29 de fev de 2012

O livro perdido de Saramago

El primer libro que escribió José Saramago nunca vio la luz. Hasta ahora, 59 años después. Se titula Claraboya y lo publicará Alfaguara a partir de mañana jueves. Una novela rechazada por los editores de entonces, extraviada luego y recuperada ahora cuyo primer capítulo te adelantamos en exclusiva en este blog de El País. Al final del blog un vídeo de la Fundación Saramago sobre la novela. A continuación la historia del manuscrito.
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Sobre o Fundo de Previdência dos Servidores

Não vejo nenhuma incoerência no projeto que se votou, instituindo um fundo de previdência complementar para os servidores públicos.
É um sistema semelhante ao que existe há décadas na Petrobras e no Banco do Brasil.  Não é uma previdência privada, como se vem falando, onde a acumulação seja apenas do empregado: haverá contrapartida do Estado, até certo limite.
Primeiro, nada muda para a imensa maioria dos servidores, que recebe menos de R$ 4 mil mensais. Ou seja, não mexe com o nosso “barnabé”.
Mais: não atinge o direito à aposentadoria integral a ninguém que já tenha ingressado no serviço público. Não fere, portanto, direito e nem mesmo expectativa de direito de quem quer que seja. Só vale para quem entrar, a partir de agora.
Terá, como os fundos de pensão, administração pública e compartilhada, entre representantes do Estado e dos servidores, estes últimos eleitos. Portanto, não é como a previdência privada dos bancos, entregue à gestão privada. É claro que ela pode operar através dos bancos públicos, mas estes não participam das decisões sobre como e onde investir. Estas são do conselho e da direção paritáriamente constituidas entre o Estado e os próprios servidores.
Estamos tentando aplicar, ainda a obrigatoriedade de cálculos atuariais, como forma de dar maior segurança aos servidores.
Mas é preciso que se veja, exatamente, do que se está falando aqui. E, pra isso, vou usar o texto que retirei do blog de um economista e servidor público, Mansueto Almeida Jr:
(…)até 2008, várias carreiras do serviço público pagavam uma gratificação denominada “gratificação por desempenho”. Por exemplo, metade do meu salário ou de um técnico de nível superior do ministério do planejamento ou do Tesouro Nacional vinha dessa “gratificação por desempenho” e, ao me aposentar, perderia metade dessa gratificação ou 25% do meu salário.
Por exemplo, o salário final das carreiras do grupo de gestão (analista de finanças e controle, analista de planejamento e orçamento, analista de comercio exterior, especialista em políticas públicas e gestão governamental, técnico de finanças e controle, técnico de planejamento e orçamento) do governo federal, no início de 2008, era de R$ 11.775,69. Ao se aposentar, esse funcionário teria seu rendimento reduzido para R$ 8.846,74. Como seria o mesmo caso hoje? Bom, hoje essa gratificação por desempenho foi incorporada ao salário para as carreiras de gestão; o que significa que esse mesmo funcionário se aposentaria hoje com o seu salario de final de carreira que passou para R$ 18.478,45 sem nenhuma perda. Ou seja, o beneficio previdenciário de 2008 para 2011 para os funcionários do grupo de gestão (estou neste grupo) teve um aumento de 108,9%.
Segundo, ao longo dos próximos quatro anos há uma janela aberta na qual 252 mil servidores públicos civis poderão se aposentar. Vamos ser conservadores e trabalhar com a hipótese que apenas metade desses funcionários vão exercer efetivamente o direito de se aposentar, ou seja, apenas 126 mil funcionários. Isso daria uma média anual de 31.500; mais do que triplo da média dos últimos anos e semelhante ao boom de aposentadorias que correu nos três anos que seguiram ao Plano Real, quando muitos ficaram receosos da reforma da previdência e da perda de direitos que decorreria de tal reforma.
O gráfico acima mostra na linha vermelha o corte de 30 mil servidores aposentados no ano, uma linha que só foi ultrapassada desde o Plano Real, em 1995 e 1996, e agora temos o risco de, mais uma vez, ultrapassar essa linha.
Bem, deu para perceber que algo tinha de ser feito. Sobretudo porque é insustentável o preço que se paga, com o dinheiro público, para as carreiras típicas de Estado, no Judiciário e fora dele. Fora deste regime estão apenas os parlamentares - deputados e senadores – e ocupantes de cargos comissionados não-funcionários, cuja contribuição e limite de proventos são hoje iguais  aos dos trabalhadores da iniciativa privada.
Porque o Estado precisa crescer, ampliar-se, contratar mais e pagar adequadamente a seus servidores. Nas contas aí de cima, só para repor o pessoal que está em condições de aposentar-se, teríamos 130 mil contratações em quatro anos.
Embora a Funpresp não vá trazer alívios no curto prazo para o caixa do Governo – nem deste, nem dos próximos – previne um horizonte em que o Estado terá de deixar de cumprir suas missões para, apenas, bancar a aposentadoria dos serrvidores.
E vai, capitalizada com as contribuições de um quadro crescente de servidores e desonerada, por muitos anos, de arcar com o pagamento de proventos, ser uma ferramenta – importante e lucrativa – para financiar investimentos estruturais que o Brasil precisa.
Por isso, meu voto foi sim.
Brizola Neto
No Tijolaço
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Curitiba: Após denúncias, médicos do Hospital Evangélico ameaçam greve

Corpo clínico pede mudanças na direção da Sociedade Evangélica Beneficente (SEB)
Os médicos do Hospital Evan­­gélico de Curitiba ameaçam paralisar o atendimento e até mesmo solicitar intervenção na administração da instituição. Isso ocorrerá caso seja mantida a direção do hospital e da Sociedade Evangé­­­lica Be­­neficente (SEB) – mantenedora do complexo médico e da Fa­­culdade Evan­­gélica. A SEB é suspeita de irregularidades na execução de um contrato com o Ministério do Turismo e corre o risco de ter de devolver R$ 3,1 milhões referente ao convênio – o que inviabilizaria o funcionamento do hospital.
O corpo clínico do hospital estaria descontente com a atual gestão do Evangélico e da SEB por causa de problemas administrativos. Médicos ouvidos pela reportagem, que pediram para não ter os nomes divulgados, afirmaram que não recebem salários há pelo menos cinco meses e que o hospital teria uma dívida de R$ 270 milhões, entre outros problemas de gestão.
Em um manifesto entregue ontem à diretoria da SEB, o corpo clínico do hospital pede mudanças em quase todos os cargos da diretoria da instituição. Requerem inclusive a saída do presidente da SEB, Deimeval Borba, que tomou posse na semana passada. No manifesto, os médicos ameaçam paralisar todos os serviços médicos, caso as mudanças não aconteçam em dez dias. Seria mantido apenas o atendimento clínico, cirúrgico e ambulatorial.
Os médicos estiveram reunidos ontem à noite no hospital para deliberar sobre as reivindicações. Até o fechamento desta edição, porém, ainda não havia uma definição sobre uma eventual paralisação.
Pressão
A pressão contra a diretoria da SEB não está restrita somente ao corpo médico do hospital. No início deste mês, duas denominações evangélicas, das 13 que participam da entidade, assinaram uma notificação extrajudicial encaminhada à presidência em que requereram documentos referentes à execução de contratos firmados com o Ministério do Turismo. A solicitação dos do­­cumentos ocorreu em função da suspeita de irregularidades cometidas pela SEB na execução desses contratos.
Entre os documentos solicitados, estão “cópias dos convênios firmados com o ministério, cópia dos extratos bancários onde constem as entradas e saídas dos valores repassados pelo Ministério do Turismo”. Na notificação, as igrejas afirmam que a diretoria da SEB tem cinco dias para apresentar a documentação exigida sob pena de ajuizamento de ação na Justiça. A SEB nega que haja qualquer irregularidade na execução dos contratos com o Ministério do Turismo.
Na tarde de ontem, a Gazeta do Povo tentou falar com Deimeval Borba – que também é vereador na cidade de Morretes – mas ele não atendeu o celular. A assessoria da SEB informou que apenas ele poderia co­­mentar a notificação e as reivindicações do corpo clínico.
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Forças Armadas vão punir os militares que assinaram manifesto

Eles contestaram a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorim
BRASÍLIA - O ministro da Defesa, Celso Amorim, decidiu nesta quarta-feira, em conversa com os três comandantes militares, que os cem oficiais da reserva que assinaram o manifesto "Alerta à Nação - eles que venham, aqui não passarão" serão repreendidos por suas respectivas forças. A punição pela indisciplina depende do regulamento de cada um, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e varia de uma simples advertência até a exclusão da força. Mesmo militares da reserva podem ser excluídos.
Nesse texto, os militares da reserva criticaram a interferência do governo no site do Clube Militar e o veto a um texto ali publicado que critica a presidente Dilma Rousseff e duas ministras. Nesse "Alerta à Nação", os oficiais afirmam não reconhecer "qualquer tipo de autoridade ou legitimidade” de Celso Amorim.
"Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade", diz o documento.
Como no manifesto vetado no site do Clube Militar, o documento de terça-feira também critica a criação da Comissão da Verdade.
"A aprovação da Comissão da Verdade foi um ato inconsequente, de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo".
O texto publicado no site do Clube Militar atribuía à ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e à ministra da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, Eleonora Menicucci, declarações que estariam a serviço do que classificaram de "minoria sectária", disposta a reabrir feridas do passado. O primeiro manifesto polêmico foi assinado pelos presidentes do Clube Militar, Renato Cesar Tibau Costa; do Clube Naval, Ricardo Cabral; e do Clube da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista, todos já na reserva.
No texto, dizem que Rosário vem apregoando a possibilidade de apresentação de ações judiciais para criminalizar agentes da repressão, enquanto Eleonora teria usado a cerimônia de posse — em 10 de fevereiro — para tecer "críticas exacerbadas aos governos militares", sendo aplaudida por todos, até pela presidente. Eleonora foi presa durante a ditadura militar e, na cadeia, conheceu Dilma.
O texto diz ainda que o Clube Militar não se intimida e continuará atento e vigilante e diz que as Forças Armadas são a instituição com maior credibilidade na opinião pública.
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Charge online - Bessinha - # 1072

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Apoio de Alckmin à campanha de Serra para a prefeitura de São Paulo foi planejado num almoço solitário há 4 anos

A foto acima mostra o governador Geraldo Pinheirinho Alckmin almoçando sozinho, um dia antes da eleição que reconduziu Kassab à prefeitura de São Paulo, em 2008. Alckmin era o candidato do PSDB (partido do governador de SP na época, José Serra). Ficou em terceiro lugar, atrás de Kassab e Marta Suplicy.
Uma posição humilhante para quem vinha de uma campanha presidencial há dois anos, em que foi ao segundo turno com o presidente mais popular do Brasil, Lula. Isso aconteceu porque o governador Serra ignorou sua campanha e apoiou a reeleição de Kassab.
Enquanto almoçava solitariamente, há quatro anos, Alckmin não poderia imaginar que o destino o colocaria agora na posição de dar o troco e devolver a Serra o "apoio" de 2008.
Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Nelson Rodrigues dizia que a pior solidão é a companhia de um paulista. Imagine esse almoço de um paulista solitário. Como deve estar frio agora, passados quatro anos.
No Blog do Mello
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PSDB: a derrota, Serra vencendo ou não

Em xadrez há uma máxima: quando um jogo começa errado, termina errado. A posição do jogador no meio da partida depende dos erros ou acertos da abertura.
Ocorre o mesmo com os partidos políticos.
Tome-se o caso do PSDB paulista. Desde a morte de Mário Covas afastou-se definitivamente de qualquer projeto legitimador popular. O estilo elitista de FHC e seus acadêmicos, manifestado nos menores gestos, impregnou toda a máquina partidária. Cada vez mais o partido se fechou nos gabinetes, sujeitando-se apenas à influência de aliados próximos. Com José Serra, esse isolamento foi levado ao paroxismo.
O desprezo por tudo que simbolizasse participação, compartilhamento de decisões, levou ao isolamento e, depois, ao definhamento da militância. E, pior, ao fim da veleidade de se lançar novos quadros, permitindo a renovação.
Essa renovação poderia se dar a partir dos municípios, revelando novas práticas dos prefeitos tucanos que, eventualmente, pudessem ser incorporadas pelo partido. Nada foi feito. No governo Serra um secretário se vangloriava de ter instituído um sistema automático para acolher demandas de prefeitos e comunicar liberações, sem que fosse necessária a presença física deles no Palácio. Até prefeito tucano dava urticária em Serra. Aliás, até reunião de secretariado o incomodava, tanto que não se tem notícia de uma reunião sequer de articulação de trabalhos.
Sem renovar ideias, sem lançar novos quadros, sem desenvolver sequer um modelo eficiente de gestão - a mística da boa gestão paulista é meramente um tigre de papel jornal - o PSDB chega à penúltima cidadela - a prefeitura de São Paulo - tendo que se render ao pior aliado que poderia buscar: José Serra.
Sem Serra, seria o ruim: nenhum candidato com chances objetivas de vencer as eleições.
Com Serra, será o pior. Mata-se qualquer possibilidade de reavivamento da militância, de mudar a natureza do partido (tenho para mim que é tarefa inglória: o PSDB entrou em um beco sem volta).
Serra é o chamado objeto universal de ódio. O ódio dos petistas é seu trunfo. Aliás, é o cimento de suas relações com jornais e colunistas: uma aliança fundada apenas no negativismo. Mas também acumula o ódio de Alckmin, do PSD, do DEM, da militância tucana paulista, do PSDB nacional, de Aécio.
Não tem lealdade com o PSDB como não terá com o PSD e com Kassab, se eleito. A não ser que seja do seu estrito interesse.
Geraldo Alckmin terá na prefeitura um inimigo disposto a torpedeá-lo 20 horas por dia - as 4 horas restantes serão dedicadas ao extermínio de jornalistas críticos.
Gilberto Kassab joga todas suas fichas em uma aposta sem futuro. Se Serra perde, Kassab está fora do jogo, sem caixa da prefeitura para turbinar o partido, sem interlocução no governo federal e alvo da ira de todos os correligionários. Joga fora o futuro - uma aliança com Eduardo Campos, provavelmente o mais promissor político brasileiro fora dos quadros do PT - por um compromisso com o passado.
Tudo isso foi digerido em nome de um risco maior: perder a prefeitura de São Paulo para o PT.
E qual a razão do PSDB paulista ter hipotecado seu futuro em favor do curto prazo? Provavelmente a convicção de que esse futuro não mais existe.
Luis Nassif
No Advivo
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USP-Ariel: as minutas de uma afronta ao direito internacional

Através da pesquisa pioneira de Indra Seixas Neiva, que escreveu um Trabalho de Conclusão de Curso sobre a história das relações da Universidade de São Paulo com Israel, a Revista Fórum chegou a um documento grave e preocupante: as minutas do convênio de cooperação acadêmica entre a USP e a Universidade de Ariel. O pdf está disponível aqui. O cabeçalho designa o acordo como Convênio que celebram a ARIEL UNIVERSITY CENTER OF SAMARIA (Israel), no interesse da Faculty of Natural Sciences, e a UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (Brasil), no interesse do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação….
Já em seu preâmbulo, a linguagem usada no acordo está em patente contradição com a lei internacional: o Ariel University Center of “Samaria” não fica em Israel. Ele está localizado na colônia de Ariel, na Cisjordânia, parte do território reconhecido pela legislação internacional como palestino e ilegalmente ocupado por Israel desde 1967. Esta colônia, especificamente, começou a ser construída em 1978, numa invasão militar que confiscou terras cultivadas e terrenos rochosos que os aldeões palestinos usavam para as pastagens de seus rebanhos. Como explica Indra Seixas Neiva em seu TCC: a área municipal da colônia de Ariel possui vários enclaves de propriedades privadas palestinas, cujos acesso é proibido aos proprietários impedidos pelo Muro que separa sete aldeias do norte de Salfit (Hares, Kifl lebres, Qira, Marda, Jamma’in, Zeita-Jamma’in e Deir Istiya) de acessar suas terras e rebanhos, com cerca de 25.000 palestinos prejudicados uma vez que dependem de uma variedade de serviços da cidade centro da região de Salfit (p.34).
Sempre que se fala nas colônias israelenses em território palestino, é boa ideia ter em mente a brutalidade do processo, para que não se perca de vista que ele inclui constantes expulsões, monopólio de água, estatuto jurídico diferenciado para colonos, presença do exército de ocupação como seus garantidores, violências permanentes contra a população palestina e os onipresentes checkpoints. O mapa que segue mostra o caminho que devem fazer os palestinos dos vilarejos ao norte de Ariel para chegar ao centro urbano regional, Salfit, bloqueados pelo Muro do Apartheid:

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Fonte: B’Tselem.
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O convênio da USP com a Ariel, estabelecido em 2010 e com vigência de cinco anos, prevê troca de informações e publicações, visitas mútuas de pesquisadores, intercâmbio anual de delegações e outras formas de colaboração. Sendo a Ariel uma instituição cuja mera existência já é uma afronta ao direito internacional, nos encontramos na triste situação de que a mais prestigiosa e reconhecida universidade brasileira está validando e legitimando uma ocupação ilegal amplamente condenada nas Nações Unidas. De novo, nas palavras de Indra Seixas Neiva: O convênio da USP com uma instituição localizada nos TPO [Territórios Palestinos Ocupados] é uma afronta gravíssima ao direito internacional e funciona como instrumento facilitador e normalizador da situação de ilegalidade das colônias judaicas, da construção do Muro de separação e dos crimes cometidos contra os palestinos (p.38).
Trata-se, efetivamente, de colaboração com a criminalidade internacional. A Fórum também apurou que há pouca notícia entre os professores acerca de existência e das implicações desse convênio. Não surpreende, dado o histórico recente de bloqueio a iniciativas de discussão da situação palestina na USP. Em 2006, quando o Professor Osvaldo Coggiola convocou um ato “contra o massacre no Líbano e na Palestina”, a autorização para o uso do Anfiteatro Camargo Guarnieri, que havia concedida pela reitoria, foi revogada na última hora, enquanto os serviços de informação da USP disseminavam a falsa notícia de que o ato havia sido cancelado. O mesmo aconteceria em 2010 com Maren Mantovani, diretora de Relações Internacionais da Campanha Palestina contra o Muro do Apartheid, convidada a participar de um evento na Faculdade de Economia e Administração (FEA): o local também foi desautorizado na última hora.
Fica aqui então, reiterado, o pedido de explicações sobre esta flagrante afronta à lei internacional por parte da USP. A página do ICMC-USP, São Carlos, lista a Profa. Márcia Ferguson como responsável pelo convênio..
Este post é dedicado, em admiração e solidariedade, a Indra Neiva Seixas, que se encontra agora na Cisjordânia monitorando abusos dos direitos humanos por Israel, servindo no programa de acompanhamento do EAPPI. Sem ela, não teria sido possível compilar a maior parte das informações contidas aqui.
No Outro Olhar
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Onde está a direita brasileira?

José Serra está reunindo condições para entrar pesado na disputa pela prefeitura de São Paulo. A recomposição do ex-governador com sua criatura, Gilberto Kassab, pode representar um golpe de mestre contra a candidatura de Fernando Haddad. A maioria dos dirigentes petistas alimentou a hipótese de se aliar com uma parcela da direita paulistana para vencer o tucanato a qualquer custo.
A pirueta do dirigente do PSD embaralha o jogo. O PT terá de encontrar rapidamente uma linha de campanha diferente da que vinha acalentando até as tratativas com o prefeito da capital.
O partido fez, ao longo dos últimos seis anos, uma cerrada oposição a gestão de Kassab. Denunciou privatizações, aumentos de tarifas, agressões contra camadas populares, descasos com a infraestrutura, superfaturamentos de obras e outras mazelas. Esperava utilizar a munição acumulada como mote na campanha. Agora que o potencial noivo fugiu do altar após um namoro público, a tática dificilmente colará no eleitorado.
Outra arma de campanha – a denúncia das privatizações tucanas – está com a pólvora molhada desde que o governo federal decidiu privatizar os aeroportos em leilões cuja coreografia lembra muito as vendas de estatais da Era FHC. É claro que os petistas seguirão com suas manhosas explicações de que “concessão não é privatização” para tentar evidenciar diferenças com o possível adversário.
Campanha despolitizada
Uma variante na linha de ataque, caso Serra seja mesmo candidato, é insistir na tecla de que ele abandonou a prefeitura na metade do mandato para se candidatar a governador. É uma ofensiva de risco. O atual governador gaúcho Tarso Genro (PT) fez o mesmo em 2002. Desincompatibilizou-se da prefeitura de Porto Alegre para tentar o governo do estado. Perdeu na época, por outros motivos, mas levou em 2010.
A saída para o PT seria apostar na marquetagem sobre quem seria o melhor administrador para a capital. Pode colar, dado o imenso prestígio da agremiação no plano nacional. Será um duelo de máquinas eleitorais: de um lado o governo federal e de outro o governo do estado e a prefeitura.
Tudo leva a crer que esta será uma campanha despolitizada. Os contrastes entre PT e PSDB, ao longo dos anos, têm se mostrado mais como nuances de um mesmo projeto do que o embate de duas diretrizes antagônicas. No âmbito federal, ambos investiram em duros ajustes fiscais, em juros elevados, em prioridade para o pagamento das dívidas financeiras e em privatizações. Os graus variaram e isso fez a diferença em momentos de crise. O PT elevou o salário mínimo e investiu em políticas sociais focadas. O PSDB cortou mais na área social, congelou salários do funcionalismo e foi mais radical na ortodoxia. Mas nenhum rumou na direção de penalizar os que sempre ganharam na brutal desigualdade social do país.
A reforma agrária, depois de avançar um pouco nos governos de FHC e de Lula, estancou desde o ano passado. Não se fala mais em reforma tributária progressiva que taxe as grandes fortunas. A regulamentação dos meios de comunicação saiu da agenda oficial. E, entre outras medidas, a CPI da privataria segue no congelador.
Esquerda e direita?
Será ainda possível fazer uma campanha da esquerda contra a direita? Se entendermos, grosso modo, esquerda como o setor que enfrenta os mercados e defende os de baixo e direita aqueles que se aferram na defesa do capital e demonstram pouca sensibilidade social, a mensagem ficou clara nas duas últimas campanhas presidenciais. A postulação do PT representava a esquerda e a do PSDB a direita.
Mas se olharmos para a vida como ela é, as leituras ficam complicadas. Onde ou com quem está a direita brasileira?
No Brasil, pelo peso que teve a ditadura militar, quase ninguém se proclama abertamente de direita. No PSDB, todos se consideram de centroesquerda. No PMDB, no PTB, no PP e em outras legendas, a situação deve ser semelhante. Se nos pautarmos pela autodeclaração, não existe direita no Brasil.
Alguns petistas, com razão, acusam a coligação PSDB-DEM-PPS-PV de representar a direita no jogo institucional. Afinal, foi esta coalizão a responsável pela implantação a ferro e fogo do modelo neoliberal entre nós.
Mas é preciso mirar a base institucional – base parlamentar mais a composição da administração – de cada governo para tentarmos ver as cores do espectro político.
Composições de governo
O primeiro governo FHC (1995-1999) era integrado por PSDB, PFL, PMDB e PTB. O PMDB em algumas votações no Congresso apresentou-se dividido, mas a maioria era inequivocamente governista. Em seu segundo mandato (1999-2003), o tucano foi apoiado por PSDB, PFL, PMDB, PTB, PPS e PPB (atual PP). Foram essas agremiações que patrocinaram a venda acelerada de patrimônio público ao longo dos anos 1990.
O primeiro governo Lula (2003-2007) era composto por PT, PC do B, PSB, PTB, PDT e PL. Na gestão seguinte (2007-2011), a base aliada era formada por PT, PC do B, PSB, PTB, PL, PMDB, PL (atual PR). O PV não integrou formalmente as administrações, apesar de Gilberto Gil, Ministro da Cultura, ser filiado ao partido.
Quem é esquerda e quem é direita nessa sopa de letras?
Podemos, mais uma vez grosso modo, classificar como esquerda (por suas histórias) o PT, o PCdoB, o PSB e o PDT. O PSOL representa no Congresso a diminuta oposição de esquerda. A régua é muito flexível, pois seria difícil dizer que a atuação de líderes como Antonio Palocci, Paulo Bernardo, Guido Mantega (todos do PT), Paulinho da Força (PDT) ou Fernando Bezerra (PSB) tenham hoje em dia alguma coisa a ver com esquerda.
A direita, por sua vez, seria encarnada por PSDB, DEM, PMDB, PTB, PPS, PV, PSD, o PP, o PR, o PTB, o PSC, o PRB, o PTdoB, o PMN, o PHS, o PRP, o PRTB, o PSL e o PTC. Embora a maioria deles apresente declarações genéricas como programas partidários, suas atuações são marcadamente liberais e pró-mercado.
Bases parlamentares
Apesar dos petistas alardearem que a direita está toda na oposição, a afirmação não resiste a nenhuma análise séria.
Se olharmos a base parlamentar do governo, vamos verificar que a direita majoritariamente abriga-se sob as asas da situação.
Esquerda no governo (PT-PSB-PDT-PCdoB) – 154
Direita no governo (PMDB-PSD-PP-PR-PTB-PSC-PRB-PTdoB-PMN-PHS-PRP-PRTB-PSL-PTC) – 257
Direita na oposição (PSDB-DEM-PPS-PV) – 99
Esquerda na oposição (PSOL) – 3
No Senado o quadro não é diverso. O quadro assim se divide, num universo de 81 senadores:
Esquerda no governo (PT-PDT-PSB-PCdoB) – 24
Direita no governo – (PMDB-PTB-PR-PP-PSD-PRB) – 39
Direita na oposição – (PSDB-DEM-PV) – 16
Esquerda na oposição (PSOL) – 1
Sem partido – 1
Além disso, existem bancadas transversais e informais de empresários, ruralistas, evangélicos, sindicalistas e outros que se articulam acima das fronteiras partidárias. O DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) tem bons levantamentos sobre essas coalizões.
O que isso tudo quer dizer?
Muitas coisas.
Travas nas mudanças
A primeira é que o freio para a não implantação de reformas progressistas na sociedade brasileira não está na oposição, mas no governo. É a base aliada que trava o avanço da reforma agrária (ruralistas), do combate à homofobia (evangélicos), da reforma tributária (praticamente toda a base), da ampliação da comissão da verdade (figuras criadas na ditadura, como José Sarney, Paulo Maluf, Fernando Collor) e da CPI da privataria, entre outras iniciativas. Neste último caso, o governo compraria uma briga com seus apoiadores oriundas dos governos FHC.
A segunda é que os embates eleitorais não têm se dado entre projetos excludentes ou oponentes no espectro ideológico.
Divisão no conservadorismo
A direita brasileira se dividiu a partir de 2002. Uma facção resolveu ficar na oposição e dali se fortalecer para voltar ao Planalto. Está se dando mal, pois o essencial de suas diretrizes foi abraçado pelo governo. Seu discurso tornou-se disfuncional.
A partir do segundo mandato de Lula, o liberalismo ganhou o impulso de um desenvolvimentismo difuso, possibilitado pelo bom desempenho do balanço de pagamentos e pela ampliação do mercado interno. Ambos são resultados de ações governamentais. Com crescimento econômico, inclusão social e aumentos salariais, o modelo ganhou nova legitimidade e a gestão petista conheceu inéditos índices de aprovação.
Outra facção da direita – majoritária – resolveu se integrar ao governo e disputar seus rumos. Está tendo amplo sucesso, como se pode ver pelo aumento dos cortes fiscais, pela guinada da política externa em direção a um maior alinhamento com os EUA e pela volta das privatizações. Em outras palavras, a direita passou a utilizar uma das táticas caras à esquerda, o “entrismo”.
Aqui voltamos ao início. Serra – caso saia candidato – unificará o PSDB, contará com o apoio do PSD e buscará uma aliança com o PMDB, aliado de primeira hora do governo Dilma. O PCdoB deve arriscar uma candidatura apoiada pelo PDT. O PTB, o PV e o DEM lançarão candidatos, além do PSOL e do novíssimo PPL. A tática é marcar pontos para a disputa nacional.
Nesse quadro, como o PT vai se diferenciar claramente do PSDB? Competência X incompetência, éticos X antiéticos, moralistas X amorais, abortistas X carolas? O arsenal e a criatividade da marquetagem não tem limites e nem prima pelo bom gosto. Mas política de verdade pode ser artigo em falta…
Gilberto Maringoni
No Carta Maior
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Charge online - Bessinha - # 1071

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Onde estão os depoimentos?

Mercenários bem armados e bem alimentados preparam-se para transformar a Síria em nova Líbia.
As hatas que usam são típicas da Arabia Saudita, Jordânia, Qatar e Emirados.
Sim!
Onde estão os depoimentos dos “sobreviventes” que a Cruz Vermelha Internacional retirou da “arrasada” Homs?
Por que o silêncio da mídia?
As agência de "informação" entoaram pelos quatro cantos do planeta que a Cruz Vermelha finalmente recebeu autorização para entrar na cidade de Homs para retirar os feridos e quem mais queira abandonar a cidade para escapar dos bombardeios.
E então?
Vamos ouvi-los?
Sinceramente, está cada vez mais difícil lutar contra a manipulação.
Uma das explicações é que ha menos jornalistas trabalhando nas redações.
A mídia empresarial trocou os jornalistas pelos marqueteiros.
Claro que as agências culpam o governo pelos bombardeios.
Mas então por que não divulga os depoimentos?
Estranho...Muito estranho isso...
Onde estão os moradores e feridos que abandonaram a cidade?
Eles não falam?
Por que não há nenhuma entrevista, depoimento ou uma palavra sobre o “horror” que estavam passando os que viviam “cercados”?
Ou tudo não passou, mais uma vez de armação da mídia infecta?
Essa mesma mídia que apoiou a invasão do Afeganistão, do Iraque, da Líbia e refestelou-se com os genocídios de seres humanos que viviam pacifica e tranquilamente em seus países.
É muito importante que os governantes assassinos sejam julgados por crimes contra a humanidade.
Podemos começar com Bush e o mini-poodle inglês, seguidos pelos governantes de Israel e, principalmente a mídia cúmplice.
Principalmente a mídia cúmplice.
No Blog do Bourdoukan
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Sobre a Síria: a batalha de propaganda e outras batalhas

A revolta na Síria, que vai em breve entrar no seu segundo ano, levanta questões dramáticas para as quais não existem respostas simplistas – para não se fazer a política do quanto pior melhor. A batalha pela Síria é também uma batalha de propaganda. O regime perdeu-a há muito, tanto que as suas afirmações são frequentemente grotescas, as suas mentiras óbvias e as suas práticas bárbaras. No entanto, as informações que se multiplicam 24 horas sobre 24 em todas as cadeias de rádio e de televisão, e que frequentemente têm uma única fonte, a oposição no exterior do país, são verdadeiras?
Numa conversa telefônica entre o presidente russo e o rei saudita, este último afirmou ao seu interlocutor que qualquer diálogo sobre a Síria era “agora fútil” (agência de imprensa saudita, 22 de fevereiro 2012). O que quer isto dizer? Que a única via possível é a da intervenção militar? Que é preciso armar a oposição? Parece que é nesta direção que se orienta a reunião dos amigos da Síria realizada sexta feira 24 de fevereiro em Tunes.
A revolta na Síria, que vai em breve entrar no seu segundo ano, levanta questões dramáticas para as quais não existem respostas simplistas – para não se fazer a política do quanto pior melhor. É preciso recordar o que o derrube de Saddam custou, custa e continuará a custar aos iraquianos nas próximas décadas.
As causas da revolta
A revolta na Síria nasceu das mesmas três causas que provocaram, de Marrocos ao Iraque, movimentos de contestação:
– A recusa de um regime autoritário, da arbitrariedade total do Estado e dos serviços de repressão, da banalização da tortura;
– A amplitude da corrupção – a abertura econômica (largamente encorajada pelo Ocidente) que levou à apropriação das riquezas nacionais por uma máfia em torno do chefe de Estado –, a riqueza ostensiva de uma pequena casta contrastando com uma pobreza agravada pela perda do papel social do Estado (desejada também pelos conselheiros ocidentais);
– O peso da juventude. A geração mais numerosa da história que chega à idade adulta nos países árabes e que, ainda que melhor educada, não dispõe dos meios de uma inserção social à altura das suas aspirações – no trabalho, mas não só, igualmente no exercício das responsabilidades.
Estes três fatores permitiram uma vitória rápida dos movimentos na Tunísia e no Egito, mais difícil no Iêmen. Foi precisa a intervenção das forças militares da OTAN, que ultrapassaram largamente o quadro do mandato da resolução 1973 do conselho de segurança da ONU, para derrubar o coronel Kadhafi. No Bahrein, o movimento foi contido por uma intervenção dos tanques sauditas, mas continua a exprimir-se com força. Além disso, uma mistura de concessões políticas (Marrocos) e de concessões financeiras (Argélia, Arábia Saudita) permitiu – mas por quanto tempo? – conter a contestação.
E na Síria? O presidente Bashar Al-Assad, que dispunha à partida de um certo capital de popularidade, pensou que a política regional desenvolvida pelo seu país (a sua oposição a Israel e às políticas dos Estados Unidos) o resguardariam. Estava totalmente enganado e, ao longo dos meses, tentou apresentar a contestação pacífica como militarizada, manipulada pelo estrangeiro, cujo objetivo seria fazer desaparecer um regime que se opõe às ambições israelitas e americanas. Pela sua recusa em se empenhar em reformas sérias e num diálogo com a oposição, pelo seu uso indiscriminado da violência contra manifestações que, no essencial, continuavam pacíficas, por um uso generalizado da tortura, contribuiu para o aumento da violência, para a passagem de uma parte da oposição à luta armada; favoreceu, num mesmo movimento, as ingerências que pretendia querer combater (1).
Da mesma forma, ele ajudou os projetos daqueles que não visam a reforma (nem evidentemente a instauração de um regime democrático), mas preparam uma ofensiva contra o Irã e esperam fazer cair antes o seu principal aliado árabe.
Quem pode acreditar por um segundo que seja, que o regime saudita procura instaurar a democracia em Damasco, ele que não reconhece qualquer assembleia eleita? Ele cujo ministério do Interior acaba de declarar que as manifestações do leste do país são “uma nova forma de terrorismo” (2)?
Quem pode pensar que as liberdades são o que motivam as declarações dos Estados Unidos, eles que não hesitaram em enviar “terroristas” presos por eles para serem interrogados na Síria (prática conhecida pelo termo inglês de rendition), porque este país utilizava a tortura?
Quem pode acreditar que a democracia é a preocupação de Nicolas Sarkozy, ele que recebeu Bashar Al-Assad em julho de 2008 e o visitou em setembro, apoiava os ditadores tunisino e egípcio e não dizia uma palavra sobre o massacre de Gaza durante a invasão israelita de dezembro de 2008? Uma pequena história significativa: naqueles dias, os jornalistas do Figaro receberam instruções da sua direção para não evocarem nos seus artigos os prisioneiros políticos na Síria.
Para todos estes países, e para Israel, o objetivo é derrubar um regime aliado do Irã, no quadro da preparação de uma ofensiva contra este país.
É evidente agora que numerosas forças, incluindo no Conselho Nacional Sírio (CNS), pressionam para uma intervenção militar, apoiada numa formidável campanha midiática.
A batalha pela Síria é também uma batalha de propaganda. O regime perdeu-a há muito, tanto que as suas afirmações são frequentemente grotescas, as suas mentiras óbvias e as suas práticas bárbaras. No entanto, as informações que se multiplicam 24 horas sobre 24 em todas as cadeias de rádio e de televisão, e que frequentemente têm uma única fonte, a oposição no exterior do país, são verdadeiras? Durante muito tempo a mídia rejeitou as informações sobre a morte de oficiais e de polícias, elas estão contudo confirmadas; desde há um ano, regularmente, a mídia anuncia que a contestação atingiu Damasco. Só podemos lamentar a morte de dois jornalistas em Homs e recordar que o regime, interditando aos jornalistas (na maior parte do tempo) a entrada no país ou de se deslocarem nele, contribui para o que ele pretende denunciar.
Este relatório pode, certamente, ser contestado num ou noutro ponto, mas fornece uma investigação no terreno que deveria ter merecido uma pouco mais de atenção: “Syrie, une libanisation fabriquée” (“Síria, uma libanização fabricada), CIRET-AVT e CF2R, 11 de fevereiro de 2012.
Militarização
Em Homs, o comportamento das tropas do regime é inaceitável. Elas pretendem aniquilar, não a cidade inteira, mas os bairros sunitas que se rebelaram. Porque o exército enfrenta combatentes frequentemente devotados e prontos a se baterem até ao fim, com o apoio de uma parte da população. Se isto explica a violência dos combates, a situação não justifica evidentemente as atrocidades do regime. Todavia é interessante notar que os argumentos utilizados contra o Hamas em dezembro de 2008 – janeiro de 2009 (“eles tomam a população como refém escondendo-se no seu seio”) não são retomadas no caso sírio; esperemos que sejam também abandonados no próximo ataque israelense...
Uma das dimensões mais perigosas deste conflito tem a ver com os riscos da sua transformação em confrontos “confessionais”. Seria falso dizer que, na Síria, tudo se reduz a se pertencer a uma religião ou comunidade: existem alauítas que apoiam a oposição e sunitas que preferem o regime aos insurretos. Mas o poder, apoiando-se na sua base alauíta, tem incontestavelmente aumentado as tensões. Pelo seu lado, a oposição – ou alguns dos seus componentes, nomeadamente o CNS – não é diferente e mostra-se incapaz de dar garantias sérias para o futuro. Ninguém parece notar como os curdos, por exemplo, que foram dos primeiros a se manifestarem (especialmente para obter documentos de identidade) se tenham agora posto à margem, chocados pela recusa do conselho nacional sírio de reconhecer os seus direitos3. Por seu lado, o regime parece querer relançar as atividades do PKK, um partido que ele utilizou no seu confronto com a Turquia nos anos 90 e que continua muito popular entre os curdos da Síria.
Para além disso, o CNS é contestado por numerosos opositores, que o acusam de ser dominado pelos islamistas, com algumas figuras pró-ocidentais para falar à mídia. Assim, um novo grupo acaba de ser criado, o Movimento Nacional para a Mudança (MNC), dirigido pelo Dr. Ommas Qurabi, antigo presidente da organização síria de defesa dos direitos humanos4. Ele critica o CNS por recusar militantes alauítas ou turquemenos.
Outras comunidades, especialmente as comunidades cristãs mas também drusa (5) hesitam, não por simpatia para com o regime, mas por receio do caos que resultaria da sua queda sem negociações.
A militarização do conflito está em marcha e transporta com ela o germe de uma guerra civil (talvez a única via de saída para o regime). Uma reportagem do diário libanês Daily Star (23 de fevereiro) sobre o Exército sírio livre confirma dois elementos que a imprensa oculta frequentemente: este exército tem bases no Líbano (e para além disso também na Turquia); ele não hesita nas represálias confessionais, matando alauítas por vingança (6). Da mesma forma, combatentes iraquianos juntaram-se aos insurretos sírios (7), incluindo membros da Al-Qaida, o que foi confirmado pelo departamento de Estado dos Estados Unidos.
Estamos num impasse. A oposição – ou melhor, as oposições – é incapaz de derrubar o regime e o regime é incapaz de superar a oposição. Pode-se mesmo dizer que o futuro do regime está traçado e já não dura mais do que alguns meses. A questão é por conseguinte saber se o país se vai afundar na guerra civil ou conhecerá uma forma de transição política que necessita, queira-se ou não, de um diálogo.
É neste quadro que é preciso compreender o veto dos dirigentes russos e chineses à resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 4 de fevereiro. O texto tinha sido emendado para ter em conta algumas das suas objeções mas continuava a pedir a retirada das tropas governamentais sem falar da oposição armada, e a fazer referência ao plano da Liga Árabe, imposto pela Arábia Saudita, que implicava o afastamento de Bashar Al-Assad. Esta resolução podia servir de cobertura a uma intervenção militar? Obviamente, isso foi o que temeram Moscou e Pequim, escaldados com a precedente resolução1973 sobre a Líbia. Pode-se compreender as suas suspeitas, tanto que as declarações francesas e outras deixam entrever uma ação armada sob pretexto de proteger as populações.
A via da negociação
Então, não podemos fazer nada? Podemos. Mas as possibilidades não se reduzem apenas à opção militar. Por um lado, as pressões sobre a Síria, especialmente no domínio econômico, existem (elas podem ser reforçadas sob condição de terem como alvo os dirigentes e não a população) e leva já uma parte da burguesia que apoia o regime a se interrogar. Por outro lado, as primeiras missões da Liga Árabe, apesar das dificuldades, tinham servido para limitar a violência; foi a Arábia Saudita que obteve a sua retirada (é preciso ler o relatório que elas publicaram; não tem nada a ver com o que têm dito os meios de comunicação, a tal ponto que este texto foi escondido durante muito tempo); é necessário, pelo contrário, conseguir que estas missões recomecem e se alarguem. Por fim, ao contrário do que se tem escrito, nem os russos nem os chineses deram luz verde a Assad, mas tentam fazer pressão sobre ele.
Como relata um jornal libanês bem informado, as autoridades sírias abstiveram-se, por pressão dos russos, de utilizar a aviação e outras armas de guerra à sua disposição, na sua repressão atual – deste ponto de vista, não se está na situação de Hama em 1982 (8).
A via da negociação é estreita vai levar tempo. Enquanto isso, pessoas morrem... Mas uma intervenção militar faria ainda mais vítimas.
Além disso, mencionemos um interessante artigo de Efraim Halevy, antigo diretor da Mossad e antigo conselheiro nacional de segurança, aparecido no International Herald Tribune de 7 de fevereiro com o título “O calcanhar de Aquiles do Irã”. Ele explica, no essencial, que o derrube do regime de Damasco permitiria evitar a alternativa desastrosa: bombardear o Irã ou intensificar as sanções, o que poderia empurrar o preço do barril para além do suportável. Privando Teerão do seu aliado sírio, pelo contrário, enfraquecia-se o Irã consideravelmente.
Artigo de Alain Gresh, editor do Le Monde Diplomatique, publicado em blog.mondediplo.net Tradução de Carlos Santos para o Esquerda.net
(1) Ler “Jours de tourmente en Syrie” - [Dias de tormenta na Síria] Le Monde diplomatique, agosto de 2011.
(2) http://arabnews.com/saudiarabia/article578082.ece
(3) Dogu Ergil, “Syrian Kurds” (“Curdos sírios”), Zaman, 21 février
(4) İpek Yezdani, “Syrian dissidents establish new bloc” (“Dissidentes sírios constituem novo bloco”), Daily News, 21 février
(5) lire Phil Sands, « Syria’s Druze community : A silent minority in no rush to take sides », The National, 22 de fevereiro
(6) “FSA soldier in Lebanon discloses tactics” (“Soldado do Exército Sírio livre revela táticas”)
(7) ler Tim Arango et Duraid Adnan, “For Iraqis, Aid to Rebels in Syria Repays a Debt” (“Para iraquianos, a ajuda aos rebeldes na Síria paga uma dívida”), The New York Times, 12 de fevereiro de 2012
(8) Al-Akhbar, 22 de fevereiro de 2012.
No Carta Maior
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Dilma aos generais da reserva: a comandante sou eu!

O artigo 84 da Constituição Federal é claro. Ele arrolada entre os atributos que competem privativamente ao chefe da Nação a função de “exercer o comando supremo das Forças Armadas”.
Não há dúvidas a respeito. Nem pode haver. E foi o que a presidente Dilma Rousseff deixou claro, novamente, ao enquadrar oficiais generais da reserva, presidentes dos clubes Naval, da Aeronáutica e Militar, que quebraram a disciplina regimental ao criticar, em nota conjunta, a presidente Dilma Rousseff, duas ministras do governo e o Partido dos Trabalhadores que, na comemoração dos 32 anos de sua fundação, voltou à carga contra o regime dos generais.
O motivo é o de sempre; o apego dogmático à lei de Anistia de 1979, adotada pela própria ditadura de 1964 e que protege agentes da repressão que cometeram perseguição, sequestro, tortura e assassinato políticos durante aquele regime discricionário.
O pretexto, desta vez, foram declarações da ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, apoiando processos judiciais contra agentes da repressão da ditadura. E da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, que, em seu discurso de posse, fez críticas veementes contra a ditadura e foi aplaudida pela presidente Dilma Rousseff.
São duas mulheres que têm a autoridade de quem sofreu na pele os abusos da repressão da ditatura. Não tem sentido, para os chefes militares da reserva saudosos da ditadura, argumentar perante elas para atenuar aquelas violências – estavam em lados opostos; elas – como os milhares de perseguidos políticos – na situação de vítimas; eles, ao lado dos algozes.
Soou mal quando, na nota conjunta que divulgaram em 16 de fevereiro, aqueles chefes militares manifestaram a pretensão de neutralidade da presidente Dilma Rousseff, ou de ministros de seu governo, contra aqueles crimes. É inadmissível a crítica que fizeram à presidente da República por ter aplaudido as manifestações da ministra Menicucci, e a cobrança clara, feita por eles, de que Dilma a condenasse ou desautorizasse.
A questão de fundo é a proximidade da entrada em funcionamento da Comissão da Verdade, cujos membros serão nomeados até março para examinar aquele passado tenebroso com olhar crítico. Aqueles chefes militares reivindicam o direito de ter presença e voz nessa Comissão e temem o que entendem como uma “unilateralidade” das apurações.
Dilma manifestou sua contrariedade com a atitude dos generais da reserva. E, de novo, fez valer sua voz de comandante em chefe das Forças Armadas, como já havia feito em agosto do ano passado, quando sua autoridade de comandante em chefe das Forças Armadas foi desafiada pelo então ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acabou demitido.
O caminho seguido pela resposta da presidente foi o da hierarquia, cujo topo é ocupado por ela. Dilma convocou o ministro da Defesa, Celso Amorim, que chamou os comandantes de cada uma das Forças, cabendo a eles executarem o enquadramento dos generais indisciplinados, que foram constrangidos a divulgar outra nota, no dia 23, desautorizando a anterior. O comportamento da presidente não podia ser outro, até porque ela deve cumprir a Constituição em todos os seus quesitos.
O almirante Veiga Cabral, presidente do Clube Naval, ainda esperneou, dizendo que os militares não podem ficar calados ao serem “desafiados de um lado e engolirmos sapo de outro”.
Ele está errado. As críticas à ditadura militar e a exigência pública de esclarecimento dos crimes cometidos pela repressão não são desafios às Forças Armadas, mas expressam o clamor pela apuração da ação de agentes do Estado que cometeram aqueles crimes hediondos e imprescritíveis. Que precisam ser apurados e punidos, em nome da democracia e da civilização. Eles sim são “sapos” enfiados goela abaixo da Nação e que não podem ser aceitos e nem se pode calar sobre eles.
A comandante em chefe sou eu: este foi o recado de Dilma para as viúvas da ditadura. A “neutralidade” reivindicada por eles é uma prerrogativa de casta inaceitável na democracia, regime no qual todos (chefes militares ou não) devem estar subordinados à Constituição. A apuração dos crimes cometidos durante a ditadura militar tem este sentido: o do respeito à Constituição. Respeito que não foi partilhado pelos golpistas de 1964, pelos generais e seus paus mandados que exerceram o poder e cometeram barbaridades condenadas, e que deixam saudades em setores conservadores cuja visão hierárquica da sociedade fundamenta a pretensão de terem direitos especiais e estarem a salvo da lei. Não estão.
Editorial do VERMELHO
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Cabeça de fora

Three Stooges
Parece que o Brasil gosta de tentar repetir a história, o que, contrariando um pensador famoso, não acaba em farsa, mas em tragédia. Alguns militares resolveram botar a cabeça de fora fazendo pensar em procedimentos dos anos 1950 e 1960. O almirante Ricardo Antonio da Veiga Cabral, presidente do Clube Naval, o general Renato Cesar Tibau da Costa, presidente do Clube Militar, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, presidente do Clube de Aeronáutica, publicaram nota (manifesto?) de advertência contra as posições das ministras Maria do Rosário e Eleonora Menicucci em relação à possibilidade de ações na Justiça em busca de punição a torturadores do regime militar imposto em 1964.
Os militares queixam-se de que a presidente prometeu governar para todos, sem "discriminação, privilégios ou compadrio", mas nada estaria fazendo para calar a boca das auxiliares. Diz o manifesto: "Na quarta-feira, 8 de fevereiro, a ministra da Secretaria de Direitos Humanos concedeu uma entrevista à repórter Júnia Gama, publicada no dia imediato no jornal Correio Braziliense, na qual mais uma vez asseverava a possibilidade de as partes que se considerassem ofendidas por fatos ocorridos nos governos militares pudessem ingressar com ações na Justiça, buscando a responsabilização criminal de agentes repressores, à semelhança ao que ocorre em países vizinhos. Mais uma vez esta autoridade da República sobrepunha sua opinião à recente decisão do STF, instado a opinar sobre a validade da Lei da Anistia. E, a presidente não veio a público para contradizer a subordinada". Uma coisa é certa: o pau vai comer já, já.
O Brasil é um país diferente, superior aos outros, o único que não pune seus torturadores. Não nos rebaixamos ao nível da Argentina e do Uruguai. Não aceitamos pressões de organismos internacionais rastaqueras como a ONU. Nossos torturadores são intocáveis. Essa é a nossa discriminação, esses são os privilégios que damos, esse é o compadrismo que praticamos. O fato de que os guerrilheiros foram punidos com prisão, tortura, exílio ou morte, enquanto os torturadores nada pagaram, não nos constrange. Nossos militares são atuantes e politizados: "Os Clubes Militares expressam a preocupação com as manifestações de auxiliares da presidente sem que ela, como a mandatária maior da Nação, venha a público expressar desacordo com a posição assumida por eles e pelo partido ao qual é filiada e aguardam com expectativa positiva a postura de presidente de todos os brasileiros e não de minorias sectárias ou de partidos políticos".
Nosso único dogma é: deixem nossos torturadores em paz. Eles prestaram relevantes serviços à Nação ajudando a salvar-nos de uma ditadura de esquerda com uma ditadura de direita, praticante, em nome da democracia e da civilização, de métodos bárbaros e rigorosamente antidemocráticos jamais discutidos diante de um tribunal de Justiça. Nossa ditadura foi implantada contra um presidente legal cujo grande pecado foi ter tentado reformar um país atolado no atraso, sendo que, em algumas regiões, a expectativa média de vida andava pelos 35 anos de idade e 77.737 latifundiários detinham 58% das terras de todo o país. Um espetáculo de desigualdade e barbárie.
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
No Correio do Povo
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As viúvas da ditadura e a esclerose múltipla

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A verdade não será sufocada!

A nota de 98 'militares de pijama', "ELES QUE VENHAM. POR AQUI NÃO PASSARÃO!” publicada no site "A verdade sufocada" é uma afronta à cidadania (leia aqui se tiver estomago)!
Já o título do site que diz estar sendo 'sufocado', muito pelo contrário, é quem quer sufocar a verdade.
Verdade esta que tenta ser sufocada pelos mesmos signatários, que a construíram por ações ou omissões em seu tempo de 'ativa'!
São seus próprios crimes que pretendem esconder do conhecimento público ao combater a por eles tão temida Comissão da Verdade!
Mas sugiro às autoridades que lhes deem um remédio que muito gostam (só que nos outros...): sejam suspensos os 'soldos' até a retratação incondicional dos envolvidos.
Nós não nos esquecemos do sofrimento que impuseram a inúmeros brasileiros e suas famílias, queremos ver seus crimes expostos ao julgamento da população brasileira.
Quem "No passaran" são estes saudosistas da cruenta ditadura militar que tomaram parte!
Luiz Antonio Franke Settineri - SAROBA
No Guerrilheiros Virtuais
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Que venham os saudosistas da ditadura. Eles não passarão

“Eles que Venham. Por Aqui Não Passarão” é o título de uma nota divulgada ontem, por 98 militares da reserva, criticando a Comissão da Verdade – criada para esclarecer quem foram os responsáveis por mortes, torturas e desaparecimentos na ditadura, mas sem poder de punição. Eles reafirmam outro manifesto que havia sido divulgado anteriormente, em que  reconhecem que a comissão é um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”.

Minha crítica à Comissão da Verdade é exatamente o contrário: ela foi aprovada em versão light, sem a força que deveria ter.

Pouco me importa o que pensam os verde-oliva da reserva. Eles podem reclamar até se engasgar com o chá da tarde no Clube Militar. A meu ver, demonstrações de afeto a um período autoritário são peça de museu, pertencentes a um tempo que, se não fizermos nenhuma besteira, nunca mais vai se repetir. Vivemos em uma democracia e, por isso, e só por isso, qualquer um (inclusive eles) podem se manifestar à vontade. O problema são as consequências da permanência de uma forma de pensar na sociedade, que é passada sem questionamento para as gerações mais jovens, tornando a dignidade humana algo relativo e flexível.

Para isso, gostaria de tomar a liberdade e reproduzir um texto que já postei aqui há um bom tempo – atualizado, é claro, com informações novas:

Não conheço pessoa que, tendo amado intensamente ou vivido uma dor muito forte, não pensou, pelo uma vez, na possibilidade de ter suas memórias arrancadas fora em um passe de mágicas. Considerando que deve levar um tempinho ainda até que desenvolvam um aparelho como o do filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, perguntei a uma médica-amiga se já haviam inventado remédio para acentuar o esquecimento. E, em caso positivo, se ela poderia me deixar receitadas uma ou duas caixas – nada demais, apenas para as intempéries do dia-a-dia. Ora, por que não? Inventam pílulas para tudo, de ereção prolongada até suadouro nas mãos! Com um sorriso, ela me lembrou que tal remédio já existe e é consumido pela humanidade desde que o primeiro hominídio percebeu que comida fermentada dá barato.

É claro que todos os percalços fazem parte da caminhada de cada um e da grande marcha de uma sociedade e que, portanto, são importantes no processo de aprendizado. Mas e quando a lição já foi entendida e a lembrança, não resolvida, continua a martelar nosso cotidiano?

Dia desses, trouxe aqui a história de Maria Francisca Cruz, uma “quase” viúva. Seu marido foi trabalhar na Amazônia, deixando para trás sete filhos e o silêncio. Enveredou-se por outro colo? Está preso? Tem medo de voltar? Falam que morreu tentando fugir de uma fazenda… Quem sabe? Dor maior não é saber que acabou. É não ter certeza disso.

Acordar de manhã sem alguns pressupostos básicos é angustiante. Imagine, então, aguardar o retorno de alguém que nunca aparece. Conheço gente cujos pais foram sumidos pela Gloriosa dos Verde-Oliva. A família parou no tempo, porta-retratos não saem do mesmo lugar em que estavam desde quando ainda éramos 90 milhões em ação. Até a poeira do relógio de pulso aguardando o dono é a mesma, sofrendo em silêncio.

O governo brasileiro resolveu não mais tentar buscar a revisão da Lei da Anistia. Mais do que punir torturadores, seria uma ótima forma de colocar pontos-finais em muitas das histórias em aberto e fazer com que pessoas tivessem, pela primeira vez em décadas, uma noite de sono inteira. A Presidência da República resolveu investir suas fichas na Comissão da Verdade, criada pelo Congresso Nacional. Até agora, o governo insiste em manter trancados a sete chaves documentos considerados ultrassecretos, além de inventar desculpa atrás de desculpa para não vomitar todos os arquivos da ditadura. Garantindo que representantes daquele tempo, como o Coronel Brilhante Ustra, possam continuar reinventando a história como quiserem, uma vez que a prova dos nove está encaixotada em algum lugar.

(Carlos Alberto Brilhante Ustra foi acusado pela família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e assassinado no Doi-Codi, em São Paulo, em 1971. Pede-se o reconhecimento público da responsabilidade do coronel pela morte de Merlino. Ustra era comandante do Doi-Codi e diversas testemunhas – entre elas o ex-ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi, preso no local na mesma época – afirmam ter visto Merlino em estado gravíssimo após sessões de tortura.)

Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido permanece nos assombrando. E incomodando através de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a esperar.

Isso tudo com a ajuda de colegas jornalistas que esqueceram que a função primeira da profissão não é ajudar restolhos da ditadura sob a justificativa de garantir essa estabilidade, mas trazer à tona o que está submerso. Repetem ad nauseam: “Não é hora de mexer nesse assunto”.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos concluiu que o Brasil é responsável pelo desaparecimento de 62 pessoas entre os anos de 1972 e 1974, durante a Guerrilha do Araguaia. Disse que a Lei da Anistia impede o acesso à verdade dos fatos e pediu que ela fosse revista. Nesse caso, o Supremo Tribunal Federal, que vem sendo sensível em decisões sobre a dignidade humana, deu de ombros.

Uma pesquisa do Datafolha em 2010 apontou que 45% da população era contrária à punição de agentes que torturaram presos políticos durante a ditadura militar contra 40% a favor. Agarro-me desesperadamente à esperança de que o pessoal não entendeu exatamente do que se tratava.

Em enquete realizada este ano por este humilde blog, o resultado foi o contrário, com a grande maioria apoiando a punição contra quem torturou durante a Gloriosa. Orgulho dos meus leitores que, contudo, não representam a posição do restante da sociedade.

O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A ponto de ser banalizada em filmes como Tropa de Elite, em que parte de nós torceu para os mocinhos que usavam o mesmo tipo de método dos bandidos no afã de arrancar a “verdade”.

A justificativa é a mesma usada nos anos de chumbo brasileiros ou nas prisões no Iraque e em Guantánamo, em Cuba: estamos em guerra. Ninguém explicou, contudo que essa guerra é contra os valores que nos fazem humanos e que, a cada batalha, vamos deixando um pouco para trás. Esse é o problema de sermos o país do “deixa disso” ou mesmo do “esquece, não vamos criar caso, o que passou, passou” e ainda do “você vai comprar briga por isso? Ninguém gosta de briguentos”. Enquanto não acertarmos as contas com nossa história, não teremos capacidade de entender qual foi a herança deixada por ela – na qual estamos afundados até o pescoço e que nos define.

A verdade é que não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje. E muitos de nós não suportarão isso.

O presidente do Senado chegou a defender o sigilo dos documentos da ditadura da qual fez parte.

Mas, e agora José? O que eu faço para esquecer?
No Blog do Sakamoto
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Militares confrontam Amorim e voltam a criticar Dilma

Nova nota publicada na internet, com assinatura de 98 militares da reserva, entre eles 13 generais e coronel Brilhante Ustra, ataca Comissão da Verdade e denuncia intervenção do Planalto e das três Forças para proibi-los de expressar opiniões
Durou pouco a retratação dos militares por críticas à Dilma Rousseff. Em nota divulgada ontem, 98 militares da reserva reafirmaram recentes ataques feitos por clubes à presidente e disseram não reconhecer autoridade no ministro da Defesa, Celso Amorim, para proibi-los de expressar opiniões.
A nota, intitulada "Eles que Venham. Por Aqui Não Passarão", também ataca a Comissão da Verdade, que apontará, sem poder de punir, responsáveis por mortes, torturas e desaparecimentos na ditadura. Aprovada no ano passado, a comissão espera só a indicação dos membros para começar a funcionar.
"[A comissão é um] ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo", diz o texto, endossado por, entre outros, 13 generais.
Apesar de fora da ativa, todos ainda devem, por lei, seguir a hierarquia das Forças, das quais Dilma e Amorim são os chefes máximos.
O novo texto foi divulgado no site "A Verdade Sufocada" (www.averdadesufocada.com), mantido pela mulher de Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército e um dos que assinam o documento.
Ustra, ex-chefe do DOI-Codi (aparelho da repressão do Exército) em São Paulo, é acusado de torturar presos políticos na ditadura, motivo pelo qual é processado na Justiça. Ele nega os crimes.
A atual nota reafirma o teor de outra, do último dia 16, na qual os clubes Militar, Naval e de Aeronáutica fizeram críticas a Dilma, dizendo que ela se afastava de seu papel de estadista ao não "expressar desacordo" sobre declarações recentes de auxiliares e do PT contra a ditadura.
Após mal-estar e intervenção do Planalto, de Amorim e dos comandantes das Forças, os clubes tiveram de retirar o texto da internet.
"Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do manifesto do dia 16", afirma a nota de ontem, que lembra que o texto anterior foi tirado da internet "por ordem do ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo".
A primeira das três declarações que geraram a nota foi da ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos), para quem a Comissão da Verdade pode levar a punições, apesar da Lei da Anistia.
Depois, Eleonora Menicucci (Mulheres) fez em discurso "críticas exacerbadas aos governos militares", segundo o texto. Já o PT, em uma resolução, disse que deveria priorizar o resgate de seu papel para o fim da ditadura.
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José Serra 2012 já começou mentindo

José Serra (PSDB/SP) afirmou categoricamente que não se interessava em concorrer à prefeitura de São Paulo, no dia 25 de fevereiro de 2011, na Rádio Jovem Pan.
Agora, Serra demonstra que mentiu, ao lançar-se candidato à prefeito, no dia 28 de fevereiro de 2012.
Aliás, mentira é o que não falta na vida de Serra. Nas eleições de 2004 ele já havia mentido. Prometeu e assinou documento se comprometendo junto ao eleitor a não abandonar o cargo, se eleito, para concorrer em 2006. Mentiu! Abandonou a prefeitura com 1 ano e 3 meses de mandato.
Para piorar, na entrevista à Jovem Pan, Serra desdenhou da eleição para prefeito deste ano. Deu a entender que o cargo de prefeito de São Paulo era pouco para ele, uma vez que já foi prefeito e ele só pensa na presidência em 2014.
Com isso, Serra dá mostras de que em vez de candidatar-se para servir aos paulistanos, resolvendo os problemas de trânsito, enchentes, incêndios em favelas, cracolândia, etc, o candidato Serra quer servir-se da prefeitura como trampolim para a candidatura presidencial em 2014.
No Amigos do Presidente Lula
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Espanha se revolta contra retaliação brasileira

Espanha critica endurecimento do Brasil para entrada de turistas do País
Governo brasileiro decidiu que passaria a tratar os europeus da mesma forma que Madri trata os brasileiros
Jamil Chade
GENEBRA - O governo da Espanha critica a postura do Brasil em relação ao endurecimento das condições para a entrada de espanhóis ao País e diz que as novas medidas adotadas pelo Brasil são "injustificadas " e que são "além do normal ". Questionado pelo Estado durante um evento em Genebra, o secretário de Assuntos Externos da Espanha, Gonzalo de Benito, insistiu que Madri tentará reverter as decisões de Brasília antes da entrada em vigor das medidas, no dia 2 de abril.
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As ficções políticas e as realidades do mundo

Faz parte da história política de São Paulo a aparente indecisão de muitos de seus líderes. O Sr. Jânio Quadros, que tinha dias de Hamlet e dias de MacBeth, subordinava suas decisões a dois pontos geográficos da cidade: Vila Maria e Sapopemba. Vila Maria é a região de classe média emergente, e, Sapopemba, área mais pobre. Ele costumava consultar os dois eleitorados. De Vila Maria vinha a esperança da vitória, uma vez que, desde sua eleição para vereador, contara com o apoio de seus eleitores. Sapopemba era o teste de popularidade. Antes de candidatar-se a esse ou àquele cargo, aferia, nos comícios, o apoio de seus moradores.
O ex-governador José Serra não chega à forte tragédia do escocês MacBeth, mas se aproxima, em seu ser e não ser, do príncipe da Dinamarca. Não que Hamlet disputasse uma eleição, a não ser a do destino, e que a sua dúvida fosse muito além de sua própria tragédia, ainda que nela amarrada. Mas se Jânio e Serra estão muito distantes da essência do caráter que Shakespeare dá aos dois personagens, e que ele pintara como antípodas morais, os dois paulistas começam a se assemelhar. Jânio adorava que fossem bater à sua porta, apelar para a sua taumaturgia populista. Serra, ao desconfiar de que não o procurariam, como a bóia salva-vidas na tempestade (mesmo porque os ventos políticos sopram brandos, por enquanto), resolveu aceitar, de bom grado, os ralos apelos que lhe chegam.
Os paulistas começam a dar à eleição para a Prefeitura de São Paulo importância maior do que ela realmente tem, e os comentaristas políticos, próximos dos tucanos bandeirantes, avançam sobre a lógica, dizendo que ela terá efeitos nacionais. Não há dúvida de que a cidade é a mais importante do país, no que se refere à economia e à cultura, de maneira geral, mas está distante da realidade política e social do Brasil como um todo. Os paulistanos atuam como se fossem o sol, em torno do qual os planetas menores orbitam, e, de cuja luz, dependem.
Na noite de sábado para domingo, em uma cidade satélite (das mais pobres) de Brasília, Santa Maria, alguns rapazes atearam fogo a moradores de rua. Um deles morreu e o outro se encontra seriamente ferido, com poucas possibilidades de sobrevivência. Há dois fatos, relacionados com essa tragédia, que devem ser ponderados. Até há algum tempo, os pobres costumavam ser solidários entre eles. Agora, no entanto, submetem-se à cultura, made in USA, da intolerância, da violência pela violência, da discriminação e do desprezo pela vida. Talvez – e as investigações continuavam – os incendiários de fim de semana sejam dos “emergentes” das cidades-satélites, filhos de pais bem empregados, moradores em casas confortáveis. E, talvez, não – o que será pior.
O outro ponto de reflexão é o da impunidade. Há quase quinze anos, cinco rapazes, filhos de famílias da elite de Brasília, atearam fogo ao índio Galdino, dirigente da etnia pataxó da Bahia, que dormia em um ponto de ônibus. Presos, graças ao testemunho de um rapaz da mesma idade, que passava de carro pelo local, os culpados foram defendidos com veemência. Seus pais, e os advogados que contrataram, tentaram desqualificar o crime – tratara-se, segundo a desculpa, de uma brincadeira que dera errado. Não tinham a intenção de matar, só a de assustar com o fogo. Foram presos e julgados. Condenados, em 2001, a 14 anos de prisão, menos um deles, que era adolescente, não passaram mais de 4 anos na prisão – onde gozaram de todas as regalias, entre elas a de sair para estudar e trabalhar, quando aproveitavam o tempo para beber e namorar, chegando frequentemente muito depois da hora de recolher.
As denúncias de que estavam sendo privilegiados de nada adiantaram. Eles eram enteados e filhos de juízes. Como sabemos, todos somos iguais diante da lei, embora alguns sejam muito mais iguais.
É nesse país, em que as leis são meras declarações de intenção, e apenas 3% dos responsáveis pelos crimes de homicídio são julgados e cumprem penas, que temos de pensar. Não entendem os legisladores e administradores públicos que a impunidade dos poderosos estimula a criminalidade geral. Assim, enganam-se os tucanos da maior cidade brasileira. São Paulo, com toda sua opulência (mesmo com a maior população de moradores de rua de todo o país) não é a estrela em torno da qual circula o sistema planetário nacional. Mesmo porque as elites de São Paulo, salvo poucas exceções, exercem uma cidadania off-shore, desligada do destino do país.
O nosso futuro está sendo construído em todo o território nacional, pela inteligência, pelo esforço e pelo patriotismo de seus trabalhadores, incluídos os de São Paulo – e não pelos senhores da Febraban e das corporações multinacionais, empenhadas em novo e cômodo colonialismo.
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Pat Metheny

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28 de fev de 2012

Governo e Mídia nos EUA agem para silenciar os críticos

“Em 2010, o FBI invadiu a casa de ativistas pela paz em vários estados e apreendeu bens pessoais, no que chamou de “investigação de atividades relacionadas com o apoio ao terrorismo” (e tendo orquestrado falsos “grupos terroristas”).
Os que protestavam contra a guerra foram intimados a depor perante um júri, enquanto a acusação fabricava o argumento de que a oposição às guerras de agressão de Washington representa apoiar e encobrir terroristas. O objetivo dessas buscas e intimações era refrear e desmobilizar o movimento antiguerra.
Na semana passada, de uma assentada, os últimos dois críticos do imperialismo de Washington/Tel Aviv foram eliminados dos grandes meios de comunicação social. O popular programa de Andrew Napolitano, “Freedom Watch”, foi cancelado pelo canal Fox, e Pat Buchanan foi despedido da MSNBC. Ambos especialistas tinham muitos espectadores e eram apreciados por falarem com franqueza.
Muitos suspeitam de que Israel usou a sua influência junto dos anunciantes da TV para silenciar os que criticam os esforços do governo israelita para levar Washington para a guerra com o Irã.
A questão é que a voz dos grandes meios de comunicação é agora uniforme. Os norte-americanos ouvem uma voz, uma mensagem, e a mensagem é propaganda. A dissidência é tolerada apenas em assuntos como, por exemplo, saber se os cuidados de saúde a cargo dos empregadores deverão incluir contraceptivos. Os direitos constitucionais foram substituídos por direitos a preservativos grátis.
Os média [mídia] ocidentais demonizam aqueles a quem Washington aponta o dedo. As mentiras chovem para justificar a agressão de Washington: os Talibãs são misturados com a Al-Qaeda, Sadam Hussein tem armas de destruição massiva, Kadhafi é um terrorista e, ainda pior, dava Viagra aos seus soldados para que violassem as mulheres líbias.
O Presidente Obama e membros do Congresso, ao lado de Tel Aviv, continuam a afirmar que o Irã constroi uma arma nuclear, apesar de terem sido publicamente desmentidos pelo Secretário de Estado da Defesa dos EUA, Leon Panetta, e pelo relatório dos Serviços Secretos da CIA. De acordo com relatórios noticiosos, o chefe do Pentágono, Leon Panetta, disse aos membros da Câmara dos Representantes, em 16 de fevereiro, que “Teerã não tomou uma decisão quanto a prosseguir com o desenvolvimento de uma arma nuclear”.
No entanto, em Washington, os fatos não contam. Apenas os interesses materiais de poderosos grupos de interesse têm importância.
Neste momento, o “ministério da verdade [1] norte-americano divide o seu tempo entre mentiras relativas ao Irã e à Síria. Houve, recentemente, algumas explosões na longínqua Tailândia e o Irã foi responsabilizado por isso. Em outubro passado, o FBI anunciou a descoberta de uma conspiração iraniana para pagar a um vendedor de carros usados mexicano que teria contratado traficantes de droga mexicanos para matar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA.
O imbecil que falava pela Casa Branca afirmou acreditar nessa inacreditável “conspiração” e declarou ter “fortes evidências”, mas nenhuma foi divulgada. O objetivo do anúncio dessa conspiração foi justificar as sanções de Obama, que representam um embargo (um ato de guerra) contra o Irã pelo desenvolvimento de energia atômica.
Como um dos signatários do Tratado de Não-proliferação Nuclear, o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estão, permanentemente, no Irã e nunca reportaram qualquer desvio de material nuclear para um programa de armas.
Por outras palavras, de acordo com os relatórios da AIEA, o relatório dos Serviços Secretos e o atual Secretário de Estado da Defesa, não há evidência de que o Irã tenha armas nucleares ou de que esteja a fabricá-las. No entanto, Obama impôs sanções ao Irã quando a própria CIA e o seu próprio Secretário de Estado da Defesa, em simultâneo com a AIEA, reportaram que não existe base para as sanções.
A ideia de que os EUA são uma democracia, não tendo, em absoluto, uma imprensa que funcione como um observador atento, é risível. Mas os média [da mídia] não estão a rir. Estão mentindo. Tal como o Governo, cada vez que os grandes meios de comunicação abrem a boca ou escrevem uma palavra, estão a mentir. De fato, os grandes senhores corporativos pagam aos seus empregados para mentir. É esse o seu trabalho. Se disserem a verdade, passam à história, como foi o caso de Buchanan e Napolitano e Helen Thomas.
Rebelde sírio
O “ministério da verdade” chama “manifestantes pacíficos brutalizados pelo exército de Assad” ao que são, na verdade, rebeldes armados e financiados por Washington. Washington fomentou uma guerra civil. Reclama a intenção de “salvar o povo sírio, vítima de opressão e maus-tratos de Assad”, tanto quanto “salvou o povo Líbio, vítima de opressão e maus-tratos de Kadhafi”. Hoje, a Líbia “libertada” é uma imagem do seu passado, aterrorizada por milícias em confronto. Graças a Obama, mais um país foi destruído.
Os relatórios de atrocidades cometidas contra civis sírios pelo exército poderão ser verdadeiros, mas provêm dos rebeldes que querem a intervenção do Ocidente para subirem ao poder. Além disso, em que diferem essas baixas civis das infligidas à civis no Bahrein pelo seu governo, apoiado pelos EUA, e cujo exército foi reforçado com tropas da Arábia Saudita? Não se ouvem protestos na imprensa ocidental quando Washington fecha os olhos às atrocidades cometidas pelos seus estados fantoches.
Em que diferem as atrocidades sírias, se forem reais, das atrocidades de Washington no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, no Iêmen, na Líbia, na Somália, em Abu Ghraib, na prisão de Guantánamo, e em prisões secretas da CIA? Porque se mantém o “ministério da verdade” norte-americano em silêncio em relação a essas violações massivas dos direitos humanos e sem precedentes?
Recordem-se, também, os relatórios das atrocidades sérvias no Kosovo que Washington e a Alemanha usaram para justificar o bombardeamento de civis sérvios pela NATO e EUA, incluindo o consulado chinês, considerado outro dano colateral.
Treze anos mais tarde, um destacado programa de TV alemão revelou que as fotografias que despoletaram a campanha de atrocidades “foram mal interpretadas” e “não eram fotografias de atrocidades cometidas por sérvios”, mas de “separatistas albaneses mortos num tiroteio entre albaneses e sérvios”. As baixas sérvias não foram reveladas.
O problema no conhecimento da verdade é que os ocidentais da mídia mentem continuamente. Nas raras instâncias em que as mentiras são corrigidas, isso acontece sempre muito depois dos acontecimentos terem tido lugar e, portanto, os crimes permitidos pela mídia já estão consumados.
Washington pôs a Síria em causa perante os seus fantoches da Liga Árabe, com o objetivo de isolar perante os seus congêneres, para melhor poder atacá-la. Assad evitou que Washington pusesse a Síria no caminho da destruição quando marcou um referendo nacional por uma nova constituição que possa alargar a perspectiva de poder para além do Partido Baath (o partido de Assad).[O referendo foi realizado ontem, 26].
Poderíamos pensar que, se Washington e o seu ministério da verdade realmente quisessem a democracia na Síria, Washington apoiaria esse gesto de boa vontade por parte do partido do poder e aprovaria o referendo. Mas Washington não quer um estado democrático. Quer um estado fantoche.
A sua resposta é de que o covarde Assad enganou Washington dando passos em direção à democracia na Síria antes que Washington conseguisse esmagá-la e instalar um fantoche. Eis a resposta de Obama às medidas de Assad pela democracia: “É na verdade risível; é gozar com a revolução síria”, disse o porta-voz da Casa Branca Jay Carney a bordo do “Air Force One”.
Obama, os neoconservadores e Tel Aviv estão realmente contrariados. Se Washington e Tel Aviv conseguirem descobrir como contornar a Rússia e a China e derrubar Assad, irão julgá-lo como criminoso de guerra por propor um referendo democrático.
Bashar al-Assad
Assad era oftalmologista na Inglaterra até que o seu pai morreu e ele foi chamado para chefiar o conturbado governo sírio. Washington e Tel Aviv demonizaram Assad por recusar ser seu fantoche.
Outro ponto nevrálgico é a base naval russa em Tartus. Em Washington, estão desesperados para expulsar os russos da sua única base no Mediterrâneo, para fazer deste um lago norte-americano. Washington, inculcada com visões neoconservadoras de domínio mundial, quer o seu próprio mare nostrum [2].
base naval russa em Tartus
Se a União Soviética ainda existisse, os planos de Washington para Tartus seriam suicidas. Mas a Rússia é política e militarmente mais fraca que a União Soviética. Washington infiltrou-se na Rússia com organizações não-governamentais que trabalham contra os interesses da Rússia e irão perturbar as próximas eleições. Além disso, as “revoluções coloridas[3] financiadas por Washington fizeram, do que eram partes da antiga União Soviética, estados fantoches de Washington. Washington não espera que a Rússia, esvaziada de ideologia comunista, prima o botão nuclear. Desse modo, a Rússia está lá para tirar proveito.
A China representa um problema mais difícil. O plano de Washington é cortar-lhe o acesso a fontes independentes de energia. O investimento chinês em petróleo no leste da Líbia é a razão pela qual Kadhafi foi derrubado e o petróleo é uma das razões fundamentais por que Washington aponta agora para o Irã. A China tem grandes investimentos em petróleo no Irã e vai buscar 20% do seu petróleo no Irã. Vedar-lhe esse acesso, ou converter o Irã num estado fantoche de Washington, ameaça 20% da economia chinesa.
A Rússia e a China levam tempo a aprender. No entanto, quando Washington e os seus fantoches na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) fizeram um uso abusivo da resolução da Organizações das Nações Unidas (ONU) relativamente à zona de exclusão área na Líbia, infringindo-a e transformando-a numa agressão militar contra as forças armadas líbias, que tinham todo o direito de reprimir uma rebelião apoiada pela CIA, a Rússia e a China finalmente perceberam que não podem confiar em Washington.
Desta vez, a Rússia e a China não caíram na armadilha de Washington. O seu veto no Conselho de Segurança da ONU impediu ataque militar à Síria. Agora, Washington e Tel Aviv (entre esses dois, nem sempre é claro quem é o fantoche e quem o manipula) têm de decidir se irão prosseguir, face à oposição russa e chinesa.
Os riscos para Washington multiplicaram-se. Se Washington prosseguir, a mensagem que é transmitida à Rússia e à China é que, a seguir ao Irã, chegará a sua vez. Portanto, a Rússia e a China, ambas dispondo de armas nucleares, provavelmente irão pôr o pé na linha traçada sobre o Irã. Se os loucos militaristas em Washington e Tel Aviv, com a fúria arrogante que lhes corre forte nas veias, ignorarem a oposição russa e chinesa, o risco de confronto perigoso aumenta.
Por que razão os da mídia norte-americana não questionam esses riscos? Vale a pena rebentar o planeta para impedir o Irã de ter um programa de energia nuclear ou mesmo uma arma nuclear? Pensará Washington que a China ignora que aquela [estratégia dos EUA] aponta para as suas fontes de energia? Pensará que a Rússia ignora que está a ser cercada de bases militares hostis?
Que interesses estão sendo servidos pelas guerras infinitas de Washington, que custam tantos trilhões de dólares? Certamente, não os interesses de 50 milhões de norte-americanos que não têm acesso a cuidados de saúde, nem as 1.500.000 crianças sem abrigo, que vivem em carros, quartos de motéis abandonados, cidades de acampamentos e coletores de águas dos temporais no subsolo de Las Vegas, enquanto enormes somas de dinheiros públicos são usados para resgatar bancos e esbanjados em guerras pela hegemonia mundial.
Os EUA não têm imprensa e televisão independentes. Tem prostitutas midiáticas [4] pagas pelas mentiras que proferem. O Governo dos EUA, na prossecução dos seus fins imorais, obteve o estatuto do governo mais corrupto da história da humanidade. E, no entanto, Obama discursa como se Washington fosse a fonte da moral do homem.
O Governo dos EUA não representa os norte-americanos, representa uns poucos interesses especiais e um poder estrangeiro [Israel]. Os cidadãos dos EUA não contam, e certamente não contam os do Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália, Iêmen e Paquistão. Washington encara a verdade, a justiça e a misericórdia como valores risíveis. O dinheiro, o poder, a hegemonia, são tudo o que conta para Washington, a cidade sobre a colina, a luz das nações, o exemplo para o mundo.”
NOTAS DA TRADUÇÃO:
[1] Trata-se de um dos ministérios do governo imaginado por George Orwell em 1984, que se ocupa de fabricar a verdade histórica conforme as conveniências políticas do momento.
[2] Os Romanos chamavam Mare Nostrum ao Mediterrâneo.
[3]Revoluções coloridas”: muitos meios de comunicação social têm assim designado uma série de manifestações políticas no que foi território da URSS, depois CEI, supostamente contra governos e líderes “tiranos”, acusados de serem “ditadores” etc., desde começos da década de 2000.
[4] No original: “presstitutes”
FONTE: escrito por Paul Craig Roberts, estadunidense, economista e cronista. Já foi editor e colunista do “Wall Street Journal”. Transcrito no site português “O Diário.Info” e no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=176512&id_secao=9). [Título, imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados pelo blog ‘democracia&política’].
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