15 de jan de 2012

A avaliação dos russos: “Já se vê no horizonte uma nova guerra dos EUA no Oriente Médio”

A situação no Oriente Médio aproxima-se rapidamente do ponto crítico e o início do conflito já aparece nas cartas. Isso, em resumo, foi o que disse Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança Nacional da Rússia (e ex-diretor do FSB, a organização que sucedeu a KGB) em entrevista à imprensa russa.
Patrushev é, sem dúvida, figura chave do establishment político e das relações internacionais russas. Ninguém duvida de que falou bem refletidamente, com o objetivo de enunciar a profunda ansiedade do Kremlin, ante a evidência de que o mundo está a poucos passos de uma conflagração no Oriente Médio, de consequências imprevisíveis no plano da segurança regional e internacional e da política mundial.
Patrushev, claro, tem acesso a inteligência de alto nível e falou baseado em dados que estão jorrando dos satélites e dos espiões e diplomatas russos. O Kremlin disparou um sinal de alerta.
As entrevistas foram dadas em idioma russo. Posso, portanto, reproduzir passagens. Patrushev disse:
“Há informações de que membros da OTAN e de alguns estados árabes do Golfo Persa, agindo pelo cenário que se viu na Líbia, trabalham para transformar a atual interferência nas questões internas da Síria em intervenção militar direta”.
Foi específico.
“As principais forças de ataque não serão francesas, nem britânicas nem italianas, mas, provavelmente, turcas”.
Disse que o primeiro passo será criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, para criar um santuário em território sírio próximo da fronteira turca, para entrada de mercenários que possam ser apresentados como rebeldes sírios. Em resumo, é intervenção ocidental ao estilo “líbio”; e conduzida pela Turquia.
Patrushev disse que a escalada militar alcançará provavelmente também o Irã e há “real perigo” de ataque pelos EUA, destacando que tensões sobre a Síria, hoje, são, de fato, tensões relacionadas à questão iraniana. “Querem castigar Damasco, menos pela repressão à oposição e, mais, por a Síria ter-se recusado a romper relações com Teerã”.
Sobre a situação iraniana, Patrushev disse:
“Já se veem sinais de escalada militar no conflito, e Israel está empurrando os americanos para a guerra. Há perigo real de um ataque militar norte-americano contra o Irã. Nesse momento, os EUA veem o Irã como seu principal problema. Querem converter o Irã, de inimigo, em parceiro apoiador; e, para conseguir isso, o plano é mudar o atual regime, pelos meios necessários”.
E qual será a provável resposta dos iranianos? Patrushev avalia:
“Não se pode descartar que os iranianos sejam capazes de cumprir suas ameaças de suspender exportações do óleo saudita pelo Estreito de Ormuz [1], se sofrerem ataque militar direto”.
Patrushev também falou sobre as políticas dos EUA para Rússia, China e Índia.
Disse que os EUA estão “persistentemente buscando manter sua dominação econômica, política e militar no mundo”. Põe sob essa luz a instalação dos sistemas de mísseis antibalísticos dos EUA na Europa.
”Hoje, [a instalação dos mísseis antibalísticos] talvez não seja grave ameaça à Rússia, mas o objetivo daquela ação, no longo prazo, é reduzir nosso potencial estratégico. Pelo que sei, os planos para uma barreira global de mísseis de defesa norte-americanos também estão sendo negativamente avaliados em Pequim.”
“Apesar das mudanças radicais no alinhamento global de forças, como resultado da modernização, os EUA insistem em manter sua dominação econômica, política e militar em todo o mundo. No presente, é importante para os EUA eliminar o que veem como ameaças a essa dominação – e ameaças que vêm da China, como creem os EUA”. (...)
Como “amigo de muito tempo” da Índia, Patrushev, evidentemente, não falaria contra a abordagem dos indianos e as atitudes de “sedução” de Tio Sam. Em vez disso, falou da “vizinhança estendida” da Índia:
“Simultaneamente, os EUA buscam acesso direto aos recursos e às facilidades de transporte na vasta área do Cáucaso, do Cáspio e da Ásia Central. Há inúmeras declarações de políticos norte-americanos sobre a necessidade de pôr sob controle dos EUA a energia, a água e outros recursos da Rússia”.
Mas, apesar de tudo, Patrushev não ignorou a importância que Moscou dá às relações Rússia-EUA, porque “os EUA são líderes do mundo ocidental e, faça a OTAN o que fizer, as estratégias da OTAN são sempre modeladas em Washington”.
Além disso, “Nossos países [Rússia e EUA] têm vários e importantes interesses coincidentes em matéria de segurança. Por exemplo, estamos combatendo juntos contra o terrorismo, dentre outras coisas, ao tornar acessível a rota do norte, para atender as necessidades das forças dos EUA no Afeganistão; estamos enfrentando juntos o crime organizado e o comércio ilegal de armas, narcóticos e substâncias psicotrópicas, e cooperamos também na luta para manter a segurança das informações” – concluiu Patrushev, com boa dose do humor russo, ao acentuar o caráter profundíssimo da atual “parceria” entre Rússia e EUA.
Nota dos tradutores
[1] Sobre isso, ver 8/1/2012, “Geopolítica do Estreito de Ormuz: Marinha dos EUA pode ser derrotada pelo Irã no Golfo Persa?”, Mahdi Darius Nazemroaya, Global Research.
MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.
Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
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Irã diz ter provas de envolvimento dos EUA em morte de cientista

TEERÃ - A televisão estatal iraniana disse neste sábado que Teerã tinha provas de que Washington estariam por trás do recente assassinato de um cientista nuclear iraniano.
No quinto ataque desse tipo em dois anos, uma bomba magnética foi instalada na porta do carro de Mostafa Ahmadi-Roshan, de 32 anos, durante o horário de pico de quarta-feira, na capital, Teerã. O motorista também morreu no incidente.
Os Estados Unidos negaram envolvimento na morte e condenaram o ataque. Israel não quis comentar.
"Temos documentos e provas confiáveis de que o ato terrorista foi planejado, orientado e apoiado pela CIA", disse o Ministério de Relações Exteriores do Irã em uma carta entregue ao embaixador suíço em Teerã, segundo a TV estatal.
"Os documentos indicam claramente que esse ato terrorista foi cometido com o envolvimento direto de agentes ligados à CIA."
A embaixada suíça representa os interesses norte-americanos no Irã, desde que Teerã e Washington romperam as relações diplomáticas após a Revolução Islâmica, de 1979.
A TV estatal também disse que "uma carta de condenação" foi enviada ao governo britânico, dizendo que o assassinato do cientista nuclear "começou exatamente depois que o oficial britânico John Sawers declarou o começo das operações de inteligência contra o Irã."
Em 2010, o chefe do Serviço Secreto de Inteligência britânico disse que um dos papéis da agência era investigar os esforços dos Estados no desenvolvimento de armas nucleares que violam as obrigações legais internacionais e identificar meios para frear o acesso desses países a materiais e tecnologias vitais.
No Reuters
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A falta de visão de futuro do Brasil

Alguns analistas julgam que se superestima o papel do câmbio na economia de um país.
Algum tempo atrás, um deles escreveu um livro sobre o milagre britânico do século 18, que acabou transformando o país em uma potência imperial. Destacou aspectos ligados à legislação, à inventividade do inglês, aos investimentos em ensino, que permitiram ao país comandar a primeira revolução industrial.
Todos esses aspectos são importantes para o desenvolvimento do país.
Cada vez mais o Brasil se firma como
mero fornecedor de matéria prima
Mas a chama que incendiou o imaginário do país abriu espaço para o florescimento de manufaturas sem fim e, depois, criou o clima adequado para as demais reformas foi o câmbio desvalorizado, barateando os produtos ingleses em relação aos concorrentes.
Depois, uma estratégia comercial que consistia em comprar matéria prima dos países emergentes e vender produtos acabados.
É uma forma de apoio à greve geral contra a alta dos preços dos combustíveis. A Nigéria é o maior produtor de petróleo da África
Em seu histórico “A era das revoluções”, o historiador inglês Eric Hobsbawn anota que “qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à superioridade científica e tecnológica”.
A França era superior na matemática e na física, enquanto na Inglaterra eram vistas como ciências suspeitas. Os franceses desenvolveram inventos mais originais, como o tear de Jacquard, em 1804, e tinham melhores navios. As escolas inglesas eram uma piada e as duas únicas universidades inglesas intelectualmente nulas, compensadas apenas pelas escolas do interior e pelas universidades da Escócia calvinista. Por temor social, não era encorajada a educação dos mais pobres e a alfabetização em massa só ocorreria em princípio do século 19, com a revolução industrial já em curso – pressionando por mão de obra mais especializada.
As invenções técnicas, que comandaram a revolução industrial, eram bastante modestas: a lançadeira, o tear e a fiadeira automática, ao alcance dos carpinteiros, moleiros e serralheiros.
A grande invenção inglesa do século 18, a máquina a vapor rotativa de James Watt (de 1784) só ganhou estabilidade e utilização ampla a partir de 1820. Com exceção da indústria química, as demais inovações industriais – na expressão de Hobsbawn – “se fizeram por si” – isto é, foram desenvolvidas no dia a dia, sem grandes investimentos tecnológicos.
Um dos grandes avanços britânicos foi no campo, eliminando o antigo sistema de propriedades herdades por empresários com espírito comercial, que passaram a articular cadeias produtivas – arrendando terras para camponeses sem terra ou pequenos agricultores e direcionando as atividades agrícolas para o mercado. E as manufaturas tinham se espalhado pelo interior não dominado pelo feudalismo.
Com isso, a agricultura cumpriu suas três funções em uma era de industrialização acelerada: aumentar a produção e a produtividade para alimentar uma população cada vez menos agrícola; fornecer mão de obra para as novas atividades industriais, através do êxodo rural; e garantir capital que foi aplicado em setores mais modernos da economia.
Paralelamente, o país investia na construção de uma frotra mercante e de estradas e infraestrutura adequada.
Até então a atividade empresarial mais lucrativa era do comerciante, comprando mais barato e vendendo mais caro. A revolução industrial muda esse paradigma e passa a deixar a melhor parte do bolo para o industrial.
Mercado mundial
Política cambial, acordos comerciais, domínio dos mares, abriram um mercado sem precedentes para seus industriais. Através de inovações simples e baratas, os industriais conseguiam taxas de retorno extraordinárias. No início, lã para abastecer o mundo. Quando o algodão substituiu a lã, compra de algodão dos países emergentes – basicamente Estados Unidos e América do Sul – e venda de tecidos para eles.
América Latina como comprador
Entre 1750 e 1760, as exportações inglesas de tecidos de algodão aumentaram dez vezes, sempre com apoio agressivo do governo nacional. E aí, toca enfiar produtos na América Latina – como a China está fazendo hoje em dia. Por volta de 1840, o continente consumia quase metade do consumo europeu de tecidos de algodão ingleses. Indústrias eram criadas e, da noite para o dia, tornavam-se gigantes.
Puxando o resto
Com o mercado internacional à disposição, a indústria do algodão lubrificoiu todos os demais setores relevantes da Inglaterra, máquinas, inovações químicas, setor elétrico, frota mercante etc. Ou seja, primeiro criou-se o mercado, depois o mercado abriu um mundo inédito de possibilidades para os empreendedores que, com pouco capital e pouca inovação, tinham condições de saltos expressivos. Não é muito diferente do que ocorre na China.
Salto chinês
Tempos atrás viajei com um importador brasileiro de lâmpadas led. Ele importava de um pequeno fabricante chinês, que adquiria os insumos da Alemanha, processava e vendia mais barato. Depois, o industrial resolveu comprar máquinas para fabricar ele próprio os insumos. Em dois anos, tinha 35 mil m2 de instalações. Guardadas as proporções de época, apenas repetia o fenômeno da Inglaterra do século 18.
Brasil na contramão
No caso do Brasil, o desabrochar do mercado interno criou as primeiras condições para o salto da indústria. Mas o câmbio está matando o deslanche. Cada vez mais, o crescimento do mercado interno está sendo apropriado pela manufatura chinesa; e cada vez mais o Brasil se firma como mero fornecedor de matéria prima. Chega uma hora que nem o mercado interno garantirá mais o crescimento da economia.
Falta de visão
Essa falta de visão sobre o salto futuro é disseminada no país. No governo federal, lançam-se planos ditos de desenvolvimento sem concatenação com a política macroeconômica. No Estadão de ontem, José Serra criticou o governo federal. Mas, em plena crise de 2008, aumentou os impostos paulistas, recusou-se a receber industriais e não desenvolveu um programa sequer de inovação para o Estado.
Luis Nassif
No CartaCapital
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Jornalista relata momentos de pânico no navio acidentado

Pode parecer óbvia a comparação com o Titanic, mas a sensação era essa’, diz Alana Rizzo, jornalista do 'Estado' e vítima do naufrágio. Ela passava as férias com os pais no cruzeiro
Um, dois, três, quatro torpedos... Em curtas mensagens de textos repassadas pelo celular, a repórter Alana Rizzo, do Estado, relatou o desespero de passageiros e tripulantes que estavam a bordo do Costa Concordia. De férias na Itália, a repórter conduziu seus pais pelo labirinto de cabines e corredores do transatlântico até os botes salva-vidas. Eis o depoimento:
"O jantar estava sendo servido quando ouvimos um forte ruído. Pratos e copos começaram a deslizar e sentimos o navio tombando. A primeira reação foi correr para os andares mais altos. Chegamos à nossa cabine no oitavo andar e pegamos casacos e coletes. Aproveitei para pegar o celular que estava com sinal, o que não era comum durante a navegação. A tripulação tentava nos acalmar e dizer que a situação estava controlada. Insistiam para que ficássemos nas cabines, mas muitas portas estavam travadas com o peso dos moveis arrastados. Passageiros estavam feridos por estilhaços de vidro e outros tantos, em pânico. Decidimos descer até o andar dos botes. A luz dos corredores apagava e alarmes de emergência cifrados começaram a ser disparados. Ninguém sabia o que estava acontecendo até sentirmos o navio tombar mais uma vez, e cada vez mais rápido.
A entrada nos botes foi confusa. Crianças de colo, idosos em cadeiras de rodas, famílias inteiras tentando se salvar. Regras de prioridade obviamente não eram respeitadas e todos queriam entrar. Sabíamos que não havia barcos suficientes para as quase 5 mil pessoas a bordo. O bote demorou a descer, aumentando o desespero. A tripulação gritava por socorro.
Consegui ver um farol e algumas luzes, o que nos fez crer que estávamos próximos à terra. Quem não conseguia embarcar nos botes entrava em um desespero maior ainda. O bote nos levou até a Ilha de Giglio. Centenas de pessoas de todas as nacionalidades tentavam localizar parentes. Os 800 moradores da ilha nos recebiam com cobertores e chá quente.
O cenário era desolador. De longe víamos helicópteros tentando resgatar quem estava nos andares mais altos e barcos saíam em busca de quem tinha se atirado na água gelada. Pode parecer óbvia a comparação com o Titanic, mas a sensação era essa. Sem nenhuma informação, as pessoas vagavam pela margem da ilha. Fazia muito frio e as pessoas se enrolavam em sacos plásticos, papéis, o que aparecesse pela frente.
Ficamos na igreja local até um ferryboat chegar para nos levar ao continente. Desembarcamos em uma cidade que até agora não sei o nome. Hospitais de campanha tinham sido montados, a Cruz Vermelha distribuía cobertores e nem sinal de representantes da empresa. Fomos levados a um ginásio. Os rostos estavam desolados e as pessoas ainda tentavam entender o que tinha acontecido. Contavam-se ainda mortos e desaparecidos."
No Estadão
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A origem da corrupção

"Não serão CPIs nem códigos
de ética que resolverão o problema
da corrupção. O Brasil não é um país
corrupto. É apenas pouco auditado"
O Brasil não é um país intrinsecamente corrupto. Não existe nos genes brasileiros nada que nos predisponha à corrupção, algo herdado, por exemplo, de desterrados portugueses. A Austrália, que foi colônia penal do império britânico, não possui índices de corrupção superiores aos de outras nações, pelo contrário. Nós brasileiros não somos nem mais nem menos corruptos que os japoneses, que a cada par de anos têm um ministro que renuncia diante de denúncias de corrupção.
Somos, sim, um país onde a corrupção, pública e privada, é detectada somente quando chega a milhões de dólares e porque um irmão, um genro, um jornalista ou alguém botou a boca no trombone, não por um processo sistemático de auditoria. As nações com menor índice de corrupção são as que têm o maior número de auditores e fiscais formados e treinados. A Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes. Nos países efetivamente auditados, a corrupção é detectada no nascedouro ou quando ainda é pequena. O Brasil, país com um dos mais elevados índices de corrupção, segundo o World Economic Forum, tem somente oito auditores por 100.000 habitantes, 12.800 auditores no total. Se quisermos os mesmos níveis de lisura da Dinamarca e da Holanda, precisaremos formar e treinar 160.000 auditores.
Simples. Uma das maiores universidades do Brasil possui hoje 62 professores de economia, mas só um de auditoria. Um único professor para formar os milhares de fiscais, auditores internos, auditores externos, conselheiros de tribunais de contas, fiscais do Banco Central, fiscais da CVM e analistas de controles internos que o Brasil precisa para combater a corrupção.
A principal função do auditor nem é a de fiscalizar depois do fato consumado, mas a de criar controles internos para que a fraude e a corrupção não possam sequer ser praticadas. Durante os anos de ditadura, quando a liberdade de imprensa e a auditoria não eram prioridade, as verbas da educação foram redirecionadas para outros cursos. Como conseqüência, aqui temos doze economistas formados para cada auditor, enquanto nos Estados Unidos existem doze auditores para cada economista formado. Para eliminar a corrupção teremos de redirecionar rapidamente as verbas de volta ao seu devido destino, para que sejamos uma nação que não precise depender de dedos-duros ou genros que botam a boca no trombone, e sim de profissionais competentes com uma ética profissional elaborada.
Países avançados colocam seus auditores num pedestal de respeitabilidade e de reconhecimento público que garante a sua honestidade. Na Inglaterra, instituíram o Chartered Accountant. Nos Estados Unidos, eles têm o Certified Public Accountant. Uma mãe inglesa ou americana sonha com um filho médico, advogado ou contador público. No Brasil, o contador público foi substituído pelo engenheiro.
Bons salários e valorização social são os requisitos básicos para todo sistema funcionar, mas no Brasil estamos pagando e falando mal de nossos fiscais e auditores e nem ao menos treinamos nossos futuros auditores. Nos últimos nove anos, os salários de nossos auditores públicos e fiscais têm sido congelados e seus quadros, reduzidos – uma das razões do crescimento da corrupção. Como o custo da auditoria é muito grande para ser pago pelo cidadão individualmente, essa é uma das poucas funções próprias do Estado moderno. Tanto a auditoria como a fiscalização, que vai dos alimentos e segurança de aviões até os direitos do consumidor e os direitos autorais.
O capitalismo remunera quem trabalha e ganha, mas não consegue remunerar quem impede o outro de ganhar roubando. Há quem diga que não é papel do Estado produzir petróleo, mas ninguém discute que é sua função fiscalizar e punir quem mistura água ao álcool. Não serão intervenções cirúrgicas (leia-se CPIs) nem remédios potentes (leia-se códigos de ética) que irão resolver o problema da corrupção no Brasil. Precisamos da vigilância de um poderoso sistema imunológico que combata a infecção no nascedouro, como acontece nos países considerados honestos e auditados. Portanto, o Brasil não é um país corrupto. É apenas um país pouco auditado.
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As delicadas relações entre os herdeiros de Prestes

O GLOBO explica por que condução do legado do comunista causa divergência
Maria Prestes ao lado do filho Luiz Carlos Prestes Filho e das netas
Leonardo Aversa / O Globo
RIO - Na sala repleta de fotos do Velho e de foices e martelos estampados em objetos da antiga União Soviética, que fazem do ambiente um santuário comunista, Maria do Carmo Ribeiro Prestes expõe um ateísmo convicto:
— Religião é apenas uma hipótese. Só hipótese.
Um olhar mais atento, porém, descobre entre matrioskas, cálices de vodca, pinturas russas e outras recordações, guardadas no apartamento da Gávea, uma pequena imagem de Nossa Senhora. Intrigado, o visitante cobra explicações.
— Ah, ganhei e deixei aí — sorri a anfitriã.
Mãe de sete dos oito filhos de Luiz Carlos Prestes, com quem foi casada por 38 anos, Maria nunca deixou de zelar pelas memórias e pelas crenças do marido. Mas a vida difícil, marcada por perseguições, clandestinidade e exílio, foi incapaz de endurecer o seu discurso ou turvar o seu humor. A matriarca, aos 81 anos, preserva a mesma generosidade com que, na gélida Moscou dos anos 1970, abria as portas de casa aos exilados atraídos pelo aroma brasileiríssimo de uma improvável feijoada.
Na defesa do legado de Prestes, Maria criou um estilo. Não é solene, não prega a ortodoxia. Partiu dela a revelação das recordações mais íntimas do Cavaleiro da Esperança que vieram a público este mês, com a doação de cartas, documentos e fotografias familiares de Prestes ao Arquivo Nacional, na contramão da ideia de que o legendário líder comunista só tinha tempo para as lutas contra as oligarquias e o capitalismo.
Anita Leocádia tem jeito irascível e arredio
Para os apaixonados por História, sentar-se à poltrona de dona Maria e ouvi-la é um privilégio. Mas a poltrona da matriarca não é o único assento indispensável na busca dos melhores relatos sobre o líder comunista. Em Botafogo, outro apartamento guarda igualmente muitas preciosidades do baú de Prestes, mas ali a poltrona é para poucos. A primogênita Anita Leocádia, de 75 anos, filha da união do Velho com a comunista alemã Olga Benário, é rigorosa na seleção dos interlocutores. A "imprensa burguesa", por exemplo, não passa nem pela portaria do prédio. Esta, ela açoita com cartas desaforadas, sempre em desacordo com as reportagens publicadas. A publicação de uma das fotos cedidas ao Arquivo Nacional na capa da "Revista de História" deste mês, mostrando um relaxado Prestes de sunga numa praia do Ceará, foi fortemente criticada por Anita.
Este estilo, duro e inflexível, não tira dela a legitimidade de zelar pela memória do pai-herói. Sua importância é tão grande quanto a de Maria e seus filhos. Apesar do jeito irascível e arredio, além da vida recatada que faz os colegas de magistério a compararem a uma freira, não se conhece um gesto de Anita que tivesse cerceado a imprensa ou obstruído uma pesquisa acadêmica. Como ocorre agora, quando ela protesta contra a divulgação das fotos íntimas do pai, não foram poucos os momentos em que Anita se confrontou com o restante da família. Mas talvez seja este conflito, herdado das contradições do patriarca, que mantém acesa a chama do legado prestista.
Em 2004, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça resolveu agraciar Anita, perseguida e condenada a quatro anos de prisão pelo regime militar, com uma indenização de R$ 100 mil. Repetindo um ideal do pai, que em vida negara a promoção ao posto mais alto do Exército, onde começara tenente, ela pegou um ônibus, assim que o dinheiro entrou em sua conta, e desceu apressada na Praça da Cruz Vermelha, no Centro. O cheque quase lhe queimava as mãos quando doou toda a bolada à Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer, ligada ao Instituto Nacional do Câncer (Inca).
— Aprendi com o meu pai: é uma vergonha receber dinheiro do governo — justificou-se na ocasião.
Maria e Anita só uniram forças uma única vez
Na poltrona de Anita, não se senta nem o respeitado historiador Daniel Aarão Reis, ele também vítima da ditadura, empenhado há meses em escrever uma biografia de Prestes. Apesar da negativa, Daniel demonstra compreensão.
— O que mais esperar de uma mulher que nasceu num campo de concentração, não conheceu a mãe, foi criada pela avó no México, esteve duas vezes exilada na antiga URSS e que, quando conviveu com o pai pela segunda vez na vida, descobriu que Prestes já tinha outra família, com três filhos biológicos e dois adotivos? — indaga ele, fazendo referência aos dois filhos que Maria teve de um relacionamento anterior a Prestes.
Maria e Anita, pesquisou Daniel, só uniram forças uma única vez. Foi em agosto de 1961, com Prestes na clandestinidade após a renúncia de Jânio Quadros. A polícia de Carlos Lacerda bateu à porta da casa onde a família morava (Maria, seis filhos, Anita e uma das irmãs de Prestes, Lígia) na Rua 19 de Fevereiro, em Botafogo. As duas, juntas, com dedo em riste, impediram que os soldados entrassem. Mas foi só isso. Até no velório do Velho, em 1990, as duas facções da família ficaram em lados opostos da urna funerária.
Apesar das brigas, que se intensificaram após a morte de Prestes, a viúva e a primogênita se complementam. São os dois lados do legado. Face larga, pele morena, sorriso farto, Maria, a ex-segurança que se apaixonou pelo líder enquanto o protegia, é o lado mais vibrante e humanizado do patriarca. Rosto grave, sem pintura, acentuado por óculos de lentes grossas, e corpo delgado como o da a mãe europeia, Anita, a historiadora cujo campo de estudos se esgota na própria trajetória dos pais, representa o ideário. É a guardiã da escalada de lutas, da visão de mundo.
Desde o começo, a relação de ambas nunca foi amistosa. Quando Anita voltou ao Brasil em 1958 (tinha estado em 1945, mas ficou apenas dois anos), não sabia que Prestes tinha uma segunda família desde 1952. O pai, que experimentava um raro momento de legalidade num país acossado pela Guerra Fria, mantinha a mulher e cinco filhos numa chácara em Jacarepaguá, enquanto se encontrava com Anita, então com 22 anos, no apartamento das irmãs, em Copacabana.
— Passadas algumas semanas, Prestes resolveu apresentá-la. Foi um choque para aquela jovem que passara anos longe, alimentando a áurea da mãe mártir e do pai-herói — conta Daniel. — Ela achava que Prestes seria só dela, mas descobriu que teria de partilhá-lo com a madrasta e uma filharada.
Também não foi fácil para Maria dividi-lo com a enteada. Aos poucos, Prestes foi passando mais tempo com Anita, dedicando-se menos à casa de Jacarepaguá. Um episódio insólito, porém, mudaria a situação: o líder comunista levou um tombo doméstico que afetou a coluna.
— Percebendo o seu sofrimento, uma das irmãs, Lúcia, argumentou: "Esse homem tem uma mulher. Quem tem de cuidar é ela." Então, Maria foi levada a Copacabana. Ironicamente, não foi a Coluna Prestes, mas a coluna de Prestes, que acabaria salvando o seu casamento — diz Daniel.
Até politicamente, a união com Prestes rendeu problemas. Mesmo as credenciais de militante, filha de um aguerrido comunista do Nordeste, não livraram Maria de enfrentar o preconceito interno. Primeiro: ela era bem mais jovem (tinha 20 anos, e Prestes, 54). Segundo: era uma mulher do povo, sem formação, enquanto os companheiros do Partidão queriam o líder casado com uma comunista teórica.
— Como havia uma campanha forte de que eram contra a família, os comunistas em geral portavam-se com extremo moralismo. Tinham de ter um comportamento exemplar para enfrentar os críticos — afirma o sociólogo Marcelo Ridenti, especialista na história das esquerdas. — Nos cursos oferecidos pela União Soviética, os rapazes tinham de dançar com as moças mantendo uma distância de 15 centímetros.
Por questões de segurança, Prestes se fazia passar por tio dos filhos
O pernambucano Diógenes Arruda era, no comitê central do PCB, o dirigente mais hostil a Maria, chegando a destratá-la. Coube a outro peso-pesado do Partidão, Giocondo Dias, esfriar o clima adverso. Ele disse que Prestes tinha todo o direito de escolher uma parceira sem intromissão do partido.
Depois do episódio da Rua 19 de Fevereiro, quando Maria e Anita enfrentaram juntas a polícia, as duas jamais voltaram a dividir o mesmo teto. Por decisão do PCB, Prestes foi morar com a família em Vila Mariana, São Paulo, mas Anita ficou com a tia, Lígia, no Rio. Mais tarde, com o agravamento do regime militar e o início da Guerra Suja, ambas seguiram para o exílio em Moscou. Mas, lá, em tetos distintos.
A relação de Maria com a ditadura é curiosa. Paradoxalmente, foi o exílio forçado de dez anos em Moscou (1970-1979) que lhe proporcionou os melhores anos de convívio com o marido, ainda mais quando a temperatura baixava a 30 graus negativos e nem o Cavaleiro da Esperança enfrentava as ruas glaciais da capital russa.
— Passei o primeiro ano sozinha, com os garotos e as meninas. Prestes só chegou no ano seguinte. Foi ali que meus filhos souberam quem era o seu pai — diz Maria.
Até então, por questões de segurança, Prestes se fazia passar por tio dos meninos.
Militar de formação, Prestes cumpria em casa uma rotina rigorosa, acordando às 5h30m, e exigia que os filhos evitassem circular em casa de pijama ou camisola, porque as visitas apareciam a qualquer hora.
— Certa noite, quando todos viam TV, minha mãe se levantou e a desligou. Depois, virou-se para meu pai, que estava surpreso, e disse: "Veja como você está vestido." — recorda-se Luiz Carlos Prestes Filho, que impressiona pela semelhança física com o pai. — O Velho, único de pijama na casa, fora flagrado. Desde então, todos os filhos foram liberados de usar as roupas de dormir.
A temporada em Moscou também foi pródiga para Anita. Enquanto concluía os estudos, virou o braço direito do pai na luta interna que ele travava no Partidão. Os comunistas, pouco antes, dividiram-se entre os partidários da luta armada e os defensores de uma aliança estratégica com o MDB.
— Prestes rejeita as duas opções e fica isolado. Queria construir uma tendência de esquerda, mas não pela luta armada. Apoiou-se muito em Anita. Não deixou de amar Maria, mas tinha paixão pela filha — explica Daniel.
O isolamento levou pai e filha a uma opção controvertida para não perder o controle: alçar ao cargo de secretário-geral o mais jovem membro do comitê central, o obscuro dirigente José Sales. A tentativa terminou em escândalo. Para decepção dos Prestes, Sales foi acusado de desviar os recursos partidários e, supostamente, envolver-se com o tráfico de drogas. A luta interna do Velho estava perdida. Três anos depois de voltar ao Brasil, favorecido pela anistia de 1979, trocaria o PCB pelo PDT, de Leonel Brizola, passando a ser muito mais um símbolo do que um dirigente operacional.
Um ano antes de morrer, o líder comunista assistiu a Anita defender a tese de doutorado sobre a Coluna Prestes na UFF. Embora os colegas a considerassem uma intelectual de mãos cheias, a produção da historiadora, desde então, é vista com alguma reserva. Muitos a acusam de querer monopolizar o legado de Prestes ou de celebrar demais a sua memória, destacando apenas as virtudes.
Mas a disposição de Anita é inquebrantável. Nunca teve problema de assumir publicamente as posições mais polêmicas. Recentemente, no site do seu Instituto Luiz Carlos Prestes, reproduziu o artigo de Miguel Urbano Rodrigues, no qual o escritor português faz um desagravo a Kadafi: "Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Kadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade."
Para Anita, Prestes será eternamente "a expressão máxima da luta revolucionária pelo socialismo e o comunismo". Para Maria, além disso, o pai de seus filhos, o chefe da casa.
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Salve Eliana Calmon, a Justiça agradece

A melhor notícia de 2012 até agora é a mesma de 2011: apareceu alguém com coragem para abrir a caixa-preta da Justiça brasileira e acabar com a impunidade dos meritíssimos que se julgam acima da lei.
Colocada na parede pelo corporativismo das associações de magistrados e por alguns membros do Supremo Tribunal Federal, no final do ano passado, a ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, não esperou muito tempo para voltar à luta e dar a sua resposta.
Antes da segunda semana do ano chegar ao final, ela encaminhou relatório ao Supremo Tribunal Federal, em resposta às informações solicitadas em dezembro pelo ministro Ricardo Lewandowski ao suspender as investigações da corregedoria do Conselho Nacional de Justiça.
Calmon anexou ao relatório os resultados do rastreamento feito pelo Coaf, orgão de inteligência do Ministério da Fazenda, que descobriu R$ 856 milhões em "operações financeiras atípicas" (R$ 274 milhões em dinheiro vivo) feitas por 3.426 juízes e servidores no período entre 2000 e 2010.
Está explicado o motivo da revolta de alguns setores do Judiciário, especialmente em São Paulo, por onde começou a fiscalização, contra a corregedora Eliana Calmon, que no ano passado denunciou a existência de "bandidos de toga" e foi acusada por uma quebra generalizada de sigilos fiscal e bancário, o que ela nega veementemente em seu relatório de 46 páginas e nove anexos.
Só nesta quinta-feira, no mesmo dia em que a Corregedoria Nacional de Justiça divulgou que 45% dos magistrados do Tribunal de Justiça de São Paulo não entregaram suas declarações de renda e de bens de 2009 e 2010, o novo presidente do TJ-SP, Ivan Sartori, deu um prazo de 30 dias para que todos cumpram a lei.
O levantamento do Coaf começou a ser feito em 2010, quando a baiana Eliana Calmon Alves, 67 anos, assumiu a corregedoria nacional do CNJ (seu mandato vai até setembro deste ano). Foram pesquisados os nomes de 216 mil servidores.
No relatorio entregue ao STF, a corregedora deixa claro que "atipicidade" não significa crime ou irregularidade, mas a necessidade de dar sequência às investigações sobre as movimentações financeiras destes magistrados.
"Não há nada de incomum ou extravagante na fiscalização (...) Alguns tribunais, em especial os estaduais, não observavam o cumprimento de preceitos fundamentais, diversamente dos demais tribunais (federais e trabalhistas)", justificou a ministra.
Agora, quando os onze membros do STF voltarem das férias, em fevereiro, e forem julgar a liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Mello, após a última sessão da Corte em 2011, praticamente suspendendo as atividades da corregedoria, eles terão novas informações para o julgamento definitivo sobre as atribuições do Conselho Nacional de Justiça.
A depender desta decisão, a absoluta maioria dos magistrados brasileiros certamente agradecerá à competente e destemida ministra Eliana Calmon, símbolo da brava gente brasileira, pelo resgate da imagem do Judiciário, abalada ultimamente pela denúncia de malfeitos diversos, defesa de privilégios e irregularidades na concessão de benefícios.
Salve Eliana Calmon, a Justiça brasileira agradece a sua coragem.
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Reitor sem noção (do ridículo) é homenageado por Veja

O magnífico "xerifão" da USP
Quem acessa o site da USP desde o dia 3 de janeiro dá de cara com esta manchete.
Em nada surpreende a homenagem, dada a notória afinidade entre o reitor e a dita revista, tão notória que não me darei ao trabalho de falar sobre.
Ocorre que dessa vez Veja inovou. Além das mentiras de sempre, a matéria estampa no título uma caracterização no mínimo inusitada do reitor, que não podemos deixar passar em branco: “João Grandino Rodas, o xerifão da USP”.
Xerifão?!
Por mais fortes que sejam os laços de camaradagem entre o reitor e a revista Veja, dessa vez a famiglia Civita exagerou. Afinal, trata-se do reitor da USP. Diz o protocolo que o tratamento a sua magnificência exige compostura.
Um reitor da USP, presume-se, deveria ser reconhecido publicamente como “acadêmico”, “cientista”, “intelectual”, “mestre”… no minimo como “administrador” ou “dirigente” e pronto, mas nunca com o rótulo de “xerifão”.
É o suprassumo do ridículo, de fazer Armando Salles de Oliveira revirar-se no túmulo. E, reparem: nem pra ser só “xerife”. Veja quis vulgarizar mesmo: é “xerifão”, no aumentativo!
Era de se esperar, portanto, que Rodas solicitasse da revista Veja no mínimo um pedido de desculpas. Mas Rodas não o fez. Não só não o fez, como determinou que a matéria publicada na Veja fosse para o site institucional da USP!
Ora, não posso tirar daí outra conclusão senão que o reitor gostou da patente de “xerifão”. Aliás, não surpreenderia se, tendo sido consultado previamente, ele próprio tenha sugerido o triste apelido.
Rodas perdeu de vez a noção do ridículo.
Mas, pensando bem… “acadêmico” e “intelectual” que nada. Afinal, acaso Rodas foi nomeado reitor por algum mérito acadêmico ou intelectual? Em verdade, Serra o nomeou reitor justamente porque, para o PSDB, a USP precisava de um “xerifão”.
Rodas foi nomeado reitor para ser o “xerifão” da USP. E, examinando de perto suas atitudes e métodos como reitor, é exatamente isso o que ele está sendo. Não há nada em sua gestão que o habilite a ser reconhecido como “acadêmico”, “intelecutal” etc.
Muitíssimo adequada a homenagem!
Antônio David – mestrando em filosofia na FFLCH
No Blog de Um Sem Mídia
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Não seria melhor voltar a escravatura?

Com a escravatura, sem salário, quantos empregos mais poderíamos ter?
A Folha publica hoje matéria sobre o acréscimo de renda provocado pelo aumento do salário mínimo, mostrando que a classe C – mais do que as D e E – é a grande beneficiária dos R$ 63,98 bilhões que serão injetados na economia, ficando com R$ 48 bilhões, contra R$ 12,5 bi apropriados pelas classes D/E.
Corretamente, o diretor do Datapopular explica que o vínculo formal de remuneração da classe C faz este impacto ser mais diretamente absorvido na renda, embora não se mencione que esta diferença, na verdade, é apenas metade do que parece ser, pois a classe C tem hoje quase o dobro do número de integrantes do grupo D/E.
Mas a Folha, claro, não pode deixar de ouvir “o outro lado”. Ou seja, aqueles que sempre arranjam uma “boa razão” para que não se eleve o valor do trabalho do nosso povão. E o escalado é o economista José Márcio Camargo, integrante do núcleo do grupo que migrou de um vago esquerdismo para formar o “bunker” do pensamento neoliberal da PUC do Rio de Janeiro.
Não é preciso comentar, basta transcrever:
“O economista José Márcio Camargo, da Opus Investimentos, é crítico desse incremento econômico (o do aumento do salário-mínino).
“Esse dinheiro tem que sair de algum lugar. As empresas vão ter que deixar de comprar, de investir, para arcar com esses custos adicionais.”
O resultado, diz, é que a renda total - e o consumo - não deverá aumentar tanto quanto se prevê com o aumento do salário.
“Com um lucro menor, as empresas poderão gerar menos empregos”, afirma.
Estamos, atenção, no século 21 e ainda há quem deite doutrina para afirmar que salário-mínimo – e ainda um dos menores do mundo – é empecilho para o emprego e o progresso econômico.
Quem sabe se com a escravatura iríamos ter mais progresso que tivemos com a sólida – embora ainda modesta – elevação dos salários? Afinal, pobre está ficando muito caro, não é?
Fernando Brito
No Tijolaço
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Viva o populismo brasileiro. A História não acabou.

A Folha publica neste domingo na pag.A20 entrevista do tipo “mediúnica” com Francis Fukuyama, celebérrimo professor de Stanford, que escreveu “O fim da História”, para celebrar o momento mais sublime do Império americano: a vitoria do máximo "neolibelismo" de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, nos anos 80.
Deu no que deu.
Quem sabe como foi o fim da História foram os acionistas do Lehmann Bank.
A entrevista foi feita no Rio e trata de um artigo.
Portanto, não se sabe como é possivel um artigo dar luz a perguntas e respostas de quem está, teoricamente, na Califórnia.
Mas, a Folha, amigo navegante, sabe como é …
O interessante é que as ideias "jeniais" do fim da História foram para o saco, ali depositadas pelo próprio "jenio" Fukuyama: o "neolibelismo" foi longe demais e sufucou a classe média.
E sem classe média, diz o "jenio", não há capitalismo nem democracia.
Um "jenio"!
E como explicar o Brasil, "jenio"?
O crescimento econômico – do governo do Nunca Dantes, PHA – e o Bolsa Família – idem, PHA – reduziram a desigualdade e levaram gente para a classe média.
Num tipo de populismo bem sucedido.
(Interessante que os "neolibelês" brasileiros abominam essa palavra: populismo.
Porque tem cheiro de povo.)
Nada que o Marcelo Neri já não esteja cansado de dizer – clique aqui para ler
Dá nisso se orientar pelo Norte.
Os "neolibelês" nativos – diria o Mino Carta – perderam a bússola.
Uma dessas bússolas era o "jenio" do Fukuyama.
(Por que a Folha não deu destaque ao trecho em que ele fala do Brasil?, amigo navegante?)
Paulo Henrique Amorim
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Mossad recruta em grupo iraniano fazendo-se passar pela CIA

Agentes dos serviços secretos israelitas levaram a cabo recrutamento de operacionais de um grupo terrorista iraniano, o Jundallah, fazendo-se passar por espiões estrangeiros, mas da CIA
Espiões israelitas fizeram-se passar por agentes da CIA
(Alex Wong/AFP)
A história foi desenterrada dos arquivos dos serviços secretos norte-americanos por um jornalista da revista "Foreign Policy".
O recrutamento descrito foi feito durante a presidência de George W. Bush, mas a revelação surge dois dias depois do assassínio de um cientista nuclear em Teerã, um crime pelo qual a Mossad foi a primeira suspeita mas no qual houve quem visse uma possível mão norte-americana.
Os EUA são há muito suspeitos de dar apoio ao grupo Jundallah, um grupo sunita que reivindicou vários ataques no Irão. O grupo é responsável pelo assassínio de responsáveis governamentais iranianos, e ataques com explosivos que mataram civis iranianos, incluindo mulheres e crianças.
O regime iraniano alegou que o grupo, formado em 2002 e que começou uma campanha armada em 2005, era apoiado por forças estrangeiras, apontando o dedo tanto à Al-Qaeda como aos Estados Unidos, ao Paquistão ou ao Reino Unido.
Os agentes israelitas, com dólares e passaportes americanos, levaram a cabo as operações de recrutamento sem fazer grandes esforços para que os americanos não descobrissem, nomeadamente em Londres, descrevem os agentes no memorando.
Bush ficou furioso
Também descrevem que o Presidente Bush ficou “absolutamente furioso” quando ouviu o relato: afinal, o alegado apoio dos EUA a este grupo estava-lhe a causar dificuldades no Paquistão, que estava a sofrer pressões do Irão para combater este grupo, que tem bases na fronteira entre o Paquistão e o Irão.
Mas apesar de haver quem na Administração defendesse agir contra Israel, uma mistura de inércia e burocracia fizeram com que permanecesse o statu quo.
A mudança surgiu com a Administração Obama que cortou drasticamente a quantidade de informação sobre o Irão que era partilhada com Israel, diz o artigo da "Foreign Policy", e juntou o grupo à sua lista de organizações terroristas.
As operações de espiões fazendo-se passar por agentes de outro país são comuns. Os agentes do país A disfarçam-se de agentes do país B para realizar acções no país C. O objectivo é normalmente que o país visado, o C, acredite que está a ser sabotado pelo país B e eventualmente retalie contra este. Neste caso, a ideia seria apenas que Israel levasse a cabo acções de sabotagem no Irão sem despertar suspeitas do seu envolvimento.
Recrutamento no Curdistão
De qualquer modo, neste momento, após o assassínio de vários cientistas iranianos com métodos que até a imprensa israelita diz serem típicos da Mossad, a intervenção israelita no Irão é quase dada como certa. Um responsável terá afirmado numa sessão parlamentar à porta fechada que o Irão deveria esperar mais acontecimentos "não naturais" no próximo ano, segundo os media israelitas.
Esta semana, uma notícia do diário francês "Le Figaro" dava conta de operações de agentes da Mossad no Curdistão iraquiano, onde recrutavam e treinavam dissidentes iranianos para acções contra o regime de Teerão.
A Mossad já usou passaportes de outros países para levar a cabo operações no estrangeiro. Um caso que ficou famoso foi o do assassínio, num hotel de luxo no Dubai, de um comandante do Hamas, no início de 2011. Israel utilizou passaportes forjados de americanos, irlandeses, britânicos e um documento real de um alemão.
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Confirmado: Coca-cola Zero usa adoçante banido nos EUA

No Brasil, ao invés de aspartame, multinacional prefere o ciclamato — suspeito de causar câncer e atrofia nos testículos, mas quinze vezes mais barato…
Um zunzunzum profundamente incômodo para a Coca-Cola e os jornais comerciais — e no entanto provavelmente verdadeiro — está percorrendo redes sociais como o Facebook e Google+ (veja íntegra ao final do post). Afirma-se que a Coca Zero, lançada no país em 2005 e um dos produtos de maior sucesso da empresa, contém em sua fórmula o ciclamato de sódio, substância proibida no refrigerante vendido nos Estados Unidos. A razão da diferença seria uma velha conhecida: o desejo de maximizar os lucros (pouco importando Ambiente, Direitos Sociais ou mesmo Saúde) nos países onde agências estatais são menos rigorosas. O ciclamato de sódio, foi banido a partir de 1969 no Japão, Estados Unidos e outras nações. Há fortes suspeitas de que provoque câncer. Porém, custaria quinze vezes menos que o aspartame – adoçante também sintético presente na Coca Zero vendida nos Estados Unidos e Europa Ocidental.
Será mais uma lenda urbana? Uma pesquisa inicial sugere que não. Acompanhe por quê:
a) O próprio site da filial brasileira da Coca-Cola admite, em seu site, que a fórmula do refrigerante contém ciclamato de sódio — assim como as de Sprite Zero, Fanta Zero e Kuat Zero.
b) Também é verdade que o mesmo produto vendido nos Estados Unidos usa aspartame ao invés de ciclamato, como se vê neste texto do Huffington Post.
c) Um verbete na Wikipedia revela que as suspeitas sobre o caráter cancerígeno do ciclamato são reais. A substância aparentemente não é metabolizada no organismo, degenerando em ciclohexilamina, que pode aumentar a incidência de tumores. O uso ultra-intenso de ciclamato de sódio produziu cânceres de bexiga em ratos, deformações, redução dos níveis de testosterona, atrofia dos testículos. O fenômeno foi demonstrado já em 1969, por pesquisas conduzidas pela agência de medicamentos dos EUA — que determinou seu banimento. Como as quantidades de ciclamato usadas nos testes foram muito grandes, os resultados são controversos e 55 países continuam a tolerar o produto.
d) O Brasíl é um destes países. Em junho de 2009, período em que também surgiram dúvidas a respeito dos possíveis danos do ciclamato à Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu, a respeito, o Informe Técnico 40. Embora defenda a liberação, o documento reconhece as dúvidas científicas a respeito de suas propriedades.
O consumo de alimentos, bebidas e outros produtos à base de adoçantes como aspartame, ciclamato é cada vez mais difundido no Brasil. As suspeitas sobre os efeitos destas substâncias são, é claro, um tema muito relevante de Saúde pública. No entanto, são raríssimas ou inexistentes as matérias sobre o assunto, nos jornais e revistas. Há quem prefira (Veja quem, entre outros: 1 2) entreter seus leitores com “testes comparativos de sabor” entre os adoçantes… Por ignorância ou previsíveis interesses, eestes textos omitem por completo as pesquisas e controvérsias cientificas que envolvem tais produtos.
Abaixo, um dos textos que circula nas redes sociais.
Coca-cola Zero. Sukita Zero. Fanta Light. Dolly Guaraná. Dolly Guaraná Diet. Fanta Laranja. Sprite Zero. Sukita. Oito bebidas e duas substâncias altamente nocivas ao ser humano. Na Coca-cola Zero, está o ciclamato de sódio, um agente químico que reconhecidamente faz mal à saúde. Nos outros sete refrigerantes, está o benzeno, uma substância potencialmente cancerígena.Essa é a mais recente descoberta que vem sendo publicada na mídia e que só agora chega aos ouvidos das maiores vítimas do refrigerante: os consumidores. A pergunta que vem logo à mente é: “por que só agora isso está sendo divulgado?”. E, pior: “se estes refrigerantes fazem tão mal à saúde, por que sua venda é permitida?”.
Nos Estados Unidos da América, a Coca-cola Zero já é proibida pelo F.D.A. (Federal Drugs Administration), mas sua venda continua em alta nos países em desenvolvimento ou não desenvolvidos, como os da Europa Oriental e América Latina. O motivo é o baixo custo do ciclamato de sódio (10 dólares por quilo) quando comparado ao Aspartame (152 dólares/Kg), substância presente na Coca-cola Light. O que isso quer dizer? Simplesmente que mesmo contendo substância danosa à saúde, a Coca Zero resulta num baixo custo para a companhia, tendo por isso uma massificação da propaganda para gerar mais vendas.
E a ironia não para por aí. Para quem se pergunta sobre os países desenvolvidos, aqui vai a resposta: nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido e na maioria dos países europeus, a Coca-cola Zero não tem ciclamato de sódio. A luta insaciável pelos lucros da Coca-cola Company são mais fortes nos países pobres, até porque é onde menos se tem conhecimento, ou se dá importância, a essa informações.
No Brasil, o susto é ainda maior. Uma pesquisa realizada pela Pro Teste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor – verificou a presença do benzeno em índices alarmantes na Sukita Zero (20 microgramas por litro) e na Fanta Light (7,5 microgramas). Já nos refrigerantes Dolly Guaraná, Dolly Guaraná Diet, Fanta Laranja, Sprite Zero e Sukita, o índice de benzeno estava abaixo do limite de 5 microgramas por litro.
Só para se ter uma idéia, o benzeno está presente no ambiente através da fumaça do cigarro e da queima de combustível. Agora, imagine isso no seu organismo ao ingerir um dos refrigerantes citados. Utilizado como matéria-prima de produtos como detergente, borracha sintética e náilon, o benzeno está relacionado a leucemias e ao linfoma. Contudo, apesar de seus malefícios, o consumo da substância não significa necessariamente que a pessoa terá câncer, pois cada organismo tem seu nível de tolerância e vulnerabilidade.
Corantes e adoçantes
Na mesma pesquisa da Pro Teste, constatou-se que as crianças correm um grande risco, pois foram encontrados adoçantes na versão tradicional do Grapette, não informados no rótulo. Nos refrigerantes Fanta Laranja, Fanta Laranja Light, Grapette, Grapette Diet, Sukita e Sukita Zero, foram identificados os corantes amarelo crepúsculo, que favorece a hiperatividade infantil e já foi proibido na Europa, e o amarelo tartrazina, com alto potencial alérgico.
Enquanto a pesquisa acusa uma urgente substituição dos corantes por ácido benzóico, por exemplo, a Coca-cola, que produz a Fanta, defende-se dizendo que cumpre a lei e informa a presença dos corantes nos rótulos das bebidas. A AmBev, que fabrica a Sukita, informou que trabalha “sob os mais rígidos padrões de qualidade e em total atendimento à legislação brasileira”.
Por fim, a Refrigerantes Pakera, fabricante do Grapette, diz que a bebida pode ter sido contaminada por adoçantes porque as duas versões são feitas na mesma máquina e algum resíduo pode ter ficado nos tanques.
Quando será o fim dessa novela e da venda dos refrigerantes que contém substâncias nocivas à saúde, ninguém sabe. Mas enquanto os fabricantes deixam a ética e o respeito ao cidadão de lado em busca do lucro exacerbado, você tem a liberdade de decidir entre tomar esse veneno ou preservar a qualidade do seu organismo. Agora, é com você!
Por Antonio Martins
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Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz que quando passa o cometa de Halley ela nem olha mais. Mas continua ativa à frente do seu grupo de debate e pressão, as Socialaites Socialistas, que pregam a implantação no Brasil do socialismo no seu último estágio, que é a volta ao tzarismo.
Elas, inclusive, já descobriram um descendente dos Romanovs que é garçom no Méier e diz que topa ser tzar se puder contar tempo para o INPS. Com a proximidade do carnaval, Dorinha tem se reunido quase que diariamente com o Pitanguy para planejarem sua repaginação, ou o corpo com que desfilará na avenida este ano. “Ainda estamos na fase dos esboços e cálculos estruturais”, conta Dorinha, que...
Mas que ela mesma nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta púrpura em papel grená e cheirando a “Mange Moi”, o único perfume do mundo que já foi objeto de uma encíclica papal.
“Caríssimo! Beijos centrifugais. Sim, estaremos na avenida, eu e meu grupo. Só não sairei no carnaval quando estiver morta, e assim mesmo terão que sentar no meu túmulo. Este ano tomaremos especial cuidado com nossas próteses mamárias e glúteas, depois que no ano passado as duas nádegas da Julia (“Ju”) Bileu explodiram, uma atrás da outra, ainda na concentração, atrapalhando a marcação. E eu mereço me descontrair neste carnaval. Minha vida econômico/sentimental em 2011 foi estressante. Quel des frustraciones!
Depois de me separar do meu marido mais recente, cujo nome me escapa no momento, decidi me dedicar ao primeiro escalão do governo, onde circula o dinheiro de verdade. Meu objetivo era um ministro da Dilma. Com um pé — para não citar outras partes da minha anatomia — num ministério da República, eu estaria feita, pelo menos até o fim do mandato dele. Mas os ministros não paravam no lugar. Era eu mirar um ministro e a Dilma o botava na rua.
A instabilidade institucional derrotou meus planos de independência financeira e, quem sabe (meu lado Evita), teria alguma influência nos destinos da nação. Não consegui ser amante ou sequer auxiliar de gabinete de nenhum deles, nem por dez minutos.
Estou, por assim dizer, de volta à planície, caçando animais menores. E à espera que o próximo ministério da Dilma seja mais estável. Por mim, Dilma!
Da tua suspirosa Dorinha
Luis Fernando Veríssimo
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