25 de set de 2011

Nova York: 96 manifestantes presos. PIG silencia

Os participantes na acampada em Wall Street manifestaram-se pelas ruas novaiorquinas este sábado. A polícia tentou encurralá-los e prendeu quase cem manifestantes, que se queixam de violência policial sobre uma marcha pacífica.
As detenções policiais violentas sobre a marcha pacífica chocaram 
os manifestantes e atrairam pela primeira vez a atenção dos
grandes meios de comunicação para este protesto.
A manifestação de mais de mil pessoas saiu da zona da bolsa de Nova Iorque, onde mais de duas centenas permanecem dia e noite, em direcção a Union Square, no centro da cidade. "Mas antes de lá chegarmos, a polícia cercou-nos e começou a prender gente de forma violenta. E sabiam muito bem quem deviam levar. Principalmente gente da equipa de imprensa e audiovisuais e todos os que têm dirigido as assembleias diárias", disse um dos activistas ao El Pais.
Após a manifestação, a acampada voltou a reunir cerca de 600 pessoas numa assembleia na praça Zucotti, junto a Wall Street, sempre rodeada pelo forte dispositivo policial que cerca o local desde o seu início no passado dia 17. Esta praça é propriedade privada de uso público, um estatuto legal que impede a polícia de tirar as pessoas de lá, ao contrário dos jardins públicos que pertencem à Câmara dirigida por Michael Bloomberg. O mayor de Nova Iorque foi o primeiro a declarar guerra a acampada ainda na véspera de começar, dizendo que não queria ver os motins do Cairo na cidade.
A forma pacífica como tem decorrido o protesto acabou por ser interrompida pela acção policial. Mas não é só a polícia que tem merecido críticas dos manifestantes. A imprensa de grande circulação também tem sido criticada pelo silêncio mantido ao longo da primeira semana sobre a iniciativa. De facto, só com os incidentes deste sábado é que os media dedicaram algum espaço à iniciativa.
Os manifestantes que aderiram à acampada em Wall Street são sobretudo jovens e com reivindicações a favor de mais democracia e menos poder para o sector financeiro.
A acampada chegou a Wall Street
Do Esquerda.net
No Blog do Cappacete
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Portugal: A Igreja católica em números

A Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) é proprietária, em Portugal, de enorme património imobiliário, todo ele isento de IMI, sem contar com os imóveis usados para fins religiosos classificados como monumentos nacionais ou de interesse público, onde cabe à ICAR regular todo o uso dos imóveis e ao Estado a sua manutenção.
Estes privilégios resultam da Concordata assinada pela Santa Sé e pela República Portuguesa em 18 de Maio de 2004, concordata que substituiu a de 1940 porque a perda das colónias e a proibição do divórcio, entre outros absurdos, a tornaram obsoleta.
A enorme fortuna da Igreja num país cada vez mais pobre é administrada por 55 bispos, 3355 padres, 246 diáconos e numerosos leigos que, por interesses vários ou vassalagem assumida, se ajoelham perante o poder eclesiástico.
Para publicidade a ICAR dispõe de 4368 paróquias, 364 centros religiosos (casas de retiro, santuários e reitorias), 539 órgãos da comunicação social, 59 seminários e 165 escolas católicas, além de tempo de antena na televisão pública e de propaganda nas escolas oficiais.
O Vaticano, cuja confiança nas informações bancárias do IOR e nos crimes praticados pelo clero anda muito abalada, afirma que Portugal tem 9,36 milhões de católicos, uma taxa de 88,3% da população, quando se queixa da diminuição acentuada de baptizados, de casamentos religiosos e da baixa frequência do culto por parte da população.
A percentagem deve ser tão verídica como a influência de D. Nuno a curar queimaduras oculares com óleo de fritar peixe, milagre rubricado pelo Papa para o canonizar.
A frieza com que B16 foi recebido na Alemanha natal não deve ser alheia à conduta dos padres em matéria sexual e ao embuste dos milagres, o que exasperou Lutero.
Já dizia o Eça que «quando um povo duvida da virtude dos padres deixa de acreditar no martírio do seu Deus».
Nota: Os números referidos foram retirados do DN.
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Justificar a invasão de Cuba, tal qual a da Líbia: razão das Dama$ de Branco

Em uma cerimônia solene, a "dissidência" cubana confirmou hoje o seu papel como a ponta de lança de uma invasão da ilha. Porém, o evento para anunciar essa nova "fase" de denúncias e ativismo, inspirada na "Primavera árabe", na qual participarão as "Damas de Branco", não foi realizada em Havana: se não no Capitólio, em Washington, sob os auspícios da congressista republicana, Ileana Ros-Lehtinen.
"Esta nova fase é o que nós estávamos esperando. Estas damas de apoio se juntaram a nós... sem dor e sem qualquer preso político, queriam também ir às ruas para protestar conosco, as Damas de Branco", disse no ato, Josefina López Peña, em referência, sem dúvidas às mulheres que recebem dinheiro de fundações, corporações, para desempenhar o papel de figurantes nas manifestações das "Damas".
Da mesma forma, Josefina - que foi apresentada no Congresso como "co-fundadora" do grupo - , se referiu às chamadas Damas de Branco, como Damas de ferro (não está claro se por conta da "proeza" de bater panelas ou em alusão velada aos tanques das tropas da OTAN, aos quais as Damas pretendem, com suas provocações, abrir caminho para invadirem Cuba).
Por sua vez, a congressista republicana da Flórida, Ileana Ros-Lehtinen, também conhecida como La Loba Feroz, foi mais explícita nas verdadeiras intenções das Damas da OTAN. Segundo disse, "tem havido uma mudança real em Cuba e pode ser devido ao impacto da Primavera árabe".
"Esperamos que isso chegue a Cuba", disse o presidente da Comissão dos Assuntos Externos da Câmara dos Representantes.
O "isso", a "Primavera árabe", que segundo La Loba Feroz, deve chegar a Cuba, tem lugar agora mesmo na Líbia, onde a sublevação dos "rebeldes" serve de cortina midiática para a criminosa invasão da OTAN, da qual aquele povo é vítima.
As declarações de Ileana Ros-Lehtinen estão em sintonia com as que Obama deu recentemente acerca da "primavera árabe", durante um encontro com jornalistas hispânicos, quando o assunto Cuba veio à tona, e também confirma a afirmação feita recentemente em um programa especial TV cubana (veja abaixo), onde ficou claro que as ações das chamadas Damas, apenas pretendem transformar a ilha em uma nova Líbia.
No Solidários
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Marcelo Adnet fala sobre a divisão do Pará

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Descoberta nova mentira do tucano Beto Richa

Mentira tem perna curta: Governo do Paraná anuncia superávit de R$ 871 milhões

O governo Beto Richa acumula superávit de R$ 871,7 milhões nas contas do Estado, em oito meses, segundo informa o secretário da Fazenda, Luiz Carlos Hauly.
No inicio da gestão, o tucano jurava que herdara o Estado quebrado dos ex-governadores Roberto Requião (PMDB) e Orlando Pessuti (PMDB) com déficit de R$ 4,5 bilhões.
Mês passado, o Tribunal de Contas do Estado desmentiu a tese de “herança maldita” ao apurar que o governo do PSDB começou em janeiro de 2010 com um superávit de R$ 22 milhões.
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Banco Central regulará entrada de artistas internacionais

Roberto Medina defendeu na ONU a boca livre de jornalistas brasileiros na Ilha de Capri e propôs que a Cidade do Rock seja declarada Estado independente
CIDADE DO ROCK - Como medida drástica para manter a balança cultural estável, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, anunciou que será regulada a entrada de artistas internacionais em território brasileiro. "Já aturamos Justin Bieber, Rihanna, Katy Perry e Miley Cyrus: num dá, não há ouvido que aguente!", exclamou, desligando o gramofone do seu gabinete. Fez um exercício vocal, cantarolou um motivo de Vivaldi e continuou, em falsete: "Só permitiremos a entrada de novos artistas se levarem o Restart, Luan Santana e a Banda Cine para uma turnê no Iêmen de, no mínimo, dezoito meses".
A reação internacional foi forte. O Banco Central de Capri divulgou nota dizendo que regulará a entrada na ilha de jornalistas brasileiros em missão de boca livre. O governo israelense proibiu não só novos shows de Roberto Carlos em Jerusalém como a exibição dos anteriores -- no que, pela primeira vez desde 1948, foi apoiado pelos palestinos. A prefeitura de Miami distribuiu cartazes dos rostos de apresentadores de TV brasileiros com os dizeres "Brazilians go home".
Pego de surpresa com a medida, que considerou antimusical, Roberto Medina ameaçou escalar novamente Lobão e Carlinhos Brown para shows de heavy metal. Aturdido e meio surdo, Mantega aceitou negociar. Ao final do dia, assessores revelaram que Medina convocará uma cota de dois backing vocals ligados ao PMDB em cada show no Palco Mundo.
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As contas marotas do “Estadão”

O Estadão abre carga hoje contra o Ministro Carlos Lupi, dizendo que ele transformou em “balcão” partidário o Ministério do Trabalho.
Não discuto, como sempre digo, questão partidárias neste blog, embora dentro do PDT tenhamos nossas divergências, que lá devem ser tratadas.
Não o farei, portanto, mas não posso deixar de apontar a “marotice” da matéria.Os desentendimentos partidários não devem impedir que se veja que há algo estranho nessa investida.
A matéria é esquisita. Porque, pelo menos que tenha sido publicado, não aponta irregularidades concretas, mas fala em “empreguismo partidário”. Não vejo onde o Ministro devesse escolher quadros políticos senão no seu partido, a menos que se esperasse que ele os fosse pedir ao PSDB ou ao DEM.
Mais de uma vez disse que não tenho qualquer indicação no Ministério, o que me permite falar sem parcialidade.
Mas há uma incorreção absoluta na matéria, que mostra com que propósitos se deu a ela o destaque de manchete.
Diz que Lupi “mantém dez integrantes da Executiva Nacional do seu partido em postos de comando do ministério” . Ora, a Executiva Nacional do PDT – cuja lista pode ser consultada aqui - tem 23 integrantes e, deles, só oito não exercem mandatos eletivos. Portanto, não poderiam ser dez, nem que o ministro quisesse. Depois, os nomes apontados na matéria não compõem e nunca compuseram a Executiva do partido.
Sobre um deles, pelo menos, causa espanto a carga do Estadão: o médico epidemiologista e ex-presidente da Farmanguinhos, Eduardo Costa, ex-secretário de Saúde do primeiro Governo Brizola. O que há de errado em que um órgão de defesa da saúde do trabalhador seja presidido por um médico de renome e com experiência que vai desde a atuação nas barrancas do Amazônia, na erradicação da varíola na Índia e na produção de medicamentos antivirais no Brasil? Se o Estadão quiser conferir, o currículo do Dr. Eduardo está aqui, é público.
Quanto à suposta intenção de Lupi de deixar o ministério em março, não tenho conhecimento. Imagino que ele me dissesse isso, se fosse verdadeiro, até porque, conforme estabelecido na Convenção Nacional do Partido, a partir daquele mês exercerei a Presidência do PDT.
Brizola Neto
No Tijolaço
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Cacoete Golpista: Mídia já criou um "Conselho de Transição" para a Síria

 Barrigada  

Parece piada, a mesma mídia corporativa que abafa as manifestações dos jovens ingleses, os tachando de "baderneiros", anda com indisfarsável cacoete golpista:
Numa notícia referente à criminosa intervenção da OTAN na Líbia, o precarizado que digitou o título da notícia cometeu uma pequena gafe:
Tchê! Os caras ainda nem conseguiram aniquilar a resistência Líbia e já assimilaram a ainda não ocorrida intervenção na Síria como fato dado!
No Na Práxis
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A Corrupção e a Opinião Pública

É sempre necessário conhecer o que pensam os cidadãos sobre os temas em debate no meio político. A opinião pública pode não ser a dimensão fundamental na democracia, mas é uma das mais importantes.
Suas preocupações e prioridades coincidem, muitas vezes, com as dos políticos e da imprensa. Em outras, no entanto, não são as mesmas.
A corrupção, por exemplo. Deve ter sido a palavra mais usada no Congresso e na mídia nos últimos meses.
A temporada começou com as denúncias contra Palocci e não se encerrou. Pelo contrário. Outros ministros caíram, dezenas de funcionários foram demitidos.
Os partidos de oposição, como é natural, se aproveitaram desses casos para focar o discurso. Seria ilógico que desperdiçassem a oportunidade, apesar do telhado de vidro e de saberem, no íntimo, que enfrentariam dificuldades parecidas às de Dilma, se tivessem vencido a eleição.
A mídia oposicionista avaliou que esse era um flanco a explorar no ataque a seu inimigo figadal, o “lulopetismo”. Deu-lhe, portanto, farta cobertura (mas, como sempre, sem dedicar uma linha a quem corrompe).
Ao longo do mês, um terceiro elemento (não separado dos anteriores) entrou em cena. A partir do 7 de Setembro, foram tentadas algumas manifestações de protesto civil contra a corrupção, das quais a maior ocorreu em Brasília. Todas foram modestas.
A mais recente, que aconteceu esta semana no Rio de Janeiro, chegou a ser patética, apesar do espaço que sua preparação recebeu nos veículos do maior grupo de comunicação da cidade (e do país) e da simpatia com que foi tratada. Só faltou convocar a população, explicitamente, a participar do evento.
Apenas 2,5 mil pessoas apareceram, entre manifestantes - a maioria motivada por outras questões - e a turma que costuma circular no centro das grandes cidades. Alguns empunhavam as velhas vassouras do pior udenismo.
Nada de semelhante às manifestações de massa em outros países. Do mundo árabe à Europa, passando pelo Chile e chegando aos Estados Unidos, grandes e entusiasmados protestos, especialmente de jovens, tornaram-se parte decisiva do processo político.
Uma das razões que explicam a baixa adesão popular aos protestos anticorrupção no Brasil é o lugar que o tema possui na hierarquia dos problemas nacionais. Ele está longe de ser prioritário para a vasta maioria da população.
Em pesquisa realizada há dois meses pela Vox Populi, foi pedido aos entrevistados que dissessem quais os três principais problemas do país (em pergunta espontânea, i.e. sem exibir lista). Como mais grave, a corrupção foi citada por 5% dos ouvidos e ficou em sexto lugar.
Agregando as repostas de quem a colocou como um dos três mais relevantes, permaneceu na mesma posição.
Esses 5% podem ser comparados aos 38% que escolheram a saúde, aos 20% que citaram a segurança, aos 12% que responderam educação, aos 11% que mencionaram o desemprego e aos 5% que falaram em pobreza ou fome. Ou seja, não é uma preocupação central para muita gente.
Não se está aqui dizendo que seja pouco importante. As pessoas se preocupam com a corrupção e acham que é indispensável coibi-la.
Mas não consideram que o problema tenha se agravado ultimamente. Aliás, todas as pesquisas mostram que, quando se pedem comparações entre os governos do PT e do PSDB, a maioria acha que era mais sério antes da vitória de Lula.
Perguntadas sobre qual partido “tem políticos mais desonestos ”, as pessoas tendem a dizer “todos” (30%) ou (o que é parecido) não saber qual (36%). PT, PMDB e PSDB empatam, cada um com cerca de 8%, entre os que mencionam algum.
A corrupção não é, portanto, um tema que esteja pegando fogo na opinião pública. E não há, hoje, “culpados” claros por ela (como houve no passado, quando chegou a levar milhões de caras pintadas às ruas).
O mais importante, contudo, é que a grande maioria da população aprova o governo e confia na sua atuação. As pessoas acreditam que a corrupção é um dos muitos problemas que o país tem e que estão sendo enfrentados por Dilma.
É por que a opinião pública pensa assim que a “indignação” mobiliza tão pouca gente. Apesar dos esforços em contrário de alguns (poderosos).
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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Em busca da razão perdida - II

As grandes revoluções humanas não surgem espontaneamente. Elas, de certa forma, existem como possibilidade desde o início da História, mas são contidas pelas forças reacionárias. As idéias que as suscitam permanecem latentes, na obra de um ou outro pensador, seja nos ensaios, no teatro, nas narrativas épicas ou na poesia. Em alguns momentos, ganham força, mediante a discussão e o debate, e triunfam, mesmo que, algumas vezes, de forma efêmera.
As idéias, sem embargo de sua energia própria, dependem da ação. Os intelectuais, dizia, sem muita justiça, um dos precursores do Iluminismo, Erasmo de Rotterdam, são naturalmente medrosos. Isso só é válido para uma minoria, e de menor dimensão. A regra tem sido outra. Foram numerosos os homens de pensamento que tombaram em pleno combate, nas prisões ou nas terríveis condições da clandestinidade. Sem ir longe no passado, o século 20 foi exemplar nessa necessidade da inteligência em se fazer ação, como ocorreu na na memorável resistência contra os nazistas, os fascistas e os franquistas – e na luta pela autodeterminação dos povos contra o totalitarismo imperialista. A política é a práxis da razão, e, sem ela, o pensamento permanece encapsulado na teoria, ou, seja, na contemplação.
O grande motor do século 19, o do fulgor do Iluminismo, foi L’Enciclopédie, Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers. Tratou-se de uma empresa, que nasceu com o interesse comercial de editores franceses – chefiados pelo maior deles, na época, Le Breton – empenhados na tradução da Cyclopaedia, dicionário universal inglês de Ephraim Chambers. Le Breton convidou D’Alembert e Diderot para a tarefa. Ambos entenderam que não bastava a tradução de um dicionário que, circulando desde 1728, já se encontrava perempto, e se limitava a uma erudição de natureza clássica, distanciada das inquietações práticas de 1747. Se o dicionário de Chambers tratava das artes e das ciências, Diderot acrescentou, para a sua enciclopédia, os verbetes sobre os ofícios profissionais. Dedicou grande parte às ilustrações, que, sobretudo no caso dos ofícios, contribuíram para que a obra servisse como manual de instruções.
Perseguida pela Igreja, uma vez que era essencialmente materialista, e incluída no Índex; mal vista pela monarquia, por reivindicar as liberdades políticas, a Enciclopédia passou por inúmeras dificuldades e chegou a ser proibida. Diderot foi preso por algum tempo, D’Alembert desistiu de ser o co-editor, a partir do volume oitavo, e os últimos tomos foram impressos e distribuídos clandestinamente. O custo era altíssimo. Quando relembramos que a composição, tipo por tipo, era manual, e as chapas, armadas uma a uma, em operação demorada, podemos imaginar o dinheiro necessário apenas para o trabalho tipográfico. Mais de dois mil gráficos trabalharam durante os vinte e um anos de edição, transcorridos entre o primeiro e o último dos 28 volumes, 11 deles só de ilustrações.
A Enciclopédia foi empreendimento revolucionário, e disso Diderot tinha plena consciência. A publicação serviu para derrubar os pilares do poder feudal de uma nobreza ociosa e parasitária, que consumia a maior parte dos recursos obtidos com o trabalho dos franceses; serviu como fermento da Revolução Francesa e a derrocada da monarquia; combateu a Igreja, que, sócia privilegiada da opressão e monitora do pensamento, ameaçava os intelectuais com os dogmas e mantinha os néscios submissos, mediante a ameaça do inferno. Como as luzes vinham de várias fontes, Diderot escolheu para o subtítulo da obra a trilogia do inglês Francis Bacon, que assim resumia as operações da mente: Memória, Razão e Imaginação.
Diderot foi mais do que seu diretor intelectual. Coube-lhe buscar os subscritores – o que representava para cada um deles a aplicação de uma pequena fortuna – entre os ricos mais esclarecidos, os pioneiros da indústria e do comércio e alguns banqueiros, como o mais eminente financista de Paris, Jacques Necker, que viria a ser a figura chave na Queda da Bastilha. Durante muito tempo, os enciclopedistas foram acolhidos no salão de Madame Necker, onde as novas idéias eram livremente debatidas.
O autor de “A Religiosa” agiu, ao mesmo tempo, como pensador, militante político e ativo empreendedor. Usando recursos que hoje encontramos na internet, como a remissão dos assuntos a outros verbetes, a inclusão das fontes de informação e referências bibliográficas, o que hoje chamamos de hiperlink. O texto incitava à ampliação crítica da informação, com o fantástico resultado que a História registra. E a empreitada fascinou todos os que a ela se associaram. O caso mais notável desse empenho foi o de Louis de Jacourt, um intelectual muito rico e de grande saber, que se formara em teologia, em Genebra, ciências naturais em Cambridge e medicina, em Leiden, na Holanda. Jacourt, sozinho, redigiu um quarto de todos os verbetes da Enciclopédia, sem cobrar um centavo pelo seu trabalho. Ao contrário, contratou vários assessores, que o ajudaram na exaustiva pesquisa daqueles tempos, e lhes pagou com seu próprio dinheiro.
Mesmo quando sua distribuição teve que ser clandestina, a Enciclopédia era discutida em todos os salões. Suas idéias estimularam o aparecimento de novos pensadores, que se somaras à elite da razão daquele tempo, formada por homens muitos deles nobres, como foram como Montesquieu, Grimm e Holbach. Eles se somaram a livres pensadores, como Voltaire, D’Alembert, Condorcet, Daubeton, Rousseau, Turgot e Quesnay, e a mulheres como Mme. D’Epinay, Sophie Volland, Mme Necker – e a notável proteção financeira a Diderot, de Catarina, a imperatriz da Rússia, para abrir o caminho do século seguinte.
O Iluminismo conduziu o mundo, durante o século 19 e a maior parte do século 20. A oposição que sofreu, no início dos oitocentos, com o Romantismo, foi débil, e só se manifestou de forma mais forte nas artes, sobretudo na literatura. Hegel e Marx, nas idéias sociais, ou seja, políticas, são dois dos maiores frutos do século 18. Um se seguiu ao outro, e de seu pensamento surgiram os grandes movimentos revolucionários do século passado. Apesar disso, os resultados mais espetaculares das luzes parecem ter ocorrido na ciência e na tecnologia.
O espírito do mundo moderno é o da ruptura de todos os limites, na investigação do cosmos, na velocidade das comunicações e dos transportes, na duração da vida.
Galileu tem uma frase inquietante: muita prudência, muitas vezes, quer dizer muita loucura. A razão, sendo o uso da mente para a construção da autonomia, já representa, em si mesma, uma violação da natureza instintiva da espécie: talvez nessa intuição, Chesterton tenha afirmado que louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão – o que significa entender que a aparente loucura pode também significar muita prudência.
No que se refere à política – que é a mais necessária das atividades humanas – o século passado foi o da exacerbação de um confronto milenar, que está nas glândulas da espécie, e que constitui o eixo das civilizações: o do egoísmo contra o altruísmo, dos ricos contra os pobres, dos fortes contra os débeis. É assim que poderemos ver em São Francisco de Assis a constatação de Chesterton – de resto um de seus grandes devotos – de que o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão. Não havia outra forma para que a sociedade de Assis do século 13 pudesse ver a conduta do jovem Bernardone, ao renunciar à vida confortável que a riqueza lhe permitia, romper com o pai, e lhe devolver as roupas luxuosas que vestia e, com o manto pobre de monge que o bispo de Assis lhe deu para cobrir a nudez, partir para outros atos de aparente loucura, nos quais se escondia a mais pura razão. No século 20 tivemos testemunhos desta conduta, tida como insana, na solidariedade radical, em nome do humanismo – que é sempre cristão, ainda que se identifique como agnóstico ou ateu- e tanto mais cristão quanto menos acredite na recompensa eterna.
Foi assim que tivemos, entre outros, o forte testemunho de Simone Weil, nascida judia, convertida ao marxismo e, em seguida ao cristianismo, e que ao Vaticano conviria mais fazê-la beata e mártir do que conferir santidade ao espanhol Balaguer. Simone abandonou, ainda menina, as comodidades da família, viveu entre os oprimidos, quis participar da luta na Espanha, um acidente a excluiu da atividade revolucionária, e sua renúncia a viver melhor do que viviam os mais pobres a levou à morte prematura, aos 34 anos, com tuberculose. São loucos, como Francisco e Simone, e muitíssimos outros, anônimos, que, no decorrer da História, perdem tudo, menos a razão.
O Iluminismo, que significara um outro salto da razão, não só trouxe os movimentos de solidariedade, como não conseguiu impedir a evolução industrial, graças à inteligência técnica e a ascensão da burguesia capitalista, e a exacerbação do imperialismo britânico e do colonialismo europeu, e a submissão da maioria da população do mundo aos opressores. Em nome de equivocada interpretação biológica, surgiu o mito da superioridade racial, e levou à estupidez do fascismo e do nacional-socialismo, com as duas grandes guerras mundiais, os milhões de mortos, e os conflitos continuados, sempre conduzidos pelos mais fortes contra os mais débeis. Entre a invasão da Etiópia pela Itália, em 1935, e recente intervenção militar na Líbia pelos países europeus, não há diferença essencial: é a arrogância dos que se acham superiores e que, por tal razão, se sentem com o direito aos bens naturais do mundo, sobretudo as fontes de energia, como o petróleo.
A luta contra o totalitarismo dos anos 30 convocou os intelectuais do mundo inteiro, a partir da Guerra Civil da Espanha. O engajamento da inteligência ainda continuou, na Resistência contra os nazistas e, ainda mais dura, contra os capitulacionistas e traidores, como ocorreu na França, nas lutas contra os golpes militares na América Latina, no combate aos crimes cometidos pelos Estados Unidos no Vietnã, no combate contra o novo racismo europeu. Embora muitos ainda permaneçam nas trincheiras da razão, o novo liberalismo dos anos oitenta, conseguiu encabrestar a inteligência e afasta-la das preocupações políticas. É assim que se explica que a França de Clemenceau e Leon Blum, de De Gaulle e Mitterrand, esteja hoje entregue ao pigmeu Sarkozy, e que os Estados Unidos de Roosevelt e Eisenhower, depois da tragédia dos Bush, assista à erosão veloz da grande esperança que foi Obama. Lembre-se a Espanha, condenada a se entregar novamente à direita, saudosista do franquismo, depois da claudicação de Zapatero. Não falemos na Itália, governada por um bufão, e, ainda assim, com a petulância de nos dar lições morais e recorrer ao Tribunal de Haia contra o exercício da soberania brasileira.
Enfim, o mundo, sendo sempre o mesmo, piora – e reclama nova articulação da inteligência para a restauração do compromisso da espécie humana com sua própria sobrevivência, que os materialistas atribuem à razão, e os cristãos radicais identificam na santa loucura do amor solidário, como o do Poverello de Assis.

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Metroviárias de SP denunciam Rede Globo

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Clube da Paixão - III

A volta do programa mais casamenteiro do rádio brasileiro.
Dinho e o povo brasileiro oferecem carinhosamente para Sarney:

Relembre aqui e aqui, outros grandes momentos do Clube da Paixão.
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José Dirceu: Documentos, drogas ou dinheiro

O ex-ministro José Dirceu disse ontem, em um seminário da revista Forum, (veja aqui) em São Paulo, que acredita que um dos objetivos do repórter que tentou invadir seu apartamento num hotel de Brasília era plantar provas: documentos, drogas ou dinheiro.
O dirigente do PT atribuiu a recente onda de ataques da revista Veja contra ele à tentativa de descobrir alguma prova que torne possível abrir um novo processo judicial, já que, segundo Dirceu, em breve ele será absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão.
No processo, Dirceu é acusado de chefiar uma quadrilha que teria usado dinheiro público para financiar o apoio político ao então presidente Lula. Dirceu nega as acusações, diz que não há nenhuma prova contra ele e está certo da absolvição.
No evento, o ex-ministro afirmou que o repórter da Veja, Gustavo Ribeiro, é reu confesso, por ter confirmado a tentativa de entrar no apartamento que José Dirceu usa como escritório no hotel Naoum, em Brasília.
Afirmou que a perícia ainda não concluiu se as imagens divulgadas pela revista foram feitas pela própria câmera de segurança do hotel ou por uma câmera instalada pelo repórter. Se o primeiro caso se confirmar, a polícia vai investigar quem pagou e quem recebeu pelas imagens.
Sobre a mídia, Dirceu afirmou que o debate sobre regulamentação deve ser travado no Congresso. Presente, o deputado federal Paulo Teixeira, líder do PT na Câmara, disse que até o final deste ano o governo Dilma deve enviar ao Congresso um projeto de regulamentação do setor. A informação foi atribuída por Teixeira ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O projeto terá como base o texto deixado pronto pelo ex-ministro Franklin Martins.
Frisou-se que o objetivo é regulamentar o novo quadro da mídia que está em formação no Brasil, especialmente depois que as empresas de telefonia foram autorizadas a entrar no setor da TV paga.
José Dirceu ironizou. Segundo ele, os grandes grupos de mídia sempre defenderam a entrada do capital estrangeiro no país, mas ainda hoje defendem uma espécie de “reserva de mercado” que os beneficia no campo das comunicações.
O dirigente petista falou também sobre a falta de isonomia da mídia, especialmente quando se trata de denunciar a corrupção.
Dirceu disse que fiapos de informação foram suficientes para envolvê-lo no noticiário de escândalos com os quais nunca teve qualquer relação, como a denúncia de desvio de dinheiro do BNDES feita por assessor do prefeito Alberto Mourão (PSDB), de Praia Grande; na Operação Pasárgada, que investigou o ex-prefeito de Juiz de Fora, Carlos Alberto Bejani (PTB); e na investigação do caso MSI-Corinthians.
Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Os 10 anos da revista Fórum

 Imperdível  

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Datena: jornalista ou oportunista?

José Luiz Datena, apresentador do programa “mundo cão” Brasil Urgente, está em evidência. Em agosto passado, ele voltou à Band após curta e suspeita passagem pela Record. Agora, ele insinua que quer ser candidato em 2012. Nas estações do metrô paulista, ele aparece em outdoors com pinta de xerife. Datena é jornalista ou mais um oportunista que se aproveita da exposição midiática?
Para o crítico de mídia Nelson de Sá, colunista da Folha que destoa do “pensamento único” deste jornal, “Datena explora suicídio [do aluno de 10 anos que atirou na professora em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo] para ter audiência ou ‘algo mais’”. Mauro Malin, do Observatório da Imprensa, também critica o sensacionalismo oportunista do apresentador.
Salvador da pátria ou palhaçada?
O “algo mais” insinuado por Nelson de Sá se refere às pretensões políticas de Datena. Em recente entrevista à coluna Zapping, do jornal Agora São Paulo, ele admitiu essa possibilidade e, arrogante, posou de salvador da pátria. “A gente vê tanta palhaçada por aí. Às vezes, tenho vontade de me candidatar para corrigir as coisas de dentro, já que como jornalista não tem adiantado”.
As tratativas para disputar a prefeitura paulistana em 2012 já estariam adiantadas. Para valorizar seu passe, Datena garantiu que foi sondado por vários partidos, mas que “o Kassab não me chamou”. Maroto, disse que ainda resiste à tentação. “Se me fizerem mudar de idéia é outra coisa”. Segundo Flávio Ricco, do UOL, “duas ou três reuniões” já ocorreram para tratar da candidatura.
Sensacionalismo e negócios milionários
Como afirma Mauro Malin, “o fenômeno dos apresentadores sensacionalistas que migram para a política partidária é antigo. O radialista Afanásio Jazadji, defensor da pena de morte (se fosse a plebiscito hoje, seria aprovada), elegeu-se deputado paulista pela primeira vez em 1987. E estava longe de ser um pioneiro”. A exploração da barbárie é o palanque destas estrelas midiáticas.
Datena, que iniciou sua carreira com posições mais independentes e progressistas, é hoje um típico explorador do mundo cão, da violência e da baixaria. Sensacionalista, ele nem esconde mais suas posições de direita. Ele também é muito chegado aos negócios milionários. Em meados deste ano, ele participou de uma estranha transação envolvendo duas emissoras de televisão.
Record aciona a Justiça
Ele deixou a TV Bandeirantes para apresentar o programa Cidade Aberta, da Record. Para isso, a emissora aceitou suspender uma multa de R$ 15 milhões, referente à outra rescisão contratual de 2003. O novo emprego, porém, durou somente dois meses e Datena retornou à Band. A Record afirma que o apresentador foi desonesto e já acionou a Justiça, exigindo agora R$ 45 milhões de multa.
Para quem aspira ser prefeito de São Paulo, o apresentador sensacionalista tem bom faro para os negócios!
Altamiro Borges
No Blog do Miro
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Rouseff cuestiona la expansión monetaria de estados con divisas de reserva

Varios expertos se han sumado a las declaraciones de la presidenta brasileña Dilma Rouseff - que ha hecho en un artículo del 'Financial Times'- sobre "la política monetaria demasiado expansionista".
La mandataria ha destacado que los países emergentes son los más vulnerables ante las manipulaciones financieras de estados con una moneda de reserva. Rouseff ha subrayado que estos países no piensan en el bien de la comunidad internacional y practican una política proteccionista.
El gran desafío para los próximos años, según la líder brasileña, es "hacer frente a la deuda soberana y a los desequilibrios fiscales para que se recupere la estabilidad global". Además, ha instado a que las principales potencias muestren "señales claras" de cohesión política y de coordinación macroeconómica.
El consultor financiero Mauricio Cabrera cree que para acabar parcialmente con la expansión monetaria, los países en vías de desarrollo "deberían aplicar políticas de control de capital".
No RT
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SP lidera denúncias de agressão contra gays, diz estudo

Levantamento da Secretaria de Direitos Humanos mostrou que em 10% dos episódios relatados o agressor foi um amigo
Desconhecidos e vizinhos são os que mais praticam violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), dentre os casos denunciados ao Disque 100, o Disque Direitos Humanos. A central de atendimento do governo federal foi criada para registrar abusos contra crianças e adolescentes, mas, desde o início do ano, expandiu o serviço para outros grupos, como a população LGBT.
Levantamento da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) - ao qual a reportagem teve acesso e que será divulgado na segunda-feira - aponta que, em 39,2% dos episódios de violação relatados contra a população LGBT, o agressor foi um desconhecido; em 22,9%, vizinhos; e em 10,1%, os próprios amigos.
De janeiro a julho, o Disque 100 recebeu 630 denúncias contra a população LGBT. As vítimas concentram-se na faixa etária de 19 a 24 anos (43%) e de 25 a 30 anos (20%). Os casos mais comuns de violência contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais são os de violência psicológica (44,38%), como ameaça, hostilização e humilhação, e de discriminação (30,55%).
Das vítimas, 83,6% são homossexuais, 10,1%, bissexuais e 4,2%, heterossexuais que sofrem algum tipo de violência ao ser confundidos como gays.
No recorte feito por Estado, São Paulo (18,41%), Bahia (10%), Piauí (8,73%) e Minas Gerais (8,57%) lideram as denúncias - o Rio de Janeiro aparece com apenas 6,03% - por já contar com um serviço semelhante oferecido pelo governo estadual.
"Isso demonstra que a violência de caráter homofóbico tem um forte componente cultural, é a mais difícil de ser enfrentada porque é justamente a que não fica comprovada por marcas no corpo", disse a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário.
No Estadão
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Beijos

Queria ser um homem moderno mas tinha alguma dificuldade com o protocolo. Por exemplo: não sabia quem beijava. Quando via aproximar-se uma conhecida do casal, perguntava para a mulher, apreensivo, com o canto da boca: “Essa eu beijo? Essa eu beijo?” Nunca se lembrava.
Para simplificar, passou a beijar todas. Conhecidas ou não. Quando lhe apresentavam uma mulher, em vez de apertar sua mão, beijava-a. Dois beijos, um em cada face.
— Muito (muá) prazer (muá).
Outro problema era a quantidade de beijos. Já tinha dominado os dois beijos, estava confortável com dois beijos, quando a moda passou a ser três. Um dia a mulher comentou:
— Não sabia que você era tão amigo da Fulana (o nome verdadeiro não é este).
— Beijo todas.
— Quantas vezes?
— Quem está contando?
Às vezes ele partia para o terceiro beijo e a beijada não esperava. Ou então esperava e ele não dava, e quando ele voltava ela já recuara. Não havia nada mais constrangedor do que oferecer a face para o terceiro beijo (ou o quarto, quando a moda passou a ser esta) e o beijo não vir. Ficar, por assim dizer, com a cara no ar enquanto a mulher se afastava, rezando para que ninguém tivesse notado. O problema da vida, pensava ele, é que a vida não é coreografada.
Aí os homens começaram a se beijar também. Tudo bem. Seu lema passou a ser: se me beijarem, eu beijo. Mas não tomava a iniciativa. Quando chegavam numa reunião, fazia um rápido levantamento dos presentes. Essa eu beijo duas vezes, essa três, esse me beija, esse não me beija, aquele já está me beijando quatro vezes...
Na outra noite, numa recepção de casamento, a mulher comentou:
— Você enlouqueceu?
— Me descontrolei, pronto.
— Você beijou todo o mundo.
— Todo o mundo estava beijando todo o mundo.
— Mas beijo na boca?
— Foi só um.
— Mas logo o padre?!
Tomado por uma espécie de frenesi, depois de beijar uma fileira de conhecidos e desconhecidos, ele dobrara o padre pela cintura e o beijara longamente, como no cinema antigo.
Luís Fernando Veríssimo
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Líder emergente

Dilma Rousseff fez seu batismo de estadista na abertura da Assembleia da ONU. Ela se diferenciou de Lula, falou em nome dos emergentes, criticou a atuação das nações ricas e deixou o Brasil mais perto de uma vaga no Conselho de Segurança
PELA PRIMEIRA VEZ, UMA MULHER
Representantes de 191 países aplaudiram o discurso de Dilma, que inaugurou o debate na ONU
Bastou uma única frase. “Pela primeira vez na história das Nações Unidas uma voz feminina inaugura o debate geral.” A mais qualificada audiência do mundo, com mais de uma centena de chefes de Estado e representantes oficiais de 191 países, irrompeu em aplausos. Dilma Rousseff calou-se por alguns segundos antes de prosseguir. E saboreou um momento histórico. Do púlpito da Assembleia da Organização das Nações Unidas sentiu-se no topo do mundo, ovacionada pelos líderes das superpotências, dos países em conflito, daqueles que buscam reconhecimento ou simplesmente a sobrevivência de populações famélicas. “É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo”, continuou. A presidente brasileira seguia, na manhã da quarta-feira 21, em Nova York, uma tradição: primeiro país a assinar a carta de fundação da ONU, cabe ao Brasil o papel de fazer o discurso de abertura dos trabalhos da entidade. Nunca antes, em 66 anos, porém, uma mulher havia vivido esse papel. Dilma, portanto, fez história. E pontuou esse fato em cada linha de seu pronunciamento.
Uma Dilma tensa, com um assumido “frio na barriga”, entrou no plenário da ONU. Uma Dilma realizada, confirmada como estadista em seu batismo de guerra, saiu de lá menos de meia hora depois. “Estou realizada por ter representado bem todas as mulheres do mundo”, disse à ISTOÉ no começo da tarde daquela quarta-feira ao cruzar o saguão do hotel Waldorf Astoria, palco dos encontros bilaterais com outros chefes de Estado. A presidente trabalhou duro até o último minuto para que cada vírgula estivesse em seu lugar, deixando bem claras as posições do Brasil sobre temas cruciais nos debates globais. Nos últimos dias antes de sua estréia nos salões globais, ela fez uma série de revisões no texto do discurso, que começou a ser preparado semanas antes pelo Itamaraty e pelo assessor para assuntos internacionais Marco Aurélio Garcia. Na segunda-feira 19, Dilma e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, avançaram noite adentro fazendo ajustes. Na manhã da terça-feira, ela mais uma vez debruçou-se sobre a peça. Uma de suas preocupações foi mostrar personalidade própria e não uma mera continuidade da gestão Lula. Outra, mais prosaica, foi com o tempo. Fez vários cortes, cirúrgicos, no discurso para que sua permanência na tribuna não excedesse 25 minutos. Só no final da tarde da terça entregou a redação final ao Itamaraty, que já demonstrava preocupação com o prazo para providenciar as traduções para os vários idiomas representados na ONU.
O resultado foi uma fala concisa, objetiva e repleta de significados. Dilma cumpriu com êxito seu objetivo de diferenciar-se de Lula. A questão feminina, nesse quesito, mostrou-se muito útil, assim como sua condição de militante contra a ditadura militar nos anos 60 e 70. Foi através dela que a presidente deu um tom de emoção ao pronunciamento. “Junto minha voz às das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da política e da vida profissional e que conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje. Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade”, pontuou no trecho final do discurso. “Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras muito especiais para mim: coragem e sinceridade”, disse logo na abertura. “Essas duas palavras retratam muito bem o que foi o discurso da presidente e a fantástica repercussão que tivemos já na saída do plenário”, afirmou à ISTOÉ o ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores. “Muitas mulheres vieram abraçá-la nos corredores da ONU e já recebemos congratulações de vários chefes de Estado pelas posições assumidas por ela.”
Um primeiro balanço extraoficial feito por diplomatas do Itamaraty aponta que, ao ser menos retórica e mais firme em suas posições e ao fazer um pronunciamento menos centrado no Brasil e em seus feitos e mais voltado às grandes questões globais, Dilma ampliou o efeito de suas palavras e alçou o País a um patamar mais próximo do assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O próprio Conselho foi um dos temas centrais tanto do discurso quanto de seus encontros bilaterais. A presidente lembrou que a discussão em torno da reforma do órgão já dura 18 anos e que, sem uma participação maior dos países em desenvolvimento, o Conselho perdeu credibilidade e eficácia. “O Brasil está pronto para assumir suas responsabilidades como membro permanente”, afirmou, sem, no entanto, fazer concessões às potências que tradicionalmente selam o destino dessas discussões. Ao tratar do atual cenário de crise econômica global e dos conflitos no Oriente Médio, Dilma não hesitou em apontar o dedo e cobrar responsabilidades, sobretudo dos Estados Unidos, da China e da comunidade europeia. As mensagens foram claras, embora a linguagem da diplomacia tenha evitado citações diretas.
DESPEDIDA
Em seu último dia em Nova York, Dilma deixou o hotel Waldorf Astoria,
a pé, para almoçar acompanhada pelo ministro Aloizio Mercadante
Para Barack Obama, presidente americano que falaria em seguida, endereçou alguns torpedos e alfinetadas. Primeiro: “Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos ou de clareza de ideias”. Outro: “Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade”. Ou então: “A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas. O mundo sofre hoje as dolorosas consequências de intervenções que agravaram conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis”. No capítulo econômico do discurso, Dilma mandou recados para a Europa e ressaltou o modelo brasileiro de combate à crise. “É significativo que a presidenta de um país emergente, que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, venha falar aqui hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.” E sobrou para a China: “Países altamente superavitários devem estimular seus mercados e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global”.
Dilma deixou Nova York, na quinta-feira 22, maior do que quando chegou, no domingo 18. Já desembarcou nos EUA cercada de expectativas. Foi apresentada à sociedade americana por uma reportagem de capa na revista “Newsweek”, que a tratou como uma espécie de xerife no comando de um país em crescimento, mas ainda carente de ordem. O texto, sob o título “Don’t mess with Dilma” (não mexa com Dilma, numa tradução livre) usava expressões como “Dilma dinamite” e foi considerado extremamente positivo pela comitiva brasileira. Ainda antes de ler a íntegra, a presidente, com bom humor, disse que parecia “um filme de Velho Oeste”. No terreno diplomático, as mais de 40 solicitações para encontros bilaterais recebidas pelo Itamaraty davam a dimensão da relevância brasileira. “A demanda por encontros com a presidenta revela que boa parte do mundo já enxerga o Brasil como parte das soluções dos problemas globais”, afirmou o chanceler Patriota.
Mais cedo, no discurso na ONU, Dilma marcou posição na questão mais delicada dessa reunião anual da organização: o ingresso oficial da Palestina para o quadro das nações com voz na entidade. A presidente não usou meias palavras. “Acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a título pleno. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos.” Obama, ao falar logo em seguida, foi na direção contrária. Sarkozy, o terceiro a discursar, seguiu a trilha de Dilma.
O papel de estadista caiu tão bem à presidente quanto o modelo azul rendado, em tafetá de seda, assinado pela estilista gaúcha Luisa Stadtlander, que Dilma usou em seu principal compromisso. Os integrantes da comitiva relatam que, a despeito da tensão por conta do discurso, ela viveu em Nova York dias de lua de mel com o poder. Com ótimo humor, encontrou tempo para transformar-se em turista e, por alguns momentos, desfrutar dos atrativos da Big Apple. A presidente aproveitou o domingo livre para visitar o Metropolitan Museum. Pouco depois de se registrar no hotel, pediu a assessores que despistassem a imprensa. Acompanhada pela filha, Paula, saiu a pé por uma das muitas saídas do hotel e, em uma esquina próxima, entrou em um dos carros de sua comitiva. Ela estava interessada em visitar a exposição do holandês Frans Hals (1580-1666). Admirou especialmente o óleo sobre tela “Yonker Ramp and his Sweetheart”, de 1623. Durante a visita de cerca de uma hora, a presidente visitou ainda a ala japonesa do museu, no térreo do Metropolitan. Alguns ministros juntaram-se a Dilma e Paula e ficaram impressionados. “De repente ela começou a nos dar uma aula sobre arte japonesa, discorrendo sobre os diversos períodos e artistas. Ninguém sabia que ela conhecia tanto”, contou à ISTOÉ o ministro Orlando Silva, do Esporte. O almoço, em seguida, foi no Café Boulud, do chef francês Daniel Boulud, um dos mais prestigiados da cidade. A sugestão do restaurante partiu de Pimentel, que checou o endereço no Google Maps pelo smartphone. Dilma comeu salmão defumado. Na saída, foi aplaudida por um grupo de turistas brasileiros. Atendeu aos pedidos para fazer fotos e voltou a pé para o hotel.
No dia seguinte, após um debate sobre saúde na ONU, a escapada foi até a livraria Rizzoli. Por mais de meia hora ela bisbilhotou prateleiras até decidir comprar um CD da cantora de jazz americana Stacey Kent. Dali, caminhou até o Museu de Arte Moderna (MoMA), onde almoçou. “Era sempre reconhecida por brasileiros, que pediam para fazer fotos com ela. Nós acabamos nos tornando fotógrafos deles”, relata o ministro Silva. Na quarta-feira, após o discurso na ONU, mais uma vez Dilma conseguiu fugir do protocolo, da segurança e da imprensa. Almoçou tranquila no restaurante Le Bernardin, também endereço festejado na gastronomia da cidade. Ela e a comitiva optaram pelo menu executivo do almoço, uma pechincha por 49 dólares por pessoa (no jantar, os preços partem de 140 dólares). Comeram salmão de entrada, um filé de bacalhau e sobremesa. Brindaram com vinho. Na saída, ao ver o tráfego travado na rua 51, propôs nova caminhada de volta ao Waldorf Astoria. Em cerca de um quilômetro de percurso, apreciou vários marcos turísticos da cidade, como a casa de shows Radio City Music Hall, o Rockefeller Center e a catedral de Saint Patrick. Na semana em que a francesa Christine Lagarde comandou sua primeira reunião anual como diretora-geral do FMI e em que a ex-presidente chilena Michelle Bachelet foi empossada como a primeira diretora da recém-criada ONU Mulher, Dilma, no topo do poder, estava mais do que à vontade.
Luiz Fernando Sá, enviado especial a Nova York
No IstoÉ
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Opus Dei of Brazil

Opus Dei quer “faxina verde-amarela”
A indignação contra o desvio de recursos públicos é justa e necessária. Afinal, é dinheiro do povo extraviado para servir a corruptos e corruptores. Mas é preciso ficar esperto diante dos espertalhões, que usam causas nobres para fins ilícitos. É sempre bom lembrar que o golpe militar de 1964 teve como mote o “combate à corrupção e ao comunismo”. Pura manobra para enganar os ingênuos!
Nas recentes “marchas contra a corrupção”, políticos e partidos que não tem qualquer moral para falar em ética fizeram escarcéu sobre o tema. O senador tucano Álvaro Dias, o neto-demo de ACM, a juventude do PSDB e a mídia demotucana foram os maiores incentivadores dos protestos “espontâneos”. Agora, é o Opus Dei, uma seita de fascistóide, de extrema-direita, que dá seu apoio às “marchas”.
“Mudar a cara do Brasil”
Em artigo publicado no jornal Estadão, o jornalista Carlos Alberto Di Franco, um dos fundadores e chefões do Opus Dei no país, defende a urgência de uma “faxina verde-amarela”. Ele se diz encantado com os protestos do Dia da Independência. “Assistiu-se ao primeiro lance de um movimento de cidadania que tem tudo para mudar a cara do Brasil”. O Opus Dei apoiou o golpe de 1964 com o mesmo objetivo.
Nas entrelinhas, Di Franco não esconde que seu objetivo é fustigar as forças de esquerda e o governo Dilma. “O movimento cobrou a punição dos envolvidos no mensalão do PT, aquele que o ex-presidente Lula diz que nunca existiu... A passeata ocorreu uma semana após o congresso nacional do PT deixar claro que não apóia nenhum tipo de faxina anticorrupção no governo”, mentiu.
Massa de manobra da direita
No artigo, ele lamenta a derrota do investida golpista de 2006, que pregou o impeachment de Lula. “O mensalão do PT parecia que podia terminar em punição. Acabou em pizza. Infelizmente”. Mas o líder do Opus Dei diz que, agora, está otimista com as marchas. Elas contam, entre outros, com o apoio de “meus colegas da mídia, depositários da esperança de uma sociedade traída por suas autoridades”. E concluí: “Vislumbro nas passeatas da faxina verde-amarela o reencontro do Brasil com a dignidade e esperança”.
O artigo-panfleto de Di Franco deve servir de alerta aos que ficam indignados contra a corrupção – não para arrefecer esta justa demanda, mas sim para que não sejam massa de manobra da direita. Esta mesma direita que se mascara de moralista para servir aos interesses dos poderosos – dos sonegadores, dos exploradores de trabalho escravo, dos rentistas, do capital.
Para conhecer melhor o Opus Dei e Carlos Alberto Di Franco, sugiro as seguintes leituras:
Quem são os "éticos" do Opus Dei
O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. O jovem sacerdote de 26 anos diz ter recebido a “iluminação divina” durante a sua clausura num mosteiro de Madri. Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um “fanático e doente mental”, decidiu montar uma organização de ultra-secreta para interferir nos rumos da Espanha. Segundo as suas palavras, ela seria “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”, infiltrando-se em todos os poros de poder. Deveria reunir bispos e padres, mas, principalmente, membros laicos, que não usassem hábitos monásticos ou qualquer tipo de identificação.
Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das idéias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros “perigosos” e proibia sua leitura pelos fiéis. “Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo”, garantiu Escrivá para alguns seguidores, segundo relato do jornalista Emílio Corbiere no livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.
O poder no Vaticano
Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e o Opus Dei atingiu o seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível acessão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje –, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.
O ápice do Opus Dei ocorreu em outubro de 2002, quando o seu fundador foi canonizado pelo papa numa cerimônia que reuniu 350 mil simpatizantes na Praça São Pedro, no Vaticano. A meteórica canonização de Josemaría Escrivá, que durou apenas dez anos, quando geralmente este processo demora décadas e até séculos, gerou fortes críticas de diferentes setores católicos. Muitos advertiram que o Opus Dei estava se tornando uma “igreja dentro da Igreja”. Lembraram um alerta do líder jesuíta Vladimir Ledochowshy que, num memorando ao papa, denunciou a seita pelo “desejo secreto de dominar o mundo”. Apesar da reação, o papa João Paulo II e seu principal teólogo, Joseph Ratzinger, ex-chefe da repressora Congregação para Doutrina da Fé e atual papa Bento 16, não vacilaram em dar maiores poderes ao Opus Dei.
Vários estudos garantem que esta relação privilegiada decorreu de razões políticas e econômicas. No livro “O mundo secreto do Opus Dei”, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirma que esta organização acumula uma fortuna de 400 bilhões de dólares e que financiou o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na débâcle do bloco soviético nos anos 90. O complô explicaria a sólida amizade com o papa, que era polonês e um visceral anticomunista. Já Henrique Magalhães, numa excelente pesquisa na revista A Nova Democracia, confirma o anticomunismo de Wojtyla e relata que “fontes da Igreja Católica atribuem o poder da Obra a quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982”.
O vínculo com os fascistas
Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.
Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural... Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista”.
Escrivá até tentou negar estas relações. Mas, no seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, “ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que as suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer o Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio XII, por meio do cardeal Eugenio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler”. Outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita “recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol”.
Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.
Infiltração na mídia
Para semear as suas idéias religiosas e políticas de forma camuflada, Escrivá logo percebeu a importância estratégica dos meios de comunicação. Ele mesmo gostava de dizer que “temos de embrulhar o mundo em papel-jornal”. Para isso, contou com a ajuda da ditadura franquista para a construção da Universidade de Navarra, que possuí um orçamento anual de 240 milhões de euros. Jornalistas do mundo inteiro são formados nos cursos de pós-graduação desta instituição.
O Opus Dei exerce hoje forte influência sobre a mídia. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá revelou que a influência da seita se estendia por “479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisões, 38 agências de publicidade e 12 produtores e distribuidoras de filmes”.
Na América Latina, a seita controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo. Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do Estadão, responsável pela lavagem cerebral semanal de Geraldo Alckmin nas famosas “palestras do Morumbi”.
Segundo a revista Época, seu “programa de capacitação de editores já formou mais de 200 cargos de chefia dos principais jornais do país”. O mesmo artigo confirma que “o jornalista Carlos Alberto Di Franco circula com desenvoltura nas esferas de poder, especialmente na imprensa e no círculo íntimo do governador Geraldo Alckmin”.
O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação do Opus Dei com a mídia nacional. Num artigo intitulado “Estranha conversão da Folha”, critica seu “visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou”. No mesmo artigo, garante que a seita “já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)”, que reúne os principais monopólios da mídia do país. Para ele, a seita não visa a “salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica”.
A “santa máfia”
Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, o Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários – inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. “O Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais”, acusa um documento de católico do Peru.
A seita também acumulou riquezas através da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dízimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos 90, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e empresa de petróleo Repsol, tem no seu corpo gerencial adeptos do Opus.
Para católicos mais críticos, que rotulam a seita de “santa máfia”, esta fortuna também deriva de negócios ilícitos. Conforme denuncia Henrique Magalhães, “além da dimensão religiosa e política, o Opus Dei tem uma terceira face: da sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e expostos em 1986, a Obra determina que ‘os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem ao Opus Dei’. Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada, o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos”.
O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. O Opus Dei esteve envolvido na falência fraudulenta do banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antonio Boggiano, outro membro da Opus Dei. No ano retrasado, outro numerário do Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.
“A Internacional Conservadora”
O escritor estadunidense Dan Brown, autor do best seller “O Código da Vinci”, não vacila em acusar esta seita de ser um partido de fanáticos religiosos com ramificações pelo mundo. O Opus Dei teria cerca de 80 milhões de fiéis, muitos deles em cargos-chaves em governos, na mídia e em multinacionais. Henrique Magalhães garante que a “Obra é vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica”.
Num livro feito sob encomenda pelo Opus Dei, o vaticanista John Allen confessa este poderio. Ele admite que a seita possui um patrimônio de US$ 2,8 bilhões – incluindo uma luxuosa sede de US$ 60 milhões em Manhattan – e que esta fortuna serve para manter as suas instituições de fachada, como a Heights School, em Washington, onde estudam os filhos dos congressistas do Partido Republicano de George W.Bush.
Numa reportagem que tenta limpar a barra do Opus Dei, a própria revista Superinteressante, da suspeita Editora Abril, reconhece o enorme influência política desta seita. E conclui: “No Brasil, um dos políticos mais ligados à Obra é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e a se confessar com um padre do Opus Dei. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem”. Como se observa, o candidato segue à risca um dos principais ensinamentos do fascista Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não”.
Os tentáculos no Brasil
No Brasil, o Opus Dei fincou a sua primeira raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral na revista Caros Amigos.
Ainda segundo seu relato, “aos poucos, o Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária... Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ (pediu para entrar) em 1965. Hoje, a organização diz ter no país pouco mais de três mil membros e cerca de quarenta centros, onde moram aproximadamente seiscentos numerários”.
Crescimento na ditadura
Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do governador Geraldo Alckmin. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.
Seu crescimento dependeu da benção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus “embaixadores”, relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada – Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei”.
Altamiro Borges
No Blog do Miro
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Alckmin foi avisado do "mensalão" na ALESP e recusa investigar e auditar

O governador Alckmin (PSDB/SP) já liberou R$ 188 milhões do dinheiro público para emendas parlamentares em 2011, até agora, faltando um trimestre para fechar o ano.
O deputado estadual Roque Barbieri (PTB/SP), em nova entrevista, confirmou tudo sobre suas denúncias do "mensalão" paulista na Assembléia Legislativa (ALESP), e disse que alertou o governo paulista e as secretarias estaduais de planejamento e da casa civil.
E agora, Alckmin? Que providências foram tomadas?
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