2 de mai de 2012

E Agora, Racismo?

Passada uma semana das reações apaixonadas, chegou a hora de perguntar serenamente: e agora, racismo brasileiro, podemos finalmente construir uma nação? Podemos começar a ensaiar os primeiros passos de uma futura igualdade social, a partir dessa primeira garantia de igualdade racial na educação, que o STF fez virar letra de lei? Ou vamos continuar esperneando pelos editoriais dos jornalões, nas baladas chics, nas redes sociais, ou nas mesas de bar contra uma decisão que lavou a alma do país?
Sinceramente, racismo, eu espera um placar de 6 a 4 e já estaria de bom tamanho.Mas o supremo nos mostrou que, apesar de ter um bom número de ministros-conservadores, estes se mostraram pessoas inteligentes e bons leitores do Brasil. Eles sabiam impossível continuar um apartheid de quatro séculos sustentado pelo cinismo, pela desfaçatez e pela crueldade do olvido.No voto de alguns, eu vi a completa destruição do argumento de “morte do mérito” que a elite euro-descendente brandia para condenar as cotas. Ora, como se podia falar em mérito quando, ao longo da história, houve uma reserva de mercado das coisas boas para um segmento e a sonegação de todos os bons caminhos para a outra parte? Escolas boas, empregos bons, contas correntes ótimas; para o outro lado, escravidão, abolição sem cidadania, péssima educação, favelas e cadeias. Ganhar assim era fácil demais, não?
O outro argumento, o de que cotistas não teriam condições de “acompanhar” o ritmo das aulas no ensino superior, esses dez anos de ações afirmativas desmoralizaram totalmente. Reitores de universidades que adotaram as cotas são unânimes em declarar que afrodescendentes e indígenas tornaram-se os melhores alunos, ou sempre estiveram entre os melhores de suas instituições! Sinal de que nunca faltou inteligência ou capacidade de aprender: faltava, sim, oportunidade.
10 x 0! Que placar! Nem a seleção de 1958 ou a de 1970 conseguiriam nos dar, no futebol, um placar tão expressivo. Como nos privaram secularmente não só do conhecimento como também do trabalho digno(uma coisa leva à outra), temos, desde já, duas novas batalhas à vista: a primeira, para implantar a decisão do STF em todas as universidade públicas que se recusavam a fazê-lo; a segunda, pela implantação do sistema de cotas no serviço público, através dos concursos.Isso não é pedido: é cobrança de dívida! Em tempo: essas palavras, racismo brasileiro, não são minhas: são do Supremo Tribunal Federal do Brasil.Vai encarar?
De qualquer modo, quem perde – e perde feio – tem todo o direito de espernear. Podem ficar à vontade.
Jorge Portugal
No Terra Magazine

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