21 de nov de 2011

Egito: derrubar Presidente é fácil, difícil é derrubar o sistema

Outro dia vi um vídeo/documentário, em que manifestantes que haviam participado dos protestos no Egito se lamentavam pelos direcionamentos que a “revolução” egípcia tomou. “Eles roubaram a revolução de nós” diziam.
O Egito é um dos principais países do Oriente Médio, para não dizer o principal. Por conta disso, é visado por potências ocidentais, leia-se Estados Unidos. Porque é de interesse norte-americano que o sistema político egípcio esteja de acordo com o seu. Com isso, sustenta-se uma “paz” fantasiosa com Israel e um equilíbrio mentiroso de ideais com outros países do Oriente Médio.
Não bastasse o total despropósito do presidente deposto Hosni Mubarak em governar o Egito durante 30 anos, e ainda almejar lançar seu filho corrupto à sucessão, está agora, Conselho Militar fazendo as vezes da casa.
Sabe aquela frase: “o sistema é bruto!” É bruto mesmo. Até o poder militar egípcio, que antes era visto como uma alternativa para o processo de transição no Egito pós-revolução, está saindo pior, bem pior que o encomendado.
Com o que parecia “fim” da revolução falou-se em eleição para formação de um novo parlamento, de um sucessor à presidência e que esse processo levaria em torno de seis meses. Já passamos de nove. O complicado processo eleitoral para o parlamento tem data prevista para iniciar no próximo dia 28 de novembro. A eleição para Presidente, que ainda não tem data definida, poderá ocorrer até o final de 2012.
Você pode achar estranha a afirmação de que a revolução foi roubada dos egípcios. De fato. Até porque, eles derrubaram Hosni Mubarak. Quem então rouba uma revolução? E como?
O Conselho Militar tem seguido os mesmos caminhos de Hosni Mubarak. No Egito, absolutamente nada mudou. Tudo não passa de fantasia, de mentira. É como se Hosni Mubarak ainda estivesse no poder. Até quando?
É certo dizer que o mundo vê o Egito hoje como o país que derrubou seu presidente. Mas é certo dizer também que os egípcios não conseguiram derrubar o sistema. O Conselho Militar propôs recentemente garantias de legitimidade constitucional aos militares. Há quem diga que os soldadinhos querem perpetuar no poder. Por isso, cabe aqui a frase grafada em um faixa de um manifestante na praça Tahrir: “Egito, nosso país não é um quartel”.
Não é só uma questão interna. O problema, dentre tantos outros que o Egito possui, é externo. Não é de hoje que o Estado norte-americano tenta impor sua vontade sobre o Egito. Penso, inclusive, que a ideia de lançar o Conselho Militar egípcio ao comando do país não passou de um plano criado por Estados Unidos. Uma bela alternativa para o problema da revolução. O comandante-chefe das forças armadas, Hussein Tantaoui, e atual Presidente do Conselho Supremo Militar, foi, além de protegido de Mubarak, ministro da defesa de 1991 a 2011.
O povo egípcio acreditou que ao assumir o poder, o Conselho Militar lhes atenderiam as reivindicações feitas. De todas as reivindicações, tem-se apenas a renúncia de Mubarak. Nem o fim do estado de emergência, tão reivindicado, foi conseguido. No início suspenderam, depois com uma justificativa esfarrapada de manter a segurança e a ordem, retomaram.
Apesar de tudo, o “sistema” egípcio ainda não entendeu que o povo mudou. Eles podem até se segurarem no poder, mas não por muito tempo. A praça tahrir está ocupada novamente. Embora a iniciativa de voltar às ruas e aos protestos tenha partido dos grupos islâmicos descontentes com as novas regras para a candidatura eleitoral, outros grupos aderiram ao chamado. As reivindicações são praticamente as mesmas de antes, fim do sistema, do estado de emergência, mas principalmente que o Conselho Militar passe o poder para os civis.
E como tudo está como antes [ou quem sabe pior] a resposta do governo não foi diferente. A polícia egípcia, agora com apoio dos militares, abriu fogo contra os manifestantes. Desde sexta-feira passada inúmeros confrontos têm sido visto por todo o Egito. Tudo me lembrou os protestos de janeiro e fevereiro, com direito a cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, tiros, espancamentos, inclusive com pessoas sendo puxadas pelos cabelos. Até agora 24 pessoas morreram e centenas estão feridas.
Mortos e feridos nos confrontos de sábado.
No Oriente-se
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Dossiê "Cannabusiness": Hempcon Califórnia faz "show da maconha"

O HempCon se apresenta como o “show da maconha medicinal” e acontece em várias cidades da Califórnia (EUA). O último ocorreu em San Jose, a segunda maior cidade do Estado (menor apenas que Los Angeles). San Jose está a menos de uma hora de carro de San Francisco, ao sul da Bay Area, região também conhecida como Vale do Silício, berço da nova economia mundial.
Fui até lá com uma amiga, a também jornalista Christianne González, que está morando naquela cidade e me ajudou na produção desta reportagem. O centro de convenções onde acontecia o Hempcon ficava ao lado de um grande hotel. Tudo normal. Mas a entrada do público não me permitia entrar com câmera, como se cada telefone celular não contivesse uma câmera. Procuramos então uma entrada lateral e nos apresentamos profissionalmente.
Deixamos a câmera maior ali e voltamos à bilheteria mostrar os ingressos devidamente pagos, que era o que mais importava para eles. Quando fomos recuperar a câmera maior, encontramos o mestre de cerimônia Crayz Alexander, 52, que cumpre essa função desde que o HempCon começou, dois anos atrás. Ele também é dono de um estúdio de tatuagem chamado Old School Tatto Parlor. Crayz conta que é filho de motociclista e usa maconha há 40 anos, desde que foi diagnosticado com DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção).
O ingressou do HempCon custou US$ 20 (por dia) e o evento durou três dias, de 11 a 13 de novembro. Antes que me perguntem se o ingresso dava direito a experimentar a droga a resposta é não. Mas na verdade é sim, porque é possível achar estande oferecendo amostra grátis ou oferecendo teste de equipamento que transforma maconha em vapor. Esses testes são feitos do lado de fora do salão de convenções, num estacionamento aberto, já que dentro é proibido.
O evento está organizado em três partes: um congresso repleto de palestras; uma feira de produtos relacionados ou não ao cânhamo e à maconha; e uma feira de maconha apresentada nas mais diversas formas, desde mudas da planta até carne seca contendo os princípios ativos da erva.
No congresso, por três dias profissionais e especialistas mostraram ao público as novidades sobre como plantar, tratar, usar e clonar maconha. Entre os temas estavam a maconha hidropônica, como iniciar uma plantação ao ar livre, as diferenças entre plantações orgânicas e químicas, a clonagem, como preparar e tratar o solo, os insetos que podem atacar a plantação, a plantação sustentável e debates entre expoentes da “indústria” da maconha para discutir a situação dessa erva na Califórnia hoje.
Não notei no público grande interesse pelas palestras, já que as cadeiras estavam em grande maioria vazias, ao menos no primeiro dia.
O público estava mesmo interessado nos produtos. Não, a maconha não é liberada nos Estados Unidos. Mas a Califórnia, assim como diversos outros Estados do país, tem uma legislação que permite seu uso medicinal. E é assim que esse tipo de evento pode acontecer. Há especifidades nos limites legais definidas por cada município. A Justiça federal não aprova nada disso e está em ofensiva contra a maconha.
A primeira parte da feira, aberta também a não pacientes, tinha estandes com inúmeras variedades de cachimbos, piteiras e narguilés, de todos os materiais imagináveis, além de mil modelos de moedores para a erva.
Tinha também luzes especiais para criar a planta em ambientes internos; estande de rede social especializada em farmácias, serviços de entrega em casa, médicos e lugares para fumar maconha (www.SensiHunt.com); bancas de camisetas, bonés, cartazes; e banca de velas e cosméticos feitos com semente de cânhamo (a planta da maconha).
Tinha ainda objetos de decoração, peças de campanha pró-liberação da maconha e outros estandes sem nenhuma relação direta com a droga. Por exemplo: estandes políticos. Num deles, o professor aposentado Paul Gilbert, às vésperas de completar seus 80 anos, colhia muito seriamente assinaturas para uma campanha pelo fim da pena de morte nos EUA. Noutro estande se arrecadava dinheiro para uma organização especializada em tirar legalmente os “bad boys” da cadeia.
Maconha vaporizada
Mas a última moda, para evitar os males do fumo, parece ser consumir a maconha vaporizada. Funciona assim: o sujeito põe a erva num equipamento que aquece o produto a uma temperatura controlada, sem queimá-lo. Então basta inalar.
Quem explica é a executiva de negócios Amber Hobbs, 23, que trabalha para a rede Got Vape (www.gotvape.com), responsável pela distribuição de uma vasta gama de equipamentos do gênero.
Há desde vaporizadores portáteis, desses que cabem no bolso, até equipamentos maiores, alguns poucos que lembram hospital. Não vi nenhum no HempCon que custasse menos que US$ 90. O mais caro que encontrei custava pouco menos de US$ 800, um modelo digital da linha Volcano, em promoção.
Outro efeito benéfico dos vaporizadores, explica a vendedora, é que os usuários podem evitar que o ambiente em que usam a droga fique todo empesteado com a fumaça e o cheiro da maconha.
Mudas de maconha
Mas a parte mais excitante para o público da feira era a parte dos pacientes, ou seja, a parte em que só se pode entrar apresentando o documento legal que algum médico emitiu informando que a pessoa recebeu prescrição para usar maconha para fins medicinais. Entre os males para os quais a maconha é prescrita estão câncer, Aids, glaucoma, falta de apetite, dor nas costas, espasmos musculares, insônia e estresse.
E quem não tinha o documento mas queria entrar na parte dos pacientes? Bom, aí era só entrar numa fila pequena, ali mesmo dentro do centro de convenções. Alguns minutos de paciência, algum documento de identidade e mais US$ 80 bastavam para emitirem o documento na hora.
Eu já tinha tirado o documento médico para entrar nas farmácias e fazer esta série de reportagens (diagnóstico: insônia e estresse!), então entrei na parte fechada da feira. Minha amiga ficou fora. Lá dentro encontrei mudas de maconha por US$ 5. Achei a planta tão bonitinha vendida em torrão que quase comprei. Mas como não tenho documento de identidade emitido na Califórnia, não poderia.
Havia também à venda plantas um pouco mais crescidas, de várias espécies, entre elas Cat Piss e Jelly Bean. Nunca havia ouvido falar de nada disso no Brasil. Tudo bem, alguns leitores vão me chamar de “careta”, não me importo! Segundo o vendedor, em dois meses aquelas mudas estariam produzindo maconha da melhor qualidade.
Dou a volta no estande e encontro um rapaz, Zack Nugent, 28 anos, vendendo pirulitos e doces da empresa Green House Candy, da qual é sócio. O slogan da empresa é: “A maneira mais doce de se medicar”. Ele não se importou nem um pouco em ser fotografado e contou que esse trabalho não só paga as contas como provê uma excelente maneira de se medicar.
No fundo da feira encontrei ainda uma barraca de “jerk”, um tipo de carne seca muito popular nos EUA. A empresa Chronic Jerky (www.ChronicJerky.com) produz e industrializa essa carne seca com maconha, de modo a que as pessoas possam consumi-la em qualquer ocasião, inclusive na firma, sem chamar a atenção de ninguém.
Minha conclusão é que o jovem de Oakland, Jesus Hernandez, tem toda razão em ver a maconha como um grande negócio. O HempCon não se parece em nada com um congresso acadêmico. É uma feira como outra qualquer, destinada ao público em geral. Ainda que não tenha números para provar, aposto que a maioria das pessoas ali faz apenas uso recreativo da droga, como em qualquer lugar, como no Brasil, como em tantos outros países do mundo.
A única diferença é que em muitas cidades da Califórnia é atualmente possível ser maconheiro (ou maconhista, como diz um colega do UOL) sem ficar na mão de traficante. Basta plantar no quintal ou comprar na lojinha.
Marion Strecker
No UOL
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Londres corta vínculos financeiros com bancos iranianos

George Osborne
O Reino Unido anunciou novas sanções contra o Irã em represália por seu programa nuclear, que implicam na suspensão dos vínculos financeiros das entidades britânicas com os bancos iranianos a partir desta segunda-feira.
Em uma medida sem precedentes, Londres decidiu que todas as instituições financeiras do Reino Unido devem paralisar suas transações e relações comerciais com as entidades iranianas a partir das 13h (horário de Brasília) desta segunda-feira, incluindo o Banco Central do Irã.
O ministro das Finanças britânico, George Osborne, considerou que os bancos iranianos desempenham "um papel crucial" no desenvolvimento do programa nuclear do Irã, cuja finalidade é construir armas atômicas.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) expressou na sexta-feira sua "profunda e crescente preocupação" com os indícios de que o Irã trabalha para desenvolver bombas atômicas, enquanto o país garante que seu programa nuclear tem finalidade civil.
Em Londres, Osborne explicou que a decisão do Executivo britânico permitirá aumentar "a segurança do mundo e também a segurança nacional", devido à "significativa ameaça" que o Irã representa na atualidade.
"O anúncio desta segunda-feira é uma medida a mais para evitar que o regime iraniano consiga armas nucleares", apontou o ministro.
A decisão de Londres, que deve ser seguida por outras similares tomadas por Estados Unidos e Canadá, é uma resposta à crescente preocupação das potências ocidentais de que o Irã possa estar trabalhando para desenvolver bombas atômicas.
No entanto esta é a primeira vez que o governo britânico suspendeu seus vínculos com todo o setor bancário de um país com base nos poderes outorgados pela Lei Antiterrorista de 2008.
Segundo o Tesouro britânico, a decisão desta segunda-feira impedirá ainda que as instituições financeiras britânicas sejam utilizadas, sem saber, para "transações relacionadas com a proliferação" nuclear.
De acordo com o ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, o último relatório da AIEA ofereceu provas "críveis e detalhadas sobre as possíveis dimensões militares do programa nuclear iraniano".
Hague afirmou que o Reino Unido deixou claro ao Irã que a pressão continuará até que o país decida abandonar seu programa nuclear e que a decisão desta segunda-feira é "uma clara prova de determinação para intensificar a pressão".
No EFE
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O lado mais triste da crise

“Estou ficando desesperadamente envergonhado fazendo isso por nada. Alguém poderia, por favor, colocar uma moeda por consideração? 20 centavos em duas horas é humilhante.”
Covent Garden, Centro de Londres, 16/11/2011
No Somos Andando
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“Yes, he cares”. Sim, ele se importa... Com as empreiteiras

Parece irritado o governador Geraldo Alckmin com a decisão da juíza Simone Casoretti, que na sexta suspendeu contratos da linha 5 do metrô paulistano e afastou o presidente da empresa. O tucano classificou a ordem judicial de "absoluta irresponsabilidade" e prometeu dela recorrer ainda hoje.
Ricardo Feltrin, da Folha, soube em abril de 2010 os resultados da licitação da linha 5, que só seriam divulgados oficialmente seis meses depois. Documentou-os em vídeo e cartório e esperou. Em outubro, quando o governo abriu os envelopes, batata: lote por lote, estavam lá as empresas vencedoras conforme antecipado.
A concorrência, aberta na gestão José Serra, foi finalizada quando seu vice, Alberto Goldman, completava o mandato. Ficou para Alckmin, empossado em janeiro, a decisão de validar ou anular a licitação.
Começou um jogo bruto de construtoras a fim de intimidar o governo tucano e a reportagem da Folha Empreiteiras contrataram peritos para colocar em dúvida a publicação.
Incapazes de atestar qualquer trapaça, formularam argumentações laterais, como a de que existem meios técnicos de fraudar uma gravação em vídeo como aquela, de modo a simular que havia sido feita no passado.
Lançaram questionamentos genéricos e imprecisos para lembrar ao governo que, anulada a licitação, partiriam para cima na Justiça, cobrando indenizações fabulosas. A pressão deu certo, e Alckmin validou a concorrência. Evitou contencioso com empreiteiras, mas expôs-se a uma duríssima refrega, que apenas se inicia, com o Ministério Público.
Haveria, portanto, risco à sequência das obras fosse qual fosse a decisão do governador. A questão era definir a causa e o adversário.
Opção A: anular uma licitação sobre a qual pesa indício veemente de conluio e enfrentar as empreiteiras. Opção B: validar tudo e desafiar o interesse público. Alckmin escolheu seu lado.
Vinicius Mota
No Amigos do Presidente Lula
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Das coisas que só acontecem em Lichtenstein

Não chequei, mas a história vale nem que seja só como anedota.
Contou uma colega de Lichtenstein que, alguns anos atrás, o país enfrentava um problema. Para fazer sentido a existência de um setor no governo para tratar de desemprego, era preciso ter desempregados. O departamento tinha dois funcionários, em um país de pleno emprego, no que foi preciso manter um cidadão desempregado para justificar o emprego dos outros dois. Não fosse assim, Lichtenstein ganharia dois desempregados – os funcionários do setor – e ninguém para atendê-los.
Hoje o país piorou muito. Já conta com uns dez desempregados.
Da série de um só capítulo “Das coisas que só acontecem em Lichtenstein”.
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A conta com a electricidade em Portugal

Vejam o esbulho da EDP sobre os consumidores!
Vocês por acaso sabem o que pagam na factura da electricidade?
Em dia de boicote à EDP, pus-me a analisar uma factura de cerca de 66,50 €. E constatei que:
- 3,8 €, correspondentes a 6% do IVA (vamos passar a pagar 23%);
- 4,5 €, correspondente a 7% de Taxa para a RDP e RTP (para que alguns dos conceituados entertainers que por lá pululam possam receber 17.000 e mais €/mês);
- 35,6 €, para subsídios vários, que correspondem a 53% do total da factura (3% são a harmonização tarifaria para os Açores e Madeira, 10% para rendas aos Municípios, 30% para compensação aos operadores, 50% para o investimento nas energias renováveis, 7% de outros custos (para ERSES e afins) incluídos na tarifa);
- 22,6 € correspondente ao EFECTIVO consumo efectuado, ou seja 34% do total.
Isto é um autêntico esbulho!!
Dá ou não vontade de fazer uma greve geral à EDP?
José Carlos Ferraz Alves
No Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega
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Quem comprava cocaína do Nem? Quem o Nem comprava?

O nome dos compradores dele está no notebook
O Domingo Espetacular exibiu neste domingo, na Rede Record, reportagem do produtor Ricardo Andreoni e deste ansioso blogueiro sobre as perguntas que a romaria de jornalistas da Globo à Rocinha não chegou a fazer:
- Quem comprava cocaína do Nem? Quem sustentava o maior criminoso do Rio?
- O Nem disse que metade de sua renda era para comprar policiais. Quem o Nem comprava?
Sobre a primeira pergunta, a resposta é facil.
O notebook do Edu, o traficante que fazia o delivery para o Nem, está na 14ª Delegacia do Rio, na Lagoa.
É só abrir o disco rígido.
Moleza.
Quem o Nem comprava?
O ansioso blogueiro tem uma sugestão: perguntar ao delegado e aos dois investigadores da delegacia de Maricá, que fica a 60 km do Rio, e queriam levar o Nem, porque tinham negociado a rendição dele.
Talvez esses três notáveis agentes da Lei saibam quem o Nem comprava.
Quem comprava do Nem? - todo mundo na Rocinha sabe quem é.
Artistas, empresários, jogadores de futebol.
O Ricardo Andreoni não subiu de mototaxi, mas passou uma noite na Rocinha, a tomar cerveja com uns vizinhos do Nem.
Não conseguiu ninguém que falasse para a câmera.
Mas, soube que três jogadores da seleção do Ricardo Teixeira e do Brasileirinho da Globo passavam por lá.
Um deles, cauteloso, só subia depois de seu segurança assegurar que estava “tudo limpo”.
Esse segurança do super-craque impunha tanto respeito no morro que os traficantes tratam ele de “cocô mole”.
E sobre os artistas?
Quem comprava cocaína do Nem?
Mole.
Este ansioso blogueiro entrevistou um simpático morador da Rocinha que coleciona autógrafos de artistas.
É só dar uma olhada na coleção dele.
Ou ficar ali, na moita.
Não precisa nem subir o morro.
Outro morador disse ao ansioso blogueiro que os que sustentavam o negócio do Nem compravam ali embaixo, mesmo, na saída do túnel.
Nem subiam.
E, claro, já tem outro no lugar do Nem.
E os que compravam do Nem comprarão do sucessor do Nem.
Business as usual.
A Globo, segundo o Mauricio Dias, na Carta Capital, quer fazer do Beltrame um novo Gabeira.
A Globo quer usar o Beltrame para emparedar o PT e a Dilma no Rio.
Isso talvez explique a nova paixão da Globo: o Beltrame.
Longe vai o tempo em que a elite do Rio chamava o Beltrame de “carniceiro” e marchava de branco na praia do Leblon para avisar que era da Paz.
A reportagem do ansioso blogueiro disse assim: a retomada da Rocinha foi uma vitória e pode ser uma derrota.
Este ansioso blogueiro desconfia que a gente vai saber quem comprava cocaína do Nem e que policiais o Nem comprava quando o "Cerra" se eleger Presidente.
Em tempo: liga o Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, a poucas milhas de distância da mancha da Chevron do "Cerra":
- Sabe de outro caderninho que sumiu?
- Não, Vasco, que caderninho que sumiu?
- O daquele velhinho que distribuía cocaína e que afundou no buraco do metrô do "Cerra"…
- Que buraco, o do presidente do metrô do "Cerra", Vasco?
- Não, meu filho. Naquela cratera ali ao lado do prédio da Abril. Lembra?
- Sim! Lembro do buraco do metrô do"Cerra".
- Pois é, o caderninho sumiu.
- É verdade. E se jogarem o notebook do Edu no buraco do metrô do "Cerra"?, pergunto.
Pano rápído.
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
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Rocinha: uma favela conveniente à classe média

 Entrevista especial com José Cláudio Alves 


“O Rio de Janeiro permite tiro de fuzil em favela, mas não permite mais tiros de fuzil nas ruas da Zona Sul”, declara José Cláudio Alves à IHU On-Line, referindo-se à ocupação da Rocinha nos últimos dias. Para ele, a ocupação anunciada aconteceu porque a “Rocinha é uma das favelas de grande expressão no cenário do Rio de Janeiro, porque está na fronteira entre a área da Zona Sul e a área que vai para a Zona Oeste, para a Barra da Tijuca, para São Conrado. Atrás da Rocinha também tem a Gávea, então, a favela fica localizada numa das áreas mais ricas da cidade. Portanto, jamais seria feita uma ocupação usando a mesma lógica que se utilizou no Alemão”.
Na avaliação do sociólogo, a Rocinha é diferente das demais favelas do Rio de Janeiro porque é formada por uma população nordestina que tem presença muito forte em toda a área da Zona Sul. “A Rocinha expressa o interesse racial da classe dominante daquela região, que tem preferência por ter, dentro de seus prédios, pessoas brancas”, aponta.
Para o sociólogo, a prisão do traficante Nem é estratégica, mas ele continuará controlando o tráfico de dentro do presídio. “Ele vai ser penalizado e sabe disso, mas, por outro lado, ele também sabe que a sua liderança será preservada até porque, para que a estrutura que está montada na Rocinha se mantenha, é preciso realizar um acordo com ele. A intenção da polícia agora é ocultar o tráfico de droga, de armas sob um manto de uma pacificação da polícia”, avalia.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone para a IHU On-Line, Alves questiona a estrutura policial, fala dos desafios das UPPs e dos acordos estabelecidos entre os traficantes e os policiais. E questiona: “O que mudou nesse país desde 1960? Uma juíza foi assassinada recentemente e um deputado estadual tem que sair do país para poder sobreviver”. E responde: “Hoje nós temos uma estrutura democrática, legítima, eleita, fazendo algo muito mais grave, muito mais intrincado e percolado do que a ditadura foi capaz de fazer”.
José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor na mesma área pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como o senhor analisa a anunciada ocupação da Rocinha e a forma como a favela foi ocupada? A ocupação foi anunciada pelo fato de a Rocinha estar localizada entre bairros de classe média?
José Claudio Alves – Naquela época, quando houve a invasão do Complexo Alemão, a polícia já havia anunciado a possibilidade de ocupar a Rocinha. Naquele momento eu disse que a ocupação não aconteceria da mesma forma que aconteceu no Alemão, ou seja, como uma construção político-midiática, com o uso de armamento de guerra, com tanques passando por cima de carros, com o Exército entrando nas ruas, etc.
A Rocinha é uma das favelas de grande expressão no cenário do Rio de Janeiro, porque está na fronteira entre a área da Zona Sul e a área que vai para a Zona Oeste, para a Barra da Tijuca, para São Conrado. Atrás da Rocinha também tem a Gávea, então, a favela fica localizada numa das áreas mais ricas da cidade. Portanto, jamais seria feita uma ocupação usando a mesma lógica utilizada no Alemão. Não é possível fazer o mesmo tipo de ocupação porque a classe média não permite. Além disso, o Estado e os grupos políticos não possuem interesse em promover tal tipo de ação, porque isso assustaria os moradores da Zona Sul. Lembre-se que o Rio de Janeiro permite tiro de fuzil em favela, mas não permite mais tiros de fuzil nas ruas da Zona Sul.
Segurança pública diferenciada
A questão da segurança pública tem tratamento diferenciado para cada segmento social, e a Rocinha expõe demais a Zona Sul para que se possa fazer a mesma coisa que se fez no Alemão. Por isso a ocupação da favela foi anunciada e não houve confrontos, tiroteios. A ocupação está sendo negociada há muito tempo. Há um acordo progressivo de reestruturação do crime naquela comunidade para viabilizar os interesses do tráfico, que vai continuar. A favela permite o acesso às drogas por parte da classe média da Zona Sul, de São Conrado, da Barra. Artistas e músicos consomem drogas dentro da Rocinha, e a favela é uma das áreas mais seguras para consumo de drogas no Rio de Janeiro, porque ninguém importuna a Rocinha. Há muitos anos se estabeleceu o turismo dentro da favela e lá também existem mais de 200 ONGs que têm um histórico de relação com a Zona Sul, com a sociedade, com a classe média, com a classe artística.
Apesar de a favela ter sido ocupada, isto não significa que a comunidade mais pobre da Rocinha não vá sofrer as mesmas consequências que a comunidade do Alemão sofreu. Depois da ocupação da favela, foram encontradas inúmeras armas que haviam sido enterradas pelos traficantes. É claro que a polícia sabia onde estava esse material, porque isso faz parte do acordo entre a polícia e os traficantes. O problema é que as armas, como aconteceu no Alemão, podem vir a ser comercializadas.
IHU On-Line – Pode nos contar a história da Rocinha, que é considerada por muitos pesquisadores a maior favela da América Latina? Como a favela surgiu e se modificou ao longo dos anos? E o que diferencia a Rocinha das demais favelas?
José Claudio Alves – A Rocinha é uma favela muito específica. Ela não tem, como na maioria das comunidades do Rio de Janeiro, muitos habitantes negros. Há uma maciça presença de nordestinos brancos, principalmente cearenses. Essa população nordestina tem uma presença muito forte em toda a área da Zona Sul, porque eles trabalham para a classe média. A Rocinha expressa o interesse racial da classe dominante daquela região, que tem preferência por ter, dentro de seus prédios, pessoas brancas. Isso está expresso na composição étnica da comunidade da Rocinha. Os moradores da favela trabalham como garçons, atuam na construção civil, prestam serviços de jardinagem, etc. Há uma relação direta dessa população com a mão-de-obra local. No Alemão, a maioria da população é negra e trabalha na periferia, nos lugares em que a classe média não vê problema nenhum em deixar o negro e o pobre trabalhando.
Dentro da Rocinha se constituiu um grande comércio em termos de restaurantes, lojas, prestação de serviços. A população da Zona Sul tem acesso também a tais espaços. Ao longo do tempo, a Rocinha também foi se constituindo uma área de interesse de várias ONGs para implantar seus projetos. Atuam na comunidade ONGs sérias, que tem de fato uma relação com a população, mas inúmeras delas estão vinculadas a outros interesses políticos e econômicos. A família Andrea Gouvêa tem sua base dentro da Rocinha por causa de interesses políticos. Existe um livro chamado Sorria, você está na Rocinha, do Julio Ludemir, que retrata essa situação. Ele morou na Rocinha e teve que sair da favela porque, se não saísse, seria morto pelas ONGs. No livro ele retrata todo este universo de interesses de grupos não governamentais.
No início dos anos 2000 aconteceu um confronto aberto entre policiais e traficantes dentro da Rocinha e a mídia toda do Rio de Janeiro veiculou isso. A Rocinha foi mencionada na mídia internacional. O confronto se estendeu para a autoestrada da Lagoa/Barra, onde circula a classe média com poder aquisitivo elevado. Depois disso, não houve mais confrontos porque a população rica da região não pode se sentir ameaçada. Afinal de contas, matar pobre favelado no Alemão não tem problema nenhum. Agora, atingir o interesse privado, a individualidade blindada que está circulando livremente, é inaceitável.
Depois desse acontecimento, retomou-se o debate sobre a remoção de favelas, e eu fui para a Rocinha conhecer a história daquela comunidade. É uma história surreal. Dois grupos estavam em confronto. De um lado, estava o Comando Vermelho, que anteriormente dominava a comunidade e, de outro, os Amigos dos Amigos, que hoje controla o crime organizado na região. Na época, o traficante líder na Rocinha havia saído da prisão e, na ocasião, o Bope entrou na comunidade obrigando os traficantes que estavam lá a entrarem em confronto com a polícia. Toda a atenção dos traficantes se voltou para o confronto com esta operação militar. Enquanto isso, por trás da favela, pela estrada da Gávea, entrava na Rocinha um comboio do traficante que havia sido libertado. Esse comboio passou por inúmeros carros do aparato policial e ocupou a favela pelo outro lado. A partir disso, percebe-se que essa foi uma operação casada para garantir a reestruturação do tráfico dentro da favela, de acordo com os interesses do aparato policial que esteve vinculado a isso.
Os moradores contam essa história e dizem que, na favela, ocorrem inúmeras negociações e “jogadas” que envolvem muito dinheiro, e afirmam que há uma relação direta da comunidade com a Zona Sul e a Zona Oeste rica da cidade. Essa situação precisa ser compreendida para entender o que está acontecendo na Rocinha neste momento. Essa facção, que em função de um acordo entrou na Rocinha no início dos anos 2000 para controlar a favela, permanece fazendo acordos e negociando a sua continuidade na comunidade, sem ferir os interesses dos vários grupos envolvidos, sobretudo, os interesses do próprio aparato policial que está ali comprometido.
IHU On-Line – Quem é o traficante Nem? O que a prisão dele significa e como o senhor avalia a exibição do traficante como troféu por parte da polícia?
José Claudio Alves – Há alguns meses Nem estava retornando do Vidigal com um comboio de traficantes – ele ia com frequência para o Vidigal participar de festas –, quando aconteceu um confronto entre policiais militares e traficantes. Os traficantes se alojaram dentro de um Hotel próximo à Barra da Tijuca, e a classe média ficou em pânico. A mídia veiculou a notícia de que um número grande de traficantes participou da operação, mas um jornalista do jornal O Globo investigou o caso e descobriu que a operação dos policiais não tinha sido autorizada pelos superiores. A partir dessa situação, percebemos que os policiais foram ao encontro do Nem para obter mais dinheiro. Há uma prática muito comum no Rio de Janeiro em que policiais sequestram traficantes e depois pedem resgate por eles. A meu ver, era essa a operação que iria ocorrer ali. Esse fato já revela que havia um acordo entre a polícia e os traficantes.
O Nem tem peso no Rio de Janeiro porque ele está em uma favela estratégica, que consome muita droga e gera bastante dinheiro. Ele nunca vai expor toda a estrutura do tráfico, porque isso faz parte do jogo. Ele vai ser penalizado e sabe disso, mas, por outro lado, ele também sabe que a sua liderança será preservada até porque, para que a estrutura que está montada na Rocinha se mantenha, é preciso realizar um acordo com ele. A intenção da polícia agora é ocultar o tráfico de drogas, de armas sob um manto de uma pacificação da polícia. A polícia tem interesse em preservá-lo, em expor somente o necessário para que todos o vejam como o grande criminoso. Ele é o cara que vai, de dentro da estrutura penitenciária do estado do Rio de Janeiro, comandar o tráfico na Rocinha para que acordos construídos anteriormente sejam mantidos.
O Nem é mais um refém dessa estrutura, assim como os policiais envolvidos em interesses de banqueiros, empresários, artistas que querem ter acesso às drogas. Os policiais e os traficantes são meros vigilantes dos interesses desse imenso comércio do tráfico de drogas. A manutenção desse sistema gera dividendos para os interessados. O Nem e esse aparato policial que faz essa operação ficcional geram um simbolismo que convence a população e faz com que a sociedade acredite que, de fato, a Rocinha será algo melhor e diferente. Não é isso que vai acontecer. A Rocinha viverá agora uma nova fase, a qual não irá alterar a situação de pobreza, sofrimento e de dependência do tráfico.
IHU On-Line – Como acontece esse acordo entre traficantes e a polícia para a ocupação da Rocinha? E que acordos acontecerão daqui para frente?
José Claudio Alves – Ninguém faz ata desses acordos. Eles são verbais e aqueles que estão na ponta do sistema fazem com que eles vigorem. As lideranças das comunidades é que têm peso nessas negociações, além de representantes de políticos. Não sei dizer quem são as pessoas que atualmente estão negociando. Por enquanto não é possível saber essas informações. Só será possível ir à Rocinha mais tarde, quando a “poeira baixar”.
Quem está dando as ordens na Rocinha agora é o aparato policial. É claro que inicialmente a comunidade fica aliviada, porque sabe que não irão acontecer confrontos nos próximos meses, mas isso não resolve a situação.
IHU On-Line – Quais serão os desafios das UPPs na Rocinha e no Vidigal?
José Claudio Alves – O primeiro desafio é superar a questão da policização, entender que essa polícia não é o principal agente identificado nessas comunidades. Precisaria se estabelecer um diálogo com a comunidade, assim como compreender a história dessas favelas. Seria fundamental dar voz para as lideranças da comunidade para que elas possam ser atores de sua própria transformação, da sua própria realidade política. Tinha que alterar essa dependência que a comunidade tem com o tráfico de drogas e de tudo que está associado ao tráfico.
Para mudar essa realidade, é preciso implementar várias políticas articuladas entre si, especialmente na área da educação. As famílias precisam receber acompanhamento psicológico e social. Seria fundamental gerar renda nessas comunidades para não fazê-las depender do dinheiro do tráfico. Além de oferecer acesso a transporte, seria necessário urbanizar as favelas para que elas não sejam um ambiente degradado.
Na Rocinha e no Alemão existem áreas ambientais extremamente degradadas e não há nenhum projeto de recuperação ambiental para essas áreas. A transformação de tais comunidades demandaria um investimento muito alto por parte do Estado. Entretanto, o Estado quer ganhar dinheiro, não investir. Os governos têm interesse nos megaeventos que vão ocorrer no Rio de Janeiro e, portanto, não deixaram de investir no Porto Maravilha, que é uma área estratégica que envolve todo o setor financeiro e imobiliário do Rio de Janeiro, para investir recursos na Rocinha.
As UPPs são insignificantes porque ocupam apenas 70 das mil comunidades existentes no Rio de Janeiro. As UPPs entram em áreas estratégicas para o Estado. A zona oeste é distante de tudo, e é o local mais degrado do Rio de Janeiro. Campo Grande, Santa Cruz, Bangu, Realengo, Padre Miguel são as áreas mais violentas, juntamente com o subúrbio. Para investir em segurança, é fundamental repensar a cidade.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a recente saída de Marcelo Freixo do Brasil por causa de ameaças de morte?
José Claudio Alves – Marcelo levou à condenação vários envolvidos com o crime e com as milícias. Ele tem poder para interferir, assim como a juíza Patrícia Acioli tinha. A mídia disse que Patrícia Acioli tinha a mão pesada, mas não é nada disso. Ela apenas cumpria sua função como juíza: condenava e julgava as pessoas de acordo com os seus crimes. O que o Marcelo está fazendo é dever de todo deputado estadual do Rio de Janeiro. A saída dele do país foi determinante para ele sobreviver. É deplorável que uma sociedade como a do Rio de Janeiro tenha que assistir a isso.
A rede é tão complexa e tão grande, que quem mexe numa ponta dessa rede poderá ser atingido e morto por outro grupo. Quando entrevistei a promotora pública Tânia Maria de Sales Moreira, que já faleceu, ela estava investigando o caso das mães de Acari, que estavam tentando descobrir o paradeiro dos corpos de onze filhos que desapareceram de uma festa. Ela descobriu que um dos envolvidos no assassinato dos jovens tinha envolvimento com roubo de carga, e que um grupo de extermínio chamado Cavalos Corredores também estava envolvido nos assaltos. Ora, esse grupo cometeu a chacina de Vigário Geral alguns anos depois, em 1993. Tânia me disse que, se eles tivessem avançado na investigação das mães de Acari, Vigário Geral não teria acontecido, porque os Cavalos Corredores teriam sido desarticulados. No Rio de Janeiro há uma rede complexa do crime. Marcelo puxou uma ponta dessa rede, assim como a Patrícia Acioli puxou outra. Só que ao mexer em alguma ponta desta teia, mexe-se com a rede inteira, e a exposição de quem faz isso é imensa. As pessoas não sabem por quem serão atingidas.
Ele agiu corretamente ao sair do país por alguns dias. Marcelo Freixo hoje é uma das pessoas que mais luta pelos direitos humanos no Brasil, mas, infelizmente não podemos contar com a estrutura do poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. É mais fácil para o Marcelo fazer denúncias internacionais, porque elas geram uma repercussão dentro do país e levam a população e as autoridades a fazerem modificações.
O que mudou nesse país desde 1960? Uma juíza foi assassinada recentemente e um deputado estadual tem que sair do país para poder sobreviver. Hoje nós temos uma estrutura democrática, legítima, eleita, fazendo algo muito mais grave, muito mais intrincado e percolado do que a ditadura foi capaz de fazer. Ao longo desses 40 e poucos anos transformamos uma estrutura ilegal e criminosa numa estrutura legal, criminosa, com um interferente muito mais profundo. Conseguimos derrubar a ditadura e agora, como derrubar uma estrutura como essa, instalada no Rio de Janeiro?
Assim como o Nem é chave para o acordo da permanência do tráfico na Rocinha, o Marcelo é uma peça-chave para outro grupo dentro dessa cidade. O acordo do Nem é muito mais poderoso e muito mais articulado do que o acordo que rege a permanência do Freixo no Brasil. Os dois representam espaços e projetos da cidade, espaços sociais, concepções políticas, concepções econômicas distintas dentro dessa realidade. Como a situação será organizada daqui para a frente é, ao meu ver, o nosso grande dilema.
(Por Patricia Fachin, Stéfanie Telles e Rafaela Kley)
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Dilma vive situação melhor que Lula e pior que FHC

Para cientista político da FGV, maioria da presidenta é mais confortável que a de seu antecessor. Mas heterogeneidade dos partidos que a apoiam dificulta definição da pauta e a faz enfrentar instabilidade maior que Fernando Henrique. Professor analisou pesquisa encomendada pelo Congresso em Foco
Com maioria mais ampla, Dilma vive situação 
mais confortável que a de Lula. Mas heterogeneidade
da sua base a torna mais instável do que
era a de Fernando Henrique
Roberto Stuckert Filho/Planalto
Melhor que o petista Lula, pior que o tucano Fernando Henrique Cardoso. Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) Márcio Grijó Vilarouca, assim pode ser resumida a situação da presidenta Dilma Rousseff (PT) em relação à sua base governista. Na avaliação do cientista político, o grande número de partidos com perfis distintos que integram o bloco de sustentação da presidenta no Congresso garante a ela, por um lado, folgada maioria. Mas, por outro, dificulta a definição de uma pauta pelo Executivo.
“Comparativamente, a situação da Dilma é melhor que a coalizão do governo Lula, que não tinha maioria no Senado. Mas é pior que a do Fernando Henrique, que tinha uma coalizão mais enxuta, de centro-direita. Com Dilma, são dez partidos heterogêneos, com um elevado número de atores para a coalizão. Não é simples levar adiante uma agenda de governo. É um problema satisfazer a diversidade de partidos de espectros ideológicos diferentes”, observa.
Em seus dois governos, Fernando Henrique Cardoso teve o apoio do PSDB, do PFL (atual DEM), do PTB, do PPB (atual PP) e de parte do PMDB, partidos que lhe garantiram maioria nas duas Casas legislativas. Com um leque maior de legendas em torno de si, Lula manteve-se com folga na Câmara, mas enfrentou ferrenha oposição no Senado ao longo de seus oito anos de governo. Um problema que não existe para Dilma, com sua ampla maioria entre deputados e senadores.
Márcio Vilarouca analisou os dados levantados pelo Instituto Análise, em pesquisa encomendada para a Revista Congresso em Foco, publicada por este site. Na visão dele, as respostas dadas pelos 150 parlamentares entrevistados revelam um Congresso bastante fragmentado e ciente de seu pouco poder decisório.
A reboque
De um lado, uma oposição fragilizada e sem discurso; de outro, uma ampla e heterogênea base governista, que busca conciliar as divergências entre partidos que vão da esquerda à direita. De acordo com o professor, emerge da pesquisa um Congresso que admite ir a reboque do Executivo em função de sua pouca capacidade de definir a própria agenda.
O cientista político entende que Dilma tem condições de fazer uma agenda política. Mas não com a pauta pretendida pelo PT. “O nosso sistema tem uma alta fragmentação partidária e implica um perfil mais moderado, uma agenda que avança mais devagar e de maneira mais consensual. Como Dilma tem maior número de atores envolvidos, ela terá de buscar sempre o meio termo”, acrescenta.
O cientista político avalia que o índice de deputados e senadores que aprovam a forma com que o governo tem atendido às demandas dos parlamentares é “razoável”, sobretudo, por causa da heterogeneidade e do tamanho da base aliada.
“Pouco mais de um terço diz que o governo tenta lidar com as demandas da base. Outros 13% dizem que o governo não tem conseguido, mas tenta. Quase metade entende que Dilma tenta lidar com divergências na base. Só 19%disseram que o governo não tem atendido. É um nível razoável de aprovação, porque faz parte do jogo você mostrar descontentamento para conseguir um naco maior.”
Conflito interno
Com uma oposição enxuta, destaca o cientista político, é natural que o governo enfrente mais conflitos em sua própria base do que na oposição. Para ele, o número de ministérios nas mãos do PT hoje é desproporcional ao tamanho da bancada e abre caminho para a insatisfação dos aliados.
“No gabinete inicial, eram 17 ministros do PT e seis do PMDB. O PSB tinha dois, o PP, o PDT e o PCdoB tinham um cada. Isso gera conflito dentro da base. Nos governos europeus parlamentaristas, a participação dos partidos nos gabinetes depende do número de votos que cada legenda recebeu. É um problema satisfazer a diversidade de partidos de espectros ideológicos diferentes”, considera.
Se o governo tem dificuldade em estabelecer uma agenda positiva, por causa da diversidade de sua base, a oposição esbarra no dilema de construir um discurso que resista ao sucesso da economia, a despeito da crise que se avizinha. Ou seja, de fazer sustentar uma agenda negativa.
Oposição perdida
“Qual a agenda da oposição hoje? Não tem. O fato de o país estar em um bom momento econômico dificulta uma agenda mais negativa. A oposição tem dificuldade de estabelecer uma agenda para se diferenciar do governo. Como a economia está indo bem, fica difícil estabelecer essa contra-agenda. Às vezes, os temas são distantes da população. Os temas apropriados pelo PT na oposição tinham mais apelo do que a reforma tributária, por exemplo.”
Márcio Vilarouca acredita que esse cenário econômico favorável explique por que a presidenta Dilma aparece hoje como favorita para as próximas eleições presidenciais, na avaliação dos parlamentares. “Se a economia está indo bem, a probabilidade de reeleição é muito alta. Se daqui a três anos a economia estiver bem, é muito provável que Dilma se reeleja”, afirma.
O cientista político diz ter ficado surpreso com o fato de o ex-candidato tucano José Serra não ter sido lembrado uma vez sequer pelos parlamentares, nem mesmo por seus colegas de partido. Para ele, isso mostra que, embora não possa ser dado como carta fora do baralho, Serra ainda está pagando pelos erros cometidos na eleição passada, quando foi acusado por aliados de centralizar as decisões de sua campanha e de não saber negociar apoio nos estados.
Nome mais cotado pela oposição para a sucessão presidencial, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) encarna uma imagem diferente, segundo o professor. E talvez por isso, acrescenta, seja o mais lembrado. “O nome dele aparece com 21%da preferência na oposição, enquanto o nome do Serra simplesmente não aparece. Serra tem uma imagem de muito confronto com o PT e com Lula. O Aécio, como bom mineiro, faz uma plataforma mais moderada. Isso ajuda a organizar uma imagem nova para a oposição. É difícil fazer oposição só com agenda negativa quando você tem crescimento econômico.”
Carta na manga
Para Márcio, é natural Dilma aparecer à frente de Lula na pesquisa feita entre os parlamentares sobre quem estará no comando do país em janeiro de 2015. Isso só vai mudar, acredita, se a crise econômica internacional desembarcar de vez no país. “Se o cenário econômico se mantiver, ela tem boas condições de se reeleger. Se ficar mal, o PT tem outra carta na manga, que é o Lula. É uma questão estratégica. Não há porque usar agora a carta que pode ser usada mais adiante.”
O professor observa que, apesar de apontarem para a reeleição de Dilma, os parlamentares ainda preferem Lula. O ex-presidente recebeu de deputados e senadores a maior nota entre sete instituições e personalidades. “Lula soube negociar mais com o Congresso do que Dilma. Ela não tinha uma socialização política, coisa que nele sobrava. Dilma tem um perfil mais técnico.”
Os parlamentares deram nota, de zero a dez, a quatro instituições e três personalidades. Destas, a mais bem avaliada foi Lula, com média de 7,25. Na pesquisa, realizada antes da revelação de que ele tem câncer de laringe, o ex-presidente se saiu bem inclusive na análise da oposição. Somente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a imprensa receberam notas melhores dos deputados e senadores oposicionistas.
Edson Sardinha
No Congresso em Foco
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O Brasil, os Brics, e a nova arma hipersônica norte-americana

O fato de os Estados Unidos, mesmo em crise econômica e política - com milhares de pessoas ocupando as ruas para protestar contra o sistema - terem anunciado o sucesso, há três dias, do vôo de teste, entre o Havaí e as Ilhas Marshall, de uma nova bomba voadora, de velocidade supersônica, capaz de atingir qualquer ponto do globo em menos de uma hora, tem que servir de alerta para o Brasil e para os BRICS.
Enquanto investimos bilhões na compra de equipamento e tecnologia militar obsoleta, como os submarinos Scorpéne e, eventualmente, o Rafale, desenvolvidos há mais de 30 anos, os Estados Unidos não cessam de pesquisar novas armas de destruição em massa, e sistemas de armamento naval como o canhão magnético de munição cinética, anunciado no ano passado, que não depende de combustível para atingir alvos a uma distância de 300 quilômetros.
Isso, apesar de Washington ter um déficit de 7 trilhões de dólares, boa parte dele derivado dos 35 bilhões de dólares que gasta, por semana, para manter seus soldados no Iraque e no Afeganistão, países dos quais já prepara a retirada de suas tropas convencionais - com o rabo entre as pernas - a partir do ano que vem.
A insistência de os Estados Unidos em continuarem se armando, mesmo em uma situação de crise econômica e institucional crescente, aponta para a cristalização de uma perigosa equação, que, do ponto de vista do resto do mundo – excetuando-se a Europa, cada vez mais submissa aos interesses norte-americanos - equivale a um mendigo louco com uma arma na mão na praça de alimentação de um Shopping, ou, à velha metáfora, mais usada antigamente, de um macaco solto em uma loja de louças.
Como a história mostrou nos anos do equilíbrio do terror da Guerra Fria, quando os EUA não ousariam invadir países como o Iraque e o Afeganistão, sem a aquiescência tática da URSS, de nada adianta construir uma nova ordem multipolar, se o poder no mundo continuar obedecendo a uma situação unipolar do ponto de vista militar.
O BRICS tem se erguido, nos últimos anos, na economia e na diplomacia, justamente para fazer frente à Europa e aos Estados Unidos, porque o mundo não pode continuar refém, como tem acontecido, das decisões que são tomadas em uma Europa e em uma América do Norte cada vez mais frágeis, no âmbito político-institucional, e cada vez mais decadentes, do ponto de vista econômico.
Nada disso funcionará, no entanto, se a projeção do crescente poder do BRICS não se fizer, também, na área militar. Não dá para se pensar em uma estratégia de defesa viável, no futuro, se não juntarmos nossos recursos financeiros e tecnológicos, nosso conhecimento e nossos pesquisadores militares aos da Rússia, da China, da Índia e da África do Sul para o desenvolvimento de uma nova geração de armamentos que vá, como está ocorrendo com os Estados Unidos, um pouco além do armamento convencional hoje existente.
Não se pode confiar nem cooperar com os países ocidentais nessa área. Eles só nos vêem como “parceiros” da hora dos coquetéis de seus adidos militares, ou no quando tem interesse de nos vender material obsoleto para utilizar o lucro no desenvolvimento de novas gerações de armamentos. Quando chega o momento de a onça beber água, eles se aliam entre si, e nos vêem como sempre nos viram, como um bando de subdesenvolvidos. Que o diga a Argentina, que até hoje não esqueceu as lições que aprendeu quando precisou de armamento para reposição na Guerra das Malvinas.
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A democracia e a economia

Em nosso tempo, nada rivaliza com a economia, em termos de poder. Menos de dois séculos atrás, Karl Marx chocava o mundo ao dizer que a política (estou simplificando) seguia a economia. Faz cinquenta anos, a direita usava argumentos religiosos, espirituais, morais para enfrentar o "materialismo ateu", que reduzia a riqueza do ser humano, criado à imagem de Deus, à vulgaridade econômica. Mas como bem disse, embora grosseiramente, James Carville, o marqueteiro de Bill Clinton que foi decisivo para elegê-lo presidente dos Estados Unidos: "O que conta é a economia, seu estúpido".
Esse fato tem vários desdobramentos. O primeiro fortalece a democracia. Acabou, quase por completo, pelo menos nos países em que há comunicação de massas, a ideia de que os pobres acatariam sua condição porque Deus assim o quis. Uma notável peça de Pedro Calderón de la Barca, "O grande teatro do mundo", sustentava, na década de 1630, que cada um deveria contentar-se com sua condição social, do miserável até o monarca, e cumprir o seu papel (daí, a referência ao teatro) adequadamente. Hoje, nem pensar. Em nossa sociedade, todos querem viver melhor. Mesmo quem está no topo da escala social e poderia nada almejar a mais, continua desejando subir. Quanto aos mais pobres, nenhum argumento religioso os convencerá de que devem suportar sua situação, digamos, cristãmente. Um arcebispo de Diamantina, líder da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, disse certa vez que precisa haver pobres, e mesmo muito pobres - porque, se não houver, como os ricos conseguirão ir para o céu, não podendo exercer a virtude da caridade? Admirável essa preocupação de salvar os ricos no Além, ainda que às custas dos pobres aqui e agora. Mas acabou. Ninguém mais diria essa tolice, hoje.
Vencer a pobreza só é possível com a economia
Portanto, os pobres querem, dos governos, que os ajudem a melhorar de vida e a deixar a pobreza. A classe média quer subir na vida e os ricos, pouco numerosos mas com bala na agulha, também. Isso faz que, em países como o nosso, a grande maioria de pobres tenha bem claro o que deseja da democracia: que ela seja social, isto é, que não fique só na política, mas mexa também na estratificação da sociedade, tornando-a mais justa. Esse fator, fortemente democrático, está ligado ao primado da economia em nossos tempos.
Mas há outro lado, que é pouco democrático. Porque quem entende da economia? Bem poucos. O sufrágio universal se impôs. Os eleitores têm cada vez mais consciência do que desejam e querem. Mas o instrumento para realizar essa prosperidade crescente, ou pelo menos para acabar com a miséria, reduzir a pobreza e baixar a desigualdade, é arcano - isto é, de difícil compreensão. Em outras palavras: está numa ciência (ainda que não exata), cujo domínio exige especialização e conhecimento profundo. Daí que as eleições tenham alcance limitado. Isso porque, entre o dia da eleição, que é quando se manifesta a democracia, isto é, a soberania popular, e os quatro anos de gestão dos negócios públicos, onde a economia prevalece, há uma distância - e mesmo um abismo.
Tudo isso, tanto o aspecto democrático que consiste num povo que não aceita mais a pobreza como natural ou santa, quanto o lado pouco democrático de uma gestão das coisas cuja compreensão escapa à esmagadora maioria, traz consequências para as democracias. Primeira e óbvia: nunca se promete uma recessão, um empobrecimento. O que se oferece é o contrário. Vejam a Califórnia, tema de reportagem de novembro na "Vanity Fair", acessível na Internet: o Estado quebrou, vários municípios ricos quebraram, sobretudo porque uma emenda constitucional de perfil conservador exige dois terços do Legislativo para aumentar qualquer imposto. Kaputt. É um caso extremo, mas que mostra que políticos, quando concorrem a uma eleição, têm de omitir o que vão fazer, ou mesmo mentir. De onde José Serra tiraria os aumentos que prometeu, no mês final antes da eleição de 2010, para o salário mínimo e a bolsa-família? Não o acuso; apenas digo que nenhum político pode agir de outro modo. Vão prometer. Então, a emancipação do povo, que consiste em ele não acatar mais a pobreza, vem junto com sua infantilização: ao povo, não se conta a verdade.
Daí, outra consequência: o primeiro ano de governo é de cortes e talvez de recessão. Já o ano da eleição tem que ser próspero, custe o que custar. Os economistas ficam de cabelos em pé ao verem isso, claro. Mas, por outro lado, suas receitas só eles entendem. Pouca gente mais. Alguém acredita que FHC entenda profundamente de economia? Ele conhece finamente a sociedade, seus processos e sua política. Emprestou sua competência para viabilizar o Plano Real, e com ele ganhou dois mandatos presidenciais. Mas a economia tem segredos. Por isso, quem entende dela - ou quem convence os outros que entende dela - tem acesso direto aos governantes.
E aqui vem nosso último problema. Quase todo o receituário dos economistas, salvo os keynesianos e os (poucos) marxistas, é conservador. Propõe corte de gastos públicos, redução de direitos sociais, até mini-recessões. Não há como defender isso junto ao povo, seja este grego, italiano ou brasileiro. Há alternativas? Claro que sim. A Argentina renasceu sem esse receituário. O Brasil superou 2008 sem essas receitas. A Islândia se recusou a cumpri-las. Claro que, em outros casos, o caminho será outro. Mas geralmente só se diz a receita quase única, aquela que nunca passaria numa eleição. Daí que, se a democracia exige uma economia em crescente prosperidade, a atuação dos economistas nem sempre seja muito democrática.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.
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Aldo Rebelo: 'A Fifa não é a Otan do futebol'

Em entrevista exclusiva ao LNET!, Ministro do Esporte fala do futuro da pasta, que está em suas mãos e da relação com Teixeira
Aldo Rebelo assumiu o Ministério dos Esportes em um momento conturbado
(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)
Aldo Rebelo chega ao Ministério do Esporte para apagar a má imagem gerada pelo escândalo que derrubou seu antecessor, Orlando Silva. Sua
missão é mudar os rumos do ministério, na gestão do dinheiro público, na definição de prioridades e na relação com cartolas.
Na entrevista, Rebelo mostra que a cautela e a discrição devem ser marcas de sua gestão. Defende a criação de uma política nacional de esporte, mas prevê até dois anos para ser aprovada. Evitou criticar que quer que fosse e colocou-se como um homem de governo, que deixa de lado suas opiniões pessoais.
No dia da entrevista, dia 10 de novembro, Rebelo ainda não havia feito troca nos principais cargos do ministério. Nesta semana, após nomear como auxiliares diretos pessoas com experiência na administração e de fora do PC do B, a presidente Dilma Rousseff transferiu a Autoridade Pública Olímpica, para sua pasta.
LANCE: O que já dá tirar desta primeira semana de trabalho?
Estou como um matuto atravessando o Rio. Colocando um pé de cada vez para ver onde está raso, fundo ou tem pedra. Preciso examinar os trabalhos realizados, verificar as mudanças necessárias e o que poderá seguir.
L: Como serão as mudanças?
Vou buscar pessoas com capacidade executiva, não necessariamente na sua área. Os americanos, na Segunda Guerra, quando precisaram de um general para dar conta da logística e distribuir comida a todos, chamaram um dono de supermercado e deram as quatro estrelas de general para ele cuidar disso. Na próxima semana já poderei anunciar algumas trocas.
L: Com os últimos ministros, quase todos os secretários eram militantes do PCdoB. Isso vai continuar?
Não vejo assim, mas o meu critério não é uma filiação com o PCdoB. Entrarão de acordo com a sua capacidade e experiência.
L: A presidente Dilma anunciou uma auditoria nos convênios fechados com ONGs pelo Programa Segundo Tempo? Como está caminhando esse processo?
O Segundo Tempo é um programa muito importante, que visa estender a atividade esportiva a quem não tem acesso a ela. Como o Ministério não tinha o instrumento para fornecer a atividade esportiva, como a saúde tem o hospital, atraiu uma série de ONGs. A imensa maioria é bem-intencionada. Mas um ministério não pode contar com esse tipo de ação. Em relação aos convênios existentes, onde não houve desembolso, mandei suspender. Foi algo em torno de 40. Os outros estão sob verificação.
L: Como você pretende tratar da questão da Timemania? Quanto já foi arrecadado e quanto foi abatido da dívida dos clubes?
Minha opinião não conta. Vou tratar de acordo com a exigência legal. Não há profissionalização à altura da necessidade. É preciso encontrar
uma solução que proteja o interesse público e ajude a dar uma solução para os clubes.
L: Como está a regulamentação da Lei Pelé? E como será a responsabilização de dirigentes, já que falou que falta profissionalismo?
Não me debrucei sobre ela. E, de certa forma, a lei já criou um certo tipo de responsabilidade.
L: Mas isso foi tirado agora neste último texto.
Não é um problema legal. É preciso criar uma responsabilização com propostas que apontem caminhos para proteger os clubes. Precisamos conversar com as entidades para que eles mudam a gestão.
L: O senhor é a favor da limitação de mandatos de dirigentes?
Se tem limitação para presidente da República, governadores e prefeitos, por que não para dirigentes? O esporte foi liberado de autarquias, mas sempre desconfiei disso, em uma sociedade tão desajustada. O Estado precisa atribuir a essas entidades um nível de responsabilidade, como existe até para a gestão das propriedades privadas.
L: Você já foi grande crítico de Ricardo Teixeira, depois houve uma aproximação. Como está hoje? E como será como ministro?
Aproximação...?
L: Sim. Com o Ricardo Teixeira.
Ah, é? Não sabia.
L: O senhor é apontado como muito amigo dele e já disse que ele tinha mudado muito.
Eu presidi a CPI e me encontrei com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, naquela ocasião. Depois acho que encontrei mais uma vez, numa festa do Brasileiro há alguns anos. Voltei a encontrá-lo agora no Ministério. Não tenho amizade e nem inimizade.
L: Parlamentares estão em busca de documentos que possam esclarecer o suposto pagamento de propina da ISL a Ricardo Teixeira dez anos atrás. Qual é a sua opinião, como ministro?
As atribuições da Câmara e do Senado não podem ser discutidas pelo Poder Executivo. O legislativo tem como atribuição fiscalizar. Aqui vamos procurar tratar institucionalmente essa questão.
L: Seria bom para o governo participar do COL?
Acho que o governo poderia ser criticado por isso. As circunstâncias de um evento privado levaram a isso. Não posso opinar.
L: Há alguns anos o senhor recebeu uma homenagem do Vasco das mãos de Eurico Miranda. O senhor continua amigo dele?
Recebi um título dado por unanimidade por todos os conselheiros do clube, que muito me honra, de sócio honorário do Vasco. Foi dado pelo Conselho na ocasião em que o dirigente era o Eurico. Também recebi do Flamengo.
L: Na gestão do Afonso Della Monica o senhor tentou um patrocínio para o Palmeiras, de uma mineradora chinesa...
Eu era até agora presidente do grupo parlamentar Brasil-China. Sou amigo da China e cogitei a hipótese de ajudar que alguma instituição chinesa pudesse patrocinar o Palmeiras. Fiz isso como torcedor, mas nada foi acertado.
L: Como ministro o senhor pretende se aproximar com o esporte olímpico chinês?
Acho que o Brasil tem que ter duas referências: cooperar com quem precisa da nossa ajuda, como Bolívia e Paraguai e países africanos, e pedir ajuda daqueles que são mais bem-sucedidos, como os EUA e Cuba, com modelos diferentes. A China é uma experiência recente.
L: Por que estádios do Brasil são tão caros?
Estive olhando os preços. No caso da Eurocopa de Portugal, da Copa da Alemanha, os preços foram menores do que aqui. Não sei se isso foi resultado do tempo previsto para as construções.
L: Muito se ouve dirigentes e muito pouco os atletas. Isso vai mudar?
O ministro é do Partido Comunista; o Ministério, não.O Ministério é da população e do país. Quem está aqui deve ter isso claro. Temos de levar em conta sempre as opiniões de federações, associações, tudo. Mas atletas e técnicos também devem ser considerados.
L: Quanto à aplicação das leis, o Estatuto do Torcedor era um grande avanço, mas metade dele não sai do papel...
Participei de todos os debates. De todas as contradições, creio que o esforço dessa lei foi muito bem. As conquistas não podem ser menosprezadas. Tirando os camarotes e os dirigentes, o resto dos torcedores era mal tratado.
L: O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, anunciou que 10% dos ingressos serão vendidos a US$ 25 (R$ 44), para os brasileiros. Isso resolve a meia-entrada?
Não sei se resolve. A Copa vai ocorrer num país com muita desigualdade social. Não podemos permitir uma festa tão grande sem que uma parcela comprovadamente pobre, mais do que a meia-entrada, que poderá atingir uma classe média, participe.
L: Muitos deputados e senadores falam que as exigências da Fifa são exageradas. São mesmo?
Não. Tenho de procurar cumprir, de acordo com aquilo que foi firmado. O que há são interpretações diferentes. Vou ver os compromissos fechados por Alemanha e outros países. Não podemos é achar que a Fifa é uma espécie de Otan (organização militar entre EUA e parte da Europa) que está querendo invadir o Brasil. E nem ficar com o sentimento como se fossemos uma terra francesa (sic) no nosso país. Vamos olhar e, se a Fifa tiver razão, vai permanecer.
L: Na prática...
Isso já está na Lei Geral da Copa. O que o governo brasileiro pensa e pode está ali. Na legislação anterior, que foi do incentivo fiscal, também. Agora o Congresso vai mediar e resolver.
L: Como está a montagem do Plano Nacional de Esporte?
A minha ideia é a de transformar o Plano Nacional do Esporte numa política permanente. Há a necessidade de se preparar um marco legislativo legal permanente para o país.
L: Qual é o prazo?
Não estou pensando nisso agora. Tenho de me preocupar com a ideia. Mas talvez um, dois anos.
L: Por fim, como se dá jeito no seu Palmeiras?
O Palmeiras tem um passado de glórias e um futuro promissor. Exige muita paciência e muita providência. HAHAHAHA!
Rebelo presidiu CPI da CBF/Nike
A principal contribuição de Aldo Rebelo ao esporte, antes de ser nomeado ministro, foi cerca de uma década atrás, quando presidiu a CPI da CBF/Nike, que investigou o contrato entre a entidade e a empresa.
Enfrentando um lobby montado por Ricardo Teixeira em Brasília, que cooptou até a maioria dos deputados membros da CPI, o relatório não só apontava irregularidades como propunha mudanças na legislação para garantir maior transparência na administração do esporte.
Os deputados da bancada da bola, entretanto, fizeram um relatório alternativo, exatamente oposto. Percebendo que não tinha a maioria da comissão, Rebelo encerrou os trabalhos da CPI sem votar nenhum relatório. Depois tentou publicar o seu relatório em livro, mas foi impedido pela Justiça.
Rebelo mudou postura com Ricardo Teixeira
Uma das grandes dúvidas da gestão de Aldo Rebelo à frente do Ministério do Esporte será seu relacionamento com o presidente da CBF e do comitê organizador da Copa-14, Ricardo Teixeira.
Em 2001 e 2001, durante a CPI da CBF/Nike, Rebelo criticou duramente Teixeira pela maneira como conduzia os negócios da CBF e, com o colega relator Silvio Torres, produziu um duro relatório em que denunciava Teixeira e outros cartolas por várias supostas irregularidades.
Naquela época, o país era governado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o PC do B de Rebelo estava na oposição.
Quando o PT assumiu o governo em 2003, e foi se aproximando dos cartolas, Rebelo assumiu a mesma posição. Passou a trabalhar em projetos de interesse dos clubes, como a Timemania.Aproximou- se em especial de Teixeira.
Quando questionado sobre o assunto, declarou que, depois da CPI, Teixeira havia evoluído e mudado sua atuação.
Ministro, diz que nunca houve uma aproximação entre ambos. Mas imagens falam por si. Na cerimônia de posse do ministro, Teixeira estava na primeira fila de cumprimentos e deu um abraço caloroso em Rebelo, sinal de como via a nomeação.
Marcelo Damato
Érika Romão
Paulo Motoryn
No LanceNet
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Recessão anunciada

A grande mídia no Hemisfério Norte voltou a especular “se” e quando as três maiores economias (EUA, Alemanha e China) vão entrar em recessão, apostando que a China não escapa pelo menos de uma forte desaceleração, após a crise zerar o crescimento dos Estados Unidos e em boa parte da Zona do Euro em 2012.
Militantes protestam contra medidas 
dos governos diante da crise. 
Foto: Pascal Guyot/AFP
O Brasil tem se conduzido bastante bem diante dessas situações de crise que estão abalando a sociedade mundial. No governo do presidente Lula, enfrentou os efeitos da instabilidade dos mercados financeiros e da súbita extinção das linhas de crédito, em 2007/2008, com políticas de estímulo à produção e de manutenção dos empregos. Enquanto na maioria dos países a prioridade passou a ser a salvação do sistema bancá rio, aqui a intuição do presidente mostrou que o dever sagrado dos governos era garantir às pessoas as condições de continuar trabalhando e consumindo. E tão logo superou a fase crítica tratou de renovar os incentivos aos setores privados para a retomada do crescimento, com ênfase no aumento da produção industrial e nos investimentos na infraestrutura.
Diante da nova crise que se abateu com virulência ampliada nos mercados financeiros da Zona do Euro, o governo da presidenta Dilma Rousseff foi obrigado a adotar medidas prudenciais para aumentar a solidez da política fiscal e flexibilizar a política monetária, mantendo inicialmente a expansão do crédito ao consumo e reduzindo as taxas de juro. O aumento da inflação externa, ameaçando a meta inflacionária, levou o governo a restringir temporariamente a expansão do crédito, que aos poucos está sendo retomada com bastante prudência.
O principal objetivo do governo Dilma – da mesma forma que no governo Lula – é claramente manter a economia brasileira crescendo o mais próximo possível do pleno emprego e, na medida em que as condições externas não se tornem determinantes, acelerar o ritmo do desenvolvimento. Em nenhum instante isso significou leniência diante das pressões inflacionárias, e sim uma atitude mais inteligente de combater a inflação dilatando apenas o prazo para que a taxa retorne ao centro da meta. Hoje, os agentes do mercado financeiro, antes reticentes, já trabalham com a expectativa de que o núcleo da meta seja atingido no fim de 2012.
O Brasil está superando duas das três principais dificuldades que frequentemente interrompiam o seu desenvolvimento: as crises de pagamentos externos e a escassez de energia. O terceiro problema, o da autonomia alimentar, já estava sendo resolvido neste início de século e se consolidou de forma extraordinária por um processo de expansão da fronteira agrícola e de rápido crescimento da produtividade (inclusive na pecuária), fruto dos investimentos em pesquisa de empresas privadas e públicas, notadamente da Embrapa. Os investimentos desses últimos 30 anos foram premiados com a expansão do comércio exterior (basicamente com o aumento das compras asiáticas e chinesas), que elevou os preços das commodities.
A ameaça de crises de pagamento e de falta de energia foi afastada quase que pelo mesmo fator, a confirmação das reservas petrolíferas do pré-sal. No caso da autonomia energética, é de justiça que se reconheça a participação decisiva e corajosa do presidente Lula e de sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, quando derrotaram as objeções das inúmeras organizações (supostamente não governamentais) no Brasil e no exterior, as quais conseguiam retardar o aproveitamento da hidroenergia dos rios da Amazônia.
Muitas dessas ONGs foram sustentadas financeiramente (com mão de gato) por empresas petroleiras, carboníferas e de energia nuclear, a pretexto de defender o ecossistema, graças a incentivos proporcionados por seus governos. Trata-se de entidades estrangeiras interessadas em impedir o desenvolvimento sustentado da Amazônia e a soberania brasileira sobre o enorme potencial de riquezas já identificado num território das dimensões da Europa.
Lula quebrou o tabu, ao apressar os procedimentos e autorizar o licenciamento das usinas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, e a presidenta Dilma reafirmou, em entrevista recente, o caráter estratégico do aproveitamento dos rios da Amazônia para a consolidação da infraestrutura energética brasileira. Ela defendeu a construção da usina de Belo Monte, no Rio Xingu, dizendo que é um bom projeto, uma obra importante para o País, e que por isso vai ser feito. E aconselhou seus ministros a não se impressionarem com as habituais críticas na mídia estrangeira.
Delfim Netto
No CartaCapital
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