11 de out de 2011

A corrupção como fenômeno político

Os mitos disseminados acerca da corrupção encobrem seu entendimento como fenômeno intrinsecamente político, com consequências sociais, políticas, econômicas e culturais. Mais ainda, as imagens e versões morais e moralistas escamoteiam os efeitos da desigualdade social histórica e profunda do Brasil, assim como a utilização do Estado pelas e para as elites.
As denúncias de corrupção que assolam o governo Dilma nesse seu início têm sido divulgadas pela grande mídia como se fossem uma característica do atual agrupamento político que está no poder. Tudo se passa como se pessoas de caráter duvidoso se aproveitassem do Estado em favor de seus interesses pessoais e grupais.
Essa forma de veicular denúncias e indícios e, sobretudo, de interpretá-los, não apenas contribui para estigmatizar grupos políticos – no limite de sua criminalização, o que é um claro atentado à democracia – como, fundamentalmente, reafirma muitos dos mitos acerca do fenômeno da corrupção.
Deve-se notar que tais mitos são de variada ordem e se encontram espalhados pelo chamado senso comum e entre as elites, a começar pela mídia, que os espraia seletivamente. Sem a pretensão de esgotar todos eles, podem-se inventariar alguns:
• a colonização portuguesa, que seria essencialmente patrimonialista, em contraposição ao “poder local” e ao “espírito de comunidade” da tradição anglo-saxã, notabilizada por Tocqueville. Nessa imagem, haveria uma “inferioridade” da cultura e dos povos ibéricos, comparativamente a seus congêneres anglo-saxões, com consequências políticas nefastas a suas colônias. Assim, o patrimonialismo seria um legado do qual as ex-colônias jamais conseguiriam se livrar;
• a cultura brasileira, que não teria, mesmo após a independência e a República, conseguido separar o público do privado, mantendo as “raízes do Brasil”, conforme a análise culturalista de Sérgio Buarque de Holanda. Aqui, o universo miscigenado brasileiro, tão criticado por perspectivas eugenistas do início do século XX e mesmo por pensadores como Oliveira Viana, impregnaria as instituições com sua “amoralidade macunaímica” (a obra de Mario de Andrade é, nesse sentido, ironicamente sintética e crítica dessa perspectiva);
• o caráter (i)moral de grupos específicos que alçam ao poder, versão notabilizada pela UDN de Carlos Lacerda, intérprete da política à luz da moral (seletiva, diga-se) das relações pessoais: essa versão é bastante divulgada pela mídia contemporânea brasileira, com a mesma seletividade de então. Um exemplo dessa seletividade foi o processo de privatização, que, apesar de um sem-número de denúncias e indícios de corrupção no processo e na modelagem, foi sistematicamente negligenciado pela grande imprensa brasileira, em razão de seu apoio incondicional a ela. De toda forma, o fato é que a análise moralista aparece como fator explicativo dos processos de corrupção, mas seus intérpretes a invocam seletivamente;
• a disjunção entre elites políticas e sociedade, como se as primeiras não fossem reflexo, direto e/ou indireto, da última. Trata-se de visão simplista, mas bastante difundida, quanto à desconexão entre eleitos e eleitores, em razão ou da “corrupção inescapável” dos que chegam ao poder, ou de uma inexplicável autonomia dessas elites perante o corpo de eleitores;
• a ausência de uma base educacional formal sólida como explicação para comportamentos não republicanos. Nessa perspectiva, desconsideram-se o chamado “crime do colarinho branco” e as diversas formas de “tráfico de influência”, típicos das elites, como os atos mais graves e praticados por pessoas “educadas”, em termos de educação formal. Assim, o mote do senso comum – “a educação é a base de tudo” – concede à educação formal um poder equalizador, republicano e democrático que decididamente ela não tem e não pode ter, dado que a escola é também reflexo da sociedade, com todas as suas virtudes e mazelas, mesmo que seja um ambiente mais propício, em tese, à reflexão. Com isso, de forma alguma se está advogando a desimportância da escola, e sim seu papel real na sociedade, particularmente no Brasil. Nesse sentido, os meios de comunicação de massa são claramente concorrentes, com enorme superioridade quanto aos impactos, à escola, pois sua capacidade de incutir comportamentos e valores, inclusive estéticos, é brutal, ainda mais em países como o Brasil, em que não há qualquer responsabilização desses meios, embora sejam concessões públicas;
• por fim, a ausência e/ou fragilidade de leis e de instituições capazes de fiscalizar, controlar e punir os casos de malversação dos recursos públicos, como se o país fosse “terra de ninguém”, desconsiderando-se os inegáveis avanços institucionais desde 1988. É importante notar o novo papel do Ministério Público, com poderes inéditos na história brasileira, desde 1988; a recente criação das Defensorias Públicas estaduais, que contribuem para a melhoria do acesso à Justiça pelos mais pobres; as funções fiscalizatórias da Corregedoria Geral da União; as revisões no papel dos tribunais de contas, entre tantas outras instituições e marcos legais organizados em torno dos conceitos de controles internos, externos e sociais (caso, deste último, das organizações da sociedade politicamente organizada na fiscalização do Estado).
Um fenômeno sociológico
Todas essas versões tendem a negligenciar que a corrupção, em graus variados, existe em todos os países e é, de certa forma, também um fenômeno sociológico. Reitere-se que tais versões, com suas variações, são disseminadas na sociedade brasileira, tanto entre as elites quanto entre o senso comum – aliás, as chamadas elites tendem a comungar dos valores do senso comum quando o assunto é corrupção.
Pois bem, em contraste às considerações culturalistas – de modo geral preconceituosas e simplificantes –, às moralistas, às generalizantes e às pouco refletidas, urge analisarmos a corrupção como um fenômeno intrinsecamente político, que se refere, portanto, à maneira como o sistema político brasileiro está organizado.
A lógica do sistema político brasileiro é marcada pela privatização da vida pública, não em termos moralistas aludidos, e sim quanto às estruturas que o sustentam. Vejamos: o financiamento das campanhas políticas é essencialmente privado, embora haja também uma pequena parcela de financiamento público via fundo partidário, o que abre espaço à disseminada prática do caixa dois, com todas as suas variações; o sistema partidário é fluido e altamente flexível, o que é uma realidade desde a redemocratização, constituindo a vida partidária, para grande parte dos atuais 28 partidos existentes atualmente, num grande balcão de negócios.
Expressões do jargão político brasileiro, como “partido de aluguel”, “venda do tempo na TV e no rádio” com vistas às campanhas eleitorais, e alianças partidárias que objetivam a distribuição de nacos do Estado, têm por trás uma cadeia de interesses privados empresariais, de tamanhos e graus diversos, o que tende a fazer dos partidos representantes de interesses privados setoriais.
O próprio imperativo de governar por meio de amplas coalizões, em razão da fragmentação dos sistemas partidário e eleitoral, tem como resultado tanto a construção de alianças sem qualquer confluência programática, como a necessidade de o Estado, nos três níveis da federação, alocar tais grupos. Isto impacta a coerência e a coordenação das políticas públicas e a busca de uma política que se aproxime da caracterização de “pública”, dada a rede de relações e interesses privados, notadamente empresariais, que estão por trás dos partidos políticos; entre outras modalidades.
Essas características produzem cálculos políticos nos partidos que os induzem a “jogar o jogo” das regras estabelecidas, não tendo, dessa forma, interesse em alterá-las: trata-se de um círculo vicioso.
Reforma política desprivatizadora
Nesse sentido, é claro que a reforma política é uma necessidade imperiosa, a começar pelo financiamento público das campanhas, o que poderia contribuir para desprivatizar a relação dos partidos com o Estado. Mas isso somente se essa reforma for acompanhada por uma inovadora e leonina institucionalidade voltada para fiscalizar e punir o uso de recursos privados.
Não que, por mágica, os interesses privados desapareceriam da vida pública, até porque, no capitalismo, eles lhe são inerentes, mas é possível diminuí-los ao se estabelecerem novos marcos, em que o privatismo seja, ao menos, controlado.
Assim, o norte da reforma política deve estar assentado no binômio “desprivatização” da vida pública e “aumento da representatividade e da responsabilidade” dos partidos, o que tem como consequência a diminuição de seu número.
Paralelamente à reforma política, há uma pauta permanente do Estado brasileiro, referente à transparência, à publicização, à participação popular e ao republicanismo.
Por mais avanços que a sociedade e o Estado estejam vivendo desde a redemocratização e, sobretudo, desde a Constituição de 1988, ainda há uma incrível opacidade que encobre esquemas poderosos de tráfico de influência.
As informações, que deveriam ser públicas, como contratos estabelecidos entre o Estado e os agentes privados, são de difícil acesso; a linguagem da administração pública continua hermética aos cidadãos comuns, a começar pelo orçamento; os mecanismos do chamado “governo eletrônico” não são voltados ao controle do Estado – o que implica controle sobre o poder dos agentes privados, associados à burocracia e a segmentos dos políticos eleitos –, e sim à prestação de serviços; o processo licitatório é flagrantemente burlado pela própria natureza oligopólica da economia brasileira, principalmente nas obras “públicas” que envolvem bilhões de reais; não há no país uma “cultura política” de prestação de contas, por mais que avanços sejam observados desde a redemocratização e mesmo pela intensa mobilização da sociedade politicamente organizada no Brasil.
Os mitos disseminados acerca da corrupção encobrem seu entendimento como fenômeno intrinsecamente político, com consequências sociais, políticas, econômicas e culturais. Mais ainda, as imagens e versões morais e moralistas escamoteiam os efeitos da desigualdade social histórica e profunda do Brasil, assim como a utilização do Estado pelas e para as elites.
A ainda vigente opacidade do Estado – cujos exemplos estão no orçamento, nos contratos que deveriam ser publicizados, nas informações teoricamente públicas, em sistemas decisórios pouco claros, e na ainda pouco institucionalizada participação popular – decorre, portanto, do caráter essencialmente político e histórico desse fenômeno.
O fato de mesmo o cidadão comum, pobre, não antever claramente a linha divisória entre o público e o privado é muito mais a expressão da forma como o Estado foi estruturado, e de sua apropriação por elites distintas ao longo do tempo, do que propriamente um fenômeno moral. Trata-se de um fenômeno político, de poder, por excelência!
Francisco Fonseca é cientista político e historiador, professor de ciência política da Fundação Getulio Vargas de São Paulo e autor do livro O consenso forjado – A grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil. São Paulo, Hucitec, 2005.
No Le Monde Diplomatique
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Outubro Rosa

A mobilização mundial conhecida como Outubro Rosa teve início no último dia 4. O objetivo é alertar para os riscos do câncer de mama e chamar a atenção para a importância da mamografia, exame capaz de diagnosticar precocemente o surgimento de um tumor, o que contribui para as chances de cura da doença. 
A seguir alguns cartões postais do Brasil Rosa:
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Debate: Os 5 cubanos ignorados pela mídia

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Reação provinciana às condecorações de Lula

Confesso que o esforço de determinados políticos, observadores e acadêmicos para reclamar das condecorações internacionais recebidas por Luiz Inácio Lula da Silva já passou o limite da boa educação, do bom gosto e até do ridículo.
Lula recebeu sua mais nova condecoração há duas semanas em Paris. Até hoje a imprensa continua publicando textos que procuram convencer o leitor, basicamente, do seguinte: os pobres intelectuais do mundo desenvolvido são tão despreparados, tão ignorantes e tão incultos, que não sabem quem é Lula, nunca ouviram falar das mazelas de seu governo e só por isso insistem em lhe dar títulos honorários.
Num artigo publicado no Estadão, hoje, um professor do interior de Minas Gerais tenta convencer o público que os intelectuais europeus estão confundindo Lula com a reencarnação do “bom selvagem,” aquele mito da obra de Jean-Jaques Rousseau.
É até preconceituoso, quando se recorda que o “bom selvagem” não tinha um conteúdo de classe social, mas era uma referencia a civilizações consideradas primitivas pelo pensamento colonial europeu.
É preciso apostar alto na ignorancia do leitor para imaginar que ele vai acreditar que os intelectuais dos países desenvolvidos vivem na Idade da Pedra, sem internet e sem uma imprensa de qualidade, que nos últimos anos tem feito reportagens extensas e profundas sobre o Brasil.
Posturas deste tipo são apenas mesquinhas e provincianas.
Mesquinhas, porque envolvem interesses menores e inconfessáveis, frequentemente eleitorais, apenas disfarçados por um palavrório de tom indignado.
Provincianas, porque a condecoração de um presidente da Republica por instituições respeitadas, como a Ecole de Sciencies Politiques, de Paris, que, com afetada intimidade, alguns comentaristas chamam de Siencies Po, deveria ser motivo de orgulho para qualquer brasileiro.
Outro ponto é que o aplauso acadêmico internacional pelas realizações do governo Lula contém um ensinamento importante para um pais desigual e hierarquizado, onde a boa educação só é acessível a uma minoria.
Estou falando de um preconceito antigo e mal disfarçado contra brasileiros e brasileiras que não puderam frequentar a escola como se deve, na idade em que seria preciso, não tem o domínio perfeito da língua, não respeitam normas cultas, cometem erros de concordancia e exibem um vocabulário muitas vezes limitado.
Com frequencia, essas pessoas costumam ser tratados como cidadãos de segunda classe, pré-destinados a ocupações inferiores e que nada devem fazer além de ganhar a vida em atividades braçais.
Ao premiar um presidente que teve pouca educação formal, mas foi capaz de obter um reconhecimento popular como nenhum outro na história recente do país, as universidades estrangeiras informam que é recomendável enxergar além do estererótipo.
Talvez por isso as condecorações irritem tanto a tantos. O reconhecimento é uma advertencia contra aqueles que valorizam demais os diplomas que conseguiram pendurar na parede. Não faltam motivos concretos para se fazer uma crítica política a Lula e a seu governo. Todo cidadão bem informado tem sua lista de críticas e sua análise.
Mas o esforço para criticar as condecorações internacionais é esforço inglório.
Nem os brasileiros foram convencidos por estes argumentos, como se viu na campanha presidencial e também pelas pesquisas de opinião, que sugerem que Lula está próximo do nível da santificação junto ao eleitorado. Vencidos em casa, seus adversários querem ganhar a eleição no exterior. Além de feia, é uma batalha perdida.
Paulo Moreira Leite
No Vamos Combinar
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Tucanos negam Licença Maternidade

Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo nega Licença Maternidade
No Maria da Penha Neles!
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Onde está a censura?

No recente episódio envolvendo a posição da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) em relação a uma campanha da Hope Lingerie, estrelada pela modelo Gisele Bündchen, um dos aspectos que deve merecer nossa atenção é a reação unânime de repúdio da grande mídia à iniciativa da SPM-PR,acusada de cercear a liberdade de expressão.
O que fez a SPM-PR?
Diante de reclamações recebidas por sua Ouvidoria, a ministra Iriny Lopes encaminhou representação ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), com base nos artigos 19, 20 e 21 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária e no inciso II do artigo 30 do Regimento Interno do Conar, solicitando a sustação da veiculação da campanha.
O que rezam estes artigos?
Artigo 19
Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às autoridades constituídas e ao núcleo familiar;
Artigo 20
Nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade;
Artigo 21
Os anúncios não devem conter nada que possa induzir a atividades criminosas ou ilegais – ou que pareça favorecer, enaltecer ou estimular tais atividades;
Artigo 30 – A Medida Liminar é cabível quando:
(...)
II – A infração ética configurar flagrante abuso da liberdade de expressão comercial, ou provocar clamor social capaz de desabonar a ética da atividade publicitária, ou possa implicar grave risco ou prejuízo do consumidor;
Trata-se, portanto, de uma Secretaria de Estado solicitando providências a um conselho autorregulador da sociedade civil, apoiada em disposições do Código e do Regimento do próprio conselho. Para produzir algum tipo de efeito, a representação da SPM-PR teria, por óbvio, que ser julgada e aprovada pelo Conar.
Em que medida essa iniciativa pode ser considerada censura?
Se o órgão autorregulador não acatar a representação, não haverá qualquer tipo de sanção. Se acatar, por óbvio, será uma sanção prevista nas suas próprias regras. Neste caso, a eventual sanção não pode ser considerada censura ou se estaria a supor o absurdo de que há normas do Conar que permitem que este órgão autorregulador exerça funções de censor.
Os “libertários” caboclos
Na verdade, mais uma vez, o episódio revela o atraso assustador dos nossos “liberais”. Do ponto de vista das doutrinas sobre o papel da “imprensa”, a posição dos executivos da grande mídia no Brasil é anterior à chamada “teoria libertária” que predominou nos EUA até meados do século passado e foi substituída pela “teoria da responsabilidade social” (ver, no Observatório, “A responsabilidade social da mídia“).
Os libertários consideravam como indevida qualquer tentativa de intervenção do Estado em busca da proteção de direitos de grupos e/ou cidadãos. Uma excelente síntese dessa posição está expressa no editorial de O Globo intitulado “Gisele Bündchen incomoda tutores estatais”, publicado no último dia 4 de outubro. Para os editorialistas da família Marinho, os “tutores estatais” querem “um Estado forte a pairar sobre uma sociedade [considerada] incapaz de decidir o que é bom para ela”.
Os libertários nativos ignoram, por exemplo, o argumento oposto desenvolvido pelo jurista Owen Fiss, professor da Universidade Yale e ex-assistente de dois juízes da Suprema Corte dos EUA. Ele demonstra como a intervenção do Estado, garantida por decisões da Suprema Corte, tem assegurado liberdade de expressão a minorias (raciais, étnicas, religiosas, definidas por opção sexual), às mulheres e aos portadores de deficiência física (cf. A ironia da Liberdade de Expressão – Estado, Regulação e Diversidade na Esfera Pública; Renovar, 2005).
São esses mesmos libertários que consideram a classificação indicativa, prevista no inciso I do § 3º do artigo 220 da Constituição Federal de 1988, como “ataque à liberdade de expressão” (ver entrevista de Luis Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, ao Último Segundo) e produzem diariamente um conteúdo jornalístico que, como afirma o professor Bernardo Kucinski, constutui...
“...um compacto político-ideológico em defesa dos fundamentos do modelo econômico chamado neoliberal: privatizações, terceirizações, flexibilização das leis trabalhistas e desrregulação do movimento de capitais. Também combate em uníssono as principais políticas públicas do governo, como o Bolsa Família, o Plano Nacional de Direitos Humanos, as cotas nas universidades e a política externa” (cf. “Prefácio” a Venício A. de Lima, Regulação das Comunicações – História, Poder e Direitos, Paulus, 2011).
O passado como futuro
Mais uma vez fica claro que para os empresários privados de mídia no Brasil, até mesmo a autorregulação incomoda. Eles não querem que se altere o status quo. Não só se colocam acima de qualquer regulação, como não admitem nem mesmo que o Estado recorra às suas próprias instâncias autorreguladoras.
Neste ritmo, em pleno século 21, em breve chegaremos à Idade Média.
Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.
No Observatório da Imprensa
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Marcelo Tas não passa de um covarde cínico e hipócrita

Por tudo que fez e deixou de fazer no episódio da censura ao colega Rafinha Bastos, o sujeito mostrou que o caráter dele é feito de algo que ele realmente tem de sobra: bosta.
Marcelo Tas provou que é um bosta
Bom, vou dar meus pitacos na recente polêmica envolvendo o tal de Rafinha Bastos e seu afastamento do programa CQC da TV Bandeirantes.
Pra começo de conversa deixo claro que nunca assisti a esse programa e também nunca vi qualquer performance do Bastos. Mas, obviamente, acompanho pela blogosfera, pelas redes sociais e pelos sites independentes as polêmicas e os desdobramentos das grosserias que são apresentadas no programa comandado pelo Marcelo Tas. Então posso dizer que tenho uma boa ideia do que se trata e, obviamente, concluo que é mais um exemplar de lixo televisivo disfarçado de "atração cômica" que, mais grave, ainda acha que tem caráter "politizador" só porque causa constrangimento público em políticos.
Também faço questão de deixar claro que nunca gostei desse Marcelo Tas. Desde a época em que ele aparecia em alguns programas da TV Cultura, sempre achei-o um sujeito metido a besta, pseudo-intelecutal, afetado em demasia e, acima de tudo, completamente sem graça. Enfim, é uma espécie de bobo alegre que se leva a sério e realmente se julga um gênio da comédia (bem sabemos que os verdadeiros gênios são intrinsecamente humildes).
Abrindo um parênteses, para mim o verdadeiro comediante é aquele que sabe, antes de mais nada, rir de si mesmo, que não se leva a sério e que nunca faz gozação usando um ponto de vista opressivo ou do opressor - exceto quando sua intenção é justamente ridicularizar o opressor. Estão aí Charles Chaplin, Jacques Tati, Peter Sellers e toda a gangue do Monty Phyton para não me deixar mentir.
Corta para a nova polêmica imbecil envolvendo um dos membros mais infames do programa CQC. Depois de proferir centenas de comentários preconceituosos, sexistas, agressivos ou simplesmente grosseiros contra, essencialmente, minorias (principalmente os gays), pobres e mulheres, o tal de Rafinha Bastos acabou sendo afastado do programa por mexer com quem não devia. Ou seja, disparou sua saraivada de baixarias contra uma celebridade e causou a fúria de quem é dono da grana. Assim, pauzinhos foram mexidos e os donos da TV Bandeirantes, que não rasgam dinheiro, acharam por bem "censurar" o playboy chegado num bullying.
Como bem frisou Gilberto Maringoni em seu artigo na Agência Carta Maior, "O integrante do CQC, que fez piada de péssimo gosto com Wanessa Camargo, já falara coisas piores. Agora mexeu com esposa de milionário, que ameaçou tirar anúncios da TV Bandeirantes. Ninguém classificou caso como atentado à liberdade de expressão. Já quando ministra condena comercial de lingerie machista, o coro é um só: “Censura”!
Exatamente. Assim, o mesmo Marcelo Tas que vive dando xiliques contra uma suposta agenda de cerceamento da liberdade de expressão que faz parte do governo federal, primeiramente calou-se em relação à censura feita contra seu próprio colega de programa e certamente uma das suas principais atrações (lembrem-se que estamos falando da pessoa "mais influente do mundo", segundo o jornal The New York Times - eu fico aqui imaginando que tipo de pessoa se deixa influenciar por um idiota do tamanho de um Rafinha Bastos!).
Agora, questionado em um entrevista para um portal que não me lembro o nome, o bobo alegre do Marcelo Tas afirma que "é preciso fazer humor, mas com responsabilidade", enquanto condena o politicamente correto. No português correto isso significa uma só coisa: Marcelo Tas, o autoproclamado cavaleiro andante a favor da liberdade de expressão, saiu pela tangente e provou de forma cabal que não passa de um covardezinho cínico e hipócrita. Na hora em que tinha que realmente defender a liberdade de expressão (e de um colega de trabalho!), enfiou o rabinho entre as pernas e correu lamber as botas do patrão.
São em momentos como esses que uma pessoa mostra quem realmente é e de que é feito seu caráter. Por tudo que fez e deixou de fazer no episódio da censura ao colega Rafinha Bastos, o Marcelo Tas mostrou que o caráter dele é feito de algo que ele realmente tem de sobra: bosta.
André Lux, jornalista
No Tudo em Cima
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Sarney: privilégios de políticos são 'homenagem à democracia'

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), alegou em entrevista ao jornal "Zero Hora" publicada nesta segunda-feira que "os privilégios foram criados" para que "os deputados fossem livres e seus salários não os fizessem miseráveis". A afirmação é uma resposta às críticas direcionadas ao senador depois de ter usado um helicóptero da PM do Maranhão durante um passeio na ilha de Curupu, localizada no mesmo estado, onde tem casa, duas vezes este ano.
Quando a legislação diz 
que o presidente 
do Congresso tem direto a transporte 
de representação, estamos 
homenageando a democracia, 
cumprindo a liturgia 
das instituições
- Quando a legislação diz que o presidente do Congresso tem direito a transporte de representação, estamos homenageando a democracia, cumprindo a liturgia das instituições. Por conta das prerrogativas do cargo, tenho direito a transporte de representação. Andei em um helicóptero do governo do Estado, não era particular - afirmou Sarney.
O ex-presidente comentou ainda a dedicação da música "Que país é este?" a ele pelo cantor Dinho Outro Preto durante show do Capital Inicial no Rock in Rio no último dia 24 . Para o senador, "a crítica foi injusta". Ele lembrou que seu governo contribuiu "para a maior liberdade de expressão que já tivemos no país" e afirmou que a cultura e as artes "podem ser injustas, mas não podem deixar de ser livres".
Na entrevista, Sarney revelou que ambos os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram a sua casa pedir seu apoio. A presidente Dilma Rousseff, por sua vez, não deu continuidade à prática.
- Eu já tinha uma aliança com o PT. Fomos juntos para o governo - justificou o senador ao jornal gaúcho.
No O Globo
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"Aprendemos fazendo"

Eleito Executivo de Petróleo do Ano por líderes do setor, José Gabrielli explica o que diferencia a Petrobras das concorrentes
Executivos das 100 maiores empresas de petróleo escolheram o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli de Azevedo, como o Executivo de Petróleo do Ano de 2011. O prêmio será entregue pela Energy Intelligence, um dos maiores serviços de informações na indústria, na próxima segunda-feira, dia 10. Em entrevista por email à IstoÉ, Gabrielli destaca a inovação como fator de sucesso para a Petrobras.
O que é ser considerado o executivo do ano pelos líderes das 100 maiores companhias de petróleo do mundo?
Todos os prêmios que recebi nestes oito anos de Petrobras, primeiro como diretor financeiro e depois como presidente, devem ser creditados ao corpo de diretores, gerentes e de empregados desta empresa, orgulho de todos os brasileiros, pela posição conquistada no mundo.
Ser escolhido Executivo de Petróleo do Ano de 2011 pelos dirigentes das 100 maiores empresas do setor, antes de mais nada, é o reconhecimento mundial desta posição. Ninguém melhor do que os executivos do setor para avaliar uma empresa de petróleo. Por isso, quero dividir está homenagem com toda a nossa força de trabalho.
O que diferencia a Petrobras das demais empresas do setor?
Podemos identificar diversas variáveis que nos distinguem no universo das empresas mundiais. Uma delas é que aprendemos fazendo, e fazendo corretamente. Não tínhamos nenhuma experiência em exploração e produção offshore, quando fizemos as primeiras descobertas em Sergipe, em águas rasas, e depois na Bacia de Campos, onde fomos descobrindo petróleo e gás em águas cada vez mais profundas, o que nos levou a receber diversos prêmios no setor. Nesta escala, chegamos hoje à posição de liderança em águas profundas e ultraprofundas, com 22% das operações neste horizonte.
Do ponto de visto de mercado, qual o diferencial da Petrobras?
Estamos diretamente associados ao crescimento da economia brasileira. As grandes empresas mundiais do nosso setor produzem petróleo em diferentes regiões e são exportadoras de óleo cru. A Petrobras, ao contrário, tem 85% de sua produção extraída dos campos nacionais. Cerca de 80% dessa produção é processada em nossas refinarias no Brasil, e os derivados produzidos se destinam ao mercado brasileiro. Temos, portanto, uma integração industrial e comercial intensa e direcionada ao mercado interno.
A que podemos creditar os resultados operacionais e financeiros da Petrobras, ao longo dos anos?
Um dos principais fatores é a capacidade inventiva de nossos técnicos que, além de criarem novas alternativas operacionais, vêm aperfeiçoando o que há de melhor do setor no mundo. Além disso, compartilhamos esta criatividade com a indústria nacional e com os fornecedores de serviços. Dessa forma, desenvolvemos tecnologia e conhecimento no país. A cadeia de petróleo e gás atingiu condições para construir plataformas para águas profundas de avançada tecnologia e preços e prazos compatíveis com os padrões mundiais, como foi o caso recente da P-56.
Vamos continuar elegendo executivos do setor ainda por muitos anos ou o petróleo está com seus dias contados?
Nos próximos 40 anos, apesar dos avanços recentes, o volume de energias alternativas como fonte primária ainda é baixo. As energias eólica, solar, geotermal e das marés, geradas hoje no mundo, representam menos de 1% da matriz energética mundial. Se crescerem 10 vezes até 2020 chegarão a 9% da matriz. Por isso o petróleo ainda vai continuar por muito tempo como a principal fonte de energia primária mundial.
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Emenda paga equipamentos superfaturados para hospital de Registro-SP

Uma emenda parlamentar de R$ 2,2 milhões financiou a compra de equipamentos superfaturados em até 500% para um hospital da cidade de Registro, na região do Vale do Ribeira, a mais pobre do Estado de São Paulo, informa reportagem de Nadia Guerlenda e Daniela Lima, publicada na Folha.
A indicação dos recursos foi feita pela ex-deputada estadual Patrícia Lima (PR-SP). O governo do Estado liberou R$ 2.180.000 para o Hospital São João no 25 de dezembro de 2010, de acordo com o Diário Oficial. Patrícia teve apenas três votos em Registro na eleição de 2010. Ela não se reelegeu.
As emendas parlamentares da Assembleia Legislativa de São Paulo se tornaram alvo de suspeitas após o deputado estadual Roque Barbiere (PTB) afirmar, em entrevista, que de 25% a 30% dos seus colegas vendem as indicações.
Segundo o deputado, a indicação de recursos para locais onde os deputados não têm base eleitoral é um dos indícios do comércio ilegal.
Procurada pela Folha, a ex-deputada Patrícia Lima (PR-SP) confirmou a autoria da emenda, mas disse desconhecer irregularidades na execução do convênio. 
Esquema é o mesmo das ambulâncias Sanguessuga
Lembra-se das ambulâncias Sanguessugas, onde parlamentares apresentavam emendas, o então ministro da Saúde José Serra (PSDB/SP) e, depois, Barjas Negri (PSDB/SP) liberavam as verbas, e os irmãos Vedoin superfaturavam?
Pois é, migrou para o Estado de São Paulo, quando José Serra (PSDB/SP) e o vice Alberto Goldman (PSDB/SP) foram governadores.
O sucessor, Geraldo Alckmin (PSDB/SP), está com o comportamento suspeito, de quem quer abafar as investigações.
No rastro da venda de emendas por deputados da Assembléia Legislativa paulista, descobriu-se que a ex-deputada estadual Patrícia Lima (PR-SP) apresentou uma emenda de R$ 2.200.000,00 para equipar o Hospital São João, da cidade de Registro (na região do Vale do Ribeira).
No Diário Oficial do dia de natal - 25 de dezembro de 2010 - a ex-deputada ganhou seu presente de papai noel: o governo tucano liberou a verba de R$ 2.180.000.
O dinheiro financiou a compra de equipamentos superfaturados em até 500% para o hospital.
É o mesmo modus operandi usado pela máfia dos sanguessugas.
É nisso que dá a imprensa demo-tucana ter blindado Serra e Barjas Negri de suas responsabilidades naquele escândalo de corrupção.
A impunidade levou José Serra a ser eleito governador de SP e a certeza da impunidade encorajou a corrupção a se repetir.
Detalhe: a ex-deputada Patrícia teve apenas três votos em Registro na eleição de 2010, e não se reelegeu.
O jornal Folha de São Paulo continua blindando Serra, Goldman e Alckmin e não estabelece a conexão com o modus operandi dos Sanguessugas. É por isso que a corrupção corre solta em São Paulo, jogando toda a sujeira para baixo do tapete.
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Kassab quer Bieber no PSD

Kassab usou todas as armas para conquistar o coração de Bieber
MORUMBI - O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab deu início a uma extensa negociação internacional para trazer Justin Bieber para o PSD. "Já temos um bom candidato para a prefeitura de São Paulo. Mas o Núcleo de Inteligência do PSD, formado por mim, chegou à conclusão de que precisaríamos de um nome forte capaz de mobilizar as massas para tirar o governo das mãos dos tucanos", explicou.
Kassab apresentou argumentos sólidos para convencer o astro pop a se filiar ao seu partido. "Sabemos que essa vida de ídolo pop é passageira e não garante o futuro de ninguém. Fiz uma apresentação ilustrada em quadrinhos cujo heroi é José Sarney. A ideia é mostrar que, caso a gente vença a eleição, podemos ficar no governo de São Paulo até Bieber completar 74 anos", garantiu.
O PSD, que já conta com 34.331.408 filiados em todo o Brasil - incluindo 48 pandas, 35 lagartixas e 2 espectros - prevê que Kassab ganhará o Nobel em, no máximo, 3 anos.
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O medo (e a humanidade) do Papa

No momento em que foi vítima do atentado de um búlgaro, em uma concentração na praça São Pedro, no Vaticano, o Papa Joao Paulo II conseguiu dizer: Por que eu?
Não teria se dado conta que era porque foi eleito o representante de Deus na Terra? Também não teria se dado conta do papel político central que assumiu na política mundial? Tampouco se poderia entender por que ele se lamentaria de abandonar este Vale de Lágrimas, ainda mais ele, que teria garantido o Reino dos Céus pela vida eterna?
Foi um momento de rara humanidade do Papa. Ele, a quem eu havia visto, prepotente, na Nicaragua sandinista, tentando dar lições de democracia a um regime popular, desde um Estado teocrático. Ele, que havia retirado a mão, no aeroporto, quando Miguel D’ Escotto – sacerdote e ministro de Relações Exteiores do governo nicaraguense - se ajoelhou, humildemente, para beijar sua mão. Ele, que reiterou várias advertências ao povo nicaraguense que o interrompia no seu discurso na Praça Augusto Cesar Sandino, no centro de Managua, quando se davam conta que ele se atrevia a criticar a FSLN, e acabou se retirando da Praça, sem terminar seu discurso – a que ele havia acorrido com uma elegante bata branca e um imponente bengala.
Esse mesmo Papa teve medo da morte no atentado, a que sobreviveu, e pode seguir representando a seu Deus neste Vale de Lágrimas.
O filme de Nanni Moretti – que entrará logo em cartaz no Brasil, - se chama Habemus Papam: o psicanalista do Papa. Um cardeal – um Michel Picolli envelhecido, mas sempre extraordinário – é eleito Papa, mas não quer, tem medo, entra em crise, chora, se isola no seu quarto, enquanto um cardeal avisa aos aglomerados na Praca – turistas e uma parte de fieis – que o novo Papa já foi eleito – conforme a fumaça branca -, mas que estava orando no seu quarto, pedindo força a Deus para assumir sua representação na Terra.
Chamam um psicanalista – representado pelo próprio Nanni Moretti – para conversar com o Papa, mas com a recomendação expressa de não tocar em temas como a infância do Papa, sua mãe, seus sonhos, além da presença de todos os cardeais em volta, o que leva ao fracasso do apelo a Freud.
O Papa acaba fugindo e sai, com roupas civis, pelas ruas de Roma, convivendo com as pessoas como se fosse um mortal qualquer. Providencia-se um funcionário do Vaticano para ocupar seu quarto e fazer aparecer às vezes sua mão para a multidão reunida na Praça, outras vezes apenas agitando a cortina, acendendo e apagando a luz. Esse funcionário fica comendo e dormindo no quarto do Papa, os cardeais acreditando que é o Papa que esta ali, inclusive quando o serviço do Estado do Vaticano coloca um CD e toca Mercedes Sosa cantando Todo cambia, que os cardeais acompanham, radiantes, crendo que era um sintoma do estado de ânimo festivo do novo Papa.
Como o Concílio não terminou, porque o Papa ainda não aceitou a sua nomeação, nem os cardeais, nem o psicanalista podem sair. Então este organiza um alegre campeonato de vôlei entre os cardeais representados no Concílio, como passatempo e forma de descarregar as tensões. O Vaticano como Estado está em jogo. O novo Papa está nomeado, não pode ser substituído por outro, nem se sabe o que fazer com ele, se não assumir o cargo.
Toda a trama funcional da nomeação de um cardeal como representante de Deus na Terra fica pendendo por um fio, enquanto o nomeado passeia alegremente por Roma, vai ao teatro, come em restaurante, conversa com as pessoas do povo, feliz, no seu verdadeiro mundo, enquanto está em suspenso o cargo de Deus na Terra e o povo continua esperando seu discurso. Não conto o final, mas basta isso para revelar a humanidade de uma pessoa comum, que tem medo, que chora, que entra em crise, que escapa das responsabilidades que lhe querem impor, para fazer do filme uma grande película.
O mesmo exercício de humanização que tinha feito Saramago no seu Evangelho segundo Jesus Cristo e num de seus últimos livros – Caim. Aqui Caim conversa com Deus sobre o papel que lhe atribuiu na Terra, suas responsabilidades e o questionamento de Deus ao impor-lhe o conflito com o irmão e a imagem negativa nesse conflito. Outras circunstâncias, como a de Abrãao, a quem Deus pede que ofereça a vida do seu filho como sacrifício, são reavaliadas por Caim, que se pergunta que Deus todo bondoso é esse, que impõe a um pai o pior dos sacrifícios?
O filme de Moretti foi execrado pelo Vaticano, que se sentiu nu diante da parábola – talvez não tao irreal, dado que se propala que um dos Papas anteriores a Joao Paulo II, que teve papado curto, teria morrido em circunstâncias estranhas, associadas a suas visões inconoclastas, entre elas a de que Deus seria mulher ou homem e mulher, com todas as consequências para o tema de gênero que traria para o Vaticano e a Igreja Catolica. Em suma, a parábola pode ajudar a entender mecanismos desse estranho Estado teocrático que é o Vaticano. E diverte muito. Sem dúvida, um filme à altura das grandes comédias do cinema italiano.
Emir Sader
No Carta Maior
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O que mais quer a igreja católica?

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.
Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetão”, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.
Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.
A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?
A Constituição proíbe, mas...
Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Riberio descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.
Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.
Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria” ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio histórico”, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica... Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?
Revelações do passado
Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar” essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologista”.
Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.
Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosa”. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?” Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamou”.
Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.
Não é preciso ser ateu
A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguro”; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.
Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.
No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.
Morte anunciada
A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona” de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas” possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).
Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.
Carlos Pompe, jornalista e curioso do mundo.
No Onipresente
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Assim é a hipocrisia da mídia

O moralismo das empresas de mídia, sempre se considerando acima do bem e do mal, às vezes é flagrado com a bunda de fora.
Veículo da RPC-TV - afiliada da Rede Globo no Paraná - é fotografado estacionado em uma vaga especial, veja o vídeo:
No Maria da Penha Neles!
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Morre o grande humorista brasileiro que começou o Stand Up no Brasil.

 Adeus Zé. Você era o Espetáculo. 

20/03/1926 - 11/10/2011
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Meta de juros

Na semana passada, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, avisou que o governo Dilma está determinado a baixar os juros básicos (Selic) para 9% ao ano ainda em 2012.
Para isso, em dez reuniões do Copom já agendadas até o fim de 2012, seriam precisos cortes de 3 pontos porcentuais, algo como um conjunto de dois ajustes de 0,5 ponto porcentual e outros oito de 0,25 ponto porcentual.
Carvalho. Selic de 9% na mira 
(Foto: Ed Ferreira/AE)
A declaração do ministro foi criticada como nova evidência de que a atual administração do Banco Central não passa de um derivativo do Palácio do Planalto. A questão examinada neste espaço tem a ver com outro aspecto: verificar até que ponto uma meta de juros, como a anunciada, é compatível com o sistema de metas de inflação.
Antes de mais nada, convém ter bem claro que, por mais dúvidas que pairem sobre a permanência do tripé da política econômica (metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário das contas públicas), tal como praticado até aqui, não há indicação de que as autoridades tenham desistido de trazer a inflação para a meta, de 4,5% ao ano, com margem de estouro de 2 pontos porcentuais (até 6,5%).
Por mais esquisito que tenha se tornado o manejo da política monetária do Banco Central; e por mais tolerância com a inflação que a atual administração mostra ter em 2011, o compromisso continua sendo garantir a convergência da inflação para 4,5% em 2012. Se o objetivo será ou não atingido é outra conversa. Mas não há dúvida de que o sistema de metas ainda está valendo.
Se o propósito é empurrar a inflação para dentro da meta, o Banco Central não pode ter meta de juros. O tamanho dos juros será o que assegurar a entrega da inflação na meta, no prazo indicado.
Isso não significa que o governo não possa ter sua meta de juros. Em princípio, pode, sim, criar condições para que o Banco Central tenha espaço para empurrar a inflação para a meta aos juros planejados.
O primeiro desses requisitos é ainda mais austeridade na gestão das contas públicas. Se, por exemplo, o governo anunciar, e nisso tivesse crédito, que ao fim de um período de três anos (os que restarem para a atual administração) produzirá um superávit nominal (incluídas as despesas com juros) zero, o trabalho do Banco Central será fortemente facilitado.
Outra necessidade é não puxar excessivamente pelo câmbio que, mais alto (desvalorização do real), encarece os preços dos produtos importados – hoje com um peso maior na estrutura de produção nacional – e dificulta o controle da inflação.
Uma terceira condição indispensável é reduzir significativamente o custo Brasil (carga tributária, encargos sociais, Justiça ineficiente, infraestrutura precária e cara demais, etc.), para que se construa um ambiente de queda de preços.
A verdade é que o governo federal não trabalha com nenhuma dessas variáveis. Espera que a crise internacional piore tanto que seja capaz de gerar desinflação, fator que ajudaria a derrubar a inflação também aqui dentro.
Ainda que envolva alto risco, essa aposta não deixa de levar certa probabilidade de dar certo. O problema é ser dificilmente sustentável. Lá na frente, quando houvesse a retomada da economia mundial e sobreviesse novo puxão do consumo de commodities, a inflação global teria tudo para voltar e já não estaria agindo a favor da manutenção dos juros básicos nos 9% ao ano.
CONFIRA
Roubo nos cartões. Em sua edição de sexta-feira, o New York Times publicou matéria assim intitulada: Cobrança de tarifas por cartões de débito é um roubo (Charging for Debit Cards is Robbery). O argumento da reportagem é que os cartões de débito (e também os de crédito) baixaram substancialmente os custos dos bancos, na medida em que reduziram os pagamentos por meio da emissão de cheques. O menor uso dos talões, por sua vez, reduziu as operações de compensação diária de cheques. Por isso, conclui a publicação, não cabe cobrar pelo uso de uma forma de pagamento cujo maior beneficiário foram os bancos.
A tragédia do euro. Quem se interessar por conhecer mais profundamente como começou e se aprofundou a crise do euro deve ler duas matérias publicadas na edição em inglês da revista alemã Der Spiegel. A primeira delas: How a Good Idea Became a Tragedy (dia 5/10). E a segunda: How the Euro Zone ignored its Own Rules (7/10). Os dois textos foram editados by Spiegel Staff.
Celso Ming
No Coluna do Ming
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Charge online - Bessinha - # 853

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