14 de jan de 2012

Procol Harum

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Charge online - Bessinha - # 990

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O pleito municipal e a ausência dos cidadãos

É preciso que os cidadãos se compenetrem de que o município, além de ser a base do sistema federativo, é também a porta de entrada regular para a política – e todo cidadão, por princípio, é político, isso é, responsável pela sua cidade e, em extensão, por seu país.
Os próximos meses conduzirão os nossos olhos para dois pontos extremos da razão política: as eleições nos Estados Unidos e o pleito municipal no Brasil. Nos Estados Unidos estaremos atentos às escolhas primárias, com suas tendências, sem a presença da esquerda, mesmo moderada, na disputa. Aqui, a vitória nas cidades indicará os rumos das eleições gerais de 2014.
Ainda que essa realidade se dissimule, o verdadeiro espaço da política é a cidade. É certo que, na estrutura do poder, que concentra as decisões mais importantes e os recursos tributários na União - e, de forma menos decisiva, nos Estados - os municípios são induzidos ao oportunismo. Submetem-se aos partidos e líderes que têm acesso, via parlamento, ao Tesouro Nacional – de onde recebem grande parte do dinheiro dos investimentos e despesas. Em alguns casos, há a renúncia clara em assumir responsabilidades e conduzir os cidadãos à ação efetiva, e em outros, apenas incompetência e conformismo. Essa situação resultou da ação perversora da ditadura burocrático-militar, que teve como sua razão de ser a desmoralização da política e o esmorecimento da cidadania.
Os governos sucessivos, de Castelo a Figueiredo, trataram de corromper as cidades, menores e maiores, com o estímulo aos aventureiros, desprovidos quase sempre de caráter e de conhecimentos, para a disputa de todos os cargos eletivos. Poucos foram os homens honrados que tiveram condições de resistir, e continuaram a fazer política durante o período mais duro da ditadura. Com todas essas dificuldades e as de outros momentos de interrupção do curso natural de nossa História, tem sido difícil a construção da nacionalidade.
Agrava a nossa angústia a evidência de que não estamos sós nesta crise de cidadania. O mundo inteiro cambaleia na perplexidade, com o esvaziamento moral e intelectual das pessoas e, com maior desatino, daquelas escolhidas para legislar, governar – e julgar. A ocupação do Estado pelo neoliberalismo se faz com o controle do poder financeiro, das corporações industriais, dos meios de comunicação e de entretenimento - e das universidades.
Um dado é suficiente: a predominância de títulos de MBA sobre os de PHD, com a transformação dos centros universitários em escolas técnicas de adestramento de gerentes comerciais. É a completa “reificação” das pessoas, sua transformação em coisas, de acordo com a velha constatação humanística. É nesse processo, de alienação continuada da autonomia de pensamento, que a responsabilidade social é substituída, no espírito, pelas imagens coloridas da propaganda, direta e subliminar, que incitam à ambição pessoal de enriquecimento e ao esquecimento da coletividade. Esse esvaziamento da razão coletiva trouxe para o poder rajoys, sarkozys e angelas merkels, depois de bushes, berluscones, aznares e zapateros.
É nesse quadro que as eleições municipais reafirmam sua importância política para o nosso país. É hora de os cidadãos de bem – e não apenas de bens – se reunirem e conversarem, em seus municípios, para a construção das chapas eleitorais de novembro. Não basta que os candidatos – tanto para a Câmara Municipal, quanto para o poder executivo – sejam simpáticos, bons de voto. É possível que um jogador de futebol venha a ser bom político – e o desempenho de Romário, na Câmara dos Deputados, é disso bom exemplo – mas não é sempre provável. Da mesma forma, jovens e charmosos talvez venham a ter desempenho político forte – e nos lembramos de Manuela d’Ávila, que poderá eleger-se prefeita de Porto Alegre, graças a seus méritos - entre eles os de sua reconhecida inteligência e compromissos políticos. Os homens públicos carecem de respeito absoluto ao bem comum e da dedicação real ao seu povo, como nos dois exemplos citados.
A recuperação dos valores políticos municipais vem ocorrendo, a duras penas, nestes últimos vinte anos. Muitos municípios brasileiros se destacaram, apesar das dificuldades, no emprego criterioso dos recursos tributários e no planejamento de suas estruturas físicas e sociais. Isso ocorreu, porque os cidadãos assumiram o seu dever de zelar pelos próprios interesses e pelos interesses gerais do país. Em alguns casos, rebelaram-se, ocuparam as câmaras municipais e as prefeituras, provocaram a ação da justiça, em geral morosa nesses casos, e substituíram os larápios por homens honrados e trabalhadores. Esses municípios não se desmobilizaram, com a vigilância de seus cidadãos, e se tornaram exemplos de como os brasileiros somos capazes de assumir nossas responsabilidades políticas e sociais. Eles têm sido emulados por outros, o que significa uma esperança.
É preciso que os cidadãos se compenetrem de que o município, além de ser a base do sistema federativo, é também a porta de entrada regular para a política – e todo cidadão, por princípio, é político, isso é, responsável pela sua cidade e, em extensão, por seu país. Tudo isso recomenda atenção maior com as eleições municipais deste ano – que servirão para indicar o rumo eleitoral de 2014.
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Porto de Rio Grande: Casco da P-55 deve entrar no porto segunda-feira

A Petrobras informou, na tarde desta sexta-feira, 13, que o casco da plataforma P-55 deve chegar na área de Rio Grande no domingo à noite. E a operação de entrada no porto rio-grandino deverá ocorrer na manhã de segunda-feira, uma vez que deve ser feita à luz do dia. Conforme plano apresentado pela Praticagem da Barra em reunião na Superintendência do Porto de Rio Grande (Suprg), na tarde de quinta-feira, são necessárias sete horas e meia para a operação de ingresso.
Para a entrada no porto, o casco será conduzido por dois rebocadores oceânicos e quatro portuários. A estrutura saiu de Pernambuco no dia 22 de dezembro em direção a Rio Grande, puxado por dois rebocadores oceânicos. Quando ingressar no porto, ele irá ancorar no cais sul do dique seco, no Estaleiro Rio Grande (ERG1), onde passará por processo de liberação alfandegária e posterior preparação para o "mating" (união do deckbox com o casco). A previsão da Petrobras é de que na última semana de fevereiro ele entre no dique seco para ser unido ao deckbox (convés).
Jornal Agora
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Charge online - Bessinha - # 989

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Mantega não cogita sair do governo, diz assessoria

Ministro da Fazenda pretenderia deixar o cargo para cuidar da saúde da esposa, em São Paulo, segundo reportagem da revista Época
BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou neste sábado,14, que pretenda deixar o cargo neste início de ano para cuidar de uma questão pessoal, o tratamento de saúde de sua esposa, em São Paulo. A assessoria de imprensa do Ministério informou que Mantega "não cogitou nem cogita deixar o governo", em resposta a reportagem da revista Época, que trouxe a informação. "A revista se aproveitou de uma questão estritamente pessoal para fazer ilações."
Desde o final de 2011, Mantega tem de fato passado mais tempo em São Paulo, onde despacha de um escritório do Ministério. Nos bastidores, já se comentava que a razão disso era a doença da esposa. E circulava, em caráter especulativo, a possibilidade de ele afastar-se por esse motivo.
"Realmente tem a doença, mas não acho que ele vá sair por isso", comentou um ministro. Mantega é hoje um dos ministros mais próximos de Dilma. Na hipótese de sua saída, ele seria substituído por Nelson Barbosa, atualmente secretário executivo da pasta, também homem de confiança da presidente.
A especulação atingiu seu auge na quarta-feira passada, quando Mantega interrompeu suas férias para vir conversar com a presidente Dilma Rousseff durante almoço. Como Barbosa tinha tido uma audiência pouco antes, houve quem concluísse que se tratava da mudança no comando da Fazenda. O que não se confirmou.
A reportagem da Época fala também que Mantega estaria preocupado com a proximidade de Barbosa com Dilma. O secretário, de fato, tem um acesso privilegiado à presidente, comparado a outros que ocupam o mesmo grau de hierarquia. Tendo atuado como um dos conselheiros econômicos na elaboração do programa de campanha de Dilma, Barbosa esteve cotado para vários cargos durante a transição, inclusive o de ministro da Fazenda.
"Não acho que a ciumeira seja tanta assim", comentou um colega. Ele observou que Barbosa esteve com Mantega no Ministério do Planejamento, no BNDES e agora ocupa o que seria o cargo de vice-ministro. Nem o próprio Barbosa alimenta expectativa de tornar-se ministro. "É mais fácil o inferno congelar do que eu virar ministro", disse ele a um amigo.
No Estadão
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Churrascão da "gente diferenciada" na Cracolândia

O intuito da manifestação, segundo o coletivo Dar (Desentorpecendo a Razão), um dos responsáveis pela mobilização de hoje, é protestar contra o tratamento dado aos dependentes do crack, alvo da operação policial. Nesta sexta-feira (13), a Defensoria Pública de São Paulo se pronunciou sobre o caso e disse estar acompanhando o tratamento dado aos usuários.
Foto: Cris Faga/AE
Foto: Cris Faga/AE
No R7
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Encontro Nacional de Ateus

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O negro e a loira no refeitório

Uma verídica história contra racismo e xenofobia
Estamos num refeitório estudiantil, de uma universidade alemã. Uma aluna loirinha e indiscutivelmente germânica retira seu bandejão com o prato do dia e vai se sentar em uma mesa. Então, descobre que esqueceu de pegar os talheres, e volta para buscá-los. Ao regressar, descobre com surpresa que um rapaz negro – a julgar por seu aspecto, vindo provavelmente de algum lugar bem ao sul do Saara – tinha se sentado no seu lugar, e estava comendo da sua bandeja.
No começo, a garota se sente desconcertada e agredida, mas logo corrige seu pensamento inicial e supõe que o africano não está acostumado ao sentido de propriedade privada e de intimidade do europeu, ou quem sabem não tenha dinheiro suficiente para comprar sua própria comida, apesar de a bandeja universitária ser até barata, considerando o elevado custo de vida do seu rico país.
A garota, portanto, decide se sentar em frente ao sujeito, sorrindo amistosamente, o que o rapaz negro responde com outro sorriso pacífico. Em seguida, a alemã começa a comer da comida que está na bandeja em frente aos dois, tentando demonstrar a maior naturalidade possível, compartilhando aquela refeição com o colega com saborosa generosidade e cortesia. Assim, ele vai comendo a salada, enquanto ela aproveita a sopa, ambos beliscam igualitariamente o mesmo refogado, até limpar o prato, até que ele escolhe o iogurte de sobremesa, enquanto ela prefere a fruta. Tudo isso acompanhado de diversas expressões educadas, tímidas por parte do rapaz, suavemente condescendente e compreensivas por parte dela.
Terminado o almoço, a aluna alemã se levanta para ir buscar um café. E então descobre, na mesa que estava logo atrás dela, sua própria jaqueta colocada sobre o braço de uma cadeira, e em frente a esta, uma bandeja de comida intacta.
Dedico esta história deliciosa, que além do mais é verídica, a todos aqueles espanhóis (nota do tradutor: e se poderia extender também aos brasileiros) que no fundo nutrem um enorme receio pelos imigrantes e os consideram indivíduos inferiores. A todas essas pessoas que, ainda que bem intencionadas, observam o mundo com condescendência epaternalismo. Será melhor se nos livramos dos prejuízos, ou corremos o risco de fazer o mesmo ridículo que a pobre alemã, que pensava ser o cúmulo da civilização, enquanto o africano, ele sim imensamente educado, a deixou comer de sua bandeja, talvez pensando: "acho que esses europeus estão mesmo malucos".
Rosa Montero, para o diário espanhol El País, Tradução de Victor Farinelli
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Por que só Eliana Calmon enxergou os R$ 283 milhões no Tribunal do primo de Marco Aurélio?

O Coaf (órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda) identificou 3.426 magistrados e servidores do Judiciário que fizeram movimentações fora do normal no valor de R$ 855 milhões entre 2000 e 2010.
O auge foi em 2002, quando uma única pessoa movimentou R$ 282,9 milhões. O nome sob sigilo está ligado ao Tribunal Regional do Trabalho da 1ª região, no Rio de Janeiro ( TRT-RJ), segundo o COAF.
Esse Tribunal ocupou as páginas policiais durante a CPI do Judiciário, no Senado, em 1999, assim como aconteceu com o Tribunal equivalente paulista, onde presidiu o juiz Nicolau dos Santos Neto.
http://goo.gl/AQoZf e http://goo.gl/MEqz2 e http://goo.gl/QZYm9
Sobre o TRT-RJ pesou graves denúncias, desde licitações fraudadas, passando por venda de sentenças e venda de nomeações, nepotismo, tráfico de influência, uso da máquina para campanha eleitoral do governador tucano, abuso de autoridade, quando o Juiz José Maria de Mello Porto o presidiu, entre 1993 e 1994. Há gravações envolvendo outros membros do Tribunal e onde ele era citado.
Em 2007, o TRT/RJ aparece em denúncias envolvendo o irmão de outro magistrado do STJ (Paulo Medida).
Mello Porto era primo do ministro do STF Marco Aurélio de Mello e do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Morreu durante um assalto em 2006, como desembargador deste Tribunal, sem qualquer condenação (que se saiba). Processou diversos jornais e jornalistas e até procuradores da República que fizeram denúncias contra ele, e ganhou indenização em muitos casos, pelo menos nos tribunais cariocas (não sei o que aconteceu nos recursos).
Agora, coincidentemente, aparece a notícia da movimentação atípica de R$ 283 milhões por uma única pessoa neste tribunal em 2002. Não cabe fazer ilações sobre nomes, sem provas, como costuma fazer a revista Veja. Mas alguém movimentou essa fortuna de forma atípica lá, onde choveram denúncias de irregularidades pelo menos desde 1994.
E a pergunta que fica ao Dr. Gurgel, Procurador Geral da República é: por que o Ministério Público Federal, não fez o dever de casa, e não investigou desde 2002, um alerta do COAF deste tamanho?
Será que é porque não saiu na revista Veja?
Não fosse a resistência e coragem da corregedora do CNJ, Eliana Calmon, a impunidade estaria garantida.
Detalhe: Durante a CPI do Judiciário, Mello Porto era corregedor do TRT/RJ.
O fato recomenda ao Dr. Peluso (presidente do STF) repensar sobre sua insistência em deixar as investigações sobre malfeitos para as corregedorias dos próprios tribunais.
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Palavras que Calam os Hipócritas!

Sou um Muçulmano
Mate-me e chame isto "Efeito Colateral"
Aprisione-me e chame isto "Medida de Segurança".
Exile meu povo e chame isto "Novo Oriente Médio"
Roube meus recursos, invada a minha terra e chame isto DEMOCRACIA!
No Cachete
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Democracia e capitalismo

No final de 2008 pareceu que o segundo muro havia ruído 19 anos após a queda do primeiro em Berlim. Este para selar o colapso do chamado socialismo real, aquele da main street do capitalismo para precipitar o enterro do neoliberalismo. Enganaram-se os esperançosos analistas, apressados. O célebre wall resistiu e o mercado prosseguiu no comando, perdão, o MERCADO, deus último e famigerado.
A hora trágica da incompatibilidade
Leio um texto exemplar de Carlo Azeglio Ciampi, límpido funcionário do Estado, ex-presidente do Banco Central da Itália, ex-primeiro-ministro, ex-presidente da República. Diz ele: “Desafiaram a lei moral que permite distinguir a comunidade humana da selva (…) fizeram da finança, aquela que, conforme os manuais de economia, está a serviço da produção, da troca, do desenvolvimento, uma selva onde se satisfazem apetites ferinos, onde impera a lei não escrita do desprezo por todos os valores, afora o ganho, o sucesso, o poder”.
Ciampi fala de uma tormenta que dura há três décadas e confere ao capitalismo “um rosto desumano”. A crise global atiça, em diferentes instâncias, o debate sobre o estágio atual do capitalismo. Das lideranças das forças produtivas aos intelectuais de diversos calibres e aos analistas de publicações de alto nível, como The Economist, Foreign Affairs, Financial Times. Em questão, o modelo político e econômico ocidental, a partir de mudanças consolidadas. A globalização com seus efeitos mais recentes, por exemplo. Ou o galope do avanço tecnológico.
É do conhecimento até do mundo mineral que conseguimos globalizar a desgraça ao aprofundar os desequilíbrios entre ricos e pobres em todas as latitudes de uma forma bastante peculiar. Deixemos de lado o Brasil, reservado, como se diz de certos elementos de receitas culinárias. Sobram países pobres, ou mesmo paupérrimos, e que continuam como tais, e países ricos cada vez mais empobrecidos. A constatação inevitável nos leva a validar a tese de que a riqueza foi transferida para algumas corporações e seus mandachuvas. São eles os donos do mundo. A senhora Merkel, o senhor Sarkô, tentam se dar ares de superioridade, mas não convencem.
É a vitória dos especuladores e de suas artimanhas, e não era com isso que sonhava Adam Smith. Ou, muito tempo antes, o banqueiro genovês que financiou a construção dos barcos destinados ao transporte das tropas da Primeira Cruzada. As consequências do neoliberalismo, deste selvagem fundamentalismo, não põem em xeque somente o sistema econômico mundial, mas também a própria democracia, a qual não se satisfaz com a liberdade para buscar a igualdade. Ao menos, a igualdade de oportunidades.
O mundo mineral continua a confirmar o senhor De La Palisse. O neoliberalismo promove o predador espertalhão, ou, por outra, a lei da selva, a acentuar a desigualdade. E onde fica a democracia? Daí a preocupação de quem ainda a considera indispensável à realização de uma sociedade que se pretenda justa. Chegou a hora de retirar o Brasil da reserva em que me permiti colocá-lo, à espera de completar a receita. O Brasil tende a sofrer menos com a crise, talvez muito menos, do que a turma outrora seleta do ex-Primeiro Mundo.
O País deu e dá importantes passos à frente nos últimos nove anos. Começa finalmente a aproveitar suas extraordinárias potencialidades, os generosíssimos presentes da natureza, graças a governos contrariados pela desigualdade. Como haveria de ser, aliás, todo capitalista consciente das suas responsabilidades de cidadão de uma nação democrática. Podemos crer que, de fato, somos uma nação democrática?
O Brasil é, a seu modo, um caso à parte, como alguns outros países. Carecemos da passagem pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa. A dita elite brasileira é uma das mais atrasadas do mundo. Nunca usufruímos de um Estado de Bem-Estar Social e os sistemas da indiscutível atribuição estatal, educação, saúde e transporte público, são além de bisonhos. São Paulo tem a segunda maior frota de helicópteros do mundo e uma enorme área do País não conta com saneamento básico. Nesta moldura, a democracia há de lutar bravamente para se afirmar.
A vantagem quem sabe esteja no seguinte ponto: a democracia perde terreno para tantos que a conheceram e praticaram, nós temos largo espaço à frente para conquistá-la.
Mino Carta
No CartaCapital
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Aliança com Lacerda racha PT em Belo Horizonte

É oficial: proposta de aliança com o PSB para a reeleição do prefeito Marcio Lacerda entrará na pauta de votação do encontro do PT na capital mineira; PSB mineiro também convidou o PSDB a participar formalmente da coligação
Agora é oficial. A proposta de aliança com o PSB para a reeleição do prefeito de Belo Horizonte, o socialista Marcio Lacerda, com a indicação do candidato a vice, entrará na pauta de votação do encontro do PT na capital mineira, em data que será definida na próxima segunda-feira (16). O PSB mineiro já convidou o PSDB a participar formalmente da coligação, o que foi aceito pelos tucanos.
A aliança, apoiada pela presidente Dilma Rousseff, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) pode aprofundar um racha no PT mineiro. Além daqueles que apoiam a coligação, há um grupo capitaneado pelo vice-prefeito Roberto Carvalho que é declaradamente contrário ao acordo e um terceiro, ligado ao ex-ministro Patrus Ananias, que hoje divulgou documento criticando a aliança com o PSDB e a forma como foi conduzido, "com uma série de equívocos de conteúdo e de método", o processo em 2008. Na ocasião Pimentel se aliou ao então governador Aécio Neves (PSDB) para alavancar a candidatura de Lacerda.
Hoje, o grupo favorável à reedição da aliança - da qual o PSDB participou informalmente - apresentou as assinaturas necessárias à inclusão da proposta na discussão da estratégia petista para a disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). "É uma decisão política. (Mas) somos um partido político", observou o presidente de honra do PT na capital, Aloísio Marques. "Seguimos a concepção de um projeto nacional. Temos razão política e pragmática (para reeditar a aliança)", acrescentou o presidente do diretório estadual petista, o deputado federal Reginaldo Lopes.
A princípio, Lopes negou que a proposta tenha objetivo de agradar ao PSB, partido em franco crescimento, principalmente no Nordeste brasileiro, e que é assediado também pelos tucanos para a disputa presidencial de 2014. Depois, porém, Lopes assumiu: "Queremos manter o casamento com o PSB. Sempre pensando no projeto nacional", disse.
Na segunda-feira, pouco antes da reunião da executiva municipal que decidirá o calendário para debates e votação das propostas, será a vez dos petistas que refutam a aliança com os tucanos apresentarem abaixo-assinado que teria 2,5 mil assinaturas contrárias à coligação. Roberto Carvalho, que é presidente do PT na capital, não participou do entrega das assinaturas ontem porque estaria "em reunião". Os documentos foram recebidos pelo secretário-geral do diretório, Geraldo Magela Arco Verde.
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Neri: não entramos no século 21, mas saímos do 19

Embora se possa ter diversas diferenças quanto à avaliação dos componentes determinantes do desenvolvimento brasileiro nos anos recentes, a entrevista do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, à Carta Capital,expõe com clareza e de forma impactante o impacto deste processo na vida do país.
Merece, portanto, ser transcrita na íntegra.
CartaCapital: Quais os principais números da recente onda de inclusão social no País?
Marcelo Neri: Desde o lançamento do Plano Real até dezembro de 2010, no fim da década passada, a pobreza caiu 67%. Desde o governo Lula, caiu 50,6% nos dois mandatos. Lula fez 25 anos, ou seja, a meta do milênio de reduzir a pobreza à metade, em oito anos. E desde quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda reduziu 31%. Então, caiu 31% e, depois, 50%, o que dá 67% de queda, dois terços da pobreza no Brasil. O primeiro passo foi o controle da inflação, e o investimento pesado em educação lá atrás. Em 1990, o Brasil tinha 16% das crianças de 7 a 14 anos fora da escola.
Em 2000, tinha 4%. Agora tem menos de 2%. Na década passada, houve redução da desigualdade e mais emprego formal, com carteira assinada. Na minha visão, são os dois maiores méritos de cada década (de 1990 e 2000). A desigualdade e o emprego com carteira são bastante influenciados tanto pela estabilização quanto pela educação. E, obviamente, também devido a uma política social ativa. O Bolsa Família talvez seja o maior exemplo e descende também lá do Bolsa Escola. Então teve uma continuidade interessante, macroeconomicamente, em política social, em educação… Até o primeiro mandato de Lula a gente não andou para frente em educação, mas no segundo mandato retomamos a agenda de educação, que foi além com Fernando Haddad.
CC: Quais os avanços mais recentes?
MN: Em 2010, para se ter ideia, a pobreza caiu 16%, foi algo espetacular. Também porque foi ano eleitoral e de saída da crise. Aqui, a crise, por sinal, não foi tão forte, mas ela aconteceu. O Censo acabou de confirmar: a renda dos 50% mais pobres cresceu 68%, entre 2000 e 2010. A dos 10% mais ricos cresceu 10%. Desde 2003, no primeiro ano do governo Lula, a gente mudou de patamar em geração de emprego. Já em 2004, inclusive, e veio acelerando. A gente, que vivia no voo da galinha, ano bom, ano ruim, conseguiu ter vários anos bons de crescimento – não excepcionais. Mas anos excepcionais em redução de desigualdade. Outro dado importante é que 39 milhões de pessoas subiram à classe C. O Brasil tem um pouco um espírito de Ayrton Senna, anda bem debaixo das chuvas e trovoadas internacionais.
CC: Como andou a desigualdade nos países centrais nas últimas décadas?
MN: Aí há algum paradoxo. Dentro dos países a desigualdade aumentou. Em todos os países europeus ela também aumentou, desde 1985, com exceção de França e Bélgica. Nos Estados Unidos, ela vai aumentando desde a era Reagan.
CC: E não parou mais de crescer?
MN: Não para de aumentar. O protesto em Wall Street, por sinal, é baseado nessa situação. Na Índia e na China, está crescendo muito a desigualdade. E em outros países emergentes também, menos nos latino-americanos, o que é realmente um dado novo. E o Brasil está dentro desse contexto latino-americano. Então existe certa convergência da desigualdade no mundo: quem tinha muita passou a ter menos, como nós da América Latina. E quem tinha meno , como a Europa e mesmo os Estados Unidos, embora não tão menos, bem mais do que a Europa, aumentou.
CC: Voltando ao Brasil, qual segmento social ficou para trás?
MN: A renda em São Paulo, de 2000 a 2009, cresceu 7,2% (em termos reais per capita). A renda no Nordeste cresce 42%. Em Sergipe, estado em que mais cresceu, o aumento foi de 58%. No campo a renda cresceu 49% e nas metrópoles, 21%. Entre as mulheres aumentou 38% e entre os homens, 16%. Para os negros 43%, ante 21% para os brancos. Entre analfabetos cresceu 47%. Para as pessoas com pelo menos o superior incompleto caiu 17%. Ou seja, para todo mundo que é pobre cresceu a renda. O que é difícil para nós que não estamos na base percebermos. A gente olha e fala: a renda desse cara era de 300 reais, agora é de 500, mas o que mudou? Para o cara é uma revolução, e é realmente. Essa redução da desigualdade é a grande marca brasileira dos últimos dez anos. E ela continua, não tem nenhum sinal de que desacelerou. Pode até parar (de cair) com a crise, como parou em 2009, mas voltou, não andou para trás. Obviamente ainda será preciso ver os dados da crise atual.
CC: Os que ficaram para trás são da chamada classe média tradicional?
MN: Acho que sim, essa é uma boa classificação. Quem era classe média tradicional, perdeu. Acho que o Brasil dos últimos anos é o seguinte: boas e más notícias. A boa é que a desigualdade caiu. A má notícia é que a classe média tradicional não entrou na festa. O espetáculo do crescimento é só a preços populares, é um pouco isso. Não tenho essa visão de muita gente que diz que o Brasil entrou no século XXI. A gente está saindo do século XIX, é uma abolição da escravatura retardada. Está saindo de um país muito desigual muito rápido, mas recuperando um atraso grande.
CC: O que explica isso?
MN: Foi uma queda do retorno da educação. Por que a renda cresce na base da pirâmide? Pense no filho do peão. O pai dele era analfabeto ou analfabeto funcional. Ele foi lá, estudou, chegou ao ensino médio e não quer ser peão como o pai. Aí a demanda por pessoas pouco educadas aumentou muito. Tem mais gente com ensino médio, chegando ao ensino superior, com qualidade questionável da educação, é verdade, mas tem mais concorrência. Quem tem um diploma deixou de ser tão valorizado. E quem não tem diploma passou a ser valorizado porque são poucos, e tem muito trabalho braçal. Então tem o fator educação e o fator programas sociais. É o dinheiro para as pessoas lá na base, o Bolsa Família.
CC: Qual a sua expectativa em relação ao reajuste do salário mínimo, válido a partir de 1° de janeiro?
MN: O efeito do mínimo é pequeno no combate à desigualdade. Sou muito mais fã do Bolsa Família. E crítico do salário mínimo. Até mostrei, 16 anos atrás, o importante papel que o salário mínimo teve para reduzir a pobreza depois do Real. Mostramos que a queda de 40% da pobreza foi no mês que o salário mínimo teve um forte reajuste, maio de 1995. Só que esse efeito foi embora. E agora claramente o Brasil vai entrar em um ano em que deveria fazer algum”dever de casa” nas contas públicas, mas pegará o efeito do Pibão (crescimento de 7,5% do PIB) de 2010 e automaticamente jogar para o salário mínimo de 2012. Não é uma fórmula razoável, acho inclusive que os analistas econômicos aceitaram alguma coisa muito ruim para o País. Tem um efeito desastroso nas contas e não tem um efeito tão positivo sobre a desigualdade.
CC: O Bolsa Família continuará relevante?
MN: Quem tem preocupações fiscais deveria gostar do Bolsa Família. Acho que a gente está com uma nova geração, até tenho participado aqui no Rio e em Curitiba do desenho de programas complementares ao Bolsa Família, que usam o cadastro único do Bolsa Família. Aqui no Rio existe o Família Carioca, um programa municipal que atende 500 mil famílias, criado pela Claudia Costin, que é excepcional, com avaliações bimestrais. Criamos um prêmio para os alunos pobres que melhorarem a nota. E estamos começando a ver os resultados. E são resultados interessantes. O governo do estado está fazendo a mesma coisa. Isso é o que eu gosto de chamar de um novo federalismo social, com vários níveis de governo começando a atuar na área de educação, com metas de educação. O Brasil tem efervescência, somos uma democracia vibrante… Veja lá nos países árabes, eles estão numa transformação, mas é uma transformação bélica, traumática. Veja a Europa, mesmo antes da crise… Aqui no Brasil a gente está com esperança, é uma sociedade em movimento. Morei há 30 anos na Africa do Sul e tive oportunidade de voltar lá recentemente. E tive exatamente a mesma sensação lá, embora haja problemas bem complicados. Talvez esse seja o aspecto mais fascinante de morar no Brasil atualmente.
CC: Quais os maiores riscos em termos objetivos para a luta contra a desigualdade?
MN: Não fazer as reformas. O Brasil gerou muito emprego formal. Mas imagine se a gente tivesse uma legislação trabalhista mais ajeitada. Porque o Brasil tem um Estado grande e há uma preferência da população por isso. Acho que o Brasil está optando por um caminho do meio, mesclando Estado com iniciativa privada, respeito a contratos, fazendo uma política ativa. Agora se a gente usar essa rede do Estado para prover serviços bons, de forma transparente, além de todo esse problema da corrupção que a gente tem de resolver. De alguma forma estamos encaminhando isso, a sociedade está. Vai depender da nossa capacidade de superar obstáculos.
Fernando Brito
No Tijolaço
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Professora da UERJ defende legalização das drogas e escandaliza a globete

Percebam como a entrevistadora é estúpida. Ela não consegue entender os argumentos da professora. Ou, então, foi determinado a ela que não entendesse.
No Blog do Márcio Tavares
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Charge online - Bessinha - # 988

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Abatido, Mantega pode deixar o governo

O motivo seria o câncer de sua esposa Eliane Berger; reportagem da revista Época também falou sobre o patrimônio de R$ 20 milhões do ministro, recebido como "herança"; substituto seria o secretário Nelson Barbosa
Guido Mantega é, sem dúvida, o ministro mais forte do governo Dilma Rousseff. Além do caixa do Ministério da Fazenda, ele exerce grande influência sobre instituições como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras. Embora não cultive a imagem de poderoso, Guido se mantém ativo nos bastidores e foi personagem decisivo no episódio que culminou com a queda de Antonio Palocci e a saída de Henrique Meirelles do governo. Agora, é Mantega quem pode estar prestes a deixar o governo. Uma reportagem da revista Época, assinada pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho, faz uma radiografia completa sobre a vida, a obra e o legado de Mantega. Passa até pelo patrimônio de R$ 20 milhões amealhado pelo ministro. E diz que o motivo da queda seria o câncer de sua esposa, Eliane Berger, que vive em São Paulo, informação antecipada pelo jornalista Claudio Humberto há algumas semanas. O substituto seria o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Leia, abaixo, o perfil construído por Maklouf, que tem ar de despedida:
Dezembro foi cruel, no plano pessoal, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Trouxe-lhe a dura notícia de um câncer em sua mulher e mãe de seu quarto filho, a psicanalista Eliane Berger Mantega. O susto chegou no começo do mês. Abaladíssimo, Mantega praticamente se transferiu para São Paulo. Informou a presidente Dilma Rousseff, que já pulou essa fogueira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que está se tratando da mesma doença –, alguns poucos amigos e decidiu, firmemente, em comum acordo com a mulher, que não divulgaria o fato. Num círculo restrito à Presidência da República, já se comenta a possibilidade de que Mantega saia do governo, se considerar que a doença da mulher torne isso necessário. Como a presidente Dilma tem outro homem de confiança na Fazenda – o número dois, Nelson Barbosa, secretário executivo da Fazenda –, a eventual mudança, mesmo considerada indesejada, não chega a assustar.
No dia 2 de dezembro, quando recebeu Época para a primeira de duas entrevistas – uma na sede da Presidência da República em São Paulo, outra no gabinete ministerial, em Brasília –, Mantega vestia, como sempre, um terno bem cortado. Abriu um sorriso quando recebeu elogios pela bem-disposta aparência e comentou, com uma pitada de desconcerto: “Precisa ver como é que está por dentro, precisa ver como é que está por dentro. E se estiver tudo detonado?”. Ele já vivia o drama familiar – do qual não deu a mais remota pista nas duas entrevistas. Um de seus bons amigos dos tempos de universidade, militância política e caratê é o hoteleiro paulistano Fábio Iunesco. “O Guido é um samurai”, diz Iunesco, em seu hotel da Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. “Nunca o vi ficar deprimido, nem nos momentos ruins. Ele toma o golpe, assimila e vai.”
Em seu nono ano de governo petista, Mantega foi ministro do Planejamento, presidente do BNDES e está ministro da Fazenda há quase seis anos. É o terceiro mais longevo no posto, perdendo para Pedro Malan (1995-2002) e para seu amigo e conselheiro econômico Delfim Netto (1967-1974), um dos principais formuladores do pensamento econômico da ditadura militar. Em meia hora de conversa sobre “o Guido” (pronuncia-se o ditongo), o hoje consultor (e articulista de vários jornais) enfileirou adjetivos: “extremamente competente”, “muito bem formado”, “ideias firmes”, “corajoso”, “educado”, “decente”, “muito afável”, “alegre”, “confiável”, “íntegro”. Os que discordam de Delfim costumam chamá-lo de “herbívoro”, “burrinho” ou “Forrest Gump” – termos ouvidos de alguns de seus adversários. A despeito deles, Mantega, trabalhando quase em silêncio, transformou-se no ministro mais poderoso da Esplanada. Ao ouvir isso, ele responde, com humor e a vaidade da modéstia:
– Olha, não sou poderoso. Poderosa é a presidenta. Ela teve 54 milhões de votos. Ela é a poderosa. Nós somos nomeados.
– O senhor não é o ministro mais influente e mais forte do governo?
– Tenho dúvidas. Não é algo claro, mensurável, não tenho nenhum termômetro. Você quer me perguntar se tenho bom relacionamento com a presidenta? Tenho um excelente relacionamento.
Forrest Mantega?
O bom humor para, por uns minutos, quando ele ouve a fileira de críticas de seus adversários. Das já citadas, estrila com “herbívoro”. Trata-se de uma insinuação de que Mantega não faria reformas realmente estruturais, concentrando-se na “verdura” – sem nunca atacar a “carne”. “Deve ter gente que não gosta de mim, claro. Isso é natural. E esses poderão falar qualquer bobagem. Deve ter gente com dor de cotovelo, gente que passou pelo governo anterior, que no passado era um fracasso. Muita gente fez um monte de bobagem aqui.” Ele se ajeita na cabeceira da grande mesa de reuniões, pensa mais um pouco e completa:
– O segundo motivo desses ataques é que sou desenvolvimentista, e isso não agrada aos ortodoxos. E um desenvolvimentista bem-sucedido. O país está crescendo mais, está gerando mais emprego. Então, isso deve dar uma dor de cotovelo. Imagino como é que eles se mordem. Então, se sou um herbívoro, que nem sei o que é, sou um herbívoro bem-sucedido. Aliás, eu gosto de salada. Como muita salada, vai ver que é isso.
– O senhor tem alguma admiração pelos carnívoros?
– Não sou muito carnívoro (risos). Essas pessoas são despeitadas, têm mau caráter ou ressentimento. Não vou dar bola para isso, estou pouco me lixando. Quero é ver o reconhecimento da sociedade, não de um indivíduo que possa ter algo contra mim. Os cães ladram e a caravana passa.
“O MUSSOLINI VEIO DA ESQUERDA”
Giuseppe Mantega, o pai do ministro, morreu em 1983. Ele foi soldado e oficial do Exército fascista na Itália de Benito Mussolini. Nasceu na Ilha da Sardenha, em janeiro de 1914. Entrou para o Exército quando já morava em Gênova. Lutou na Guerra Civil Espanhola, em apoio ao ditador Francisco Franco, e na Segunda Guerra Mundial, até a derrota para os Aliados. “Pois é, ele estava do lado errado”, diz Mantega. “Naquela época, quase toda a Itália estava com Mussolini. No início, ele era muito popular. Sob certos aspectos, lembra o Getúlio Vargas aqui. Fez reformas sociais na Itália. O povo gostava do Mussolini. O Mussolini veio da esquerda...”
Quando migrou para São Paulo, em 1951, Giuseppe trouxe, além das economias, as condecorações de guerra, uma das fardas e a marca de um estilhaço de granada na mão esquerda. Guido já nascera, em Gênova, em 7 de abril de 1949. Em 1952, quando Giuseppe disse à mulher, Anna, que tudo ia bem, ela e o filho tomaram um navio e, oito dias depois, desembarcaram em Santos.
Giuseppe prosperou com uma indústria de móveis e vidro. Faziam viagens anuais de férias à Itália – daí a paixão que até hoje o ministro e sua mãe, de 89 anos, continuam a ter por cruzeiros marítimos. Ao lado de Paula, única irmã, levava uma vida de classe média alta. Guido estudou em bons colégios. Estava mais para o almofadinha, “muito certinho, sempre querendo o chinelinho no lugar”, para usar uma expressão do fazendeiro Eduardo Ralston, seu amigo de juventude, universidade e (quase) cadeia. Guido odiava confusão. Uma vez, por brincadeira, Ralston paramentou-se de mendigo e infiltrou-se numa festa de colação de grau em que o italiano, como também o chamavam, estava presente. Na hora certa, saiu correndo e aos gritos em direção ao amigo, que se escafedeu. Aos 15 anos, a sorte informou que sempre acompanharia o rapaz. Guido saiu quase sem arranhões depois de capotar e praticamente destruir o carro do pai. Um pouco mais velho, surrupiava o Aero Willys de Giuseppe e levava os amigos para paquerar na Rua Augusta. “Sempre se deu bem com as garotas”, diz Ralston.
Giuseppe queria que Guido fosse trabalhar na fábrica. Ele queria, desde jovem, “ser intelectual”. Guido vivia na Móveis Mantega, no Itaim, aprendendo as manhas do vidro, das ferragens e da madeira. Quando entrou na universidade – na Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo, em 1966 –, trabalhou na fábrica. Para o pai, era um aprendizado que o curso superior aprimoraria. Para ele, uma chateação.
Mantega estudou quatro anos na FEA, onde se formou em 1971. Não deixou lembranças por lá. Nem mesmo para o único outro italiano da mesma escola, Franco Piponzi, hoje dono da rede de farmácias Droga Raia. “Soube disso muito depois, quando ele já era ministro”, diz Piponzi. Celso Marchi, um economista que hoje trabalha no governo Alckmin, era da mesma turma. “Tudo o que lembro é que, de vez em quando, a gente acrescentava um ‘i’ na lista de chamada, para ficar Manteiga”, diz Marchi. “Acho que ele tinha uma atividade política misteriosa em outro lugar, por isso se preservava.”
O outro lugar era, na mesma USP, a Faculdade de Ciências Sociais, onde Mantega também ingressara e era dirigente do centro acadêmico. Os tempos eram de ditadura e movimento estudantil. Mantega foi recrutado para o Partido Operário Comunista, o POC, contrário à luta armada. Seu codinome era Cláudio. Além das tarefas do movimento estudantil, havia as específicas da organização: fazer jornais ou panfletos em mimeógrafo a álcool e distribuí-los em áreas de concentração do operariado, como Osasco ou o ABC paulista. “A vantagem do POC é que ele não tinha adotado a luta armada”, diz Mantega. “Não teve, por exemplo, ações de banco, de sequestro. Eu não fiz nada disso.”
Comparada à da presidente Dilma, sua militância foi mais que discreta. Com seus riscos, claro. Um deles era a convivência, nas Ciências Sociais e fora dela, com os já citados Fábio Iunesco (também do POC), Eduardo Ralston e o hoje jornalista esportivo Juca Kfouri, os dois últimos ligados à ALN, a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighela. Eram quatro mosqueteiros, formando um grupo de estudos teóricos com forte viés marxista. Ralston já fora preso duas vezes – ocasiões em que levou na conversa a polícia política.
Disciplina na ditadura
No dia 7 de setembro de 1971 – ano da formatura do Manteiga na FEA –, os quatro e a então mulher de Kfouri, Suzana, foram passar o fim de semana no apartamento que a família de Ralston tinha no Guarujá. Guido levou a namorada, Cristina, linda e praticante de artes plásticas. Na volta, a título de saideira, três dos mosqueteiros emendaram para o apartamento de Kfouri e Suzana. Guido recusou-se – e Cristina acatou. Iunesco botou seu carro na garagem do prédio de Kfouri. O de Ralston ficou numa esquina próxima, cheio de papéis subversivos. O carro chamou a atenção da polícia. Ralston foi preso, lá pelas 11 da noite. Iunesco aproximou-se, para entender o que acontecia, e também foi detido, assim como Kfouri e Suzana logo depois. Foram libertados nos dias seguintes, com Iunesco, sem tortura. Ralston, com o histórico das outras prisões, foi torturado e só saiu – graças à pressão da família – na véspera do Natal.
“Nunca fui preso, porque sempre fui muito disciplinado”, diz Mantega. “Meus colegas não cumpriam as regras de segurança. Eu seguia à risca. A regra era aguardar no ponto dez minutos e ir embora. O cara ficava lá meia hora, 40 minutos. Muita gente caiu de boba, de besta, porque os militares também não eram tão espertos assim. Todo mundo era amador, a verdade era essa.” (A hoje presidente Dilma Rousseff foi presa, em janeiro de 1970, ao ir a um ponto de encontro fora das regras de segurança, sabendo disso.)
Quando o POC rachou – uma parte aderindo à luta armada –, Cláudio saiu. Manteve a militância, ligado ao grupo Debate, que reunia exilados brasileiros. Sediado em Paris, tinha, entre os coordenadores, o ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (a VPR de Carlos Lamarca) João Carlos Kfouri Quartim de Moraes, primo de Juca, também ligado ao grupo, e irmão de Maria Moraes, economista da Unicamp com quem Mantega dividiria um de seus livros – Acumulação monopolista e crises no Brasil, de 1980. “Fiz algumas viagens a Paris e ao Chile de Allende”, diz Mantega.
Prefácio de FHC
Com o diploma de economista na mão, e livre da insistência do pai em vê-lo empresário, Mantega qualificou-se para um mestrado em ciências sociais (por isso não se graduou nessa faculdade), com upgrade direto para o doutorado. Nos anos 1970, mantendo-se à esquerda, trabalhou no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap de Fernando Henrique Cardoso (que assinou o prefácio do livro de Mantega e Maria Moraes). Foi também colaborador dos semanários Movimento e, depois, do Em Tempo, ambos perseguidos pela ditadura. “Ele estava sempre acompanhado de moças bonitas”, diz o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, ex-diretor de Movimento. “Defendia, firmemente, que a burguesia não devia participar da luta contra a ditadura.” Pelo Cebrap, Mantega dividia mesas de palestra com gente já ilustre – FHC, Chico de Oliveira, Octavio Ianni, José Arthur Giannotti. “Ele era muito estudioso e muito sério”, diz o hoje ministro Moreira Franco, que participou, com Mantega, da CPI das Multinacionais nos anos 1980. E hoje? “É muito aplicado, gosta do poder e sente um prazer enorme de ser ministro.”
Mantega conta que foi monitorado pelo Serviço Nacional de Informação da ditadura, o SNI: “Eu escrevia artigos, que eram fortes. Um dia, fazendo uma palestra na Venezuela, fiz críticas ao autoritarismo no Brasil. Saiu nos jornais de lá e um coronel do SNI me telefonou. A sede era onde hoje é o Ministério da Fazenda. Quem diria que um dia eu comandaria isso aí?”. Passado o ligeiro momento de emoção, ele prossegue: “Aí liguei para o Giannotti e para o Fernando Henrique, que estavam no Cebrap. ‘O SNI está atrás de mim. O que é que eu faço?’. ‘Em vez de você ir lá, chama na sua casa. Seu pai é empresário, chama na sua casa’”. Era um belo apartamento na Alameda Itu, nos Jardins, área nobre da capital paulista. Dois coronéis foram lá, em trajes civis. Giuseppe estava presente. “Eles levaram cópias de vários artigos que eu tinha escrito e me intimidaram, dizendo que eu era estrangeiro. Eu ainda não tinha me naturalizado, porque achava que, se a coisa apertasse, eu, como cidadão italiano, poderia recorrer à embaixada.” A última frase dos arapongas foi, segundo a memória de Mantega: “O senhor está sob alça de mira, estamos de olho”. Foi outro momento de sorte.
Aproximação com o PT
No começo dos 1980, Mantega aproximou-se do PT, partido em formação. Diz que participou de algumas reuniões preparatórias da fundação. Gente como o senador Eduardo Suplicy, que estava lá, não se lembra da presença dele em nenhuma das decisivas e incisivas reuniões preliminares. “É até possível que ele estivesse, mas eu não recordo”, diz Suplicy. “Eu estava, nas reuniões no sindicato dos jornalistas de São Paulo”, afirma Mantega. Tendo ficado no Cebrap, ele poderia ter aderido ao campo que depois entrou no MDB e depois virou tucano, a ala de FHC. Por que escolheu outro caminho? “Éramos todos de esquerda”, diz Mantega. “Mas tinha uma esquerda mais à esquerda, e uma esquerda mais ao centro.” Ele era, entenda-se, da esquerda mais à esquerda.
A banca que deu nota 10 à tese de doutorado de Mantega – Raízes e formação da economia política brasileira (a fase estagnacionista), de 493 páginas desordenadamente encadernadas na biblioteca da USP – foi integrada por Gabriel Cohn (orientador), Brasílio João Salum Junior, Paul Singer, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Bresser Pereira. “Li mais de 1.000 livros para escrever a tese”, diz Mantega. Ele a defendeu, aos 33 anos, em abril de 1982. É um trabalho de fôlego sobre o tema a que se propôs – uma leitura exaustiva dos principais pensadores econômicos no mundo e no Brasil. Não é brilhante, mas é aplicada.
Parte da tese virou o livro A economia política brasileira, publicado em 1984 e em mais quatro edições. Guido dedicou-o à namorada de então – a economista Franceschina Vilardo, ou Chica – e à memória do pai, fumante que um câncer de pulmão levou em fevereiro de 1983. Ele jaz no mármore cor-de-rosa do jazigo familiar no cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros. Mantega nunca fumou cigarros. Só experimentou cachimbo e diz que não apreciou. Giuseppe deixou uma bem fornida herança, principalmente em imóveis. Diante da estimativa de R$ 20 milhões para seu patrimônio, Mantega afirmou: “Isso aí é sigilo fiscal. Para dizer a verdade, nem sei exatamente. É que uma boa parte do meu patrimônio é de 30 anos, de muito tempo. Tenho imóveis declarados pelo valor histórico, como manda a lei. Nem sei exatamente quanto tenho”.
Sexo e poder, no final dos anos 1970, foi o primeiro livro em que o nome de Guido Mantega aparece na capa, como coordenador. Tem 215 páginas e é uma coleção de ensaios áridos sobre dois temas então explosivos. O artigo de Mantega chama-se “Sexo e poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação”. Leitor realmente ávido, e eclético, ele discorre sobre Freud, Reich, Marcuse e Foucault. Diz, às tantas: “O prazer mecanizado da sociedade de consumo (com bonecas de plástico, vibradores a pilha e outros engenhos) ilustra bem a solidão e alienação da sociedade contemporânea. Nesse contexto, pouco adianta multiplicar as posições sexuais ou inventar novos jogos amorosos (sexo grupal, sexo com melancias, com cães e outros bichos) sem alterar substancialmente a qualidade das relações”. Careta? A psicanalista Maria Rita Kehl, a economista Maria Quartim de Moraes e o novelista Aguinaldo Silva – de Fina estampa – são alguns dos outros colaboradores.
Mantega, assim como a presidente Dilma, jamais viveu a vida orgânica do Partido dos Trabalhadores. Nunca foi de tendência, nunca bateu chapa em eleições internas, nunca teve turma, nem cacique (que o diga José Dirceu) e nunca ligou a mínima para nada disso. Começou a se destacar para o partido, tecnicamente, quando o economista Paulo Sandroni, seu colega da FGV, convidou-o para ser diretor de orçamento da Secretaria de Planejamento do governo Luiza Erundina (1989-1992). O secretário era o economista Paul Singer. Quando Sandroni saiu da chefia de gabinete de Singer, Mantega assumiu o cargo. No final do mandato de Erundina, Lula pediu que passasse a trabalhar como seu assessor econômico direto. “O Lula o escolheu porque ele é um bom economista, bom professor e bem inteligente”, diz Singer, hoje lotado numa diretoria do Ministério do Trabalho.
Sandroni acha que Lula o escolheu “porque é um homem que merece confiança e segue uma orientação política mesmo quando eventualmente não seja favorável”. Sandroni já deixou o PT, por divergências. No jargão da luta de boxe, diz: “O Guido tem jogo de cintura e é um bom assimilador – no sentido de receber golpes e não parecer ser afetado por isso”. Sandroni acha que Mantega é um economista “keynesiano-kaleckiano”. O polonês Michel Kaleck é uma espécie de precursor, à esquerda, de John Maynard Keynes, o economista inglês que balançou as bases da teoria econômica clássica. Mantega diz conhecer todos esses autores a fundo. É capaz de falar de improviso sobre o primeiro livro que Keynes escreveu – Consequências econômicas da paz – muitos anos antes de sua obra maior, A teoria geral do emprego, do juro, da moeda.
Lula deve ter tido muitos motivos para guindá-lo a assessor econômico titular – entre eles, Mantega ser boa-praça –, mas o decisivo foi ter gostado de sua didática. Muito do que Lula aprendeu de economia deve-se à paciência e à clareza de Mantega. Certa vez, o economista João Machado, ainda da direção do PT, hoje no PSOL, achou curiosa uma folha de papel que Mantega lhe mostrou, parte de uma explicação econômica que entregaria a Lula. “Estava tudo datilografado em letras maiúsculas”, diz Machado. “Estranhei, perguntei o motivo, e o Guido disse que era o Lula que pedia assim.”
O economista Aloizio Mercadante era outro nas graças de Lula. Suas ambições e ocupações eleitorais – que Mantega não teve – abriram mais espaço para o professor da FGV (e também da PUC, entre 1982 e 1987). Em 1993, com Mercadante atolado na campanha que o elegeria deputado federal, Lula oficializou Mantega como seu assessor econômico. A partir de então, ele passou a comandar e a organizar toda a movimentação dos debates econômicos do Instituto de Cidadania. Momentos célebres da ONG de Lula – como a visita do senador Antônio Carlos Magalhães ou, mais tarde, do economista Maílson da Nóbrega e de uma certa economista do PDT gaúcho, Dilma Rousseff – têm muito a ver com Mantega. Mercadante deixou de ser uma sombra para Mantega quando magoou Lula na eleição presidencial de 1994. Com a perspectiva de uma eleição fácil para deputado federal, ele sacrificou o cargo para candidatar-se a vice-presidente na chapa de Lula, em substituição à saída intempestiva do senador José Paulo Bisol. Estavam na sede do PT, assistindo, pela televisão, à apuração dos votos. Quando entendeu que perdera tudo, a deputança e a Vice-Presidência, Mercadante deixou escapar, audível, um sinceríssimo “Me f***”. Lula achou mesquinho.
Mantega cresceu, assimilou, e nem por isso mudou sua relação civilizada com o hoje praticamente ministro da Educação. Nos tempos do Plano Real, Mantega e Mercadante cansaram de escrever, juntos, artigos sulfúricos destratando a base de muita coisa que viriam a apoiar depois, com a eleição de Lula. Depois da derrota de 1994, o senador Suplicy e os economistas Paulo Nogueira Batista e João Machado, entre outros, escreveram um livro – Combate à inflação, Plano Real e campanha eleitoral –, atribuindo um papel relevante na derrota aos erros de avaliação do Plano Real, no programa econômico de Lula, responsabilidade de Mantega. Ele divergiu e reagiu, classificando o livro como “intriga inoportuna”.
Nada se compara às respostas de Mantega a duas perguntas da página de opinião do jornal Folha de S.Paulo. À primeira, em 5 de abril de 1997, “O Proer deve ser extinto?”, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas respondeu “Sim”. O Proer foi o plano de socorro aos bancos do governo tucano. O governo petista nunca o reviu. À segunda, em 19 de junho de 1999,“O sistema de metas de inflação é hoje o mais adequado à economia brasileira?”, o doutor pela USP respondeu “Não”. Mais tarde, como ministro da Fazenda, Mantega manteria e aplicaria com rigor o mecanismo de metas inflacionárias. O artigo chama-se “O rabo abanando o cachorro”. Um trecho: “Esse regime tem potencial destrutivo menor que o da sobrevalorização, mas é uma estratégia tosca e inadequada para ancorar a política econômica”. Mantega também antecipava tendências. Em 18 de novembro de 1997, tempos da crise asiática, escreveu, no mesmo jornal: “A elevação da taxa de juros pode ser trágica numa economia em dificuldades e pode desencadear uma quebradeira generalizada”. No mesmo artigo, bombardeou Itamar Franco, Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso, chamado de “réu confesso” por ter feito uma abertura comercial “indiscriminada”.
Na campanha de 2002 – a que instaurou o reinado petista –, Mantega teve o papel que sempre tinha: assessor econômico do candidato Lula. Se pensou que a vitória podia fazê-lo ministro da Fazenda, enfiou a viola no saco com a entrada em cena de um ex-trotskista entusiasmado com a ortodoxia e o livre mercado, Antonio Palocci. Até hoje Mantega não absorveu o desprezo a que Palocci o submeteu em seu livro Sobre cigarras e formigas, onde ele aparece, ligeirissimamente, em apenas seis das 254 páginas.
Para o economista e professor José Marcio Rego, ex-aluno e velho amigo da Fundação Getulio Vargas, sete anos mais novo, Mantega perguntou, já ministro, ao vê-lo com o livro de Palocci: “Ô Zé Marcio, agora você anda lendo porcaria?”. Rego é coorganizador, com ele, do livro Conversas com economistas brasileiros II (422 páginas, 1999). Por alguns meses, os dois entrevistaram, longamente, 12 medalhões da área, entre eles: Singer, Francisco de Oliveira, José Serra, João Sayad, José Alexandre Scheinkman, Mercadante, Francisco Lopes e Gustavo Franco. “Se o Palocci continuasse ministro, a fritura do Guido era certa, o óleo já estava quente”, diz Rego.
ADMINISTRAÇÃO POR PIADINHAS
“O senhor pensa que isto aqui é a casa da Mãe Joana?”, perguntou a ministra Dilma Rousseff, nos tempos da Casa Civil, ao economista Júlio Gomes de Almeida. Àquela altura, 2007, Almeida era o secretário de Política Econômica do ministro da Fazenda. Fora à Casa Civil mostrar uma medida provisória em que trabalhava. Não estava como a dona da casa queria, e veio a admoestação. Quando Almeida ainda pensava 1) se devia responder e 2) que resposta poderia dar, Dilma voltou à carga: “Não é casa da Mãe Joana, não, doutor Julinho. Isto aqui tem ordem”. Almeida conta a história para fazer um paralelo com o jeitão do ministro Mantega, que era seu chefe direto. “Nunca vi ele pegar duro com ninguém. Quando não está gostando, fala por piadinhas”, diz.
Outra das características de Mantega é preocupar-se, demasiadamente, com o que os jornais e os colunistas dizem. Quando se sente injustiçado, algo fácil de acontecer, não deixa de reclamar a quem entenda de direito. Nos andares mais altos do Palácio do Planalto, é tido como um ministro carente – sempre está querendo um afago a mais. Os presidentes relevam – tanto Lula como Dilma –, porque, além de ser fiel e disciplinado, ele produz resultados.
Nos momentos em que estava irritado com Henrique Meirelles e as taxas de juros do Banco Central, o presidente Lula dizia: “O pior é que nem posso pedir nada a ele, porque, se eu pedir e ele não fizer, vou ter de demitir”. Mantega e Meirelles digladiaram-se, civilizadamente, mesmo quando trabalharam juntos – como na crise de 2008. A visão ortodoxa de Meirelles, ex-presidente do Banco de Boston e tucano de escola, chocava-se com o social-desenvolvimentismo de Mantega. Não se pode dizer que conspirava, porque Guido não é disso. Mas não perdeu a oportunidade para buzinar suas divergências ao presidente Lula. “Mesmo quando estava no BNDES, eu me reunia pelo menos uma vez por semana com o presidente Lula, defendendo minhas ideias”, diz Mantega. Lula não só conhecia a contradição, como gostava e sabia administrá-la. Achava saudável que o governo tivesse um foco interno de tensão.
"OS DOIS ASSUNTOS PREDILETOS DE GUIDO MANTEGA SÃO ECONOMIA E MULHERES, NESSA ORDEM"
O economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo é interlocutor de confiança, há tempos, tanto de Lula quanto de Mantega. Hoje, com Delfim Netto, forma a dupla de consultores mais ouvida pelo ministro da Fazenda. Meses antes da crise de 2008, Lula chamou Belluzzo a Brasília e, na versão que ele conta, formalizou um convite para que substituísse Meirelles. “Relutei, mas aceitei”, diz Belluzzo. Não foi só uma sondagem? “Não, foi um convite. O presidente Lula estava decidido”, responde. A crise veio, agravou-se, e convergiu para que Meirelles ficasse no centro da meta.
Tempos atrás, Mantega recebeu, no Ministério da Fazenda, uma visita de cortesia de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney, dono da consultoria Tendências e crítico contumaz dos programas petistas, ontem como hoje. “Ô Maílson, por que você vive me criticando?”, perguntou Mantega, segundo a memória de Maílson. “Ele estava falando sério, mas levei na esportiva. O Guido tem uma visão de mundo típica de um grupo de economistas brasileiros, os autochamados desenvolvimentistas. Eu pergunto: e quem não está nessa, é atrasadista? O que me irrita é a arrogância, é intitular os outros de neoliberais, é dizer que os que não são desenvolvimentistas conspiram contra o Brasil. É um cacoete stalinista, para desmoralizar o interlocutor.” Maílson não sabia que, num de seus livros, Mantega chamara sua política quando ministro de Sarney de “Plano Arroz com Feijão, de gosto duvidoso, que promoveu a mais alta taxa de inflação da economia brasileira”. Ao ouvir a frase, Maílson fica indignado: “É uma linguagem de quinta categoria, quem a usa não deveria merecer a cátedra de professor”.
UMA BRAÇADA DE DISTÂNCIA
Existe pai que atende prontamente o celular quando é o filho quem está ligando. E existe pai que deixa para atender depois. É o caso de Mantega. Ou, pelo menos, foi, na tarde de 29 de dezembro. Seu iPhone soou, na sala de reuniões do gabinete, em Brasília. Ele olhou o visor. Era Carolina Vilardo Mantega. Ele disse, tranquila e espartanamente: “É a filha. Tem de esperar”. E continuou, sem precisar ser lembrado do assunto de que falava antes: “Existe sempre o risco de que a crise do euro não seja superada. Mas sou otimista. De qualquer modo, estamos preparados para o melhor e para o pior. Se o pior vier, vamos crescer menos, mas até mais do que este ano”.
Carolina, de 26 anos, é a bela segunda filha dos quatro que Mantega tem, de três casamentos – ou, como ele prefere, “dois relacionamentos e um casamento”. Bióloga formada pela Universidade Federal de São Carlos – “uma das melhores faculdades”, diz o pai –, ela é pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo. É um órgão da Fundação Getulio Vargas, onde Mantega prestou concurso e fez carreira como pesquisador e professor. Enquanto fazia a faculdade, Carolina dava aulas de biologia em colégios e cursinhos de pré-vestibular. Praticante de mergulho, fez um estágio de férias no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Encantou-se e passou num concurso público estadual para dar aula de biologia numa escola de ensino médio do arquipélago pernambucano. “Ela começa agora em fevereiro”, disse Mantega. Ela perguntou o que o pai achava da ideia? “Perguntou”, ele respondeu. “Mas os filhos fazem o que querem, né?” Deu um suspiro – e continuou: “Não vamos falar dos filhos, nem de ex-mulher, porque não dá certo. Quem está interessado em ex-mulher?”. Diante da resposta – “Muitíssimo mais leitores do que o senhor possa imaginar” –, Mantega sorriu, algo desconcertado. Foi uma reação parecida à que teve uma hora e meia depois, diante da questão:
– Agora vamos falar de mulheres, ministro. O senhor é bom nisso...
– Não estou entendendo sua afirmação – respondeu, com um esgar.
– É um elogio – ouviu, com outro.
Mulheres, mulheres
Homens heterossexuais que têm ou tiveram alguma intimidade com Mantega – sempre pouca, porque ele mantém aquilo que o economista Bernard Appy, seu ex-secretário executivo, chama de “arm’s length” (uma braçada de distância, na tradução do inglês) – sabem que seus dois assuntos prediletos, em sentido perorativo, são economia e mulheres, nessa ordem. Para esses contados e pingados amigos mais próximos – mas não muito –, Mantega não economiza jocosidades sobre, digamos, o universo das beldades, no que ele tenha de melhor e de (supostamente) pior. Um exemplo: o engenheiro e quase doutor em economia Marcelo Estrela Fiche, seu chefe de gabinete, um solteiro renitente, ouve vez por outra o ministro brincar: “Vai casar? Pensa bem...”. Outro exemplo: quando completou 58 anos, em 7 de abril de 2007, Mantega ganhou de presente do segundo escalão da Pasta quatro comprimidos de Viagra, numa caixinha de madeira. Quando abriu, deu uma boa gargalhada, olhou obliquamente o autor da travessura, agradeceu à animada plateia e devolveu o mimo, com ereto orgulho: “Não estou precisando”.
Leonardo Vilardo Mantega, aluno da Escola Superior de Propaganda e Marketing, é irmão da professora Carolina, dois anos mais novo. Eles são filhos de Mantega com a economista Franceschina Vilardo, a Chica. Mantega a conheceu em 1980, tempos de fundação do PT, quando ela foi sua aluna, na PUC. Carioca de Copacabana – daquelas de parar o comércio, como se dizia –, Chica deu aulas na Unicamp, onde concluiu um mestrado com a dissertação A burguesia cafeeira paulista e a política econômica na Primeira República, defendida e aprovada em 1986, ano em que Carolina nasceu. É dedicada “ao Guido, meu companheiro” e a seus pais, que já morreram. Na introdução, Chica escreveu: “Ao Guido Mantega não agradeço. Só uma profunda relação de amor pode explicar seu empenho em toda essa trajetória. Só me resta reconhecer que sem sombra de dúvida o que há de melhor nesse trabalho pertence aos dois”. Viveram dez anos juntos – de 1981 a 1991, na conta dele, de 1980 ao começo de 1992, na dela.
Leonardo já teve o prazer de compartilhar os almoços de Mantega com os ilustrados amigos economistas, consultores e conselheiros Delfim Netto e Belluzzo. Ocorrem, quase uma vez por mês, em estrelados restaurantes italianos de São Paulo – como o Nonno Ruggero ou o Emiliano –, para honrar a origem dos três. Leonardo aprecia a conversa, e, claro, as iguarias. Uma vez ele pediu, na internet, mais detalhes sobre uma receita. E escreveu: “Gosto de cozinhar nas horas vagas, e, como filho de italianos, da Calábria, meu forte é massas”.
A paulista de Piracicaba Lavinia Hungria Cardim, hoje empresária, é a mãe da filha mais conhecida do ministro – a também bela, e exuberante, Marina Mantega. Com 31 anos, ela é a mais velha. Num concurso de beleza, os jurados teriam dificuldade para escolher entre ela e Carolina. O leitor pode fazer a experiência no Facebook, onde uma é amiga da outra. Se for muito curioso, verá, também, algumas diferenças entre as duas. Carolina tem 329 amigos e cinco fotografias suas. Marina tem 2.242 amigos e 655 fotos. Administradora de empresas, atriz em formação, empresária, apresentadora de televisão, colecionadora de namorados famosos, midiática por excelência, Marina quer muito que o mundo saiba que ela existe – qual é o problema? – e, mais, que quer crescer com ele – o que é que tem de mais?
No final dos anos 1970, Lavinia, com cursos de língua e literatura inglesa em Miami, parecia a atriz Jane Fonda e trabalhava como comissária de bordo da Pan Am. Seria mais uma na lista de namoradas bonitas de Mantega. Mas engravidou. Quando Marina veio, com a bênção dos pais e a graça de Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro de 1980, o economista do Cebrap já era de Franceschina Vilardo. Não foi fácil para ninguém. “Tivemos um relacionamento”, diz Mantega quando o nome de Lavinia entra na pauta. E corta a conversa.
SEM CARTEIRADAS EXPLÍCITAS
O mesmo se dá quando ele percebe que o assunto serão as já passadas e pontuais incursões de Marina no governo durante o período Lula. Numa lista dos temas por que Mantega tem ojeriza, esse viria em primeiro lugar. Ele fez saber, na gestão Lula, como faz saber, na gestão Dilma, que não apenas não endossa, como reprova qualquer entrada das que a jovem empresária tenha feito – como fez – ao presidente Lula, a dois ou três ministros e a poucas outras autoridades do governo, para pedir apoio a projetos sociais e empresariais. Não consta que qualquer tostão tenha saído dos cofres públicos para qualquer deles. Com o presidente Lula, Marina esteve uma vez: foi apresentar o americano Anthony Kennedy Shriver, sobrinho do Kennedy mais famoso e presidente da ONG Best Buddies, que trabalha na socialização de portadores de deficiência física em vários países. No Brasil, suas representantes são Lavinia Cardim e sua filha.
Marina não foi tão ostensiva em suas relações com o governo como se possa pensar. Não deu carteiradas explícitas. Apenas usou o nome (que afinal é seu), a fama (idem) e submeteu-se, primeiro, às secretárias ministeriais. Mesmo assim, o pai contrariou-se, algumas vezes ariana – ele é de 7 de abril – e apopleticamente. Foi tão ríspido que Marina recolheu as velas. Com um ministro ou outro que contou tê-la recebido, no tempo do governo Lula, como se fizesse favor, Mantega foi quase grosseiro, deixando implícito que, por ele, outro posto na FGV ou mais um concurso como o de Fernando de Noronha não seria mau. Fora isso, um detalhe, Marina é um xodó do pai.
Um casamento só
Numa noite de janeiro ela respondeu, via Blackberry, a um pedido de entrevista: “Meu pai é muito reservado, sempre foi, muito sério. E bom no que faz. Tenho orgulho de ser filha dele e acho que foi o melhor ministro da Fazenda que tivemos. Não falo isso só por ser filha, mas o Brasil está como está muito por causa do trabalho dele”.
Mantega teve, entre amigas e namoradas, algumas muito bonitas. Caso, para citar uma de fechar quarteirão, de Sílvia Sette Whitaker Ferreira, hoje no comando da Divisão de Paz e Segurança Internacional do Itamaraty. Entre as amigas, até hoje, estão a economista e professora Maria Moraes, da Unicamp, e a psicanalista e ensaísta Maria Rita Kehl. Mantega fez terapia com Kehl (ela não quis dar entrevista). Maria Moraes disse, gentil, que só falaria se o ministro autorizasse. Ele não se entusiasmou. Com Sílvia Whitaker foi a mesma coisa. “Eu levava uma vida austera, uma vida totalmente franciscana. Ia à igreja toda semana, rezava, estudava muito”, diz Mantega, sem esgares, encerrando os comentários sobre a fase dos relacionamentos.
“Casamento mesmo, de papel passado, foi só com a atual, em 1994”, afirma Mantega ajeitando-se na cadeira. A atual é a psicóloga Eliane Berger, mãe do caçula, Marco. O casal tem uma relação tão forte que o e-mail pessoal de ambos combina as iniciais dos dois. A doutora Berger foi, quando mais jovem, uma animada militante do movimento sionista paulistano. Ela trabalha no Instituto Sedes Sapientiae, na Zona Oeste de São Paulo, dá cursos e coordena debates como “Versões do sintoma na neurose, depressão e instituição”. Sua frase mais conhecida foi dita depois de um grande susto – um assalto em Ibiúna, no Carnaval de 2007, quando o casal passava um fim de semana no sítio do empresário Victor Garcia Sandri. “Os caras foram supergentis, só queriam dinheiro”, disse Eliane. O contexto era a defesa de melhorias na economia como a melhor solução para a violência na sociedade. Custou-lhe farpas na imprensa e uma grosseria do líder do então PFL, Onyx Lorenzoni: “Agora, só falta a senhora Mantega se unir aos assaltantes numa cruzada para derrubar o presidente do Banco Central”. (Mantega teria adorado: abater Henrique Meirelles foi tudo o que ele quis durante muito tempo.)
No começo de dezembro, o casal Mantega tomou um susto muito pior que o assalto de Ibiúna: o diagnóstico de câncer em Eliane. Se o ministro, por um acordo familiar, já vinha todas as semanas para São Paulo – chegando sexta-feira, às vezes quinta-feira, e voltando na segunda –, em dezembro ele praticamente se mudou. Tirou uns dias de férias em janeiro – mas, ao contrário de todas as outras vezes, não viajou para a Itália, onde tem família e imóveis, nem para Paris, onde tem um apartamento. Ficou em São Paulo, com as providências médicas, sem se desligar completamente do ministério. Na quarta-feira da semana passada, interrompeu as férias e foi a Brasília conversar com a presidente Dilma. Pode ter sido uma conversa corriqueira – a presidente não espera quando quer ser atendida – ou uma conversa mais séria sobre a possibilidade de deixar o cargo. Se Mantega conseguir assimilar o golpe e seguir em frente, será, com mais algum tempo, o recordista na Fazenda no período democrático.
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Teló, BBB e os conceitos sobre cultura

Os assuntos mais discutidos na primeira semana de 2012, ao menos nas redes sociais (que hoje pautam muita coisa), versam sobre a capa da revista semanal Época com o cantor (?) Michel Teló e sobre o início de mais uma edição do Big Brother Brasil transmitido pela Rede Globo de Televisão. Por sinal, apenas para constar, Época e Globo pertencem à mesma organização.
O paranaense Teló foi parar na capa da publicação por ser o “cantor, compositor, multiinstrumentista” que mais tocou nas rádios em 2011. Sua música (?) “Ai Se Eu Te Pego” vendeu horrores. Ele fez centenas de shows, ganhou um bom dinheiro e a segunda revista semanal mais vendida do Brasil achou por bem colocá-lo na primeira capa do ano. Mais que isso: destinou 12 páginas, isso mesmo, 12 longas páginas, e o apresentou como a tradução de “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Teló está na dele. Não tem culpa nenhuma.
O Big Brother Brasil, por sua vez, completa 10 anos de transmissão e chega à sua 12ª edição. A temática é mesma de sempre, em que pese a produção do programa tentar dar uma reciclada. Trancafia pessoas dentro de uma casa. Elas deverão viver e conviver com as diferenças ao longo das semanas. O jogo vai se desenrolando. As máscaras caem e o mais forte, ou o mais popular, ou o que der mais retorno de mídia, sagra-se o campeão. Tem gente que fez carreira artística e até política no jogo.
Para o paredão
Vamos, enfim, aos fatos.
Inicialmente, fico numa enorme sinuca de bico. Porque se eu elevar Teló e o BBB à condição de “cultura” irei contra tudo aquilo que suponho ser cultura e estarei a nivelar, por baixo, o que efetivamente entendo que seja cultura. Se eu chamar o músico e atração global de subcultura, os patrulheiros de plantão (e eles sempre estão presentes) vão me chamar de preconceituoso, quiçá burguês, e de desrespeitar a cultura, que eles assim entendem, diversificada e multifacetada do meu país. Então sobram duas óticas: Teló e BBB são estratégias de marketing para ganhar dinheiro. E muito dinheiro. Simples assim.
No caso do cantor, você pega um rapaz do interior do Paraná, jovem e simpático, que cai no gosto de jovens iguais a ele. Cria uma música (?) de pouquíssimos versos e de letra paupérrima, põe uma pegajosa melodia e usa de todos os métodos para que isso vire um hit. O resultado é infalível. Não é a primeira vez que acontece e também (infelizmente) não será a última. O Brasil passará por Teló, como já passou pelo Tchan, Créu, dancinha da garrafa e tantas coisas efêmeras que depois apodrecem nos sebos da vida.
O BBB é a catarse humana em versão compacta. Da mesma forma que se coloca uma dúzia ou mais pessoas dentro de uma casa, para que se suportem – mas no fundo sendo todos inimigos e buscando o prêmio ou fama (ou ambos) – também em nosso dia-a-dia lidamos com diversas pessoas que adoraríamos mandar para o paredão (e vice-versa), mas que a santa hipocrisia social nos (os) impede.
Três questões
Há, ainda, uma outra ótica. Essa muito mais perigosa e é dela que devemos (ou deveríamos) nos reguardar. Teló e BBB são braços fortes da grande mídia, em busca da hegemonia na comunicação, como nos ensina o mestre Vito Giannotti do Núcleo Piratininga de Comunicação. Quando a Época decreta que Teló traduz “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”, ela quer dar hegemonia ao Brasil. Dizer que somos todos felizes como os smurfs e que a música de Teló, que faz sucesso com a doméstica e com o empresário, acaba por aproximar todos nós. Olha que lindo! Um país sem preconceitos, onde todos somos rigorosamente iguais.
Por outro lado, o BBB, que (lembrando) pertence ao mesmo grupo de Época, mostra que, sob confinamento, vence o mais forte ou o que cai no gosto da população. Dessa mesma população hegemônica que discutirá nas próximas semanas quem deve ir para o paredão e ficará a bisbilhotar se um novo casal é feito na casa (e, certamente, dois são desfeitos fora). Então, todas as terças à noite, o mercador de ilusões Pedro Bial, de forma histriônica, unirá um país de norte a sul porque todos estarão (assim eles querem que seja) interessados em descobrir quem se dará mal naquela semana.
Essa hegemonia, meus caros, é o nosso grande problema. O Brasil deveria buscar a discussão de assuntos de mais importância. Claro que devemos ter lazer. Claro que o lúdico, mesmo de gosto duvidoso, é importante. E aqui não reside nenhum preconceito da minha parte. É que a hegemonia faz com que boa parte dos cidadãos acredite que tratar de temas polêmicos não lhes pertence. Mas pertence, sim. Só nesta semana posso destacar três: as questões que envolvem o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a tentativa de abertura do Poder Judiciário, as chuvas que voltam sempre em janeiro (a natureza é perfeita) e o pouco que se fez desde a desgraça do ano anterior e as eleições de 2012 que chegam logo, e há muito que mudar.
Conceitos de cultura
Enquanto deveríamos gastar nosso tempo com isso, e reitero que não se trata de discussão de elites, a mídia hegemônica nos impõe coisas “desimportantes”. E isso também não é novidade. É o “velho e bom” panis et circenses com que a Roma Antiga brindava seu povo. A única diferença é que os gladiadores de hoje não derramam uma gota de sangue sequer.
Ao final de tudo, mantenho a esperança de que dias melhores virão. Sempre acredito que o Brasil, enquanto sociedade, ainda é novo e devemos passar por tudo isso para que possamos amadurecer e chegar, um dia, aos conceitos de cultura de países nem tão longínquos daqui como a Argentina ou o Chile.
Já estaria feliz.
Sylvio Micelli é jornalista
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Agência rebaixa nota de 9 dos 17 países da zona do euro

Entre os países rebaixados pela Standard & Poor's estão França e Áustria, que tiveram suas notas reduzidas em um grau, para AA+; Alemanha escapou e manteve sua nota de crédito triplo A, a maior possível
A agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) divulgou por meio de um comunicado que rebaixou os ratings de 9 dos 17 países da zona do euro, entre eles a França e Áustria, que tiveram suas notas reduzidas em um grau, para AA+, algo que deve resultar num downgrade da Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, em inglês). A Alemanha escapou e manteve sua nota de crédito triplo A, a maior possível.
Em 5 de dezembro, a S&P colocou em revisão para potencial rebaixamento os ratings de 15 países da zona do euro afirmando que a tensão sistêmica no bloco monetário aumentou nas últimas semanas e passou a ameaçar o crédito da região como um todo. Os dois países que não foram afetados na época foram o Chipre, cujo rating já estava sob revisão negativa, e a Grécia, cuja nota "CC" encontrava-se na região dos investimentos especulativos.
Um dia depois, a S&P também colocou em observação para potencial rebaixamento o rating AAA da EFSF, afirmando que a nota é baseada nas garantias "incondicionais" dos países da zona do euro e que se um ou mais garantidores classificados como AAA fossem rebaixados a nota da EFSF teria de seguir o mesmo caminho. A nota mais baixa pode tornar mais caros os empréstimos que o fundo toma do mercado para financiar o auxílio aos países europeus que passam por dificuldades - Grécia, Irlanda e Portugal.
No comunicado que explica a decisão de hoje, a S&P afirma que "as iniciativas das autoridades europeias nas últimas semanas talvez sejam insuficientes para abordar as tensões sistêmicas na zona do euro", acrescentando que o acordo político fechado na reunião de cúpula da União Europeia ocorrida em 9 de dezembro "não oferece recursos adicionais ou flexibilidade operacional para melhorar as operações de resgate ou estendê-las a países da zona do euro que sofrem pressão do mercado."
A agência diz também que as tensões no bloco monetário incluem "o aperto nas condições de crédito, a elevação dos prêmios de risco para um número crescente de emissões da zona do euro, uma tentativa de desalavancagem simultânea dos governos e das famílias, o enfraquecimento nas perspectivas de crescimento econômico e a disputa aberta e prolongada das autoridades europeias sobre a abordagem mais apropriada para enfrentar esses desafios".
Segundo a S&P, é provável que alguns países europeus continuem enfrentando um custo de financiamento elevado e que haja uma redução na oferta de crédito e no crescimento econômico. "Por outro lado, acreditamos que as autoridades monetárias da zona do euro têm sido instrumentais no que diz respeito a evitar um colapso na confiança do mercado. Vimos que o Banco Central Europeu reduziu com sucesso as exigências para colaterais permitindo que cada vez mais ativos sejam usados como garantias em operações de financiamento e, mais importante, adotou operações de recompra sem precedentes para as instituições financeiras, aliviando as pressões de financiamento de curto prazo para os bancos."
A agência destacou que os ratings do bloco monetário podem ser rebaixados novamente caso haja mais deterioração fiscal em consequência de um ambiente econômico de recessão ou se um aumento na aversão ao risco dificultar o acesso a financiamentos por um custo razoável.
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Como Paulo Coelho demitiu Sabino em 1990

O escritor brasileiro mais bem-sucedido de todos os tempos bate boca na internet com um dos piores exemplares da classe, que acaba de ser expelido do comando de Veja; Paulo Coelho só não sabia que, há mais de duas décadas, foi o pivô da demissão de Mario Sabino da Istoé
Há uma guerra de egos inflados no meio literário brasileiro, que se espalha pela internet. Paulo Coelho, o escritor mais bem-sucedido que o Brasil já produziu, bate boca com Mario Sabino, ex-redator-chefe da revista Veja e um autor fracassado para os padrões comerciais do “mago”. Coelho vendeu milhões de exemplares. Sabino produziu livros que só conseguiam ser elogiados enquanto ele exercia seu poder como editor de cultura de Veja e, posteriormente, o cargo de redator-chefe da mesma publicação. Fora da revista de maior tiragem do País, Sabino começou a sofrer críticas devastadoras. A primeira, publicada no sisudo jornal Valor Econômico há uma semana, não encontrou outra palavra a não ser “escroto” para definir o trabalho literário de Sabino. Em seguida, Paulo Coelho definiu o romance “O vício do amor”, o mais recente de Sabino, como "insuportável". Foi até mais comedido.
De fato, trata-se de um livro insuportável da primeira à última linha – à qual poucos leitores conseguirão chegar. É um livro que começa com um protagonista revelando suas frustrações com mulheres – que acabam sempre sendo “chupadas por judeus” – e que depois mergulha numa filosofia de botequim, com citações de pensadores como Schopenhauer. A crítica sincera de Paulo Coelho, porque insinceros eram todos os elogios recebidos apenas quando Sabino estava em Veja, recebeu do autor de “O vício do amor” o seguinte post em seu blog quase clandestino na internet – que só não é clandestino, porque o amigo Reinaldo Azevedo não permite:
Paulo Coelho e a vingança
Caros amigos que acompanham meu trabalho literário, em 1990, quando era editor de Cultura da revista Istoé, exerci meu direito de crítica ao escrever que um dos livros de Paulo Coelho era muito, muito ruim. Para vocês terem uma ideia, eu nem me lembro do título. Mas, aparentemente, Coelho jamais conseguiu superar esse fato irrelevante na sua trajetória de sucesso. Como editor-executivo de Veja, pautei matérias (de capa, inclusive) para comentar o êxito do mago no exterior, sem deixar que minha opinião pessoal sobre seus livros se impusesse. De lá para cá, tivemos alguns contatos telefônicos e por email, todos muito simpáticos. Por isso, surpreendi-me com os tweets virulentos que ele postou contra mim, afirmando que eu era um escritor “insuportável” e também um sujeito “vingativo”. Para reforçar essa última, digamos, opinião, ele colocou um link para a página de um blogueiro que está sendo processado por mim, por calúnia e difamação. Coelho talvez não saiba que, por causa do link, eu também poderia processá-lo, coisa que não farei. Só gostaria de dizer que, talvez por eu não fazer mais parte da direção de Veja, Coelho se sentiu à vontade para atacar-me, no que só posso interpretar como uma vingança à longínqua resenha escrita por mim em 1990. O vingativo, pois, é ele. Não importa, continuo a defender que haja espaço para os livros de Coelho, mesmo que não goste deles. E apenas posso lamentar que ele me ache um escritor “insuportável”. Coelho tem o direito de mudar de opinião. Em maio de 2010, como escreveu a mim, a avaliação dele sobre o meu trabalho literário era oposta, como pode ser visto na troca de emails que reproduzo abaixo. Na ocasião, o elogio foi a meu segundo livro de contos, “A Boca da Verdade”, o último publicado antes do meu último romance, “O vício do amor”. Apesar de tudo, mando o meu abraço a Coelho, que se deixou tragar pela vingança, mas com certeza já deve ter recobrado o bom senso.
Mario Sabino
Mario Sabino só não menciona que este mesmo episódio motivou sua própria demissão da revista Istoé. Na crítica, ele terminava a sucessão de ataques a Paulo Coelho dizendo algo como “cada país tem o escritor que merece”. Domingo Alzugaray, publisher da Editora Três, não aceitou que um ataque a um autor se dirigisse também aos seus leitores. E o único traumatizado do episódio talvez tenha sido o próprio Sabino, que adoraria viver em país cujos leitores apreciassem sua obra literária.
Mas este país de masoquistas, felizmente, não existe.
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