1 de nov de 2011

John Cage

Uma das obras mais polêmicas de toda a história da música de concerto.

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Charge online - Bessinha - # 884

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Xô, urubuzada!

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Quanto custa um blogueiro?

Hordas de leitores desgostosos de uma opinião que não a sua partem para o ataque, a todo o momento, por estas bandas. Bem, muitos de vocês já viram os diversos casos, alguns mais patológicos, outros menos (para entender os diferentes tipos que povoam os blogs, sugiro a série publicada tempos atrás pelo grande Maurício Stycer). No final das contas, é divertido e não me importo. Até porque a senhora minha mãe não é frequentadora da rede mundial de computadores…
Uma das tentativas mais interessantes de agredir é sugerir que o jornalista “leva um por fora”, seja por fazer parte de uma organização não-governamental (e, como sabemos, toda a ONG tem pacto com o Tinhoso), seja por publicar denúncias contra empresas e governos. Se é algo que atinge a administração Dilma, é um tucano. Se é uma crítica à administração Alckmin, dá-lhe petista. Se é crítico a uma grande obra de engenharia que está engolindo comunidades tradicionais, o sujeito é um bastardo vendido para o Tio Sam por um mísero iPhone. Ou um Homem das Cavernas, que não ousa ver a terra brasilis alcançando o destino deveras glorioso para o qual estava abençoado desde que se deitou no berço esplêndido de sua fundação (porque, na internet, não basta ser conservador, tem que ser rococó).
Tem muita gente vendida por aí? Ah, sim, claro. Em todas as profissões e classes sociais, diga-se de passagem – porque a falta de ética não é monopólio de figuras públicas ou políticas. Além do mais, cada um vende sua voz ou força de trabalho para quem quiser, vivemos em um país livre (sic). Uma das características do Reino do Mercado é que faz parte do jogo tentar precificar as relações humanas e os posicionamentos pessoais. Pode-se até comprá-los.
O que assusta muita gente, porém, é que há os que não se dispõem a receber um preço. E assusta ainda mais que existam os que escrevem em nome de sua consciência individual, de uma idéia maior que ele próprio – seja ela qual for. Aliás, Idéia, com maiúscula. Como Dignidade, Liberdade, Igualdade de condições. Neste mundo que cisma em ser pós-moderno é difícil explicar que ainda há alguns nortes que valem a pena ser seguidos. Não grandes discursos de Verdade, pois essa não existe. Mas as noções básicas que, construídas e compartilhadas, nos tornam semelhantes, nos tornam humanos.
Pessoas que escrevem por acreditar em uma Idéia não são melhores do que as outras, de maneira alguma. Mas são perigosas. Mais perigosas do que as que cumprem ordens ou estão simplesmente fazendo o seu trabalho. Muitos levariam uma bala ou iriam presos pelo que acreditam, mas quantos fariam o mesmo por seu emprego?
Uma Idéia é um treco muito poderoso. Não se dissolve em gás lacrimogênio, não se anula com processos, não se reverte com intimidações. Não morre com as pessoas que a carregam, não se cala no silêncio. Se rasgada ao meio, não se divide, multiplica-se. Nada contra a corrente ou divide um mar.
Sim, quem escreve em nome de uma Idéia leva muita coisa por fora. Mas guarda no peito e não no bolso. E ri sozinho à noite.
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Bernardo empurra Ley de Medios para 2012

Enquanto isso...
O Conversa Afiada reproduz informação da Carta Maior:
Proposta de consulta pública sobre regulação da mídia vai a ministro
Paulo Bernardo (Comunicações) recebe nos próximos dias documento sobre novo marco regulatório da mídia para despachar com Dilma Rousseff. Consulta pública será feita a partir de conceitos gerais, não de redações na forma de lei. Tendência é que processo comece em 2012 – governo não quer ser acusado de fazer consulta ‘clandestina’ em meio às festas de fim de ano.
André Barrocal
BRASÍLIA – O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, vai receber da equipe nesta semana a proposta de consulta pública sobre um novo marco regulatório para a radiodifusão. Bernardo deverá levá-la à presidenta Dilma Rousseff para que ela aprove as linhas gerais e autorize o início das consultas.
Segundo a fonte que deu às informações à reportagem, hoje, o mais provável é que a consulta fique para o começo de 2012. Para o ministério, é melhor evitar dar motivos para reclamações de que supostamente estaria patrocinando uma consulta de faz de conta, ao promovê-la numa época em que muita gente sai de férias ou de recesso.
Até então, o ministério trabalhava com a perspectiva de abrir a consulta ainda em 2011.
No Congresso dos Blogueiros Sujos, em Brasília, com a presença do Nunca Dantes, o ministro Bernardo prometeu que a Ley de Medios chegaria ao Congresso no segundo semestre de 2011.
Agora, ficou para 2012, por causa do Natal.
Depois vem o Carnaval.
A Semana Santa.
A eleição para prefeito.
O Natal.
O Carnaval.
A Semana Santa.
E o controle remoto do Ministro não sai da Globo…
Será que ele viu a vitória do Solonei, do alto de sua vassoura?
Enquanto isso, o PiG instala a divisão panzer em frente ao Sirio Libanês.
O PiG quer o Lula morto ou vivo.
E a Ley de Medios para defender o Lula…
Em 2014 tem a Copa.
2016 tem as Olimpíadas.
Paulo Henrique Amorim
~ o ~
Enquanto isso...
Jornal do PIG de Goiânia decreta morte de Lula
Você acha que foi por acaso que o diagramador e o editor colocaram o título "Marcados para morrer" e a fotografia de Lula, Dilma e Mantega logo abaixo???
No As árvores são fáceis de achar
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Organização Comunista mente que país avançou na luta contra a corrupção

Organização bolchevique que
substituiu a infame III Internacional
Esthimosos Confradres,
Acabo de ler num bloguezinho destes de meia-patacas, escrito por intelectualóides esquerdopatas mantidos pelo governo de Moscou, que a OCDE — entidade bolcheva de “desenvolvimento econômico e socialista” substituta da famigerada “Internacional” na missão de levar a revolução proletária aos confins da terra — divulgou um relatório repleto de palavrórios “elogiosos” e vazios com relação a situação do Brazil no combate à corrupção, nesta última década.
Segundo os cães trotskystas desta organização, a ampliação da transparência e do controle por parte dos populares sobre os péssimos serviços públicos, a criação de uma Controladoria Geral da União — que não controla absolutamente nada — , as mudanças nas formas de licitação (que prejudicaram nosso audaciosos empreendedores) e o incentivo à melhores padrões de conduta por parte dos inúteis servidores (que deveriam ser todos postos na rua e substituídos por gente terceirizada) seriam os motivadores deste avanço. Porém faço uma denúncia neste espaço:
É Mentira! É a mais pura e deslavada mentira!
A corrupção nesta república de bananas chegou a níveis alarmantes como nunca dantes visto. Lembro-me ainda da época gloriosa em que eramos liderados pelos valorosos e probos oficiais. Época em que sequer ouvíamos falar de rumores de denuncias sobre corrupção! Saudosos anos aqueles em que nossos valorosos varões da caserna comandavam esta república bananal que tinha tudo pra ser um “país do futuro”!
Não fossem nossos bastiões morais,
a corrupção endêmica que assola a nação 
seria muito pior, mais muito, muito pior!
Se foi possível a estes bolchevo-burocratas do organismo internacional identificar algum tipo de avanço, isto se deve a não outra iniciativa senão à nossa “Proba Imprensa Gloriosa”! Esta incansável bastiã na defesa dos direitos e valores dos homens bons e de benz que deflagrou uma irascível persecutória contra os corrompidos ministros da era Lula. Não fossem suas verazes e contundentes denúncias, estaríamos hoje às voltas com estes desprezíveis palacianos, uma vez que não lograríamos obter sucesso em derrubá-los um a um de seus ministérios como se fazem aos frutos podres que caem, uma vez passada a estação.
Outro fator que corrobora para ainda não termos sidos sufocados pelo fétido mar de dejectos que virou a lamacenta política nacional foram as reformas modernizadores levadas à cabo pelo nosso prestimonioso Dom Henrique. A saber, a venda de toda sorte de entulho estatal que tornava o paquidérmico Estado Brasileiro ainda mais lento, sopesando os ombros de todos os honrados contribuintes de bem desta nação.
Caso fossem mantidos, esses passivos não serviriam à outra coisa senão ao aparelhamento por parte dos petistas e de seu séquito, aumentando ainda mais o número de servidores que, como bem sabemos, são os únicos responsáveis por esta chaga conspurcadora, a corrupção, provocada por ninguém mais ninguém menos senão esta pestilenta espécie parasitária que são os párias estatais.
Os bolcheviques da ocde estão chegando!
Senhores, pra terminar, quero lembrar-vos que fomos obrigados por aquela búlgara interina que governa o país, a nos submeter à esta ultrajante análise externa feita por um órgão comunista. Órgão este que reúne 34 países (dentre estes alguns remanescentes da cortina de ferro soviética) que tem como missão autoimposta reproduzir em todos os países a sangrenta revolução vermelha de outubro de 1917.
Para nossa sorte o Brasil AINDA não é membro da OCDE. Só resta a nós — homens bons, virís e sagazes — lutar, e lutar muito para que não sejamos forçados pelos lulogolpistas à fazer parte deste selecto e aviltante grupo internacional.
Anauê!
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Malditos comunistas!

Em Cuba, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado. Pô, assim não vale! Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza. Quero ver é fazer que nem a gente, no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!
Acabaram os jogos Pan-Americanos e mais uma vez ficamos atrás de Cuba.
Mais uma vez!
Isso não está certo. Este paiseco tem apenas 11 milhões de habitantes e o nosso tem 192 milhões. Só a Grande São Paulo já tem mais gente que aquela ilhota.
Quanto à renda per capita, também ganhamos fácil. A deles foi de reles 4,1 mil dólares em 2006. A nossa: 10,2 mil dólares.
Pô, se possuímos 17 vezes mais gente do que eles e nossa renda per capita é quase 2,5 vezes maior, temos que ganhar 40 vezes mais medalhas que aqueles comunas.
Mas neste Pan eles ganharam 58 ouros e nós, apenas 48.
Alguma coisa está errada. Como eles podem ganhar do Brasil, o gigante da América do Sul, a sétima maior economia do mundo?
Já sei! É tudo para fazer propaganda comunista.
A prova é que, em 1959, ano da revolução, Cuba ficou apenas em oitavo lugar no Pan de Chicago. Doze anos depois, no Pan de Cáli, já estava em segundo lugar. Daí em diante, nunca caiu para terceiro. Nos jogos de Havana, em 1991, conseguiu até ficar em primeiro lugar, ganhando dos EUA por 140 a 130 medalhas de ouro.
Sim, é para fazer propaganda do comunismo que os cubanos se esforçam tanto no esporte. E também na saúde (eles têm um médico para cada 169 habitantes, enquanto o Brasil tem um para cada 600) e na educação (a taxa de alfabetização deles é de 99,8%). Além disso, o Índice de Desenvolvimento Humano de Cuba é 0,863, enquanto o nosso é 0,813.
Tudo para fazer propaganda comunista!
Aliás, eles têm nada menos do que trinta mil propagandistas vermelhos na cultura esportiva. Ou professores de educação física, se você preferir. Isso significa um professor para cada 348 habitantes. E logo haverá mais ainda, porque eles têm oito escolas de Educação Física de nível médio, uma faculdade de cultura física em cada província, um instituto de cultura física a nível nacional e uma Escola Internacional de Educação Física e Desportiva.
Há tantos e tão bons técnicos em Cuba que o país chega a exportar alguns. Nas Olimpíadas de Sydney, por um exemplo, havia 36 treinadores cubanos em equipes estrangeiras.
E existem tantos professores porque a Educação Física é matéria obrigatória dentro do sistema nacional de educação.
Até aí, tudo bem. No Brasil a Educação Física também é obrigatória.
A questão é que, se um cubano mostrar certo gosto pelo esporte, pode, gratuitamente, ir para uma das 87 Academias Desportivas Estaduais, para uma das 17 Escolas de Iniciação Desportiva Escolar (EIDE), para uma das 14 Escolas Superiores de Aperfeiçoamento Atlético (ESPA), e, finalmente, para um dos três Centros de Alto Rendimento.
Ou seja, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado.
Pô, assim não vale!
Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza.
Quero ver é eles ganharem tantas medalhas sendo como nós, um país onde a Educação Física nas escolas é, muitas vezes, apenas o horário do futebol para os meninos e da queimada para as meninas. Quero ver é eles ganharem medalhas com apoio estatal pífio, sem massificar o esporte, sem um aperfeiçoamento crescente e planejado.
Quero ver é fazer que nem a gente, no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!
Malditos comunistas...
José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.
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Das línguas africanas ao português brasileiro

Do século XVI ao século XIX, o tráfico transatlântico trouxe para o Brasil 4 a 5 milhões de falantes africanos extraídos de duas regiões subsaarianas : a região banto, situada ao longo da extensão sul da linha do equador, e a região oeste-africana ou sudanesa, que abrange territórios que vão do Senegal à Nigéria.
A região banto compreende um grupo de 500 línguas muito semelhantes, que são faladas na África sub-equatorial. Entre elas, as de maior número de falantes no Brasil foram três línguas angolanas: quicongo, também falada no Congo, quimbundo e umbundo. Das línguas oeste-africanas ou sudanesas, seus principais representantes no Brasil foram os povos do grupo ewe-fon provenientes de Gana, Togo e Benim, apelidados pelo tráfico de minas ou jejes, e os iorubás da Nigéria e do Reino de Queto (Ketu), estes últimos na vizinha República do Benim, onde são chamados de nagôs.
No entanto, apesar dessa notável diversidade de línguas, todas elas têm uma origem comum. Pertencem a uma só grande família lingüística Níger-Congo (Greenberg 1966). Logo, são todas línguas aparentadas.
Fatos relevantes
Explicar a participação de línguas africanas na construção da língua portuguesa no Brasil é ter em conta a atuação do negro-africano como personagem falante no desenrolar dos acontecimentos e procurar entender os fatos relevantes de ordem sócio-econômica e de natureza lingüística que favoreceram o avanço consecutivo do componente africano nesse processo.
Inicialmente, o contingente de negros e afro-descendentes era superior ao número de portugueses e outros europeus, durante três séculos consecutivos, num contexto social e territorial cujo isolamento em que foi mantida a colônia pelo monopólio do comércio externo brasileiro feito por Portugal até 1808 condicionou um ambiente de vida de aspecto conservador e de tendência niveladora, mais aberto à aceitação de aportes culturais mútuos e de interesses comuns. Aqui, merecem destaque a atuação socializadora da mulher negra na função de mãe-preta no seio da família colonial, e o processo de socialização lingüística exercido pelos negros ladinos, aqueles que, aprendendo rudimentos de português, podiam falar a um número maior de ouvintes, e influenciá-los, resultando daí por adaptarem uma língua a outra e estimularem a difusão de certos fenômenos lingüísticos entre os não bilíngües.(Ver Pessoa de Castro 1990).
No século XIX, o processo de urbanização que se iniciava no Brasil a partir da instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro e a abertura dos portos em 1808, exigiram a fixação nas cidades da mão-de-obra escrava recém-trazida da África, numa época em que a maioria da população brasileira era constituída de mestiços e crioulos. Esses, já nascidos no Brasil, falando português como primeira língua, por conseguinte, mais desligados de sentimentos nativistas em relação à África e susceptíveis à adoção e aceitação de padrões europeus então vigentes.
Finalmente, com a extinção do tráfico transatlântico para o Brasil em 1856 até a abolição oficial da escravatura no país em 1888, o tráfico interno foi intensificado. Negros escravizados nas plantações do nordeste foram levados para outras nas regiões do sul e sudeste (depois ocupadas por europeus e asiáticos) e, em direção oposta, do centro-oeste para explorar a floresta amazônica onde os povos indígenas são preponderantes. Em conseqüência, portanto, da amplitude geográfica alcançada por essa distribuição humana, o elemento negro foi uma presença constante em todas as regiões do território brasileiro sob regime colonial e escravista.
No entanto, nesse contexto sócio-histórico, cada língua ou grupo de línguas teve sua influência própria.
Os bantos
A influência banto é muito mais profunda em razão da antiguidade do povo banto no Brasil, da densidade demográfica e amplitude geográfica alcançada pela sua distribuição humana em território brasileiro.
A sua presença foi tão marcante no Brasil no século XVII que, em 1697, é publicada, em Lisboa, A arte da língua de Angola, do padre Pedro Dias, a mais antiga gramática de uma língua banto, escrita na Bahia para uso dos jesuítas, com o objetivo de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros angolanos, segundo Antônio Vieira, que se encontravam na cidade do Salvador sem falar português (Cf. Silva Neto 1963:82).
Os aportes bantos ou bantuismos, ou seja, palavras africanas que entraram para a língua portuguesa no Brasil, estão associados ao regime da escravidão (senzala, mucama, bangüê, quilombo), enquanto a maioria deles está completamente integrada ao sistema lingüístico do português, formando derivados portugueses a partir de uma mesma raiz banto (esmolambado, dengoso, sambista, xingamento, mangação, molequeira, caçulinha, quilombola), o que já demonstra uma antiguidade maior. Em alguns casos, a palavra banto chega a substituir a palavra de sentido equivalente em português: caçula por benjamim, corcunda por giba, moringa por bilha, molambo por trapo, xingar por insultar, cochilar por dormitar, dendê por óleo-de-palma, bunda por nádegas, marimbondo por vespa, carimbo por sinete, cachaça por aguardente. Alguns já estão documentados na literatura brasileira do século XVII, a exemplo dos que se encontram na poesia satírica de Gregório de Matos e Guerra. (1633-1696).
Os oeste-africanos
Ao encontro dessa gente banto já estabelecida nos núcleos coloniais em desenvolvimento, é registrada a presença de povos ewe-fon, cujo contingente foi aumentado em conseqüência da demanda crescente de mão-de-obra escravizada nas minas de ouro e diamantes, então descobertas em Minas Gerais, Goiás e Bahia, simultaneamente com a produção de tabaco na região do Recôncavo baiano.
Sua concentração, no século XVIII foi de tal ordem em Vila Rica que chegou a ser corrente entre a escravaria local um falar de base ewe-fon, registrado em 1731/41 por Antônio da Costa Peixoto em A obra nova da língua geral de mina, só publicada em 1945, em Lisboa. Também Nina Rodrigues, ao findar do século XIX, teve oportunidade de registrar um pequeno vocabulário jeje-mace (fon) de que ainda se lembravam alguns dos seus falantes na cidade do Salvador, assim como de outras quatro línguas oeste-africanas (acossa, tapa, Gramsci, flane). (Ver Pessoa de Castro 2002).
Ao findar do século XVIII, a cidade do Salvador começa a receber, em levas numerosas e sucessivas, um contingente de povos procedentes da Nigéria atual, em conseqüência das guerras interétnicas que ocorriam na região. Entre eles, a presença nagô-iorubá foi tão significativa que o termo nagô na Bahia começou a ser usado indiscriminadamente para designar qualquer indivíduo ou língua de origem africana no Brasil. Nina Rodrigues mesmo dá notícia de um "dialeto nagô", que era falado pela população negra e mestiça da cidade do Salvador naquele momento e que ele não documentou, mas definiu como "uma espécie de patois abastardado do português e de várias línguas africanas" (cf. Rodrigues 1942::261). Logo, não se tratava da língua iorubá, como muitos ainda se deixam confundir.
Devido a uma introdução tardia e à numerosa concentração dos seus falantes na cidade do Salvador, os aportes do iorubá são mais aparentes, especialmente porque são facilmente identificados pelos aspectos religiosos de sua cultura e pela popularidade dos seus orixás no Brasil (Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxossi, etc.).
O português do Brasil
Depois de quatro séculos de contato direto e permanente de falantes africanos com a língua portuguesa no Brasil, esse processo de interação lingüística, apoiada por fatores favoráveis de ordem sócio-histórica e cultural, foi provavelmente facilitado pela proximidade relativa da estrutura lingüística do português europeu antigo e regional com as línguas negro-africanas que o mestiçaram. Entre essas semelhanças, o sistema de sete vogais orais (a, e, ê, i, o ê, u) e a estrutura silábica ideal (CV.CV) (consoante vogal.consoante vogal), onde se observa a conservação do centro vocálico de cada sílaba e não há sílabas terminadas em consoante. Essa semelhança estrutural provavelmente precipitou o desenvolvimento interno da língua portuguesa e possibilitou a continuidade da pronúncia vocalizada do português antigo na modalidade brasileira (onde as vogais átonas também são pronunciadas), afastando-a, portanto, do português de Portugal, de pronúncia muito consonantal, o que dificulta o seu entendimento por parte do ouvinte brasileiro, fazendo-lhe parecer tratar-se de outra língua que não a portuguesa (Cf. a pronúncia brasileira *pi.neu, *a.di.vo.ga.do, *su.bi.ma.ri.no em lugar de pneu, a(d).v(o).ga.do, su(b).m(a).ri.no) (V. Pessoa de Castro 2005) Nesse processo, o negro banto, pela antiguidade, volume populacional e amplitude territorial alcançada pela sua presença humana no Brasil colônia, ele, como os outros, adquiriu o português como segunda língua, tornando-se o principal agente transformador da língua portuguesa em sua modalidade brasileira e seu difusor pelo território brasileiro sob regime colonial e escravista. Ainda hoje, inúmeros dialetos de base banto são falados como línguas especiais por comunidades negras da zona rural, provavelmente remanescentes de antigos quilombos em diversas regiões brasileiras (V. Queiroz 1998, Vogt e Fry 1996). Ao encontro dessa matriz já estabelecida assentaram-se os aportes do ewe-fon e do iorubá, menos extensos e mais localizados, embora igualmente significativos para o processo de síntese pluricultural brasileira, sobretudo no domínio da religião.
Diante dessas evidências, chegamos necessariamente a uma conclusão compatível com as circunstâncias extralingüísticas que foram favoráveis a esse processo: o português do Brasil, naquilo em que ele se afastou do português de Portugal, é, historicamente, o resultado de um movimento implícito de africanização do português e, em sentido inverso, de aportuguesamento do africano sobre uma matriz indígena pré-existente e mais localizada no Brasil. Assim sendo, o português brasileiro descende de três famílias lingüísticas: a família Indo-Européia que teve origem entre a Europa e a Ásia, da qual faz parte a língua portuguesa; a família Tupi, de línguas faladas pelo indígenas brasileiros e que se espalha pela América do Sul; e, por fim, a família Níger-Congo que teve origem na África subsaariana e se expandiu por grande parte desse continente. Conseqüentemente, povos indígenas e povos negros, ambos marcaram profundamente a cultura do colonizador português que se estabeleceu no Brasil, dando origem à uma nova variação da língua portuguesa – mestiça, brasileira.
Regiões de concentração do tráfico para o Brasil
Oeste-africanos:
Ewe-fon (mina-jeje)
1.Gana 2. Togo 3. Benim
Nagô-Iorubá
3. Reino de Queto ( Benim) e 4. Nigéria
Bantos
5. Gabão 6. Congo 7. Congo-Kinshasa 8.Angola 9. Moçambique
Bibliografia
GREENBERG, Joseph (1966) - The languages of Africa. Bloomington, Indiana University.
GÜTHRIE, Malcolm (1948) - The classification of the Bantu languages. London, Oxford University Press.
LIMA, Vivaldo da Costa. “A família-de-santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais”. Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA, 1977.
MENDONÇA, Renato (1935) - A influência africana no português do Brasil. 2 a ed. São Paulo: Editora Nacional.
MELO, Gladstone Chaves de (1946) - A língua do Brasil. São Paulo: Agir Editora.
PESSOA DE CASTRO, Yeda (1980) - “Os falares africanos na interação social do Brasil Colônia”. Salvador, Centro de Estudos Baianos/UFBA, nº 89.
PESSOA DE CASTRO, Yeda (1990) - No canto do acalanto. Salvador. Centro de Estudos Afro-Orientais, Série Ensaio/Pesquisa, 12.
PESSOA DE CASTRO, Yeda (2005) - Falares africanos na Bahia:¨um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/ Topbooks Editora.
PESSOA DE CASTRO, Yeda (2002) - A língua mina-jeje no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Coleção Mineiriana).
QUEIROZ, Sônia (1998) - Pé preto no barro branco. A língua dos negros de Tabatinga. Belo Horizonte: EDUFMG.
RAYMUNDO, Jacques (1933) - O elemento afro-negro na língua portuguesa. Rio de Janeiro: Renascença Editora.
RODRIGUES, Nina ([1945] 1993) Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Nacional.
SILVA, Alberto da Costa e ( 2002) - A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.
SILVA NETO, Serafim da (1963) - Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: INL/MEC.CARNEIRO, Edison. Ladinos e crioulos; estudos sobre o negro no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964 (Retratos do Brasil, 28).
VOGT, Carlos, FRY, Peter (1996) Cafundó, a África no Brasil - língua e sociedade. São Paulo: Cia. das Letras; Campinas: Editora Unicamp.
WESTERMANN, Dietrich and BRYAN, M.A.(1953) - Languages of West Africa. London: Oxford University Press.
Yeda Pessoa de Castro
Revista do IPHAN
No História Viva
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Lula agradece pelo apoio recebido

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Aldo Rebelo proporá desmatamento como nova modalidade olímpica

O novo ministro Aldo Rebelo acredita que a senadora Katia Abreu é certeza de medalha de ouro nos duzentos alqueires rasos
COI – O novo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, relator do código florestal, acredita que o Brasil poderá aumentar a sua performance olímpica se lograr incluir, no certame quadrienal, novas modalidades desportivas que pratica com histórica excelência.
“É preciso reconhecer que o rol de esportes olímpicos é uma construção social que reflete a iniquidade das relações Norte-Sul”, disse o comunista, “e é preciso que as nações periféricas resistam a esse quadro de colonialismo desportivo.”
Rebelo pretende levar ao Comitê Olímpico Internacional a proposta de incluir, já em 2016, as modalidades de levantamento de motosserra, desmatamento 4 x 100 alqueires, lançamento de verbas para ONGs de inclusão social e maratona de anistia a latifundiários.
Cuba e a Coreia do Norte receberam bem a indicação de Aldo Rebelo, e se mostraram abertas à proposta do novo ministro para que algumas instalações das Olimpíadas de 2016 sejam levadas para Pyonyang e Havana. Segundo PMs ligados a Rebelo, o novo ministro julga que seria oportuno instalar o centro de imprensa em uma das duas cidades.
Aldo Rebelo deixou claro que se sente muito à vontade no novo cargo, pois tem larga experiência com atividades físicas. “Não passo um só dia sem espanar minha estátua de Enver Hoxha e costumo fazer caminhadas pelo lago Paranoá carregando os três tomos da correspondência amorosa de Stalin”, disse.
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Professores da USP apoiam alunos que confrontaram PM

Em protesto contra a presença da PM, estudantes ocuparam prédio de administração da faculdade
“A Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo, integrada por representantes de professores, alunos e funcionários, desaprovou a ação da Polícia Militar no confronto com estudantes na noite da última quinta-feira. Para eles, a intervenção da PM "extrapolou os propósitos originalmente concebidos com o convênio" com a reitoria da USP.
O pronunciamento foi publicado no site da faculdade após uma sessão extraordinária feita na segunda-feira, que discutiu a detenção de três alunos por suposto porte de maconha, o confronto com a PM e a posterior invasão do prédio de administração da FFLCH como forma de protesto. "As reações de alunos, embora previsíveis, não teriam tido o desdobramento que tiveram caso houvesse prevalecido o bom entendimento entre as partes envolvidas, sem apelo à violência", defendeu a entidade. Eles criticaram também o convênio da PM com a USP, dizendo que os termos são "vagos, imprecisos e não preenchem as expectativas da comunidade uspiana por segurança adequada".
A Congregação lembrou que "a intervenção da PM ocorreu em um espaço social sensível à presença de forças coercitivas, face ao histórico, ainda recente na memória coletiva da comunidade acadêmica, de intervenções policiais violentas durante a ditadura militar". Além disso, a entidade se propôs a fazer reuniões com a administração da universidade para reavaliar o convênio firmado com a PM, a discutir uma política interna de prevenção de drogas com a comunidade acadêmica, e a fazer estudos para revisar regulamentos que disciplinam processos administrativos movidos contra estudantes.”
Apoio de acadêmicos
Além do apoio da Congregação, os alunos que confrontaram a PM na semana passada foram defendidos por professores da USP. Em um artigo publicado no site do Diretório Central dos Estudantes Livre Alexandre Vannucchi Leme (DCE), Lincoln Secco, professor livre-docente em História Contemporânea, afirmou que a imprensa retratou os alunos como "um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios", enquanto ele e outros viram "jovens indignados", com "livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei".
"É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial", diz o acadêmico. Ele reconhece que a USP "não está fora da cidade e do país que a sustenta", mas diz que a universidade precisa de um plano de segurança próprio, "como outras instituições têm". "Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais."
O professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP, Jorge Luiz Souto Maior, critica a declaração que ele atribui ao governador Geraldo Alckmin sobre o conflito, de que "Ninguém está acima da lei". "Todos estão sob o império da lei, mas não pode haver obstáculos institucionalizados para a discussão pública da necessidade ou não de sua alteração." Ele acrescenta que "a lei deve ser fruto da vontade popular, fixada a partir de experiências democráticas, que tanto se estabelecem pelo meio institucionalizado da representação parlamentar quanto pelo livre pensar e pelas manifestações públicas espontâneas".
Ele ainda rebate o argumento de que os alunos quereriam, com o protesto, "um tratamento especial diante da lei" ou "benefício pessoal". "Para ser completamente, claro, não estão querendo fumar maconha no Campus sem serem incomodados pela lei. Querem, isto sim, manifestar, democraticamente, sua contrariedade à presença da PM no Campus universitário", diz ele, "não pelo fato de que a presença da polícia lhes obsta a prática de atos ilícitos, mas porque o ambiente es colar não é, por si, um caso de polícia".
Confronto com a PM
A confusão começou no início da noite de quinta-feira, após a PM flagrar três alunos portando maconha. No momento em que os policiais foram levar o trio para a delegacia, foram impedidos por estudantes. Um grupo de cerca de 300 alunos se aglomerou para protestar contra a presença policial no campus, e a polícia chamou reforço.
Os manifestantes cercaram a viatura que levava os estudantes e começaram a discutir com os PMs. A polícia usou cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Viaturas ficaram danificadas. Os estudantes detidos pela polícia foram levados ao 91º DP, onde assinaram um termo circunstanciado, e liberados.
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Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto

O meu tratamento custaria algo em torno de R$ 12.000,00 por mês. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO.
Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.
Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.
Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.
O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença de morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.
O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.
A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.
O meu tratamento custaria algo em torno de R$ 12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.
O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$ 2.000,00.
Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.
Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.
Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.
Nina Crintzs
No Tudo em Cima
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Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo

A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso.
A cultura de tentar ganhar no grito tem prevalecido sobre a boa educação e o senso de humanidade na política brasileira. E o alvo preferencial do “vale-tudo” é, em disparada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por algo mais do que uma mera coincidência, nunca antes na história desse país um senador havia ameaçado bater no presidente da República, na tribuna do Legislativo. Nunca se tratou tão desrespeitosamente um chefe de governo. Nunca questionou-se tanto o merecimento de um presidente – e Lula, além de eleito duas vezes pelo voto direto e secreto, foi o único a terminar o mandato com popularidade maior do que quando o iniciou.
A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. A campanha que se espalhou nas redes sociais pelos adversários políticos de Lula, para que ele se trate no Sistema Único de Saúde (SUS), é de um mau gosto atroz. A jornalista que o culpou, no ar, pelo câncer que o vitimou, atribuindo a doença a uma “vida desregrada”, perdeu uma grande chance de ficar calada.
Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer. Numa democracia, o opositor é chamado de adversário, não de inimigo (para quem não tem idade para se lembrar, na nossa ditadura militar os opositores eram “inimigos da pátria”). Essa forma de qualificar quem não pensa como você traz, implicitamente, a ideia de que a divergência e o embate político devem se limitar ao campo das ideias. Esta é a regra número um de etiqueta na política.
A segunda regra é o respeito. Uma autoridade, principalmente se se tornou autoridade pelo voto, não é simplesmente uma pessoa física. Ela é representante da maioria dos eleitores de um país, e se deve respeito à maioria. Simples assim. Lula, mesmo sem mandato, também o merece. Desrespeitar um líder tão popular é zombar do discernimento dos cidadãos que o apoiam e o seguem. Discordar pode, sempre.
A terceira regra de boas maneiras é tratar um homem público como homem público. Ele não é seu amigo nem o cara com quem se bate boca na mesa de um bar. Essa regra vale em dobro para os jornalistas: as fontes não são amigas, nem inimigas. São pessoas que estão cumprindo a sua parte num processo histórico e devem ser julgadas como tal. Não se pode fazer a cobertura política, ou uma análise política, como se fosse por uma questão pessoal. Jornalismo não deve ser uma questão pessoal. Jornalistas têm inclusive o compromisso com o relato da história para as gerações futuras. Quando se faz jornalismo com o fígado, o relato da história fica prejudicado.
A quarta regra é a civilidade. As pessoas educadas não costumam atacar sequer um inimigo numa situação tão delicada de saúde. Isso depõe contra quem ataca. E é uma péssima lição para a sociedade. Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia. Os formadores de opinião tem a obrigação de disseminar esses valores.
A quinta regra é não se deixar contaminar por sentimentos menores que estão entranhados na sociedade, como o preconceito. O julgamento sobre Lula, tanto de seus opositores políticos como da imprensa tradicional, sempre foi eivado de preconceito. É inconcebível para esses setores que um operário, sem curso universitário e criado na miséria, tenha ascendido a uma posição até então apenas ocupada pelas elites. A reação de alguns jornalistas brasileiros que cobriram, no dia 27 de setembro, a solenidade em que Lula recebeu o título “honoris causa” pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, é uma prova tão evidente disso que se torna desnecessário outro exemplo.
No caso do jornalismo, existe uma sexta regra, que é a elegância. Faltou elegância para alguns dos meus colegas.
Maria Inês Nassif
Colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.
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Luan Santana – he can fly! \o/

Olhos retinhos, gente! Naonde que esse menino pode ser vesgo? :P
Não sei quanto a vocês, mas bateu nostalgia agora, sabe? Me lembrei do meu irmão molecote assistindo aos jogos da NBA com o Michael Jordan, e repetindo a fala do narrador: “Jordan for three… he-can-fly!” (algo como: Jordan [vai tentar um arremesso] de três [pontos] Esse homem consegue voar!“)
Porque, né? Ao menos alguma boa lembrança uma lambança destas suscitou:
Uma simples alteração de sujeito resolvia a bagaça: “Aeronave com Luan Santana a bordo faz pouso técnico após falha“.
Mas não. Teve que botar o Luan de sujeito da frase. Certas lambanças tornam o voo humano (sem acento) possível, né?
O que mais me deixou mesmerizada foi o autor da lambança! PÔ, ESTADÃO?!?!?!!? BAIXOU UMA FOLHA BÁSICA, É?!?!?!?!
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Globo esconde Lula para não reforçar o mito


O jornal nacional desta segunda-feira dedicou mais espaço aos 7 bilhões de habitantes da Terra do que ao início da quimio do Nunca Dantes.
O que interessa ao brasileiro saber que há mais um chinês ou indiano na face da Terra?
Especialmente, porque o aumento da população brasileira hoje é parecido com a de países europeus.
Irrelevante.
Por quê?
A Globo perdeu o senso?
Não, amigo navegante.
No jn do Ali Kamel não há coincidências.
Vamos construir uma hipótese.
A Globo já percebeu que o Nunca Dantes vai sair dessa.
É o Lula que saiu do Governo com 80% de popularidade, mais uma vitoria contra o câncer.
É o Lula mais o Super Lula.
O PiG não vai aguentar!
Não adianta o PiG torcer ou inventar especialistas pessimistas.
O câncer foi localizado a tempo.
Ele não perderá a voz – que sempre foi rouca.
O cabelo e a barba vão voltar a crescer.
E ele vai subir nos palanques como quem renasceu.
Outro tiro no peito da Globo.
E do PiG.
É por isso que a Globo deu mais destaque ao nascimento de um Ching Ling na China.
E o Bernardo ainda transfere a Ley de Medios para 2099
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
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As tensões da política

Os médicos ouvidos nestes últimos três dias debitam ao fumo e ao álcool a enfermidade que castiga Lula. As terríveis verdades são muitas, como as cabeças da hidra. A enfermidade, desde Hipócrates, tem sido vista como o resultado de um conflito. Em primeiro lugar, há o conflito entre o desenho evolutivo do homem e sua construção individual. As descobertas recentes mostram que esse conflito se inicia na combinação genética. Mas é preciso também ver a doença, como indicam outros estudiosos, no confronto entre o organismo e o ambiente, como atestam as doenças profissionais. O ambiente não é só o físico, com as alterações do clima e a poluição. Mais duro talvez seja o ambiente da vida em comum – a circunstância moral em que os homens se movem.
No caso dos homens públicos, as pressões do dia-a-dia e as noites indormidas, nas duras exigências da política, costumam ser fatais. Essas pressões, quando as saídas se estreitam, podem levar muitos ao suicídio, como ocorreu a Getúlio Vargas, em 1954, a José Manuel Balmaceda, do Chile em 1891, e provavelmente a Allende, em 1973. No caso, essa fatalidade costuma ser indiferente às questões éticas. Tanto podem levar ao suicídio as grandes causas quanto a demência, como ocorreu a Nero, entre outros.
Normalmente, essas tensões são indutoras de enfermidades graves. Em nossa contemporaneidade – à parte casos suspeitos, como os da morte de Jango, Lacerda e Juscelino – assistimos ao sofrimento e ao fim de Teotônio Vilela, Mário Covas, Quércia, José Alencar, e Itamar Franco, todos eles atingidos pelo traiçoeiro, como ao câncer se referiu outra de suas vítimas, José Aparecido de Oliveira. Com Itamar, que estava em seu momento mais alto da vida, a leucemia foi mais cruel, não lhe dando muita chance para a luta. José Aparecido estava fora do poder, mas as vicissitudes dos últimos anos, quando viu a grande criação de sua vida política – a CPLP – estiolada pela sabotagem do governo Fernando Henrique – devem ter contribuído para a vitória do traiçoeiro.
O caso de Tancredo – que poderia ter exercido a Presidência, não fossem os erros médicos, tão toscos que levam à suspeição – foi de outra etiologia e diferente patologia, mas é evidente que as duras tensões acumuladas, ao longo da vida, contribuíram para que o seu organismo fosse menos resistente, naqueles 38 dias fatais.
Naqueles sete meses, que vão de 14 de agosto de 1984 – quando deixou o governo de Minas – à véspera da frustrada posse na Presidência, Tancredo foi exposto a pressões que nenhum outro político brasileiro sofrera. Elas foram quase intoleráveis, nas articulações para a consolidação da Aliança Democrática e, em seguida à eleição, na formação do Ministério. Testemunha daqueles dias finais, em que as tensões se fizeram mais duras, sei que os constrangimentos – por mais resistente ele fosse – ajudaram a arranhar-lhe os nervos, debilitar suas células e provocar o intenso conflito entre a força de seu caráter e as injunções da inesperada enfermidade.
A História está repleta desses dramas. O caso de Evita Perón é um deles, o de Kirchner, outro. Antes deles, também na Argentina, houve Yrigoyen, o pioneiro da política antiimperialista continental e hoje esquecido. O grande presidente, o primeiro a nacionalizar o petróleo, com a criação do YPF, foi destituído em sua segunda presidência – tal como Vargas, pelas pressões da Standard Oil, e tal como Vargas, com a traição de generais a serviço de Washington. É bom anotar que o YPF, a Petrobrás argentina, assumiu o monopólio do mercado do petróleo em 1º de agosto de 1930, e em 6 de setembro o general Uriburu deu o golpe de Estado. Yrigoyen não se matou, mas foi confinado na Ilha de Martin Garcia, onde a depressão lhe corroeu a saúde, para matá-lo em 1933. Eva pode ter sido, e foi, a adolescente sonhadora, que se aproximou de um homem poderoso e o tornou mais poderoso ainda, instigando-o com sua própria determinação e coragem. Uma vez no poder, ela recuperou a ligação com o povo a que pertencia, como filha bastarda de um capataz de fazenda e de uma dona de pensão, e neta de carroceiro basco e de uma vivandeira, durante a guerra de extermínio contra os índios do norte, movida pelo general Julio Roca. No poder, ela se confrontou não só com os inimigos de Perón, mas também com correligionários do general, que não suportavam a sua influência ideológica. Foram pressões fortes, algumas talvez do próprio Perón, que alimentaram o câncer que a matou.
Estamos agora assistindo à resistência de Hugo Chávez à doença. Seus inimigos exultam e esperam. Seus partidários temem o pior, mas é certo que ele vem lutando com coragem, como lutaram, e lutam os nossos.
Felizmente, uma providencial dor de garganta levou Lula aos médicos, e as suas chances de cura são iguais às que ajudaram Dilma, que venceu a enfermidade e está em plena e bem conduzida atividade como presidente da República – uma república que, de acordo com a síntese dura de Jânio Quadros, “está, desde Deodoro, sob o signo do infortúnio”. Mas não há dúvida que, também em seu caso, as tensões atuaram a fim de abrir-lhe o corpo à doença.
Polícia contra polícia
É constrangedor que, no mesmo dia em que observadores internacionais anunciam que o Brasil, neste fim de ano, ultrapassará a orgulhosa Grã Bretanha, como a sexta economia do mundo, o deputado Marcelo Freixo seja obrigado a refugiar-se no exterior, ameaçado de morte por “milicianos”, ou seja, por políticos e bandidos, associados às forças policiais do Rio de Janeiro.
É um desaforo e um desafio ao Estado, que não pode continuar sem resposta dura e definitiva. A solução está em criar nova organização policial civil, subordinada diretamente ao governo da União, bem remunerada, formada por homens de coragem e idoneidade moral, que possa, a pedido dos estados, identificar e levar à justiça esses criminosos. A lei penal deve ser também revista, a fim de punir, com mais rigor e celeridade, os que, pagos para proteger a sociedade, tornam-se matadores vulgares, como os assassinos dos pobres da periferia, e de juízes, como Patrícia Acioly – e que pretendem matar o deputado Marcelo Freixo.
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Refrigerantes brasileiros terão que reduzir substância cancerígena

Fabricantes de refrigerantes de baixas calorias ou dietéticos cítricos terão que reduzir a quantidade de benzeno (substância cancerígena) das bebidas, conforme acordo fechado com Ministério Público Federal em Minas Gerais. Mas as indústrias terão prazo de até cinco anos. As informações são da Proteste Associação de Consumidores.
O Termo de Ajustamento de Conduta assinado com Ambev, Coca-Cola e Schincariol prevê que a quantidade máxima deverá ficar em cinco microgramas por litro.
A presença do benzeno nas bebidas foi detectada em 2009 pela Proteste ao realizar exames em 24 amostras de diferentes marcas. O TAC foi assinado agora, dois após o MPF instaurar inquérito civil público para apurar o caso.
Ao analisar 24 amostras de diferentes marcas, a Proteste detectou a presença do benzeno em sete delas: Fanta laranja, Fanta laranja light, Sukita, Sukita Zero, Sprite Zero, Dolly guaraná e Dolly guaraná diet.
Em duas das amostras – Fanta Laranja Light e Sukita Zero – a concentração estava acima dos limites considerados aceitáveis para a saúde humana. Foram encontrados limites aceitáveis de benzeno no Dolly guaraná tradicional e light, na Fanta laranja tradicional, Sukita tradicional e no Sprite Zero.
De acordo com o MPF, a legislação brasileira, em especial o Código de Defesa do Consumidor, estabelece que os produtos colocados à venda no mercado não poderão trazer riscos à saúde ou à segurança dos consumidores, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a fornecer as informações necessárias e adequadas a respeito.

Veja também o post Benzeno em Refrigerantes, publicado em 05 de agosto de 2009.
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A depravação da América

A cultura dos Estados Unidos foi inundada por um tsunami de mentiras. O marketing se tornou a atividade predominante da cultura. É uma coisa seguida por pessoas de negócios, políticos e pela mídia. O dinheiro é tudo o que importa. Foi-se o tempo em que a ética protestante definia o caráter dos EUA. Ela foi usada pelos sociólogos como fator responsável pelo sucesso do capitalismo na Europa do Norte e nos EUA, mas a ética protestante e o capitalismo se tornaram incompatíveis. A "América" está se tornando uma região de depravação raramente superada pelas piores nações da história.
Foi-se o tempo em que a ética protestante definia o caráter dos Estados Unidos. Ela foi usada como fator responsável pelo sucesso do capitalismo na Europa do Norte e na América, pelos sociólogos, mas a ética protestante e o capitalismo são incompatíveis, e o capitalismo, em última análise, faz com que a ética protestante seja abandonada.
Há um novo ethos que emergiu, e as elites governamentais não o entendem. Trata-se do etos da “grande oportunidade”, do “prêmio”, da “próxima grande ideia”. A marcha lenta e deliberada em direção ao sucesso é hoje uma condenação do destino. Junto à próxima grande ideia comercial está o novo modelo do "sonho americano". Tudo o que importa é o dinheiro. Dada essa atitude, poucos na América expressam preocupações morais. A riqueza é só o que se tem em vista; vale inclusive nos destruir para alcançá-la. E se não chegamos lá ainda, certamente em breve chegaremos.
Eu suspeito que a maior parte das pessoas gostaria de acreditar que sociedades, não importa as bases de suas origens, tornam-se melhores com o tempo. Infelizmente a história desmente essa noção; frequentemente as sociedades se tornam piores com o tempo. Os Estados Unidos da América não é exceção. O país não foi benigno em sua origem e agora declina, tornando-se uma região de depravação raramente superada pelas piores nações da história.
Embora seja impossível encontrar números que provem que a moralidade na América declinou, evidências cotidianas estão onde quer que se veja. Quase todo mundo pode citar situações nas quais o bem estar das pessoas foi sacrificado pelo bem das instituições públicas ou privadas, mas parece impossível citar um só exemplo de instituição pública ou privada que tenha sido sacrificada em nome do povo.
Se a moralidade tem a ver com o modo como as pessoas são tratadas, pode-se perguntar legitimamente onde a moralidade desempenha um papel no que está se passando nos EUA? A resposta parece ser: “Em lugar nenhum!” Então, o que tem aconteceu nos EUA para se ter a atual epidemia de afirmações de que a moralidade na América colapsou?
Bem, a cultura mudou drasticamente nos últimos cinquenta anos. Foi isso o que aconteceu. Houve um tempo em que a "América", o "caráter americano", era definido em termos do que se chamava de Ética Protestante. O sociólogo Max Weber atribuiu o sucesso do capitalismo a isso. Infelizmente, Max foi negligente; ele estava errado, completamente errado. O capitalismo e a ética protestante são inconsistentes entre si. Nenhum dos dois pode ser responsável pelo outro.
A ética protestante (ou puritana) está baseada na noção de que o trabalho duro e a ascese são duas consequências importantes para ser eleito pela graça da cristandade. Se uma pessoa trabalha duro e é frugal, ele ou ela é considerado como digno de ser salvo. Esses atributos benéficos, acreditava-se, fizeram dos estadunidenses o povo mais trabalhador do que os de quaisquer outras sociedades (mesmo que as sociedades protestantes europeias fossem consideradas parecidas e as católicas do sul da Europa fossem consideradas preguiçosas).
Alguns de nós afirmam agora que estamos testemunhando o declínio e a queda da ética protestante nas sociedades ocidentais. Como a ética protestante tem uma raiz religiosa, o declínio é frequentemente atribuído a um crescimento do secularismo. Mas isto seria mais facilmente verificável na Europa do que na América, onde o fundamentalismo protestante ainda tem muitos seguidores. Então deve haver alguma outra explicação para o declínio. Mesmo que o crescimento do secularismo tenha levado muita gente a dizer que ele destruiu os valores religiosos juntamente aos valores morais que a religião ensina, há uma outra explicação.
No século XVII, a economia colonial da América era agrária. Trabalho duro e ascese combinam perfeitamente com essa economia. Mas a América não é mais agrária. A economia dos EUA hoje é definida como capitalismo industrial. Economias agrárias raramente produzem mais do que é consumido, mas economias industriais o fazem diariamente. Assim, para se manter a economia industrial funcionando, o consumo deve não apenas ser contínuo, como continuamente crescente.
Eu duvido que haja um leitor que não tenha escutado que 70% da economia dos EUA resulta do consumo. Mas 70% de um é 0,7, ou de dois é 1,4, de três, 2,1, etc. À medida que economia cresce de um a dois pontos do PIB, o consumo deve crescer de 0,7 para 1,4 pontos. Mas o aumento crescente do consumo não é compatível com a ascese. Uma economia industrial requer gente para gastar e gastar, enquanto a ascese requer gente para economizar e economizar. A economia americana destruiu a ética protestante e as perspectivas religiosas nas quais foi fundada. O consumo conspícuo substituiu o trabalho duro e a poupança.
No seu A Riqueza das Nações, Adam Smith afirma que o capitalismo beneficia a todos, desde que cada um aja em benefício dos outros. Agora estão nos dizendo que “economizar mais e cortar gastos pode ser um bom plano para lidar com a recessão. Mas se todo mundo proceder assim isso só vai tornar as coisas piores....aquilo de que a economia mais precisa é de consumidores gastando livremente”. A grande recessão atingiu Adam Smith na sua cabeça, mas o economista admitiria isso. “Um ambiente em que todos e cada um quer economizar não pode levar ao crescimento. A produção necessita ser vendida e para isso você precisa de consumidores”.
Poupar é (presumivelmente) bom para indivíduos, mas ruim para a economia, a qual requer gasto contínuo crescente. Se um economista tivesse dito isso na minha frente, eu teria lhe dito que isso significa claramente que há algo fundamentalmente errado com a natureza da economia, que isso significa que a economia não existe para prover as necessidades das pessoas, mas que as pessoas existem apenas para satisfazer as necessidades da economia. Embora não pareça isso, uma economia assim escraviza o povo a quem diz servir. Então, de fato, o capitalismo industrial perpetrou a escravidão; ele tem reescravizado aqueles que um dia emancipou.
Quando o consumo substituiu a poupança na psique americana, o resto de moralidade afundou junto na depravação. A necessidade de vender requer marketing, o que nada mais é que a mentira das mentiras. Afinal de contas, toda empresa é fundada no que disse o livro de Edward L. Bernays, de 1928: Propaganda. A cultura americana tem sido inundada por um tsunami de mentiras. O marketing se tornou a atividade predominante da cultura. Ninguém pode se isolar disso. É uma coisa seguida por pessoas de negócios, políticos e pela mídia. Ninguém pode ter certeza de estarem lhe contando a verdade a respeito de alguém. Nenhum código moral pode sobreviver numa cultura de desonestidade, e de resto, ninguém pode!
Tendo subvertido a ética protestante, a economia destruiu toda ética que a América um dia promoveu. O país tornou-se uma sociedade sem um etos, uma sociedade sem propósito humano. Os americanos se tornaram cordeiros sacrificáveis para o bem das máquinas. Então, um novo etos emergiu do caos, um etos que a elite governamental desconhece completamente.
Diz-se frequentemente que Washington perdeu o contato com as pessoas que governa, que não entende mais seu próprio povo ou como sua cultura comum funciona. Washington e a elite do país não entendem isso, mas a cultura não valoriza mais o certo sobre o errado ou o trabalho duro e a ascese sobre a preguiça e a extravagância. Hoje os americanos estão buscando a “grande oportunidade”, o “prêmio”, a “próxima grande ideia”. O Sonho Americano foi hoje reduzido ao “acertar em cheio!”. A longa e deliberada estrada para o sucesso é uma condenação. Vejam American Idol, The X-Factor e America’s Got Talent e testemunhe a horda que se apresenta para os auditórios. Essas pessoas, em sua maior parte, não trabalharam duro em nada na vida. Contem o número de pessoas que regularmente apostam na loteria. Esse tipo de aposta não requer trabalho algum. Tudo o que essas pessoas querem é acertar em cheio. E quem é nosso homem de negócios mais exaltado? O empreendedor!
Empreendedores são, na sua maior parte, fogo de palha, mesmo que haja exceções notáveis. O problema com o empreendedorismo, no entanto, é a alta conta em que passou a ser tomado. Mas o único valor ligado a ele é a quantidade de dinheiro que os empreendedores têm feito. Raramente ouvimos alguma coisa a respeito do modo nefasto como esse dinheiro foi feito. Bill Gates e Mark Zuckerberg, por exemplo, dificilmente representam imagens de pessoas com moralidade exemplar, mas na economia sem escrúpulos morais, ninguém se importa; tudo o que importa é o dinheiro.
Dada essa atitude, por que alguém, nessa sociedade, expressaria preocupações morais? Poucos na América o fazem. Assim, enquanto a elite americana fala na necessidade de produzir força de trabalho sustentável para as necessidades de sua indústria, as pessoas não querem nada disso.
A elite frequentemente lastima a falência do sistema educacional americano e tem tentado melhorá-lo sem sucesso, por várias décadas. Mas se alguém presta atenção no atual estado de coisas na América, vê que a maior parte dos empreendedores de sucesso são pessoas que abandonaram faculdades. Como se pode convencer a juventude de que a educação universitária é um empreendimento que vale a pena? Assim como Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg mostraram, aprender a desenhar um software não requer graduação universitária. Nem ganhar na loteria ou vencer o American Idol. Fazer parte da Liga Nacional de Futebol pode requerer algum tempo na universidade, mas não a graduação. Todo o empreendedorismo requer uma nova ideia mercantil.
Entretenimento e esportes, loterias e programas de jogos e disputas, produtos de consumo de que as pessoas não tiveram necessidade por milhões de anos são agora as coisas que formam a cultura americana. Mas não são coisas, são lixo; não podem formar a base de uma sociedade humana estável e próspera. Esta é uma cultura governada meramente por um atributo: a riqueza, bem ou mal havida!
A capacidade humana de autoengano é sem limites. Os estadunidenses vêm se enganando com a crença de que a riqueza agregada, a soma total de riquezas, em vez de como ela é distribuída, dá certo. Não importa como foi obtida ou o que foi feito para se obter tal riqueza. A riqueza agregada é a única coisa que se tem em vista; é algo pelo que vale à pena destruir a nós mesmos. E mesmo que não o tenhamos alcançado ainda, em breve certamente o conseguiremos.
A história descreve muitas nações que se tornaram depravadas. Nenhuma delas jamais se reformou. Nenhum garoto bonito pode ser convocado para desfazer a catástrofe do Toque de Midas. O dinheiro, afinal de contas, não é uma coisa de que os humanos precisem para sobreviver, e se o dinheiro não é usado para produzir e distribuir as coisas necessárias, a sobrevivência humana é impossível, não importa o quanto de riqueza seja agregada ou acumulada.
John Kozy é professor aposentado de filosofia e lógica que escreve sobre assuntos econômicos, sociais e políticos. Depois de ter servido na Guerra da Coréia, passou 20 anos como professor universitário e outros 20 trabalhando como escritor. Publicou um livro de lógica formal, artigo acadêmicos. Sua página pessoal é http://www.jkozy.com onde pode ser contatado.
Tradução: Katarina Peixoto
No Carta Maior
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Eduardo Galeano e Jean Ziegler: A Ordem Criminosa do Mundo

 Imperdível 

Excelente!
Documentário exibido pela TVE espanhola, que aborda a visão de dois grandes humanistas contemporâneos sobre o mundo actual: Eduardo Galeano e Jean Ziegler.
Pode se dizer que há algo de profético em seus depoimentos, pois o documentário foi feito antes da crise que assolou os países periféricos da Europa, como a Espanha.
A Ordem Criminal do Mundo, o cinismo assassino que a cada dia enriquece uma pequena oligarquia mundial em detrimento da miséria de cada vez mais pessoas pelo mundo. O poder se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos, os direitos das pessoas cada vez mais restritos. As corporações controlando os governos de quase todo o planeta, dispondo também de instituições como FMI, OMC e Banco Mundial para defender seus interesses. Hoje 500 empresas detêm mais de 50% do PIB Mundial, muitas delas pertencentes a um mesmo grupo.
Indicado por Fada do Bosque
No Kafe Kultura
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Charge online - Bessinha - # 883

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