7 de set de 2011

Como funciona a velha imprensa: uma experiência pessoal.

No sábado, 3 de setembro, foi publicada no Globo Online uma matéria repercutindo o debate sobre a regulação da mídia, um dos temas mais importantes discutidos durante o Congresso do PT.
Motivados pelos recentes acontecimentos no Hotel Naoum, em Brasília, quando repórter da revista Veja tentou invadir o quarto aonde estava hospedado o ex-deputado José Dirceu, a questão da regulação se tornou tema central na agenda dos delegados e militantes do partido.
Pois bem. A referida matéria anunciava a intenção do partido em tratar do assunto e tomava a opinião da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, sobre a postura do governo em relação a esta renovada disposição do PT em colocar a questão em pauta. Entretanto, em momento nenhum, a matéria se referiu à tentativa de invasão do quarto do hotel. Mencionou apenas a “reportagem” publicada pela Veja contra José Dirceu, relacionada às atividades do ex-ministro da Casa Civil no governo Lula. É o que se lê no texto, aqui reproduzido:
"Para Ideli, o momento é oportuno para se reabrir esse debate sobre o marco regulatório da mídia.
- Ainda mais diante de episódios que levantam dúvidas entre a liberdade de imprensa e a espionagem. Não podemos admitir espionagem política - observou a ministra, sem citar diretamente a reportagem da revista "Veja" que denunciou o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu de estar tentando desestabilizar o governo de Dilma Rousseff."
Decidi então enviar um e-mail à jornalista autora da matéria, observando que o texto, tal como foi escrito, induz o leitor a pensar que a motivação da ministra e do PT nada mais era que mera retaliação a matéria desfavorável publicada pela Veja. Não havia, na matéria do Globo Online, nenhuma linha que explicasse ao leitor que Ideli, na verdade, estava se referindo à tentativa de invasão do quarto de José Dirceu, no Hotel Naoum, no dia 24 de agosto, pelo repórter Gustavo Ribeiro. Não é pouca coisa. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Brasília e há suspeitas de que o repórter plantou uma câmera escondida no corredor do hotel.
Solicitei ao Globo, portanto, que o texto fosse revisado e alterado no site para, justamente, incluir os fatos relativos à tentativa de invasão e, assim, dar ao leitor o verdadeiro sentido da declaração da ministra. Em vão. No fim das contas, fui tratado como se, ao invés de um cidadão em busca do meu direito de ser bem informado, como um assessor do PT interessado em brigar com a notícia.
Segue abaixo, o diálogo travado entre mim e a repórter Adriana Vasconcelos, de O Globo, responsável pelo texto:
--- mensagem original ---
De: Dario Achkar
Assunto: Marco Regulatório da Mídia, Veja x Dirceu, Ideli, etc..
Data: 3 de Setembro de 2011
Hora: 18:33:38
Prezada Adriana,
com referencia a matéria publicada hoje no Globo online, http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/09/03/ideli-diz-que-impossivel-governo-nao-participar-do-debate-sobre-marco-regulatorio-da-midia-925282517.asp
a ministra Ideli se referiu a espionagem política não pela matéria da Veja sobre José Dirceu, mas sobre a tentativa do seu repórter de invadir o apartamento do hotel, o que aliás, não é mencionado em parte alguma da sua matéria. Colocado da forma em que está na sua matéria, fica parecendo que é mera retaliação do governo e do PT a matéria desfavorável publicada pela revista.
Alguma chance em corrigir o equívoco?
Att,
Dario
Ao que obtive a seguinte resposta:
De: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Data: 3 de setembro de 2011 20:56
Para: Dario Achkar
Dario,
Só agora vi sua msg, mas qdo me refiro à reportagem da Veja, penso que está clara a referência do episódio relatado pelo ex-deputado José Dirceu em seu blog.
Um abraço
Adriana
Não satisfeito com a resposta, insisti:
----------
De: Dario Achkar
Data: 4 de setembro de 2011 12:28
Para: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Prezada Adriana,
este é o ponto. Não está clara a referência, uma vez que o episódio foi sequer mencionado na matéria, e a grande maioria dos leitores quase não teve acesso a notícia, pois a mesma quase não foi repercutida na grande imprensa. E quando foi, ficou restrita a notas de rodapé. E de fato, colocado como está. fica parecendo mera retaliação do governo a matéria desfavorável a um membro do PT. Não soa estranho que a real motivação do debate não figure na matéria, cabendo ao leitor supor então qual teria sido a real motivação do debate?
att,
Dario
Ao que se seguiram duas titubeantes respostas em sequência:
----------
De: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Data: 4 de setembro de 2011 12:56
Para: Dario Achkar
Vou encaminhar seu email para a direção do Online. ok?
----------
De: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Data: 4 de setembro de 2011 12:58
Para: Dario Achkar
Mas antes de mandar, gostaria que vc se identificasse. Por acaso é assessor da ministra Ideli? Quais são os seus contatos?
Respondi:
----------
De: Dario Achkar
Data: 4 de setembro de 2011 13:05
Para: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Adriana,
Meu nome é Dario Achkar Petrillo, tenho 52 anos, moro na zona rural do DF, sou pequeno produtor rural, não sou filiado a nenhum partido, não tenho cargos no governo, bem como ninguém da minha família. Caso seja necessário outras informações, tais como telefone, CPF ou outras, posso também disponibilizar estas infos.
grato pela atenção,
Dario
Eis que então a brilhante jornalista me sai com esta pérola:
----------
De: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Data: 4 de setembro de 2011 13:45
Para: Dario Achkar
Dario,
Se a ministra não reclamou, porque eu teria de alterar o texto? Vc mesmo não teve dúvida sobre o que a ministra se referia, sinceramente acho que os outros leitores tb.
Att.
Ao que obviamente respondi:
----------
De: Dario Achkar
Data: 4 de setembro de 2011 14:03
Para: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
A ministra, assim como eu, faz parte de uma minoria que tem acompanhado com atenção o desenrolar do imbróglio. A matéria deveria considerar que a grande maioria dos leitores não teve acesso a toda a informação, uma vez que ela mal foi divulgada na grande imprensa. Não é curioso que um fato de tamanha relevância seja sequer mencionado numa matéria aonde a questão da tentativa de invasão era o tema central ao qual a ministra se referia?
Volto a reafirmar, da forma como foi colocado, fica parecendo que a motivação da ministra e dos delegados do partido é mera retaliação a matéria desfavorável, publicada pela revista. Não te parece?
att,
Dario
E assim, fui brindado com sua resposta final:
----------
De: Adriana Vasconcelos - Redação Suc BSB - O GLOBO
Data: 4 de setembro de 2011 15:02
Para: Dario Achkar
Respeito sua opinião, mas a minha é diferente da sua.
É mole???
Leia Mais ►

Independência: brindarei com tubaína a morte dos desfiles

Quando pequeno, lembro-me de ir a apenas um desfile do Dia da Independência. E, mesmo assim, não ter ficado o suficiente para entender o que aquele bando de gente agitando bandeirinhas estava fazendo por lá. Uma das maiores contribuições dos meus pais foi exatamente ter me poupado de toda essa papagaiada patriótica.
(No dia em que ninguém, além de autoridades, forem a um desfile desses, comemorarei com cajuína, tubaína e guaraná Jesus. E esse dia há de chegar.)
Da mesma forma, agradeço a Alá o fato de não ter interiorizado o que disciplinas como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), restolhos da ditadura, tentaram me dizer – apesar dos fantásticos professores que tentaram dar outro sentido àquele malfadado currículo. Nunca entendi como algumas escolas se preocupam mais em ter alunos que saibam o hino nacional do que compreender Machado de Assis.
Sei que datas como essa servem para compartilhar (ou enfiar goela abaixo) elementos simbólicos que, teoricamente, ajudarão a nos unir como nação neste território. Mostrando que somos iguais (sic) e filhos da mesma pátria – mesmo que a maioria seja tratado como bastardos renegados.
Vamos a algumas reflexões. Desde o século 19, buscam-se parâmetros para explicar o que faz do sujeito que nasce nessa porção intertropical de terra único e o que mantém mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados sob os cuidados de um mesmo grupo. Bem, a língua portuguesa e a religião católica não são causas, mas sim conseqüências, símbolos do que nós somos. O jeitinho brasileiro (vertente simpática da corrupção e do apadrinhamento), as relações no trabalho, a paixão pelo futebol, o tipo de comida que ingerimos são todas elas conseqüências de uma formação histórica que, se não resume, ajuda a nos explicar.
Como jovem nação, com poucos anos de independência e menos ainda de liberdades individuais, sempre houve ânsia no sentido de buscar quem somos para assim tentar descobrir para aonde vamos. Não há uma teoria explicativa da identidade nacional largamente aceita, mas considera-se que houve uma evolução na maneira como se considera o “ser brasileiro”.
Um importante fator que forçou a união nacional e tentou forjar uma identidade foi o próprio Estado (leia-se como “Estado”, os principais jogadores do Estado, ou seja, as elites econômicas, burocráticas, políticas, midiáticas), consolidando assim sua própria integridade e poder após a proclamação da República e o fim da escravidão (sic de novo). Lançou-se para frente os problemas sociais através do discurso do “país do futuro” – e acreditamos nele. E, para tanto, foram usados tantos e tantos instrumentos – das rádio-novelas às telenovelas, do futebol à Fórmula 1.
Por mais de 100 anos, pensadores, poetas, políticos, intelectuais, músicos, tentam definir o quais os valores – se é que existem mesmo – que estão por trás do brasileiro e o que une o país como povo. Temos grandes ensaios – Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda) e a Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Júnior). Não são unanimidades, muito pelo contrário. Porém, as servem para apresentar alguns elementos importantes:
A herança portuguesa do patriarcalismo e o do patrimonialismo, que dão subsídios para entender como funcionam as relações sociais e políticas do país hoje. O conchavo, o apadrinhamento, o jeitinho brasileiro, o “sou amigo de fulano”, a fusão do público e do privado, entre outras coisas. E a herança da economia. O Brasil não foi concebido como uma colônia de povoamento, mas sim de exploração. Por causa disso, nossos ciclos históricos são delimitados pelo o que podíamos oferecer para o exterior (madeira, ouro, cana, café…) O latifúndio-monocultura exportadora-escravidão moldou as relações de trabalho e de produção, a visão e o comportamento da elite e das classes populares. Ou você acha que a relação patrão-empregado no Brasil é a coisa mais saudável do mundo?
Ser brasileira e brasileiro, na verdade, é a nossa maneira particular de construir e perceber a realidade.
E, aproveitando o 7 de setembro, de que forma estamos fazendo isso? Celebrar as nossas caquéticas forças armadas (que ainda vivem sob a herança da ditadura, carregadas de pessoas cheias de pó que se mantém feito gárgulas a tudo observar e criticar) e feitos militares bisonhos deveria ser usado como subsídio para debater a nossa construção de realidade? Ou seria o momento de uma boa reflexão, coisa que precisamos cada vez mais nesses dias em que chamamos indígenas de intrusos, camponeses de entraves para o desenvolvimento e imigrantes bolivianos de vagabundos.
O melhor de tudo é que, ao levantar indagações sobre quem somos e a quem servimos e conclamar ao espírito crítico, somos acusados de não amar o país, no melhor estilo “Brasil: ame-o ou deixe-o” dos tempos de chumbo da Gloriosa.
Não amo meu país incondicionalmente, como não amo nada incondicionalmente. Mas gosto dele o suficiente para dedicar boa parte da minha vida a tentar entendê-lo e ajudar a torná-lo um local minimante habitável para a grande maioria da população. Gente deixada de fora das festas principais, entregues ao pão e circo de desfiles com tanques velhos e motos de guerra remendadas. Mas que, quando voltam para casa, encaram a realidade da falta, da ausência, da dificuldade e da fome.
Educação cívica é tornar os jovens malas sem-alça, daquelas bem chatinhas, e não puxa-sacos áulicos do país.
Qual a melhor demonstração de respeito por um país? Vestir-se de verde e amarelo e se enrolar em uma bandeira? Ou ter a pachorra de apontar o dedo na ferida quando necessário? Ama a si mesmo, por outro lado, os que se escondem do debate, usando como argumento um suposto “interesse nacional” – que pode ir do petróleo (EUA) ao etanol (Brasil) – que, na verdade, trata-se de “interesse pessoal”. Se questionado, corre para trás da trincheira do patriotismo.
Afinal de contas, como disse uma vez o escritor inglês Samuel Johnson: “Patriotismo é o último refúgio de um canalha”.
Leia Mais ►

Perdão?

Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 785

Leia Mais ►

Protesto chique em SP lembra fracasso do “Cansei”

Eles não aprendem e não desistem. Derrotados três vezes nas eleições presidenciais, os valentes da fina flor paulistana foram de novo às ruas para protestar "contra tudo o que está aí". Desta vez, o álibi foi a Marcha Contra a Corrupção organizada nas redes sociais em várias regiões do país.
Em São Paulo, apesar dos esforços de alguns blogueiros histéricos, o protesto fracassou: segundo a Policia Militar, apenas 500 pessoas se animaram a sair de casa neste belo feriado de sol para ir à avenida Paulista levantar cartazes contra a corrupção.
A personalidade mais conhecida identificada pela imprensa foi a socialite Rosangela Lyra, sogra do jogador Kaká e representante da Dior no Brasil.
Era a mesma turma chique do "Cansei", um "movimento cívico" criado em julho de 2007, para protestar contra o "caos aéreo", pelo presidente da OAB paulista, Luís Flávio Borges D´Urso, agora pré-candidato do PTB de Roberto Jefferson a prefeito de São Paulo, mas nem ele foi visto hoje na avenida Paulista.
De outro líder do "Cansei", o executivo Paulo Zotollo, ex-presidente da Phillips, não se ouviu mais falar. Na época, ele causou um enorme dano para a imagem da empresa ao declarar em entrevista ao jornal "Valor":
"Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz como tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".
O Piauí ainda existe, vai bem e cresce, ao contrário do infeliz executivo que apenas vocalizou o que pensava boa parte da elite paulistana sobre os nordestinos, quando o presidente do país era o pernambucano Lula.
A direção nacional OAB nacional na época, que ainda não era dominada por tipos como Ophyr Cavalcanti (quem?), o novo Álvaro Dias da mídia, decidiu não participar do movimento e criticou a sessão paulista da entidade.
O então presidente da OAB-RJ, Wadih Dammus, resumiu do que se tratava. "O Cansei é um movimento de fundo golpista, estreito e que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas de São Paulo".
Foi o que se viu no 7 de setembro de protestos na avenida Paulista. São os mesmos. Só mudou o mote.
Leia Mais ►

Juventude udenista protesta contra corrupção

Patrocínio: Paul Black
No Esquerdopata
Leia Mais ►

Celular é essencial, sim!

 Atenção 

Temos poucos dias para impedir as empresas fabricantes de celulares de tirarem nossos direitos! Elas conseguiram anular na Justiça nota técnica do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) que definiu os aparelhos celulares como produtos essenciais.
Problemas com aparelhos celulares são tão graves que já somam um terço das reclamações dos Procons relativas a produtos e serviços regulados, confirmando a falta de qualidade e assistência aos produtos colocados no mercado.
Semana que vem haverá uma audiência entre a Abinee, representante das empresas, e o DPDC para definir a questão. Não temos muito tempo para pressionar publicamente as empresas, vamos inundá-las com mensagens de consumidores do todo o Brasil. Clique abaixo para enviar a sua:
Como produto essencial, aparelhos defeituosos terão que ser substituídos imediatamente, acabando com o prazo de 30 dias da assistência técnica que é tempo demais para aqueles que dependem do celular para o trabalho, além de ser crucial em situações de emergência. Também fica garantido o direito ao reembolso do valor pago ou ao abatimento no preço de outro produto.
As principais entidades e órgãos de defesa do consumidor já manifestaram o seu repúdio à suspensão da essencialidade, mas somente com uma mobilização pública dos consumidores conseguiremos pressionar os fabricantes a não utilizarem o Judiciário contra os direitos do consumidor. A tentativa de acordo na Justiça será em alguns dias, ajude a inundar os e-mails da Nokia, Motorola, Sony Ericsson, LG, Samsung, e outras empresas, demonstrando a nossa indignação. Clique abaixo:
Sozinho, nenhum indivíduo conseguiria ser mais forte do que o poderoso lobby das grandes multinacionais, porém juntos nós temos uma chance. Divulgue esta campanha encaminhando este email para os seus amigos e publicando o link acima nas redes sociais, para todos os consumidores terem o respeito que merecem e produtos de qualidade.
Pelos direitos de todos os consumidores!
Leia Mais ►

Vencer ou Morrer

Duas efemérides se misturaram hoje na minha mente: o Dia da Pátria e o 40º aniversário da execução de Carlos Lamarca, capturado com vida e abatido friamente pela repressão ditatorial no sertão baiano, em 17 de setembro de 1971.
O que há, ainda, para se dizer sobre Lamarca, o personagem brasileiro mais próximo de Che Guevara, por suas opções na vida e pela forma como encontrou a morte?
Foi, acima de tudo, um homem que não se conformou com as injustiças do seu tempo e considerou ter o dever pessoal de lutar contra elas, arriscando tudo e pagando um preço altíssimo pela opção que fez.
Teve grandes acertos e cometeu grandes erros, inevitáveis numa luta travada com tamanha desigualdade de forças e em circunstâncias tão dramáticas.
Mas, nunca impôs a ninguém sacrifícios que ele mesmo não fizesse. Chegava a ser comovente seu zelo com os companheiros - via-se como responsável pelo destino de cada um dos quadros da Organização e, quando ocorria uma baixa, deixava transparecer pesar comparável ao de quem acaba de perder um ente querido.
Dos seus melhores momentos, dois me sensibilizaram particularmente.
Logo depois do Congresso de Mongaguá (abril/1969), quando a VPR saía de uma temporada de luta interna e de quedas, o caixa estava a zero e a rede de militantes, clandestinos em sua maioria, carecia desesperadamente de dinheiro para manter as respectivas fachadas - qualquer anomalia, mesmo um atraso no pagamento de aluguel, poderia atrair atenções indesejáveis.
Mas, o chamado grupo tático fora o setor mais golpeado pela investida repressiva. Então, quando se planejou a expropriação simultânea de dois bancos vizinhos, na zona Leste paulistana, o pessoal experiente que sobrara não bastava para levá-la a cabo.
Eu e os sete companheiros secundaristas que acabáramos de ingressar na Organização fomos todos escalados - na enésima hora, entretanto, chegou a notícia de que o Comando me designara para criar e coordenar um setor de Inteligência, então fiquei de fora.
Lamarca, procuradíssimo pelos órgãos repressivos, fez questão de estar lá para proteger os recrutas no seu batismo de fogo. Os outros quatro comandantes tudo fizeram para convencê-lo a não expôr-se, em nome da sua importância para a revolução. Em vão. A lealdade para com a tropa nele falava mais alto.
Depois de muita discussão, chegou-se a uma solução de compromisso: ele não entraria nas agências bancárias, mas ficaria observando à distância, pronto para intervir caso houvesse necessidade.
Houve: um guarda de trânsito, alertado por transeunte, postou-se na porta de um dos bancos, arma na mão, pronto para atingir o primeiro que saísse.
Lamarca, que tomava café num bar a 40 metros de distância, só teve tempo de apanhar seu .38 de competições na bolsa capanga, mirar e desferir um tiro dificílimo - tão prodigioso que, no mesmo dia, a ditadura já percebeu quem fora o autor. Só um atirador de elite seria capaz de acertar.
Segundo o Darcy Rodrigues, foi a vida dele que o Lamarca salvou. O próprio, contudo, contou-nos que seria um dos novatos o primeiro a sair.
Como resultado, a repressão teve pretexto para fazer de Lamarca o inimigo público nº 1 - e, claro, o fez. A imagem dele foi difundida à exaustão, obrigando-o a redobrar cuidados e até a submeter-se a uma cirurgia plástica. Sem chiar: considerou seu ato mais do que justificado, e justo o preço pago.
Também teve de brigar muito com os demais dirigentes e militantes, para salvar a vida do embaixador suíço Giovanni Butcher, quando a ditadura se recusou a libertar alguns dos prisioneiros pedidos em troca dele e ainda anunciou que o Eduardo Leite (Bacuri) morrera ao tentar fugir.
Dá para qualquer um imaginar a indignação consequente - afinal, as (dantescas) circunstâncias reais da morte do Bacuri eram por eles conhecidas.
Mesmo assim Lamarca não arredou pé, usando até o limite sua autoridade para evitar que a VPR desse aos inimigos o monumental trunfo que as Brigadas Vermelhas mais tarde dariam, ao executarem Aldo Moro.
O episódio foi tão traumático que ele acabou deixando a VPR.
E, no MR-8, novamente divergiu da maioria dos companheiros - quanto à sua salvação.
Pressionaram-no muito para que saísse do Brasil, preservando-se para etapas posteriores da luta, pois em 1971 nada mais havia a se fazer. Tornara-se um matadouro.
Conhecendo-o como conheci, tenho a certeza absoluta de que não perseverou por acreditar numa reviravolta milagrosa, mas sim pela incapacidade de conciliar a idéia de fuga com a morte e o sofrimento de tantos militantes. Fez questão de compartilhar até o fim o destino dos companheiros, honrando a promessa, tantas vezes repetida, de vencer ou morrer.
Doeu - e como! - vermos os militares exibindo seu cadáver como troféu, da forma mais primária e repulsiva.
Mas, ele havia conquistado plenamente o direito de desconsiderar fatores políticos e tomar, como homem, a decisão sobre como queria morrer.
Merece nosso máximo respeito e admiração.
Celso Lungaretti
No Náufrago da Utopia
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 784

Leia Mais ►

Lula recebe prêmio na Polônia por respaldo à liberdade e democracia

O ex-presidente Lula foi agraciado com o prêmio 'Lech Walesa', criado em 2008 para reconhecer personalidades destacadas por seu respaldo à liberdade, democracia e cooperação internacional.
Lula receberá o prêmio em cerimônia que acontecerá no próximo dia 29 de setembro na cidade de Gdansk, no norte da Polônia, segundo a Fundação Lech Walesa confirmou nesta quarta-feira à Agência Efe.
Lula expressou seu agradecimento à fundação polonesa e disse que considera o prêmio como um reconhecimento não só de suas conquistas pessoais, mas também do povo brasileiro, que nos últimos oito anos mostrou como é possível realizar uma transição econômica e social de forma pacífica e democrática.
Por sua parte, o ex-presidente polonês Lech Walesa lembrou que, embora Lula tenha 'raízes ideológicas diferentes', compartilha com ele uma origem sindical e a realização de mudanças excepcionais em seus respectivos países.
Walesa fundou seu prêmio em 2008, 25 anos após ter sido agraciado com o Nobel da Paz por sua luta contra o comunismo e pelo advento da democracia na Polônia. A fundação polonesa premia o vencedor com US$ 100 mil.
Em 1990, após protagonizar numerosos protestos e pôr em xeque o Governo comunista polonês, a queda do muro de Berlim abriu as portas da democracia na Polônia, onde Lech Walesa se tornou o primeiro presidente eleito livremente pelos cidadãos desde a Segunda Guerra Mundial.
Leia Mais ►

Novas imagens desmentem teorias que dizem que o homem nunca pisou na Lua

Uma nova imagem do solo lunar mostra o local do pouso das missões da agência espacial Nasa até o local.
É possível ver as pegadas dos astronautas e o rastro deixado pelo veículo lunar. No vácuo do espaço, o equipamento deixado lá está intacto até hoje.
Com a vitória na corrida espacial, a Nasa abandonou a missão Apollo, e desde 1972 nunca mais voltou à Lua.
A agência espacial americana cortou o seu programa de ônibus espaciais, mas afirma que agora quer voltar ao solo lunar. Muitos duvidam, no entanto, que o governo americano tenha dinheiro e vontade para concretizar o projeto.
Por ora, as imagens servem pelo menos para dispersar teorias que dizem que o homem nunca chegou à Lua e que as imagens famosas de 1969 foram filmadas em um estúdio em Hollywood.
Na BBC
Leia Mais ►

O mensalão pago por Berlusconi

Ruby, virou dor de cabeça para Berlusconi.
Giampaolo Tarantini selecionava e levava garotas de programa para as noitadas e festas do premiê italiano Silvio Berlusconi no palácio Grazioli, residência romana ofertada pelo Estado italiano ao primeiro-ministro, na paradisíaca Villa Certosa, na Sardenha (propriedade privada de Berlusconi).
Os escândalos são conhecidos mundo afora.
Parêntese: os agenciadores de “escorts” para festas em Arcore, com “bunga-bunga”, eram outros. Numa das festas esteve presente uma menor de idade, a marroquina apelidada Ruby Rubacuore. Berlusconi é proprietário de uma cinematográfica casa de campo em Arcore, cidade próxima a Milão.
A última novidade sobre escândalos berlusconianos surgiu diante de investigação paralela àquela voltada a apurar o desfrutamento e incentivo à prostituição por parte do premiê e seu grupo, com destaque à higienista bucal transformada em vereadora (voto distrital em lista e ela compunha lista do partido de Berlusconi) e o jornalista responsável pelo noticiário político do canal televisivo de propriedade de Berlusconi.
O procurador italiano Henry John Woodcok descobriu que Tarantini, de dezembro de 2010 a agosto de 2011, recebia mensalmente de Berlusconi 20 mil euros. Isso fora pagamentos não regulares. No período mencionado, Tarantini teria embolsado perto de 800 mil euros.
Preso preventivamente, Tarantini nega extorquir o premiê. Sua esposa, Angela Devenuto, fala em ajuda financeira. O marido Tarantini justifica o “mensalão” como generosidade de Berlusconi para um conhecido que precisava montar um negócio.
Angela e Tarantini, nos interrogarórios perante a juíza de investigação preliminar, Amelia Primavera, falaram não ser novidade que Berlusconi ajuda a todos: “Berlusconi aiuta tutti”.
Convidada pela juíza Primavera a serem mais explícitos, Tarantini e Angela lembraram de Ruby (a protagonista do caso bunga-bunga e, à época, menor de idade) e de Lele Mora (empresário da noite lombarda e já preso preventivamente).
Diante de novo envolvimento em fatos criminosos, embora dessa vez em posição de vítima de chantagem, Berlusconi deu uma longa entrevista à revista Panorama (uma Veja italiana pela tiragem), que está nas bancas e de editora da sua propriedade.
Na entrevista, Berlusconi nega tenha sido vítima de extorsões promovidas por Tarantini e Angela. O premiê não negou ter dado dinheiro ao casal. Sua justificativa consiste em afirmar que Tarantini, um amigo, estava em dificuldade.
Como dados de procedimento investigativo sigiloso foram revelados na matéria jornalística, o Ministério Público mandou instaurar apuração por crime de “fuga de notícias” reservadas.
Para muitos italianos, Berlusconi é chantageado e nunca manteve amizade com Tarantini. Fala-se que Tarantini sempre recebeu pelo rufianismo promovido e, como obteve algumas informações e detém fotografias, começou a receber o preço estabelecido na extorsão. Não se deve olvidar terem testemunhas (garotas de programa que frequentavam bacanais do premiê) mencionado drogas (cocaína) disponíveis.
PANO RÁPIDO.
Berlusconi conduziu a Itália ao caos econômico, pois o Estado gasta mais do que arrecada e faltam postos de trabalho. E as extravagâncias sexuais de Berlusconi, esquecendo-se da sua condição de homem público, fizeram a Itália perder prestígio internacional. Afinal, a Itália virou o Estado governado por um primeiro-ministro objeto de piadas. E Berlusconi faz o mundo rir, sem dimensionar o tamanho da tragédia peninsular.
Wálter Fanganiello Maierovitch
No Terra Magazine
Leia Mais ►

"Fé de mais ", o perigo das religiões

Leia Mais ►

Como falam os partidos

No 4º Congresso Nacional do PT, realizado no último fim de semana, o mais importante documento aprovado foi uma “Resolução Política”. Muita coisa foi significativa nos três dias que durou o evento (como a saudação entusiasmada que recebeu José Dirceu, em desagravo ao modo como foi tratado por certa imprensa), mas é ela que vai durar.
Para todos efeitos, é uma espécie de atualização do programa do partido, a mais recente desde o 3º Congresso Nacional, que aconteceu em 2007, após a reeleição de Lula. Nela, o partido toma posição em relação ao governo federal, fornece sua visão do cenário nacional e internacional, e estabelece uma agenda de curto prazo, seja para a atuação de seus parlamentares, seja para as próximas eleições municipais.
Pode-se gostar ou não do PT enquanto partido, mas de uma coisa quase ninguém duvida: está a anos-luz dos demais, em qualquer dimensão relevante de comparação objetiva. É, de longe, o maior e o mais organizado de todos os partidos que tivemos em nossa história.
Pode-se, também, concordar ou discordar do conteúdo da Resolução. Mas é um documento que não pode ser ignorado.
A começar, pelo simples fato de existir. Estamos exageradamente acostumados a que os partidos nada tenham a dizer institucionalmente, e a ouvi-los apenas através de suas lideranças. Sua manifestação formal e oficial é rara, o que é reflexo da dificuldade que têm para construir consensos e encontrar os sentimentos majoritários de seus integrantes.
Nos pequenos, o personalismo dos dirigentes é tão grande que decidem sozinhos e divulgam suas opiniões quando querem e da forma que lhes apraz. Alguns têm tanta consideração por seus correligionários que os informam de decisões partidárias através do Twitter.
Nos grandes, temos alguma vida partidária efetiva. Mas as dissensões inter-pessoais costumam ser tão intensas que apenas raramente é possível chegar a acordos que permitam elaborar ou rever programas e documentos semelhantes.
O PSDB, por exemplo, desde sua fundação em 1988, só sentiu que precisava preparar um novo documento programático em 2007. Ainda assim, o apresentou como um simples “manifesto”. De lá, para cá, não falou mais como partido. Especialmente depois de quando Fernando Henrique passou a publicar com regularidade seus pontos de vista pela imprensa.
Seus artigos, sempre assinados, se tornaram o que de mais perto há no PSDB de documentos programáticos. (O que não deixa de ser coerente: partidos de quadros, documentos individuais, elaborados por “notáveis”; partidos de massa, documentos coletivos, fruto da negociação entre correntes.)
Deixando, por ora, a discussão do conteúdo da Resolução petista, podemos comparar sua linguagem à do texto tucano de 2007. É um modo de ver as diferenças que existem entre os partidos.
Algumas palavras aparecem em proporção totalmente diversa nos dois documentos. “Corrupção”, assunto relevante para o PSDB em 2007 (dois anos depois do mensalão), surge em seu documento 4 vezes. No do PT, escrito agora, 12. “Comunicação”, algo pouco importante para os tucanos, lá está apenas uma vez. Como é preocupação atual do PT, aparece 12 vezes no seu.
“Eficiência” e “gestão” (com suas combinações) são marca tucana: 14 vezes no seu manifesto. Nem tão relevantes para o PT: 4, na Resolução.
Totalmente diferentes as interlocuções: “mulher”, 13 (PT) a 1 (PSDB); “movimento (social, sindical, etc.)” 19 a 2; “negro” 4 a 1; “trabalhador” 13 a 9; “sindicato” 4 a 1. Ambos citam “jovens”(ou “juventude”) em quantidade parecida: o PT por 11 vezes, o PSDB, 9. Nos “empresários”, empate: 1 a 1.
Diferente também a geografia: no documento petista, há 12 menções à America Latina (ou do Sul), enquanto no tucano apenas 2; os Estados Unidos são citados 7 vezes pelo PT (de forma negativa em quase todas) e não aparecem no documento do PSDB. Já a China e a Índia estão nos dois em igual medida: juntas, são mencionadas 6 vezes pelos tucanos e 5 pelos petistas.
Nas suas 11 mil palavras, a Resolução do PT cita Dilma (pelo nome ou pelo cargo) 41 vezes. Lula aparece 33. “Neoliberal” (ou “neoliberalismo”), 26 vezes (todas, é natural, de forma crítica); “socialismo”, 5; “esquerda” (ou “centro-esquerda”), 15. Nenhuma está no texto tucano.
Há quem ache que a leitura dos programas partidários é irrelevante. Não é. Pode ser elucidativa.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto de pesquisas Vox Populi
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 783

Leia Mais ►

O interesse público, os fins e os meios

Se nem para processar um criminoso, de nítido interesse público, meios ilícitos são permitidos, porque o seriam para produzir uma reportagem?
Na semana que passou, um jornalista da revista Veja foi acusado de ter tentado ingressar sem autorização no apartamento do ex-deputado José Dirceu e a própria revista de ter se utilizado de câmaras no hotel onde estava hospedado para flagrar políticos e autoridades que com ele se reuniam.
O hotel chegou a registrar Boletim de Ocorrência e as redes sociais repercutiram intensamente o episódio, mas o assunto foi praticamente ignorado pela grande imprensa.
Em se tratando dos personagens envolvidos, a prudência recomenda mesmo cautela, pois a denúncia partia justamente de quem se veria, nos dias seguintes, acusado de conspiração pela revista semanal. Já cassado e réu de um processo criminal, Dirceu tem todo o interesse em desacreditar quem lhe critica.
Mas o prolongado silêncio sobre o assunto, que chegou aos Trending Topics, insinua uma certa dose de corporativismo, defeito que é diuturnamente cobrado das autoridades pela própria imprensa.
O colunista Fernando de Barros e Silva, da Folha de S. Paulo, tocou no assunto nesta semana: "Não sei em que condições foi produzida a reportagem sobre a romaria de políticos ao quarto de hotel de José Dirceu, em Brasília, mas as imagens são boas e têm óbvio interesse público".
A questão que me intriga é a seguinte: saber "em que condições foi produzida a reportagem" também não é relevante ou será suficiente que ela tenha "óbvio interesse público"?
Seria razoável supor que na imprensa o conteúdo supere a forma, ou em outras palavras, que os fins justifiquem os meios?
A acusação de Dirceu e dos responsáveis pelo hotel provavelmente suportará investigações - quem trabalha com o direito penal sabe que um Boletim de Ocorrência é, muitas vezes, apenas uma versão unilateral do fato. A última coisa que poderia sugerir é uma condenação sem qualquer defesa ou prova.
Mas independente do resultado das apurações, e diante da circunstância do generalizado desprezo pela integridade dos meios, parece ser o caso de discutir a questão de fundo: o interesse público é o único limite para uma reportagem?
Recentes acusações contra um jornal do magnata Rudolph Murdoch, na Inglaterra, mostraram até onde é possível chegar a busca por uma revelação.
Grampos telefônicos de importantes autoridades conversando sobre temas de economia e política poderiam justificar o "interesse público". Mas quem seria capaz de concordar com tais métodos?
No direito, o tema de provas produzidas de forma ilícita, em nome do mesmo interesse público, suscitou muitas polêmicas. Houve até quem entendesse que os crimes do Estado podiam valer a pena, se fossem para apurar delitos graves.
Cada vez mais, no entanto, vem se firmando uma regra basilar: na democracia, tantos os fins quanto os meios devem ser legítimos.
Nossa Constituição, por exemplo, sepultou as dúvidas frisando que são inadmissíveis no processo as provas produzidas de forma ilícita.
O STF, ao interpretar o dispositivo, reconheceu ainda a teoria dos frutos da árvore envenenada, o que nasceu de forma irregular jamais se transforma em legal.
Não tem qualquer valor para o direito a confissão obtida sob tortura. A interceptação telefônica sem autorização judicial ou a violação de domicílio sem mandado também não servem como provas.
O que está por trás dessa ideia é o sentido ético do processo.
O Estado não pode punir criminosos cometendo outros crimes. Surge daí uma recomendação profilática que molda o tipo de agente que a democracia deve formar.
Se nem para processar um criminoso, de nítido interesse público, meios ilícitos são permitidos, porque o seriam para produzir uma reportagem?
A defesa incondicional da liberdade de expressão e a proibição da censura são combustíveis indispensáveis a qualquer democracia que se preze. Não devemos abrir mão delas sob nenhuma hipótese ou usar a perversão como álibi para reduzi-las.
Mas nem de longe o interesse público pode autorizar a violação de direitos fundamentais, seja na polícia seja na imprensa.
Submeter o direito individual ao interesse da sociedade é o que fazem os regimes totalitários. É o fascismo que sobrepõe a nação aos indivíduos, não as democracias.
Nem a busca da verdade pode nos permitir tudo. Também nas reportagens, os fins não justificam os meios.
Marcelo Semer
No Sem Juízo
Leia Mais ►

Boicote Negro contra Negro!?

Leia Mais ►

Entrevista de José Dirceu a PHA

Leia Mais ►

“Marcha contra corrupção”. Quem agita?

Estão previstas para este 7 de setembro, Dia da Independência, “marchas contra a corrupção” em capitais e importantes cidades do país. O objetivo até parece nobre, mas seus organizadores são mais sujos do que pau de galinheiro. Visam utilizar a bandeira da ética para esconder sua frustração com a derrota nas eleições presidenciais de 2010. O intento é desgastar o governo Dilma.
Entre os promotores do “protesto espontâneo” estão os velhacos tucanos. “No 7 de setembro, a Juventude do PSDB-SP realizará atos contra a corrupção. Aproveitando as comemorações da data, a JPSDB-SP reunirá os jovens do Estado de São Paulo para se manifestar contra as sucessivas denúncias de corrupção que atingem membros do governo federal”, revela o sítio dos tucaninhos.
O cinismo dos tucaninhos
O cinismo dos organizadores é escancarado. Para enganar os ingênuos, eles generalizam as críticas à corrupção, citando inclusive a deputada federal Jaqueline Roriz, que acaba de escapar de um processo de punição na Câmara Federal. Só deixaram de avisar os incautos que a parlamentar foi eleita pela primeira vez pelo PSDB e que ela foi flagrada com dinheiro no bolso no famoso “escândalo do mensalão do DEM”, liderado pelo ex-governador José Roberto Arruda, o “vice-careca” do tucano José Serra.
“Em um dia histórico para o nosso país, as juventudes municipais do PSDB de todo o Estado estarão reunidas por um único motivo: pedir um basta à corrupção”, agita Paulo Mathias, presidente da Juventude do PSDB de São Paulo. Ele poderia aproveitar para pedir a apuração das denúncias de desvio do dinheiro público na prefeitura de Pindamonhangaba, lideradas pelo cunhado do governador Geraldo Alckmin, ou para exigir que a mídia demotucana dê mais notícias sobre Paulo Preto, o “caixa” de Serra.
O patético blogueiro da Veja
Outro “agitador” das marchas é o blogueiro da Veja, Reinaldo Azevedo. Ele até publicou um roteirinho dos protestos. “Diversos grupos espalhados por todo país preparam pelo menos 38 manifestações contra a corrupção em 35 cidades. Milhares de pessoas já confirmaram presença nos eventos por meio das redes sociais”, comenta, excitado, o patético capacho da famiglia Civita.
Nos últimos dias, ele ficou meio atordoado com as denúncias sobre os crimes da Veja para espionar o ex-ministro Dirceu. Ele até reclamou do restante da mídia demotucana, que preferiu não apoiar as ações mafiosas da sua empregadora. Daí sua agitação em defesa da “marcha contra a corrupção” para desviar a atenção. Se Dilma fosse mais ousada, a famiglia Civita seria processada e o seu blogueiro predileto até poderia perder sua boquinha!
Os aliados perigosos
Por último, entre os apoiadores do “marcha”, vale citar a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Nesta terça-feira, dia 6, ela homenageou com a “medalha do mérito” os senadores que lutam contra a corrupção. A Firjan só não falou nada sobre os empresários que sonegam impostos, que desviam dinheiro para os paraísos fiscais ou que abocanham bilhões de subsídios públicos.
Entre os homenageados, a senadora ruralista Ana Amélia, do PP – que nada falou sobre o trabalho escravo no campo brasileiro – e o senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho. Este aproveitou para elogiar a convocação da “marcha contra a corrupção”. “Esta é a primeira vez em que atos são convocados no país, através das redes sociais e, pelo resultado verificado nos países árabes, estamos esperançosos”.
O senador, que gosta de se apresentar como um ético franciscano, só não explicou porque nunca apoiou os protestos contra as maracutaias descaradas da ex-governadora Yeda Crusius, a quem deu apoio até a última hora. Como se observa, a “marcha contra a corrupção” no 7 de setembro tenta se aproveitar de um mote aparentemente justo, o da ética na política, com interesses mais sujos do que pau de galinheiro.
Altamiro Borges
No Blog do Miro
Leia Mais ►

Pátria Armada Brasil

Leia Mais ►

Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro

A versão preferida de Leonel Brizola.
Leia Mais ►

Hino Nacional Brasileiro

Leia Mais ►

Benfeitor em Rio Grande, malfeitor no Brasil

O aziago mês de agosto do ano da graça de 2011 marcou a confluência de duas comemorações contraditórias: os 45 anos do afogamento sob torturas do ex-sargento do Exército Manoel Raimundo Soares e os 100 anos de nascimento do general Golbery do Couto e Silva.
Uma exalta a memória, outra ofende a história – uma ofensa com o beneplácito do silêncio cúmplice da imprensa.
Em 1966, ainda agosto, o cadáver putrefato do sargento veio à tona num dos afluentes do lago Guaíba que banha Porto Alegre, após 152 dias de tortura num quartel do Exército e nas celas do DOPS. Aflorou nas águas barrentas do rio Jacuí com os pés e as mãos amarradas às costas, marca brutal da tortura que estarreceu até o homem que, dois anos antes, iniciara o golpe que impôs a ditadura: “Trata-se de um crime terrível e de aspecto medieval, para cujos autores o Código Penal exige rigorosa punição”, indignou-se o general Olympio Mourão Filho, então ministro do Superior Tribunal Militar (STM).
O “Caso das Mãos Amarradas” ficou ali, boiando no medo viscoso de alguns, constrangendo a inércia de muitos, incomodando a consciência de todos. Apesar dos 20 nomes envolvidos na prisão, tortura e morte de Soares – dez sargentos, três delegados, dois comissários, dois tenentes, um guarda-civil, um major e um tenente-coronel do Exército –, o IPM foi arquivado sem que ninguém fosse denunciado. No último dia 26 de agosto, aniversário de sua morte, o sargento Soares foi lembrado em Porto Alegre com a inauguração de um monumento em um parque às margens do Guaíba de onde seu cadáver emergiu para a história.
A viúva, dona Elizabeth, abriu um processo em 1973 contra a União pedindo indenização por danos morais. Sucessivamente, nos últimos 16 anos de presidência dos democratas Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a União recorria teimosamente da sentença para defender os assassinos da ditadura. Dona Elizabeth morreu no Rio de Janeiro em 2009, aos 72 anos, com as mãos amarradas pela impunidade e o coração sangrado pela amargura – ainda sem saber o nome dos assassinos do marido, sem ser indenizada pelo Estado que o matou, sem ver a homenagem tardia ao sargento, trucidado aos 30 anos de idade.
O repúdio da terra
No domingo anterior, 21 de agosto, uma cerimônia parecida resgatou a lembrança de outra ilustre figura, morta em 1987: o mentor da ditadura que supliciou e assassinou o sargento, o general Golbery do Couto e Silva, nascido exatamente um século antes em Rio Grande, o porto mais importante do extremo sul do país. O prefeito da cidade, filiado ao PMDB bastardo que nada lembra o MDB velho de guerra que combateu o regime militar, plantou na praça Tamandaré a pedra fundamental de um busto em honra ao filho ilustre, conterrâneo do almirante e patrono da Marinha.
A mais alta autoridade militar no ato da praça era um major da guarnição local, o 6º GAC (Grupo de Artilharia de Campanha). Nem o comandante, um tenente-coronel, apareceu por lá. Era a terceira tentativa de homenagear Golbery na sua terra natal: as duas anteriores, para dar seu nome a uma rua, foram negadas pelos vereadores. Até que, no Natal de 2009, o projeto do busto foi aprovado na Câmara local com um único voto contrário.
O pequeno diário de 16 páginas da cidade, Agora, nasceu em setembro de 1975, quando Golbery estava no auge de seu poder como chefe do Gabinete Civil do general Ernesto Geisel. O editorial do Agora que defendia a homenagem, sob o título “Dívida de gratidão”, relacionava alguns benefícios que o general trouxe para sua terra: mudou para lá a sede do 5º Distrito Naval, antes baseado em Florianópolis, defendeu a construção do sistema que capta água do canal de São Gonçalo, facilitou a pavimentação de uma avenida e ruas do bairro Cidade Nova. Apesar disso, dois de cada três habitantes da cidade não são nada gratos a Golbery.
Uma pesquisa online no site do jornal, perguntando aos leitores se concordavam ou não com a homenagem, mostrava no domingo (4/9) que Golbery é mais detestado (67,55%) pelo envolvimento com a ditadura do que louvado (32,45%) pela mera condição de riograndino. No fim de semana, mais de 900 pessoas já haviam firmado um abaixo-assinado virtual contra o general, a ser entregue ao prefeito de Rio Grande (ver aqui).
Estrutura gongórica
O busto de Golbery na maior praça do interior gaúcho, com 44 mil m², um terminal rodoviário, uma pracinha infantil e um minizoo, vai dividir espaço com figuras ainda mais famosas: as hermas de Napoleão Bonaparte, Guglielmo Marconi, Marquês de Tamandaré e Jesus Cristo e os restos mortais do general Bento Gonçalves, líder da Revolução Farroupilha (1835-1945).
Haverá quem considere justa a homenagem a Golbery como benfeitor de Rio Grande. Mas muitos, muitos mais, têm justa razão para lembrar de Golbery como malfeitor do Brasil.
Basta compulsar sua atribulada ficha militar, com uma sádica inclinação pelo mal, pelo conluio, pela trama, pelo ardil, pela conspiração contra a lei, o direito e a Constituição. Golbery tinha um especial fascínio pela manipulação das pessoas certas para fazer as coisas erradas de uma forma inteligente, um talento na hora certa para fazer a coisa errada, uma habilidade que induzia o bem para o mal e dava a uns e outros a errada e útil convicção de cometer o erro como se acerto fosse.
Um típico circunlóquio, uma perífrase, que lembra bastante a parábola do poeta grego Arquíloco, do século 6 a.C., usada pelo pensador inglês Isaiah Berlin no seu famoso ensaio sobre O porco-espinho e a raposa. Ensinava: “A raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe uma grande coisa”. Golbery pescou este ensinamento e o cravou na conclusão do segundo capítulo (“Aspectos Geopolíticos do Brasil, 1959”) de seu perifrástico Geopolítica do Brasil, uma seleta de ensaios de sua gongórica estrutura mental, juncada de mapas, esquemas, hemiciclos, geistória, ecúmenos e outras esquisitices.
Os verdadeiros inimigos
Contrariando seu próprio mito, Golbery parecia menos a raposa e mais o porco-espinho. Ele, ao contrário dela, vê o que é essencial e ignora o resto, desprezando a complexidade em torno para concentrar a mira no objetivo central. No mundo bipolar da Guerra Fria do pós-guerra, Golbery enrolou-se cuidadosamente em seu anticomunismo, escolheu o lado e apontou todos os espinhos para a cruzada de salvação que embolou o estamento militar e a elite empresarial numa esfera redonda, pontiaguda e ideologicamente coesa na luta contra o inimigo comum. Como na fábula, e apesar da felpuda astúcia dos inimigos, o porco-espinho de Golbery sempre vence. Como venceu, na maioria das vezes, nas duas espinhadas décadas da ditadura instalada em 1964.
Diferente do tosco sargento afogado no rio Jacuí, o general que emergia no Rio Grande era, desde criança, uma cabeça privilegiada, voraz, ardilosa. Golbery queria saber uma grande coisa, como o sabido porco-espinho, mas também queria saber muitas coisas mais, como a raposa astuta. Com 11 anos era o orador da turma da escola municipal num discurso na capela da igreja da Conceição, em 1922, pedindo a recuperação de Ruy Barbosa, adoentado no Rio. Com 14 anos já tinha lido a maioria dos clássicos da literatura portuguesa. O boletim na escola brilhava com notas 9 e 10 em matemática, português, línguas, ciências.
Com 15 anos ele se formou em ciências e letras no ginásio, exibindo a melhor média da história do colégio: nota 9,3. Aos 16 ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio. Aos 18 o cadete Golbery já era o redator-chefe da Revista da Escola Militar. Em meados de 1929, o precoce conspirador afiava os espinhos no texto principal da revista, intitulado “Antimilitarismo”, avisando:
“Não é caso inédito o fato de batalhões e regimentos e de guarnições de navios de guerra empunharem armas contra o Governo e de mesmo haverem, ao lado dos revolucionários, deposto um chefe de Estado e eleito outro. Os partidários políticos da oposição a um governo não são, propriamente falando, antimilitaristas. Os verdadeiros inimigos das classes armadas são, de fato, os anarquistas e a maior parte dos socialistas”.
Do nazismo à ditadura
Com 19 anos chegou a segundo-tenente e deixou Realengo na crista de sua primeira revolução, a de 1930, como aspirante da primeira turma da nova ordem. Com 33, o capitão Golbery ingressou na War School de Fort Leavenworth, no Kansas, por onde anos antes passaram os generais Eisenhower e Patton, heróis da Segunda Guerra Mundial. No final do ano estava no front italiano da guerra, com a FEB, fazendo o que gosta como oficial de inteligência e informações. O capitão que lutava contra o nazismo, em 1944, mudaria de lado duas décadas depois, como coronel, para implantar a ditadura de 1964.
Os graves desvios de conduta de Golbery, contudo, começaram dez anos antes. Em 1954 redigiu o manifesto de 82 coronéis e tenentes-coronéis que protestavam contra o aumento de 100% do salário mínimo decretado por Getúlio Vargas. A primeira subversão de Golbery acabou derrubando João Goulart do Ministério do Trabalho e o general Ciro do Espírito Santo do então Ministério da Guerra.
Em 1955, nova insubordinação: Golbery escreve o discurso que o coronel Jurandyr de Bizarria Mamede lê no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, líder da oposição militar a Getúlio. É a senha para tentar barrar a posse de Juscelino Kubitscheck, que Golbery espicaça como “indiscutível mentira democrática”. Ganhou espinhosos oito dias de cana por conta do marechal Lott, o ministro da Guerra que abortou o golpe. Em 1961, o teimoso porco-espinho de Golbery reaparece no texto bicudo em que os três ministros militares – ébrios pelo bafo inesperado da renúncia de Jânio Quadros – tentam vetar a posse de João Goulart, detonando a resistência popular em torno do governador Leonel Brizola e a vitoriosa “Campanha da Legalidade”, que festejou meio século agora em agosto.
O pai do monstro
A raposa de Brizola, daquela vez, venceu o ouriço de Golbery. O troco viria três anos depois. Em menos de 90 dias, Golbery já aprontava de novo, assumindo no final de 1961 a conspiração científica do golpe em andamento, pilotando o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o notório IPES, que coordenava empresários, jornalistas, políticos, sindicalistas, agitadores, marqueteiros e militares a partir de 13 salas do 27º andar do edifício Avenida Central, no centro do Rio de Janeiro. No início de 1963, o aparelho subversivo de Golbery já mobilizava 320 dos maiores empresários, de famílias tradicionais do país a poderosas corporações estrangeiras. Era um cartel golpista das 278 maiores empresas do país, que cortavam no ato a publicidade de qualquer jornal, revista, rádio ou TV que desse apoio ao governo Goulart. O porco-espinho, afinal, sempre vence.
Dali, afundado cada vez mais na senda da ilegalidade, Golbery operava o grampo de três mil telefones só na capital fluminense. Com a vitória do golpe, em 1964, Golbery criou e assumiu o Serviço Nacional de Informações (SNI), montado a partir da grampolândia inaugurada por ele no IPES. “O SNI era uma aberração do Estado”, definiu o jornalista Lucas Figueiredo, autor de Ministério do Silêncio, um brilhante histórico do serviço secreto no Brasil, desde Washington Luís (1927) até Lula (2005). Seis meses após a posse de Costa e Silva como o segundo general da ditadura, o diretor do combativo Correio da Manhã, Edmundo Moniz, profetizava em editorial de fins de 1967:
“O SNI ainda não se transformou numa Gestapo ou na KGB dos tempos de Hitler e Stálin. Mas começa a engatinhar e mostrar os dentes. Dentro em breve poderá firmar-se em suas quatro patas. É um filhote de monstro!”.
O SNI gestado e encorpado por Golbery agia dentro, fora e acima do governo, imune a controles externos do Judiciário e do Congresso. Fazia e acontecia, consagrando o Estado da delação e infiltrando o Big Brother do regime em todas as instâncias dos governos, das cidades do interior às capitais, das estatais à Esplanada dos Ministérios. Dois meses após deixar o governo do general João Figueiredo, no rastro do frustrado atentado terrorista do Riocentro, em meados de 1981, Golbery ecoava o que o jornalista prenunciara 14 anos antes: “Criei um monstro!”. O general, enfim, já não conseguia controlar os espinhos de seu porco de estimação.
A ditadura, sempre
O melhor prontuário do general que saiu de Rio Grande para desestabilizar a democracia brasileira, já em 1954, e arquivá-la por duas décadas, a partir de 1964, está na magistral tetralogia do jornalista Elio Gaspari sobre as Ilusões Armadas, publicada entre 2002 e 2004. Ali, o “feiticeiro” Golbery divide o palco, a cena, os bastidores, o enredo, a trama, os aliados, os inimigos e o poder com o “sacerdote” Ernesto Geisel, seu companheiro de conspiração e trincheira de luta militar e política, do início dos anos 1950 ao final da década de 1970. Os quatro volumes estão ancorados em 25 caixas do arquivo pessoal de Golbery, com cerca de cinco mil documentos, em 220 horas de conversas gravadas com Geisel e seu staff e no arquivo privado e no diário pessoal do capitão Heitor Ferreira, sucessivamente secretário particular de Golbery (1964-67) e de Geisel (1971-79).
Com base nesses papéis e depoimentos, é possível perceber na obra de Gaspari o ecúmeno do pensamento golberyano, pela via oscilante da “sístole” e da “diástole” política que, em rodízio, explicariam os momentos de contração (centralização autoritária) ou dilatação (descentralização democrática) de nossa história, a partir da cardíaca imagem de Golbery. O comprometimento do general nesse processo espinhoso fica mais bem definido pelo título comum que atravessa os quatro volumes da obra – A Ditadura –, redefinida pelas circunstâncias históricas de cada período, de Castelo Branco a Geisel: Envergonhada, Escancarada, Derrotada e Encurralada.
São ditaduras diferentes, mas sempre ditadura. Sem perífrase.
É disso que se trata: Golbery do Couto e Silva, com seu engenho e arte voltados para o mal, pensando, agindo, criando, fazendo e acontecendo para desfazer o Estado democrático e impor o seu modelo autoritário, afinado com sua “doutrina de segurança nacional”, imune à suposta contaminação ideológica que o regime liberal, mais do que permitia, induziria.
A derradeira afronta
Era o general e seus comparsas agindo com a máquina do Estado, todo poderoso, contra o cidadão, todo intimidado. Em alguns momentos, Golbery esteve mais distante do centro do poder militarizado, não porque divergia dele, mas por mera medição de força ou simples cálculo político.
Golbery não afrontava o “Sistema”. Golbery era o próprio “Sistema”, pensado e criado para sobreviver às suas peculiares sístoles e diástoles. Sempre preservando o Estado, mesmo que à custa do cidadão, do eleitor – do povo, enfim, de quem toda ditadura prescinde.
Quando Golbery rompeu com Figueiredo e saiu do governo, em 1981, não era por súbita devoção democrática. Era por aversão absoluta àquele que queria ser o sexto general-presidente do regime, Octávio Medeiros, então chefe do renegado SNI. A alternativa presidencial de Golbery, como se sabe, define bem o caráter do general: era Paulo Maluf, o nome civil que a ditadura embalava para lhe dar uma sobrevida no Colégio Eleitoral. O sonho de Golbery foi atropelado pela vitória do adversário Tancredo Neves e virou pesadelo com a posse inesperada do ex-aliado José Sarney.
A confirmação do busto do general em Rio Grande não seria só um novo espinho, cutucando a memória, machucando a consciência.
A intempestiva irrupção de Golbery na praça do povo poderia ser a última afronta do general contra a história do povo que ele sempre combateu, tolheu, bisbilhotou e desrespeitou por atos, fatos e manifestos.
Será que o porco-espinho vai vencer, pela última vez?
Luiz Cláudio Cunha é jornalista
No Observatório da Imprensa

Leia também: Sobre o monumento ao General Golbery do Couto e Silva
Leia Mais ►