24 de jan de 2012

Um comentário à altura de Ricardo Boechat

 Imperdível 
Para entender a razão de Ricardo Boechat ser um dos maiores formadores de opinião do país.

(Comentário recuperado em razão do anterior ter sido retirado do ar)
Luís Nassif
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Charge online - Bessinha - # 1004

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Alckmin foi destituído do governo durante o domingo?

O povo perdoa muitas coisas num político, inclusive coisas que não deveria, mas se tem coisa que não pega bem é covardia.
O poderoso governador de São Paulo dormiu sábado como o rei da esperteza, pois na manhã seguinte, a polícia teria exterminado 1.700 lares, expulsando crianças, mulheres e trabalhadores pobres, pegando-os de surpresa na calada da noite de um domingo, em uma operação relâmpago.
A coisa desandou no extermínio do Pinheirinho, e a cidade de São José dos Campos virou uma praça de guerra, com repercussão nacional e internacional.
Mesmo assim, o poderoso governador ainda dormiu se vendo no programa Fantástico, da TV Globo, com a imagem "triunfal" de um ditador mão-de-ferro, mantenedor da lei (que nem sempre tem a ver com justiça), que impõe a "ordem" sobre "baderneiros" e "bandidos", coisa que agrada boa parte de seu eleitorado de índole fascista.
A coisa mudou de figura quando o telejornal "Bom Dia, Brasil" de segunda-feira (*) mostrou o mal-estar de uma mãe aflita com uma criança no colo, expulsa de sua casa por policiais do batalhão de choque, e que mal pôde pegar a mamadeira para o bebê, sem ter um lar para onde ir, só com a roupa do corpo.
O alerta vermelho dos marqueteiros tucanos soou no Palácio dos Bandeirantes.
Não há como um governador justificar a covardia de exterminar 1.700 lares com crianças e mães, deixando-as desalojadas, para entregar o terreno "limpo" à massa falida de um mega-especulador.
O governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) tornara-se irremediavelmente o "açougueiro do Pinheirinho".
Então, na segunda-feita, o governador tucano quis abdicar do cargo retroativamente, por 24 horas, e voltar a ser apenas um "picolé de chuchu" durante o domingo.
O tribunal de Justiça soltou uma nota prá lá de esquisita, onde o Presidente do Tribunal disse que assumiu o comando da Polícia Militar naquela operação, tirando o poder de comando sobre a polícia das mãos do governador.
É constitucional isso?
O Poder Judiciário pode fazer uma intervenção no poder executivo, "destituindo" o governador do comando?
Que eu saiba o Poder Judiciário emite ordem judicial dizendo o quê tem que fazer. Como fazer é atribuição do Governador, pois a Polícia Militar está sob sua hierarquia.
Faltou coragem a Alckmin duplamente:
Faltou coragem para assumir a responsabilidade pela operação policial, que é intransferível.
E faltou coragem para desautorizar uma nota que o "destituiu" do cargo.
De hoje em diante, é o Presidente do Tribunal de Justiça quem decide quem governa São Paulo e quando. Basta uma ordem judicial, que Alckmin cede o comando para o desembargador Ivan Sartori governar, sem ter sido eleito para isso.
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(*) A TV Record podia passar sem essa. A reportagem do Bom Dia, Brasil foi a melhor e mais realista., apesar do matéria do Fantástico ser fascista, e a do Jornal Nacional ter estragado a edição para aliviar Alckmin.
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“Leonel Brizola: Legalidade e outros pensamentos conclusivo”

Difícil falar de 90 anos em cinco minutos, mas é interessante a reportagem que a TV Brasil levou ontem ao ar sobre o lançamento do livro “Leonel Brizola: Legalidade e outros pensamentos conclusivo”, com depoimentos recolhidos e organizados por Osvaldo Maneschy, Apio Gomes, Paulo Becker e Madalena Sapucaia. Maneschy, Luiz Augusto Erthal -editor do livro – o deputado Paulo Ramos e eu, que entrei de “penetra” ali na matéria, para falar do gosto de Brizola pela polêmica, procuramos recordar o que marcou nossas vidas, nas décadas de convivência com ele. O livro foi lançado ontem, na ABI, com grande sucesso e, para nós, o mérito extra de reunir antigos – e eternos – amigos e companheiros.
No Tijolaço
~ o ~
O prefácio de Paulo Henrique Amorim
A Ley de Medios é a rede da legalidade
A batalha por uma Ley de Medios começou com a Rede da Legalidade, que Brizola montou numa sala de dez metros quadrados no subsolo do Palácio Piratini, em Porto Alegre, em 1961, para dar posse a Jango, o presidente eleito pela Constituição.
Brizola encampou a Rádio Guaíba e transferiu o estúdio para o Palácio.
Sem isso, Jango não teria tomado posse e a intervenção militar de 64 teria sido em 61.
Brizola foi o primeiro homem público brasileiro a perceber que, sem uma Ley de Medios, não há Democracia.
O primeiro e único, até hoje.
(Com as duas raras exceções de Roberto Requião e Anthony Garotinho, que enfrentaram e enfrentam o elefante na sala da democracia brasileira – a Globo).
Brizola nasceu com o rádio. Era imbatível no rádio. E pagou um preço por isso: Brizola não fez a transição para a tevê. Continuou prolixo e exaltado, num meio de poucas palavras, e frio. Mas percebeu, como ninguém, que a Globo e seu diabólico instrumento, o IBOPE, tinham um poder incontrastável. Meu amigo Fernando Lyra, genial cabeça política, que se tornou candidato a Vice de Brizola por indicação de Brandão Monteiro, conta que Brizola não tinha esperança de ganhar em 89, contra Collor e Lula. Por causa da Globo – e do IBOPE.
Ele sabia das coisas. E da permanência delas. E quase ganhou. Não foi para o segundo turno, com uma diferença inferior a um ponto percentual em favor de Lula, que foi devidamente destroçado na véspera do segundo turno pelo jornal nacional (manter a caixa baixa, por favor, revisor) e a “edição” do debate com Collor – um exemplo de manipulação política via televisão, que consta de antologias mundo afora.
Brizola dizia: quando eu sentar naquela cadeira, a primeira coisa que farei será contestar aquele monopólio.
Quem ousou dizer isso, no Brasil?
Lula só falou mal da Globo aos 44 minutos do segundo mandato.
Em 1982, quando o regime militar e a Globo tentaram roubar a eleição dele para Governador do Rio, Brizola ganhou o jogo na imprensa. Na rádio JB, com Procópio Mineiro; no JB; na tevê Bandeirantes, com Villas-Boas Correia. Convocou uma coletiva com os correspondentes estrangeiros e mandou saírem às ruas para cobrir um golpe eleitoral. E foi ao estúdio do jornal nacional provar, ao vivo, ao Armando Nogueira, que a Globo tinha embarcado na fraude da Proconsult. (Armando deu uma informação correta: a matriz do Golpe estava na Proconsult e no jornal O Globo e não na tevê. E o jornal abastecia a tevê de fraude. O patrão dos dois, como se sabe, era o mesmo).
Brizola tentou respirar com a TV Manchete, do Adolfo Bloch, mas o calibre era fino. Tentou ressuscitar a rádio Mayrink Veiga. Inventou o Tijolaço nos jornais, para se defender e atacar.
Conseguiu uma vitória contra Roberto Marinho na Justiça: o jornal nacional leu um editorial escrito por ele, espinafrando Roberto Marinho.
Porém, as duas maiores vitórias contra a Globo foram eleger-se duas vezes Governador do Rio, que era uma espécie de Capitania da Família Marinho.
Brizola não se fez Presidente, porque, talvez, o bastão já tivesse saído de suas mãos. Estava com quem representava um novo trabalhador, que não era o descamisado da Cinelândia, no Rio, mas o operário do ABC que já batia na porta do Capitalismo.
O legado de Brizola é amplo.
Antes de Lula, Sarney – e logo ele! – uma vez disse que nenhum político brasileiro tinha a biografia de Brizola.
Num mundo privatizado dos bueiros da Light (CEMIG – Sergio Andrade), dos apagões da Eletropaulo (dos tucanos de São Paulo), às tarifas telefônicas do FHC, para esse mundão sem fronteiras entre o público e o pessoal, Brizola tem a contar o que fez com as concessionárias de serviços públicos do Rio Grande do Sul.
Desapropriou por Cr$ 1.
Nesse mundo de aditivos, e depois de 60 anos de vida pública, não se pode acusá-lo de um só ato de improbidade.
E nesse mundo de ambiguidades – do FHC marxista e neoliberal, do Serra cepalino e entreguista – Brizola está onde sempre esteve.
Contra a injustiça social.
E, por isso mesmo, percebeu cedo que sem a Ley de Medios o pessoal do outro lado da linha do trem pode dar o Golpe.
O PiG, o Partido da Imprensa Golpista, é infatigável.
A Presidenta Dilma Rousseff nasceu brizolista, quando a Democracia recomeçou, aos trancos e barrancos.
Ela conhece o pensamento vivo do Engenheiro.
Aquele que viu o perigo que se escondia na “urna eletrônica” do Nelson Jobim e do Eduardo Azeredo, dois baluartes da Democracia pátria.
E por ter visto que a “Eletrônica” ia roubar a eleição dele em 82, passou a defender o papelzinho.
O Engenheiro via longe. Lembra-se das “perdas internacionais”, de que os neoliberais escarneciam?
O que dizer da enxurrada de dólares que o Banco Central americano despejou no mundo para sair da crise com a crise dos outros? Isso não foi uma “perda internacional” travestida de “política monetária”?
Não direi que, se estivesse vivo, Brizola lutaria incansavelmente pela Ley de Medios, do tamanho da Ley da Cristina Kirchner.
Não se pode dizer isso, em respeito ao Briza dos comícios na Cinelândia.
Ele não fez outra coisa a vida inteira. A informação é o antídoto do Golpe, dizia ele.
Paulo Henrique Amorim
Paulo Henrique Amorim é jornalista e entrevistou Brizola na derrota e na vitória. É autor do livro “Plim-Plim – a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”. Como muitas pessoas de sua geração, manteve relações cordiais com Brizola – o que não impediu de brigar com ele, certa feita. Era comum.
~ o ~
Alguns trechos:
Jânio Quadros
Jânio Quadros era uma pessoa muito inteligente, de muitos conhecimentos. Dominava aquela máquina toda. Ele era como um relógio suíço, desses dos melhores; um verdadeiro Patec Philip, mas só que tinha um parafuso frouxo. O relógio ia muito bem e, de repente – poc, poc, poc, poc, poc, poc – chegava no parafuso solto… e, vruuuuuuu – falhava. [25/5/2000]
Legalidade – mulheres em arma
Até mulheres fizeram fila, quando mandei abrirem as portas do Palácio e instalar mesas para a distribuição de armas para a população. As mulheres, depois que não tínhamos mais revólveres – que era mais fácil de ensinar a usar, bastava puxar e apertar o gatilho – quiseram saber se podiam pegar fuzis também. Fuzil é uma arma mais pesada. E não teve problema. Teve camarada nosso ensinando: “Olha, bota a bala aqui, mira e dispara”. Algumas perguntavam: “Mas ele não vai me derrubar?”. Eles ensinavam: “Não. Basta botar um pé atrás, bem firme, apoiar a arma no ombro e atirar. [10/9/2001]
Legalidade – mulheres (revolta da calcinha)
Tão logo acabou a reunião no Piratini, João Goulart se despediu de Machado Lopes e chegou na frente do Piratini, parece que ele queria ir até a calçada. Mas aí começou uma grande gritaria, uma grande reação da multidão. O acordo foi uma decepção. As mulheres tiraram as calcinhas e passaram a exibir para os que estavam na sacada do Piratini, algumas delas gritando: ‘Vocês são dirigentes ou não? Como é que vão se entregar?” Elas tiravam as calcinhas e gritavam, “Tomem! Tomem!”, para os homens. Houve muita gritaria, muita vaia, muito desaforo. [18/7/2001]
Legalidade – e guerra civil
Foi o único golpe, na América Latina, estruturado, organizado, já implantado no governo, que foi frustrado por causa da resistência popular. Porque a resistência foi popular. Houve aquele momento da Legalidade, um momento importante. Pela primeira vez um movimento civil derrubou um golpe militar que já estava instalado. Os três ministros estavam em Brasília, aboletados, decretando. E, no entanto, aquilo tudo caiu. Foi um fato importante. Tão importante que dividiu as Forças Armadas. E por um triz não saiu uma guerra civil naquele episódio. A guerra que ia ser vitoriosa, se saísse. Tenho esta convicção. [12/2/2001]
Golpe de 64 – Jango tinha que botar pra quebrar
Jango era um homem bom, totalmente bom, mas inexperiente. Era ladino, esperto, bom político, mas inexperiente. Ele era uma criança na mão deles. A ele faltava uma coisa que costumo chamar de ‘coragem inconsciente’: aquilo que fizemos ali na Legalidade – diante dos tanques; diante dos aviões; diante da Marinha, que já descia para o Rio Grande do Sul; diante do Exército; diante de tudo. Nós, diante daquilo, botamos pra quebrar: ‘Ah, é? Então vai ser assim: vocês vão vencer, mas terão que reduzir tudo a escombros’. Os golpistas de 61 se viram diante de uma realidade que não imaginavam. Pensavam que iam levar no grito. Eu não tenho a menor dúvida de que João Goulart não caía, em 1964, se botasse pra quebrar. Ele tinha que enquadrar o Lacerda, que ficava fazendo provocações a partir do Palácio. Jango tinha que convocar o Aragão, que era meio louco, e dizer: ‘Aragão, pega a tua gente, entra lá no palácio do Lacerda e quebra aquilo tudo lá’. Pronto! A metade corria… Os outros não teriam condições de resistir, porque não tinham moral nenhuma com a tropa. [12/3/2003]
Golpe de 64 – Oromar Osório
Na crise do golpe visitei o general Oromar Osório – na época, Comandante da Vila Militar, aqui no Rio de Janeiro. Ele era meu amigo; eu o conhecia, foi o grande general de 61. Antes de Machado Lopes se decidir, ele, que comandava uma divisão em Santiago, já se decidira. Era um sujeito decidido cem por cento. E eu o procurei ali, o golpe de 64 já nas ruas, antes de partir para o Sul pensando em resistir. Ele me disse: “Brizola, estou aqui e todo vem aqui fazer análise, análise, análise, análise e análise! Ninguém me faz uma síntese!”.
Ele estava desesperado: queria receber uma ordem e percebia que estava perdendo pé da situação aqui. Ele queria uma ordem e como, não a recebia, não podia fazer nada. Os militares não atuam sem ordem. Então Oromar estava vivendo aquela circunstância, ligado a outros companheiros dele. Os generais que estavam tomando atitude, infelizmente, estavam agindo a favor do golpe. Ele ainda me disse: “É, estou no direito de tomar atitude contra o golpe” – quando o general Murici, que era chefe do Estado-Maior, anunciou apoio ao golpe. Mas ele estava isolado e precisava da ordem que não veio. [15/3/1999]
Exílio – Brizola foi internado em hospício
Nossos valores vêm do Presidente Vargas, passaram para João Goulart e depois caíram nos meus ombros. Não sei explicar bem porque – porque não é uma coisa que se possa passar no cartório. Minha vida vem de longe; tem coerência. Houve período mais massacrante do que o da ditadura? Foram 20 anos e aqui era até proibido falar no meu nome. Quando falavam, era para dizer ‘está morto’. Um jornal de Belo Horizonte chegou a publicar uma manchete: “Brizola louco, foi internado no hospício”.
É… Estou dizendo… Fui internado lá, no Uruguai – por um decreto. Na verdade, fui confinado num determinado lugar. Houve um internamento político, mas aqui disseram: “Brizola foi internado, foi para um hospício”. Chegava carta, lá. Chegava carta. E eles aqui, manobrando com tudo. Podendo fazer tudo. Eles incentivaram a criação do PT. Não se podia falar em mim, mas Lula era capa de revista. E assim iam fazendo. Quer tempo que eu estive mais por baixo do que esse? Eles diziam que eu nunca mais iria voltar. E pegavam nossos amigos para judiar nas prisões. Às vezes, estavam no Rio Grande do Sul e tinham certos oficiais do Exército, que nem sei quem são, que botavam o dedo no nariz de conhecidos meus, porque eles iam lá no Uruguai. “Ele jamais vai voltar; e você ainda tem coragem de falar no nome dele aqui?”. [12/2/2001]
Governo RS – acampamento rural
Jango criou os acampamentos e nós criamos uma instituição para os camponeses sem terra. Tudo partiu da inspiração que despertou em nós o nosso Julião, com as suas Ligas Camponesas. Lá no Sul, pensamos: aqui, em vez de Liga, vamos criar uma associação, um nome mais pacífico e mais conciliador. Criamos a Associação dos Agricultores sem Terra. E foi só criar! De lá vieram companheiros que hoje estão velhinhos como o pai de um de nossos deputados, Wilson Muller, o nosso Milton Rodrigues. Criamos centenas, milhares de associações. E depois veio até uma federação. Fomos semeando, agrupando agricultores, filhos de agricultores sem terra que não sabiam para onde ir – muitos iam para o Paraná, Mato Grosso ou Santa Catarina, mas a maioria ficava lá no Rio Grande do Sul.
Um dia nos ocorreu a idéia: como a Constituição dizia que qualquer brasileiro poderia se reunir livremente em qualquer lugar público para reivindicar os seus direitos, vimos que podíamos fazer. Ao longo de uma estrada, de um rio, de um arroio, pelo menos no verão, podíamos fazer um acampamento – já que o inverno é duro – e reivindicar legitimamente áreas produtivas abandonadas. Daí surgiu o primeiro acampamento, tudo feito de forma a se desenvolver. Foi em um lugar chamado Sarandi.
Colocamos lá uma grande cruz de madeira, enorme. Isto foi no tempo em que estava doutrinando para o mundo o grande papa João XXIII, falando em reforma agrária e tudo o mais. Então, colocamos aquela cruz: “Acampamento João XXIII, queremos terra!” Naquele tempo foi um acontecimento, assustou a todo mundo. Dentro de poucos dias lá estavam mais de cinco mil pessoas. Levamos a imprensa lá para mostrar o nível de organização daqueles trabalhadores. Eu consegui dois aviões e organizamos uma visita ao local, levamos o comandante do III Exército, juízes, deputados, empresários, para ver o que era aquilo.
Lembro que havia um serviço de som muito precário e eu conversei com todos eles: “E vocês, de onde são e o que são? São comunistas?” Eles disseram: “Comunistas não, governador, aqui não tem comunistas não; somos todos agricultores”. E eu pedi: “Mostrem as mãos, quero ver se vocês têm mãos de agricultores”. E mostrei para o general aquelas mãos que mais pareciam pedras, de tão duras e calejadas pelo trabalho. E eu perguntava: “E família, filhos, vocês tem? Quem tem cinco filhos?”, um mar de braços levantados. “Quem tem dez filhos?”, outro mar de braços… Um deles queria ser o campeão, com 18 filhos, mas houve protesto e logo apareceu um com 21 filhos. Perguntei o que eles queriam, se pretendiam invadir terras, e eles disseram que não, que só queriam trabalhar. E prossegui: “Alguém aqui vai à missa” – o Arcebispo estava presente… – e a resposta: “Nós vamos a missa lá longe, porque o padre não quis fazer uma missa aqui para nós”. Perguntei: “De onde vocês vêm, como chegaram aqui?” Todos explicavam que vinham de fazendas, de estâncias, desempregados e tudo o que queriam era terra para trabalhar.
Como o general comandante estava presente, perguntei: “Alguém aqui serviu o Exército?” e foi aquele mar de braços, todos estavam em dia com as suas obrigações militares. E eu provoquei ainda mais: “E na guerra, alguém aqui foi da FEB?” Apareceram diversos braços erguidos. Aí o general se comoveu. E um deles pediu licença: “Nos prometeram tudo e agora nos negam até um pedacinho de terra”, reclamou um ex-pracinha indignado. Depois foram tantos outros acampamentos e muitas desapropriações. Mas também veio a linha dura do golpe. Algum tempo depois, quando voltei do exílio, achei bom ir lá de novo para ver o que tinha acontecido durante aqueles anos duros. Convidei alguns companheiros para ir, e constatei que até hoje eles estão lá, em Sarandi. [27-08-93]
Conselho a Collor
Eu disse ao Collor: “Presidente, se eu fosse o senhor, iria à televisão. Abra a discussão com quem quer que seja” – até citando nominalmente: “Olha, o deputado fulano disse isto, ele não tem razão, ou eu agradeço a sua sugestão, suas opiniões. Mas diretamente. Acho que quanto mais o senhor for à televisão – ainda mais que o senhor te facilidades, pode convocar uma rede –, mais leva informação. Precisamos ter o povo informado, porque a informação é realmente uma espécie de antídoto de todo e qualquer movimento golpista”.
O golpe só se concretiza quando estamos diante de uma população desinformada. Em todo aquele movimento de 61 que evitou o golpe – claro, depois veio o respaldo da divisão do III Exército que ficou do lado da legalidade – mas essencialmente o que valeu foi a informação, foi o rádio que levou informação. Eu disse ao presidente: o senhor tem que levar a informação e falar. Acho que isso é uma necessidade. Foi a sugestão que eu dei. No meu caso, iria até ao questionamento dos adversários, porque é meu método combater também as incoerências, a falta de autoridade moral, muitas vezes política, de um adversário. Tenho muito medo destes estados de histeria, porque os antecedentes nos mostraram que levam a conseqüências funestas. [28-04-92]
Brizola nos EUA
Lá em Nova York, na Câmara de Comércio Brasil – Estados Unidos, aquela gente importante me olhava, com certa curiosidade, para ver como é que esse Brizola de cabelos brancos, já setentão, ainda seria uma ameaça. Tanto que perguntaram de chofre: “O senhor, eventualmente na Presidência da República, honraria os compromissos assumidos pelos sucessivos governos brasileiros por conta da dívida externa?” Olhei bem, parei um pouquinho e fiz que nem o papa que espera um pouco só para criar expectativa. Aí disse:
“Olha, os senhores sabem que temos milhões de pessoas no Brasil passando fome. Temos milhões de crianças sem colégio, desnutridas, estamos mergulhados numa crise em grande parte devido à insensatez dessa dívida externa. Precisamos atender a essas prioridades, mas de nenhuma forma queremos fazer algum tipo de papelão assumindo uma atitude que de repente deixe mal o nosso país. Mas continuar com o quadro que está aí, é impossível. Os senhores não estão recebendo nem os juros da dívida e nós estamos sem condições de pagar. Estamos dando sucessivas cartas para o FMI e não cumprimos estas cartas. Esta é uma situação deprimente, inclusive até destrutiva moralmente para nós e para os senhores frente a seus acionistas, pois terão que explicar como é que foram emprestar dinheiro para um cliente tão relapso.”
Aí conclui: “Sabem qual é a minha orientação? Negociar, negociar e negociar!” Bom, na medida em que ia repetindo a palavra negociar, aumentava a reação de desabafo daquele plenário. Acharam graça, acharam tudo razoável. [24-11-93]
Justiça política
No meu caso, sinto-me reparado, justiçado, quando ali em frente da minha casa, na avenida Atlântica, sempre tem gente. Eu saio e às vezes pequenas multidões me rodeiam. Ali tem segurança, mais para me auxiliar do que para me proteger. Saio no meio de todas as pessoas e muitas vezes ando só. E ali, entre aquelas pessoas, já tenho identificado alguns dos nossos perseguidores, que andam ali levando o cachorrinho para fazer pipi num lugar ou outro, olhando aquilo tudo. Estou certo de que se os que me cercam soubessem que entre aquelas pessoas está o poderoso fulano daquela época da repressão, até proteção e segurança eu teria que mandar dar a eles. Isto aí chama-se justiça política!
Por exemplo, um homem como o general Geisel, como o general Médici, ditadores poderosos – falar em Brizola para eles devia dar vontade de cuspir, com toda aquela empáfia e importância – eles fizeram tudo o que nós sabemos, mas quando voltei com a minha roupinha, me tornei governador do Rio de Janeiro.
Sabe uma das primeiras coisas que fiz? Tomei conhecimento de que as pessoas que davam segurança para o general Geisel e para o general Médici eram, essencialmente, servidores da polícia estadual, mais precisamente da Polícia Militar. Chamei o coronel Cerqueira, comandante da Polícia Militar, e disse: “Coronel, ponha o seu melhor fardamento e peça uma audiência ao general Geisel e ao general Médici também, ex-presidentes. Chegando lá, bata a sua continência e diga que o senhor está indo á em meu nome, do governador eleito Leonel Brizola”. E isso ocorreu.
Geisel deve ter batido o pé, mas ouviu o coronel transmitir-lhe, em nome do governador, que não iria ser alterada nenhuma vírgula naquele dispositivo que dava segurança à vida dele, e que se ele julgasse necessário um reforço, que tratasse de escolher os funcionários de sua confiança. Claro que ele deve ter ficado muito surpreso, mas declarou ao coronel, comandante da PM e secretário da Polícia Militar, que não estava necessitando de nada e que transmitisse os seus agradecimentos ao governador. O coronel não teve dúvida, levantou-se, bateu continência e se retirou. O mesmo aconteceu com o general Médici. Só uma virada, só uma visão superior da vida é que poderia ensejar um episódio como este. Isto, no meu conceito, chama-se justiça política. [07-01-92]
PT e PMDB
Olho o futuro com fé, da juventude dos meus 70 anos. O povo brasileiro vai sacudir dos seus ombros tudo isto que lhe colocaram, mesmo porque as estruturas que fizeram isto estão aí, aos pedaços. Esse PMDB é uma caricatura, esse PT criou-se naquele período deformador que foi a ditadura. Numa hora dessa ficam na mesma trincheira. [17-12-91]
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Paulo Henrique Amorim condenado a pagar R$ 30 mil a Paulo Preto

A sentença é um marco no direito brasileiro: expressão "afro-descendente" passa a ser injuriosa. Também não se sabe qual a prerrogativa especialíssima que Paulo Preto detém que impede que seu endereço seja divulgado; nem no que consiste tal abalo moral. Cabe recurso.
O jornalista Paulo Henrique Amorim foi condenado a pagar R$ 30 mil a Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, por chamá-lo em seu blog Conversa Afiada de "Paulo Afro-descendente" e por divulgar o endereço em que mora, em São Paulo.
A sentença, do dia 9 de janeiro, é assinada pelo juiz Daniel Luiz Maia Santos, da 4ª Vara Cível de São Paulo, que classificou o trocadilho com o nome de Souza como "atitude discriminatória".
Em outubro de 2010, o ex-diretor de Engenharia de Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) entrou com ação cobrando indenização de Amorim, após este ter publicado foto do prédio em que Souza mora, com endereço. Após descrever o local, Amorim escreve que "lá, apesar de seu salário de funcionário público do governo de São Paulo, de não ser herdeiro de nenhuma fortuna e nem ser tido como um homem rico, vive o engenheiro Paulo Vieira de Souza, o 'Paulo Preto', ou o Paulo 'Afro-descendente'".
À época, o nome (e o apelido) de Souza estampava as páginas de diversos veículos de comunicação, depois que a então candidata à presidência Dilma Rousseff disse em debate que ele havia "sumido com R$ 4 milhões da campanha" de José Serra (rival de Dilma na corrida eleitoral).
A acusação de ter arrecadado dinheiro de empresários em nome do partido e não entregá-lo para o caixa da campanha já havia sido feita por políticos do PSDB anteriormente. Souza era o responsável direto por grande parte das obras viárias do governo de São Paulo e foi demitido oito dias depois de ter inaugurado o trecho sul do Rodoanel.
Na ação, o ex-executivo da Dersa, representado pelo advogado Fernando K. Lottenberg, pede R$ 100 mil de indenização por textos de Amorim que noticiaram "suposto envolvimento na receptação de uma jóia, segundo a notícia, furtada, veiculando e amplificando falaciosas declarações", "suposto recebimento de valores da empresa responsável pelas obras do Rodoanel", "divulgação de endereço residencial do autor" e "caráter discriminatório e racista das matérias".
A defesa de Amorim argumentou que "na condição de conhecido e respeitado jornalista", ele "atuou de forma sóbria e ética".
Ele afirma que o nome de Paulo Preto era repetidas vezes relacionado à operação Castelo de Areia, na qual a Polícia Federal investigou crimes financeiros envolvendo a construção do Rodoanel. Em relação à receptação de jóia, Amorim alega que apenas reproduziu reportagem do jornal ABCD Maior.
Quanto à acusação de racismo, a defesa afirmou que "a expressão 'Afro-descendente' é denominação técnica, comumente utilizada por entidades protetoras da cultura negra, e não possui qualquer conotação de cunho racista". Em relação à publicação do endereço de Souza, sua divulgação, sem menção ao número do apartamento não ensejaria, segundo os advogados do jornalista, violação à vida privada do autor.
Segundo a sentença, "Paulo Henrique Amorim, ao se referir ao autor como 'Afro-descendente', naquele contexto, e mencionar seu endereço residencial, com dados pormenorizados, efetivamente foi além do que lhe permite a liberdade de informação, porque atingiu, em última análise, a dignidade do autor, o que enseja indenização por danos morais", fixados em R$ 30 mil.
Segundo a decisão, chamar Paulo Preto de Paulo Afro-descendente é "infeliz brincadeira" que denota, "senão grave, um destemperado jogo de palavras com assunto de especial sensibilidade, pois nossa sociedade é ainda racista, e qualquer atitude discriminatória, como a acima indicada, deve ser condenada".
A referência ao endereço, com o nome da rua, número do prédio, bairro e cidade, além de foto do prédio, "expõe desnecessariamente a vida privada do autor, porque se de fato é do interesse público informação sobre o que um suposto dinheiro ilícito teria permitido comprar, revela-se absolutamente sem cabimento o apontamento particularizado do local preciso onde o autor moraria".
Quanto à acusação sobre o envolvimento de Paulo Preto com a receptação de jóias, Amorim foi considerado inocente, por ter apenas feito referência "ao que fora apurado por outro veículo de imprensa". O jornalista também não foi condenado por ligar o nome de Paulo Preto à operação Castelo de Areia, ao, fazendo outro trocadilho, chamar o anel viário de São Paulo de "Roboanel".
O juiz afirma que a acusação pôde ser feita, pois "não se exige do jornalista, nem de qualquer veículo de imprensa, apuração aprofundada e precisa de fatos, especialmente os que se referem a condutas lesivas ao interesse público". A condenação é em primeira instância, cabe recurso.
Outras ações
Esta não é a primeira acusação de racismo contra Amorim. Em junho de 2010, a promotora Lais Cerqueira Silva, do MP do Distrito Federal, ofereceu denúncia contra o blogueiro, incluindo trechos de textos publicados no seu site, em que o jornalista faz comentários ofensivos ao também jornalista e advogado Heraldo Pereira.
Em um dos trechos relacionados pelo Ministério Público, o blogueiro diz que "Heraldo Pereira, que faz um bico na Globo, fez uma longa exposição para justificar o seu sucesso. E não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde. Heraldo é o negro de alma branca.
Ou, a prova de que o livro do Ali Kamel está certo: o Brasil não é racista. Racista é o Ali Kamel". Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo, também processa o blogueiro.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve outra condenação de primeira instância que manda Paulo Henrique Amorim a indenizar em R$ 30 mil por danos morais o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel.
O jornalista havia dito em seu site que Kamel é racista. Também no ano passado, a 1ª Câmara Cível da mesma corte já havia condenado o blogueiro a indenizar em R$ 200 mil o banqueiro Daniel Dantas, por abuso do dever de informar.
Amorim responde processos movidos também pelo jornalistas Fausto Macedo (O Estado de S.Paulo); pelo ex-governador José Serra; pelos empresários Naji Nahas, Daniel Dantas, Sérgio Andrade e Carlos Jereissati; pelo senador Heráclito Fortes, pelos advogados Nélio Machado e Alberto Pavie.
No Supremo Tribunal Federal, Amorim responde juntamente com Luís Roberto Demarco pela acusação de corrupção ativa. A ilação é a de que a dupla foi quem dirigiu, nos bastidores, a operação satiagraha, com o objetivo de direcionar a venda da Brasil Telecom.
Clique aqui para ler a sentença da ação de Paulo Vieira de Souza contra Amorim.
Marcos de Vasconcellos
No Consultor Jurídico
No Tirando a Limpo
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Charge online - Bessinha - # 1003

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Quando o poder é tirânico, a revolta é um dever

O Massacre de Pinheirinho: A verdade não mora ao lado
Este vídeo revela os jogos de interesses na expulsão dos 9.000 moradores da ocupação Pinheirinho, de 8 anos, em São José dos Campos. Traz, também, imagens do dia da desocupação (22/01) e depoimentos sobre a truculência policial.
Coletivo de Comunicadores Populares
www.comunicadorespopulares.org
Filmagem e entrevistas: Cristina Beskow, Yan Caramel, Gabriel de Barcellos
Edição: Jefferson Vasques
Errata: No vídeo se fala em 6.000 moradores, quando o certo seria 9.000.

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Naji Nahas tem interesses no despejo de moradores, afirma Protógenes


O conflito fundiário em Pinheirinho, São José dos Campos (SP), teve seu ponto de partida com dois mistérios que já duram em torno de 30 anos.

O primeiro: as terras, que medem mais de 1 milhão de metros quadrados e atualmente são avaliadas em 180 milhões de reais, pertenciam a um casal de alemães assassinados em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Eles não possuíam herdeiros.

O segundo mistério: ninguém ainda soube desvendar como a área passou das mãos do Estado, responsável automaticamente pelas terras após a morte do casal, para a gama de propriedades da Selecta, a empresa do megaespeculador Naji Nahas.

Após 1989, a Selecta faliu a partir das operações malsucedidas de Nahas na Bolsa do Rio. A área do Pinheirinho passou a ser parte da enorme massa falida da empresa. Responsável por levar Nahas à prisão, em 2008, o delegado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), hoje deputado federal, visitou o Pinheirinho no último domingo 22 para acompanhar a expulsão dos moradores do terreno.

Segundo ele, a relação entre o megaespeculador e a massa falida é fundamental para entender a desocupação violenta ocorrida no fim de semana.

“Se a região for vendida, esse valor será descontado da massa falida da Selecta, que se abaterá das dívidas que estão no nome de Naji Nahas. Ele é interessado direto em desalojar as pessoas que estão lá”, afirma.

O deputado, que articulou a Operação Satiagraha em 2008, na qual Naji Nahas foi preso por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, acredita que o poder de influência do empresário foi fundamental para a ação de despejo da polícia no local.

“Ele [Nahas] tem muita influência, sabe se mover entre autoridades, sempre foi assim. As circunstâncias desse desalojamento foram estranhas. A massa falida que detém oficialmente os direitos da área era judicialmente obrigada a fornecer local seguro aos habitantes do Pinheirinho. Isso não foi providenciado. E as autoridades mesmo assim cumpriram a ordem de despejo”.

O deputado disse também que vai pedir na Câmara Federal a criação de uma comissão para investigar se houve grilagem na passagem do nome da área para a Selecta.

Fernando Vives
No CartaCapital
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"Jeito" tucano de governar

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O Brasil está em Pinheirinho

Bastam três minutos de luta social ninguém esquecer do país onde vivemos. Acabo de ver no You Tube as imagens assinadas por Dan Perseguin sobre a invasão da PM na área de Pinheirinho, em São José dos Campos.
As imagens são terríveis porque você não vê a violência da PM batendo nas pessoas. Ouve barulhos de bombas, vê a fumaça, ouve gritos e vê aquela gente que caminha com suas coisas. São brasileiros que procuram um destino. Não querem conforto. São pessoas, apenas pessoas normais.
É o Brasil permanente, aquele que não dá respostas para os mais humildes, que admite o jogo bruto com os indefesos, que humilha e bate.
Os moradores do Pinheirinho poderiam ser qualquer pessoa na fila do ônibus, no metrô. Têm camisetas coloridas, mochilas que lembram aquela que sua filha já usou quando era adolescente. Mas leia um relato que está hoje, na Folha:
Na escola Dom Pedro de Alcântara, transformada em abrigo para 2.500 pessoas, a Folha viu pelo menos três doentes com pneumonia, um com tuberculose e uma pessoa com seqüelas de AVC jogados em colchões no pátio de esportes. Crianças e bebês brincavam em meio a restos de comida e a fezes de pombos espalhados. Um animal morto estava preso na rede da quadra. Apenas quatro banheiros imundos serviam às mulheres. Os homens tinham de se contentar com três. A situação sanitária era tão grave que dois vestiários, no fundo da quadra - sem vaso sanitário ou água encanada - foram improvisados como banheiros também. “Eles querem nos degradar como seres humanos”, disse o motorista Assis David Monteiro, 62.
A maioria dos antigos moradores do Pinheirinho, expulsos de suas casas a partir das 6h do domingo, não teve tempo nem sequer para pegar os próprios documentos. Sem casa, sem documentos, muitos têm apenas uma muda de roupas. E pulseirinhas coloridas, que identificam quem pode entrar nos abrigos da prefeitura. Na escola Dom Pedro, a cor é azul.
Vários desabrigados disseram à Folha que as pulseirinhas estão servindo para discriminá-los. “É como se fosse uma coleira que nos colocaram para nos identificar quando andamos na rua. Vizinhos nos chamam de cachorros do governo”, disse Rogério Mendes Furtado, 28, catador de sucata.
Paulo Moreira Leite
No Vamos combinar
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Reizinho culpa Dilma por Pinheirinho e livra o tucano

O mundo mineral sabe que é pura perda de tempo ler a coluna de Reinaldo Azevedo na Veja.
Não é porque eu não gosto dele, porque não concordo com o que ele diz. Eu leio um monte de coisas ditas por pessoas com quem eu costumo não concordar. Mas é que o reizinho realmente deve imaginar que todos os seus leitores são absolutos estúpidos.
Depois que a mídia deu alguma coisa sobre a violência com a qual a polícia de São Paulo desocupou a favela do Pinheirinho, e, para bom entendedor, meia palavra basta, autorizado pelo sr. Governador daquelas planícies, (o impoluto Geraldo Alckmin), ficou meio claro de quem era a responsabilidade.
Tanto é verdade que o tucanão disse, nas palavras dele, que decisão judicial tem que ser cumprida.
Veja bem, leitor. Atente para os fatos. Alckmin autorizou a desocupação pela polícia. Esse tipo de operação nunca ocorre sem a chancela do Governador que é o chefe da polícia estadual!
Mas reizinho não se contenta. Teve a coragem de dizer para seu povo, que o Governo Federal poderia ter impedido o massacre. Mas como assim? Não foi o Governo estadual, tucano, que ele tanto defende que ordenou o massacre?
Reizinho se prende a argumentos que até uma criança de 12 anos rebate. "O Governo Federal poderia ter feito alguma coisa". Que coisa, cara-pálida? O que ele quer dizer? Que Dilma saberia que Alckmin ia ordenar que a polícia descesse o cacete na pobrarada e não ligou para impedí-lo?
"Alckmin, eu sei que você vai mandar bater nos pobres, mas não faz isso não, querido!"
Bem, pensando melhor, talvez reizinho tenha razão. Ela deveria ter adivinhado que o tucano ia mandar cacetear os favelados. Foi assim em todas as outras desocupações determinadas pelo PSDB, um governo sabidamente de ricos e que tem nojo da pobreza, por que haveria de ser diferente agora?
Reinaldo Azevedo é, de longe, a pessoa mais cara de pau da imprensa brasileira. Ele consegue pegar uma notícia, cuja culpa exclusiva dos fatos é das pessoas que ele tanto defende, e distorcer ao máximo, invertendo a lógica das coisas.
Idêntico é dizer que a culpa pelos crimes do estuprador, é da mãe dele, que não o impediu de nascer.
Sinceramente, você aí, que é leitor da Veja. Não se flagrou ainda que esse povo não bate bem da bola?
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Mauckmin, o anti-Robin Hood: tira dos pobres e dá pros ricos

Mauckmin: desse eu tenho medo...
O desgovernador Alckmin – ou melhor, desgovernador Mauckmin, a partir de agora – consolida a sua carreira política mostrando ao que veio: expulsar os pobres de São Paulo, sonho da elite carcomida e reacionária do estado mais rico da federação.
No melhor estilo anti-Robin Hood, que é o de tirar dos pobres para dar para os ricos.
De preferência utilizando todo a força do aparato repressivo das Polícias Militar e Civil.
Está sendo assim em Pinheirinho, São José dos Campos: tirou a moradia e o local de convivência de seis mil pessoas para dar a um único rico, o Naji Nahas.
Na verdade, temos que ser honestos, esse também foi o plano de Serra e de Kassab, durante suas passagens pela prefeitura de São Paulo e pelo governo do estado.
Faz parte da sanha elitista demo-tucana, felizmente apeada do poder no meu Planalto Central.
Aqui, neste modesto blog, temos mostrado os diversos programas de ação dos desgovernos Alckmin, Serra e Kassab com essa finalidade. Clique nas tags abaixo para acessar os respectivos posts:
No FBI
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Assassinato seletivo: isso serve para provocar a guerra

O jornalista Caio Blinder defendeu, em um programa de TV, o “assassinato” de cientistas que participam do “programa de enriquecimento de urânio do Estado Terrorista iraniano”. Argumentou que é “preciso matar gente agora” para evitar mais mortes do futuro. Cerca de 1.300 estudantes universitários iranianos pediram para mudar as suas áreas de estudo para o campo das ciências nucleares após o assassinato. Veja só Sr Blinder! Será preciso eliminar esses estudantes também porque um dia eles serão cúmplices do projeto nuclear iraniano!
Esta circulando pelos blogs e redes sociais trecho de um programa de TV paga [Manhattan Conection, ver vídeo acima] em que um dos comentaristas, Sr. Caio Blinder, apóia o “assassinato” de cientistas que participam do “programa de enriquecimento de urânio do Estado Terrorista iraniano”. Argumenta que é “preciso matar gente agora” para evitar mais mortes do futuro, além do que, acrescenta, “você intimida outros cientistas”.
O tema já foi intensamente debatido nos EUA, em 2007, quando o professor de direito Glenn Reynolds criticou o presidente Bush por não fazer o suficiente para parar o programa nuclear iraniano (vejam só Bush acusado de ser soft demais!) e, em seguida, defendeu que os EUA deveriam assassinar líderes religiosos e cientistas nucleares iranianos com o objetivo de intimidar o governo do Irã. Portanto, se nos EUA a justificativa para esse tipo de crime não é algo incomum, no Brasil - salvo engano meu- é a primeira vez que aparece publicamente nos meios de comunicação e por isso julgo necessário tecer algumas considerações.
No dia 11 de janeiro de 2012, Ahmadi Roshan, engenheiro químico da usina de enriquecimento de urânio de Natanz, foi assassinado nas ruas de Teerã após explosão de uma bomba em seu carro. É mais um de uma série de acontecimentos similares. Em dezembro de 2011, sete pessoas morreram em uma explosão em Yazd. Em 28 de novembro, uma bomba explodiu nas instalações nucleares em Isfahan. Em 12 de novembro, 17 pessoas foram mortas por uma explosão perto de Teerã.. Em 29 de novembro de 2010, o cientista Shahriari foi morto da mesma forma como Roshan, com uma bomba plantada em seu carro. Em todos os casos as autoridades dos EUA e de Israel negaram veementemente qualquer envolvimento.
Mas qual é o problema? De forma declarada ou encoberta tanto EUA, como Israel, sempre adotaram a tática do assassinato seletivo. Desde 11 de setembro, o governo dos EUA tem realizado operações similares (“assassinatos seletivos”) mesmo fora dos campos de batalha do Afeganistão e do Iraque, como no Iêmen, Paquistão, Somália, Síria e possivelmente em outros lugares, causando a morte de mais de 2 mil supostos terroristas e de incontáveis vitimas civis. A justificativa está fundamentada numa autorização legal, aprovada na Câmara e no Senado, atribuindo ao Presidente o poder para adotar as medidas que julgue necessárias para impedir ou prevenir atos de terrorismo internacional contra os Estados Unidos.
É importante notar que até pouco tempo atrás a justificativa para assassinar civis pressupunha a participação direta desses nas hostilidades. Quando se diz que um assassinato seletivo é "necessário" entende-se que matar era a única maneira de evitar um ataque iminente. Mas no caso dos cientistas é praticamente impossível afirmar que matá-los era necessário para impedir o Irã de lançar um ataque nuclear iminente contra Israel ou qualquer outro país. A não ser que haja uma nova doutrina em formação: “assassinato seletivo preventivo”.
Voltando ao porta-voz brasileiro dos fundamentalistas norte-americanos, o Sr. Blinder, que é uma pessoa bem informada, sabe que além da quantidade e qualidade de urânio ou plutônio, a produção de armas nucleares também requer os meios para levá-las ao seu destino (mísseis e ogivas). Portanto, é um projeto que envolve grande quantidade de cientistas, engenheiros e operadores. Levando à extremidade lógica o argumento dos fundamentalistas, será preciso assassinar mais algumas centenas ou mesmo milhares de pessoas. Claro, com o nobre objetivo de evitar mais mortes! Aliás, 90% das mortes de norte-americanos no mundo ocorrem devido à utilização de armas e munições produzidas no próprio EUA.
Portanto, somos tentados a concluir que os responsáveis pela indústria bélica (armas leves) nos EUA deveriam ser assassinados, pois evitaria a morte de milhares de norte-americanos? A ser levada a sério essa proposta (assassinato de cientistas), não é improvável que os congressos científicos internacionais acabem se convertendo em um verdadeiro festival de tiroteios e bombas. Aliás, o suposto efeito da intimidação, pressuposto dessas ações, está gerando um efeito oposto. Cerca de 1.300 estudantes universitários iranianos pediram para mudar as suas áreas de estudo para o campo das ciências nucleares após o assassinato. Veja só Sr Blinder! Será preciso eliminar esses estudantes também porque um dia eles serão cúmplices do projeto nuclear iraniano!
Dentro da mesma linha de raciocínio o proprietário do Atlanta Jewish Times, Andrew Adler, pediu desculpas na semana passada depois de sugerir que o assassinato do presidente Obama era uma opção que deveria ser considerada pelo governo israelense, conforme relatado pelo Huffington Post. De acordo com Adler, Israel tem apenas três opções disponíveis para se manter seguro: 1. atacar Hezbollah e o Hamas, 2. destruir as instalações nucleares do Irã; 3. assassinar Obama!
Estranhamente o “assassinato seletivo” ocorreu três dias após a afirmação do secretario de Defesa dos EUA de que era improvável que os iranianos estivessem tentando desenvolver uma arma nuclear e no momento em que governo iraniano reiniciava as negociações com o grupo (P5 +1) para autorizar a realização de uma visita de delegados da Agência Internacional de Energia Atômica em seu pais.
Fica claro que o objetivo do assassinato dos cientistas é provocar uma forte reação da linha dura iraniana justificando, dessa forma, os famosos ataques preventivos. De acordo com reportagem na Foreign Policy, que teve acesso a memorandos elaborados pelo governo Bush, a Mossad usa as credenciais da CIA para recrutar membros da organização Jundallah (considerada terrorista pelo governo dos EUA) para lançar ataques contra o Irã. Como notou o analista internacional, Pierre Sprey, vivemos um daqueles raros e perigosos momentos da história, quando o “Big Oil” e os israelenses estão pressionando a Casa Branca na mesma direção. A última vez que isso aconteceu resultou na invasão do Iraque.
Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
No Carta Maior
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FHC dá a senha para o descarte de Serra

Para FHC, Aécio Neves é 'candidato óbvio' do PSDB à Presidência
Em entrevista à 'Economist', ex-presidente diz que Serra pode 'abrir espaço' em 2014
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apontou o senador mineiro Aécio Neves como "candidato óbvio" do PSDB à Presidência em 2014. Em entrevista à publicação britânica The Economist, FHC prevê uma "luta interna muito forte" entre Aécio e o ex-governador de São Paulo, José Serra, pela indicação do partido nas eleições nacionais.
Em uma conversa com a jornalista Helen Joyce, chefe do escritório da revista em São Paulo, realizada no dia 12 de janeiro, o ex-presidente destaca a importância de unidade dentro do PSDB para a escolha de seu candidato daqui a três anos. Questionado sobre quem seria o "candidato natural", FHC respondeu sem rodeios: "Aécio Neves".
O tucano não retira Serra da disputa, indicando que "as coisas ficarão mais claras depois das eleições municipais". No entanto, FHC indica que o ex-governador pode desistir da disputa para promover a renovação do partido e chega a compará-lo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputou a Presidência diversas vezes.
"No caso do PSDB, o ex-governador Serra desempenha o papel do Lula: ele tem coragem, ele gosta de competir. Eu não sei até que ponto ele vai estar convencido de que isso não é para ele, que deve abrir espaço para os outros", avaliou o ex-presidente.
Já a participação do governador paulista Geraldo Alckmin na disputa nacional de 2014 foi praticamente descartada por FHC.
O ex-presidente criticou a campanha tucana à Presidência em 2010, quando Serra foi derrotado por Dilma Rousseff no 2º turno. Ele afirma que "o PSDB cometeu erros enormes" e insinua que o fracasso se deveu ao isolamento de Serra dentro do partido.
Bruno Boghossian
No Estadão
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Em janeiro, IPCA-15 fica em 0,65% - Reajustes das tarifas de ônibus é o responsável pela alta


O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) teve variação de 0,65%, em janeiro, acima da taxa de 0,56% de dezembro em 0,09 ponto percentual. No acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA-15 ficou em 6,44%, abaixo dos 12 meses imediatamente anteriores (6,56%). Em janeiro de 2011, a taxa havia sido de 0,76%. A publicação completa do IPCA-15 pode ser acessada na página http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/ipca15/defaultipca15.shtm
O grupo Transportes, com variação de 0,79% e impacto de 0,15 ponto percentual foi o responsável pela aceleração do IPCA 15 de janeiro, em relação a dezembro, em virtude, principalmente, do reajuste das tarifas dos ônibus urbanos nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e Belo Horizonte e dos ônibus intermunicipais em várias regiões. Os alimentos, com 1,25% em janeiro, índice próximo a 1,28%, referente a dezembro, também pressionaram a taxa do mês, com impacto de 0,29 ponto percentual. Com isto, o IPCA 15 de 0,65% teve 0,44 ponto percentual de impacto dos dois grupos, o que significa 68% do índice.
Os ônibus urbanos (de 0,00% em dezembro para 1,13% em janeiro) e os intermunicipais (de 0,02% para 2,46%) contribuíram com 0,07 ponto percentual para o resultado do mês. Além das tarifas dos ônibus, aumentaram, também, os preços das passagens aéreas (de –2,06% para 10,54%), automóvel novo (de -0,37% para 0,39%), seguro voluntário (de –6,73% para 2,46%), levando o agrupamento dos não alimentícios de 0,34%, em dezembro para 0,62% em janeiro.
A refeição consumida fora do domicílio, com 1,63% em janeiro ante os 1,13% de dezembro, ficou com o maior impacto individual do mês, 0,08 ponto percentual. Consumidos fora, continuaram subindo, o lanche (de 1,57% para 1,42%), refrigerante (de 1,06% para 1,37%) e cerveja (de 1,18% para 1,27%).
Vários alimentos consumidos no domicílio também contribuíram para o maior resultado de um mês para o outro, com destaque para: tomate (de –1,63% para 11,22%), feijão carioca (de 2,51% para 10,42%), batata-inglesa (de –5,77% para 4,29%), carnes (de 4,36% para 2,03%), frutas (de 1,64% para 1,44%) e arroz (0,62% para 1,06%).
Em janeiro, o grupo Habitação teve o mesmo resultado de dezembro, 0,54%. Alguns itens continuarem em alta como: aluguel residencial (de 0,71% para 1,33%), condomínio (de 0,74% para 0,70%), taxa de água e esgoto (de 0,00% para 0,13%). Energia elétrica, porém, apresentou queda de 0,28%, em janeiro, após alta de 0,65% em dezembro. Saúde e Cuidados Pessoais (de 0,41% para 0,40%), registrou variações próximas, devido, principalmente, aos resultados dos remédios (de 0,26% para 0,02%) e dos artigos de higiene pessoal (de 0,31% para –0,10%).
Vestuário (de 1,10% para 0,19%), Artigos de Residência (0,05% para –0,68%) e Despesas Pessoais (de 0,74% para 0,55%) apresentaram, em janeiro, resultados inferiores aos de dezembro. A tabela a seguir mostra os resultados.
Sobre as regiões pesquisadas, Rio de Janeiro apresentou a maior taxa (1,01%), em virtude dos resultados dos ônibus urbanos (4,00%) e intermunicipais (3,01%), bem como dos alimentos (1,93%), a maior taxa entre as regiões pesquisadas. O menor índice ficou com Porto Alegre (0,39%), onde os alimentos variaram somente 0,04%. A seguir, a tabela com os resultados por região:
Para o cálculo do IPCA-15 os preços foram coletados no período de 14 de dezembro a 13 de janeiro e comparados com aqueles vigentes de 15 de novembro a 13 de dezembro. O indicador refere-se às famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos e abrange as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia.
No IBGE
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O passado que a Argentina enfrenta com a coragem que o Brasil não tem

A frase inesperada congelou a plateia colorida de azul, branco e marrom cáqui que lotava na segunda-feira, 12 de dezembro, o Salão San Martín, o espaço nobre do Edifício Libertador, sede do comando do Exército em Buenos Aires. Perfilados diante do ministro da Defesa, Arturo Puricelli, os brigadeiros, almirantes e generais do Alto Comando das Forças Armadas argentinas ouviram, crispados, a sentença súbita e cortante da autoridade que subvertia o rígido protocolo castrense:
Forti: "Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos"
— ¡ Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos! — improvisou o advogado e diplomata Alfredo Waldo Forti, 61 anos, ao prestar o juramento de praxe para renovar seu mandato como Secretário de Assuntos Internacionais da Defesa. Nenhum militar aplaudiu, mas nenhum protestou. Todos respeitaram a frase atrevida de Forti, que dava ali o seu corajoso testemunho pessoal diante da corporação fardada que legou à Argentina, no período da chamada ‘guerra suja’ de 1976 a 1983, o desonroso título de ditadura mais sangrenta entre os regimes militares que sufocaram a democracia no Cone Sul do continente, na segunda metade do Século 20.

Nélida Azucena Sosa de Forti:
presa no avião quando saía do país com os 6 filhos
Forti e sua mãe são símbolos dessa violência — ele como sobrevivente, ela como um nome a mais na multidão de desaparecidos políticos no período da repressão militar. A bela morena Nélida Azucena Sosa de Forti, ex-integrante dos Montoneros, o movimento guerrilheiro da esquerda peronista, tinha acabado de embarcar no voo 284 da Aerolíneas Argentinas que sairia do aeroporto de Ezeiza rumo a Caracas, na manhã de 18 de fevereiro de 1977.
Fugindo do clima político cada vez mais fechado do país, desde o golpe militar desfechado um ano antes, Azucena levava consigo os seis filhos, de 6 a 16 anos, incluindo Alfredo, o mais velho. Já com os cintos afivelados para a decolagem, tiveram que desembarcar, chamados de repente para resolver ‘problemas de documentação’. A mãe e as crianças foram recebidas por agentes armados da polícia de Buenos Aires, subordinada ao Primeiro Corpo de Exército. Com os olhos vendados, foram colocadas em dois carros e levadas para o Pozo de Quilmes, um quartel da Brigada de Investigações da polícia localizado numa cidade da região metropolitana, ao sul da capital.
Faca no voo
Forti para Bussi: "Não tenho problema nenhum em
cravar a faca cinco vezes em você. Mas a formação que
recebi de minha mãe me diz que esta não seria a maneira
certa"
Uma semana depois, as crianças reapareceram, vendadas com lençol e amarradas na árvore de uma praça no Parque Patrícios. Azucena ainda foi vista por um prisioneiro de Quilmes na primeira semana de março, até ser transferida para a chefatura de polícia de San Miguel de Tucumán, sua cidade de origem, 1.300 km a noroeste de Buenos Aires. A ordem de prisão e transferência para Tucumán partiu do general Antonio Domingo Bussi, que comandava a repressão mais feroz à guerrilha rural mais ativa do país na menor província da Argentina.
Azucena foi vista com vida, pela última vez, no centro clandestino de detenção conhecido como Arsenales, na saída norte da cidade, onde funcionava a Companhia de Arsenais Miguel de Azcuénaga, da V Brigada de Infantaria. Era um típico campo de concentração, cercado por duas cercas de alambrado separadas por uma faixa de terra vigiada por soldados e cães e altas torres de sentinelas.
Alfredo Forti e seus cinco irmãos nunca mais tiveram notícias de Azucena. No final da década de 1990, advogado com banca em Washington e consagrado assessor político dos governos do Peru, Equador e Guatemala, ele descobriu que dividia casualmente o mesmo voo da Aerolíneas com o algoz de sua mãe, Bussi, então um septuagenário general reformado. Naqueles tempos, a refeição era servida com talheres de metal, não de plástico. Em pleno voo, Forti deixou sua poltrona e foi até onde se sentava o general. Sem se apresentar, inclinou-se sobre ele, entreabriu o paletó e lhe disse:
Até o parceiro norte-americano exigia
explicações sobre a mãe de Forti
— Estás vendo esta faca? Não tenho problema nenhum em cravá-la cinco vezes em você. Mas a formação que recebi de minha mãe me diz que esta não seria a maneira certa de resolver as coisas. Eu quero te ver apodrecer no cárcere! — amaldiçoou Forti, deixando para trás, tremendo, o homem que fazia a Argentina estremecer na década de 1970.
Caso americano
O nome de Bussi fazia abalar o prestígio da Argentina até nos Estados Unidos, no auge da ditadura. O National Security Archive da Universidade George Washington revelou, em 2002, o conteúdo de 4.600 documentos secretos do Departamento de Estado que abordavam violações de direitos humanos no país. O telegrama 04997 que a Embaixada em Buenos Aires enviou a Washington, no dia 29 de junho de 1978, relacionava os nomes de 103 pessoas das quais o governo norte-americano exigia informações. Um dos “casos de direitos humanos de interesse para os Estados Unidos” era o nº 71-77-5, de Nélida Azucena Sosa de Forti, com o status de “desaparecida”.
Azucena e milhares de compatriotas começam a desaparecer quando emerge, no mapa argentino, a sinistra figura do CCD. É a sigla dos Centros Clandestinos de Detenção, instalações secretas das Forças Armadas para executar o mesmo plano que Adolf Hitler, em 1941, batizou poeticamente de Nacht und Nebel (Noite e Névoa): um projeto de Estado para o desaparecimento de opositores ao regime. Os generais argentinos, como seus confrades nazistas, programaram a eliminação física dos dissidentes numa operação que começava com os sequestros, geralmente sob o manto da noite, e depois se completava pela névoa do desaparecimento sem pistas, sem rastros.
Havia método na loucura, como bradava Hamlet. Os CCD, apesar das diferenças, tinham uma estrutura básica e eficiente: uma ou duas salas de tortura, espaço amplo e indecente para receber os presos e alojamento decente para abrigar os guardas e torturadores. Todos tinham serviço médico e, em alguns casos, até um capelão para atender a consciência pesada dos mantenedores da ordem.
Inspiração brasileira
Começaram em meados da década de 1970 como pequenas casas ou porões clandestinos e, à medida que endurecia o regime, cresciam os CCD, espalhados pelos maiores quartéis do país, todos engolfados no turbilhão da tortura. Em 1976, ano do golpe de 24 de março, 610 CCD assombravam o país. Havia 68 deles só na província de Buenos Aires, 13 apenas na capital — incluindo os temidos CCD da ESMA, a temida Escola de Mecânica da Armada, e do Campo de Mayo, o maior quartel do país.
Bussi: uma das mais terríveis faces da repressão argentina.
A província de Tucumán, onde reinaria o general Bussi, tinha 16 CCD, a metade deles apenas na capital, San Miguel, terra onde nasceu a cantora Mercedes Sosa e onde desapareceu Azucena. Era um número espantosamente grande de terror disseminado por um único país. Os CCD excediam, em número, aos DOI-CODI da ditadura no Brasil (1964-1985), um país três vezes mais extenso, quase cinco vezes mais populoso e assolado por um regime de arbítrio três vezes mais longevo do que a da ditadura na Argentina (1976-1983).
A receita brasileira surgiu bem antes, em 1969, com a modelar OBAN, a Operação Bandeirante do II Exército, em São Paulo, que inovou unindo inteligência e violência das Forças Armadas, da Polícia Militar e dos policiais mais truculentos das delegacias da capital, onde despontou a liderança do delegado Sérgio Fleury, que se tornaria o símbolo internacional da repressão brasileira como estrela maior do DOPS.
Um ano depois, a fórmula de sucesso foi definitivamente militarizada, sob o comando do Exército, com a criação dos Destacamentos de Operações de Informações, os DOI do serviço sujo, que saíam às ruas para combater, sequestrar e torturar os militantes da guerrilha urbana. Eram coordenados pelos Centros de Operações de Defesa Interna, os CODI. Nascia a marca mais letal do regime brasileiro: os DOI-CODI, parceria macabra que se estendia pelos dez mais importantes comandos militares do país, nas grandes capitais.
Essa dezena de repartições públicas do terror, na estimativa do historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de Como eles agiam — os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política (ed. Record, 2001), abrigava cerca de 1.000 pessoas diretamente envolvidas com a repressão e a tortura — a quinta parte do efetivo do SNI, 5.000 arapongas, no auge do Governo Figueiredo. Antecipando os CCD argentinos, os militares brasileiros ainda montaram sete centros clandestinos de tortura em cinco Estados diferentes.
Hilton e Sheraton
Doi-Codi Hilton e CCD Sheraton, maus locais de hospedagem
Um sítio em Sergipe, um apartamento em Goiânia, uma casa no Recife, três locais em São Paulo (uma casa na avenida 23 de Maio, um sítio em Atibaia e uma chácara em Parelheiros, na zona rural paulistana) e a ‘Casa da Morte’, uma residência de aspecto acolhedor, com varanda e lareira na sala, numa rua tranquila de Petrópolis, na serra fluminense. O lugar, como um superlativo dos horrores comandados pelo CODI, ganhou um cifrado apelido dos militares que o frequentavam: “Codão”.
Os DOI-CODI mais importantes estavam nas duas maiores cidades brasileiras. O do Rio de Janeiro, instalado no quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, registrou 735 denúncias de torturas, segundo o projeto Brasil Nunca Mais. Num espaço de 21 meses, entre julho de 1972 e março de 1974, quando o I Exército era comandado pelo general linha-dura Sylvio Frota, morreram ali 29 presos. O maior e mais notório DOI-CODI do país era o de São Paulo, com 250 homens da PM e da polícia civil, integrado ainda por 10 oficiais do Exército, 25 sargentos e cinco cabos sob o comando de seu fundador, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Ele redesenhou o 36º Distrito Policial, uma decadente delegacia a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, para instalar ali o DOI-CODI que se tornou o símbolo mais sangrento do regime: passaram por lá 2.541 ‘subversivos’ e 51 ‘terroristas’ morreram trocando bala com sua equipe barra-pesada, na heroica versão do próprio Ustra. Nos 40 meses em que o major reinou ali, entre 1970 e 1974, houve 502 denúncias de tortura (uma a cada 60 horas) e 40 mortos (um por mês) nos interrogatórios, segundo levantamento da Arquidiocese de São Paulo.
O centro de torturas de Ustra ficava na esquina da rua Tutóia com Tomás Carvalhal. Quando um preso era levado para lá, os agentes do DOI-CODI brincavam com a fama do lugar: “Agora você vai conhecer o Tutóia Hilton“, diziam. O que era Hilton, no Brasil, era conhecido como Sheraton na Argentina. O CCD Sheraton funcionava na subcomissária de polícia de Villa Insuperable, em La Matanza, o mais populoso dos municípios da região metropolitana de Buenos Aires, onde vivem 13 milhões de pessoas, a maior aglomeração do continente, abaixo só de São Paulo.
Martinez de Hoz, com um CCD
(Centro Clandestino de Detenção) em sua empresa
Era um prédio de dois andares, com a garagem e as celas no térreo e a sala de tortura no andar superior, situado a quatro quadras da avenida General Paz, uma movimentada via de 24 km de extensão que margeia a capital ao norte e a oeste. Um CCD chegou a funcionar em 1975 na maior siderúrgica do país, a Acindar, presidida por José Alfredo Martinez de Hoz, a versão portenha de Delfim Netto, o poderoso ministro da Economia ao longo dos cinco anos do brutal governo do general Jorge Videla.
A patota dos Falcon
Talvez para amenizar a sombra que pairava sobre os CCD, os generais da névoa argentina lhes outorgavam codinomes ou apelidos singelos, quase inocentes, que camuflavam sua lúgubre destinação: El Campito, La Perla, Los Plátanos, El Banco, El Chalecito, La Casita de Los Mártires, El Olimpo, El Motel, La Escuelita para Mudos. Como os DOI brasileiros, os CCD argentinos contavam com seus grupos de busca e apreensão, os GT (ou grupos de tarefas), conhecidos como patotas.
Milhares de retratos em branco e preto que jamais foram atualizados
Foto-montagem de Emmanuel Frezzotti / Flickr
A eles cabiam a captura dos subversivos, circulando pelas ruas das cidades nos temidos sedã Ford Falcon azul ou verde, quatro portas, que formavam a frota da repressão. Os presos eram detidos, encapuzados, algemados e levados ao CCD para a tortura, praticada pela mesma patota, durante um ou dois meses. Após este período, os detidos simplesmente desapareciam, sumiam.
Como toda ditadura, a argentina recriava o idioma para ocultar sua maldade. Ninguém era preso, apenas chupado, eufemismo militar para quem era preso. Entre os repressores, os CCD eram conhecidos como chupaderos. Da mesma forma, ninguém morria. Os detidos que eram desaparecidos passavam apenas por um translado. Não importava a forma final utilizada, fosse fuzilamento em massa, fossa comum, incineração de cadáver ou uma tumba com a lápide NN (no nombrado), todos eram apenas transladados.


Pichação num muro de Buenos Aires
Quem tivesse o azar de ser sugado por um chupadero dos CCD dificilmente escaparia do translado. No CCD El Olimpo, num bairro do lado oeste, a 100 metros da agitada avenida Rivadavia que atravessa Buenos Aires, foram chupados cerca de 700 homens e mulheres. Menos de 50 saíram vivos dali. Na ESMA, a escola de morte da Marinha na capital argentina, passaram mais de 5.000 presos, dos quais sobreviveram pouco mais de cem. O CCD El Campito foi instalado no coração do maior quartel argentino, o Campo de Mayo, a 30 km do centro de Buenos Aires. Ali sobreviveram apenas 43 dos 5.000 detidos chupados pela repressão. Ele tinha um requinte a mais: o hospital militar utilizado para os partos clandestinos nas prisioneiras. Após o nascimento, o bebê era chupado para famílias dos militares e a mãe, usualmente, era submetida ao translado inapelável. Cerca de 500 bebês, sequestrados de pais desaparecidos, fazem parte desta tétrica estatística argentina.


"Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros",
ordenou Isabelita
O primeiro CCD do país surgiu, por ironia, na terra natal da transladada Azucena. Em 1975, ainda antes do golpe de Videla, o Exército aproveitou o prédio inacabado de uma escolinha na saída oeste da cidade de Famaillá, a 40 km da capital de Tucumán, San Miguel, para instalar o seu primeiro centro clandestino, que passou à história como La Escuelita. Das oito salas de aula, sete viraram celas e a última, o local de tortura. A menor província do país estava agitada, como foco guerrilheiro escolhido pelo grupo trotskista ‘Exército Revolucionário do Povo’ (ERP) para confrontar o regime da presidente Isabelita Perón, aproveitando a geografia montanhosa da região aos pés dos Andes.

A sanha de Isabelita


Linha duríssima superada por Bussi
O governo lançou a ‘Operação Independência’, para reprimir a guerrilha do ERP, sob a chefia do general Acdel Edgardo Vilas, comandante da V Brigada de Infantaria de Montanha, baseada em Tucumán. Linha duríssima, ele confiava mais na bala do que na lei: “É mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que condenar um subversivo num tribunal”, avisava Vilas. Pela agulha do CCD de Famaillá passaram, nas contas do general, 1.507 pessoas, mas cálculos mais realistas falam em mais de 2.000 pessoas.
La Escuelita já operava com força quando a presidente da República visitou o Comando Tático de Famaillá, a cinco quadras dali, para insuflar a sanha assassina dos militares: “Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros”, ordenou Isabelita, com ímpeto chupadero, meses antes dela mesmo ser transladada do poder pelos companheiros de armas de Vilas.
Bussi logo encontrou o que fazer
Uma investigação posterior de parlamentares apurou que, sob o comando do general, Tucumán assistiu a 123 sequestros de opositores — dos quais 14 foram assassinados e 77 simplesmente desapareceram, transladados. Quando o general Antonio Domingo Bussi chegou para assumir o comando, no final de 1975, lamentou-se com seu antecessor: “Vilas, você não me deixou nada por fazer!…”.
Modéstia de Bussi. Entre 1976 e 77, o general fez três vezes mais do que Vilas: aconteceram 371 desaparecimentos na província — 194 deles supostos militantes Montoneros ou meros simpatizantes. Numa comissão de investigação parlamentar, Osvaldo Humberto Pérez — que foi chupado pelo CCD Arsenales e, ao contrário de Azucena, sobreviveu — contou que ali, no espaço de um ano, foram fuziladas entre 800 e 1.000 pessoas. Em abril de 1976, o lugar ganhou o reforço de 40 soldados enviados desde Campo de Mayo.
Um deles, Omar Eduardo Torres, depondo na década de 1980 perante a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), presidida pelo escritor Ernesto Sábato, contou como era a vida (e a morte) no CCD Arsenales, subordinado diretamente ao general Bussi.
— Uma vez vi como um preso desnudo era enterrado vivo, só com a cabeça fora do buraco, com a terra em volta molhada para ser compactada com os pés. O preso ficava lá 48 horas. O buraco provocava cãibras dolorosas e infecções na pele. Por duas vezes presenciei fuzilamentos ali, e quem efetuava o primeiro disparo era o general Antonio Bussi. Depois ele fazia com que todos os oficiais de maior hierarquia atirassem também. O local das execuções estava localizado a uns 300, 400 metros da Companhia de Arsenais, montanha acima. Estendiam um cordão de segurança a uma distância de 20 metros e outro a uns 100 metros do local. Os disparos eram feitos com pistolas calibre 9 mm ou 11.25 mm, sempre entre as 23h e 23h30. A cada 15 dias se assassinavam entre 15 a 20 pessoas — relatou o soldado Torres.
A coisa certa
O ex-soldado Domingo Jerez garantiu ao juiz Carlos Jiménez Montilla, em fevereiro de 2010, que testemunhou o general Bussi matar a bordoadas a dois homens em um campo de concentração em Timbó Viejo, localidade ao norte de San Miguel, na rodovia 305. “Vi quando colocaram o cano de um fuzil na vagina de uma mulher grávida”, contou o soldado.
Bussi no tribunal
Bussi trocou La Escuelita pelo CCD Nueva Baviera, um velho engenho de açúcar dotado de heliporto e vários caminhões para transporte de tropas e prisioneiros. Ele descentralizou a tortura e ampliou suas patotas. Atacou com bombas a universidade local, os partidos, os opositores. Advogados, sindicalistas e políticos foram alvo de sequestro, prisão e tortura. Bussi, como se via, ainda tinha muito que fazer. Dono de um par de olhos azuis frios como as rajadas que sopravam dos Andes, Bussi mantinha a cara fechada, casmurra, apropriada para aqueles tempos azedos. Seu braço longo cruzou a longa distância até Buenos Aires para alcançar a montonera Azucena minutos antes de alçar voo para a liberdade.
Alfredo Forti abriu processo contra o general em 2005
O secretário Alfredo Forti, o garoto sequestrado por ordem de Bussi, abriu um processo contra o general em 2005, depois que o Governo Kirchner revogou as anistias do Ponto Final e da Obediência Devida que deixavam impunes os torturadores. Assim, outros 800 processos por sequestro, tortura e morte, antes engavetados, voltaram a assombrar o velho general, que passou a frequentar os tribunais como uma caricatura de seu decrépito poder, envelhecido, enfraquecido por doenças dos pulmões e do coração, com uma sonda de oxigênio sempre enfiada no nariz.
"Não nego, nem afirmo"
Acossado também por denúncias de contas clandestinas no exterior, respondia ao melhor estilo Maluf: “Não nego, nem afirmo”. Em 2003, eleito para a prefeitura de San Miguel, a cidade que ele aterrorizou na ditadura, foi impedido de assumir o cargo, acusado pelo desaparecimento e morte do senador peronista Guillermo Vargas Aignasse.
Foi acusado de crimes de lesa humanidade e pelo desaparecimento de outras 72 pessoas, o que lhe rendeu a prisão perpétua em agosto de 2008. O chefe temido da repressão foi destituído com desonra do Exército. Não conseguiu ver as outras condenações iminentes, porque o coração enfim falhou, em novembro passado, determinando o seu translado irremediável aos 85 anos.
Um único deputado de Tucumán animou-se a pagar o anúncio de falecimento num jornal local, assim mesmo com o estrito cuidado de citar o nome do filho vivo, não do pai morto: “O deputado Alberto Colombres Garmendía participa com dor o falecimento do pai do deputado Ricardo Bussi”.
O secretário de Assuntos Internacionais da Defesa, Alfredo Waldo Forti, não viu o sequestrador de sua mãe apodrecer no cárcere, como imaginava.
O filho de Azucena viu coisa pior: o general Antônio Bussi, como acontece com os criminosos de todas as ditaduras, apodreceu em vida, chupado pela memória de seus abusos, cravado pela lâmina aguda dos tribunais e da Justiça.
Como ensinava Azucena a seus filhos, é a maneira correta de resolver as coisas num país que respeita sua história, sua memória, seu povo.
Luiz Cláudio Cunha é jornalista.
[cunha.luizclaudio@gmail.com]
No Sul21
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