15 de nov de 2011

Como o Brasil poderá se beneficiar da crise

É inútil a discussão sobre quanto a economia crescerá este ano ou nos próximos. É evidente que o país será afetado pela crise internacional, que sofrerá menos do que em 2008 e que há uma tática de curto prazo para amenizar os efeitos da crise.
A questão é outra.
Nas grandes crises do século 20, o Brasil foi beneficiário, permitiu-se grandes saltos de desenvolvimento.
A crise de 1929, ao estancar o financiamento externo, obrigou Vargas a impor limites ao livre fluxo de capitais. A consequência foi os grandes capitais nacionais caírem na economia real, através dos bancos comerciais ou na implantação de fábricas, acelerando substancialmente o processo de substituição de importações.
A Segunda Guerra permitiu ao país acordos bastante vantajosos, antes da eclosão do conflito; um grande acúmulo de reservas, no decorrer da guerra; a importação de cérebros valiosíssimos, que ajudaram a completar a ciência nacional. E, depois, a importação de fábricas de veículos europeias, que ficaram disponíveis após o plano Marshall.
A crise externa dos anos 70 levou Geisel aos grandes investimentos do 2º Plano Nacional de Desenvolvimento que, apesar do endividamento remanescente, completou o quadro de industrialização do país.
Hoje em dia, o Brasil virou foco de atenção das maiores empresas e economias do mundo por um ativo fundamental, ainda mais nesses tempos de crise: seu mercado interno. Em todos os setores há uma enxurrada de capitais chegando, em busca do porto seguro da demanda assegurada pelo Brasil.
A estratégia brasileira deveria se desenvolver nas seguintes frentes:
1. Exigência de contrapartida das empresas que aspiram o mercado interno brasileiro.
2. Política monetária e fiscal visando realocar os ativos financeiros - hoje em grande parte girando a dívida pública - para investimentos na economia.
3. Estratégias de inserção global, não apenas das multinacionais brasileiras, mas de cadeias produtivas inteiras - com prioridade para América Latina e continente africano.
4. Estratégia específica de internacionalização dos bancos brasileiros, aproveitando o desmonte do sistema bancário dos países centrais.
5. Plano integrado de logística transcendendo as obras do PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento), com enfoque nas novas zonas de crescimento dinâmico da América do Sul.
Não é hora de se contentar meramente em minimizar os efeitos da crise sobre a economia. É hora de planejar o salto.
A lição de casa já começou a ser feita. Os programas de transferência de renda estão consolidando o novo mercado de consumo. Já existe mobilização pela inovação e pela educação. As Conferências Nacionais deram uma solidez inédita ao tecido social brasileiro, nos mais diversos setores. A diplomacia já conseguiu seu aggiornamento, incluindo o pragmatismo comercial e a visão estratégica em seus estudos. Já existe uma musculatura financeira, no mercado de capitais, BNDES e fundos de private equity.
Só falta juntar todos os agentes e passar a pensar grande.
Hoje em dia, o Brasil virou foco de atenção das maiores empresas e economias do mundo por um ativo fundamental, ainda mais nesses tempos de crise: seu mercado interno. Em todos os setores há uma enxurrada de capitais chegando, em busca do porto seguro da demanda assegurada pelo Brasil.
Chegou a hora do país dar um salto e montar uma estratégia de inserção na economia global, visando as próximas décadas. E aí há que se valer do exemplo da China e mesmo do exemplo brasileiro dos anos 50 aos 80.
Mercado interno é ativo nacional. Como tal, o acesso a ele precisa ser negociado. A negociação tem que girar em torno de pontos essenciais:
1. Compromisso da empresa que entra de seguir o processo produtivo básico, com índices crescentes de nacionalização. As recentes iniciativas no setor automobilístico mostraram sua eficácia, acelerando a decisão das maiores empresas de ampliar a nacionalização da sua produção.
2. Compromisso de transferência objetiva de tecnologia. Hoje em dia, por exemplo, as maiores empresas de química do mundo estão aqui. E o país continua extremamente dependente de química fina. Há que se mapear os produtos-chave do atual estágio de desenvolvimento e conferir prioridade – exigindo contrapartida das empresas que vierem.
3. Contrapartida no fortalecimento da cadeia produtiva do setor, inclusive com políticas clara de compra e capacitação de micro, pequenas e médias empresas nacionais.
4. Compromisso com os movimentos de inovação já existentes no país.
5. Formas de indução à descentralização do desenvolvimento.
6. Metas firmes de exportação e de substituição de importações.
São várias as maneiras do governo atuar. Uma, em cima de leis claras e objetivas. Outra, na parte tributária. Uma terceira ferramenta, na política de compras públicas.
Especialmente nos setores de saúde, educação e defesa, o país dispõe de compras volumosas, ambicionadas pelas maiores empresas do mundo. Ou seja, o mercado é ofertante e o Brasil o grande demandador.
Assim como no recém-anunciado episódio Foxconn – do BNDES e de Eike Baptista se associando ao empreendimento – há espaço para se começar alguma estratégia envolvendo os grandes investidores e fundos de investimento brasileiros.
Mais que isso, o tripé ideal seria: multinacionais -> fundos de investimento-> médias empresas brasileiras com capacidade para absorver tecnologia.
É preciso deixar de lado a ideia de que basta a vinda da multinacional ao país para, automaticamente, haver ganhos tecnológicos e de inovação. Há uma parte modernizante – o exemplo de seus produtos, algum contato entre institutos de pesquisa e seus especialistas, o relacionamento com fornecedores. Mas, no geral, se não houver políticas objetivas de transferência de tecnologia, de indução à parceria com institutos de pesquisa nacionais, de capacitação, enfim, da pesquisa nacional.
O Brasil está entrando na crise mais relevante da sua história, na que maiores oportunidades abre, sem um plano de voo definido.
É preciso repensar e aprimorar a questão do investimento externo.
Para entender a crise do euro – 1
A atual crise do euro dá margem a um conjunto grande de boatos – que ajudam a mexer com mercados – e fatos concretos. Um dos pontos centrais da crise é que não interessa nem à Alemanha nem à França a dissolução do bloco europeu. São os países mais fortes e com mais responsabilidades no bloco. Mas, na condição de grandes potências, são as economias que mais necessitam do euro para competir com EUA e Ásia.
Para entender a crise do euro – 2
O segundo ponto é que os problemas do euro só se resolverão com a unificação final das economias europeias. É o que impediria as políticas fiscais díspares, que levaram ao grande endividamento da Grécia, Itália e Espanha. Mas, por outro lado, o controle pelo Banco Central Europeu, da parte fiscal e do câmbio significaria o fim da autonomia nacional, em um momento em que populações se rebelam contra a globalização.
Para entender a crise do euro – 3
Desde o século 19 há um conflito latente entre mercados financeiros e estados nacionais. Foi assim no início da internacionalização do capital – sob a égide dos Rotschilds e do Banco da Inglaterra. Ao capital interessa a uniformização das leis nacionais, das políticas fiscais e monetárias. O que significaria ao país abdicar de um projeto nacional próprio. Em troca, oferecia a paz e a prosperidade. O projeto acabou na crise de 2008.
Para entender a crise do euro – 4
Agora se chega a um impasse complexo. A especulação financeira enorme das últimas décadas inflou todos os ativos, assim como as economias nacionais e a arrecadação fiscal. Quando veio a crise, despencaram preços de ativos e capacidade de arrecadação dos países, criando enorme descompasso entre o valor dos passivos e a capacidade fiscal dos estados nacionais.
Para entender a crise do euro – 5
Há apenas uma maneira de resolver esse descompasso, comum a todas as técnicas bancárias: quando reconhecidamente o credor não tem capacidade de pagar a dívida total, o banco dá um desconto, visando viabilizar o pagamento. Todo dilema da União Europeia é que, apesar do modelo financista ter entrado em crise terminal, ainda preserva enorme poder político, emperrando as tentativas de renegociação.
Para entender a crise do euro – 6
Fica-se então nesse impasse para saber quem paga a conta. Numa ponta, os governos nacionais, pressionados por seus eleitores – que não desejam mais uma vez pagar, depois da redução do estado do bem estar em nome de um futuro radioso que não chegou. Na outra, as autoridades monetárias europeias – BCE à frente – pressionando os países a arcarem com o prejuízo. Enquanto isto, a crise vai se ampliando.
Luis Nassif
No Advivo
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O épico da Globo e a saga dos moradores da Rocinha

O épico da Globo esqueceu a saga dos pobres da favela. A entrada do poder público na Rocinha para garantia dos direitos fundamentais de seus moradores não é o espetáculo. É o reconhecimento do que lhes era devido. Não deve ser visto como a salvação, mas a volta à normalidade.
Em 1994, o piloto Ayrton Senna morreu num trágico acidente, em Ímola. Foi o primeiro contato de meus filhos, então com oito e nove anos, com a morte de uma pessoa pública. Toda a máquina da Globo – e também de outras emissoras, mas a máquina da Globo era, e ainda é, a maior, e a Globo tinha, e ainda tem, a exclusividade de transmissão da Fórmula 1 – foi colocada à disposição daquele triste fato, que chegava com excepcional força aos expectadores por ser um ídolo jovem, bem-sucedido e que jamais ter decepcionado o seu público. Era o personagem do bem.
Meu filho, Tomás, cansou-se logo, apesar de ter ficado autenticamente comovido com a morte de Senna. Minha filha, mais chegada a um drama, mergulhou aos prantos no espetáculo montado em torno daquela fatalidade. Eu, como jornalista, não sabia muito o quê fazer: a máquina de moer emoções havia sido acionada contra a minha própria filha e eu não sabia se desligava a televisão, ou deixava que ela vivesse o que era também a sua primeira experiência com um drama coletivo. Deixei. E fiquei orgulhosa da Isabel quando ela limpou as lágrimas, levantou da cadeira, desligou a televisão e, por fim, disse: “O que eles estão fazendo com ele?” Tradução: o que a televisão fez com o Senna, ao invadir cada detalhe de sua morte, cada pedaço de sua vida, cada ferimento, cada dor de sua família, cada lágrima capturada pela câmera? Engraçado, mas percebi que ela achou que seu ídolo foi aviltado, e que ela foi manipulada.
Espetáculo e televisão são duas coisas inseparáveis, é fato. A imagem é dúbia: ao mesmo tempo em que documenta, é capaz de envolver, emocionalizar e confundir. A imagem não fala por si só. Com uma voz ao fundo, entrevistas escolhidas, cenários de pavor, palavras de esperança, é capaz de construir uma estória, a partir de dados da realidade, com o enredo de uma novela, ou de um filme. Tirar lágrimas ou convencer o público que, acreditando seriamente estar diante de uma realidade pura, vê-se na desgraça total ou chega à redenção.
Se a minha filha tivesse nove anos no último domingo, teria visto o Big Brother da Rocinha durante todo o dia, no padrão Globo de televisão, até se perguntar: “o que estão fazendo com eles?” Talvez ela precisasse de uma pergunta mais elaborada do que essa para expressar uma situação em que o direito inalienável do cidadão – a segurança, o direito de ir e vir, a inviolabidade de sua moradia, educação, saúde e todo o grande e generoso artigo 5º de nossa Constituição – foi transformado num épico onde o que importa não é o reconhecimento de que o Estado paga o que deve, mas a ocupação cenográfica de morros e vielas por 3 mil homens, entre Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Federal, além de 194 fuzileitos navais, 18 veículos blindados, quatro helicópteros da PM e três da Polícia Civil. Os homens de farda não são os agentes de uma política pública de segurança, mas a redenção. Ao final do espetáculo, o que estava em jogo não eram os direitos, nem o reconhecimento de que, enfim, o Estado entendeu que segurança pública é uma política pública integrada com políticas sociais. A TV tinha eleito um herói, o secretário de Segurança Pública do Rio, Mariano Beltrame; coadjuvantes, os policiais; e figurantes, os moradores da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu.
Nesse cenário, a contenção das favelas, via a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), torna-se a redenção também da classe média que mora morro abaixo, e que certamente elegerá (no sentido estrito e figurado) o governador Sérgio Cabral e seu secretário Beltrame como aqueles que levaram a paz para os morros e, principalmente, para fora deles. E que vão tornar o Rio mais seguro para as Olimpíadas e para a Copa do Mundo.
Antes do espetáculo, uma história cruel de como bandidagem e miséria se juntaram nas favelas foi desconhecida; a saga de como armas e justiça com as próprias mãos ocupou o lugar do Estado em cada núcleo de pobreza foi esquecida; não se falou em como, primeiro, os bicheiros exerceram o papel de Poder Executivo, polícia e justiça em áreas que viraram feudos depois transferidos para traficantes e – quando estes eram expulsos – por milicianos, egressos da própria polícia. A história que a televisão esqueceu de contar é a de pessoas que tiveram de obedecer duas leis (a da cidade e do morro), incorporaram a violência à sua rotina, conviveram com drogas, viram seus filhos tornarem-se “aviões” do tráfico e serem vitimados pela violência e a droga antes de chegarem à vida adulta.
O épico da Globo esqueceu a saga dos pobres da favela. E do imenso descaso da opinião pública para com crianças que estavam em idade de estudar e não estudavam, precisavam brincar para ser crianças e não brincaram; e de adultos reduzidos à desumanização da doença, da fome e da falta de cidadania – pelo menos até que isso se traduzisse em violência morro abaixo.
A entrada do poder público na Rocinha para garantia dos direitos fundamentais de seus moradores não é o espetáculo. É o reconhecimento do que lhes era devido. Não deve ser visto como a salvação, mas a volta à normalidade.
Maria Inês Nassif, colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.
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Ah se fosse a Petrobrás!

As duas fotos aí de cima foram publicadas pelo blog SkyTruth ,especializado em interpretação de foto de satélites com fins ambientais, mantido pelo geógrafo John Amos, e registram em dois momentos o que é identificado como sendo a mancha de óleo provocada pelo vazamento provocado pela Chevron-Texaco e que está sendo mantido na sombra pela imprensa.
Cheguei até elas pela dica do leitor Henrique, que parece ser mais eficiente que toda a imprensa brasileira reunida.
Aliás, os próprios releases dizem que há 18 navios trabalhando no combate ao vazamento. Devem ser navios-fantasmas, como é a direção da Chevron. Não têm nome, não têm comandante, não tem tripulação, não têm coordenadores. Não há uma pessoazinha que seja, com nome e sobrenome, que diga: “olha, as coisas aqui estão assim ou assado”.
Ninguém tem uma máquina fotográfica, uma filmadora, um reles celular que tire fotos. Internet, então, nem pensar.
Será que vamos ter que esperar que coloquem uma mensagem na garrafa, para que a nossa imprensa publique algo além de notas oficiais?
A Chevron diz à ANP que a mancha tem 163 quilômetros quadrados de extensão e estima em até 880 barris o vazamento. Bem, se na mancha tiver 10 ml (uma tampinha de xarope) por metro quadrado, isso daria 1,6 milhões de litros, ou dez mil barris de petróleo (163 km2 = 163 milhões de metros quadrados. Que história mal contada! Nem as informações de release são coerentes, e ninguém questiona. Quem vai dar explicações ao país?
No Tijolaço
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Balanço da Marcha contra a corrupção

O foca está surpreso com a não adesão!
Vou tentar explicar a ele que não existe ninguém a favor da corrupção.
Noblat, marcha se faz contra alguma coisa. Para dar certo, alguém tem que ser a favor dessa coisa! Como não há ninguém que seja a favor da corrupção, esses movimentos, marchas, atos, são um "tiro n'água"! Enquanto forem encabeçados por deputados corruptos do Dem, do presidente com problemas de recebimentos ilícitos de salário da OAB, de revistas, jornais e TVs do quilate da Veja, Estadão, IstoÉ, Organizações Globo que são vesgos e enxergam só um lado da corrupção, as aves raras serão cada vez mais raras.
Abram os baús da corrupção em que se encontram furnas, Panamericano, mensalão do Dem, privatizações, etc etc etc, e começaremos a falar a mesma língua.
Por enquanto vocês estão falando Inglês fluente e não Português brasileiro! Caiam na real.
Há coisa bem pior que isso e vocês nem tocam por que não lhes interessa: SONEGAÇÃO, que se não existisse, não precisaria mais imposto para a saúde.
 Blog do Noblat 

As aves raras que marcharam contra a corrupção 
 Blog do Noblat 

RT  Foi um sucesso hein? E olha que o Globo, Folha, veja.. todos mobilizados.. maldito São Pedro né?
 Blog do Noblat 

RT  250 em Cuiabá
 Blog do Noblat 

RT  Você acha que nós brasilienses tivemos razão de não organizar Marcha hoje? (Houve um ato, não Marcha)
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 Blog do Noblat 

Por que tantos celebram o fracasso das marchas contra a corrupção? Por que identificam o governo com a corrupção? O PT? Por que?
 Blog do Noblat 

Manifestações contra a corrupção: no Rio, 150 pessoas; SP, 200; Curitiba, 80; BH, 300.
No Senta a Pua
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A entrevista da ministra Eliana Calmon no Roda Viva

A corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon - mulher inteligente e de muita fibra - enfrenta a questão da corrupção no Poder Judiciário com uma coragem impressionante. Abaixo, alguns trechos da entrevista realizada com a ministra no programa Roda Viva, da TV Cultura:
Segundo ela, o problema do Judiciário não está na primeira instância, mas nos tribunais: "Os juízes de primeiro grau tem a Corregedoria. Mesmo ineficientes, as Corregedorias tem alguém que está lá para perguntar, para questionar. E existem muitas Corregedorias que funcionam muito bem. Dos membros dos tribunais, nada passa pela Corregedoria. Os desembargadores não são investigados pela Corregedoria. São os próprios magistrados, que sentam ao lado dele, que vão investigar.
A ministra defende a capacidade de investigar e de punir magistrados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que está sendo questionada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) no Supremo Tribunal Federal: "O CNJ, na medida que também é órgão censor, através da Corregedoria, começa a investigar comportamentos, atitudes, a atividade jurisdicional. E isso começa a desgostar a magistratura."
Para ela, os maiores adversários do CNJ são as associações de classe, como a AMB: "Não declaram, mas são contra. A AMB é a que tem maior resistência (...) De um modo geral, as associações defendem prerrogativas: vamos deixar a magistratura como sempre foi. São dois séculos assim..."
“A magistratura sempre passou com seus questionamentos interna corporis. Nunca veio outro órgão a questionar. É uma questão de cultura. Mas precisamos entender que o mundo está de tal forma transparente que não se pode esconder mais nada de ninguém.”
Frase da noite:
"O senhor conhece algum colarinho branco preso?"
Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista na íntegra. Vale a pena!
Dica de Xad Camomila
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Latuff na USP

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Polícia de Nova Iorque ocupa o Occupy Wall Street; Justiça manda reocupar


Justiça considerou ilegal ação da polícia e autoriza retorno de manifestantes do Occupy Wall Street a praça em NY
A juíza Lucy Billings, da Suprema Corte do estado de Nova York, autorizou o retorno dos manifestantes do movimento Occupy Wall Street para a praça que ocupavam em Manhattan até a manhã desta terça-feira (15/11), quando uma operação da policia novaiorquina removeu o acampamento dos “indignados” com a crise internacional.
Manifestante encara polícia durante desocupação de praça em Nova York
Além de permitir a volta dos manifestantes, a decisão judicial também determina uma ordem de restrição que impede a Prefeitura e a polícia de Nova York de bloquear a entrada de mais pessoas no local com barracas, batizado pelos jovens de “Praça da Liberdade”.
A juíza marcou uma audiência com a Prefeitura para definir como a ordem judicial deverá ser colocada em prática. Lucy Billings criticou a ação policial, que considerou ilegal e abusiva.
No momento, parte dos integrantes do Occupy que foram dispersados pela polícia se dirigem para a sede da Prefeitura, enquanto outros voltam para a praça Zuccotti, que, apesar de pertencer a uma empresa privada, é utilizada como espaço público de lazer, segundo uma lei local.
E foi justamente essa lei a justificativa utilizada pelo prefeito Michael Bloomberg para exigir a retirada do acampamento. Segundo o prefeito, a ocupação estava impedindo que outras pessoas tivessem acesso ao local.
A decisão de Bloomberg desencadeou uma verdadeira operação de guerra na madrugada desta terça-feira. Centenas de policiais com caminhões começaram a chegar por volta das 4h20 (horário de Brasília), seguidos de helicópteros e carros blindados. O espaço aéreo e a ponte do Brooklyn, que dá acesso a Manhattan foram fechados. A presença de jornalistas no momento da operação foi proibida.
Segundo o New York Times, pelo menos 70 pessoas que resistiram à desocupação foram presas. O Occupy Wall Street afirma que entre eles está um vereador.
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Seguradoras bancam evento para cúpula da Justiça em resort no Guarujá

A convite da Confederação Nacional de Seguros, instituição privada, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do TST (Tribunal Superior do Trabalho) participaram de seminário em hotel de luxo no Guarujá, em São Paulo, no início de outubro.
O evento, que aconteceu num hotel cinco estrelas, o Sofitel Jequitimar Guarujá, começou numa quinta-feira e prolongou-se até domingo.
No período, as diárias variavam de R$ 688 a R$ 8.668. Além dos ministros, desembargadores e juízes de tribunais estaduais participaram do seminário (assista as imagens abaixo).
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O congresso teve o apoio da AMB (Associação de Magistrados Brasileiros) e da Apamagis (Associação Paulista de Magistrados), mas não foi divulgado nos sites dessas entidades. Foram discutidos assuntos de interesse dos anfitriões, como o julgamento de processos sobre previdência complementar e a boa-fé nos contratos de seguros.
O presidente da AMB, Henrique Nelson Calandra, diz que o seminário promovido pelas seguradoras "colaborou para o aperfeiçoamento da administração da Justiça do país" e que contou com o "debate de temas polêmicos".
Mas o diretor-executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, vê conflito de interesses na presença de juízes nesses eventos.
"No Executivo federal, ninguém pode receber presentes acima de R$ 100. Os magistrados também deveriam adotar esse critério", defende Abramo.
HISTÓRICO
Em 2009, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) pagou as despesas de magistrados do Trabalho acompanhados de suas mulheres em congresso num luxuoso resort na Bahia. Na ocasião, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) foi questionado sobre a falta de normas para juízes aceitarem convites desse tipo.
O tema viria novamente à tona no início deste mês, quando 320 juízes do Trabalho disputaram provas esportivas em Porto de Galinhas (PE). O luxuoso encontro foi patrocinado por empresas públicas e privadas.
Foi anunciado, então, que a corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, pretendia apresentar no CNJ uma proposta para regulamentar a participação de juízes nesse tipo de evento.
A FAlha apurou que se trata de uma ideia ainda não colocada no papel.
Frederico Vasconcelos
Giuliana Vallone
Inara Chayamiti
Da Falha
No Abra a Boca, Cidadão!
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A queda: de narrador da seleção à rinha de galo

O narrador Galvão Bueno, da TV Globo, estreou na transmissão do UFC na emissora, neste domingo (13), com novos bordões, como ‘gladiadores do terceiro milênio’. Galvão narrou a luta em que Júnior “Cigano” dos Santos saiu como vencedor dos pesos-pesados, ao derrotar o mexicano-americano Cain Velásquez por nocaute, em Anaheim, nos Estados Unidos.
O locutor contou com os comentários do lutador Vítor Belfort. Galvão só cometeu uma pequena gafe, ao trocar UFC por IFC. O locutor misturou seu estilo de narrar partidas de futebol e corridas de Fórmula 1, e encerrou: "Esquerda, esquerda, esquerda, trocou! Direita, direita, direita, na cabeça! Acabou. É campeão do muuuuuundo!"
Ao final da transmissão, Galvão, se mostrou satisfeito com a estreia. “Não imaginei que aos 40 anos de carreira encontraria um novo desafio”.
Na última semana, internautas pediram que a Globo deixasse que Eder Luiz, que narrava a competição na Rede TV, comandasse a luta na TV Globo. Apesar de o pedido não ter sido atendido, Eder elogiou o colega na estreia do UFC na concorrente.
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E eles marcharam...

 Sucesso da Marcha dos Golpistas da UDN em Brasília 
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Portugal: Greve Geral - 24 de novembro


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Anúncios Classificados em Portugal

Troca-se Ministro das Finanças ainda em bom estado e jeitoso a brincar com modelos económicos por velha economista emigrada no Brasil.
Resposta para Assembleia da República, S. Bento, Lisboa, Portugal.

No 5Dias
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Filme feito com 27 euros ganha prêmio nacional português

É pouco mais do que o preço de um bilhete, mas foi o dinheiro preciso para produzir uma curta-metragem que ganhou o prémio de melhor filme nacional. Chama-se Comando
Para produzir a curta-metragem, os jovens tiveram
de escavar uma trincheira no quintal de um vizinho.
Filme custou €27.
Algumas pás e muitas mãos livres para escavar uma trincheira de 20 metros serviram de base a um dos filmes mais baratos da produção nacional e quem sabe um dos mais premiados em festivais.
Enquanto a indústria do cinema se afunda com orçamentos cada vez mais limitados, uma dúzia de jovens algarvios decidiu arregaçar as mangas e mostrar que dinheiro não é problema, ou pelo menos, não é o maior.
"Há muito tempo que faço filmes de baixo orçamento. O Comando foi espontâneo, procurámos ver os recursos que tínhamos em volta e depois a estória foi surgindo depois", explica Patrício Faísca, realizador, ao Expresso.
Todas as horas vagas longe do emprego, num supermercado gourmet, Patrício gasta-as a fazer cinema e consigo arrasta dezenas de voluntários.
"Toda a equipa técnica (da NewLightPictures), os atores e nós trabalhamos a custo zero, só por amor ao cinema. Nós queremos fazer trabalhos, tentamos não desistir e chegar àquilo que pretendemos", desvenda o realizador, que admite nutrir o sonho de uma longa-metragem.
Case study de baixo custo
"Comando", a curta-metragem que ganhou recentemente o prémio de melhor filme nacional no Festival de Cinema de Arouca, retrata uma missão quase impossível: a obrigatoriedade de um soldado entregar uma carta ao oficial superior em pleno campo de batalha, no meio de fogo cerrado.
O filme, com argumento de Sonat Duyar, exigiu quatro dias para escavar uma trincheira no terreno de um vizinho, várias armas de airsoft emprestadas e alguns uniformes, tudo quase a custo zero.
Apesar de tudo, a dada altura os produtores - que também são realizadores e atores - exigiram financiamento: 27 euros foram precisos para comprar sangue falso e arame farpado, necessários para dar realismo às cenas de guerra.
O filme já tinha ganho distinções anteriores, com a atribuição de Melhor Produção Nacional de 2010 na gala anual do Shortcutz Lisboa. A curta recebeu ainda nomeações nas categorias de Melhor Direção de Arte e de Melhor Curta do Mês no Shortcutz Porto.
Comando português viaja por todo o mundo
"Comando", com uma duração de 10 minutos, tem sido também solicitado para exibição em várias mostras de cinema internacionais, em países como o Brasil, China ou Reino Unido.
A equipa, que gostaria de um dia vir a profissionalizar-se, tem agora entremãos uma média metragem, K17.
É a estória de um agente secreto português enviado para uma missão pelo Governo, que de súbito percebe que o seu próprio Governo o abandona, por falta de verbas para financiar a missão. "É uma pequena rábula política, que faz uma alusão à situação atual por que passamos no nosso país", conclui Patrício Faísca.
No Brasil, mostra a tua cara!
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A entrevista de "Nem"

Meu encontro com Nem
Era sexta-feira 4 de novembro. Cheguei à Rua 2 às 18 horas. Ali fica, num beco, a casa comprada recentemente por Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, por R$ 115 mil. Apenas dez minutos de carro separam minha casa no asfalto do coração da Rocinha. Por meio de contatos na favela com uma igreja que recupera drogados, traficantes e prostitutas, ficara acertado um encontro com Nem. Aos 35 anos, ele era o chefe do tráfico na favela havia seis anos. Era o dono do morro.
Queria entender o homem por trás do mito do “inimigo número um” da cidade. Nem é tratado de “presidente” por quem convive com ele. Temido e cortejado. Às terças-feiras, recebia a comunidade e analisava pedidos e disputas. Sexta era dia de pagamentos. Me disseram que ele dormia de dia e trabalhava à noite – e que é muito ligado à mãe, com quem sai de braços dados, para conversar e beber cerveja. Comprou várias casas nos últimos tempos e havia boatos fortes de que se entregaria em breve.
Logo que cheguei, soube que tinha passado por ele junto à mesa de pingue-pongue na rua. Todos sabiam que eu era uma pessoa “de fora”, do outro lado do muro invisível, no asfalto. Valas e uma montanha de lixo na esquina mostram o abandono de uma rua que já teve um posto policial, hoje fechado. Uma latinha vazia passa zunindo perto de meu rosto – tinha sido jogada por uma moça de short que passou de moto.
Aguardei por três horas, fui levada a diferentes lugares. Meus intermediários estavam nervosos porque “cabeças rolariam se tivesse um botãozinho na roupa para gravar ou uma câmera escondida”. Cheguei a perguntar: “Não está havendo uma inversão? Não deveria ser eu a estar nervosa e com medo?”. Às 21 horas, na garupa de um mototáxi, sem capacete, subi por vielas esburacadas e escuras, tirando fino dos ônibus e ouvindo o ruído da Rocinha, misto de funk, alto-falantes e televisores nos botequins. Cruzei com a loura Danúbia, atual mulher de Nem, pilo-tando uma moto laranja, com os cabelos longos na cintura. Fui até o alto, na Vila Verde, e tive a primeira surpresa.
LOGÍSTICA
A Rocinha é uma das maiores favelas do Rio. 
Entre os bairros ricos da Zona Sul e a Barra da Tijuca,
é um ponto estratégico para o crime
(Foto: Genilson Araújo/Parceiro/Ag. O Globo)
Não encontrei Nem numa sala malocada, cercado de homens armados. O cenário não podia ser mais inocente. Era público, bem iluminado e aberto: o novo campo de futebol da Rocinha, com grama sintética. Crianças e adultos jogavam. O céu estava estrelado e a vista mostrava as luzes dos barracos que abrigam 70 mil moradores. Nem se preparava para entrar em campo. Enfaixava com muitos esparadrapos o tornozelo direito. Mal me olhava nesse ritual. Conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: “Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego... me fala depois”, disse Nem. Colocou o meião, a tornozeleira por cima e levantou, me olhando de frente.
Foi a segunda surpresa. Alto, moreno e musculoso, muito diferente da imagem divulgada na mídia, de um rapaz franzino com topete descolorido e riso antipático, como o do Coringa. Nem é pai de sete filhos. “Dois me adotaram; me chamam de pai e me pedem bênção.” O último é um bebê com Danúbia, que montou um salão de beleza, segundo ele “com empréstimo no banco, e está pagando as prestações”. Nem é flamenguista doente. Mas vestia azul e branco, cores de seu time na favela. Camisa da Nike sem manga, boné, chuteiras.
– Em que posição você joga, Nem? – perguntei.
– De teimoso – disse, rindo –, meu tornozelo é bichado e ninguém me respeita mais em campo.
Foi uma conversa de 30 minutos, em pé. Educado, tranquilo, me chamou de senhora, não falou palavrão e não comentou acusações que pesam contra ele. Disse que não daria entrevista. “Para quê? Ninguém vai acreditar em mim, mas não sou o bandido mais perigoso do Rio.” Não quis gravador nem fotos. Meu silêncio foi mantido até sua prisão. A seguir, a reconstituição de um extrato de nossa conversa.
Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? "
Nem, líder do tráfico 
UPP “O Rio precisava de um projeto assim. A sociedade tem razão em não suportar bandidos descendo armados do morro para assaltar no asfalto e depois voltar. Aqui na Rocinha não tem roubo de carro, ninguém rouba nada, às vezes uma moto ou outra. Não gosto de ver bandido com um monte de arma pendurada, fantasiado. A UPP é um projeto excelente, mas tem problemas. Imagina os policiais mal remunerados, mesmo os novos, controlando todos os becos de uma favela. Quantos não vão aceitar R$ 100 para ignorar a boca de fumo?”
Beltrame “Um dos caras mais inteligentes que já vi. Se tivesse mais caras assim, tudo seria melhor. Ele fala o que tem de ser dito. UPP não adianta se for só ocupação policial. Tem de botar ginásios de esporte, escolas, dar oportunidade. Como pode Cuba ter mais medalhas que a gente em Olimpíada? Se um filho de pobre fizesse prova do Enem com a mesma chance de um filho de rico, ele não ia para o tráfico. Ia para a faculdade.”
Religião “Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.”
Prisão “É muito ruim a vida do crime. Eu e um monte queremos largar. Bom é poder ir à praia, ao cinema, passear com a família sem medo de ser perseguido ou morto. Queria dormir em paz. Levar meu filho ao zoológico. Tenho medo de faltar a meus filhos. Porque o pai tem mais autoridade que a mãe. Diz que não, e é não. Na Colômbia, eles tiraram do crime milhares de guerrilheiros das Farc porque deram anistia e oportunidade para se integrarem à sociedade. Não peço anistia. Quero pagar minha dívida com a sociedade.”
Drogas “Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.”
Recuperação “Mando para a casa de recuperação na Cidade de Deus garotas prostitutas, meninos viciados. Para não cair na vida nem ficar doente com aids, essa meninada precisa ter família e futuro. A UPP, para dar certo, precisa fazer a inclusão social dessas pessoas. É o que diz o Beltrame. E eu digo a todos os meus que estão no tráfico: a hora é agora. Quem quiser se recuperar vai para a igreja e se entrega para pagar o que deve e se salvar.”
Ídolo “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”
Policiais “Pago muito por mês a policiais. Mas tenho mais policiais amigos do que policiais a quem eu pago. Eles sabem que eu digo: nada de atirar em policial que entra na favela. São todos pais de família, vêm para cá mandados, vão levar um tiro sem mais nem menos?”
Tráfico “Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.”
Nem estava ansioso para jogar futebol. Acabara de sair da academia onde faz musculação. Não me mandou embora, mas percebi que meu tempo tinha acabado. Desci a pé. Demorei a dormir.
Ruth de Aquino
No Revista Época
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Charge online - Bessinha - # 904

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Religiões no nascimento da propaganda

Para se compreender a gênese do processo de propaganda e contrapropaganda é bom se entender um pouco da formação do novo testamento. Os judeus provavelmente tenham sido o povo que primeiro usaram o espírito da ideia de que "a propaganda é a alma do negócio".
A bíblia, ainda hoje, é a peça de propaganda de maior sucesso da história da humanidade, nem mesmo Hollywood foi tão eficaz em disseminar os valores, costumes e moral de um povo.
No estudo deste processo é preciso voltar ao século primeiro depois de cristo, uma época em que o poder militar do império romano sufocava todo mundo ocidental: oriente baixo (Síria e Turquia), gauleses, britânicos, gregos, egipicios e judeus. Aos romanos não bastava a conquista, era necessário submeter e humilhar os conquistados. Emblemático desta situação eram as estátuas erigidas pelos romanos nos centros de suas conquistas, como a clássica estátua de um poderoso guerreiro, representando Roma, submetendo uma fêmea frágil que representava o conquistado. Diante do avassalador poderio militar romano restava aos conquistados apenas o lento processo de propaganda anti-romana, e, provavelmente, os melhores propagandistas da época foram os judeus.
A maior peça de propaganda anti-romana foi o livro da revelação ou o livro do apocalipse de João (não o apóstolo). No ano de 66 d.c. houve uma sublevação na Judeia que foi reprimida com enorme crueldade e violência pelas tropas do imperador Nero. Entre os poucos judeus que escaparam do massacre estava o profeta João que se exilou no oriente baixo, provavelmente Turquia. Em conjunto com turcos, gregos e sírios, João iniciou a criação de documentos apócrifos que tinham como motivação a propaganda anti-romana.
O apocalipse surge de uma ideia radical. Os livros da revelação tinham origem egípcia e babilônica e a finalidade era fundamentar o divino na nova era, João, o profeta judeu, admite a impossibilidade dos povos conquistados em suplantar Roma no plano militar e passa a pregar o fim do mundo e o surgimento do reino de Cristo, numa alusão à queda do império romano. Simbolismos e arquétipos persistentes até os dias de hoje, como o número 666 o da "besta", tem origem no apocalipse e são alusão ao ano de 66 d.c. e a "besta" não seria outro senão Nero. Rogar pragas já fazia muito sucesso naquela época e há passagens particularmente terríveis no Apocalipse que dão uma noção da angústia e da vontade de vingança dos povos conquistados, como a passagem onde João anuncia o retorno de Cristo que acorrentaria a "besta" (Nero) e o aprisionaria num lago de angústias e aflições por milhares de anos.
O sucesso dos panfletos apócrifos é tamanho que por volta de 312 d.c. o imperador Constantino deixa de confrontar o cristianismo diretamente e inventa a contrapropaganda.
Assume o cristianismo como religião oficial do império, cria a igreja católica com sede em Roma. A igreja católica passa, então, a ser o órgão oficial de censura aos panfletos apócrifos. Com a edição de seus canônes, a igreja católica determina quais documentos apócrifos podem ser publicados. Não seria exagero imaginar que o novo testamento não passa de uma resenha dos documentos autorizados pelo império romano através da sua igreja, já que nem mesmo os próprios judeus jamais assumiram o cristianismo e a bíblia hebraica ainda é uma peça sectária do ortodoxismo judeu .
Aspectos deste processo de propaganda e contraproganda podem ser reconhecidos na mídia contemporânea. Um estudo detalhado tem sido realizado pela professora de religião da universidade de Priceton, Elaine Pagels. Neste site (em inglês), Elaine oferece uma panorâmica do livro da revelação do profeta João.
Marcelo Castro
No Advivo
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A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?
O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.
Eliane Brum Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br @brumelianebrum
Na Época
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