27 de nov de 2011

Crime de Imprensa – o retrato de uma imprensa murdoquizada

Palmério Doria: “A bolinha se tornou mais importante que o Papa”
“Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma.
A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira”
Foto: Arquivo Pessoal / Twitter
Uma bolinha de papel bate na cabeça de um presidenciável e o leva para o hospital. Depois, um telejornal diz que a bolinha não foi a causa do ferimento. Outro objeto teria atingido o candidato. As câmeras mostram. Um perito atesta. Na internet, blogueiros separam o vídeo frame a frame e dizem que não se enxerga objeto nenhum. Uma singela bolinha de papel teria mesmo motivado uma tomografia em José Serra. “A bolinha se tornou mais importante que o Papa. A grande personagem das eleições foi a bolinha”, afirma o jornalista Palmério Dória.
O episódio da bolinha de papel é o ponto de partida para a narrativa de Crime de Imprensa – o retrato de uma imprensa murdoquizada, lançamento de Dória e de Mylton Severiano, ambos jornalistas da velha guarda, com passagem por diversos veículos tanto da imprensa nanica, quanto pelos veículos das famílias que dominam a comunicação no pais. É sobre a cobertura destes últimos nas eleições de 2010 que trata o livro. “Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma. A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira. Ela era seqüestradora, bandida, laranja, poste, ela era tudo”, conta Palmério.
A dupla não espera qualquer resenha nos jornais, mas espera, sim, que o livro seja bem vendido. Os dois já fizeram junto Honoráveis Bandidos, que conta a saga de José Sarney, e vendeu cerca de cem mil exemplares, mesmo com pouquíssima divulgação na grande imprensa. “O livro do Sarney também fala das relações da grande imprensa. Todos os grandes irmãos tinham ótimas relações com o Sarney, ele era, inclusive, colunista da Folha de São Paulo. É muito recente o rompimento dos grandes irmãos com o Sarney”, ressalta Palmério.
Sem papas na língua, o jornalista conversou por telefone com o Sul21 e não poupou nem o vice-presidente da República, Michel Temer. Ele revelou que é processado por diversas pessoas – entre elas, o ex-ministro da Agricultura, Wagner Rossi – e que já nem se defende mais na Justiça. “Não quero nem ser defendido. Abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender? Agora eu quero ver”.
Nesta sexta-feira (25), o Crime de Imprensa foi lançado em uma banca da Avenida Paulista. A obra está apenas em bancas de São Paulo e também pode ser adquirida pela internet.
 “Eu falo da imprensa que perdeu a eleição. Da imprensa que torce para que a crise internacional chegue ao Brasil”
Sul21 – O título do livro é Crime de Imprensa. A imprensa brasileira é criminosa? Por quê?
Palmério Dória – Eu falo da imprensa que perdeu a eleição. Da imprensa que torce para que a crise internacional chegue ao Brasil para jogar uma água fria na Dilma, e no Lula também. É uma imprensa que sabe que pode perder também em 2014 e está desesperada. Eu falo, na verdade, das quatro grandes famílias. Ela (imprensa) é criminosa, no final das contas, porque vem manipulando os prezados leitores e espectadores há décadas.
"Em 2002, O Estado de S. Paulo noticiou uma ida,
que não houve, do Serra ao Tocantins. Ele sendo
recebido em festa pelo prefeito, quando na
verdade estava em São Paulo, no estúdio, gravando"
Foto: Giovanni Bello/UFSC
Sul21 – Quais são as quatro famílias?
Palmério Dória – Estamos falando dos grandes irmãos: os Civita, os Marinho, os Frias e nos meninos daí, filhotes menores, os Sirotsky, que se espalham aí no Sul Maravilha. São basicamente esses.
Sul21 – Os Mesquita foram poupados no livro?
Palmério Dória – Os Mesquita são uma família nascida para perder. Na única vez em que eles apoiaram o Getúlio, ele perdeu, na eleição antes da Revolução (de 30). Eles são pé-frios. A última que eles perderam foi agora. Apostaram brabo no Serra. Eles vêm perdendo todas. Quando apostaram, por exemplo, na Revolução (de 64), conspirando para o golpe, na sequência eles perderam. A ditadura é obra da Família Mesquita.
Sul21 – Mas o livro tem foco na cobertura da grande imprensa às eleições de 2010. O que levou você e o Mylton a escreverem um livro sobre isto?
Palmério Dória – Como sempre, o óbvio. Ninguém vai atrás do óbvio. Você fica pensando: “Todo mundo vai escrever um livro sobre as eleições de 2010”. E a regra é: ninguém faz o óbvio. Este é o primeiro livro sobre as eleições de 2010.
Sul21 – O que esta eleição e sua cobertura tiveram de especial?
Palmério Dória – É um comportamento padrão. A gente sabia que renderia um grande assunto, que os pequenos e grandes golpes aconteceriam. É inevitável. Aconteceram nas outras eleições presidenciais, por que não aconteceriam nesta? Em 2002, O Estado de São Paulo noticiou uma ida, que não houve, do Serra ao Tocantins. Ele sendo recebido em festa pelo prefeito, com o povo na rua, quando na verdade estava em São Paulo, no estúdio, gravando. Então, eles são capazes de tudo. Evidente que o filme iria se repetir em 2010.
 “No caso deles (imprensa), o crime não compensa. Eles perderam. E vão perder de novo na próxima eleição”
Sul21 – Mas a eleição de 2010 teve alguns episódios peculiares. Quais vocês destacam no livro?
Palmério Dória – O episódio da bolinha realmente eu nunca vi… A bolinha se tornou mais importante que o Papa, que as grandes corporações, que a própria imprensa. A grande personagem das eleições foi a bolinha. A narrativa parte deste episódio da bolinha e vai em frente. Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma. A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira. Ela era seqüestradora, bandida, laranja, poste, ela era tudo. Mas eu destacaria o episódio da bolinha como o mais espetacular. Foi onde ficou configurada esta manipulação toda, com o perito Molina na Globo falando do evento bolinha, do evento fita crepe, tentando transformar o episódio da bolinha em um atentado.
Sul21 – O perito (Ricardo) Molina comenta de tudo. Ele entra no livro de forma mais detalhada?
Palmério Dória – Claro que entra. Ele se presta para qualquer papel. Ele não tem noção do ridículo. O ridículo da vida para ele é pouco, ele entra em qualquer cascata. Está aí para o que der e vier. Mas também tem médicos, um cirurgião, gente que trabalhou para o Cesar Maia. O médico que fez a tomografia que ninguém viu até agora.
Palmério Dória diz que a grande imprensa
perdeu muito com a derrota de José Serra:
"imagine os negócios que eles iam fazer"
Foto: Giovanni Bello/UFSC
Sul21 – O livro, segundo você disse, fala da imprensa que perdeu. Pode se dizer então que o crime não compensa?
Palmério Dória – Você vê, por exemplo, este caso da Chevron. A gente vê como a imprensa não está cobrindo este episódio. Eles têm helicópteros, eles cobrem ocupação da Rocinha. Não fazem esta história da Chevron-Texaco, que vai enlamear o litoral carioca e paulista neste verão, vai matar a fauna marinha e tudo mais. Eles não fazem porque a Chevron é a patroa, e é a patroa do Serra. Está nos documentos do Wikileaks que o Serra disse que ia rever o pré-sal se ganhasse. No caso deles, o crime não compensa. Eles perderam. E vão perder de novo na próxima eleição. Como diz o Mino Carta na epígrafe do livro: na maioria dos casos a mídia, hoje em dia, é ponta de lança para grandes negócios. Neste sentido, eles perderam mais ainda. Imagine os negócios que eles iam fazer a partir de Serra no poder?
 “Este livro não trata de corrupção, mas da maneira como a imprensa cobre a corrupção”
Sul21 – Como você está vendo estas quedas sucessivas de ministros, que às vezes até parece uma jogada ensaiada entre Dilma e Veja e outros veículos?
Palmério Dória – Um cineasta aí do Sul disse que estava para ver um movimento destes de direita, uma ditadura que não tenha se implantado em nome do combate à corrupção. Eu também estou para ver. Este livro não trata de corrupção, mas da maneira como a imprensa cobre a corrupção. Eu gostaria que a imprensa agora colocasse 1% de seu exército para cobrir os roubos no metrô paulistanos. Todas as linhas são superfaturadas. Neste momento o escândalo é da linha lilás. Se a imprensa usasse este poder de fogo permanente para cercar as malfeitorias tucanas não restaria nada. Se essa mídia usasse seu esforço, digamos, para levantar a vida de um Tasso Jereissati, que tem uma holding chamada Ceará, ele é dono do Ceará. Se ela levantasse agora a vida, os negócios secretos, de Aécio e de sua irmãzinha Andréa por trás de uma rádio chamada Arco-Íris. Quem banca os carros de luxo e os jatinhos de Aécio Neves? Eu não vejo este interesse da imprensa em bombardear diariamente. E não há quem segure um fogo cruzado destes. Não livramos a cara de ninguém, até porque não tenho vínculo partidário nenhum. O único sufixo “ista” que se aplica para mim e para o Mylton é jornalista. O que a gente discute é o instituto de dois pesos e duas medidas.
Sul21 – Mas como você vê a relação entre Dilma e a imprensa passada a eleição?
Palmério Dória – Eles apostavam que ela não iria segurar os fisiológicos do PMDB. Ela segurou, os fisiológicos estão ali quietinhos. Nestas crises sucessivas, eles apostaram o tempo todo em revoltas das bancadas, na quebra da governabilidade – incentivando até. Esta governabilidade quando foi exercida pelo FHC não era tão contestada. Então, ela está administrando muito bem. Está no fio da navalha, mas administrando muito bem esta questão.
Sul21 – O livro fala em imprensa “murdoquizada”. No que as práticas da grande imprensa brasileira se assemelham às dos veículos de Murdoch?
Palmério Dória – A gente viu outro dia um repórter da Veja invadir o hotel em que estava José Dirceu, tentar invadir o quarto dele, instalar câmeras. Todos os métodos que o bilionário australiano que domina a imprensa nos EUA e na Inglaterra usou. O que você acha do grampo sem áudio que a Veja montou naquela operação, que desarticulou todo o esquema anticorrupção da Polícia Federal?
Sul21 – Que ocasião foi esta?
Palmério Dória – Foi o grampo que originou a queda do (Paulo) Lacerda e de todo um grupo de inteligência (à frente da ABIN, Lacerda teria grampeado o ministro do STF. O áudio nunca apareceu). Aquilo desarticulou completamente todo um trabalho que vinha sendo feito contra a corrupção. Eles não estão interessados em combater a corrupção, estão interessados em derrubar governos. Enfim, são dois exemplos. Podemos citar uma série de outros. Mas assim age o Murdoch lá e age esta imprensa, estes grandes irmãos, aqui.
 “O que este menino fez no caso do José Dirceu é o trabalho sujo. Hoje em dia, esses meninos entram alegremente nesse tipo de coisa”
Sul21 – O que escreve Lima Barreto sobre a imprensa da época dele e que vale tanto para o nosso tempo que acabou sendo publicado em Crime de Imprensa?
Palmério Dória – É um texto de Recordações do Escrivão Isaias Caminha. Ele começa assim: “A imprensa, que quadrilha. Fiquem sabendo vocês que se o Barba Roxa ressuscitasse agora, com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão a sua plena atividade se se fizesse jornalista”. Ele pega na verdade as grandes famílias da época, que há cem anos já dominavam a imprensa. Hoje em dia, temos pelo menos uma esperança: a internet.
Sul21 – A internet ajudou muito…
Palmério Dória – Os dois lados. Aquela campanha das trevas, do aborto, foi incentivada pela internet. Mas a internet também foi decisiva para a vitória da Dilma. As forças obscuras, que levaram o aborto para o centro da discussão política, ganharam no primeiro turno. As pessoas falam da queda da Erenice. O próprio João Santana veio com esta lorota de que foi a Erenice que garantiu o 2º turno. Não foi, não. Foram o aborto, os valores; foi Dom Luiz Gonzaga, o Torquemada de Guarulhos; o TFP, a Opus Dei. Depois, a internet, que é uma gráfica que você tem hoje em sua casa, de certa maneira ajudou a Dilma a ganhar.
Jornalista lamenta o que é feito com jovens repórteres nas
redações de hoje em dia: "jogam a garotada para se cobrir de
cagalhões. Não se faz isto com garoto"
Foto: Jair Bertolucci/TV Cultura
Sul21 – Você o Mylton Severiano são jornalistas experientes. A gente tem impressão às vezes que o jornalista atualmente é mais subserviente aos interesses do patrão. É verdade ou é só impressão?
Palmério Dória – O que este menino fez no caso do José Dirceu é o trabalho sujo. Nós tínhamos outrora nas grandes redações pessoas especializadas neste papel. A gente sabia: “Fulano de Tal”. Hoje em dia, estes meninos entram alegremente neste tipo de coisa. Tínhamos até certa ternura por quem metia a mão na merda, coisa que nós não teríamos coragem de fazer. Esta garotada faz alegremente isto. Por exemplo: meninos que saem destes cursos de trainee e vão direto fazer uma capa na própria Veja demonizando o MST.
Sul21 – É como se fosse um batismo de fogo?
Palmério Dória – É um batismo de fogo. Jogam a garotada para se cobrir de cagalhões. Não se faz isto com garoto. Precisa respeitar no mínimo a garotada. Então, a meninada vai achando que vai crescer bonito e topa qualquer parada.
Sul21 – O bloco de esquerda que hoje está no governo federal não teme demais a imprensa ao não enfrentar, por exemplo, o monopólio das comunicações, que a Constituição não permite?
Palmério Dória – Evidente que sim. O Lula se pela de medo. A Dilma se pela de medo. Eles não aprendem. São incapazes de fazer aqui o que a Cristina Kirchner está fazendo. Está encarando esses caras, mandando o cacete. Aqui, participam de todas as solenidades, aniversário da Folha e tudo o mais. E a Dilma ainda recebe uma cacetada da Danuza Leão porque se retirou antes de terminar o concerto. Mas de qualquer maneira, vão, rendem homenagens e não tomam nenhuma medida para uma palavra bem simples: democratização da mídia, que é a única saída para isto que a gente está conversando.
Sul21 – Como você escreveu também Honoráveis Bandidos, vou fazer uma provocação: o governo tem mais medo da imprensa ou do Sarney?
Palmério Dória – Está diminuindo. Você veja que o Sarney não foi à solenidade da Comissão da Verdade. É um bom sinal. Quem me chamou atenção para este detalhe foi o Luiz Claudio Cunha, que escreveu uma das melhores coisas que eu li nos últimos tempos. O nosso projeto é o mesmo: fazer farinha destes caras, que nem broa. O livro do Sarney também fala das relações da grande imprensa. Todos os grandes irmãos tinham ótimas relações com o Sarney, ele era, inclusive, colunista da Folha de São Paulo. É muito recente o rompimento dos grandes irmãos com o Sarney. Eles adorariam e sabem que o Sarney estaria do lado do Serra, como esteve com todos os governos.
Sul21 – O Ministério de Minas e Energia ninguém tira dele.
Palmério Dória – Em um eventual Governo Serra estaria nas mãos do mesmo Lobão, que era um rato da ditadura. Imagine se, dentro de um projeto de direita, o Sarney não estaria, se o Lobão não estaria. São sapões que têm que ser engolidos e estão sendo engolidos.
 “Abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender?”
Sul21 – Existe a possibilidade política de um governo romper com Sarney ou ainda é inviável para qualquer presidente?
Palmério Dória – Tem se provado que é inviável. Está dito em Honoráveis Bandidos que sem o apoio dele cai o sistema. Esta quadrilha está lá em Honoráveis Bandidos: Michel Temer, Wagner Rossi – que abriu um processo contra mim no valor de R$ 600 mil – o Eduardo Cunha, esses bandidos todos estão lá. E está dito também que a imprensa compactuava com o Sarney. Por isto este livro não teve nenhuma resenha. O papel desta imprensa criminosa já estava contado.
Palmério Dória diz que abriu mão de advogado
nos processos contra ele: "o que é que eu vou
fazer? Vou à falência para me defender?"
Foto: Arquivo Pessoal / Twitter
Sul21 – Como está transcorrendo este processo de Rossi contra você?
Palmério Dória – Não tenho a menor ideia, vou lhe explicar por que. Não tenho no c… o que periquito voa. Eles podem pedir R$ 1 milhão. Não quero nem ser defendido, abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender? Agora eu quero ver. Tem uma série de processos dos quais abri mão. Tem o filho do Mario Covas, o Zuzinha; tem a viúva do Dante de Oliveira, que se associou com o crime organizado no Mato Grosso; tem juiz. O que é que eu vou fazer? Vou à falência para me defender? Eles quebram você economicamente jogando esses processos para Brasília, para São Luis, não sei para onde.
Sul21 – As editoras tiveram um pouco de medo de publicar Crime de Imprensa.
Palmério Dória – Não tiveram um pouco de medo, fugiram de mim como o diabo da cruz. Nós estávamos a ponto de publicar este livro virtualmente, porque ninguém topava. Todo mundo saiu da área. Alguns não quiseram conversa, outros sentaram para conversar. Amigos fugiram porque tinham contratos com o governo e se tivessem um processo iam se estrepar. Isto faz parte do jogo. Mas encontramos o pessoal da Plena Editorial que encarou. O livro não está nas livrarias, porque seria inviável economicamente. Será lançado em uma banca de jornal em plena Avenida Paulista.
Sul21 – O plano é não ter nas livrarias?
Palmério Dória – O plano é ter em livrarias. Mas, por exemplo, divulgação zero. A gente diz no final do livro: “Leia Crime de Imprensa, um livro sobre o qual você não verá nenhuma resenha nem menção alguma na grande mídia”. Mas não é reclamando, não. A gente sabe que Honoráveis Bandidos, um livro de jornalismo político e história do Brasil, ficou 35 semanas entre os mais vendidos, apesar deles. E eles não podiam deixar de dar nas suas listas de mais vendidos.
Felipe Prestes
No Sul 21
Leia Mais ►

Braço direito de Serra sai da cadeia e vai para UTI

Alegando problemas cardíacos, João Faustino deixou a prisão e foi internado num hospital em Natal; fisgado na Operação Sinal Fechado, que também levou à prisão aliados da ex-governadora Wilma Faria, Faustino coordenou a campanha presidencial de José Serra fora de São Paulo; tensão no ninho tucano
Durou pouco a temporada na prisão de João Faustino, ex-subchefe da Casa Civil do governo de São Paulo durante o governo de José Serra. Preso na última quinta-feira na Operação Sinal Fechado, que implodiu um esquema de desvio de recursos na inspeção veicular da capital potiguar, Faustino conseguiu deixar o hospital alegando problemas cardíacos. Braço direito de José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, Faustino despachava no Palácio dos Bandeirantes e era também suplente do senador Agripino Maia (DEM/RN).
Neste domingo, o Hospital São Lucas, um dos melhores de Natal, emitiu uma nota sobre o estado de saúde de João Faustino:
“Informamos que o senhor João Faustino Ferreira Neto encontra-se hospitalizado na Unidade de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São Lucas desde as 15 horas do dia 26 de novembro do corrente ano, ora sob tratamento médico especializado. O estado clínico do paciente é regular.
As visitas estão restritas aos familiares conforme determinação da equipe médica assistente e normas desta instituição.
Natal, 27 de novembro
Miguel Angel Sicolo – Coordenador Médico
Francisco Edênio Rego Costa – Médico Cardiologista"
Na Operação Sinal Fechado, também foram fisgados aliados da ex-governadora do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, que alegou motivações políticas na investigação do Ministério Público. Em nota, os procuradores rebateram a ex-governadora:
"Como era de se esperar o Ministério Público não ficou calado ao ter sua imparcialidade – inclusive política – questionada pela ex-governadora Wilma de Faria.
Agora há pouco enfrentou ponto a ponto da defesa “acusatória” da ex-governadora.
A conferir:
O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte, em razão de notas à imprensa elaboradas pela ex-Governadora do RN, Wilma Maria de Faria, e seu filho, advogado Lauro Maia, em que se faz adjetivações negativas a respeito da atuação desta Instituição e se lança um “desafio”, vem a público esclarecer o seguinte:
a) É comum que investigados, confrontados com fortes indícios e evidências de sua participação em ilícitos procurem desviar o “foco” do noticiário, por meio da desgastada estratégia de tentar acusar e desafiar o órgão investigador;
b) Quanto à acusação de má-fé por parte desta Instituição, muito provavelmente pelo fato de se ter dado publicidade a provas, indícios e evidências de que a ex-Governadora do RN, Wilma Maria de Faria, e seu filho, advogado Lauro Maia, tiveram participação na cadeia criminosa revelada na operação “Sinal Fechado”, esta deve ser prontamente repelida;
c) Não existiu qualquer razão metajurídica para tanto. Não houve “pirotecnia jurídica”, mormente diante de peças bem elaboradas, claras e tecnicamente precisas. Não existem “medos políticos inconfessáveis” por parte desta Instituição. Ao contrário, o Ministério Público tem se pautado pela investigação e acusação a quem quer que seja, como no caso presente, independentemente de sua suposta importância ou “lado” na cena política; Aliás, todas as menções a Srª Wilma Maria de Faria e ao advogado Lauro Maia constantes nas petições advém de informações obtidas a partir de diálogos mantidos entre os investigados, que de forma expressa registram tais pessoas como beneficiárias das ações da organização criminosa, tendo o Ministério Público, como é de seu dever, levado os fatos ao Poder Judiciário, que reconheceu a procedência dos pedidos e determinou a realização das diligências necessárias à continuação da apuração dos fatos. Não há uma única afirmação feita pelo Ministério Público que não esteja baseada em elementos de evidências e provas, notadamente as próprias palavras dos demais investigados e pessoas referenciadas em interceptações judicialmente autorizadas.
d) Não é verdade que um membro do MPRN teria afirmado inexistir provas contra a ex-Governadora do RN, Wilma Maria de Faria, e seu filho, advogado Lauro Maia, na coletiva de imprensa dada na tarde do dia 24 passado. O que se afirmou foi que não havia necessidade de busca e apreensão na residência destes investigados, dado que, muito provavelmente, não seriam ali encontradas provas a esse respeito, uma vez que os fatos ocorreram em meados de 2009;
e) Ora, as petições levadas a público com autorização judicial, que continuam à disposição no “site” da Instituição (www.mp.rn.gov.br), descreveram de forma minuciosa as diversas provas acerca da participação dos investigados em comento, colhidas ao longo de nove meses de apurações, como diálogos em que se afirma, categoricamente, que George Olímpio pagou vantagem indevida (“propina”) a Lauro Maia, bem como fez promessa de pagamento de vantagem indevida a este investigado, além de comunicações telemáticas em que George Olímpio revela que participou ativamente da elaboração de projeto de lei de autoria da investigada Wilma Maria de Faria, tendo recebido a própria mensagem por ela encaminhada à Assembléia Legislativa, com o projeto de lei que resultou na sanção da Lei n.º 9.270/09, o que representou indício de que as propostas a Lauro Maia se destinavam, em verdade, à sua mãe, então gestora máxima do Executivo Estadual;
f) O interrogatório do investigado José Gilmar de Carvalho Lopes (Gilmar da Montana), tomado no dia da operação, e, portanto, após a elaboração das referidas petições corrobora a prova e evidências até então conhecidas, reforçando ainda mais o que já havia sido apurado, principalmente quando o mesmo afirma que, de fato, George Olímpio lhe confidenciou que ofereceu promessa de vantagem indevida à investigada Wilma Maria de Faria, consistente em cota de 15% (quinze por cento) da sua parcela nos futuros lucros do Consórcio INSPAR, como forma de garantir a vitória deste consórcio na licitação para a inspeção veicular no RN;
g) Diversas provas já colhidas na investigação Ministerial, portanto, dão conta da implicação e envolvimento da Ex-Governadora Wilma de Faria e seu filho Lauro Maia no aludido esquema;
h) Importante repisar, apesar de ser de conhecimento público, que o Ministério Público Estadual contesta veementemente a constitucionalidade da Lei n. 9.270/09, que trata da Inspeção Veicular no Estado do Rio Grande do Norte, tanto que representou ao Procurador-Geral da República em face de tal vício, tendo sido ajuizada no Supremo Tribunal Federal a competente Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin n° 4.551). A Adin está sob a relatoria da Ministra Carmén Lúcia, em pauta para julgamento;
i) Por fim, é de se reconhecer que é absolutamente compreensível a insatisfação e, mesmo, a revolta, expressadas por pessoas que estão sendo investigadas por fatos tão graves quanto os descortinados com a operação “Sinal Fechado”. É, inclusive, uma reação humana natural e esperada a autodefesa diante da magnitude dos fatos. Todavia, o papel do Ministério Público sempre será regido pelo aspecto técnico, não se deixando envolver partidária e emocionalmente em qualquer caso, nem aceitando desafios pessoais. Afinal, no Estado Democrático de Direito cada instituição deve exercer as suas atribuições, sendo as ações do Ministério Público pautadas dentro da estrita ordem constitucional, da qual jamais se afastará;
j) O Ministério Público do Rio Grande do Norte reafirma o seu total compromisso com a verdade, não havendo qualquer interesse em imputar culpa a pessoas realmente inocentes. Por outro lado, com a mesma serenidade,afirma que jamais deixará de investigar quem quer que seja, inclusive aqueles que, não se sabe por qual motivo, parecem imaginar que estão acima da lei.
Natal/RN, 26 de novembro de 2011.
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
O escândalo do Rio Grande do Norte tem relação direta com a acusação, em São Paulo, que bloqueou os bens do prefeito, Gilberto Kassab.
O ponto de conexão entre as duas histórias é a empresa Controlar, criada pelo empreiteiro Carlos Suarez, ex-OAS, para prestar serviços de inspeção veicular. Leia mais a respeito sobre a prisão de João Faustino (aqui) e sobre sua relação com o senador Aloysio Nunes Ferreira (aqui).
Leia Mais ►

Faustino preso; Serra mudo. E a mídia?

Na quinta-feira passada, a operação “Sinal Fechado” do Ministério Público Federal resultou no pedido de prisão de 14 pessoas no Rio Grande do Norte. Elas são acusadas de fraudes bilionárias na inspeção veicular – o mesmo esquema que bloqueou os bens do prefeito Gilberto Kassab. A mídia até tem tratado do escândalo na capital paulista, mas evita destacar as prisões em Natal. Por que será?
Um dos envolvidos no escândalo potiguar, já preso e acusado de ser o chefão da quadrilha, é o tucano ricaço João Faustino, suplente do senador Agripino Maia, presidente nacional do DEM. Mais grave ainda: Faustino foi um dos homens-fortes da campanha de José Serra em 2010. Enquanto o esquecido Paulo Preto chefiava a arrecadação de recursos financeiros em São Paulo, ele fazia a coleta nacional.
Relação antiga e sólida
As relações entre Faustino e Serra são antigas. Ele foi o seu subchefe da Casa Civil em São Paulo, subordinado ao ex-secretário Aloysio Nunes Ferreira, eleito senador no ano passado. Quando o grão-tucano se afastou do cargo de governador para disputar o pleito presidencial, Faustino foi acionado para o comando da campanha nacional – principalmente na área de arrecadação de recursos.
Até agora, José Serra, que adora se fingir de paladino da ética, nada falou sobre Faustino. Nem sequer prestou apoio ao seu amigo preso, ao antigo colaborador no Palácio dos Bandeirantes – bem diferente da postura “solidária e humanista” do demo Agripino Maia, outro ícone da “ética”, que logo inocentou seu suplente ricaço. Ingrato, o falante Serra está calado.
Cadê a Veja e o Jornal Nacional?
Já a mídia hegemônica, sempre tão imparcial e neutra, evita dar destaque para a prisão do arrecadador tucano, homem-forte de Serra. Faustino ainda não virou capa da Veja. Willian Bonner e Fátima Bernardes não fizeram cara de nojo no Jornal Nacional da TV Globo. Os jornalões dão apenas pequenas notinhas, nada de manchetes ou das tais reportagens “investigativas”. Estranho, não é?
E olha que o caso é cabeludo. Renata Lo Prete, da Folha, informa hoje (27) que “tucanos graúdos se mobilizam intensamente nos bastidores para avaliar a situação e projetar os danos da prisão de Faustino, que foi o número dois do hoje senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) na Casa Civil durante o governo de José Serra”. Então, por que a mídia não faz seu costumeiro escarcéu? Ela é seletiva?
Altamiro Borges
No Blog do Miro
Leia Mais ►

Quem precisa de multa em São Paulo

Leia Mais ►

Datena desmacara ateus e se mostra profundo conhecedor de Filosofia

Valendo-se do fato de que o programa do dia 27 de julho de 2010, até há bem pouco tempo, não tinha ido parar na Internet, Datena mostrou que sua palavra vale tanto quanto a de um moleque: ao invés de assumir o que disse e pedir desculpas (ou assumir sem pedir desculpas mesmo), Datena passou a querer se fazer de vítima, dizendo, em todas os seus pronunciamentos sobre esse assunto, que estava sendo processado "só por ter dito que determinados comportamentos maus são coisa de gente sem deus no coração".
Este que vos escreve é um dos que moveram ações contra José Luiz Datena por causa da miríade de falsas acusações e ofensas gratuitas por ele feitas contra ateus. O processo (№ 625.01.2010.018574) tramitou pela 3ª Vara Cível da Comarca de Taubaté.
No dia 13 de setembro foi proferida a sentença (publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo no dia 15), que pode ser lida aqui (http://www.progressosustentavel.com/sentenca.pdf), condenando José Luiz Datena e Rádio e Televisão Bandeirantes Ltda. a pagarem ao autor deste informe o valor de R$ 10.000,00.
Trata-se, até onde sabemos, da primeira vez na história deste país que alguém é condenado por discriminação contra ateus.
No dia 26 de outubro foram protocoladas as apelações de ambos os réus.
SOBRE O CASO
No dia 27 de julho de 2010, no programa "Brasil Urgente", pela TV Band, o apresentador José Luiz Datena dedicou cerca de uma hora a incitar o público ao ódio e a lançar as mais pérfidas acusações àqueles que, pela mais pura expressão da liberdade de consciência, amparados pela Constituição, decidiram não seguir religião alguma, não professar nenhum tipo de fé religiosa, nem adotar como objeto de adoração nenhum dos deuses criados pela história humana, não por serem contra alguns dos princípios dessas doutrinas, mas por não acreditarem, sinceramente, na existência de um plano metafísico que abrigue uma entidade onipotente que regeria o Universo e julgaria os homens.
Como todos aqui já sabem, Datena ultrapassou todos os limites da liberdade de expressão ao declarar e esbravejar, entre muitas outras coisas, que: não quer ateus assistindo seu programa; ateus são "pessoas do mal"; ateus são pessoas "aliadas do Capeta"; ateus são criminosos, egoístas, gananciosos, capazes de cometer os mais hediondos atos; ateus não têm limites; ateus são responsáveis pelas barbaridades narradas em seu programa; "quem não acredita em deus não costuma respeitar os limites, porque se acha o próprio deus"; é por causa dos ateus "que o mundo está assim, essa porcaria"; um homem que mata a tiros uma criança de dois anos seria "um exemplo típico de um sujeito que não acredita em deus"; só pode estar no "caminho certo" quem acredita em deus.
Datena chegou a lançar uma enquete para "provar para essas pessoas do mal" que deus existiria e que "o bem é maioria", com a questão "Você acredita em Deus?", cujas respostas "Sim" e "Não" poderiam ser dadas por telefone: "Mas se eu fizer uma pesquisa aqui, se você acredita em deus ou não, é capaz de aparecer gente que não acredita em deus". Ao constatar que mais de mil pessoas declararam ser ateias, Datena, em tom indignado, passou a incitar o público a vencer a enquete, a "dar de lavada nos ateus", além de declarar coisas como "tem muito bandido votando do outro lado", "até de dentro da cadeia".
Quando se esperava que, num programa seguinte, Datena fizesse algum tipo de retratação - ao menos em respeito à indignação que ele provocou na comunidade ateia do país com suas acusações caracterizadas pela mais árida argumentação -, o que ele fez foi debochar e reafirmar todas as suas declarações, baixando o nível da linguagem e explicitando a sua vontade gratuita de ofender: "Hah... Tem até uma associação... de ateus! Que pediu direito de resposta para falar aqui. Disse que eu teria metido o pau em quem não acredita em deus... que se lasque quem não acredita em deus!"
SisenandoCalixto
No Blog do Marcio Tavares
Leia Mais ►

Ley de Medios. PT não precisa de seminário. Governe!

Na foto, o luar em Paquetá. Ou, a Ley de Medios do PT
Diz o meu amigo Miro Borges que o PT fez um importante seminário sobre o marco regulatório da mídia.
Pode ser.
Não estou aqui para discordar do Miro.
Mas, tenho outra perspectiva.
O PT é governo.
Governa o Brasil há nove anos.
Nenhum partido apanhou mais do PiG do que o PT.
E, agora, nove anos depois, o PT faz um seminário.
Seminário para estudar o que?
Pergunte ao Nunca Dantes o que é sofrer na mão do PiG.
Não se ouvir a voz do Nunca Dantes no jornal nacional.
O Alberico editar o debate com o Collor.
O Ali Kamel (mais poderosos que o Alberico, mil vezes) levar a edição de 2006 para o segundo turno (e o desastre da Gol que fique para a Band …).
Pergunte à Dilma como é que o Casal 45 a entrevistou.
Estudar o que?
Seminarar mais o que?
Precisa estudar mais o que?
A Confecom já estudou o que tinha que estudar e propôs o que tem que ser feito.
Alguma dúvida?
Copia a legislação dos Estados Unidos, onde impera o capitalismo selvagem, na sua essência.
O PT governa.
Quem governa tem que mandar uma Ley de Medios para o Congresso e lutar por ela.
E, não, fazer como o Ministro Bernardo, do PT, que foge do seminário do PT.
Por que Bernardo fugiu ?
Porque o PT não pode se sentar em torno de uma mesa para governar sobre o PiG.
O Nunca Dantes passou 90 minutos do jogo a contemporizar com o PiG.
Nos acréscimos, ele pediu ao Franklin para fazer uma Ley de Medios.
O Franklin entregou ao Ministro Bernardo.
Bernardo disse uns desaforos ao Franklin e colocou a Ley de Medios do Franklin embaixo da pilha onde estão sepultadas as Leys de Medios que o Sergio Mota fez para o Farol de Alexandria.
Cascata.
Todo petista, no fundo da alma, gostaria de poder chamar o João de João (João é o primeiro nome de um dos filhos do Roberto Marinho, que, em geral, não têm nome próprio).
Se o PT quer enfrentar o PiG, governe.
Governar significa mandar.
Quem estuda é a oposição.
O PT tem medo da Globo.
O resto é o luar de Paquetá, diria o Nelson Rodrigues, que entendia de luar e da Globo.
Em tempo: é indispensável ler o artigo de Sergio Lirio, na pág. 76 da Carta Capital: “Para ganhar no grito”.
“Regulação da mídia – Como o fantasma da censura invocado constantemente pelos meios de comunicação tornou-se a mais escancarada censura.”
“A mídia brasileira não quer se discutir, nem deixa discutir”, diz o ex-ministro Franklin Martins, que defende uma base para o debate: a Constituição.”
Clique aqui para ler “Franklin Martins: a discussão sobre a Ley de Medios está na Constituição” e aqui para ler, deste ansioso blogueiro, no mesmo seminário da Ajuris, em Porto Alegre: Comunicação – o Brasil é a ditadura perfeita”.
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
Leia Mais ►

Piada pronta: Aécio quer endurecer a Lei Seca

Em entrevista à revista Época, deste fim de semana, o senador Aécio Neves se coloca como pré-candidato à presidência da República, eleva o tom das críticas ao governo Dilma e defende penas mais rígidas para motoristas que dirijam embriagados. Leia abaixo:
Em 2010, Aécio Neves tinha altos índices de popularidade depois de dois mandatos como governador de Minas Gerais e poderia postular a candidatura à Presidência da República pelo PSDB. Mas não quis entrar numa disputa interna e cedeu a vez ao então governador de São Paulo, José Serra. Serra ainda parece alimentar a pretensão de voltar a concorrer ao Planalto. Mas agora quem tem maioria no partido é Aécio. Entronizou aliados nos principais postos da direção partidária e comanda a reorganização do PSDB. Depois de um início de mandato relativamente discreto no Congresso, onde o governo conta com maioria avassaladora, Aécio, aos poucos, tem aumentado o tom das críticas ao governo Dilma. Na semana passada, ele deu esta entrevista a ÉPOCA.
ÉPOCA – O senhor disse que está pronto para ser candidato à Presidência da República em 2014 em disputa com a presidente Dilma Rousseff ou o ex-presidente Lula. Como tornar viável uma candidatura de oposição a um governo bem avaliado?
Aécio Neves – O PSDB passou por uma reorganização em sua direção e agora inicia um processo de debates com a sociedade. Realizou um grande seminário, com a participação de figuras que não são do partido, e deu a largada na discussão de temas que permitirão um antagonismo com o governo. Não me surpreende a popularidade da presidente Dilma. É natural, no primeiro ano de governo, que o protagonismo da cena política seja da presidente. Ela tem boas intenções. Mas é refém do que lá atrás se chamou de coalizão, mas não passa de um governo de cooptação. O governo do PT abdicou de um projeto de país para se dedicar a ficar no poder. O tempo está passando e não há nenhuma inovação em nenhuma área. A oposição chegará altamente competitiva em 2014, porque esse modelo de governar pela cooptação, estabelecido pelo PT, vai se exaurir.
ÉPOCA – Um problema da oposição é que a base do governo reúne 17 partidos. Se for candidato, que partidos o senhor pretende atrair?
Aécio – Não sou candidato, não ajo como candidato. Sou lembrado por alguns companheiros do partido, mas falar em nomes agora seria um equívoco estratégico enorme. O PSDB precisa antes voltar a dizer ao país o que pensamos. No momento adequado, vamos ter novos aliados, porque o modelo do PT vai chegar ao final de 12 anos sem enfrentar nenhum grande contencioso do país. Eles tocaram a coisa conforme a maré permitia, e isso vai gerar cansaço. O mandato da presidente Dilma não vai ser nenhuma grande tragédia, mas ela é responsável pela formação de seu governo, pela incapacidade de tomar iniciativas, pela falência da infraestrutura no Brasil, pela má qualidade da saúde. Esse é um governo reativo, sem a dimensão necessária para produzir um futuro diferente para o Brasil – e que passou o ano reagindo às crises que surgiram. O malfeito só é malfeito quando vira escândalo.
ÉPOCA – Em que o PSDB pode tentar se distinguir do PT?
Aécio – Estamos buscando identificar temas que criarão contraponto ao imobilismo do PT. Vamos ao principal. Fala-se muito do combate à pobreza como a grande marca do governo. Mas não se combate a pobreza só com um programa de distribuição de renda. O governo se contenta em administrar a pobreza em vez de fazer a transição real dos pobres para uma situação de melhor bem-estar. Isso ocorre porque o governo não enfrenta a questão de qualificação da educação como deveria.
ÉPOCA – O senhor disse que o governo administra a pobreza. Isso é uma crítica ao programa Bolsa Família?
Aécio – O Bolsa Família é essencial e está incorporado à realidade econômica e social do país. Mas você não vai tirar ninguém da pobreza dando o Bolsa Família. Quando o governo comemora não sei quantos milhões de pessoas no Bolsa Família, isso não deveria ser motivo de comemoração. A comemoração deveria ocorrer se o governo dissesse: neste ano nós vamos ter 2 milhões a menos de famílias necessitadas de receber o Bolsa Família, porque o governo deu a elas qualificação, acesso a emprego de qualidade e meios de construir seu destino.
ÉPOCA – O PSDB carrega a pecha de ser um partido que perdeu a conexão com o povo. Esse seminário recente teve a participação de vários economistas ligados ao mercado financeiro, mas poucos nomes da área social com o mesmo peso. Não é uma contradição com a intenção de renovar o partido?
Aécio – O seminário foi muito equilibrado. E a presença desses economistas foi proposital. Procuramos resgatar algumas figuras que tiveram papel essencial nas reais transformações do Brasil. O maior programa de transferência de renda que nossa geração assistiu não é o Bolsa Família, mas o Plano Real, que tirou dezenas de milhões de famílias do flagelo da inflação.
ÉPOCA – Mas como resolver essa questão da conexão com os setores mais pobres da população?
Aécio – Administramos metade da população do país, e essa questão não existe nos Estados onde vencemos as eleições. Em Minas Gerais, ganhamos em todas as regiões mais pobres porque fizemos inclusão, melhoramos a qualidade da saúde, investimos em infraestrutura e reduzimos a criminalidade. Mostrar os bons exemplos de nossas ações é uma forma de mostrar que não somos populistas, mas administramos bem e com resultados sociais vigorosos.
ÉPOCA – O PSDB tem alianças com o PSB em vários Estados, inclusive Minas Gerais. O PSB pode ser parceiro dos tucanos em 2014?
Aécio – Tenho uma relação pessoal antiga com o Eduardo (Campos, governador de Pernambuco e líder nacional do PSB). Em determinado momento, ele trouxe um convite do avô dele, Miguel Arraes, para que eu me filiasse e fosse candidato pelo PSB. Acredito que possa ocorrer um encontro natural. Hoje, o PSB tem compromisso com o governo, mas haverá nos Estados uma movimentação natural para que setores do PSB e de outros partidos estejam próximos a nós. Chegaremos a 2014 robustos para disputar as eleições, até porque nas eleições municipais faremos muitas alianças com partidos que estão na base de apoio da presidente Dilma. E muitas dessas alianças serão contra candidatos do PT.
ÉPOCA – Uma pessoa com quem o senhor tinha boas relações no PSB era o (ex-ministro) Ciro Gomes. Mas ele recentemente o atacou numa entrevista dizendo que o senhor lê pouco e que isso é um problema para suas pretensões políticas.
Aécio – Tenho grande carinho pelo Ciro, mas confesso que não tive oportunidade de ler essa entrevista dele (risos). Não vejo isso como um ataque a mim.
ÉPOCA – O PSDB se articula para disputar as eleições municipais, mas na maior cidade do país, São Paulo, o partido não tem candidato forte. Isso não é um problema?
Aécio – Confio na liderança do governador Geraldo Alckmin, do ex-governador José Serra, que seria líder nas pesquisas hoje se fosse candidato, do senador Aloysio Nunes Ferreira. O PSDB encontrará uma equação positiva, com chances de vencer as eleições. Acho muito importante que o PSDB tenha candidatura em São Paulo.
Votei no congresso pelo endurecimento da lei seca e já a aplicamos em Minas. Meu episódio com o bafômetro já foi explicado "
ÉPOCA – O ex-governador José Serra quer ser candidato mais uma vez à Presidência em 2014. Como evitar a divisão interna?
Aécio – O Serra tem as qualidades para postular qualquer candidatura. Na hora certa, o partido decidirá. Política é a arte de ad-ministrar o tempo. Você não pode antecipar excessivamente nem perder o tempo de determinadas decisões. Acho que 2013 será o momento adequado de definirmos o candidato, e sou um defensor das prévias. O candidato não será aquele que mais quer ser. Será quem tem melhores condições de vitória e de alianças.
ÉPOCA – Que erros o PSDB cometeu nas últimas campanhas presidenciais e deve evitar em 2014?
Aécio – Abrir mão de defender nosso legado foi o maior dos equívocos do PSDB. Não teria existido o governo do presidente Lula se não tivesse existido o governo do presidente Itamar e do presidente Fernando Henrique, com a estabilidade econômica, a modernização da economia, a construção dos pressupostos de metas da inflação, superavit primário, câmbio flutuante. Essa foi a bendita herança para o governo do PT. E abdicamos de disputar isso. Quando eu era presidente da Câmara, o PT lutou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. E hoje, mais de 60% da população, numa pesquisa que nós mesmos fizemos, acha que quem fez a Lei de Responsabilidade Fiscal foi o PT.
ÉPOCA – Como o senhor acha que o PSDB deve tratar o ex- presidente Fernando Henrique numa próxima campanha presidencial?
Aécio – No que depender de mim, com papel de destaque. O PSDB subestimou a capacidade de influência do presidente Fernando Henrique. Não falo de capacidade eleitoral, mas de debater os grandes temas com a autoridade de quem é uma das figuras brasileiras mais respeitadas.
ÉPOCA – Ele recentemente tem-se destacado por defender a legalização do consumo da maconha. O senhor concorda com isso?
Aécio – Tive a oportunidade de dizer a ele que discordo. É bom que o tema esteja em discussão, sem preconceitos. Mas não conheço nenhuma experiência no mundo em que isso tenha ocorrido e tenha significado redução no consumo da droga.
ÉPOCA – As últimas eleições ficaram marcadas por um debate de viés religioso sobre a legalização do aborto. Qual é sua opinião sobre essa questão?
Aécio – A religião teve um espaço demasiado na campanha. Isso leva a radicalizações e impede que as questões centrais que mexem na vida das pessoas tenham um espaço necessário. Sou a favor da manutenção da atual legislação do aborto.
ÉPOCA – No começo do ano, o senhor foi flagrado dirigindo com carteira de habilitação vencida e não fez o teste do bafômetro. O senhor é favorável ao endurecimento da Lei Seca, em discussão no Congresso?
Aécio – Sou. Votei na Comissão de Constituição e Justiça pelo endurecimento da lei. Estamos aplicando-a em Minas, com resultados muito positivos. Esse episódio já foi explicado. Há sempre a exploração política, mas a gente tem de se preparar para ver isso com naturalidade.
ÉPOCA – Em resposta à provocação de Ciro Gomes, o senhor pode dizer que livros o senhor leu recentemente?
Aécio – Posso dizer o que estou lendo agora: A saga brasileira, que recebi com uma dedicatória especial de minha ilustre conterrânea Miriam Leitão. Permite a uma nova geração de brasileiros compreender o que foi o período inflacionário.
ÉPOCA – Há muita curiosidade em relação a sua vida pessoal. Como está a vida familiar hoje?
Aécio – Não acho que isso interesse a muita gente. Minas mostrou de forma clara que as pessoas se importam com as realizações do homem público – claro que com um comportamento adequado. Levo uma vida serena, familiar, com minha filha e uma namorada. Sou um homem de bem com a vida.
ÉPOCA – O senhor pretende se casar de novo?
Aécio – Você está parecendo minha namorada. Vou falar para ela primeiro (risos).
~ o ~
Aécio na Época. Cadê o bafômetro?
A revista Época, dos filhos de Roberto Marinho, cedeu generoso espaço ao senador mineiro Aécio Neves na edição desta semana. O tucano até parece embriagado pelas suas ambições. Ele tenta ocultar a grave crise da oposição de direita, endurece nas críticas ao governo Dilma e defende penas mais duras para os motoristas que dirijam bêbados. É sério! Faltou um bafômetro antes da entrevista!
Apesar do inferno dos demos e das sangrentas bicadas entre os tucanos, Aécio garante que “a oposição chegará altamente competitiva em 2014”. Para ele, o governo Dilma tende a se desgastar rapidamente. “É refém do que lá atrás se chamou de coalizão, mas que não passa de um governo de cooptação. O governo do PT abdicou de um projeto de país para se dedicar a ficar no poder”.
Bebedeira e perda de memória
O ex-governador, que fez alianças com deus e o diabo para se perpetuar no poder em Minas Gerais – inclusive cooptando a maior parte da mídia local, sabe-se lá com que expedientes –, lembra aqueles borrachos que esquecem o que fazem. Na sua embriaguez, eles ficam ainda mais agressivos. Aécio, na entrevista, tira a máscara de bom-moço e parte para o ataque direto contra a presidenta Dilma.
“Ela é responsável pela formação de seu governo, pela incapacidade de tomar iniciativas, pela falência da infra-estrutura no Brasil, pela má qualidade da saúde. Esse é um governo reativo, sem a dimensão necessária para produzir um futuro diferente para o Brasil – e que passou o ano reagindo às crises que surgiram. O malfeito só é malfeito quando vira escândalo”, afirma o santinho.
A parte mais cômica da entrevista
Mas a embriaguez [no sentido figurado] conduz a erros ainda mais grotescos. Aécio insiste em defender a maldita herança tucana. “Abrir mão de defender nosso legado foi o maior dos equívocos do PSDB”. Para ele, Lula só existe por causa de Itamar Franco e, principalmente, de FHC. “Essa foi a bendita herança para o governo do PT. E abdicamos de disputar isso”, afirmou, sóbrio.
Ao final da entrevista, a parte mais cômica. A Época tenta limpar a imagem do senador, flagrado no início deste ano com a carteira de habilitação vencida – a publicação da famiglia Marinho só não menciona que, segundo boletim de ocorrência da polícia carioca, ele estaria dirigindo “embriagado ou drogado”. A revista pergunta: “O senhor é favorável ao endurecimento da Lei Seca?”.
Aécio: Sou. Votei na Comissão de Constituição e Justiça pelo endurecimento da lei.
Altamiro Borges
No Blog do Miro
Leia Mais ►

Prêmio Cara de Pau da semana

O vencedor da semana
Para justificar os 60 dias de férias, além de um calendário próprio de feriados, o desembargador Fernando Tourinho Neto, que ocupa uma das vagas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e é vice-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), alegou "cansaço mental" para rebater a proposta da Corregedora Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, de reduzir de 60 para 30 dias as férias dos magistrados.
"É inacreditável que uma juíza de carreira brilhante (...) tenha tais ideias, sabendo, de ciência própria, que o cansaço mental do magistrado, sua preocupação diuturna para bem decidir, a falta de recursos materiais para bem desempenhar sua função, exijam um descanso maior, anualmente, para eliminar o cansaço cerebral", protestou Tourinho Neto. Para ele, a ministra pode, ao defender propostas como essa, tentar "agradar o povão" ou "agradar a imprensa, falada e escrita".

É bom lembrar ao desembargador que:
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
Caput do artigo 5º da Constituição Federal (CF) brasileira de 1988, que trata dos Direitos e Garantias Fundamentais.
Leia Mais ►

O impeachment do prefeito Kassab

Para descobrir quem são os doadores da campanha de um candidato, não é preciso ser um grande conhecedor de política. Basta olhar quais empresas “vencem” as “licitações” e enriquecem em seu mandato. No caso de Gilberto Kassab, essa empresa foi a Controlar. Depois de ter despejado uma dinheirama na campanha do atual prefeito, a empresa foi generosamente recompensada com o contrato milionário de inspeção veicular e saciou apetites de políticos da base aliada (como Eduardo Jorge, do PV, secretário de meio ambiente) e de vários empresários envolvidos.
Para beneficiar amigos, vale qualquer negócio, até mesmo ressuscitar um contrato caduco de 1996, ceder irregularmente terrenos da prefeitura para a empresa se instalar e ainda dar R$ 900 mil dos cofres da prefeitura para ela investir. Entre as mais de 30 fraudes encontradas, o prejuízo aos cofres públicos chegam a R$ 1,1 bilhão.
Filiado ao PL pelas mãos de Guilherme Afif, Gilberto Kassab foi eleito vereador em 1992 e integrou o “centrão”, núcleo do toma-lá-dá-cá na câmara. Mais tarde, em 1997, já pelo DEM (então PFL), Kassab foi secretário de planejamento do governo Celso Pitta, uma das administrações mais desastrosas que a cidade de São Paulo já viu. Até que, em 2004, se tornou vice na chapa de José Serra nas eleições municipais.
Dois anos depois, quando Serra abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado, Kassab ganhou de presente o cargo de prefeito. Nas eleições municipais de 2008, escudado por Serra, concorreu a reeleição. Mentiu descaradamente, maquiou os problemas de São Paulo, investiu pesado na rejeição da ex-prefeita Marta Suplicy e conseguiu se eleger para mais quatro anos. O resultado é uma espécie de segunda gestão Pitta.
A incompetência já era conhecida. Nenhum plano de contenção contra as enchentes, falta de investimento em transporte público, semáforos constantemente quebrados, aumento da tarifa de ônibus. De certa forma, dadas as baixíssimas expectativas, era até esperado. Mas foi agora, no ano de 2011, que Kassab definitivamente perdeu a vergonha e mostrou quem realmente é. Primeiro largou a cidade para trás para cuidar da fundação de seu novo partido, o PSD, filho legítimo da falta de caráter com o fisiologismo (teve fraude até em assinaturas nas filiações). Depois fez novos amigos lá na CBF e no Corinthians, participando ativamente dos conchavos para financiar o Itaquerão. E, para consumar a tragédia, adulterou o valor do próprio salário e depois aumentou-o sem nenhum pudor.
Kassab nunca me enganou quanto a falta de escrúpulos, mas conseguiu me enganar quanto ao estilo. Achei que ele seria o próximo Maluf da política paulistana. Errado: Kassab está muito mais para Sarney do que para Maluf. É o tipo de político profissional que entra para a política pela porta dos fundos, que puxa os sacos e tapetes certos e chega ao poder por elevação.É o tipo de político que conhece a sordidez do sistema e opera muito bem pelos bastidores, seja para atingir adversários, seja para costurar acordos.
Dessa vez, o ministério público entregou provas concretas, que dão base jurídica para um pedido de impeachment. O bom senso nos diz que a única alternativa digna ao prefeito seria pedir para sair. Mas nada disso vai acontecer. Mestre da cooptação, Kassab, a essa altura, já deve estar se reunindo com o MP para costurar um acordo que seja vantajoso para ambas as partes. Se tudo der certo para ele, suas contas serão aprovadas por alguma manobra jurídica.
E como tudo sempre pode piorar, em 2014 ele ainda poderá concorrer ao governo do estado, contando com a amnésia e com o analfabetismo político do povo.Governantes escarnecendo cidadãos faz parte de nosso cotidiano, mas fazia tempo que o paulistano não era chamado de otário tantas vezes seguidas. Será que dessa vez ele vai reagir? Gostaria muito de acreditar nisso, mas o nosso histórico de obediência, apatia, egoísmo e conivência mostra que os fatos apontam para a direção contrária…
Leia Mais ►

Folha: blogosfera deu “olé” na grande mídia

Em seu “Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos, falando sobre a censura no Estado Novo, diz que o sumiço da literatura não se devia apenas à censura.
“Liberdade completa, ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”
E conclui: “Não caluniemos o nosso pequenino facismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício”
Penso que o comportamento da mídia, neste caso da Chevron, lembra muito esta situação. A postura servil e idólatra da imprensa, que atribui perfeição divina às grandes empresas internacionais e crê que as estatais brasileiras são apenas um amontoado de arranjos políticos não está apenas entre seus donos, mas espalhou-se por muitos de seus profissionais, sobretudo entre os ditos “investigativos” que, neste caso da Chevron, ficaram inertes e passivos diante do acidente.
Aliás, diga-se, continuam passivos, pois não se vê sequer uma tentativa de aprofundar a apuração do que aconteceu e uma aceitação preguiçosa dos “desvios” que se tenta fazer sobre a possíveis – e, certamente, existentes - falhas nos sistemas de reação aos acidentes na exploração marítima, em lugar de verificar porque o poço vazou.
Esse é assunto para o próximo post. Mas fica que descobrir e reconhecer o erro, em qualquer atividade, é uma atitude essencial de honestidade a que profissional algum pode se furtar.
Da mesma forma, não pode, independente das divergências políticas, deixar de reconhecer a autocrítica quando ela é feita sem subterfúgios ou falsas razões.
Por isso, depois deste enfadonho preâmbulo a que submeti você, leitor/leitora, transcrevo o artigo da ombusman da Folha, Suzana Singer, de onde retirei o título do post. Como ele está restrito aos assinantes do jornal, optei por reproduzi-lo aqui, mesmo correndo o risco de cair na máxima do D. Quixote, que, com propriedade, diz que louvor em boca própria é vitupério.
Quando se reconhece o erro – e quando, sobretudo, corrige-se a atitude incorreta – isso deve ser registrado. Nós, que criticamos o comportamento da grande mídia, não devemos, como é frequente que ela o faça, caluniá-la. Se o fizermos, como escreveu Graciliano, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito.
Ombudsman
A grande imprensa foi passiva e demorou a perceber a gravidade do vazamento da Chevron
Suzana Singer
O óleo subiu… e a gente não viu
Na cobertura do acidente ecológico na bacia de Campos (RJ), a mídia tradicional tomou um olé da blogosfera. A chamada “grande imprensa” demorou a entender a gravidade do que estava acontecendo, reproduziu passivamente a versão oficial e não fez apuração própria.
O vazamento ocorreu na segunda-feira, dia 7 de novembro, quando a pressão do óleo provocou uma ruptura do revestimento do poço. O líquido começou a subir pela coluna de perfuração e vazou também pelas fissuras do solo marinho.
A mancha de óleo foi vista no dia seguinte por petroleiros. Acionada, a norte-americana Chevron informou as autoridades, na quarta-feira, de que o vazamento acontecia em uma de suas plataformas.
No dia seguinte, agências de notícias divulgavam o incidente, com a porta-voz da Chevron falando em “fenômeno natural” e calculando um escape pequeno de óleo.
Só “O Globo” deu destaque ao assunto, mas em um texto tão editorializado que perdia o foco do acidente. O que acontecia no campo do Frade era só mais uma prova da “necessidade de Estados produtores de petróleo terem uma fatia maior dos royalties”. A Folha limitou-se a dar uma pequena nota.
Veio o fim de semana, quando a inércia toma conta das Redações. “Mercado” publicou no sábado, dia 12, uma capa sobre a queda do lucro da Petrobras e, no domingo, um imenso infográfico mostrando como funcionam as sondas de perfuração, sem fazer ligação com a Chevron. Sobre o acidente, só uma nota registrava que o vazamento aumentara.
Enquanto isso, uma luz amarela tinha acendido na blogosfera. O assunto circulava nas redes sociais. No dia 10, o geólogo norte-americano John Amos, 48, da SkyTruth, uma ONG ambientalista que trabalha com fotos aéreas, divulgou em seu site, no Twitter e no Facebook, as primeiras imagens da mancha.
O jornalista Fernando Brito, do blog “Tijolaço.com”, já dizia que a “história estava mal contadíssima”, porque “não é provável que falhas geológicas capazes de provocar um derramamento no mar deixem de ser percebidas nos estudos sísmicos que precedem a perfuração”.
No dia 15, a SkyTruth volta à ação e publica mais duas fotos mostrando que a mancha tinha crescido. “É dez vezes maior do que a estimativa da Chevron”, aposta Amos.
Instigados pelos blogs, leitores começam a cobrar: “A senhora acredita que a cobertura está correta?”, “E se fosse a Petrobras?”.
Só com a entrada da Polícia Federal no caso, a Folha e seus concorrentes começaram a se mexer de fato. O conselho jornalístico “follow the money” virou no Brasil, por preguiça, “follow the police”.
No dia 17, com o inquérito policial aberto, o assunto finalmente foi capa de “Mercado” e ganhou um tom cético -pela primeira vez se aponta possível negligência da empresa. De lá para cá, toda a imprensa subiu o tom e, numa tentativa de compensar o cochilo inicial, vem cobrando duramente a Chevron, que admitiu “erros de cálculo”.
Não é mesmo fácil saber o que acontece em alto-mar, mas, um ano e meio depois da grande tragédia ambiental do golfo do México, é indesculpável engolir releases divulgados por petrolíferas.
Além de recorrer a ONGs e especialistas, os repórteres poderiam ter procurado os petroleiros. O sindicato tinha divulgado uma nota no dia 10. “Os jornais brasileiros foram decepcionantes”, diz C.W., funcionário da Petrobras que sentiu o cheiro do vapor de óleo cru, mesmo estando a cerca de 15 km do local.
Para evitar que seu nome aparecesse, ele pediu à namorada que avisasse a mídia. Ela escreveu para a Folha e para o “Estado” no dia 11:
“Boa noite, Ainda está vazando óleo na bacia de Campos, o vazamento já percorreu quilômetros. É necessário averiguar, pois noticiaram o ocorrido, mas não deram a devida atenção.”
O caso Chevron mostra que faltam jornalistas especializados em cobrir petróleo, o que é grave num país que tem uma estatal do tamanho da Petrobras e que pretende ser uma potência da área com a exploração do pré-sal.
John Amos, da SkyTruth em West Virginia, deixa um alerta: “Se todos esquecerem rapidamente o acidente, porque o vazamento não foi tão grande quanto o do México, aí sim será uma tragédia. Essa é uma oportunidade de questionar a gestão da exploração em águas profundas, em territórios arriscados. Porque haverá um novo acidente. E vocês devem estar preparados para isso”.
Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

O Globo mentiu: Chevron vaza o dobro da Petrobras

O ódio de O Globo à Petrobras é um péssimo conselheiro para seus profissionais.
Porque, na ânsia de cumprir a pauta que recebem, acabam fazendo um mau jornalismo.
Ora, além do fato de aceitar passivamente o número fornecido pela Chevron, quando todos sabem que a empresa fez (e faz) o que pôde para “dourar a pílula” deste derrame, ignorou um fato essencial.
É que a Chevron, no Brasil, tem apenas uma dezena de poços e produz 79 mil barris diários. E a Petrobras produz 2.600 mil barris/dia, tem milhares de poços, doze refinarias, milhares de quilômetros de oleodutos, dezenas de terminais de embarque e desembarque de petróleo e derivados, em terra e no mar, e uma frota enorme de navios petroleiros.
É, portanto, uma comparação estapafúrdia. Igual a dizer, apenas como exemplo, que uma empresa enorme como a Volkswagen teve o dobro de acidentes de trabalho, porque duas pessoas se machucaram lá no ano passado, do que a Oficina do Zezinho, onde ele trabalha com um ajudante, porque o dito Zezinho se feriu ali em 2010.
Se o jornal quisesse ser honesto, faria o que este modesto blog, com o Google apenas, fez.
Leria no mesmo relatório de sustentabilidade de onde tirou os dados, está escrito que estava sendo mantida sendo mantida a tendência de níveis de vazamento na Petrobras ” inferiores a um metro cúbico por milhão de barris de petróleo produzidos, um referencial de excelência na indústria mundial de óleo e gás”.
E se perguntaria: isso é referência de excelência? Então, quanto será o de outras grandes petroleiras, como a Chevron?
E acharia o último número tornado disponível pela empresa, o de 2007. Para uma produção então de 2.620 mil barris/dia (praticamente igual à da Petrobras) , os vazamentos de petróleo, segundo os números oficiais da própria Chevron, somaram 9.245 barris, muito mais que o dobro da petroleira brasileira. Estatisticamente, o volume dos acidentes com a Petrobras, em 2010, é 55% menor que o da gigante americana.
Mas a cegueira provocada pelo ódio leva àquela comparação desonesta. Desonesta, com a Petrobras e, sobretudo, desonesta com o leitor.
E é desonesta porque é sabido que, se tem deficiências, os sistemas de segurança da Petrobras são reconhecidos como excelentes por todos, como registrou, esta semana, até mesmo Miriam Leitão, totalmente insuspeita de simpatias pela empresa:
“A Petrobras trabalha com políticas de redundância na operação, tem equipes para situações de emergência. É preciso saber se esse protocolo está sendo usado por outras empresas que operam no Brasil.”
Ou será que nem O Globo leva a sério o que diz a Miriam Leitão?
Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

O denuncismo hipócrita

O ministro Lupi segura ainda, com fervor, a sua pasta, para a contrariedade de quem já o queria fora do governo, obediente às denúncias da mídia nativa. Ocorre que a presidenta não se mostrou obediente na mesma medida, a bem da sua autoridade e do seu governo, e dos cidadãos em geral.
CartaCapital não acredita que o ministro Lupi mereça especiais resguardos, tampouco o jornalismo pátrio especial respeito. Antes de ser refém do denuncismo, Dilma Rousseff mostra saber o que lhe convém, e que é ela quem manda. Os objetivos midiáticos, se de um lado parecem evidentes, de outro causam efeitos aparentemente opostos aos desejados.
José Eduardo Cardozo. E que faz ele aqui?
Foto: Antonio Cruz/ABR
Caso a intenção tenha sido realmente criar problemas para a eleita contra a vontade da mídia, verifica-se que a culatra é obrigada a um novo, constante desgaste. A cada lance da faxina, a popularidade da presidenta cresce. Pretende-se que embatume? Pois fermenta. Dilma, de resto, prepara uma reforma ministerial para o começo do ano próximo e com toda probabilidade o atual ministro do Trabalho figurará entre os substituídos.
Nebulosa é a forma pela qual se constituiu o ministério no período intermediário entre a eleição e a posse. Falou-se de interferências de Lula na escolha de vários titulares, bem como da designação de outros ao sabor de pressões partidárias de sorte a garantir a chamada governabilidade. Que las hay, las hay, é tradição da nossa política, ditada por injunções inescapáveis.
Há nomes que, CartaCapital arrisca-se a crer, não se discutem. Uns já exibiram larga competência na gestão Lula, como, por exemplo, Celso Amorim e Guido Mantega. Outros, firmaram-se sob o comando de Dilma, Mercadante, Tombini, Helena Chagas, exemplos também. Há ainda ministros que não passam de figurantes obscuros, embora lotados em pastas exponenciais. Digamos, o Ministério da Justiça.
Em mais de um episódio, o comportamento de José Eduardo Cardozo me causou perplexidade, ou mesmo sentimentos mais incômodos. Cito um episódio apenas. Foi ele quando deputado federal quem, em companhia do colega Sigmaringa Seixas, comboiou o então ministro Márcio Thomaz Bastos para um jantar com o banqueiro Daniel Dantas na residência brasiliense do então senador Heráclito Fortes. Chamo a atenção dos leitores para o fato de que à época, primeiro mandato de Lula, a mídia denuncista deixou passar o evento em branca nuvem. Ergueu-se somente a voz de CartaCapital.
Basta, para mim, ouvir o nome do orelhudo para padecer de súbitos arrepios. É do conhecimento até do mundo mineral que, condenado em diversas instâncias por tribunais internacionais, Dantas goza de regalias no Brasil. Mesuras. Proteção. Esteve atrás das grandes mazelas, das privatizações de FHC aos ditos “mensalões”. Versátil, financiou tucanos e petistas. Incólume, grampeou meio mundo. Satisfeito agora, em plenitude abrangente, imagino, com o enterro da Satiagraha.
O destino dos ministros de Dilma Rousseff preocupa sobremaneira a mídia nativa, nem um pouco a incomodam os feitos de DD. Como dizem os nossos perdigueiros da informação, Dantas é “todo-poderoso”, destes que moram em “mansões”, talvez no gênero o número 1, porque, “afinal”, é “o dono do pedaço”. E daí? Ele tem recursos e esperteza para comprar a todos, em quaisquer áreas.
Nunca esquecerei que o escritório de advocacia de Márcio Thomaz Bastos, quando ele era ministro, me processou em ação penal movida por Dantas, a acusar o abaixo assinado por ter registrado apenas umas tantas verdades factuais. Nunca esquecerei o jantar na casa de Heráclito, e, anos depois, o encontro no Planalto entre Lula e Tarso Genro de um lado, doutro Nelson Jobim e Gilmar Mendes, que prometera chamar às falas o próprio presidente da República. Selaram em santa paz o desterro do honrado Paulo Lacerda, réu por ter oferecido efetivo da Abin às operações da Satiagraha.
Por mais falho que tenha sido o trabalho do delegado Protógenes, as ações criminosas do orelhudo continuam à vista. E como esquecer o que Paulo Lacerda contou a mim diante de testemunhas a respeito de pressões exercidas a favor de Dantas por deputados e senadores e até por um ministro? Os herdeiros da casa-grande unem-se na hora do risco, um cuida dos interesses do outro, nunca daqueles do País. A societas sceleris, hipócrita e feroz, sempre se repete e se renova.
Este gênero de permissividade, de leniência, de envolvimento, se quiserem de hipocrisia ecumênica machuca em mim o jornalista, o indivíduo, o cidadão.
Mino Carta
No CartaCapital
Leia Mais ►

Radical estadunidense

As Provações de Norman Finkelstein

Assista e divulgue este documentário
A luta do professor e ativista pelos direitos humanos Norman Finkelstein contra a exploração da memória do sofrimento das vítimas do holocausto em benefício de grupos mafiosos; assim como seu empenho na defesa dos direitos humanos do povo palestino que vem sendo dominado e massacrado pela ocupação militar do estado de Israel.
Leia Mais ►

Defesa contra gás lacrimogênio

Este guia foi feito em solidariedade com o movimento occupy wall street e não é diretamente afiliado
O método abaixo é usado por muitas pessoas, incluindo fotógrafos na Grécia durante protestos
As dicas a seguir devem ser usadas apenas para defesa pessoal e em eventos onde a polícia/oficiais do governo usarem gás lacrimogênio em protestos pacíficos. Nunca incite a violência.
Itens de que você precisa
Máscaras para pintura/contra poeira - (Encontrada em lojas de materiais de construção)
Proteção para os olhos - (Também nestas lojas)
Borrifador de água - (Cuidado para não usar garrafas com produtos de limpeza)
Antiácido líquido - (Qualquer um, como Maalox ou Mylanta)
Ajude você mesm@ e os outros
- Depois de usar o método do antiácido líquido e água em você mesm@, use o borrifador em pessoas que venham até você pedindo ajuda. Borrife no rosto e na boca;
- Se você estiver usando proteção para os olhos ou a máscara, tenha atitude e chute a lata de gás pra longe da multidão. Se você chutar no esgoto ou mergulhar na água, você reduzirá os efeitos;
- Aja pacificamente. Protestos pacíficos são a única forma de ser levad@ a sério e de ser verdadeiramente ouvid@.
Conheça seu inimigo
Gás lacrimogênio é uma arma química não letal que estimula os nervos da córnea e faz lacrimejar, causa dor e até cegueira. O gás atua na irritação das membranas e muco dos olhos, nariz, boca e pulmões, e causa o lacrimejar, espirros, tosse, dificuldade para respirar, dor nos olhos, cegueira temporária etc.
Remédio para gás lacrimogênio (Antiácido Líquido e Água - ALA)
Esteja preparad@ para se expor. O gás lacrimogênio é composto por partículas, não é realmente um gás, assim as máscaras de pintura/contra poeira ajudam.
"Os gregos estão qualificados para escolher o equipamento de proteção correto. Maalox é o máximo"
1) Encontre um bom borrifador e limpe-o bem;
2) Encha metade da garrafa com antiácido líquido (Maalox);
3) Encha a outra metade com água;
4) Quando se expor, borrife nos olhos e boca e engula.
Também é eficaz como recurso para "spray" de pimenta
Um estudo baseado na Universidade da Califórnia verificou que a aplicação de antiácidos para dor induzida por capsaicina é eficaz, particularmente no tratamento logo após a exposição da capsaicina refinada.
Fique espert@. Fique unid@. Fique informad@. Proteja suas/seus compas. Não acredite na mídia.
Leia Mais ►