola, com um patrimônio de US$ 1,5 bilhão, Botín seria, de acordo com o jornal Le Monde, “o financista mais poderoso da Europa”.1 Filho e neto de banqueiro, ele está à frente de um mastodonte: o banco Santander.
Primeiro grupo espanhol, principal empresa financeira da América Latina, 37ª transnacional do planeta,2 o Santander é um dos três maiores bancos do mundo em termos de faturamento. Em 2010, empregava mais de 178 mil pessoas (54 mil na Europa ocidental e cerca de 90 mil na América Latina), gerou 1,2 trilhão de euros em ativos e obteve um rendimento bruto de 42 bilhões de euros. Enquanto a crise financeira ameaçava a maioria das instituições financeiras ibéricas, os lucros do Santander ultrapassavam os 8 bilhões de euros, pelo quarto ano consecutivo. “Crise? Que crise?”, perguntou o presidente Botín ao anunciar a aquisição do banco britânico Alliance & Leicester, em 2008.3
Em 1986, Emilio Botín substituiu o pai na presidência do grupo Santander. Nascido há 150 anos, o grupo estava em seu esplendor. Até ali, o setor bancário espanhol parecia uma fortaleza: protegidas do mundo exterior, sete entidades dividiam o mercado.4 Tão próximo do chefe de governo socialista Felipe Gonzalez – então no poder – quanto viria a ser de seu sucessor liberal José María Aznar, o presidente do banco reconheceu o presente que era a desregulamentação financeira. Ao sul dos Pirineus, dois glutões bancários logo devoraram tudo à sua volta: o BBVA, oriundo da fusão entre o Banco de Bilbao, o Banco de Vizcaya e as caixas de poupança Argentaria; e o Banco Santander Central Hispano (BSCH), que surgiu da aproximação entre o Banco Central, o Banco Hispano-Americano e o Banco Santander, seguida da aquisição do Banco Español de Crédito (Banesto). Em 2007, o grupo retomou o nome da comuna da Cantábria onde havia sido fundado: Santander.
Nova reconquista
No fim dos anos 1990, os dois grandes bancos espanhóis aproveitaram o processo de “abertura” e privatização das economias latino-americanas: entre 1997 e 2002, o BBVA investiu US$ 7,8 bilhões na aquisição de 34 bancos da região; no mesmo período, o Santander gastou US$ 12,3 bilhões para comprar 27. A exemplo de outras grandes empresas espanholas, como a Repsol (petróleo), a Telefónica (telecomunicações) ou a Endesa (energia elétrica), esses bancos alçaram-se à categoria de corporações transnacionais em processo de reconquista da América Latina pelo capital espanhol. Mas as compras do Santander não se limitam a essa parte do globo. Em 2004, ele pôs a mão no britânico Abbey, por 13,4 bilhões de euros; em 2007, retomou as atividades do holandês ABN Amro no Brasil e na Itália, por 19,9 bilhões de euros; em 2009, entrou no mercado norte-americano com a aquisição, por US$ 1,6 bilhão, do Sovereign.
Essa estratégia de expansão pretende ser ao mesmo tempo ofensiva (ganhar cotas de mercado) e defensiva (proteger-se contra potenciais aquisições hostis dos concorrentes). Para Botín, é o bê-á-bá dos negócios: “Não basta garantir um crescimento significativo mensal para defender os acionistas”, explicava em 2006. “Se um banco se contentar com esse objetivo, acabará ficando sem combustível.”5 Não é o caso do Santander: de 2004 a 2007, os lucros triplicaram. Entre 2003 e 2006, o volume de negócios da divisão latino-americana saltou de US$ 85 bilhões para 174 bilhões. Em 2010, enquanto a Espanha apenas começava a sair da recessão, a região representava 43% do rendimento do banco: “Faz vinte anos que estamos presentes na América Latina”, resumiu o diretor do banco para a região, em 2010. “É chegada a hora de colher os frutos desse trabalho.”6
Para as populações latino-americanas, a colheita se revela mais decepcionante. A chegada do Santander à região teve como saldo principal a perda de empregos nas instituições anteriormente detidas pelo Estado. Enquanto em 1997 o Santander Colômbia empregava 4.400 pessoas, em 2004 elas não passavam de 950, sem que tenha havido grandes alterações de seu âmbito de atividade. Presente no capital de 33 empresas sediadas em paraísos fiscais, o banco é acionista ou financiador de diversas empresas de armamentos. Ele também concede crédito (direta ou indiretamente) a projetos de alto impacto socioambiental, numa região onde a mineração é feita, na maioria das vezes, sem a menor consideração pela população local.7
Responsabilidade social corporativa
Diante das críticas, o banco Santander desenvolve o discurso da “responsabilidade social corporativa”. Essa “ética empresarial” deu corpo a novos “serviços inclusivos”, destinados às pessoas “desfavorecidas”. Objetivo: contribuir para a emergência de uma “cidadania corporativa”.8 Afinal, “uma América Latina onde mais cidadãos possam gozar do direito de abrir uma conta corrente, obter fundos ou pedir uma hipoteca será uma América Latina mais justa que aquela que conhecemos, em que os direitos financeiros [sic] são privilégio de uma minoria”, analisava um alto dirigente do banco em 2010.9 O Santander lançou então programas de microcrédito no Brasil, Chile, Argentina e El Salvador, distribuindo cartões de crédito e desenvolvendo as possibilidades de empréstimo, na perspectiva daquele que trabalha para o desenvolvimento da região. Mas trata-se também de “não depender exclusivamente das classes superiores”, pois “interessar-se pelas classes médias atuais e futuras” constitui, segundo o banco, “uma opção segura e rentável”.10
Na carta aos administradores que abre o relatório anual de 2010, Botín comemora os sucessos “que permitiram distribuir 19 bilhões de euros a nossos acionistas ao longo dos últimos quatro anos” –mais que todo o programa de austeridade espanhol para 2010-2011. Um programa considerado muito tímido: em março de 2011, Botín cercou-se de quarenta grandes empresários para convidar o primeiro-ministro José Luis Zapatero a “ficar firme”.11 E saiu do encontro mais tranquilo: 2011 “será um ano excelente”, declarou.
Dois meses depois, manifestantes ocuparam importantes pontos da Espanha para denunciar uma crise gerada, em grande parte, pela exuberância de um setor imobiliário galvanizado pela generosidade dos empréstimos concedidos pelos bancos espanhóis: “Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros”,12proclamaram. Análise que alguns assim resumiram: “Seu butim, minha crise”.
Pedro Ramiro, pesquisador do Observatório das Multinancionais na América Latina (Omal), em Madri
Ilustração: Fábio Rex
1 “Emilio Botín, le banquier qui ignore la crise” [Emilio Botín, o banqueiro que ignora a crise], Le Monde, 7 out. 2008.
2 Segundo a revista Forbes, 2010.
3 “El Santander desafía la crisis con la compra de un banco hipotecario inglés” [Santander desafia a crise com a compra de um banco de hipotecas inglês], El País, Madri, 15 jul. 2008.
4 Banco Español de Crédito (Banesto), Banco Central, Banco Hispano-Americano, Banco de Vizcaya, Banco de Bilbao, Banco Santander e Banco Popular.
5 “El Santander gana 6.220 millones, el mayor beneficio de una empresa española” [Santander ganha 6,22 bilhões, o maior lucro de uma empresa espanhola], El País, 9 fev. 2006.
6 Entrevista concedida ao El País, 13 jul. 2010.
7 O Observatório das Multinacionais na América Latina (Omal) documenta esses projetos: .
8 Juan Hernández Zubizarreta e Pedro Ramiro (orgs.), El negocio de la responsabilidad: crítica de la Responsabilidad Social Corporativa de las empresas transnacionales [O negócio da responsabilidade: crítica da Responsabilidade Social Corporativa das empresas transnacionais], Icaria, Barcelona, 2009.
9 Citado em Ramón Casilda Béjar (org.), La gran apuesta [A grande aposta], Granica, Barcelona, 2008.
10 “Los latinos empiezan a perder el miedo al banco” [Latinos começam a perder o medo do banco], El País Negocios, 30 abr. 2006.
11 “La élite económica pide a Zapatero que aplace el debate sucesorio” [A elite econômica pede que Zapatero adie o debate sucessório], El País, 27 mar. 2011.
12 Ler Raúl Guillén, “Espanha, novidade sob o sol”, Le Monde Diplomatique Brasil, jul. 2011.

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