15 de set de 2011

Freedom for Palestine

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Estádio da Juventus de Turim custou 1/4 do “Fielzão”

Foi inaugurado, na última semana, um portentoso estádio, com capacidade para 41 mil torcedores, de propriedade da Juventus de Turim.
Mesmo com todas as modernidades possíveis, o custo da obra do “Juventus Stadium”, foi de “apenas” R$ 275 milhões.
Demonstração clara do quanto seremos roubados até a Copa do Mundo de 2014.
Para se ter uma idéia, o “Fielzão”, com 48 mil lugares, tinha previsão de custar, segundo Luis Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians, mais de R$ 800 milhões.
Agora, com a ampliação para tentar virar sede do Mundial, não sairá por menos de R$ 1 bilhão.
Valores que, segundo os dirigentes alvinegros, pelo menos com relação à parte do BNDES, terão que sair dos cofres do clube.
Se é que algum dia o clube conseguirá quitá-los.
Dívida que, acrescida de juros, deverá, no mínimo, dobrar de valor.
Mesmo o projeto de R$ 330 milhões, aprovado pelo Conselho Deliberativo do Corinthians, e depois engavetado por Andres Sanches, se comparado ao da Juventus, demonstra diferença de valores acima do mercado.
Mas não é apenas no estádio do Timão que os indícios de superfaturamento são escancarados.
Há casos, como o do Maracanã, entre outros, que apenas para “reforma”, sairão muito mais caros do que o estádio construído na Itália.
Confira abaixo a relação de cada estádio brasileiro escolhido para o Mundial 2014, com seus respectivos orçamentos.
SÃO PAULO (novo)
Fielzão – mais de R$ 1 bilhão
Capacidade: 68 mil
RIO DE JANEIRO (reforma)
Maracanã – mais de R$ 1 bilhão
Capacidade: 76 mil
MINAS GERAIS (reforma)
Mineirão – mais de R$ 800 milhões
Capacidade: 69.950
CURITIBA (reforma)
Arena da Baixada – próximo de R$ 300 milhões
Capacidade: 42 mil
PORTO ALEGRE (reforma)
Beira Rio – próximo de R$ 300 milhões
Capacidade: 60 mil
BRASÍLIA (reforma)
Mané Garrincha – mais de R$ 800 milhões
Capacidade: 71 mil
CUIABÁ (novo)
Verdão – mais de R$ 600 milhões
Capacidade: 43.600
FORTALEZA (reforma)
Castelão – próximo de R$ 550 milhões
Capacidade: 67.037
MANAUS (novo)
Vivaldão – próximo de R$ 550 milhões
Capacidade: 42.200
SALVADOR (novo)
Fonte Nova – próximo de R$ 700 milhões
Capacidade: 65 mil
NATAL (novo)
Arena das Dunas – próximo de R$ 500 milhões
Capacidade: 47 mil
RECIFE (novo)
Arena Pernambuco – próximo de R$ 600 milhões
Capacidade: 46 mil
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Sobre Pedro Novais...

Pedro Novais pagou bungee-jump com verba pública
Dois lutadores de Vale Tudo tentam conter o vulcão Pedro Novais. A gravata vermelha foi comprada com verbas do BNDES; o microfone, com sobras de campanha.
SUCUPIRA - Após ser acusado de pagar o salário de uma governanta com verbas públicas, o vibrante Pedro Novais resolveu abrir seu sigilo fiscal e bancário. "Estou sendo perseguido. Sou jovem e hiperativo, uma verdadeira usina de ideias. Preciso de gente que me cerque o tempo todo de modo a registrar minhas constantes explosões criativas. Desde 2003, Doralice Bento de Sousa andava atrás de mim recolhendo, num bloquinho, cada pepita do meu borbulhante intelecto”, disse o viçoso ministro.
Enquanto fazia supinos, o novel titular da pasta do Turismo afirmou não ter hesitado em empenhar verbas do ministério para pagar as consultas de seu pediatra: “A minha saúde é um bem da União”, explicou-se, entre um polichinelo e outro. Pedro Novais, cujos músculos delineados são a inveja de Brasília, informou também que financiou, com recursos destinados ao “desenvolvimento de sustentação da cultura popular”, as aulas de mambo que fez com sua esposa, sem as quais não teria desenvolvido a ginga que tanto encanta os turistas estrangeiros que vêm ao Brasil.
Em iniciativa bem sucedida para divulgar os esportes radicais no país, o viçoso ministro, que já venceu três etapas dos Extreme Games, fez uso da caixinha do Ministério para custear atividades de bungee-jump (num salto que especialistas consideraram “de notável elegância plástica”), rapel (“Pedro Novais é um arborista nato”, declarou um conhecido ambientalista) e kitesurf (“Se fosse modalidade olímpica, o Brasil já podia contar com um ouro”, afirmou Torben Grael).
No topo da forma, o viridente maranhense acaba de comprar, com recursos do FAT, uma motocicleta Ducati Macchina Nera, com a qual pretende vencer o rali Paris-Dakar.
O escultórico ministro também não descarta o emprego de verbas públicas para financiar treinamento de MMA com Rodrigo Minotauro, aulas de bodyboard em Brasília, cafezinhos com José Dirceu e os doze personal trainers que mantêm nos meses de inverno. “Essa barriga tanquinho não é de graça”, balbuciou, em meio a uma série de abominais reversos.
Governanta de Pedro Novais dará mãozinha na faxina de Dilma
Em ato que o deputado Jair Bolsonaro considerou subversivo, a governanta Doralice Von Trapp ensinou canções de Geraldo Vandré a crianças que brincavam no jardim do Palácio da Alvorada.
GABINETE DA PRESIDENTA - Pega de surpresa com a demissão de Pedro Novais, a governanta Doralice Von Trapp já tem novo emprego. A convite de Dilma Rousseff, vai botar a mão no rodo e no esfregão para ajudar na faxina presidencial. "Michel Temer levou a menina para se filiar ao PMDB, de modo que ela já pode trabalhar na casa. Ela é prendada e empreendedora, e poderá nos ajudar bastante. O gabinete do Pedro era um brinco", tergiversou a presidenta.
Disposta e solícita, logo ao meio dia Doralice começou a varrer o Congresso. Às duas da tarde, já havia tirado todo o pó e as teias de aranha do DEM. Ao passar aspirador nos corredores, encontrou, debaixo do tapete, cinco meias e nove cuecas forradas de dólar. Quando se preparava para passar um pano úmido na bancada governista, foi orientada a não usar o desinfetante Veja. "Aqui não", teria dito Valdemar Costa Neto.
Assim que terminou o serviço, foi comunicada que receberia um reajuste de 58%, um auxílio para comprar material de limpeza e uma verba para contratar doze assessores. Prestativo, Michel Temer indicou faxineiras ligadas ao PMDB e prometeu sugerir à presidenta a criação do Ministério da Faxina.
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A velha guerra

Goethe teve um romance passageiro com a Revolução Francesa, que liberou mais demônios do que ele estava disposto a aceitar. Vem daí sua famosa declaração de que preferia a injustiça à desordem.
Goya foi um entusiasta de primeira hora de Napoleão mas horrorizou-se com as atrocidades da guerra na Espanha, que retratou com ácido e asco na sua série de gravuras "Desastres de la Guerra". Acabou desencantado também.
Mas o desencanto de Goethe e Goya não é o mesmo dos que lamentaram o fim da velha ordem, para os quais a Revolução Francesa significou não a derrota do despotismo e da injustiça mas um crime contra a natureza do homem. Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de castas dominantes.
Na literatura da contrarrevolução, tão vasta e influente quanto a literatura da revolução, o que aconteceu na França dos Bourbons foi uma segunda Queda do Homem, uma segunda perda do Paraíso. Só quem tinha vivido antes da revolução — outra frase famosa — conhecia as delícias da vida. Delícias que incluíam não apenas os privilégios do absolutismo mas do mundo como ele devia ser, com todas as suas injustiças naturais.
A Revolução Russa também provocou dois tipos de reação, a do desencanto com seus excessos e descaminhos depois da empolgação inicial, como o de Goethe e Goya com a Revolução Francesa, e a dos que a condenaram desde o princípio como antinatural. E também provocou dois tipos de literatura.
Se todos os que acham que liberdade, fraternidade e igualdade é um slogan ainda aproveitável são filhos da antiga retórica da revolução, os reacionários de hoje são filhos da antiga retórica da restauração, mesmo que o vocabulário tenha mudado. Para estes o fracasso do comunismo soviético na prática representou o fim do ideal iluminista e a recuperação do homem natural.
A celebração do "bom-senso" neoliberal contra a "falácia da compaixão", como a descreveu alguém, significa mais um triunfo reacionário na velha guerra. E estamos de volta ao delicioso paraíso do egoísmo sem culpa e das injustiças naturais sem remédio.
Luís Fernando Veríssimo
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Lula encontrará líderes partidários em SP para falar de reforma política

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá se reunir nesta sexta-feira (16) com líderes do PT, PC do B, PDT e PSB para conversar sobre o andamento da reforma política no Congresso.
O encontro ocorrerá em São Paulo no hotel Sofitel, rua Sena Madureira, 1355, às 10h30. São esperados o deputado estadual e presidente do PT, Rui Falcão , o governador e presidente do PSB, Eduardo Campos, o deputado federal e presidente do PDT, André Figueiredo, e o presidente do PC do B, Renato Rabelo.
Também devem participar Paulo Teixeira (deputado federal e líder do PT na Câmara), Elói Pietá (secretário-geral do PT), Nilmário Miranda (Fundação Perseu Abramo), Carlos Siqueira (Fundação João Mangabeira), Adalberto Alves Monteiro (Fundação Maurício Grabois), Manoel Dias (Fundação Alberto Pasqualini) e Paulo Vannuchi (diretor do Instituto Lula).
UFABC
No final da tarde, às 18h, Lula estará na cerimônia de comemoração dos cinco anos da Universidade Federal do ABC (UFABC). A celebração ocorrerá no Campus Santo André, na rua Santa Adélia, 66.
A universidade foi criada em 2005 e, desde setembro de 2006, tem turmas em Santo André. Desde 2010, as aulas também ocorrem em São Bernardo, que será sede de um novo campus.
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Torturador espanta com relato sobre mortes e torturas na ditadura

Advogado choca o Brasil com depoimento sobre torturas e mortes das quais ele próprio participou. Ele revelou ter presenciado de 10 a 15 execuções e participado de operações que resultaram na prisão de Dilma Rousseff
Lucena relata detalhes da prisão de Dilma e outros casos
O advogado João Lucena Leal, radicado em Rondônia há trinta anos, chocou o Brasil, em rede nacional de televisão, com um depoimento frio sobre mortes e torturas durante o regime militar. Ele também revelou detalhes das operações de que participou para prender a hoje presidente da República, Dilma Rousseff, e o então estudante José Genoíno, que viria a ser presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e atualmente é assessor do Ministério da Defesa. Segundo Lucena, Genoíno não precisou ser torturado. “Fez um acordo com o Exército e entregou, delatou todos os seus companheiros”, disse.
Lucena falou ao jornalista Roberto Cabrini, do programa Conexão Repórter, do SBT. Cabrini veio a Porto Velho para entrevistar aquele que é considerado um dos maiores torturadores ainda vivos do tempo da repressão no Brasil .
Agente da repressão a serviço dos militares que tomaram o poder no País com o golpe de março de 1964, João Lucena Leal foi descrito como o típico homem dos porões da ditadura.
Na entrevista, Lucena descreveu, com tranqüilidade e frieza, o que viu e o que fez com os adversários políticos do regime. "O sujetio amarrado, algemado e o executor puxava o gatilho e matava", disse ele ao narrar uma das cenas entre as inúmeras das quais presenciou e participou.
Tortura justificada
Para Lucena, a tortura se justifica "para extrair uma informação ardente". Fazia parte de seu trabalho extrair tais informações dos ativistas políticos. "Eu executava com nobreza", acrescentou.
Ex-delegado da Polícia Federal, Lucena também é descrito como um torturador profissional. A Ronberto Cabrini, ele relatou torturas, prisões e mortes das quais diz ter participado.
Mesmo acusado de cometer atrocidades, Lucena disse estar orgulhoso de tudo o que fez.
Com a saúde severamente abalada após um ataque cardíaco e acusado de ser um torturador impiedoso, mesmo assim o homem da repressão diz ter a consciência e um sono tranqüilos.
Na entrevista, informou ter apenas um remorso. Foi quando viu o corpo de uma moça de 17 anos morta pelos militares. "Peguei no corpo dela e ainda estava quente. A moça não tinha ideologia nenhuma".
Em Rondônia, Lucena ficou rico como advogado de traficantes e de notórios assassinos, como o fazendeiro Darli Alves, que matou a tiros, no Acre, o líder seringueiro Chico Mendes.
Ao falar sobre o que considera tortura, Lucena disse que "é um ato de violência contra o próprio irmão", e acrescenbtou :” a tortura é praticada em larga escala nas polícias militar e civil do País”.
Mostrando profundo conhecimento no assunto, o advogado disse que, na sua época, o método mais utilizado era o pau de arara, nas suas palavras , "um instrumento cruel, devastador, que deixa seqüelas. Tem muita gente que não resiste meia hora e conta tudo. Às vezes, é só mostrar o instrumento e ele (a vítima) abre".
As sete vítimas vivas de Lucena
A Cearense, João Lucena Leal estava lotado na Superintendência da Polícia Federal do Ceará quando era agente da repressão. Lá, entre suas incontáveis vítimas, o SBT localizou sete pessoas que dizem ter sido torturadas pelo advogado.
Torturador perverso, segundo testemunhas
O hoje professor José Auri Pinheiro, professor na época, foi torturado barbaramente por dois dias. Ele reconheceu Lucena durante a entrevista a Roberto Cabrini, que lhe mostrou uma foto do advogado quando ainda era mais novo. "O Lucena é um torturador conhecido aqui no Ceará. Em 1973 fui torturado por ele, que é um sujetio explosivo, impulsivo e malvado, que só falava em matar, em destruir as pessoas", contou Auri. Segundo ele, Lucena torturava as vítimas ” com sadismo, com convicção”.
O hoje arquiteto José Tarcísio Prata foi outro que também relatou sua experiência dolorosa nas mãos de João Lucena Leal. ?É um torturador profissional, perverso?, disse.
Viu dez ou quinze execuções e a delação de José Genoíno
Lucena afirmou ter visto de dez a 15 execuções de guerrilheiros do PC do B no Araguaia, entre elas, a morte de uma jovem identificada por ele como Sônia, que foi assassinada pelo hoje major reformado do Exército Sebastião Curió.
No meio da entrevista, João Lucena disse que, no Araguaia, foi preso o então estudante José Genoíno, que viria a ser presidente do Partido dos Trabalhadores e atualmente é assessor do Ministério da Defesa.
Segundo Lucena, Genoíno não foi torturado e fez um acordo para delatar os companheiros de guerrilha. O major Sebastião Curió confirma a afirmação de Lucena sobre o ex-dirigente petista. "O Genoíno não foi torturado e entregou todo mundo".
A prisão de Dilma
Tanto Curió quanto Lucena participaram das investigações e prisão da hoje presidente Dilma Rousseff, então militante política. "Ela (Dilma) era uma menina de 17 ou 18 anos de idade que foi presa e levada para a Operação Bandeirantes e entregue ao delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador".
No Pragmatismo Político
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MPF processa Embratel por propaganda enganosa

O MPF (Ministério Público Federal) moveu uma ação contra a Embratel, por publicidade enganosa na promoção “DDD Ilimitado 21” que, apesar de ser apresentado como ilimitado, tem em seu contrato limite de minutos e restrições de uso. O processo tramita na 3ª Vara Federal de Sergipe.
De acordo com o inquérito civil público, iniciado após denúncias de consumidores, o contrato do “Plano Ilimitado 21” informa que este é limitado a cinco mil minutos mensais e que a permissão para uso sem limite é apenas temporária.
Além disso, o contrato estipula restrições do uso do telefone, como suspensão da promoção em casos de “mais de 50% de uso diário no horário comercial, das 08h às 18h”, “ligações para mais de 50 destinos diferentes num mesmo dia” e “50% das chamadas realizadas num período de 24 horas, com intervalo entre chamadas inferiores a 1 minuto”.
No inquérito, o procurador da República José Rômulo Silva Almeida solicitou análise técnica da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) sobre o caso. Em seu relatório, a Anatel afirma que nem a promoção nem o plano da Embratel são ilimitados.
“O emprego do termo certamente tem o condão de falsear ao consumidor as características do serviço, criando-lhe expectativas que podem vir a ser frustadas pela prestadora”, diz o relatório da Anatel.
Na ação, o MPF pede suspensão imediata da publicidade e correção do nome da promoção e nova publicidade. Segundo o procurador, a nova propaganda deve informar os consumidores de que o plano nunca teve uso ilimitado.
Além disso, o procurador pediu multa diária por descumprimento das penas e uma indenização pelos danos morais coletivos já causados aos consumidores, que será destinada ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos.
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Cidadania ameaçada

A história do empresário mineiro que denunciou esquema de corrupção na região Norte e acabou torturado, a mando dos denunciados, mostra que o programa de proteção à testemunha no Brasil não funciona e prejudica a faxina ética
Experiências recentes mostram que os países que conseguiram enfrentar para valer a corrupção e o crime organizado tinham um forte e eficiente programa de proteção a testemunhas. Na última semana, quando milhares de pessoas foram às ruas clamar por uma faxina ética no Brasil, ISTOÉ teve acesso a uma série de documentos que revelam o quanto o nosso Programa de Proteção a Testemunhas (Provita), criado em 1999, e anualmente comemorado pelo governo, é falho e inconfiável. Os papéis, já encaminhados ao Palácio do Planalto e à Secretaria Nacional de Direitos Humanos pela Defensoria Pública da União (DPU), mostram como os objetivos do Provita estão sendo desvirtuados pela burocracia e descaso das autoridades. Há falhas na garantia dos sigilos das testemunhas e ocorre até o vazamento criminoso de informações sobre suas localizações.
Os documentos narram a incrível história de um empresário mineiro, cujo codinome adotado pela DPU é Antônio Maria. Casado e pai de dois filhos, ele ajudou a desvendar um esquema de corrupção no Norte do País envolvendo políticos, promotores, policiais e juízes. Depois de fazer as acusações, contar o que sabia e ser admitido no Programa de Proteção a Testemunhas do Ministério da Justiça, o empresário teve sua identidade, seu paradeiro e até a rotina diária da família entregues por quem deveria protegê-lo a pessoas ligadas aos por ele denunciados. Acabou sendo barbaramente torturado e hoje vive escondido em um hotel sem saber o que fazer no dia seguinte. “Além da tortura, me persuadiram a não mais testemunhar ou sequer voltar para o Norte”, relata Antônio em carta de cinco páginas, acompanhada de documentos confidenciais, entregue pela Defensoria ao Palácio do Planalto na terça-feira 6.
Ao denunciar o episódio ao Provita de Pernambuco, o Gajop (Gabinete de Assessoria Jurídica das Organizações Populares), ONG executora local, solicitou audiência com a cúpula da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Estavam presentes à reunião o secretário-executivo da SDH, Ramais de Castro Silveira, e a coordenadora-geral de Proteção à Testemunha, Luciana Garcia, entre outras autoridades. O caso foi comunicado à ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e um grupo de trabalho passou a estudar soluções alternativas para garantir a vida do empresário e de sua família. Uma análise preliminar concluiu que o grupo denunciado por Antônio Maria integraria uma rede com contatos em todo o País, e que a única saída seria enviá-lo para o Exterior. A promessa de transferência foi formalizada num ofício confidencial enviado por Luciana Garcia à Defensoria Pública da União no último dia 9 de junho. Dentre os compromissos assumidos pela coordenadora-geral do programa está a “emis­são de passagens aéreas para deslocamento para o país de destino, no prazo máximo de 17 de junho”.
O problema é que, passados quase três meses, nada aconteceu. O Gajop, em reunião com o Conselho Deliberativo do Provita, alegou que não havia dinheiro para a operação. Cerca de R$ 60 mil foram consumidos até agora em diárias do hotel, onde o empresário e a família vivem agora acuados, sem nenhuma proteção especial. Os filhos tiveram que deixar a escola e devem perder o ano letivo. Antes, foram obrigados a passar 45 dias nas dependências do Serviço de Proteção ao Depoente da Polícia Federal, local que serve de triagem e no qual só deveriam permanecer por 20 dias, segundo a lei. Para Antônio Maria, a situação chegou ao limite. Na denúncia à Defensoria, ele explica que a ausência de uma definição sobre o caso vem causando “sérios danos psicológicos”, além de óbvia indignação.
Na carta encaminhada à Defensoria Pública da União, Antônio relata ter enxergado falhas no programa desde o momento em que foi enquadrado nele. “Após dois atentados, foi oferecido a mim e a minha família o Provita”, contou. Porém, logo nos primeiros meses, o empresário diz ter sido levado pela equipe do Provita a uma reunião com um advogado. Ele tomou um susto ao vê-lo. O advogado era ligado à família de uma das pessoas por ele denunciadas no esquema de corrupção. “Ele era empregador da filha de um dos algozes e com relacionamento estreito com membro do Conselho Deliberativo (Condel)”, afirma Antônio Maria, em referência ao órgão estadual que supervisiona a execução do programa. Ante o risco de ter a identidade revelada, Antonio Maria pediu para ser transferido. Depois de muita insistência, foi enviado com a família para um Estado do Nordeste, onde passou por novos percalços. “Mais uma vez presenciei o despreparo da equipe”, diz. Documentos pessoais foram perdidos, perguntas ficaram sem resposta. E a cada questionamento, ficava patente a indiferença. “A frase ‘o programa é assim, ninguém é obrigado a ficar’ era ouvida constantemente”, afirma.
Em dezembro passado, ISTOÉ já havia denunciado a via-crúcis vivida pela família do maranhense Francisco Leal dentro do Programa de Proteção a Testemunhas, do Ministério da Justiça. Após sete meses vivendo sob condições subumanas numa favela da periferia de Manaus, o comerciante decidiu abandonar o programa, mesmo sabendo que pode ser morto a qualquer momento. Hoje se sabe que o caso de Leal não é isolado. Atualmente há cerca de 1.500 pessoas sob proteção no País, mas não há registro confiável sobre o número de abandonos e expulsões. Questionada por ISTOÉ, a coordenadora-geral de Proteção a Testemunhas rejeitou as acusações. Por meio da assessoria de imprensa, pôs em dúvida a versão do empresário, ao alegar que o exame de corpo de delito não identificou lesões no corpo de Antônio Maria. “Também não há qualquer comprovação até o momento de que houve vazamento de informações”, disse. Sobre a possibilidade de enviá-los ao Exterior, a assessoria da Secretaria de Direitos Humanos informa que se trata de uma medida “absolutamente excepcional e inédita”, mas que já haveria autorização para a realocação de Antônio Maria e sua família num país europeu. Só que testemunhas e promotores já cansaram de esperar. Apelam à presidente Dilma para que resolva o caso de Antônio Maria e promova uma revisão completa do Provita, que, pelo visto, não protege ninguém.
Claudio Dantas Sequeira e Alan Rodrigues
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''A sociedade enlouqueceu: tudo virou motivo para ações violentas''

 Entrevista especial com José Cláudio Alves 
A “Guerra do Rio” acompanhada por todos os brasileiros através do “show midiático” em novembro de 2010 “faz parte de um projeto que está sendo montado há muito tempo, o qual não desmonta a estrutura da violência, porque ela está dentro do próprio aparelho do Estado”, diz José Cláudio Alves à IHU On-Line.
Em entrevista concedida por telefone, o sociólogo explica que parte significativa da sociedade civil apoia a repressão e o controle policial nas favelas porque a concepção de segurança pública está relacionada com o combate ao crime. “Para a sociedade, bandido bom é bandido morto. Essa é a ideologia predominante, porque rende dividendos para todos os lados. Quanto mais se matam pobres, negros, favelados de comunidades pobres – isso em uma sociedade segregada como a nossa –, mais se gera um rendimento político, porque a sociedade pensa que o Estado está trabalhando para eliminar o mal, o bandido, o crime organizado”.
A instalação de Unidades da Polícia Pacificadora – UPPs nas favelas tem um impacto pequeno no combate à violência, se comparada à adesão de policiais à “estrutura de corrupção”. “Esta rede rende algo em torno de 11 bilhões de reais ao Rio de Janeiro. (...) A economia formal também se beneficia com o tráfico de armas e de drogas. O jogo do bicho, por exemplo, é uma das formas mais bem estruturadas do crime organizado: uma família pode lucrar, por semana, com o caça níqueis e o jogo do bicho, dois milhões e meio de reais, algo em torno de dez milhões de reais por mês. A violência existe porque muitos lucram com ela”, reitera.
De acordo com José Cláudio Alves, por trás da imagem de cidade maravilhosa, configura-se no Rio de Janeiro a cidade segregada, “onde as pessoas sabem claramente qual é o seu espaço, onde devem estar, que locais podem frequentar, que horário devem sair, que horas devem voltar”.
José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor na mesma área pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor concorda com a informação de que a polícia carioca é a que mais mata no mundo?
José Cláudio Alves – Sim. Essa informação já vem repercutindo há muitos anos no Rio de Janeiro. Em 2008, foram publicados dados referentes ao número de mortes provocadas pela polícia e, naquele período, ela já era considerada letal. Há uma cultura que, de um lado, é homicida e, de outro, é suicida: a polícia que mais mata é também a que mais morre.
IHU On-Line – Qual é a opinião pública diante da instalação de Unidades de Polícia Pacificadoras – UPPs nas favelas cariocas?
José Cláudio Alves – Analiso o quadro do crime organizado no Rio de Janeiro, do tráfico de drogas, grupos de extermínio, a construção dos grupos paramilitares, das milícias, etc. e a minha interpretação está voltada para perceber o quanto essa estrutura foi articulada, organizada e montada pelo próprio Estado. Portanto, a instituição estatal está na base, na origem da construção dessa estrutura de violência e de organização do crime.
A lógica da polícia reforça a militarização e o uso da violência extrema nas questões ligadas à segurança. Há também uma lógica de espetacularização, em que os meios de comunicação transformam a questão da segurança pública num grande show midiático. Os atentados que ocorreram em novembro de 2010 e a ocupação do Complexo do Alemão televisionada pela mídia e denominada de a “Guerra do Rio” fazem parte de um projeto que está sendo montado há muito tempo, o qual não desmonta a estrutura da violência, porque ela está dentro do próprio aparelho do Estado. É o Estado que dá à estrutura de violência a sua condição mais adequada, mais favorável, mais intransponível e impune, já que não se consegue acessar e punir a própria estrutura do crime, que está dentro dos aparatos policiais.
Opinião pública
Nessas operações policiais, é possível prender pessoas, mas a estrutura é muito mais ampla do que se possa imaginar, porque ela funciona há muito tempo e se mantém. A população apoia a ocupação das comunidades, a execução sumária televisionada, a guerra explícita e aberta com o uso de equipamento bélico, porque o combate ao crime já foi “trabalhado” na concepção social de segurança. Para a sociedade, bandido bom é bandido morto. Essa é a ideologia predominante, porque rende dividendos para todos os lados. Quanto mais se matam pobres, negros, favelados de comunidades pobres – isso em uma sociedade segregada como a nossa –, mais se gera um rendimento político porque a sociedade pensa que o Estado está trabalhando para eliminar o mal, o bandido, o crime organizado. Então, a população, que não tem referenciais em relação à segurança pública – porque nunca tive acesso à segurança pública – acredita neste projeto político-midiático como a melhor forma de resolver o problema.
IHU On-Line – Qual o interesse do Estado na militarização e na espetacularização do crime e em manter a estrutura de violência cíclica? Percebe diferentes formas de controlar e disciplinar as massas empobrecidas?
José Cláudio Alves – A militarização e a forma violenta de tratar a questão da segurança já têm sido construídas desde a ditadura militar e serve a uma grande rede de interesses. O Estado segrega populações inteiras de comunidades pobres quando controla entradas e saídas das pessoas das favelas e quando controla o que acontece nestas comunidades. Então, quando a milícia ou um grupo paramilitar entram em uma área segregada, eles podem operar em inúmeros serviços e ganhar muito dinheiro. Para se ter uma ideia, eles vendem água pública, terra de barrancos – desmontam barrancos de morros para aterrar áreas pantanosas para que as pessoas possam construir suas barracas –, vendem gás, internet. Como se percebe, um conjunto de serviços urbanos que operam hoje, na cidade do Rio de Janeiro, são oriundos das áreas segregadas.
A polícia até consegue prender alguns traficantes, mas a adesão de policiais à estrutura de corrupção é mais ampla. Essa estrutura se associa a outras estruturas tradicionais do crime como o roubo de carro, de casa, tráfico de armas e de drogas. Portanto, esta rede rende algo em torno de 11 bilhões de reais ao Rio de Janeiro. Um quilo de cocaína custa cerca de sete mil reais. Ao misturar essa quantidade com fermento para bolo, fazem-se 47 mil, o que significa que se têm sete vezes o valor investido inicialmente. Quem faz essas operações de milhões não são os pequenos traficantes que estão presos e, sim, os empresários, banqueiros, pessoas que estão totalmente vinculadas à economia formal. Portanto, a economia formal também se beneficia com o tráfico de armas e de drogas. O jogo do bicho, por exemplo, é uma das formas mais bem estruturadas do crime organizado: uma família pode lucrar, por semana, com o caça níqueis e o jogo do bicho, dois milhões e meio de reais, algo em torno de dez milhões de reais por mês. A violência existe porque muitos lucram com ela.
IHU On-Line – Quais foram os desdobramentos do combate ao tráfico de drogas, da ocupação militar no complexo do Alemão e da implantação de UPPs nas favelas cariocas no ano passado?
José Cláudio Alves – Depois da pacificação de algumas favelas, os traficantes continuaram tendo acesso a armas porque a polícia revendeu o material para eles.
Para entendermos o crime no Rio de Janeiro, é necessário compreender a história de cada área para poder avaliar este grande tabuleiro. A facção criminosa Comando Vermelho, que é a hegemônica do crime organizado do tráfico de drogas, está sendo empurrada para a periferia, para atuar na Baixada Fluminense, na área da Leopoldina. O Comando Vermelho está tentando impedir essa transferência e por isso acontecem os confrontos a que estamos assistindo.
As UPPs estão em aproximadamente 69 comunidades, das mil comunidades existentes na cidade. A partir desses dados, se vê que elas estão concentradas em áreas de interesse do Estado, as quais vão receber investimentos para a Copa do Mundo. Além disso, as UPPs estão sendo instaladas em áreas que não são as mais violentas. As áreas violentas estão nas periferias da Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estas, pelo contrário, não receberam nenhum tipo de política que pudesse reduzir a violência.
Não posso negar que nos locais em que se instalaram as UPPs os confrontos armados, as vitimizações e os tiroteios foram reduzidos. Entretanto, o crime continua sendo organizado nestas comunidades e está operando sem tiroteio. As UPPs reintroduziram o debate sobre a remoção de favelas e comunidades, o qual tinha desaparecido. Percebe-se também a politização das políticas públicas, quer dizer, as comunidades recebem políticas através da polícia, e não mais por meio da liderança da comunidade. A pior forma de se resolver a questão da segurança é militarizá-la e colocá-la de cima para baixo. É isso que as UPPs fazem.
IHU On-Line – Qual seria a alternativa à ocupação da polícia nas favelas? Em que consistiria uma política de segurança pública eficaz no Rio de Janeiro?
José Cláudio Alves – Seria necessária uma construção social para se discutir o problema da comunidade, compreender quem são aquelas pessoas, que lideranças elas formam, etc.
IHU On-Line – O que favorece o surgimento de milícias nesses ambientes?
José Cláudio Alves – A convivência, ao longo de vinte anos, do aparato policial nas favelas com o crime organizado. Sempre houve uma relação direta entre a polícia e o tráfico de armas e drogas nestas comunidades. Portanto, esta convivência permitiu a construção de um projeto.
Com a introdução das milícias nas favelas, não se precisam mais arregimentar pessoas empobrecidas para instruí-las como se deve usar uma arma; o policial já tem este entendimento. Então, não existem confrontos armados porque não há confrontos entre milícias e a estrutura policial. As milícias estão encontrando um cenário extremamente favorável de lucratividade, de controle sobre as comunidades, sem nenhuma ação que possa impedi-las de continuar funcionando.
Enquanto as facções criminosas enfrentam dificuldades porque disputam territórios entre si, as milícias possuem um comando mais organizado e hierarquizado por dentro da estrutura do Estado, sem confrontos abertos contra o aparato policial. A sociedade carioca vive uma situação muito dramática e a população não entende o que está acontecendo. Assim, ela apoia aquilo que midiaticamente é mais forte e acaba reforçando esta estrutura da violência. É fundamental qualificar a população e fazê-la compreender esta realidade para agir melhor frente a tudo isto.
IHU On-Line – Qual é a herança da ditadura militar na polícia carioca? Como o senhor vê a utilização das Forças Armadas para assegurar a segurança pública interna no Rio de Janeiro?
José Cláudio Alves – A estrutura militar nunca foi desmontada. Em 1967, concebeu-se a polícia militar da forma que ela atua hoje: repreensiva, ostensiva. Além disso, a polícia nunca foi, de fato, limitada no uso do poder.
Do total de homicídios do Rio de Janeiro, apenas 7,8% são investigados pela polícia. Havia uma meta do Ministério Público de solucionar todos os crimes de homicídio cometidos até de 2007. Entretanto, descobriu-se que, no de Rio Janeiro, 96% de todos estes casos foram arquivados pelo Ministério Público.
Um comandante da Polícia Militar quer semanalmente em suas mãos 20 talvez 30 mil reais. Este dinheiro é obtido através de propina de crimes que foram cometidos. Além disso, os policiais sequestram traficantes e cobram para liberá-los. Eles pedem dinheiro dos comerciantes, dos banqueiros, dos empresários. Essa estrutura é corporativa e respaldada em uma lógica de violência crescente. Portanto, achar que uma tropa incorruptível como o BOPE está isenta disto é uma ilusão. Em 2005, o BOPE alugou o “caveirão” para que traficantes de uma favela sequestrassem oito jovens da comunidade de Vigário Geral. Estes jovens nunca foram encontrados.
Forças armadas
As Forças Armadas seguem a mesma lógica de que a violência se resolve a partir da militarização. O Exército é qualificado para uma lógica de confronto sem derrota: a tropa jamais pode voltar derrotada. Então, amplia-se mais ainda a violência.
As tropas que ocuparam o Complexo do Alemão foram treinadas por anos no Haiti e possuem uma concepção de atuação muito mais brutal. Esta é uma prática muito antiga nos Estados Unidos: eles sempre treinaram suas tropas em confrontos exteriores para depois utilizá-las em confrontos internos. Foi assim nos confrontos em 1994 em Los Angeles e em Nova Orleans depois do Furacão Katrina. O Brasil está ensaiando este modelo, sobretudo por causa dos futuros eventos que acontecerão no Rio de Janeiro.
IHU On-Line – Como entender a aceitação da população em relação à atuação da polícia, quando se sabe que existe milícia, corrupção? A aceitação é apenas em função da mídia?
José Cláudio Alves – Outros fatores explicam essa aceitação: há uma ausência de alguma política coerente ou significativa de segurança pública. Nós estamos falando com uma população que não tem acesso a isso, uma população que muitas vezes está entregue à ferocidade. As pessoas nunca perceberam o que seria conviver numa outra realidade. Logo, a sua concepção é essa lógica da execução sumária.
Os traficantes e a polícia, que controlaram a violência nessas comunidades, usam dessa violência para fazer o controle. Vou dar um exemplo: se um traficante cometer algum crime contra a própria população da favela e o líder daquela facção tiver consciência disso, ele punirá violentamente o garoto para que sirva de exemplo para aquela comunidade. Portanto, as pessoas estabelecem uma segurança calcada na violência. Assim, como essas comunidades vão perceber outra forma de segurança? Não há para eles esse universo.
IHU On-Line – Como vê a imbricação entre favelas e grandes centros no Rio de Janeiro? Como se dá essa relação entre a população? Diferentemente de outros estados brasileiros, percebe no Rio de Janeiro uma separação classista? Como essa discriminação contribui para propagar a violência?
José Cláudio Alves – O Rio de Janeiro foi constituído assim: é a cidade maravilhosa, mas também é a cidade de chumbo. Para entender essa construção histórica, temos de nos remeter ao início do século XX, às políticas que seguiram nos moldes de remoção, como o Plano Agache. Mais tarde, surgiu o projeto populista com Getúlio Vargas, que tentou romper com essa modalidade de segregação e de remoção. A partir daí, permitiu-se, através da lógica populista de votação do operariado negro, a construção de espaços de comunidades empobrecidas dentro das áreas de interesse econômico com o objetivo de reconhecer e valorizar o trabalhador urbano pobre. Então, é assim que se consolidam as grandes favelas no Rio de Janeiro em 1940 e 1950. A ditadura militar retoma a ideia das remoções, e aí acontecem as remoções do Morro da Catacumba e de áreas do centro do Rio de Janeiro.
A lógica segregadora sempre existiu no Rio de Janeiro. Há um discurso de que o carioca é o homem cordial, mas por trás dessa imagem existe uma cidade segregrada, em que as pessoas sabem claramente qual é o seu espaço, onde devem estar, que locais podem frequentar, que horário devem sair, que horas devem voltar. O Rio de Janeiro é o maior campo de concentração sem arame farpado do mundo, porque um terço da população extremamente empobrecida é controlado a partir de uma polícia criminosa. É uma estrutura muito eficiente e com baixíssimo custo.
Eu moro em Vigário Geral e canso de ver as pessoas dizendo que moram no bairro Jardim América, que fica próximo. Há essa tentativa de ludibriar. Alguns moram em Pavão ou Pavãozinho, mas dizem que moram em Copacabana. O Rio é uma grande ilusão: permite-se a criação de uma imagem de prazer, da beleza, mas o preço que se paga para manter essa imagem é elevadíssimo e ninguém quer discutir o assunto.
IHU On-Line – Qual a importância de manter uma cultura do medo coletivo para a construção das sociedades urbanas no Brasil? Como esse medo se instaura na sociedade? A polícia é suficiente para apaziguar esse sentimento?
José Cláudio Alves – O medo se transformou na grande chave desse processo de controle. A fronteira dessa estrutura política e econômica de dominação se volta para as próprias periferias que ela construiu em termos espaciais. O Estado e o capital precisam da extração de uma mais-valia cada vez maior e com riscos cada vez menores em cima desses segmentos. E, para conseguir isso, utilizam-se de formas de controle, sobretudo a partir da violência, da execução sumária, de projetos de segregação. Esse modelo nos diz que, para que o novo salto tecnológico e econômico aconteça, é preciso consolidar populações que vão ser efetivamente segregadas, eliminadas, executadas.
O medo é determinante e nos impede de fazer denúncias e questionamentos. Esse medo que nos amedronta todos os dias quando olhamos jovens, pobres, negros, moradores de periferias, moradores de favelas, nos distanciam dessas pessoas. Os ricos e a classe média não frequentam mais os locais onde a população pobre está. Por outro lado, essa parcela da população também não consegue mais se aproximar porque sabem o lugar deles, sabem do risco que é fazer essa aproximação.
A sociedade enlouqueceu
Esse medo vai corroendo toda a possibilidade de solidariedade, compaixão, de alianças no campo político ou econômico, elementos que pudessem construir outro projeto de nação. É difícil de derrubá-lo, porque o medo não é algo racional: as pessoas alimentam uma visão sobre o mundo e começam a encaixar tudo o que veem no mundo dentro dessa visão. Então, alguém pode estar vendo algo que não é nada daquilo que acha que está vendo e, mesmo assim, achar que é aquilo. O medo impede de ir além daquela concepção: as pessoas sentem pavor, se isolam, se fecham, reduzem o núcleo de relacionamentos, reduzem a área de expansão, começam a olhar para as populações que são criminalizadas ou criminalizáveis de uma forma absolutamente distinta, sem que tenha o menor interesse em se aproximar delas e até endossando toda essa política de eliminação, de execução sobre elas.
Para mudar esse comportamento, as ações precisam ser conduzidas em várias direções: nas políticas de segurança voltadas para as áreas sociais na educação. Seria necessário construir linhas de comunicação entre as comunidades, para que pudessem interromper essa segregação. E, no campo da subjetividade humana, temos que construir elementos que estão desaparecendo, como a solidariedade, a compaixão, o colocar-se no lugar do outro, o ser capaz de olhar para o próprio medo. A violência está mexendo exatamente com a sobrevivência de todos nós. O medo nos impede de fazer esses movimentos, e aí surgem todas as doenças da modernidade porque a sociedade enlouqueceu. Normalmente, tenho dito isso: nós enlouquecemos porque tudo virou motivo para ações violentas. As pessoas perdem o senso; elas perderam as suas referências.
(Por Patricia Fachin, Rafaela Kley e Stéfanie Telles)
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Empresário se retrata por acusações feitas contra o PT em 2010

Rubnei Quicoli pede desculpas ao partido em audiência na 9a. Vara Cível do TJDFT
Em audiência realizada nesta quarta-feira (14), em Brasília, na 9a. Vara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, o empresário Rubnei Quicoli, que durante a campanha presidencial de 2010 fez acusações graves e sem provas contra o PT, se retratou perante o juiz das declarações feitas na época à imprensa e pediu desculpas à direção nacional do partido.
Na retratação, Quícoli afirma que “não teve intenção de imputar atividades ilícitas ao Partido dos Trabalhadores ou de atingir a honra do partido, pois apenas relatava contatos mantidos com terceiros”. Em setembro de 2010, em plena campanha que culminaria na eleição de Dilma Rousseff à presidência da República, o caso foi bastante explorado pela imprensa e pela campanha do candidato tucano.
A direção nacional do PT entrou ações nas varas Cível ( ação de indenização por danos morais) e Criminal contra o empresário e solicitou imediatamente à Polícia Federal que investigasse o caso e apurasse todas as acusações feitas por Quícoli.
No Petista Online
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FIFA lança gerador automático de declarações para jogadores

O gerador de respostas também será usado por técnicos durante coletivas de imprensa para evitar frases desagradáveis e arroubos patrióticos assustadores
ZURIQUE - Atendendo a pedidos de clubes, seleções, assinantes de canais de futebol e ouvintes de radinho de pilha, o presidente da FIFA Joseph Blatter anunciou o lançamento de um gerador automático de frases e declarações para jogadores de futebol. Apresentado em 5 idiomas – português, inglês, espanhol, italiano e alemão –, a máquina será testada nos campeonatos nacionais e deverá ser peça obrigatória para a Copa de 2014. "Queremos que nossos atletas digam coisas elegantes. De quebra, eliminamos o risco de ouvirmos críticas direcionadas a treinadores, patrocinadores ou dirigentes", explicou Blatter.
Desenvolvido por um consagrado físico alagoano, o gerador será obrigatoriamente acoplado aos equipamentos de transmissão. Uma vez ligado, ativará um teleprompter com frases que devem ser lidas pelos jogadores. "Fizemos um estudo e desenvolvemos 1.200 frases que podem ser empregadas sem levar em conta a pergunta do jornalista esportivo, como já acontece hoje", explicou o presidente da FIFA.
Antes da partida começar, os atletas poderão escolher entre “Vamos jogar com muita humildade”, “O NOME DO ADVERSÁRIO é uma grande equipe” (a ser dita, sem ironia, até mesmo em relação ao América Mineiro e ao atual Flamengo) e “Esse isotônico que patrocina a Copa do Mundo é excelente e lá em casa damos até para o meu filho recém-nascido”.
Terminada a primeira etapa, algumas das frases selecionadas são: "Vamos conversar com o professor para tentar corrigir o posicionamento de alguns setores", "Não podemos dar espaço para o adversário crescer" e "Temos de manter a pegada firme e o comprometimento, pois faltam 45 minutos para conseguirmos mais três pontos".
Para o final do jogo, o gerador traz a opção de ativar o modo "vitória" ou "derrota" para filtrar mensagens otimistas, mas com pé no chão, no caso de êxito; e frases motivadoras que empreguem a expressão “agora é trabalhar duro”, em caso de fracasso. Na hipótese do jogo terminar em empate, todos lembrarão que tiveram mais oportunidades de gol do que o adversário, que futebol é isso mesmo, e que o árbitro foi leniente com a violência dos volantes adversos. Ninguém se esquecerá de elogiar a qualidade do material esportivo da empresa patrocinadora da Copa do Mundo.
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Cutrale mantinha 32 funcionários em condições precárias de trabalho


A maior produtora de suco de laranja do mundo, a empresa Sucocítrico Cutrale, mantinha 32 funcionários em condições precárias de trabalho em sua unidade do município de Itatinga (SP), interior do estado de São Paulo. Os próprios trabalhadores, que atuavam na colheita de laranja, denunciaram a situação ao Ministério Público do Trabalho (MPT).
Na manhã desta quarta-feira (14), ao chegar no local, a fiscalização constatou que os 32 habitavam uma única residência. Ela estava em péssimas condições de higiene e conforto, sem existência de vestiários, cozinha, ventilação e iluminação adequada. Além disso, pagavam R$ 24 por dia pela alimentação e recebiam salários de apenas R$ 620.
Os trabalhadores, que vieram dos estados de Sergipe e Maranhão, chegaram em setembro na região, já endividados pelas despesas de transporte e alimentação. De acordo com o procurador da Justiça do Trabalho, Luis Henrique Rafael, a Cutrale é responsável por toda a situação.
“Quando ela faz a contração de trabalhadores de outros estados, existe uma instrução normativa do Ministério do Trabalho obrigando que o registro da carteira seja feito no estado de origem do funcionário. Isso garante que os trabalhadores, durante a viagem, sejam protegidos pelo contrato de trabalho e tenham benefícios se acontecer algum acidente. Porém, ela aceitou essa situação e não fiscalizou. Por isso, é responsável pelas condições degradantes do alojamento.”
Após o flagrante, a empresa se comprometeu a indenizar os trabalhadores. Eles retornarão aos seus estados e receberão as verbas decorrentes da rescisão do contrato de trabalho.
A empresa Cutrale sofre processo na Justiça por ocupar, ilegalmente, 2,6 mil hectares de terras da União no município de Iaras (SP), também no interior de São Paulo.
No CUT
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Clone de Amazônia: pecuária lidera desflorestamento

A maior parte das áreas desflorestadas na Amazônia, até 2008, é ocupada pela pecuária. De um total de 719 mil km² de território desflorestado – maior que a área da França, de aproximadamente 544 mil km² -, 62% são utilizados para pastagem, e apenas 5% correspondem à agricultura anual, baseada no uso de alta tecnologia. Os dados compõem o estudo TerraClass, realizado pela Embrapa e o Inpe e divulgado no dia 2 de setembro.
Com base nas informações geradas pelo Prodes, projeto de monitoramento do desflorestamento na Amazônia Legal, feito anualmente pelo Inpe, o estudo realizou a qualificação das áreas que foram desflorestas até 2008, e mesmo daquelas que foram regeneradas – o que, de acordo com a metodologia adotada, ainda são consideradas devastadas.
A maior concentração de áreas de pastagens está no Estado de Rondônia, cerca de 80% da cobertura florestal transformada. Já as áreas de agricultura anual, onde predominam culturas de ciclo anual, como grãos, e são empregados padrões tecnológicos elevados, representam 35 mil quilômetros das áreas desflorestadas. Segundo o levantamento, Mato Grosso se destaca nessa atividade. O Estado tem 15% das áreas devastadas ocupadas por agricultura anual; acima do comparativo geral da Amazônia, de 5%.
No Estado do Pará, em suas áreas desflorestadas o predomínio é de pastagens (62%), sendo que, do total de áreas mapeadas como mineração na Amazônia, a metade delas está no Estado.
O Terraclass mapeou 18% do bioma amazônico já desmatados, gerando uma classificação dos diversos usos e situações, em cada um dos nove Estados da região. As análises foram feitas a partir de informações resultantes do levantamento detalhado do desflorestamento ocorrido até 2008, obtidas pelo Prodes.
O dilema
Uma informação importante revelada pelo TerraClass diz respeito à recuperação de áreas desflorestadas. Hoje, na Amazônia, 20% do território que foi cortado (18% da região) estão regenerados, mas isso ainda não foi descontado da cota de emissão de gases, ou seja, trata-se de um dado até então desconhecido. Mas essa porcentagem de nova vegetação, chamada de vegetação secundária, ou capoeira, não significa que a floresta tenha se recomposto tal qual era na sua formação original – a vegetação primária.
Na verdade, ela nunca volta a ser uma floresta com a quantidade de carbono e a biodiversidade que possuía. Entretanto, a vegetação secundária exerce papel fundamental, longe de ser adjetivado como “secundário”, pois emite vapor d’água para a atmosfera e, embora em menor proporção, fixando uma quantidade considerável de carbono.
Mas a notícia sobre a regeneração já lança questionamentos quanto à importância econômica das capoeiras: não é melhor usar essas áreas, que já foram antes utilizadas, do que desmatar aquilo que ainda se mantém como vegetação primária, intocada, se quisermos expandir a atividade agropecuária?
De acordo com Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, esse cenário pode ser a opção, quando se esgotarem as áreas de pastos sujos, regiões desflorestadas e abandonadas, que, se recuperadas, podem voltar a ser exploradas pelo agronegócio. Atualmente, a área de pasto sujo na Amazônia é de aproximadamente 63 mil km², representando 8,7% do total de área desflorestada. No Pará, por exemplo, a proporção é maior: do total de área desflorestada, 10% é de pasto sujo, enquanto que 44% correspondem a pastagens e outros 10% à regeneração com pasto.
Para Venturieri, a prioridade deve ser o uso, com prévia recuperação, dos pastos sujos. Contudo, nos próximos anos, quando estes pastos estiverem ocupados, a expansão da produção dará de frente com um dilema: devastamos floresta primária ou floresta secundária? “Num cenário em que os pastos sujos foram usados, podemos usar as áreas regeneradas, pois é melhor do que derrubar floresta nova”, defende o pesquisador, ao explicar que, nesse caso, seriam priorizadas as capoeiras mais jovens, com mais ou menos cinco anos. “A capoeira faz parte do sistema de produção do pequeno produtor, tem sobrevida curta”, completa.
Crescer sem desmatar
Outro ponto levantado é com relação ao aprimoramento de tecnologias capazes de aumentar a produção nas áreas hoje disponíveis. Muitos produtores de pequeno e médio porte optam pela expansão territorial quando decidem aumentar o número de cabeças de gado ou multiplicar os hectares cultivados, o que exige novos desmatamentos. Isso porque os recursos tecnológicos que permitem a expansão, sem a necessidade de aumentar a área, exigem grandes investimentos, inclusive em pesquisa.
“Tem muita área ainda, talvez uns 10 milhões de hectares, que ainda podem ser utilizados em diferentes tipos de atividades, sejam elas de agricultura familiar ou não”, afirma Paulo Moutinho, diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Segundo Moutinho, deve-se fazer o possível para que as capoeiras (vegetação secundária) sejam preservadas, devido à função ecológica. “Se você remove essas áreas que são restauradas naturalmente, depois do abandono, você tem que ter um critério claro para fazer isso”, explica. Neste caso, é preciso investir em tecnologias e programas para a recuperação do solo dos pastos sujos e o restabelecimento da agricultura.
Venturieri, da Embrapa, concorda que seja possível duplicar, ou até triplicar, a produção em territórios já existentes, e afirma que o Brasil possui tecnologia para isso. Entretanto, enfatiza a falta de recursos da maioria dos agricultores. “Não se faz por falta de investimentos”, afirma. Entre as atividades caras estão o manejo de pastagens e o melhor desenvolvimento genético do rebanho.
Moutinho observa que a agricultura familiar, responsável por 80% dos alimentos produzidos nas cidades amazônicas, utiliza uma tecnologia muito básica e ocupa uma área de aproximadamente 6%. “O fator limitante é como utilizar a área, como criar programas de recuperação e como incentivar a intensificação de pastagens e distribuir esse passivo ambiental para aqueles que tem condições de produzir”, argumenta.
Evidentemente, a questão fundiária está no centro do debate, e por isso Moutinho mostra a necessidade do Estado brasileiro criar políticas de conservação, aliadas com políticas de incentivo ao uso de pastos sujos. Destaca, ainda, a necessidade de novos estudos, a partir dos dados do TerraClass, que tenham por objetivo entender a ligação entre as diferentes classes criadas, pois o fato da agricultura não cumprir uma área muito grande, não significa que ela não tenha um papel no desmatamento, afinal ela está ligada à pecuária. Hoje, são plantados grãos de soja, que empurram o boi para dentro da floresta, por exemplo.
“Com o TerraClass sabemos as áreas, agora precisamos saber as diferenças entre cada classe e a interação entre uma classe e outra”, conclui.
Bruno de Pierro
No Brasilianas
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Financiamento privado e foro privilegiado preservam corrupção

Indignação seletiva que só se foca nos erros dos adversários dificulta combate à corrupção
Toda vez que a questão a se discutir é corrupção, políticos se ouriçam e os sinais partidários se invertem.
Durante o governo FHC, petistas cansaram de levantar denúncias de corrupção, das privatizações a compra de votos, e insistiam na abertura de CPIs.
De volta à oposição, são tucanos e demos que bradam pelas mesmas comissões que repeliram antes, mas os governistas de hoje acusam interesses golpistas e dizem que precisam governar.
Neste tema, tudo o que não se pode aceitar é uma indignação seletiva, que foca apenas nos erros de adversários. Isso fulmina a própria ideia de moralidade administrativa, ligada à impessoalidade.
Pouco importa se atinge a políticos, jornalistas ou eleitores. A partidarização do "combate à corrupção" sempre escamoteia o interesse público, movida por interesses privados.
A corrupção é, por excelência, uma questão de Estado, não de governo. E deve ser analisada sob essa ótica e não a reboque de interesses eleitorais, até porque caráter não tem ideologia.
A primeira premissa para descortinar saídas é compreender que o direito penal não é uma panaceia, nem faz milagres.
A experiência nos ensinou que aumento de pena não reduz crimes. O direito penal vem sendo largamente usado como uma cortina de fumaça, para ocultar omissões. Ficar criando "crimes hediondos" pode até ser uma rima, mas não será uma solução.
Se não devemos colocar todos os ovos na repressão, é importante, todavia, eliminar as redes de proteção dos agentes públicos, que traduzem uma curiosa e injustificada desproporção: quanto mais importante é o autor da conduta ilícita, mais protegido está das consequências de um processo.
O principal responsável por isso é o foro privilegiado, que continua retratando desigualdades de fidalgos e plebeus previstas há séculos -quando a ideia de igualdade não permeava o direito.
Mais importante do que vetar a candidatura de políticos com processos, é desestimulá-los a competir justamente para melhorar suas situações penais. O foro privilegiado permanece sendo um eficiente "limpa-fichas".
A extinção do privilégio teria, ademais, um importante efeito didático: mostrar que todos os cidadãos se submetem às mesmas leis e aos mesmos juízes, como seria normal em uma democracia.
Privilegiar a desigualdade é a melhor maneira de estimular a corrupção, por intermédio do "você sabe com quem está falando".
Isso deve valer a todos, inclusive aos juízes -seria também importante forma de quebrar o caráter oligárquico de administração dos tribunais. Nestes, remanesce como exemplo bizarro o fato de que apenas juízes e não desembargadores se submetem às corregedorias.
Mas corrupção é, sobretudo, a imagem mais bem acabada do patrimonialismo, trato da coisa pública como particular.
É mais visível na burla de uma licitação. Mas é presente, também, na farta distribuição de cargos em comissão, escolhidos por virtudes privadas (afeto, amizade, confiança) e não por méritos.
E se a questão é profissionalismo, na berlinda também estão os Tribunais de Contas. Ministros e conselheiros são indicados pela proximidade com governos e maiorias parlamentares. Difícil crer que possam representar a forma mais isenta de fiscalização das próprias administrações.
Mas se engana quem atribui exclusivamente aos partidos, aos políticos e aos administradores a persistência da corrupção.
Ela é, no mais das vezes, inatingível sem o consórcio do particular. Seja a pessoa física que coonesta com a propina para alcançar uma pequena vantagem, seja o grande empresário que divide lucros com gestores de negociatas.
Vem investigação, vai investigação, manchetes de revistas e comissões de inquérito raramente se aprofundam no outro lado da moeda, aquele que a entrega. E muitas empresas que se orgulham de suas responsabilidades sociais continuam aproveitando as oportunidades do escuso.
Mas se a corrupção visível é a que nos indigna, como mostrou o caso da deputada absolvida depois de ser filmada recebendo dinheiro, há uma ainda maior que navega nas sombras.
Com caríssimas campanhas políticas, o financiamento privado por grandes empresas faz com que parlamentares e administradores iniciem os mandatos devedores de seus mecenas. E quando o público rende homenagem ao privado, por dever de ofício, é que as prioridades se invertem.
Essa é, sem dúvida, a maior das corrupções: tomar o interesse de alguns como se fosse o de todos.
Marcelo Semer
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Charge online - Bessinha - # 805

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Estado da Palestina Já!

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Internet assusta os poderosos

A medida em que um número maior de pessoas vai tendo acesso à internet, fica cada vez mais difícil para os meios tradicionais de comunicação realizar desvios na produção de notícias. Estão sendo levantados os véus de interesses que recobrem o noticiário divulgado por grandes meios de comunicação, não só no Brasil mas em várias outras partes do mundo.
Numa noite de sábado o Jornal Nacional surpreendeu os telespectadores. Depois de um intervalo comercial, os apresentadores titulares do programa (que geralmente não trabalham aos sábados) passaram a ler o princípios editoriais das Organizações Globo. Muita gente ficou intrigada. Porque aquilo naquela hora? Não havia mais nenhuma notícia importante no mundo a ser dada? E porque só agora, depois de 86 anos de existência, a empresa resolveu divulgar na TV suas normas de trabalho?
Milhões de telespectadores em todo o Brasil ficaram sem respostas. Só quem tem acesso à internet soube do que se tratava. A explicação para o inusitado texto lido no Jornal Nacional estava no blogue “O Escrevinhador”, de Rodrigo Vianna. Nele eram reproduzidas informações de um jornalista da Globo sobre como a emissora pretendia cobrir a indicação do embaixador Celso Amorim para o Ministério da Defesa.
Durante os oito anos do governo Lula em que esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores, Amorim sempre foi visto com desagrado pelas Organizações Globo. A empresa não engolia as posições do ministro em defesa da soberania nacional, principalmente quando elas não coincidiam com os interesses dos Estados Unidos.
A volta de Amorim ao primeiro escalão do governo foi uma afronta para a Globo. Segundo o jornalista mencionado no blogue a orientação da empresa era clara: “os pauteiros devem buscar entrevistados para o Jornal Nacional, Jornal da Globo e Bom dia Brasil que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar ‘turbulência’ no meio militar. Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha”.
Pena que só internautas atentos ficaram sabendo disso. Jornais e revistas não repercutiram o assunto e muita gente acabou achando que, finalmente, a Globo havia tomado a iniciativa magnânima de expor à sociedade seus princípios editoriais partindo de vontade própria.
Mas mesmo atingindo um público relativamente muito menor do que o da televisão, a internet prestou um bom serviço à sociedade. Inibiu um pouco a ação nefasta armada contra o novo ministro e mostrou que a poderosa organização não consegue mais fingir que denúncias e criticas não a atingem. A Globo sentiu o golpe e tentou responder recorrendo a princípios por ela violados várias vezes ao longo de sua história.
Esperava-se uma mudança de conduta a partir daquele momento. Não foi o que ocorreu. Na mesma edição a apresentadora do Jornal Nacional disse o seguinte: “está foragida a merendeira que pôs veneno de rato na comida de crianças e professores numa escola pública de Porto Alegre”, mostrando uma foto da moça de 23 anos.
Poderia até ser verdade, mas o Jornal Nacional baseava-se apenas numa versão da policia, negada pela acusada. Seu advogado havia divulgado a palavra dela, através da Rádio Guaíba, oito horas antes do JN ir ao ar. Mas para não perder uma notícia espetacular – envenenamento de crianças – nada disso foi levado em conta. Nem os tais princípios editoriais.
Se não fosse outra vez a internet, fatos como esse não estariam sendo contados aqui em detalhes. Foi o blogue do Mello que registrou a violação dos princípios editorais da Globo, na mesma edição em que eles foram divulgados, acompanhados da gravação do desmentido da merendeira feito através do rádio.
Dessa forma vão sendo levantados os véus de interesses que recobrem o noticiário divulgado por grandes meios de comunicação, não só no Brasil mas em várias outras partes do mundo. Parece ser um caminho sem volta.
A medida em que um número maior de pessoas vai tendo acesso à internet, fica cada vez mais difícil para os meios tradicionais de comunicação realizar desvios desse tipo.
Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.
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Inquérito público sobre os grampos da Imprensa

Autora de 'Harry Potter' irá depor em investigação do escândalo que envolve o jornal britânico 'News of the World'
LONDRES - A escritora J.K. Rowling, autora de Harry Potter, e o ator Hugh Grant estarão entre os mais de 50 "participantes principais" de um inquérito público sobre os padrões de imprensa estabelecidos após o escândalo dos grampos telefônicos que envolveu o ramo britânicos dos jornais do magnata Rupert Murdoch.
A escritora J.K. Rowling, autora de Harry Potter
Eles estão em uma lista de políticos, celebridades e esportistas que se inscreveram e foram incluídos na relação anunciada na quarta-feira pelo juiz Brian Leveson, que está à frente do inquérito judicial.
Todos afirmaram que tiveram os telefones grampeados, foram alvos de notícias erradas ou de invasão de privacidade pela imprensa.
Como participantes, terão o direito de ser representados por um advogado e de pedir que sejam feitas perguntas às testemunhas.
O News International, o braço britânico da News Corp, de Murdoch, que está no centro das acusações de grampo, também terá o status de participante principal.
O inquérito foi aberto pelo primeiro-ministro David Cameron em julho após o furor provocado pelas acusações de escutas telefônicas do jornal News of the World.
O News International fechou o jornal em meio à revolta por causa das acusações de que os jornalistas da publicação haviam pago investigadores para que grampeassem as mensagens de voz de vítimas assassinadas.
Entre os citados como participantes também estão a ex-ministra Tessa Jowell, o ex-jogador de futebol inglês Paul Gascoigne, a atriz Sienna Miller e os pais da estudante assassinada Milly Dowler.
A Polícia Metropolitana de Londres e os grupos de mídia Northern and Shell Network, Associated Newspapers, e Guardian News and Media, que ao lado do News International, publicam praticamente todos os jornais britânicos de circulação nacional, também estão na lista.
Reuters
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De novo, o padrão Ricúpero de jornalismo

Reproduzo aí ao lado a manchete de O Globo do dia 6 de abril, com a “condenação” da Organização dos Estados Americanos à construção da Usina de Belo Monte e a materinha, na página 25 de hoje, dizendo que a OEA nada tem contra a obra e que faltou-lhe informação quando se manifestou contrária a ela.
A diferença de tratamento é tão grande que eu mesmo só a li depois de alertado pelo Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim.
Não é preciso sequer dar usar argumentos diante deste flagrante desequilíbrio. É o padrão Ricúpero de jornalismo: “o que é bom a gente mostra, o que é ruim, a gente esconde”.
Neste caso, a condenação a Belo Monte pela OEA é o “bom”, o arrependimento da Organização é o “ruim”, não é mesmo.
Esqueçam qualquer discussão séria – e necessária – sobre questões ambientais e econômicas. Tudo é política e propaganda.
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Parlamento alemão prepara boicote ao Papa

O Papa Olho de Águia Benedito XVI virá à Alemanha no próximo dia 22 de setembro.
Ele falará no parlamento alemão durante 30 minutos.
Será a primeira vez que um chefe de Igreja falará diante dos parlamentares.
Parece porém que ele não será bem-vindo.
Metade da bancada do partido Die Linke se retirará quando o Olho de Água subir ao púlpito para mentir.
E participará de uma demonstração contra o chefe dos pedófilos do lado de fora do parlamento.
1/4 dos parlamentares do SPD promete se retirar também (a esperança é que 1/3 se retire).
Quanto ao CDU foi falado que "quem estiver doente" está liberado para faltar à fala do chefe dos padres pedófilos.
A palavra chave do CDU foi dada: DOENTE!
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OEA não condena mais Belo Monte: “faltou informação”

As bem informadas
Saiu no Globo, na pág. 25 (será que a Urubóloga leu?):
“OEA volta atrás sobre Belo Monte”
“Comissão de Direitos Humanos da OEA pedira suspensão da obra da usina em abril”
“… há cinco meses a OEA havia baixado uma medida cautelar pedindo ao governo brasileiro que suspendesse o empreendimento …”
Agora, enviou uma carta à Presidenta “se retratando e pondo um ponto final no impasse”.
O “especialista” da OEA disse:
“Esse assunto está encerrado para nós. Creio que o que houve foi falta de informação dos integrantes da Comissão”.
Papelão!
Tem que combinar agora com a Bláblárina e a Urubóloga.
E o James Cameron!
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
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Marx tem a chance de salvar a economia mundial

O espírito de Marx, que está enterrado em um cemitério perto de onde eu vivo no norte de Londres, saiu da sepultura por causa da crise financeira e da recessão econômica subsequente.
Líderes políticos lutam para entender a avalanche de pânico financeiro, protestos e outros males que afligem o mundo fariam bem em estudar o trabalho de um economista que morreu há muito tempo, Karl Marx. Quanto mais cedo nós reconhecermos que estamos enfrentando uma grande crise do capitalismo, o mais bem equipado para gerenciar um caminho para sair da crise será aquele que conhecer esses detalhes. O espírito de Marx, que está enterrado em um cemitério perto de onde eu vivo no norte de Londres, saiu da sepultura por causa da crise financeira e da recessão econômica subsequente.
A análise profunda do filósofo mais sábio do capitalismo tem várias de falhas, mas a economia global de hoje apresenta muitas semelhanças misteriosas com as condições que ele tinha antecipado. Vejamos, por exemplo, a previsão de Marx de que o conflito inerente entre capital e trabalho se manifestaria inevitavelmente. Como escreveu em "Das Kapital", a busca das empresas por benefícios de produtividade, é claro, leva a necessidade de menos trabalhadores, levando à criação de um "exército de reserva" dos pobres e desempregados: "A acumulação de riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria" Marx descreve o processo que é visível em todo o mundo desenvolvido, particularmente nos esforços das empresas dos EUA para reduzir custos e evitar a contratação. Os lucros corporativos aumentaram como parte da produção econômica total no nível mais alto em mais de seis décadas, enquanto a taxa de desemprego foi de 9,1% e os salários reais estão estagnados. A desigualdade de renda nos Estados Unidos, entretanto, atingiu seu nível mais alto desde 1920. Antes de 2008, a disparidade de renda foi obscurecida por fatores como crédito fácil, que permitiram às famílias pobres desfrutarem de um estilo de vida semelhante ao dos mais ricos. Agora o problema é voltar para casa para descansar.
O paradoxo do excesso de produção
Marx também notou o paradoxo do excesso de produção e baixo consumo: quanto mais trabalhadores são relegados à pobreza, menos serão capazes de consumir todos os bens e serviços que as empresas produzem. Quando uma empresa reduz seus custos para aumentar a receita, é sábio para maximizar os lucros, mas quando o fazem todas as empresas, ao mesmo tempo, prejudicam a distribuição de renda e demanda efetiva para aqueles que dependem da renda e salário. Este problema também é evidente no mundo desenvolvido de hoje. Temos uma capacidade substancial de produzir, mas nas áreas de média e baixa renda, encontramos uma insegurança financeira generalizada e baixas taxas de consumo. O resultado é visível nos Estados Unidos, onde as vendas no setor da construção e as vendas de automóveis ainda são cerca de 75% e 30% abaixo de seus picos de 2006, respectivamente. Como dizia Marx em O Capital: "A razão última para todas as crises reais é sempre a pobreza e o consumo restrito das massas"
Enfrentar a crise
Então, como resolver esta crise? Para colocar o espírito de Marx na caixa, os líderes políticos têm de colocar a criação de postos de trabalho no topo do programa econômico e considerar outras medidas não-ortodoxas. A crise não é temporária, e certamente não será curada pela paixão ideológica de austeridade do governo. Aqui estão cinco pilares principais de uma estratégia cujo tempo, infelizmente, ainda não chegou. Primeiro, temos de manter a demanda agregada e crescimento da renda, ou pode-se cair em uma armadilha da dívida, com graves conseqüências sociais. Governos que enfrentam uma crise de dívida iminente, incluindo os EUA, Alemanha e Reino Unido, devem fazer da criação de emprego a prova real de sua política. Nos Estados Unidos, a taxa de emprego da população é agora tão baixa quanto em 1980. Estatísticas de subemprego em quase toda parte estão em níveis recorde. A redução da folha de pagamento de impostos e a criação de incentivos fiscais para o empregador para incentivar as empresas a contratar mais funcionários e investir seria o começo.
Aliviar a carga
Segundo, para aliviar o fardo da dívida das famílias, novas medidas devem permitir às famílias escolherem uma reestruturação da sua dívida hipotecária, ou criar alguns mecanismos para o cancelamento da dívida para pagamento futuro aos credores. Terceiro, para melhorar a funcionalidade do sistema de crédito, os bancos bem capitalizados e bem estruturados devem permitir o alívio temporário de adequação de capital para tentar obter crédito que vá fluir novamente, especialmente para pequenos empresas. Governos e bancos centrais podem participar no custo direto ou indireto de financiamento do investimento nacional em programas de infra-estrutura. Quarto, para aliviar o fardo da dívida soberana da zona do euro, os credores Europeus devem expandir baixas taxas de juros e prazos mais longos de pagamento como o recentemente proposto para a Grécia. Se os Eurobônus são uma ponte longe demais, a Alemanha tem que defender uma urgente recapitalização dos bancos para ajudar a absorver as perdas inevitáveis através de um Fundo de Estabilidade Financeira expandido europeu - uma condição sine qua non para resolver a crise do mercado de títulos, pelo menos.
Defesas de construção
Quinto, para construir defesas contra o risco de cair em deflação e estagnação, os bancos centrais devem olhar para além dos programas de compra de títulos, e dirigir-se, ao invés disso, para um aumento da taxa de crescimento da produção econômica nominal. Isso permitiria, por um período temporário, alcançar um ajuste de inflação moderadamente alta, que pode empurrar as taxas de juros bem abaixo de zero e facilitar uma redução no peso da dívida. Não podemos saber como estas propostas irão funcionar, ou quais podem ser sua conseqüências. Mas a política do status quo não é aceitável, para qualquer um. Pode ser que os Estados Unidos alcancem uma crise mais instável do que o Japão e a fratura da zona do euro tenha inesperadas conseqüências políticas. Em 2013, a crise do capitalismo ocidental poderia facilmente se espalhar para a China, mas isso é outro assunto.
George Magnus é economista-chefe do banco suíço USB.
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