27 de set de 2011

Uma saída à esquerda?

“O socialismo não pode ser dissociado da realização da democracia”
Giovanni Semeraro

Com a implantação do neoliberalismo, o capitalismo, a nível mundial, viu nele, uma provável saída para as contradições agudas que já vinham exigindo uma fuga para frente, no sentido de se desenrolar dos obstáculos inerentes que seu sistema produtivo apresentava desde a crise do petróleo em meados de 1970.
A financeirização, com total desregulamentação do sistema financeiro mundial, trouxe medidas de caráter nitidamente global onde as relações de trabalho foram aos poucos sendo precarizadas e mesmo aniquiladas pelas forças de mercado, tendo o Estado como impulsionador desta nova ordem neoliberal.
O neoliberalismo trouxe um ônus à classe trabalhadora que, com o passar do tempo, tem se tornado insuportável sob todos os aspectos: econômico, político, social e subjetivo. O ímpeto que as medidas do capitalismo-neoliberal manifestaram tanto no pensamento/ação da esquerda como na realidade do mundo do trabalho foram e são catastróficas.
As respostas a esta nova versão do capital – neoliberalismo – têm, ao longo de mais de três décadas, levado tanto o mundo do trabalho como a estrutura capitalística e também as esquerdas comprometidas com a transformação social a uma paralisia que tem repercutido em “ações” de perplexidade, cautela e desorientação. O capital não escapa de suas próprias incongruências.
Ao se desnudar frente ao mundo, o neoliberalismo mostrou com toda a clareza e nudez a sua face oculta, evidenciando o monstrengo – histórico e real – o que é e representa para o mundo o capitalismo.
Uma provável transcendência para a esquerda atualmente pode ter como embasamento o pensamento – teórico e real – de Antonio Gramsci, o pensador e revolucionário marxista italiano.
Gramsci diz em seus escritos que os métodos do capital encontram raízes numa espécie de revolução passiva e de um reformismo conservador em que tornam mais multifacetadas as oposições, banalizando a cultura e, ao mesmo tempo, mantendo sob controle os trabalhadores, despolitizando-os em todos os níveis apresentados na sociedade civil. Ele propõe uma democracia radical. Na concepção gramsciana, este conceito exprime e representa superar as estruturas petrificadas pelo capitalismo num sentido revolucionário em que estas condições estruturadas e fundadas na dicotomia reificada, contraditória e complementar de superior-inferior, governante-governado, dirigente-dirigido, comando-obediência são rompidas no sentido da construção de um projeto coletivo de sociedade onde as classes dominantes são organicamente fragmentadas dando lugar à hegemonia da capacidade dos explorados construírem sua identidade filosófica, subjetiva, própria, não havendo mais contraposição em quem produz (trabalhadores) e em quem detém os meios de produção (capitalistas), construindo com isto sua hegemonia e dominação enfrentando e superando as contradições estruturais do sistema capitalista.
Gramsci fala em iniciativa política, não aceitar passivamente a realidade histórica imposta pela dominação capitalista, assistindo passivamente e impotentes os acontecimentos realizados pelo capitalismo.
Semeraro coloca um ponto fundamental de Gramsci: “Na dinâmica da sociedade, de fato, interagem ‘forças materiais’ e o momento ético - políticos que formam um inseparável ‘bloco histórico’. Entre ‘estrutura’ e ‘superestrutura’ deve existir, portanto, uma relação de reciprocidade na qual é possível combinar um amplo projeto político com planos econômicos criativos e participativos”.
Concluo com este trecho de Semeraro: “Gramsci não se afasta do marxismo, mas se diferencia das interpretações usuais pela insistência sobre a construção de sujeitos historicamente ativos e organizados que procuram conquistar a hegemonia com os métodos da democracia, subtraindo-a progressivamente à esfera de influência da burguesia e da burocracia. Por isso, além de evidenciar as aberrações do capitalismo, Gramsci confere uma ênfase particular à criatividade e à capacidade de iniciativas que devem apreender a desenvolver as classes subalternas. Estas, mais do que preocupar-se em resistir à opressão, são chamadas a buscar formas para sair da submissão e inventar os termos de uma nova sociedade”.
O aforismo burguês se transforma no seguinte: “A liberdade não termina onde começa a dos outros, mas se desenvolve ainda mais quando se encontra com a dos outros”.
Ari de Oliveira Zenha é economista
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Jimmy Cliff

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Gênesis 1:29

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Aécio Neves inflaciona o discurso do atraso

Reconheço que não é fácil a vida de oposição no Brasil de Lula e Dilma. Falta aquilo que lhe daria vida, falta discurso. A oposição nunca soube falar com os mais pobres e agora ficou ainda mais difícil diante das políticas de inclusão social do governo e do progresso político e econômico que vivemos nos últimos anos. Começa a ficar difícil falar até mesmo com seu público tradicional, empresários, investidores, aqueles, digamos, melhor situados na pirâmide social. Tem sobrado apenas o discurso ético-conservador, insuficiente para conquistar os votos que garantiriam a volta ao poder.
Aécio Neves, que pretende tornar-se candidato à Presidência, pode ser o melhor exemplo dessa aridez no pensamento oposicionista. Nota-se a dificuldade nos temas de seus artigos semanais na Folha, na verdade artigos em busca de temas. Nos mais recentes, tentou “Steve Jobs”, “Copa”, “segurança” e, na última segunda-feira, escolheu o tema que ele certamente sonha que se torne o próximo tema eleitoral, “inflação”. Em um texto de 406 palavras (incluindo o título) escreve 8 vezes o termo “inflação” (incluindo “inflacionário”) – ou seja, uma taxa de 1,97%, bem alta para os padrões atuais. Procura recuperar o pesadelo da inflação (“Um pesadelo que os mais jovens, mas, só eles, não chegaram a conhecer.”), aproveitando-se da recente elevação de taxas provocada em grande parte pelo cenário internacional. Ataca a política de redução de juros atual e escreve: “Surpreendentemente, o governo adota medidas inflacionárias no momento de grande expectativa de que a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica”. Surpreendente foi a frase. Exatamente por que “a crise internacional poderá reduzir significativamente o ritmo de atividade na economia doméstica” é que fez mais sentido a redução da taxa Selic. Aécio argumenta que o ritmo da desvalorização da taxa cambial, associada à redução dos juros, “preocupa pela incerteza que sinaliza e pelo impacto inflacionário futuro”. Esquece que as grandes reservas brasileiras (bem acima do que havia no período tucano) dão boa margem de manobra ao Banco Central. E esquece mais ainda que um país como o Brasil de hoje não pode mais apostar na recessão, no encolhimento, no desemprego, na falta de ousadia. Aécio no seu artigo nos faz lembrar os congressistas do Partido Republicano americano que, buscando acima de tudo o sucesso eleitoral, preferem ver o seu país derrotado ao invés de adotar medidas econômicas vencedoras. As suas palavras finais servem para descrever exatamente o que pretende a oposição: “retorno a políticas (...) que emperraram no passado o crescimento da nossa economia, danificaram empresas e instituições e, o pior, penalizaram especialmente os mais pobres, limitando durante anos perdidos a possibilidade de uma vida melhor”. Atraso nunca mais!
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Defenda o aumento da gasolina, D. Miriam

Escrevi um texto, agora, para o Projeto Nacional, depois de ter ouvido a colunista Miriam Leitão vociferar contra a redução da Cide sobre os combustíveis, dizendo que o Governo está “favorecendo” a Petrobras.
Como assim, “favorecendo”? Então uma empresa escora no peito o preço do combustível, impoerta com mais prejuízo para garantir o abastecimento e um pequeno alívio na sua carga fiscal é chamado de favorecimento?
Nas contas da própria Miriam, cada litro de gasolina importada sai ( quer dizer, já saía, auntes da subida do dólar) 30 centavos mais caro para a Petrobras comprar do que o preço que ela vende para as distribuidoras. A mudança na Cide não foi para “favorecer” a Petrobras, mas para permitir que a empresa importe mais gasolina, porque o etanol não aparece.
E não aparece porque, com as dificuldades da safra, quando começou a moagem, a prioridade foi o açúcar para exportação, que começou o ano em queda – menos 600 mil toneladas de janeiro a maio (quando começa a safra)deste ano, em reação a 2010 – e de junho para cá já tirou a diferença com 630 mil toneladas a mais que no ano passado, segundo os dados oficiais, públicos.
Quer entender a razão, meu amigo e minha amiga? Olhe o gráfico do preço internacional do açúcar e veja.
Se a D. Miriam acha que o preço da gasolina deveria subir, é uma opinião. Mas que diga isso e pare com esta conversinha fiada de “temos de evitar a inflação a qualquer custo”.
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Bruno Covas nega que fez, mas acha "atitude exemplar" acobertar prefeito corrupto

O secretário estadual do governo tucano de Geraldo Alckmin, Bruno Covas (PSDB), negou ter dito o que disse: que acobertara um prefeito corrupto, ao não denunciá-lo quando tentou suborná-lo.
O tucano disse: “Eu falei em uma hipótese e que não deveria ser aceita. Não disse que aquele caso aconteceu em específico. Retifico o que falei. Eu estava dando um exemplo hipotético do que fazer num caso como aquele”.
O jornal "Estadão" divulgou a entrevista gravada (reproduzida no vídeo acima), onde está dito com todas as palavras, na própria voz do deputado, a narrativa de uma ocorrência real.
Se o deputado quiser dizer que disse outra coisa, ele está com sérios problemas de se comunicar no idioma português.
Mau exemplo do que fazer: acobertar prefeito corrupto
Ainda que fosse ou seja só hipótese, o encaminhamento que o deputado sugere como "dar exemplo" é exatamente o que nenhum político decente deve seguir.
Um político decente deve denunciar à justiça o prefeito corrupto e exigir a devolução do dinheiro roubado aos cofres públicos.
Sugerir doar para instituição de caridade não conserta as coisas, pelo contrário, só piora o quadro de favorecer políticos corruptos a serem reeleitos. Só serve para o prefeito corrupto "comprar votos" como se estivesse fazendo caridade na cidade, porém com o dinheiro público da corrupção.
Se quiser fazer uma emenda para repassar verbas à Santa Casa ou APAE, que faça uma emenda específica dentro da lei. Não pelo suborno nas mãos de um prefeito corrupto.
Zé Augusto
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A sinceridade do “mercado”

A entrevista de um operador de mercados, Alessio Rastani, na BBC, está causando furor no mundo. O cidadão teve uma crise de sinceridade e disse que sonha com uma recessão para ganhar mais dinheiro.
“Não ligamos muito para como vão consertar a economia. Nosso trabalho é ganhar dinheiro com isso”.
“Os governos não controlam o mundo. O (banco) Goldman Sachs controla o mundo. O Goldman Sachs não liga para esse resgate, nem os grandes fundos.”
“Estou confiante que esse plano (de recuperação da Grécia) não vai funcionar, independentemente de quanto dinheiro (os governos) puserem. O euro vai desabar”
“Em menos de 12 meses, ativos ( dinheiro, economias) de milhões de pessoas vão desaparecer”.
A entrevistadora da BBC agradeceu a sinceridade …
Rastani disse o que todo mundo sabe e ninguém tem coragem de dizer.
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Entrevista de Lula na Sciences Po

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Charge do Benett

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O menino de Lula contra os meninos de Alckmin

Está ficando mais claro o quadro da disputa pela Prefeitura de São Paulo no próximo ano.
Pelas últimas movimentações nos dois maiores partidos, teremos mais uma vez o confronto entre PT e PSDB, desta vez com caras novas, apresentando o menino de Lula (Fernando Haddad) contra os meninos do governador Geraldo Alckmin (Bruno Covas e Gabriel Chalita).
Já vou explicar meu raciocínio, como diria o velho comentarista esportivo da Rádio Camanducaia.
Alckmin aproveitou nesta segunda-feira o evento da transferência do domício eleitoral de Bruno Covas de Santos para São Paulo e o abençoou como seu candidato oficial para o lugar de Gilberto Kassab, o atual prefeito, que por enquanto não se definiu sobre um nome para a sua sucessão.
Como Gabriel Chalita surgiu no cenário político revelado pelo ninho tucano de Alckmin, e é ainda muito ligado à primeira-dama, dona Lu, o governador poderá também colocar suas fichas no candidato do PMDB, caso não vingue a candidatura do neto de Mário Covas.
Desta forma, ele poderá ter dois nomes ligados a ele para enfrentar Fernando Haddad, o ministro da Educação indicado por Lula, que cada vez mais vai consolidando seu nome na disputa interna do PT.
Chalita já avisou que não vai abrir mão da sua candidatura de jeito nenhum e, desta forma, o PMDB poderá ser mais uma vez o fiel da balança entre os dois maiores partidos, que ainda poderão fazer prévias, uma possibilidade cada vez mais remota.
Tem mais um monte de candidatos se lançando, mas não passam de figurantes que vão negociar seus apoios mais adiante.
Atual Secretário de Meio Ambiente do governo paulista, Bruno Covas já começou dando mancada logo no dia do lançamento da sua candidatura.
Deu uma desastrosa entrevista ao "Estadão" em que conta como um prefeito lhe ofereceu 10% de comissão para liberar uma emenda parlamentar de R$ 50.000,00, no seu primeiro mandato de deputado estadual.
Bruno tentou desmentir o que falou, alegando que foi "mal-interpretado", o que é um desastre em política. Quando você tem que dar explicações, já entra perdendo.
Em comum, as três novidades da disputa paulistana se destacam pela absoluta falta de ideias e propostas para São Paulo. Ninguém, talvez nem eles próprios, sabe o que Bruninho, Gabrielzinho e Fernandinho pensam sobre a cidade e o que pretendem fazer com o espólio de Kassab.
Para os eleitores, o cenário não é nada animador. Pelo menos, não teremos desta vez os velhos retratos de Maluf, Serra e Marta na urna eletrônica.
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Atriz Cristiane Torloni empolgada com o Rock in Rio

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Esclavistas contra Lula

 PIG vai à França para desmerecer Lula 

Pueden pronunciar sians po. Es, más o menos, la fonética de sciences politiques. Con decir Sciences Po basta para aludir al encastre perfecto de dos estructuras, la Fundación Nacional de Ciencias Políticas de Francia y el Instituto de Estudios Políticos de París.
No es difícil pronunciar Sians Po. Lo difícil es entender, a esta altura del siglo XXI, cómo las ideas esclavócratas siguen permeando a gente de las elites sudamericanas.
Hoy a la tarde, Richard Descoings, director de Sciences Po, le entregará por primera vez el doctorado Honoris Causa a un latinoamericano: el ex presidente de Brasil, Luiz Inácio “Lula” da Silva. Hablará Descoings y hablará Lula, claro.
Para explicar bien su iniciativa, el director convocó a una reunión en su oficina de la calle Saint Guillaume, muy cerca de la iglesia de Saint Germain des Pres, en un contrafrente desde el que podían verse los castaños con hojas amarillentas. Meterse en la cocina siempre es interesante. Si uno pasa por París para participar como ponente de dos actividades académicas, una sobre la situación política argentina y otra sobre las relaciones entre la Argentina y Brasil, no está mal que se meta en la cocina de Sciences Po.
Le pareció lo mismo a la historiadora Diana Quattrocchi Woisson, que dirige en París el Observatorio sobre la Argentina Contemporánea, es directiva del Instituto de las Américas y fue quien tuvo la idea de organizar las dos actividades académicas sobre la Argentina y Brasil de las que también participó el economista e historiador Mario Rapoport, uno de los fundadores del Plan Fénix hace 10 años.
Naturalmente, para escuchar a Descoings habían sido citados varios colegas brasileños. El profesor Descoings quiso ser amable y didáctico. Sciences Po tiene una cátedra de Mercosur, los estudiantes brasileños acuden cada vez más a Francia, Lula no salió de la elite tradicional de Brasil, pero llegó al máximo nivel de responsabilidad y aplicó planes de alta eficiencia social.
Uno de los colegas preguntó si estaba bien premiar a quien se jacta de no haber leído nunca un libro. El profesor mantuvo su calma y lo miró asombrado. Quizá sepa que esa jactancia de Lula no consta en actas, aunque es cierto que no tiene título universitario. Tan cierto es que cuando asumió la presidencia, el 1º de enero de 2003, levantó el diploma que les dan en Brasil a los presidentes y dijo: “Lástima que mi mamá se murió. Ella siempre quiso que yo tuviera un diploma y nunca imaginó que el primero sería el de presidente de la república”. Y lloró.
“¿Por qué premian a un presidente que toleró la corrupción?”, fue la siguiente pregunta.
El profesor sonrió y dijo: “Mire, Sciences Po no es la Iglesia Católica. No entra en análisis morales, ni saca conclusiones apresuradas. Deja para el balance histórico ese asunto y otros muy importantes, como la electrificación de favelas en todo Brasil y las políticas sociales”. Y agregó, tomando Le Monde: “¿Qué país puede medir moralmente hoy a otro? Si no queremos hablar de estos días, recordemos cómo un alto funcionario de otro país debió renunciar por haber plagiado una tesis de doctorado a un estudiante”. Hablaba de Karl-Theodor zu Guttenberg, ministro de Defensa de Alemania hasta que se supo del plagio.
Más aún: “No excusamos, ni juzgamos. Simplemente no damos lecciones de moral a otros países”.
Otro colega preguntó si estaba bien premiar a quien una vez llamó “hermano” a Muamar Khadafi.
Con las debidas disculpas, que fueron expresadas al profesor y a los colegas, la impaciencia argentina llevó a preguntar dónde había comprado Khadafi sus armas y qué país refinaba su petróleo, además de comprarlo. El profesor debe haber agradecido que la pregunta no citara, con nombre y apellido, a Francia e Italia.
Descoings aprovechó para destacar en Lula “al hombre de acción que modificó el curso de las cosas”, y dijo que la concepción de Sciences Po no es el ser humano como “los unos o los otros” sino como “los unos y los otros”. Marcó mucho el et, “y” en francés.
Diana Quattrocchi, como latinoamericana que estudió y se doctoró en París tras salir de una cárcel de la dictadura argentina gracias a la presión de Amnistía Internacional, dijo que estaba orgullosa de que Sciences Po le diera el Honoris Causa a un presidente de la región y preguntó por los motivos geopolíticos.
“El mundo se pregunta todo”, dijo Descoings. “Y tenemos que escuchar a todos. El mundo no sabe siquiera si Europa existirá el año que viene.”
En Siences Po, Descoings introdujo estímulos para que puedan ingresar estudiantes que, se supone, corren con desventaja para aprobar el examen. Lo que se llama discriminación positiva o acción afirmativa y se parece, por ejemplo, a la obligación argentina de que un tercio de las candidaturas legislativas deban ser ocupadas por mujeres.
Otro colega brasileño preguntó, con ironía, si el Honoris Causa a Lula formaba parte de la política de acción afirmativa de Sciences Po.
Descoings lo observó con atención antes de contestar. “Las elites no son sólo escolares o sociales”, dijo. “Los que evalúan quiénes son mejores son los otros, no los que son iguales a uno. Si no, estaríamos frente a un caso de elitismo social. Lula es un tornero que llegó a la presidencia, pero según tengo entendido no dio un ingreso sino que fue votado por millones de brasileños en elecciones democráticas.”
Como Cristina Fernández de Kirchner y Dilma Rousseff en la Asamblea General de Naciones Unidas, Lula viene insistiendo en que la reforma del Fondo Monetario Internacional y del Banco Mundial está atrasada. Dice que esos organismos, así como funcionan, “no sirven para nada”. El grupo Brics (Brasil, Rusia, India, China, Sudáfrica) ofreció ayuda a Europa. China sola tiene el nivel de reservas más alto del mundo. En un artículo publicado en El País, de Madrid, los ex primeros ministros Felipe González y Gordon Brown pidieron mayor autonomía para el FMI. Quieren que sea el auditor independiente de los países del G-20, que integran los más ricos y también, por Sudamérica, la Argentina y Brasil. O sea, quieren lo contrario de lo que piensan los Brics.
En medio de esa discusión llegará Lula a Francia. Conviene hacerle saber que, antes de recibir el doctorado Honoris Causa de Sciences Po, debe pedir disculpas a los elitistas de su país. Un obrero metalúrgico no puede ser presidente. Si por alguna casualidad llegó a Planalto, ahora debería guardar recato. En Brasil, la casa grande de las haciendas estaba reservada a los propietarios de tierras y esclavos. Así que Lula, ahora, silencio por favor. Los de la casa grande se enojan.
Martín Granovsky
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Charge online - Bessinha - # 831

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A Invisibilidade dos "Indignados"

O jogo é repleto de velhos subterfúgios. A grande imprensa, na tentativa de desconstruir o legado do governo Lula, organiza o movimento, mas não pode revelar o sujeito do enunciado. As últimas manifestações contra a corrupção, urdidas nas oficinas do Instituto Millenium, não evidenciam apenas o vazio de uma oposição sem projeto. Vão além. Seus verdadeiros objetivos são por demais ambiciosos para serem expostos à luz do dia. Na verdade, o que se tem em mente é o combate às políticas de redistribuição de renda e os diversos programas de inclusão social levados a cabo nos últimos nove anos de governo petista.
Para tanto, as redações interagem com os “indignados" das redes sociais, apresentados como protagonistas de uma nova esfera pública singular. Sem organicidade, enraizamento e ojeriza a qualquer coisa que coisa que remeta a práticas políticas transformadoras, os “movimentos espontâneos" são a imagem espelhada de tantos setores que endossam a verdadeira corrupção a ser combatida: aquela que promove a concentração de renda, de terras e a exclusão social, além de assegurar os privilégios das corporações midiáticas.
Mais uma vez, é preciso voltar no tempo para apreender a dinâmica do ocultamento das taxonomias, pressuposto básico para a eficácia do poder simbólico, da capacidade, cada vez mais limitada, de formatar antigas agendas.
Terça-feira, 20 de março de 2007. Mais uma vez, "empenhado" em repor a verdade factual de episódio recente da política brasileira, Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da TV Globo, voltava à página de "Opinião" do jornal da família Marinho. Desta vez escreveu um artigo que tinha por título "Collor". Como de hábito, uma redação formalmente correta, escorreita e elegante. Como sempre, uma petição de meias verdades. Algo como um Legacy com problemas no mapa aeronáutico e no painel do tranponder. Se a história tomasse a forma de um Boeing, uma colisão inevitável teria que desaparecer do noticiário do Jornal Nacional.
Dizendo-se chocado com a "reação do Senado ao discurso de estréia de Fernando Collor" na quinta-feira (15/3), o jornalista abria o artigo manifestando indignação com a forma como o ex-presidente classificou seu impeachment: "Uma litania de abusos e preconceitos, uma sucessão de ultrajes e acúmulo de violações das mais comezinhas normas legais".
Para Kamel, a passividade dos senadores deu margem a uma perigosa releitura da história. Segundo ele, o que Collor queria caracterizar como momento de arbítrio, foi, na verdade, "um exemplo pleno do funcionamento de nossa democracia". Até aqui não havia o que objetar ao texto do segundo cargo de maior importância na hierarquia da Central Globo de Jornalismo. Os problemas começavam quando, após relato detalhado do funcionamento da CPI e do julgamento de Collor pelo STF, Kamel explicitava o que o levou a escrever o artigo: "A preocupação com os jovens, que não conhecem essa história". Se a motivação fosse sincera, deveria, então, contar o processo histórico inteiro, não se atendo apenas a seus momentos finais.
Teria que recordar que o ex-presidente foi uma aposta de Roberto Marinho para dar início à desconstrução do Estado, conforme solicitava o receituário neoliberal. O criador do maior conglomerado de mídia e entretenimento do Brasil não hesitou em jogar sujo para assegurar a vitória do "caçador de marajás" em 1989.
A apresentação do debate de Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 1989, é um exemplo dos métodos empregados por Roberto Marinho quando resolvia intervir na política. Em matéria para o Estado de S.Paulo (8/8/2003), José Maria Mayrink revela que...
"...Roberto Marinho não gostou da edição que a Rede Globo fez no noticiário da tarde e determinou que o diretor de jornalismo, Alberico Souza Cruz, reeditasse o material. Seu argumento era que estava parecendo que Lula ganhara o debate quando, de fato, o vencedor havia sido Collor. O episódio provocou uma crise interna na emissora e levou o candidato do PT a dizer que perdeu a eleição por causa da TV Globo".
Em sua dissertação de mestrado, "Marajás e Caras-Pintadas: a memória do governo Collor nas páginas de O Globo", o professor e jornalista Luis Felipe Oliveira mostra como a mídia construiu representações identitárias que marcaram o período Collor, da ascensão ao impeachment. Da necessidade de apresentar, acatando a agenda do neoliberalismo ascendente, o serviço público como algo oneroso, inoperante e injusto, nasceu a funcionalidade do "marajá". Um construto tão eficaz quanto simplificadora.
Para os fins deste artigo, é interessante reproduzir como a Globo afirma suas representações negando o princípio do contraditório. Segundo Luis Felipe...
"...no esforço de representar o marajá, foi preciso evitar que as pessoas identificadas como tal pudessem apresentar ao leitor a sua versão. Nas poucas oportunidades em que permitiu aos acusados o direito de se manifestar, O Globo selecionou e redigiu de tal forma as informações que elas acabavam por corroborar as denúncias das quais os servidores estariam se defendendo. Recursos como este não foram usados apenas com os supostos marajás. Os governadores que não aderiram à caça também eram apresentados nas matérias de O Globo de tal maneira que suas intervenções não faziam efeito".
O protagonismo da Globo na consolidação da imagem de Collor junto a parcela expressiva do eleitorado foi inegável. Marinho nunca ocultou que escondeu suas cartas. Foi enfático quando declarou à imprensa que "até as acusações, o Collor era para mim motivo de orgulho" (Estado de S.Paulo, 12/9/1992).
Deixemos claro que entre a Globo e Collor não houve relação de causalidade. Um precisava do outro para atingir seus fins. Era um típico caso de afinidade eletiva, formatado do princípio ao fim.
Convém lembrar que as Organizações Globo só abriram espaços para as manifestações públicas quando a sustentabilidade de Collor se tornou inviável. Em momento algum houve inflexão ética. Imolaram um personagem para manter intacto o projeto. Na mobilização pelo impeachment, a conhecida antecipação histórica de Roberto Marinho se fez presente. Os caras-pintadas eram o retorno do movimento estudantil como farsa. A ação política teatralizada neutralizava qualquer possibilidade contra-hegemônica. O espetáculo sobrepujava as contradições históricas. A TV Globo aparecia como vanguarda de um processo que, inicialmente, buscou esvaziar.
Já era possível antever, em meados de 1992, que o saldo final do movimento seria favorável às forças conservadoras. O clamor pela ética, quando acompanhado de vazio político, sempre produz um vaudeville burguês. A edição do Jornal Nacional de 2/10/1992, dia do impeachment, foi o modelo acabado da informação espetacularizada. Mostrou multidões concentradas em diversas capitais e terminou ao som de Alegria, Alegria, de Caetano Veloso.
Ainda que reposta parcialmente, a história da Globo e seu candidato talvez explique melhor porque, segundo Kamel, "este é um país em que o decoro pode ser quebrado sem infringir o Código Penal". Sem meias verdades, encontraremos as digitais do império de Roberto Marinho no que há de mais indecoroso no Brasil. Quem sabe, até o próprio DNA do monopólio informativo.
E que nenhum leitor pense que, passados 18 anos, a Globo atualizou seus métodos. Continua fiel seguidora da velha sentença de Nélson Rodrigues: "Se as versões contrariam os fatos, pior para os fatos." Nos critérios de noticiabilidade da emissora não há lugar para fiascos.
Pior para os gatos-pingados que, no vazio de suas palavras de ordem, perdidos no centro do Rio de Janeiro, ficaram no limbo das editorias que tanto apostaram no êxito das articulações. Os caras-pintadas de 20 de setembro de 2011 conheceram a invisibilidade do próprio fracasso. Foi patético, mas de um didatismo exemplar.
Gilson Caroni Filho
No Mídia Caricata
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Desconstruindo a Divisão do Pará - 2

2. O argumento de que “o tamanho do Pará inviabiliza a boa gestão”
Esse argumento tem duas formas discursivas: em primeiro lugar a idéia de que o Pará, tanto por sua extensão como por suas peculiaridades geográficas, não pode, necessariamente, ser bem governado. A segunda forma discursiva sugere que estados menores são, simplesmente, melhor governados que estados “grandes”.
Vejamos o primeiro caso: seria o Pará ingovernável em função de sua geografia?
Claro que não. Senão outros espaços geográficos de dimensões comparáveis, ou até maiores, seriam, naturalmente, inviáveis. Sejam esses outros espaços Estados nacionais ou entes federados em um Estado nacional, como o Pará. Os exemplos são muitos e diversos. Brasil, Austrália, China, Índia, Rússia ou Canadá, com seus imensos territórios, são ingovernáveis? Claro que não. E suas unidades federadas, quando grandes porções territoriais, são ingovernáveis? Não.
E no caso de essas unidades federadas serem territórios de difícil acessibilidade, com zonas de baixa densidade populacional, economia com escassa industrialização e misto de atividades mineradoras, agrárias e extrativistas – tal como o Pará – seriam territórios ingovernáveis?
A resposta, novamente, é não.
É importante perceber que em todos esses países que citei há unidades federadas com território semelhante ou maior que o Pará. Buscar essa comparação é importante para sabermos o que somos, ou o que podemos ser, enquanto entes federados de uma nação.
Efetivamente, é possível fazer uma geopolítica das grandes unidades territoriais, já que elas são uma realidade presente em todos os grandes países do mundo. Isso é importante até para que se pare de achar uma aberração o tamanho do território paraense e se perceba que sua extensão é uma conquista histórica, ou seja, tem uma realidade histórica.
Vejamos, então, alguns exemplos. Comparemos o Pará com entes federados semelhantes – se não em todos, em alguns aspectos – da Austrália (o Queensland); do Canadá (o Québec), da China (a Mongólia Interior).
É possível fazer uma comparação como esta? Em termos. Considerando a diversidade entre todos esses territórios e suas especificidades, há, entre eles e o Pará, algo em comum: são entes federados de grande dimensão espacial e desenvolvimento sub-regional irregular, e isso com vários componentes econômicos e sociais similares. Pensemos em algumas dessas unidades federadas, comparando-as ao Pará, para ver-se se são, de fato, ingovernáveis.
Queensland, na Austrália
Na Austrália, a província de Queensland tem 1,7 milhão de km2 e 3,9 milhões de habitantes. Por lá, é considerada uma nova fronteira de desenvolvimento para o país. A descoberta de importantes reservas minerais, de bauxita e de carvão, tem atraído, nos últimos 20 anos, um considerável contingente populacional, provocando alguns conflitos de espaço, reivindicações territoriais por parte de povos tradicionais e conflito entre pequenos agricultores e o agronegócio.
Alguma semelhança, com o Pará, não é?
Querem outra semelhança: a sociedade local luta, há anos, com os interesses das principais províncias da federação, aqueles que concentram as regiões industrializadas da Austrália, para conseguir verticalizar a cadeia produtiva mineral.
Além disso, com a migração, gerou-se uma importante decalagem entre as aspirações da sociedade e a oferta de serviços públicos básicos. Em meio a tantos interesses, o governo local passou muito tempo sem conseguir se fortalecer, suficientemente, para construir um projeto provincial efetivo.
Por fim, para completar o quadro de curiosas semelhanças, o norte do Queensland começou a reivindicar a divisão territorial da província como solução para os males locais. Com a divisão, surgiria a província de Capricornia, nome retirado de um romance escrito em 1932, cuja história lá se passa e cujo nome se produz do fato ambíguo de que, além de ser atravessada pelo trópico de Capricórnio, a forma geográfica local, para alguns, evoca os cornos desse animal.
A divisão não aconteceu, mas o “fundo do poço” serviu para que a sociedade local construísse um projeto coletivo de sociedade. Elaborou-se, com ampla participação social, um projeto de integração regional do Queensland, o qual foi denominado Queensland Regionalisation Strategy. Sua base é a tentativa de equilibrar o desenvolvimento, a ocupação territorial e a ação pública, maximizando esforços para diminuir os custos.
Essa ação procura estabelecer dois corredores de escoamento produtivo no território: o Gas Corridor e o Mineral Corridor, o primeiro ao sul e o segundo ao norte. Com isso se procurou gerar emprego e estabelecer infraestrutural, nessas regiões, para a verticalização da cadeia mineral.
Ao mesmo tempo, se desenvolveu um programa de fomento à agricultura, que ocupou o oeste do território promovendo uma reorganização do espaço local e, mais recentemente, se conseguiu estabelecer o Tourism Corridor, ao longo do litoral, finalmente explorando as condições para o florescimento da indústria do turismo, que nunca fora explorada em seu incrível potencial.
Em síntese, se gerou arranjos produtivos regionais, produzindo cadeias que reuniram parcelas diferentes da população
Um programa governamental provincial, o Queenslander, unificou toda a sociedade local, bem como as diversas correntes políticas, ainda que rivais entre si, para reivindicar apoio do Governo Federal e lançar a província na direção do futuro. O Queenslander Operation foi e é um fator de união de todos os 4 milhões de habitantes da província em torno de um projeto comum de futuro: um projeto de destino. Localizou-se o nó do problema de desenvolvimento local – no caso a geração de energia – e se articulou uma defesa coesa dos interesses provinciais junto ao Governo Federal. O resultado foi um investimento pesado em energia, gerando um novo corredor de progresso local, o Energy Corridor, que atravessou toda a província, levando energia a todos.
Se desejar conheceer melhor dessa estratégia, siga por aqui: Queensland Regionalisation Strategy
Continua
Fábio Fonseca de Castro
No Hupomnemata
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Vitória em Cristo

Com uma leitura singular da Bíblia, o pastor Silas Malafaia ataca feministas, homossexuais e esquerdistas enquanto prega que é dando muito que se recebe ainda mais
De olhos fechados, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, deixava-se empoar pela maquiadora, que encobria as manchas e o brilho de seu rosto. Dali a pouco, ele gravaria seu programa semanal na televisão. Naquela manhã de agosto, Malafaia estava amuado. Na véspera, soubera que um pastor – de quem se considerava amigo – havia lhe tirado o horário da madrugada na TV Bandeirantes, uma negociação feita pelas suas costas. Também lhe pesava a má repercussão de seu último programa, no qual havia pedido doações de 911 reais e 10 011 reais a seus fiéis. Na internet, o mais polido dos sites que tratou do assunto o chamou de “estelionatário”.
A moça domava suas sobrancelhas com rímel transparente e, antes de lhe baforar laquê nos cabelos, ele falou sobre o caso. “A oferta é o que viabiliza minha missão, que é pregar o Evangelho e arrebanhar o maior número possível de fiéis”, explicou. “Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangelísticas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim.”
Levantou-se da cadeira com os bicos do colarinho em riste, pegou uma gravata vermelho-sangue e, com o queixo colado ao peito, passou à confecção do nó. “Então, quer dizer que eu tomo dinheiro há vinte anos dos pobres coitados e nenhum deles reclama? O cara lá do raio que o parta me dá 10 mil contos porque ele é um burro e eu sou um fera, porque ele é ingênuo e eu fiz lavagem cerebral nele?”, protestou, enquanto conferia a gola no espelho. “Isso é preconceito da elite, que acha que todo evangélico é tapado, idiota, a ralé da classe social explorada por um malandro. O cara dá oferta porque ele sabe onde eu invisto a grana dele, porque ele confia no trabalho que fazemos aqui e não quer que ele acabe.”
Há 29 anos, o carioca de origem grega Silas Lima Malafaia está na televisão falando de Deus. Seu programa Vitória em Cristo é como um longo comercial da Polishop – ofertas e promoções de DCs, livros e DVDs de sua empresa, a Central Gospel –, intercalado de sermões bíblicos e mensagens na linha motivacional/autoajuda de matriz norte-americana. Dublado em inglês, é transmitido via satélite para 200 países pela Daystar e Inspiration Network, redes evangélicas dos Estados Unidos. No Brasil, Malafaia pode ser visto na Rede TV, Rede Bandeirantes e CNT, emissoras nas quais compra horário.
O seu discurso é socialmente conservador, e suas trovoadas retóricas recaem sobre grupos organizados que militam pela afirmação das minorias e pelos direitos individuais. Considera-os liberais, termo que nas suas pregações ganha conotação pejorativa, deslizando no mesmo campo semântico de libertinagem: umbandistas, a esquerda da Igreja Católica, pastores de outras denominações religiosas, feministas, defensores do aborto e da eutanásia. Nos últimos tempos, o seu alvo predileto tem sido os gays.
Aos 53 anos, Malafaia anda impecavelmente penteado e se veste com apuro, não obstante os ternos marrons e as gravatas em tons plausíveis apenas na paleta da Caran D’Ache. Há anos, compra roupas e acessórios na mesma loja de um shopping na Flórida. O bigodão preto que o acompanhou por décadas foi tirado há quatro anos para rejuvenescer sua imagem. Ele tem um forte sotaque carioca que transforma a letra “s” em “r” característico, como em “são duarr da tarde”.
No púlpito e na televisão, cultiva um estilo iracundo e indignado – o que lhe valeu o apodo de “Ratinho Evangélico”, em referência ao apresentador cascadura do sbt, de quem é amigo. Ao defender seus pontos de vista, fala de maneira virulenta, mas ao pedir dinheiro ou vender seus produtos é ameno e não adota a estratégia do pé na porta. “Eu sou o único pastor que realmente prega a palavra de Deus na televisão.” E explicou: enquanto o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, dedicaria muito tempo de seu programa ao exorcismo e ao pedido de ofertas; o apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus), à cura; e o missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), a transmitir imagens de cultos de sua igreja, ele interpreta a Sagrada Escritura à luz da vida cotidiana – o que faz de sua exegese bíblica uma peça única.
Recentemente, quando pregava como a glória de Deus pode deixar a vida do crente, ele tratou assim da cobiça e do pecado: “Aí vem a irmã dentro da igreja com a roupa arroxada, os dois melões de fora e o cara do lado só olhando, só no somebody love. (...) Se você está indecorosa, você peca e faz o outro pecar! E se você deixa sua mulher sair assim, você é um mané, um otário! Bota o silicone que você quiser, minha irmã! Mas se você quiser ser o instrumento do pecado, a glória de Deus vai embora e você vai pagar a conta com Jeová!”
Entre o anúncio de um kit de Bíblias e a interpretação de um versículo, Malafaia também divulga campanhas para arrecadar doações, como a do Clube de 1 Milhão de Almas, na qual o fiel doa 1 mil reais em troca de uma graça igualmente generosa. O objetivo é levantar 1 bilhão de reais com 1 milhão de doações. No final de agosto, o contador eletrônico de seu site contabilizava quase 38 mil adesões. Malafaia também já pediu para os fiéis doarem parte do aluguel e 30% de seus rendimentos, em vez do dízimo literal de 10%. Em abril, quando tinha uma promissória de 1,5 milhão de reais a vencer, superou-se: pediu ofertas individuais de 100 mil reais. Levantou o dinheiro em menos de uma semana. “Ralé que doa 100 mil... As pessoas não têm ideia do que está acontecendo no meio evangélico”, disse-me no camarim do estúdio de televisão.
A sede da Associação Vitória em Cristo ocupa uma área de 40 mil metros quadrados no bairro de Jacarepaguá, Zona Norte do Rio. A construção moderna e envidraçada contrasta com os arredores de comércio pobre e terrenos baldios abandonados. A entidade cristã – considerada sem fins lucrativos, o que a exime do pagamento de impostos – financia as ações do ministério religioso de Malafaia. São projetos sociais em favelas, cruzadas evangelísticas – que reúnem mais de 100 mil pessoas em praças públicas pelo Brasil –, congressos pentecostais, encontros anuais para a formação de mais de 3 mil pastores, além de seu programa na tevê. Por ano, fatura 40 milhões de reais, captados nas ofertas e doações de fiéis e admiradores. Segundo Malafaia, 20% dos que lhe mandam dinheiro não são evangélicos.
No ano passado, a entidade adquiriu por 4 milhões de dólares, nos Estados Unidos, um jato Gulfstream III de segunda mão. É nele que Malafaia e sua família se locomovem pelo Brasil e no exterior. Fabricado em 1986, o avião tem doze lugares, sofá, cozinha, sistema individual de entretenimento e autonomia de oito horas de voo. Em sua fuselagem está escrito In favour of God.
Numa manhã de julho, em seu escritório decorado com sobriedade em tons de preto e carvalho, ele usava um cardigã de listas azuis e brancas da grife Tommy Hilfiger, calça social e sapatos de verniz pretos. Como muitos pastores, também é adepto do relógio dourado, do anel de brilhantes na mão direita e, eventualmente, do celular pendurado no cinto.
Desde 2006, quando o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia no país, entrou na pauta dos parlamentares, Malafaia se tornou uma das principais vozes contrárias à causa. Foi ele quem, em junho, conseguiu reunir 50 mil pessoas em frente ao Congresso Nacional para protestar contra a votação. Também pediu a seus 180 mil seguidores no Twitter para entupir a caixa postal e congestionar os telefones de parlamentares favoráveis à proposta – no que obteve sucesso. Dias depois, na Marcha para Jesus, em São Paulo, ganhou espaço em jornais e televisões ao dizer que o Supremo Tribunal Federal havia “rasgado a Constituição” no momento em que aprovou a união homossexual.
“Não tenho problema com gay, tenho problema com ativista gay, porque são um bando de intolerantes, intransigentes, antidemocráticos”, falou. Segundo ele, caso o projeto seja aprovado, um diretor de escola que reclame de dois meninos se beijando no recreio poderá parar na cadeia.“Todo mundo se acha no direito de chamar evangélico de ladrão e não acontece nada. Mas se alguém falar um ‘a’ dessa bicharada, é o fim do mundo”, disse. (Há controvérsias. “Dependendo de como odiretor abordasse o casal, caberia uma reprimenda, mas prisão nunca. De qualquer maneira, essa cena não aconteceria num colégio, onde nem héteros podem ficar se beijando”, explicou Denise Taynah, assessora da Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos, do governo do Rio de Janeiro.)
Malafaia estava perplexo. Não conseguia compreender como o Supremo Tribunal Federal garante o direito à liberdade de expressão para a Marcha da Maconha enquanto uma lei federal cogitava punir quem não concordasse com a homossexualidade. “Também fico louco porque essas bichas ganham dinheiro para viver nessa palhaçada. Sabe quem patrocina a Parada Gay? Petrobras, Caixa Econômica. É com o nosso dinheiro”, protestou.
Ao argumento de que um evangélico não corre o risco de ser espancado na rua por preconceito – como havia ocorrido com o pai que andava abraçado a seu filho e ambos foram tomados por um casal gay –, ele respondeu que o episódio foi uma “idiotice altamente condenável”, porém se tratava de uma tragédia isolada. “Mas os gays vão lá e propagandeiam como se fosse regra. Para isso, que é verdadeiramente homofobia, tem que ter cadeia, mas o que eles querem é privilégio”, disse. Depois que avivou a polêmica com os homossexuais, Malafaia passou a ser acompanhado por dois seguranças à paisana. “Se eu chegar num aeroporto e tomar tapa de bicha, vai ficar mal, né?”
Segundo Malafaia, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais tentava, sob o argumento da homofobia, cassar pela terceira vez o seu registro de psicólogo junto ao Conselho Regional de Psicologia. Essa seria a origem de sua rusga com o movimento gay. “Se quisessem apenas defender os direitos deles, o.k., eu não ia me meter, tenho mais o que fazer. Mas quando vi que o que queriam era cercear o MEU direito, aí me chamaram para a briga”, falou. Sobre a possibilidade de perder a licença profissional, ele não se deixa abalar. “O que falo digo no púlpito, não em consultório, por isso o Conselho nada tem a ver com isso. Mas toda hora eles conseguem reviver essa história porque ali tem um bando de viado que foi fazer psicologia para se descobrir”, completou.
Sua secretária – elegante e de preto, como todas as funcionárias da empresa – serviu água em copos de cristal. Malafaia se lembrou de outro embate à época da discussão do aborto na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. “Eu não debato tema polêmico usando religião. Eu uso a ciência, a biologia, a medicina, por isso não conseguem me contestar.” Afirmou ter emudecido os presentes ao desafiá-los a dizer se era a mãe ou o bebê quem controlava o líquido amniótico do útero ou decidia sobre a data de um parto normal – o que deixaria patente que o agente ativo da gravidez é o feto e, portanto, ele tem vida própria.
Para Malafaia, o mundo está em decadência e os valores da sociedade estão no fundo do poço. Sua missão, como pastor e profeta de Deus, é chamar a atenção das pessoas para o que prega o Evangelho. Como exemplo da debacle humana, citou o caso de um pedófilo, preso nos Estados Unidos, que obteve o direito, concedido pela Suprema Corte, de assistir na prisão a todos os vídeos pornográficos que gravou com crianças. “Aí, você vai quebrando, você vai afrouxando, vai banalizando ser pedófilo, daqui a pouco eles estão pedindo também para serem respeitados”, disse. Referia-se ao caso do piloto Weldon Marc Gilbert, preso em 2007, que, por ter assumido a própria defesa, teve acesso, durante o processo,às peças incriminatórias sem as quais não poderia se defender.
Se um homem deseja fazer sexo com outro homem, o que teria ele a ver com isso? “Nada! Cada um faz sexo com quem quiser. O que tenho é o direito de falar que isso é pecado, que é condenado por Deus e que a Bíblia diz que é uma perversão. Agora, o que esse pessoal quer não é o direito a fazer sexo – porque isso já fazem e não vão parar de fazer. Eles querem é colocar uma mordaça na nossa boca para nos proibir de falar qualquer coisa sobre eles. Olha o absurdo que é isso!”, indignou-se.
Malafaia nasceu na Tijuca, Zona Norte do Rio, filho de um militar da Aeronáutica – que, ao se aposentar, tornou-se pastor – e de uma diretora de escola, ambos ligados à Assembleia de Deus. Desde criança, participava de cultos domésticos e acompanhava os pais em eventos evangélicos. Aos 14 anos, conheceu Elizete, de 13, com quem viria a se casar e a ter três filhos. Um irmão dele também se casou com uma irmã dela.
Foi nessa época que ele diz ter recebido “o chamado”. Ouvia uma pregação, quando no meio da frase do pastor sentiu algo inexplicável. “É como um estalo. De repente, tudo passa a fazer sentido. Você consegue integrar o emocional, o intelectual, o psicológico, você entende por que você está aqui. É uma coisa muito forte e muito pessoal”, contou. A experiência foi marcante, mas ele tinha dúvidas, sobretudo quando notava as dificuldades financeiras enfrentadas pelos religiosos de seu círculo social. Aos 20 anos, andava pela rua pensando no assunto, quando foi abordado por um amigo que, do nada, lhe disse para não temer porque ele teria como sustentar sua família. “Era Deus falando através dele”, disse Malafaia. Foi a confirmação de sua vocação de evangelizador.
Ele, a mulher e amigos faziam parte de um grupo gospel chamado Coral e Orquestra Renascer, no qual era o baterista. Chegaram a gravar um LP, apresentavam-se em qualquer galpão e, nos fins de semana, Malafaia alugava uma Kombi para evangelizar mendigos e turistas na praia de Copacabana. A família vivia com os rendimentos da mulher, que trabalhava na Caderneta de Poupança Letra. Foi quando cursou a Faculdade de Teologia do Instituto Bíblico Pentecostal. Com diploma em mãos, tornou-se, aos 23 anos, pastor auxiliar na Assembleia de Deus da Penha, onde seu sogro era titular, ganhando cinco salários mínimos por mês.
Nos anos 80, quando algumas emissoras brasileiras passaram a retransmitir programas de televangelistas americanos – como Jimmy Swaggart e Rex Humbard –, Malafaia ficou fascinado com o poder de evangelização da tevê. Vendeu um carro, pediu dinheiro emprestado a um amigo bem posicionado na hierarquia da igreja e contou com a simpatia de um rico empresário evangélico, Sotero Cunha, que durante anos o ajudou financeiramente. Foi assim que comprou um horário na antiga TV Record (atual CNT).
Com duas câmeras paradas, sentado atrás de uma mesa, Malafaia chamava pastores para cantar e palpitava sobre qualquer assunto. Com muitas contas a pagar, completava o orçamento com palestras, conferências e sermões em igrejas de amigos. Em uma ocasião, chegou a pregar noventa vezes em setenta dias. Perdeu a voz. Em 1990, ele já era o campeão de audiência da emissora.
“A explosão dele se deu quando passou a aparecer em rede nacional descendo o pau em todo mundo e falando de temas atuais. Ele não poupava ninguém. Falava de pastor safado, de evangélico falso, de político corrupto. As pessoas sentiam que ele estava verbalizando publicamente o sentimento que cada um carregava dentro de si”, disse o pastor Silmar Coelho, um dos melhores amigos de Malafaia, durante uma viagem de avião.
Ia para as gravações de ônibus pela manhã e à noite cursava psicologia, na mesma sala da mulher, na Faculdade Gama Filho, no Rio. Nunca atendeu pacientes em consultório. Sua visibilidade e intrepidez no discurso atraíam ofertas, que ele sempre pediu. Com dinheiro em caixa, passou a organizar eventos de evangelização e, paralelamente, investia em oportunidades que nunca foram para frente: loja de decoração, fábrica de “guaraná gospel” e uma rádio.
Em seus negócios privados, sua grande alavancada, como ele diz, deu-se quando conseguiu vender Bíblias em parcelas a perder de vista na televisão. Até então, as editoras dividiam o valor em apenas três vezes. Graças à amizade com um evangélico da diretoria do Banco Cédula, no Rio, Malafaia conseguiu que lhe dessem crédito na emissão de boletos bancários e junto a operadoras de cartão de crédito. Em 2005, em três meses, vendeu 100 mil Bíblias de 120 reais divididos em dez vezes sem juros – um recorde ainda inédito no mercado.
Era hora do almoço e Malafaia se dirigiu a uma sala a poucos metros da sua, que faz as vezes de refeitório da diretoria. Réchauds prateados ocupavam uma mesa comprida, diante da qual o cunhado, a cunhada, uma filha e a nora faziam seus pratos. Quase toda a família trabalha na Associação Vitória em Cristo ou na Editora Central Gospel – que dividem o mesmo prédio –, onde exercem cargos administrativos. Além deles, Elizete é conferencista, autora e também apresenta um quadro no programa de tevê do marido, e o primogênito Silas Filho, formado em teologia nos Estados Unidos, é pastor e vice-presidente do conglomerado.
Enquanto comia, Malafaia contou ter aberto mão do salário de pastor da Assembleia de Deus da Penha e disse que não usava um centavo das verbas da associação para despesas pessoais. Segundo ele, sua única fonte de renda era o que retirava como empresário na Central Gospel, cujo catálogo chega a quase 600 títulos, entre livros, CDs e DVDs. Os autores são ele mesmo, seus familiares, amigos ou pastores best-sellers americanos.
De sua lavra, Malafaia lança a média de quatro livros por ano. São cerca de noventa publicados, todos entre 64 e 72 páginas (“Mais do que isso, o cara não lê, acha grosso demais”), cujo enfoque é quase sempre superar desafios e romper barreiras no contexto da palavra divina. Um ghost-writer reúne suas falas em palestras, cultos e congressos e as transforma em texto corrido. Os títulos incluem Lições de Vencedor, O Perigo da Inversão de Valores, Como Vencer as Estratégias de Satanás, O Cristão e a Sexualidade, entre outros.
A Central Gospel é a segunda editora que mais vende livros evangélicos no país, em torno de 1 milhão de exemplares por ano. Recentemente, a empresa de cosméticos Avon, que agora também distribui produtos populares, comprou um lote de 400 mil livros para comercializar de porta em porta. Segundo Malafaia, seu patrimônio se resume a uma casa, quatro apartamentos pequenos no Recreio dos Bandeirantes, um no Espírito Santo e um imóvel de dois quartos, financiado em trinta anos, em Boca Raton, na Flórida. Ao ouvir que, para um empresário de sucesso, o patrimônio parecia modesto, respondeu que ele não era ganancioso.
Desde 2007, Malafaia já foi investigado duas vezes pela Receita Federal e outras três pelo Ministério Público Federal por suspeita de desvio do dinheiro do dízimo e lesão à crendice popular. Em uma das vezes, disse que ficou provado o erro de um contador que, sem sua anuência, deixou de recolher um tributo. “Paguei tudo no outro dia sem contestar. Quem atira pedra como eu atiro não pode ter telhado de vidro. Eu sou besta?” Quando se servia de sobremesa, pediu para remarcarmos o próximo encontro, pois o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o chamara para uma conversa de última hora. “Já até sei o que ele quer”, disse rindo.
Estima-se que 45 milhões de brasileiros sejam evangélicos, mais da metade deles ligados a denominações chamadas pentecostais. É o grupo que acredita em dons espirituais extraordinários, como a cura de enfermidades, o exorcismo, a liberação de profecias e o dom de falar em línguas estranhas (glossolalia), como ocorreu no Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo se manifestou aos apóstolos por meio de línguas de fogo e fez com que eles pudessem se comunicar em outros idiomas com a multidão.
Com forte estrutura midiática, as igrejas pentecostais deram origem às neopentecostais, que catapultaram às alturas a ideia da valorização do aqui e do agora, da atuação do diabo na vida cotidiana e da relação de troca monetária entre Deus e os homens.
Testemunhos de ventura e redenção, insistentemente repetidos nos programas, sites, jornais e revistas das igrejas neopentecostais, fazem com que a esperança do alcance da graça nunca esmoreça. A promessa da prosperidade terrena é sua marca mais evidente. “Antes era: céu, céu, lindo céu, quando eu morrer eu vou ter tudo, mas enquanto isso, aqui na Terra, eu serei um lascado, todo ferrado. Mas a Bíblia fala da vida abundante, de a pessoa conquistar e ser feliz aqui e agora”, explicou-me Malafaia, uma tarde em seu escritório. “Na Bíblia, o assunto finanças é como qualquer outro, as pessoas é que fazem alarde com isso”, disse. Uma das passagens mais evocadas pelos neopentecostais é a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará.”
Na Vitória em Cristo não se fala em dinheiro, mas em semente; tampouco em graça, diz-se colheita. Por isso, menções à parábola da semente, do Evangelho de Marcos, capítulo 4, versículos 26 a 29, são recorrentes. “O Reino de Deus é assim como se um homem lançasse uma semente à terra (...) porque a terra por si mesmo frutifica (...) e quando já o fruto se mostra, mete-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa.” É o que Malafaia chama de “princípio da agricultura” ou “lei da semeadura”: quem quer receber dinheiro deve doar dinheiro. “O semeador planta a semente do limão porque ele quer colher limão, não laranja ou mamão ou abacaxi”, costuma repetir em suas pregações.
Na porta de entrada de sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, há uma plaquinha em forma de borboleta onde se lê: “Aqui mora gente feliz.” O imóvel de dois pavimentos é grande, mas não suntuoso. É decorado com muitos objetos dispostos pelas estantes e em mesinhas. Os móveis, talhados em madeira, parecem saídosde um castelo: imensos, pesados, escuros. Há dezenas de porta-retratos mostrando a família em natais, passeios no Beto Carrero World ou em viagens ao exterior.
Num fim de tarde, Elizete Malafaia, de 51 anos, uma mulher delicada e simpática, arrumava-se para o culto do marido, na igreja da Penha. Quando bati o joelho pela terceira vez na mesa de centro, ela se desculpou dizendo que o mobiliário – originário da casa da família nos Estados Unidos – era mesmo grande demais para aquele ambiente. Ao volante de seu utilitário preto, ela se dizia preocupada com as polêmicas levantadas pelo marido, sobretudo com os homossexuais.
Segundo ela, não há casos na família. “Se tivesse, iríamos ajudar a tratar, não tenho preconceito”, afirmou. Na igreja, disse, há vários que são facilmente identificáveis. Basta observar como se comportam nos shows de cantoras gospels. Como psicóloga, ela também atendeu inúmeros gays e sustentou que a maioria teria sido abusada na infância. “A homossexualidade é uma desorganização emocional e espiritual. Se a pessoa não perdoou o abuso, ela canaliza aquela raiva para a vingança e, inconscientemente, se torna um abusador também.”
Elizete queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. “Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?” “Não no sentido metafísico”, respondi-lhe. Não houve mais perguntas.
Quando o carro passou em frente a um templo da Universal, ela estabeleceu a diferença de sua igreja com a de Edir Macedo. “A Universal é como um hospital onde as pessoas chegam muito doentes.” Ali, elas conseguiriam se recuperar de vícios, colocar a vida nos eixos e afastar do cotidiano a presença do mal. “Mas elas não encontram a palavra de Deus para continuar seguindo a vida cristã”, disse. “E é aí que entramos. Somos uma igreja da palavra, do Evangelho, do caminho.”
Até dezembro de 2009, Malafaia era somente um pastor auxiliar, apresentador de tevê, conferencista motivacional e dono da Editora Central Gospel. Com a morte de seu sogro, que foi por 43 anos titular da Assembleia de Deus da Penha, Malafaia assumiu um rebanho de 17 mil fiéis e 104 templos espalhados pelo estado do Rio. Sua primeira medida foi adicionar o nome Vitória em Cristo para caracterizar sua própria igreja. Para fazê-lo, pediu demissão do cargo de tesoureiro da Convenção Geral das Assembleias de Deus, que era contrária à criação da subdenominação. Deixou a função dizendo que as finanças da instituição eram “caso de polícia”.
A Vitória em Cristo tem 150 pastores contratados, cujos benefícios incluem casa mobiliada, escola para os filhos e plano de saúde. O salário de um pastor iniciante gira em torno dos 3 mil reais e pode chegar aos 20 mil por mês, com direito a carro do ano. “Mas não adianta o cara vir com chorumela: tem que saber ler a Bíblia, pregar, explicar”, disse. Em sua igreja, fiéis desempregados ou recém-demitidos têm direito a uma cesta básica (“E não é com arroz de quinta, não!”) até se restabelecerem. Desde que assumiu a igreja, ele já atraiu 7 mil novos crentes e abriu outros nove templos pelo Brasil, rompendo a redoma fluminense. Tem planos de inaugurar outras 250 igrejas nos próximos cinco anos.
Segundo ele, no Brasil, há um imenso campo para evangelizar pessoas. Elepretende ser a alternativa dos fiéis da Assembleia de Deus que deixaram de se sentir representados pelo que ele chama de “assembleiossauros”: “Aqueles que vão jogar futebol de calça comprida”, disse, fazendo graça com o tradicionalismo de seus pares. Até pouco tempo, os assembleianos eram proibidos de ver televisão, ir à praia ou jogar futebol. Ainda hoje, nas subdenominações mais conservadoras, as mulheres usam saias e cabelos compridos. “Eu quero ser essa opção. Tudo me favorece: tenho visibilidade, credibilidade por estar trinta anos na tevê, comungo dos princípios da Assembleia de Deus, mas não fiquei parado no tempo, sou contemporâneo.”
Inaugurada em maio, a Vitória em Cristo da cidade de Curitiba é o retrato do que Malafaia quer espalhar pelo Brasil. O prédio envidraçado de três andares tem um auditório com mais de 3 mil lugares, palco forrado com madeira na cor caramelo, telões e modernos equipamentos de luz e som. O sistema de ar-condicionado e de calefação “nem o aeroporto da cidade tem”, diz ele com orgulho. O espaço é amplo, todo branco, conferindo ao ambiente uma sensação de limpeza e modernidade.
Em noite recente, o pastor titular – um jovem carioca de óculos e roupas modernas – alternava-se entre anunciar a agenda dos eventos e ler sua Bíblia num iPad. Antes do sermão, um dos melhores amigos de Malafaia, o pastor Jabes Alencar, e o filho deste, igualmente pastor e cantor contratado pela Central Gospel, ensinavam à plateia os gestos que acompanhavam um louvor em ritmo de xote:
O inimigo pelejou
mas não conseguiu
Ele tentou me derrubar
Eu chamei por Jeová
mas foi ele quem caiu
Luzes coloridas e estroboscópicas iluminavam todo o palco e a banda aumentara o volume. Homens, mulheres e crianças dançavam como se estivessem numa discoteca. Antes de deixarmos o local, Malafaia fez questão de mostrar o 2º andar da igreja, onde havia berçários e salas de recreação infantil que não pareceriam deslocados na capa de uma revista de decoração. “Eu não faço porcaria, está vendo? Se eu gosto de coisa boa, imagina Deus”, disse.
Eram sete e meia da noite quando Malafaia subiu no púlpito da igreja Vitória em Cristo, na Penha. Os 2 500 lugares estavam ocupados e ainda havia muita gente em pé. O público era, em sua maioria, de mulheres jovens, maquiadas e bem-vestidas, como se estivessem voltando do trabalho. Representavam a ascensão das classes populares brasileiras. Eram as novas secretárias, vendedoras, telefonistas, recepcionistas. Os homens presentes vestiam terno e gravata ou paletó com camiseta por baixo. “A paz do Senhor, irmãos”, disse Malafaia saudando a plateia de microfone em punho.
Durante os 25 minutos seguintes, Malafaia prestou contas e expôs seus planos aos fiéis. Disse que aquele espaço entraria em reforma para acomodar 20 mil pessoas sentadas, que a igreja em Curitiba havia custado 6 milhões de reais (“Feita com a obra e o dízimo de vocês, aleluia”), que a igreja de Nova Iguaçu vai custar 3 milhões de reais, que precisava ainda levantar 2 milhões para concluir o templo de Joinville e outro 1,5 milhão para o de São José dos Pinhais. Contou que, na véspera, havia batizado coletivamente 1 107 pessoas no Piscinão de Ramos, que na televisão “tudo é patrocinado” e que ele gastava “milhões de reais por mês” para se manter no ar. Reiterou a promessa de abrir uma igreja em todos os “cantos desse país” e disse que ali não era clube nem terapia coletiva, então era preciso compromisso por parte dos crentes.
“Como a gente faz tudo isso? Só com a liberalidade e a fidelidade dos irmãos. Vamos zerar essa conta. Se você quiser fazer uma oferta especial, peça um envelope para você”, disse a todos. “Vamos orar para Deus dar as verbas para vocês. Frutifica a semente que eu e meus irmãos plantamos!”, gritou. Ouviam-se brados de “Aleluia”, “Glória a Deus” e “Louvado”. Alertou: “Ninguém pode ser constrangido a dar oferta. Ninguém é obrigado a dar. Ninguém quer que você tire o pão da boca das crianças nem que se endivide.”
Uma banda começou a tocar uma música etérea, suave. Dos cantos do auditório, saíram rapazes e moças distribuindo pilhas de envelopes onde se lia a frase “Minha semente para uma colheita abençoada”, impressa sobre uma foto de ramos de trigo. Dezesseis deles também carregavam máquinas Cielo para o pagamento da doação em cartão de débito ou crédito. Na Vitória em Cristo, 30% das ofertas são acertadas no cartão. “Não se envergonhe, não se cale, você é um agente de Deus”, disse Malafaia. O barulho dos zíperes de bolsas e carteiras era ensurdecedor.
Do alto, ele mantinha uma postura de desbravador, espichando a vista em direção ao horizonte. Uma mulher com unhas de esmalte negro escreveu algumas palavras no envelope e doou 50 reais; a que estava a seu lado,20 reais. Malafaia tirou o paletó e anunciou uma agenda de compromissos e eventos. Os presentes conversavam entre si e alguns cantarolavam baixinho a música ambiente.
A seguir, indo de lá para cá no palco, Malafaia contou que, no dia anterior, havia recebido 800 mil reais de um empresário amigo, que queria ajudar seu ministério. “Mas eu disse a ele: ‘Você acha que isso está comprando sua salvação, irmãozinho? Nãããnaninanina! Eu aceito a oferta, mas você tem que mudar a sua vida, você tem que aceitar Jesus, ajoelha aí.’” Em 2009, em entrevista a um site evangélico, Malafaia havia relatado uma história parecida, mas o benfeitor era um atacadista e o valor era de 130 mil reais.
Malafaia perscrutava a plateia, como que preocupado com a possibilidade de uma ovelha se desgarrar. Quando percebeu que o movimento dos obreiros havia cessado, deu a ordem: “Levanta o seu envelope aí.” E, como uma onda feita por torcidas em estádios de futebol, os envelopes foram surgindo um a um e ficaram suspensos no ar. “Glória a Deus”, ele disse antes de iniciar uma oração. Dias depois, calculou ter arrecadado por volta de 10 mil reais naquela noite. “Era meio do mês, o pessoal já está com o dinheiro mais contado”, explicou. Só com dízimos e ofertas, a Vitória em Cristo tem uma receita de 20 milhões de reais por ano. Malafaia sustenta que, proporcionalmente ao número de fiéis, é a maior arrecadação das Assembleias de Deus no país.
O sermão da noite era “Vida de fé ou incredulidade. Qual é a sua?”. Na Vitória em Cristo, não há ênfase em cura ou exorcismo. Malafaia prega sem anotações, apenas consultando a Bíblia para ler as passagens que menciona. Sua performance é uma combinação de memória prodigiosa e desempenho cênico. Ele é onomatopeico, careteiro e versátil no uso da voz – com a qual percorre uma escala extensa, do falsete quando imita alguém que faz uma pergunta tola, ao grave profundo que enfatiza uma frase mais solene.
“É você contra o departamento em que você trabalha, é você contra o seu chefe, contra sua família, mas você está com Deus. Para Ele, você é maioria sempre!”, disse o pastor falando sobre autoestima. Leu o versículo 31 do livro dos Números, no capítulo 13. “Porém os homens que com ele subiram disseram: ‘Não poderemos subir contra aquele povo porque é mais forte do que nós.’” Encarando a plateia com o dedo espetado no ar, gritou: “Sabe o que Deus está dizendo aqui? Que aqui tínhamos que viver como ferrados. Era assim.” Da plateia ouviam-se louvores.
“E olha aqui o complexo de inferioridade!”, exclamou diante do versículo 33: “Também vimos ali gigantes (...) éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos.” Com a voz ainda mais alta e trêmula, ele trovejou: “Você está se vendo errado, irmão! Você não é gafanhoto! Tem gente que acha que você é inteligente! O complexo de inferioridade é CON-TA-GI-AN-TE! Enterra essa ideia, irmão!” Uma mulher gritou: “Aleluia!” Na minha frente, uma grávida sentada num degrau do altar enxugava lágrimas. “Olha para o seu irmão e diz: ‘Deus tem um projeto para você!’” A meu lado, Elizete Malafaia me olhou nos olhos e falou: “Deus tem um projeto para você e para toda a sua geração!”
Ao final, Malafaia convidou aqueles que estavam se reconciliando com Deus a se aproximar do palco. Eram pessoas que haviam largado a igreja ou ainda andavam em pecado. Oito delas apareceram, foram abençoadas e abraçadas por obreiros, que as ampararam para deixar o local. Depois de duas horas, o culto foi encerrado. Havia uma sensação de redenção e bem-estar no ar. As pessoas pareciam satisfeitas, cheias de si, animadas e confiantes. Malafaia foi cercado pelos fiéis que queriam fotos e consultas individuais. Na saída da igreja, sentia-se um forte odor de fritura e lixo. Dezenas de carrinhos de churros, pipocas e mesas de camelôs dividiam a calçada com detritos de sacos de lixo que haviam sido violados – provavelmente por algum catador de latinhas à procura de alumínio.
Malafaia sempre foi brizolista. Votou em Lula duas vezes e, nas últimas eleições, de última hora, declarou apoio ao tucano José Serra. No início da campanha, disse que votaria em Marina Silva, que também é da Assembleia de Deus, mas mudou de ideia depois de ouvir que ela proporia um plebiscito sobre o aborto. Na TV Record, o bispo Edir Macedo insinuou que Malafaia teria recebido dinheiro para mudar de lado. “Arrumei 200 mil votos para o Marcelo Crivella [senador eleito pelo PRB do Rio e sobrinho de Macedo] e o tio dele vem me fazer uma dessas. Ele ia perder pro Picciani, eu me desdobrei... Agora a gente vê quem é o venal”, disse.
O pastor acredita que o Brasil terá em breve um presidente da República evangélico, mas que não será alguém saído dos quadros da igreja. “É alguém que surgirá da política e que, contingencialmente, será evangélico”, especulou. Segundo diz, uma bancada representativa no Congresso pode cauterizar, ainda na origem, projetos como o da legalização do aborto e da descriminalização das drogas. Hoje são 73 parlamentares, mas acredita que o número pode dobrar. Na eleição passada, os três candidatos a deputado federal que apoiou somaram mais de 300 mil votos. Seu irmão, Samuel Malafaia, foi o terceiro deputado estadual mais votado do Rio.
Eduardo Paes o havia chamado para tirar a limpo o boato de que Malafaia pensava em concorrer à Prefeitura nas próximas eleições. “Respondi que nem pensar. Mas ele sabe que trago votos”, disse-me dias depois do encontro. Em 1995, quando o bispo Von Helder, da Universal, chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão, Malafaia foi um dos líderes evangélicos que saiu publicamente em sua defesa. Edir Macedo ficou bem impressionado e o convidou para se lançar candidato a deputado federal em 1998, com a perspectiva de construir o seu nome como alternativa da Igreja Universal à Presidência. “Mas não era minha praia. Não nasci para ser político, sou um pregador”, disse durante um almoço em um hotel de Brasília. A recusa lhe custou o programa que tinha na Record. Desde então, a relação com Macedo é turbulenta.
Em que Malafaia acha que se diferencia do líder da Igreja Universal? “Eles estão muito violentos nessa coisa de pedir dinheiro”, explicou. “E adotam um discurso perverso na relação com os fiéis. Dizem que, se você não tem uma coisa, é porque você não crê. Já eu afirmo que, se você não tem, é porque foi burro ou jogou a oportunidade fora”, prosseguiu. “O Macedo era um cara de ideais extraordinários, mas se perdeu por causadessa tentativa desenfreada de destruir a Globo. Hoje ele usa o dízimo e as oferendas para bancar o profano, aquele lixo moral, que apresenta na programação da emissora dele.”
Um dos eventos mais importantes organizados pelo ministério de Malafaia é o Congresso Fogo para o Brasil. No final de julho, reuniu 3 600 pessoas no Centro de Convenções, em Brasília. O público era composto de pastores de outras denominações, protestantes de várias partes do Brasil, fiéis da Vitória em Cristo e curiosos que o seguem pela televisão.
Já na entrada, via-se um guichê da TAM, que vendera pacotes de até 2 700 reais por pessoa pelos quatro dias de palestras com preletores de várias igrejas, hotel, traslados e café da manhã. Os corredores estavam apinhados de prateleiras lotadas dedvds, CDs, livros e Bíblias em diversos estilos. Todos tinham a etiqueta da Central Gospel. Uma das Bíblias mais procuradas era a de capa de couro imitando estampa de onça, alcinha que a transformava em bolsa de mão e espelho interno para maquiagem. Custava 10 reais. Havia produtos para todo tipo de público e de interesse. Crianças tinham à disposição toda a coleção da Turma do Cristãozim, com o Evangelho ilustrado; adolescentes eram o foco da série de revistas A Galera de Cristo e mulheres podiam comprar até livros de receitas coroados com reflexões bíblicas.
Um banner na entrada dos 26 guichês de caixa avisava que as compras de mais de 29 reais poderiam ser divididas em duas vezes sem juros e as superiores a 150 em até dez vezes. Quem gastasse mais de 400 reais estaria concorrendo ao sorteio de oito iPads. Na fila ao lado do marido, a funcionária pública Bruna Cristina Moura, 25 anos, uma loira de olhos azuis, bem-vestida, que era da igreja Sara Nossa Terra, havia comprado 12 dvds de Malafaia. “Admiro o jeito dele. Ele me inspira confiança e credibilidade”, comentou. A programação incluía uma série de shows de bandas e cantores da gravadora Central Gospel – que, em comum, têm o hábito de afastar o microfone da boca e tombar a cabeça para trás na hora de um agudo.
No hall de entrada do evento, conheci a empresária Andreia Moraes, uma moça de cabelos loiros compridos, que comia uma coxinha, encostada no balcão. Ela havia viajado sozinha para Brasília, estava hospedada em um hotel confortável e esperava ansiosa a fala de Malafaia. Há dois anos vinha contribuindo para o Clube de 1 Milhão de Almas e afirmou que, desde então, sua vida havia se transformado.
Endividada e desempregada, tornou-se empresária, representante da Herbalife em Mato Grosso do Sul. “Eu o conheci pela tevê, me apaixonei pelas coisas que ele falava, faziam muito sentido para mim”, disse. À sua semente, Deus havia proporcionado uma colheita misericordiosa. “Deus me honrou com uma casa de meio milhão de reais. Eu hoje tenho muito para dar e emprestar, minha família toda se converteu.” Para ela, o que diferencia Malafaia dos demais pastores é sua coragem de “comprar brigas” pelos evangélicos e pelo Evangelho. “Eu tenho discernimento religioso, sei que ele é um homem de Deus. Deus fala através dele. Se ele diz que a semente será frutificada, ela será”, falou.
Em mais duas voltas pelo espaço do evento, cruzei com Murilo Otávio Benittes, um funcionário público que gostaria que os políticos brasileiros fossem “íntegros” como Malafaia; e com Liana Ribeiro, uma pastora baiana que usava gola de pele e disse ter no pastor “uma referência espiritual pelo tamanho de seu trabalho evangelístico”. E também Neide Batista, uma senhora baixa e atarracada, cujo filho havia largado as drogas e arrumado um bom emprego como gerente de uma lanchonete de fast-food. Em todos, predominava a sensação de redenção, agradecimento e consciência plena da razão de estarem ali. A conversão havia sido um ato consentido e rendera frutos.
Na sala VIP do evento, diante de uma mesa de salgadinhos, Malafaia esperava sua vez de entrar no palco. Ele contava ter recebido um e-mail de um diretor da Rede Globo dando-lhe explicações sobre a queixa que havia feito à cúpula da emissora por causa do beijo gay que seria exibido na novela Insensato Coração.
Silas Malafaia contou que, no final do ano passado, foi chamado para uma conversa pelo vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O dono da Globo lhe disse que a rede queria conhecer melhor o mundo dos evangélicos. E contou terem percebido, na emissora, que Edir Macedo “não era a voz” dos protestantes no Brasil. Desde então, eles mantêm um canal de comunicação. “Sabe quantas vezes apareci no Jornal Nacional só este ano?”, perguntou o pastor, dando a resposta com a mão bem aberta. “Cinco.”
Numa série de reportagens sobre o trabalho social de determinadas igrejas, o Jornal Nacional mostrou numa delas o que a de Malafaia fazia na Vila Cruzeiro, no Rio. Três meses depois da ocupação da favela por forças do Exército, o pastor levou até lá massagistas, médicos, terapeutas e até manicures para atender à população, gratuitamente. O nome da igreja foi citado e o pastor ocupou o vídeo, sozinho. Um dos sonhos de Malafaia é comprar um horário na Globo para fazer pregações. “Ainda vou conseguir”, disse. “Eles já estão abrindo. Olha o programa do Faustão: está cheio de cantor evangélico se apresentando lá.” A Globo não comercializa horários contínuos. “Só vendemos anúncios em intervalos comerciais”, disse João Roberto Marinho.
No estúdio de gravação do programa, Malafaia, já vestido com um blazer azul-celeste, continuava a murmurar. “Trairagem, safadeza!”, resmungou enquanto se olhava no espelho. Mais do que ter perdido o horário da madrugada na TV Bandeirantes, ele não se conformava com a ursada do apóstolo Valdemiro Santiago. “Um cara que eu ajudei, que botei em contato com a Globo quando ele precisou. Que botei minha cara para bater quando a Lei do Psiu de São Paulo ia fechar a igreja dele”, dizia. Soube-se que, numa negociação direta com a cúpula da Bandeirantes, Santiago ofereceu 150% a mais do que o pago por Malafaia pelo horário das 2 horas às 6h45, algo em torno de 10 milhões de reais por mês. Em geral, os canais vendem aos religiosos janelas reservadas a espaços publicitários. Assim, não se responsabilizam pelo conteúdo do que é exibido.
Com exceção da Globo e do SBT, as demais emissoras gostam e querem vender horários para pastores evangélicos. O pagamento é em dia porque têm dinheiro vivo na mão; o custo de produção dos programas é baixíssimo, o que reduz muito o risco de bancarrota e, consequentemente, de calote. E, como a concorrência entre eles é forte, acabam pagando muito mais por horários desprezados pela audiência, como é o caso das madrugadas. “O R. R. Soares está saindo da Band até agosto e estão me oferecendo para pegar o horário”, disse. “Mas estão querendo enfiar a faca, estou fora.”
O diretor do programa avisou que deveriam descer para o estúdio. “Se o Valdemiro está pensando que vai levantar grana na madrugada, está muito enganado. Ninguém vende nada nem recebe doação de madrugada. O efeito madrugada é falar com gente com problema. Gente insone, desesperada, que não tem a quem recorrer. É espetacular para a evangelização, mas zero para negócios”, comentou.
No estúdio, uma equipe de vinte pessoas estava à sua espera. O cenário é constituído por um painel pintado com arvoredos que supostamente remetem a um jardim em Jerusalém, além de uma fonte de verdade que jorra água. Como trabalha sem roteiro e improvisa tudo, decidiu usar todo o programa para rebater as ferozes críticas da internet que atacavam as suas reiteradas solicitações de dinheiro. No ar, comunicou que precisava levantar 8,5 milhões, e explicou, tostão por tostão, onde o dinheiro seria empregado. Um milhão de reais para uma cruzada evangélica para 100 mil pessoas em São Luís; outro milhão para cruzada idêntica em Fortaleza; quatro milhões para treinar 2 500 pastores e 500 jovens com vocação ministerial; e 2,5 milhões para a adequação do seu programa ao padrão de alta definição digital.
Quando as câmeras foram desligadas, ele me chamou num canto: “Vê se outro pastor faz isso que eu faço. Eu divulgo onde gasto cada centavo que recebo. Vai lá no R. R. Soares e manda ele dizer onde ele põe a grana, vai lá no Edir Macedo e vê se ele abre as finanças dele.” Terminou a conversa revelando o resultado dos pedidos de oferta. Em menos de dez dias, 145 pessoas haviam doado os 10 011 reais e outras 2 mil, os 911 reais. “Alguma compensação eles devem ter, não acha?”, perguntou.
Daniela Pinheiro
No Revista Piauí
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Chávez, Evo y Obama - II final

Si nuestro Premio Nobel se autoengaña, algo que está por probar, ello tal vez explique las increíbles contradicciones de sus razonamientos y la confusión sembrada entre sus oyentes.
No hay un ápice de ética, y ni siquiera de política, en su intento de justificar su anunciada decisión de vetar cualquier resolución a favor del reconocimiento de Palestina como Estado independiente y miembro de Naciones Unidas. Hasta políticos, que en nada comparten un pensamiento socialista y encabezan partidos que fueron estrechos aliados de Augusto Pinochet, proclaman el derecho de Palestina a ser miembro de la ONU.
Las palabras de Barack Obama, sobre el asunto principal que hoy se discute en la Asamblea General de esa organización, sólo pueden ser aplaudidas por los cañones, los cohetes y los bombarderos de la OTAN.
El resto de su discurso son palabras vacías, carentes de autoridad moral y de sentido. Observemos por ejemplo cuan huérfanas de ideas fueron, cuando en el mundo hambriento y saqueado por las transnacionales y el consumismo de los países capitalistas desarrollados Obama proclama:
“Para superar las enfermedades hay que mejorar los sistemas de salud. Continuaremos luchando contra el SIDA, la tuberculosis y el paludismo; nos centraremos en la salud de los adultos y niños, y hay que detectar y luchar contra cualquier peligro biológico como el H1N1, o una amenaza terrorista o una enfermedad.”
“Las acciones en materia de cambio climático: Debemos utilizar los recursos escasos, y continuar el trabajo para construir, en base a lo que se hizo en Copenhague y Cancún, para que las grandes economías continúen con su compromiso. Juntos debemos trabajar para transformar la energía que es el motor de las economías y apoyar a otros que avanzan en sus economías. Ese es el compromiso para las próximas generaciones, y para garantizar que las sociedades logren sus potencialidades debemos permitir que los ciudadanos también logren sus potencialidades.”
Todo el mundo sabe que Estados Unidos no firmó el Protocolo de Kyoto y ha saboteado todos los esfuerzos por preservar la humanidad de las terribles consecuencias del cambio climático, a pesar de ser el país que consume una parte considerable y desproporcionada del combustible y los recursos mundiales.
Dejemos constancia de las palabras idílicas con que pretendía engatusar a los hombres de Estado allí reunidos:
“No hay ni una línea recta, ni un solo camino hacia el éxito, venimos de distintas culturas y tenemos distintas historias; pero no podemos olvidar que cuando nos reunimos aquí como jefes de distintos gobiernos, representamos a ciudadanos que comparten las aspiraciones básicas, las mismas: vivir en dignidad y en libertad; tener educación y lograr las oportunidades; amar a sus familias, y amar y venerar a sus dioses; vivir en una paz que hace que la vida valga la pena ser vivida; la naturaleza de un mundo imperfecto hace que hayamos aprendido estas lecciones cada día.”
“…porque los que vinieron antes que nosotros creían que la paz es mejor que la guerra, y la paz es mejor que la represión, y que la prosperidad es mejor que la pobreza. Ese es el mensaje que viene, no de las capitales, sino de los pueblos, de la gente, y cuando el pilar de esta institución se fundó, Truman vino y dijo: Las Naciones Unidas básicamente es la expresión de la naturaleza moral de las aspiraciones del ser humano. Vivimos en un mundo que cambia a una gran velocidad, esta es una lección que nunca debemos olvidar. La paz es difícil, pero sabemos que es posible, por eso es que juntos debemos decidirnos para que esto sea definido por las esperanzas y no los temores. Juntos debemos lograr la paz, una paz que sea duradera.
“Muchísimas gracias.”
Escucharlas hasta el final merece algo más que gratitud; merece un premio.
Como ya expresé, en las primeras horas de la tarde correspondió el uso de la palabra a Evo Morales Ayma, presidente del Estado Plurinacional de Bolivia, quién entro rápidamente en los temas esenciales.
“…hay una clara diferencia sobre la cultura de la vida frente a la cultura de la muerte; hay una clara diferencia sobre la verdad frente a la falsedad, una profunda diferencia de la paz frente a la guerra.”
“…siento que va a ser difícil entendernos con políticas económicas que concentran el capital en pocas manos. Los datos demuestran que el 1% de la población en el mundo concentra el 50% de las riquezas. Si hay esas profundas diferencias, ¿cómo podría resolverse la pobreza? Y si no acabamos con la pobreza, ¿cómo podría garantizarse una paz duradera?”
“De niño me acuerdo perfectamente que antes, cuando había una rebelión de los pueblos contra un sistema capitalista, contra los modelos económicos de saqueo permanente de nuestros recursos naturales, a los dirigentes sindicales, a los líderes políticos de tendencia izquierdista les acusaban de comunistas para detenerlos; a las fuerzas sociales las intervenían militarmente: confinamientos, exilios, matanzas, persecuciones, encarcelamientos, acusados de comunistas, de socialistas, de maoístas, de marxista-leninistas. Siento que eso ahora ha terminado, ahora ya no nos acusan de marxista-leninistas, sino ahora tienen otros instrumentos como el narcotráfico y el terrorismo…”
“…preparan intervenciones cuando sus presidentes, cuando sus gobiernos, cuando los pueblos no son procapitalistas ni proimperialistas.”
“…se habla de una paz duradera. ¿Cómo puede haber una paz duradera con bases militares norteamericanas? ¿Como puede haber paz duradera con intervenciones militares?”
“¿Para qué sirven estas Naciones Unidas, si aquí un grupo de países deciden intervenciones, matanzas?”
“Si quisiéramos que esta organización, las Naciones Unidas, tenga autoridad para hacer respetar las resoluciones, pues tenemos que empezar a pensar en refundar las Naciones Unidas…”
“Cada año en las Naciones Unidas deciden -asi el ciento por ciento de las naciones, excepto Estados Unidos e Israel desbloquear, acabar con el bloqueo económico a Cuba, ¿y quién hace respetar eso? Por supuesto, el Consejo de Seguridad jamás va a hacer respetar esa resolución de Naciones Unidas [...] No puedo entender cómo en una organización de todos los países del mundo sus resoluciones no se respetan. ¿Qué es Naciones Unidas?”
“Quiero decirles que Bolivia no está de espaldas al reconocimiento de Palestina en Naciones Unidas. Nuestra posición es que Bolivia da la bienvenida a Palestina a las Naciones Unidas.”
“Ustedes saben, amables oyentes, que yo vengo del Movimiento Campesino Indígena, y nuestras familias cuando hablan de una empresa se piensa que la empresa tiene mucha plata, carga mucha plata, son millonarios, y no podían entender cómo una empresa pida al Estado, que se le preste plata para la inversión correspondiente.
“Por eso digo que estas entes financieras internacionales son las que hacen negocio mediante las empresas privadas; ¿pero quiénes tienen que pagar eso? Justamente son los pueblos, los Estados.”
“…Bolivia con Chile, tenemos una demanda histórica para retornar al mar con soberanía al Pacífico, con soberanía. Por eso, Bolivia ha tomado la decisión de acudir a tribunales internacionales, para demandar una salida útil soberana al océano Pacífico.
“La Resolución 37/10 de la Asamblea General de la ONU, 15 de noviembre de 1982, establece que ‘acudir a un Tribunal Internacional de Justicia para resolver litigios entre Estados no debe ser considerado como un acto inamistoso.’
“Bolivia se ampara en el derecho y la razón para acudir a un Tribunal Internacional, porque su enclaustramiento es producto de una guerra injusta, una invasión. Demandar una solución en el ámbito internacional representa para Bolivia la reparación de una injusticia histórica.
“Bolivia es un Estado pacifista que privilegia el diálogo con los países vecinos, y por ello mantiene abiertos los canales de negociación bilateral con Chile, sin que ello signifique renunciar a su derecho de acudir a un Tribunal Internacional…”
“Los pueblos no son responsables del enclaustramiento marítimo de Bolivia, los causantes son las oligarquías, las transnacionales que como siempre se adueñan de sus recursos naturales.
“El Tratado de 1904 no aportó a la paz ni a la amistad, ocasionó que por más de un siglo Bolivia no acceda a un puerto soberano.”
“…en la región América se gesta otro movimiento de los países de Latinoamérica con el Caribe, yo diría una nueva OEA sin Estados Unidos, para liberarnos de ciertas imposiciones, felizmente, con la pequeña experiencia que tenemos en UNASUR. [...] ya no necesitamos, si hay algún conflicto de países [...] que vengan desde arriba y afuera a poner orden.”
“También quiero aprovechar esta oportunidad sobre un tema central: la lucha contra el narcotráfico. La lucha contra el narcotráfico es usado por el imperialismo norteamericano con fines netamente políticos. La DEA de Estados Unidos en Bolivia no luchaba contra el narcotráfico, controlaba el narcotráfico con fines políticos. Si había algún dirigente sindical, o había algún dirigente político antiimperialista, para eso estaba la DEA: para implicarlo. Muchos dirigentes, muchos políticos nos salvamos de esos trabajos tan sucios desde el imperio para implicarnos en el narcotráfico. Hasta ahora siguen todavía intentándolo.”
“Las semanas pasadas decían algunos medios de comunicación desde Estados Unidos, que el avión de la presidencia estaba detenido con rastros de cocaína en Estados Unidos. ¡Qué falso!, tratan de confundir a la población, tratan de hacer una campaña sucia contra el gobierno, incluso contra el Estado. Sin embargo, ¿qué hace Estados Unidos? Descertifica a Bolivia y a Venezuela. ¿Qué autoridad moral tiene Estados Unidos para certificar o descertificar a los países en Suramérica o en Latinoamérica?, cuando Estados Unidos es el primer consumidor de drogas del mundo, cuando Estados Unidos es uno de los productores de marihuana del mundo, primer productor de marihuana del mundo [...] ¿Con qué autoridad puede certificar o descertificar? Es otra forma de cómo amedrentar o intimidar a los países, tratar de escarmentar a los países. Sin embargo, Bolivia, con mucha responsabilidad, va luchando contra el narcotráfico.
“En el mismo informe de Estados Unidos, es decir, del Departamento de Estado de Estados Unidos reconoce una reducción neta del cultivo de coca, que ha mejorado la interdicción.
“¿Pero dónde está el mercado? El mercado es el origen del narcotráfico y el mercado está aquí. ¿Y quién descertifica a Estados Unidos porque no ha bajado el mercado?
“En la mañana, el presidente Calderón, de México, decía que el mercado de la droga sigue creciendo y por qué no hay responsabilidades para erradicar el mercado. [...] Hagamos una lucha bajo una corresponsabilidad compartida. [...] En Bolivia no tenemos miedo, y hay que acabar con el secreto bancario si queremos hacer una lucha frontal contra el narcotráfico.”
“…Una de las crisis, al margen de la crisis del capitalismo, es la crisis alimentaria. [...] tenemos una pequeña experiencia en Bolivia: se da créditos a los productores de arroz, maíz, trigo y soya, con cero por ciento de interés, e incluso ellos pueden pagar con sus productos su deuda, se trata de alimentos; o créditos blandos para fomentar la producción. Sin embargo, las bancas internacionales nunca toman en cuenta al pequeño productor, nunca toman en cuenta las asociaciones, las cooperativas, que muy bien pueden aportar si se les da la oportunidad. [...] Tenemos que terminar con el comercio llamado de competitividad.
“En una competencia, ¿quién gana?, el más poderoso, el que tiene más ventajas, siempre las transnacionales, ¿y qué es del pequeño productor?, ¿qué es esa familia que quiere surgir con su propio esfuerzo? [...] En una política de competitividad seguramente nunca vamos a resolver el tema de la pobreza.
“Pero, finalmente, para terminar esta intervención quiero decirles que la crisis del capitalismo ya es impagable. [...] La crisis económica del capitalismo no solo es coyuntural, sino es estructural, ¿y qué hacen los países capitalistas o los países imperialistas?, buscan cualquier pretexto para intervenir en un país y para recuperar sus recursos naturales.
“Esta mañana el Presidente de Estados Unidos decía que Iraq ya se liberó, se van a gobernar ellos. Los iraquíes podrán gobernarse, ¿pero el petróleo de los iraquíes en manos de quién está ahora?
“Saludaron, dijeron que se acabó la autocracia en Libia, ahora es la democracia; puede haber la democracia, ¿pero el petróleo de Libia en manos de quién quedará ahora? [...] los bombardeos no eran por culpa de Gaddafi, por culpa de unos rebeldes, sino que es buscando el petróleo de Libia.”
“…Por tanto, su crisis, la crisis del capitalismo, la quieren superar, la quieren enmendar recuperando nuestros recursos naturales, en base a nuestro petróleo, en base a nuestro gas, nuestros recursos naturales.
“…tenemos una enorme responsabilidad: defender los derechos de la Madre Tierra.”
“…la mejor forma de defender los derechos humanos es ahora defendiendo los derechos de la Madre Tierra [...] aquí tenemos una enorme responsabilidad de aprobar los derechos de la Madre Tierra. Recién hace 60 años aprobaron la Declaración Universal de los Derechos Humanos. Recién hace 60 años atrás se han dado cuenta en las Naciones Unidas que también el ser humano tiene sus derechos. Después de los derechos políticos, los derechos económicos, los derechos de los pueblos indígenas, ahora tenemos la enorme responsabilidad de cómo defender los derechos de la Madre Tierra.
“También estamos convencidos de que el crecimiento infinito en un planeta finito es insostenible e imposible, el límite del crecimiento es la capacidad degenerativa de los ecosistemas de la Tierra. [...] hacemos un llamado a [...] un nuevo decálogo de reivindicaciones sociales: en sistemas financieros, sobre los recursos naturales, sobre los servicios básicos, sobre la producción, sobre la dignidad y la soberanía, y con esta base empezar a refundar a las Naciones Unidas para que las Naciones Unidas sean la máxima instancia para la solución en temas de paz, en temas de pobreza, en temas de dignidad y soberanía de los pueblos del mundo.”
“Esperamos que esta experiencia vivida como Presidente pueda servir de algo para todos nosotros, como también yo vengo a aprender de muchos de ustedes para seguir trabajando por la igualdad y la dignidad del pueblo boliviano.
“Muchísimas gracias.”
Después de los medulares conceptos de Evo Morales, el Presidente de la Autoridad Nacional Palestina Mahmud Abbas, al que concedieron el uso de la palabra dos días después, expuso los dramáticos sufrimientos de los habitantes de Palestina: “…la crasa injusticia histórica perpetrada con nuestro pueblo, por ello se convino establecer el Estado de Palestina en solo un 22% del territorio de la Palestina y, sobre todo, el territorio palestino que ocupó Israel en 1967. Tomar ese paso histórico, que aplaudieron los Estados del mundo, permitió condescender sobre manera para lograr una contemporización histórica, que permitiría que se lograra la paz en la tierra de la paz.”
“[...] Nuestro pueblo continuará con la resistencia pacífica popular a la ocupación de Israel, sus asentamientos y su política de apartheid, así como la construcción del muro de anexión racista [...] armado con sueños, valor, esperanza y lemas ante la faz de tanques, gas lacrimógeno, buldóceres y balas.”
“…queremos darles la mano al gobierno y al pueblo israelí para la imposición de la paz, y les digo: construyamos juntos, de manera urgente, un futuro para nuestros hijos en el que puedan gozar de libertad, de seguridad y de prosperidad. [...] Construyamos relaciones de cooperación que se basen en la paridad, la equidad y la amistad entre dos Estados vecinos, Palestina e Israel, en vez de políticas de ocupación, asentamientos, guerra y eliminación del otro.”
Ha transcurrido casi medio siglo desde aquella brutal ocupación promovida y apoyada por Estados Unidos. Sin embargo, apenas transcurre un día sin que el muro se levante, monstruosos equipos mecánicos destruyan viviendas palestinas y algún joven, e incluso adolescente palestino, caiga herido o muerto.
¡Cuan profundas verdades contenían las palabras de Evo!
Fidel Castro Ruz
Septiembre 26 de 2011
10 y 32 p.m.
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