1 de set de 2011

Beto Guedes

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O fiel "consumidor" da fé que "rouba" Deus

Quem lembra de Mara Maravilha? A cantora infantil que fez sucesso na década de 90 deu uma declaração, reproduzida no vídeo abaixo, que é totalmente sem sentido.
Ela simplesmente culpabiliza o fiel não contribuinte de um obrigação (o dízimo) presente nas religiões evangélicas que não tem sentido nenhum de existir, mas existe. Cada um faz o que bem entende com seu dinheiro. A questão não é essa.
"Quem não paga o dízimo, rouba Deus", disse a hoje cantora gospel e empresária. É o capitalismo da fé lucrando em cima de quem pode menos. Com isso, sinceramente, não dá pra concordar.
O que você acha?
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Ateísmo é...

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Oficina dos bondes de Santa Teresa está em estado de abandono

O presidente do Departamento de Transportes Rodoviários (Detro), Rogério Onofre, nomeado na terça-feira pelo governador Sérgio Cabral como interventor dos bondes de Santa Teresa, visitou nesta quarta a oficina dos bondes onde é feita a manutenção dos veículos. Ele chamou de heróis os funcionários que trabalham ali, e disse que a impressão que teve foi de abandono. Onofre preferiu não citar detalhes do que viu, mas afirmou que a oficina precisa passar "por uma verdadeira transformação".
- Vi abandono e condições aquém do mínimo necessário. Eles são verdadeiros heróis por trabalharem aqui - disse Onofre.
O interventor dos bondes lembrou ainda que os salários dos funcionários da companhia estão muito baixos - alguns têm rendimento líquido menor que um salário mínimo - e que a mão de obra especializada para a manutenção está muito envelhecida. A média de idade dos trabalhadores é de 45 anos, e não há reposição desses profissionais.
Onofre sugeriu ainda que a oficina dos bondes seja transformada num centro de preparo de mão de obra, e defendeu ainda uma melhor exploração do potencial turístico dos bondes. Segundo ele, com R$ 800 mil, é possível interligar os bondes de Santa Teresa ao trem do Corcovado pela linha do Silvestre, desativada desde 2004.
Mais cedo Onofre, participou da primeira reunião de trabalho do grupo interventor com a Secretaria de Transportes. Durante a reunião, o presidente do Detro afirmou que já estão sendo estudadas soluções para o meio de transporte, que poderá ser privatizado ou municipalizado
O bonde envolvido acidente foi para a manutenção 13 vezes em agosto, cinco para consertar o freio. As informações são de um relatório distribuído pela Central, companhia que administra os bondes. De acordo com o documento, no dia 21, o bonde deixou de sair por problemas no freio, e só voltou a operar no dia 25, com a substituição da sapata, uma peça que trava a roda.
Para os especialistas, a quantidade de reparos seguidos indica problemas no bondinho:
- Existia pelo menos alguma coisa normal, porque ele trocou as sapatas, um dia depois ele troca outra, um dia depois o 'cara' reclama da roda. Isso foi assim até chegar a véspera do acidente - disse o engenheiro de transportes Fernando Macdowell.
O engenheiro Moacyr Duarte, coordenador do grupo de análise de risco tecnológico e ambiental da Coppe, afirmou que o relatório é uma declaração de falta de planejamento. Para o engenheiro de transporte Sérgio Beluciê, foi uma irresponsabilidade liberar o bonde para o transporte de passageiros, depois de tantos consertos seguidos nos freios.
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A Brigada não vai reprimir os “baderneiros”?

O salário dos brigadianos é uma vergonha. Assim como é o da maioria dos policiais, professores, servidores da área da saúde e de outros serviços públicos. E isso é assim porque a sociedade quer, a partir do momento em que comprou o discurso do Estado mínimo, do funcionário público preguiçoso e ineficiente e outros mantras do liberalismo fundamentalista repetidos diariamente nos meios de comunicação. Dito isso, vamos à queima de pneus, prática que vem sendo utilizada por “alguém” ligado aos brigadianos. Antes de queimar pneus, as lideranças da categoria poderiam firmar um acordo com as demais categorias de servidores, trabalhadores gerais e movimentos sociais: da próxima vez que um governo mandar reprimir com violência uma greve ou um protesto social eles não cumprirão a ordem? Quebra da hierarquia? Certamente! Mas o que está acontecendo agora é o quê mesmo? A menos que não esteja acontecendo essa quebra.
Está ocorrendo uma curiosa inversão neste primeiro ano do governo Tarso Genro, comparando com o que ocorreu no primeiro ano do governo Yeda Crusius. Lá, o coronel Mendes foi saudado em prosa e verso como uma mão forte da Brigada para combater o crime e a baderna (leia-se: professores, sem-terra, sindicalistas e outros “baderneiros”). O pau comeu solto, como se sabe, culminando com o covarde assassinato do sem terra Elton Brum da Silva, fuzilado com um tiro pelas costas. O coronel Mendes deixou o comando da Brigada e foi para o Tribunal de Justiça Militar combater a baderna em outras paragens. Pois bem, onde andam as vozes sempre prontas a denunciar os baderneiros civis?
~o~
Governo não apresentará proposta salarial para PMs enquanto prosseguir queima de pneus
O governo do Estado do Rio Grande do Suil anunciou hoje que não apresentará nenhuma proposta salarial aos brigadianos enquanto prosseguirem os bloqueios de estradas com queima de pneus. O anúncio foi feito hoje pela manhã durante reunião dos secretários da Casa Civil, Carlos Pestana, da Segurança Pública, Airton Michels, da Administração e Recursos Humanos, Stela Farias, e da Coordenação de Assessoramento Superior do Governador, Flavio Koutzii, com representantes das entidades de classe dos servidores da Brigada Militar.
No último encontro realizado entre o governo e as entidades, havia sido acordado que a apresentação de uma proposta salarial só se daria se a prática da queima de pneus parasse. Não pararam. Aliás, se intensificaram, razão pela qual o governo anunciou que não apresentará nenhuma proposta por enquanto.
“Reconhecemos a legitimidade da reivindicação dos brigadianos por melhores salários e estamos dialogando com a categoria a fim de construir uma proposta que atenda às necessidades da categoria. No entanto, o avanço da negociação não pode estar vinculado aos protestos. Não queremos romper o diálogo, mas enquanto houver esse tipo de manifestação, não vamos apresentar proposta”, disse Carlos Pestana.
Um novo encontro foi marcado para o dia 9 de setembro. O governo anunciou que, até lá, prosseguirá as investigações para identificar os responsáveis pela queima de pneus nas estradas.
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Projeto de poder dos evangélicos: a destruição do estado laico

Já algum tempo venho aqui chamando atenção para o projeto de poder dos evangélicos: a completa destruição do estado laico inerente ao regime republicano.
A concepção da "Igreja Estendida" visa justamente instrumentalizar este projeto.
Em linhas muito breves, a coisa se estrutura assim: 
Embora o cisma protestante desencadeado por Martinho Lutero tenha advogado a capacidade de todo cristão estabelecer diretamente sua conversação com o seu Deus e obter Dele a orientação espiritual necessitada - objetivando impedir a continuidade da comercialização e manipulação da fé, então praticada somente pelos padres católicos -, na atualidade a doutrinação neopentecostal afirma que são apenas os apóstolos, quer dizer, "os que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas" é que são dotados por Deus da prerrogativa de ouvir as Suas palavras - através do Espírito Santo:
Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, não é responsabilidade de todos os cristãos nem dos pastores da igreja ouvir diretamente o que o Espírito está dizendo às igrejas (plural). São os apóstolos aqueles que receberam a responsabilidade primeira de ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas. Aqueles que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas precisam ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas sob sua responsabilidade. Da mesma forma, aqueles que têm uma jurisdição mais horizontal precisam ouvir, de forma ainda mais abrangente, o que o Espírito está dizendo (WAGNER, 2007, p. 10) .
Temos, assim,  a clara reinstauração da pedagogia da hierarquia e da mediação, com a exclusividade da capacidade e do direito a ouvir e compreender (saber interpretar, saber ver e ler "os sinais") a palavra divina; aquilo que é o desejo, a "fala" do Deus, como ocorria antes do protesto de Calvino.
Reinstaura-se a convicção de que não são os pobres mortais capazes a ler a Bíblia e compreender os postulados do Deus cristão. Não. 
Agora, como antes - quando submetidos ao exclusivo domínio papal -, são apenas e exclusivamente as "lideranças apostólicas" (aquelas possuidoras da prerrogativa de conduzir diversas igrejas) que são capazes de saber ouvir e interpretar a palavra "proveniente do Espírito".
Mas, vejam que não é qualquer palavra do "Espírito". - é a palavra que diz respeito à maneira de condução das igrejas. Dito de outra forma, a palavra que explicita o projeto da igreja. 
E o que é que diz "a palavra global proveninente do Espírito" para as igrejas evangélicas (neopentecostais)?
"Ela" diz "que a razão bíblica para a existência da igreja, em todas as suas formas, é buscar, de forma ousada, tomar posse da sociedade em que vivemos  (WAGNER, 2007, p. 10) .
 Ora, se a razão, o motivo, o sentido "bíblico" para a existência da igreja é tomar posse da sociedade, é preciso que se construa e implemente um projeto para a conquista dessa sociedade, para a instauração de um "governo da igreja" (WAGNER, 2007, p. 11) .
E como se fará essa conquista?
Precisamente através da noção de "Igreja Estendida".
Os escolhidos para receber a palavra do Deus
Por meio de imagens mentais místicas, que apontam para um capacidade especial, um dom especialíssimo de que estariam ungidos pela divindade, esses pastores dotados do poder de influência sobre diversas igrejas afirmam ter recebido do Deus uma incumbência, uma tarefa. 
E, por simples dever de obediência, passam a transmitir essa "nova tarefa que Deus me havia atribuído".
Empregando termos "do momento", oriundos das ciências sociais - com o que "ancoram" seus postulados no imaginários de seus fiéis -, entremeados com textos bíblicos selecionados e descontextualizados, falam da necessidade da "da renovação da mente"; da "mudança de paradigma"; "de sair de nossa zona de conforto"; de "perceber que que precisamos fazer alguns ajustes na forma de pensar que nos acompanha há muito tempo" (Idem, p. 13).
Porém, como em todo processo de inovação, "alguns indivíduos a adotam logo de início, outros a adotam no meio do caminho, e outros ainda demoram muito para adotá-la, mas há aqueles que são retardatários e se recusam a aceitar qualquer inovação" (Idem, idem).  - Com esse discurso transmitem a mensagem subliminar de que "os melhores", "os mais capazes" são precisamente aqueles que primeiro aderem às inovações. Portanto, seguem pavimentando suave e singelamente a sua pedagogia política.
"O espírito está dizendo às igrejas" [e não está dizendo para todos, mas apenas para os que foram ungidos como líderes] que é preciso "tomar posse da sociedade em que vivemos". Portanto, para cumprir esse projeto - ou missão, dever, incumbência divina -, precisam estender a igreja a todos os demais espaços sociais possíveis.
Todos os espaços são igreja
Nesse projeto - estender a igreja para além do templo privado (igreja nuclear) -, há que se conquistar todos os espaços onde se trabalhe. Assim, cabe a todos os "cristãos" participar desse projeto de conquista e lutar para transformar o seu local de trabalho em uma igreja, estendendo-a então a todos os espaços sociais; todos! Porque em todos eles é preciso ganhar almas para o projeto divino.
E, assim, vão construíndo grupos de estudos bíblicos, grupos de oração, seja em qual seja a instituição - preferencialmente pública! Como Repartições burocráticas, Universidades e, mesmo no Parlamento!
Por meio dessa estratégia, buscam pura e simplesmente a destruição do estado laico, quer dizer, fazer ruir a separação entre estado constitucional e religião. 
Buscam reintroduzir o estado religioso, tornando a religião estatal não a católica como foi no passado, mas precisamente a dogmática dita evangélica ou neopentecostal. 
No entanto, sempre utilizando do discurso místico, afirmam que o que buscam é a implantação do Reino de Deus.
O Reino do Deus é aqui
Mas de um Reino de Deus aqui e agora e não "algo que virá quando o Senhor retornar." (Idem, p. 15).
Postulam que o verdadeiro "Reino de Deus não está confinado nos muros de uma igreja local"."Não é simplesmente uma metáfora ou uma figura de linguagem; ele é tangível. [...] Deve ser encontrado onde quer que haja indivíduos exaltando Jesus Cristo como seu Rei." Mas não apenas. 
Por muito generoso, o Deus não quer e não se contenta em permanecer apenas entre aqueles que o exaltam. Ele que mais. 
O desejo de Deus é que os valores, as bênçãos e que a prosperidade do Reino de Deus permeiem todas as áreas da sociedade. (Idem, p. 15. Negritei.)
Daí o novo paradigma. Da anterior noção de que se devia buscar a salvação em um outro mundo, que viria depois, pois este é mau e pecaminoso, agora o postulado é  não se deve abandonar o mundo à ação desimpedida de Satanás. Não. Muito ao contrário. Há que se realizar a disputa contra Ele.
E para isso - para disputar as almas com Satanás, ganhando-as para o Deus - é preciso fazer com que a igreja não se restrinja apenas às paredes do templo (igreja nuclear); que não se contente com aquelas almas que ali foram "espontaneamente" (sabemos os variados e não poucos casos de sugestão, para dizer o mínimo, mas fiquemos por enquanto aqui com a ideia de que aqueles que vão aos templos o vazem de forma voluntária, consciente, em pleno gozo de suas faculdades discricionárias). é preciso buscá-las em toda parte. Inclusive e preponderantemente no ambiente de trabalho. Afinal, é precisamente ali onde se passa o maior número de horas por dia.
Vejamos agora, sempre nessas linhas muito gerais, o que diz Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
O Plano de Poder
Em 2008 o dono da rede Record de Televisão publicou em co-autoria com Carlos Oliveira, diretor-presidente do jornal Hoje em Dia, de Minas Gerais, o livro “Plano de Poder – Deus e os cristãos e a política”, onde procura sensibilizar seus fiéis e simpatizantes para a proposta política de construção de um estado evangélico.
Em suas 128 páginas, Macedo e Oliveira empregam a mesma tática de outros autores neopentecostais - sobretudo estrangeiros, notadamente estadunidenses, como Charles Peter Wagner, acima citado: Se valer de campos do saber acadêmico (ou científico)  com vistas a transmitir um ar de racionalidade, coerênica, bom senso. 
Recorrendo a conceitos de administração e marketing e sempre selecionando descontextualizadamente trechos bíblicos que possam servir como fundamentação aos seus propósitos, Edir Macedo e Carlos Oliveira (não à toa um "cristão" graduado em administração de empresas) convocam os fiéis a deixarem de lado sua apatia e partirem para a disputa do estado, através da participação eleitoral:
“Os cristãos não devem apenas discutir, mas principalmente procurar participar de modo a colaborar para a desenvoltura de uma boa política nacional, e, sobretudo, com o projeto de nação idealizado por Deus para seu Povo”
É um projeto que se apropria do descrédito que paira sobre o parlamento, da parca cultura política e do ínfimo senso crítico da população majoritariamente pobre e mesmo sua parcela dotada de formação escolar superior - desprovidas de meios necessários à construção da capacidade crítica para além da manipulação da informação apresentada pelos grandes veículos de comunicação.
Ampliação no número de evangélicos
Sobre essa base fértil, segue avançando. Em 25 de maio de 2009 a Revista Época publicou edição de aniversário na qual trazia uma série de projeções para o país em 2020. - O maciço crescimento dos evangélicos estava entre elas. 
A entidade protestante de estudos teológicos Serviço de Evangelização para a América Latina, mais conhecida como Sepal, apontara que aproximadamente 50% da população poderia ser de evangélicos em 2020.
A matéria, transcrita no sítio diHITTI, trazia opiniões tranquilizadoras que hoje parecem não se sustentar:
A capacidade de exercer influência
Estimada hoje em quase 24% da população, as disputas que vem sendo travadas, as formas orgânicas e coordenadas de atuação de seus "apóstolos" tem feito com que exerçam um poder que não corresponde ao tamanho numérico de suas bancadas.
Não à toa a Presidenta Dilma, a mulher de personalidade forte, caráter firme e determinado; técnica competente que sempre comparecia às reuniões com o Presidente Lula quando titular de um seu Ministério munida de todas as informações, dados, estatísticas etc sobre os assuntos da pauta, em maio desse ano de 2011, deixou-se aprisionar numa vexatória trama obscurantista e, sem buscar informações fidedignas com os seus ministros e demais assessores, encenou talvez o seu mais humilhante e patético papel político-institucional, ao anunciar para jornalistas que, sem sequer conhecê-lo integralmente, determinara o recolhimento do material audiovisual em elaboração destinado ao Programa Escola Sem Homofobia.
Que país queremos?
A pergunta que se coloca é como os setores progressistas e defensores dos valores democráticos e republicanos pretendem fazer frente a esse projeto de poder que está claramente em andamento.
No último dia 23, terça-feira, a Procuradora do município de São Paulo em Brasília defendeu no artigo Escolha eleitoral deve considerar secularismo do Estado, publicado no Consultor Jurídico, que, no regime republicano e secular, jamais o interesse público poderá ser aferido segundo sentimentos ou idéias religiosas, ainda que se trate de religião da grande maioria da população nele residente.

Num Estado laico, o interesse público é identificado exclusivamente segundo o seu Direito positivo, nunca segundo a moral religiosa, que não é e não pode ser Direito num Estado laico!
Já é um bom sinal!




Referência:
WAGNER, C. Peter. Os cristãos no ambiente de trabalho. Como o povo de Deus pode transformar a sociedade. São Paulo: Ed. Vida, 2007. - O autor é "professor de Crescimento da Igreja no Fuller Theological Seminary School of World Mission, Pasadena, EUA, por 28 anos." 
No Boteco Comer de Matula
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PT realiza IV Congresso Nacional unido e sem disposição para brigas

Amplamente dominado por uma aliança das duas maiores correntes internas, PT realiza seu IV Congresso Nacional, em 31 anos, em clima festivo e sem espaço para grandes disputas internas. Decisões recentes do governo, de cortar juros e propor aumento robusto do salário mínimo, aproximam PT de Dilma Rousseff e ajudam a evitar conflitos que poderiam ser explorados por adversários políticos.
SÃO PAULO - Mais do que produzir grandes manchetes, o IV Congresso Nacional do PT, que o partido realiza em Brasília no fim de semana, deve de revelar uma grande festa, repleta de delegações internacionais. Não há grande interesse de expor divergências partidárias para ao grande público durante o encontro dos 1,3 mil delegados.
Com o partido dominado por uma aliança entre as duas maiores facções - Construindo um Novo Brasil (CNB) e Mensagem ao Partido -, o Congresso deverá ter como grande marco decisório, de fato, a plenária nacional da CNB, que se reúne nesta sexta-feira (02/09) a partir das 10h. “Há uma desproporporção do grupão formado pelo CNB e pela Mensagem”, reconhece um dos integrantes da primeira.
Os setores mais à esquerda deixaram o partido no passado e constituíram o PSTU e o PSol. Um dos pequenos grupos remanescentes, a Articulação de Esquerda, cuja maior liderança era Valter Pomar, rachou há cerca de um mês. Metade seguiu para o campo majoritário. Pomar permaneceu no antigo grupo, menor do que já era.
Qualquer decisão tomada na plenária da CNB ditará, portanto, os rumos do Congresso geral. E mostrará para aonde se inclinará a maioria dos 1350 delegados do partido, eleitos no último Processo de Eleição Direta (PED), em 2009.
Ao contrário do que se poderia supor, o governo da presidenta Dilma Rousseff, que não tinha uma grande militância no partido antes de ser eleita, caminhou articuladamente com o PT, às vésperas do Congresso.
Em geral, o partido não quer fazer barulho, mas considera importante se “politizar” novamente, assumir uma agenda própria, inclusive para exercer o papel de convencimento da sociedade quando os temas de ordem institucional provocarem controvérsia, de forma a adquirir força, de fora para dentro, na contenda com seus aliados no Congresso.
Uma abertura para convivência com movimentos sociais, que acabaram sendo alijados do partido no processo de negociação com aliados de esquerda. Dois temas discutidos previamente foram assumidos pelo governo antes que fossem oficializados pelo Congresso do PT: a queda de juros pelo Banco Central, e sinalização de baixa futura mais consistente, e o aumento do salário mínimo. A antecipação desses dois movimentos vai ter o poder de transformar em afinidade, o que a imprensa poderia interpretar como conflito.
“O PT e o governo não têm conflito. O que vem sendo implementado pelo governo Dilma vem ao encontro de um governo do PT. O PT está no governo e o governo está bem. Agora, com a inflexão dos juros, a afinidade ainda é maior”, afirma o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP).
“Estamos tranquilos. Em primeiro lugar, porque tomamos juízo. Em segundo, porque adquirimos maturidade. Em terceiro, porque somos o principal partido da base do governo e o mundo endoidou. Precisamos preservar o governo para enfrentar essa crise mundial", diz o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP). "É evidente que há críticas pontuais à condução do governo, mas no geral o PT vem respondendo a esses desafios com uma unidade muito grande, enquanto os outros partidos da base estão se dividindo."
“O PT não tem grandes divergências internas. Está em nova fase. As tendências estão com fogo baixo”, afirma o ex-deputado José Genoíno, hoje assessor do Ministério da Defesa. Para Genoíno, o partido também teve um aprendizado de governo. “Sem alianças o PT não ganha eleição, nem governa”.
Outro fator de “estabilização” nas relações entre partido e governo, curiosamente, foi a ascensão do paulista Rui Falcão à presidência do partido, em substituição ao presidente eleito pelo PED, o sergipano José Eduardo Dutra.
A vitória de Dutra tinha acontecido num momento em que a hegemonia paulista era bastante discutida internamente, também pela desproporção entre o crescimento do PT nos outros estados e a participação nos órgãos de direção partidária. Com o afastamento de Dutra, ascendeu de novo um paulista.
O antipaulistismo, todavia, vem sendo controlado por um esforço de Falcão. Ele tem participado de debates políticos em todos os estados (só falta visitar duas unidades da Federação nessa “caravana” partidária). E trânsito simultâneo no governo e em todo o partido.
Falcão tem ligações antigas com a presidenta da República, e uma militância partidária que remonta às origens do PT – além de contar com a ajuda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que entra em cena para dirimir conflitos ou problemas de estratégia.
Como está ligado diretamente à burocracia do partido, e como é mais formal, conseguiu criar uma relação mais institucional com o governo. Fala de partido para governo. “O Dutra era muito desorganizado e muito informal”, diz um parlamentar do partido.
Maria Inês Nassif
No Carta Maior
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A peste

Dizem que quando os dois estavam chegando a Nova York, na amurada do navio, Freud virou-se para Jung e perguntou:— Será que eles sabem que nós estamos trazendo a peste?
Não sei se a história, que li num texto do Stephen Greenblatt publicado recentemente na revista "The New Yorker" , é verdadeira. Nem sei se Freud e Jung estiveram juntos em Nova York algum dia. Mas o que Freud pretenderia dizer com "a peste" é fácil de entender. Era tudo que os dois estavam explorando em matéria de subconsciente, inconsciente coletivo, sexualidade precoce — enfim, a revolução no pensamento humano que na Europa já se alastrava, e era combatida, como uma epidemia.
Os agentes alfandegários não teriam identificado o perigo que os dois recém-chegados representavam para as mentes da América, deixando-os passar para contagiá-las.
Todo desafio ao pensamento convencional e a crenças arraigadas é uma espécie de praga solapadora, uma ameaça à normalidade e à saúde publicas. Santo Agostinho dizia que a curiosidade era uma doença. Os que procuravam explicações para o Universo e a vida além dos dogmas da Igreja ou da ciência tradicional eram portadores do vírus da discórdia, a serem espantados como se espanta qualquer praga, com barulho e fogo.
As ideias de Freud e de Jung divergiram — Jung acabou derivando para um quase misticismo, literariamente mais rico, mas menos consequente do que o que pensava Freud — mas as descobertas dos dois significaram uma reviravolta no autoconceito da humanidade comparável ao que significaram o heliocentrismo de Copérnico e as sacadas do Galileu.
O homem não só não era o centro do Universo conhecido como carregava dentro de si um Universo desconhecido, que mal controlava. Agostinho tinha razão, a curiosidade debilitava o homem. A partir de Copérnico a curiosidade só levara o homem a ir desvendando, pouco a pouco, sua própria precariedade, cada vez mais longe de Deus.
Marx, outro pestilento, tinha proposto o determinismo histórico e a luta de classes como eventuais formadores do Novo Homem, livre da superstição religiosa e de outras tiranias. Suas ideias, e a reação às suas ideias, convulsionaram o mundo. Esta peste se disseminou com violência e foi combatida com sangrias e rezas e no fim — como também é próprio das pestes — amainou. Todas as pestes chegam ao seu máximo e recuam.
A Terra há séculos não é o centro do Universo, o que não impede o prestigio crescente da astrologia. O iluminismo do século dezoito parecia ser o preâmbulo de um futuro racional e prevaleceu o irracionalismo. O Novo Homem de Marx foi visto pela última vez pulando o muro para Berlim Ocidental.
E as teses de Freud e Jung que revolucionariam as relações humanas nunca foram aplicadas nas relações que interessam, a do homem com seus instintos e a dos seus instintos com uma sociedade sadia, e na nossa explicação. Foi, como as outras, uma novidade, ou uma curiosidade, que expirou.
Mas também é próprio das pestes serem reincidentes. Cedo ou tarde virá outra perturbar a paz da ignorância de Santo Agostinho. E passar.
Luís Fernando Veríssimo
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Vem aí o “Blogoosfero”

a 1ª plataforma livre para autonomia da blogosfera brasileira
Liberdade de hospedagem e administração de blogs e redes sociais próprias
O que é a plataforma?
É um serviço integrado que possibilita criar e administrar blogs, redes sociais, assim como definir metapáginas agregadoras de páginas e links tipo paper.li / blogs / instant mensager / redes sociais / murais / atividades / blogs clonados.
Baseado no conceito de gerenciador de conteúdo para sites com redes sociais, tudo é integrado na mesma plataforma. Logo, se o administrador/autor mudar algum protocolo, por exemplo, no sistema mensageiro (mensager) a alteração irá ocorrer em todos os serviços que estiveram agregados à plataforma (Blog, Site, twitter, facebook, etc).
A plataforma permite criar clones dos blogues que são hospedados em lugar seguro, distinto daquele de origem do blog e substituí-lo automaticamente sempre que censurado ou bloqueado, seja por questões técnico-empresariais ou por decisões políticas ou juridicas.
A plataforma será mantida pelo próprio movimento dos blogueiros em parceria com o movimento de software livre, o que aumenta tanto a liberdade de ação e expressão como a segurança do sistema. Afinal, quem está dentro destes movimentos sabe quem invade e como invade, logo sabe muito bem como se defender, diminuindo a vulnerabilidade do serviço e aumentando a segurança dos dados e dos usuários.
A plataforma pode ter 3 perfis funcionando simultaneamente de forma sincronizada: usuário / comunidade / empreendimentos. No quesito empreendimentos estamos falando de uma associação entre rede social e economia solidária que permitiria prover serviços na internet e obter ingressos financeiros que ajudariam a autossustentar o projeto.
Usando a ferramenta livre noosfero é possível criar e manter sites distintos em uma só instalação, permitindo também a cobrança pelo serviço de hospedagem. Em outras palavras, em lugar de pagar para que empresas privadas, muitas delas ligadas a velha mídia e a grandes grupos econômicos, hospedem nossos blogs e sites, a blogosfera faria este serviço para si mesma e se autofinanciaria, reduzindo custos e estimulando formas alternativas de economia e empreendimento solidário. Em lugar de pagar a hospedagem para um UOL, uma Locaweb e outros, a blogosfera pagaria para si própria, para seu próprio sistema.
Também é possível criar um usuário único para todos os sistemas e redes sociais já existentes, facilitando ainda mais vida do usuário final deixando-o com mais tempo para blogar e se comunicar.
Por ser aberta e colaborativa, a plataforma possibilita que sejam integradas as demais iniciativas já em curso, tais como: a #teialivre, a #redeliberdade, o agregador de blogs do Barão de Itararé, a proposta de Paulo Henrique Amorim de criação de um pool de advogados para defender os blogueiros “sujos” e a de Luiz Carlos Azenha de criação de uma cooperativa/pool para venda de publicidade, etc.
Objetivos:
Criar e desenvolver uma plataforma (servidor, software, ferramentas de administração de blogs e redes sociais) autônoma e autogestionada que garanta a liberdade de expressão da blogosfera brasileira e forneça serviços e soluções seguros de publicação de conteúdo com proteção à informação e combate à censura e ao AI-5 digital.
Conceitos básicos (tags): Liberdade, Combate à Censura, Autonomia, Autogestão, Segurança, Agilidade nos Processos de Inovações e de Tomada de Decisões, Desenvolvimento Colaborativo e Comunitário, Construção Coletiva de Conhecimento, Fortalecimento da Cultura Digital, Desenvolvimento e Apropriação de Tecnologias Nacionais, Emancipação Tecnológica.
Curto Prazo:
– Preparar uma proposta de serviço próprio usando a ferramenta noosfero (colivre.coop)
– Fazer uma atividade autogestionada/oficina no ENBP sobre a plataforma (Consultar outros BlogProgs no sentido de organizar a atividade coletivamente)
– submeter a proposta à discussão e aprovação no ENBP
– montar estratégia de captação de recursos
a) criar projetos de microfinanciamento colaborativo (tipo crowd-funding)
b) contatar entidades parceiras e amigos da blogosfera
c) venda de serviços de costumização de blogs, sites pessoais e comunidades (a exemplo dos serviços pagos no wordpress)
d) captação de doações (projetos, pay-pal, etc)
e) criação de cooperativa/associação para auxiliar na venda coletiva de espaços publicitários (pacotes de acessos totais, divisão da renda de acordo com acesso individual)
– implantar infraestrutura Beta (para uso e avaliação da comunidade)
Médio prazo
– avaliar todo o processo anterior definir futuras ações
– implantar as novas estratégias resultantes do processo de teste e avaliação
Longo prazo
– implantar servidor próprio e mirrors (espelhos) em pelo menos 4 países
– manter estabilidade e segurança do serviço
– venda de hospedagem e suporte aos blogs criação de assessoria jurídica para todos os envolvidos no projeto
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'Brasil é exemplo e tem governo progressista bem visto'

Líder estudantil chilena participa em Brasília de marcha brasileira por mais dinheiro na educação. Ameaçada de morte em seu país, ela diz se sentir mais segura no Brasil do que no Chile. “Há união de lutas de todo povo latino-americano", diz Camila Vallejo à Carta Maior, antes de voltar a seu país para encontrar o presidente Sebastian Piñera.
BRASÍLIA – A estudante de geografia Camilla Vallejo desembarcou no Brasil, vinda do Chile, na madrugada de terça (30/08) para quarta-feira (31/08), deixando para trás, mesmo que só por poucas horas, ameaças de morte que nem seus olhos verdes e o ar angelical foram capazes de desestimular.
Principal líder de manifestações que, nos últimos dias, levaram centenas de milhares de estudantes às ruas de Santiago, a presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECh) anda tranquila pela Esplanada dos Ministérios. Exceto pelo calor e o sol inclemente, dos quais tenta se proteger com um boné vermelho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Na manhã de quarta, ela participa de – e ajuda a atrair atenção para - uma mobilização de jovens brasileiros que exige mais verba à educação. “Me sinto muito mais segura aqui do que no Chile, não há repressão policial”, diz Camila à Carta Maior, em frente ao Congresso Nacional, onde um carro de som anima, com palavras de ordem e músicas, milhares de estudantes brasileiros.
“Há uma união das lutas de todo povo latino-americano. Há uma causa comum e demandas muitas vezes parecidas, principalmente no tema econômico”, afirma Camila, ao explicar a presença no ato, uma espécie de retribuição à ida a Santiago, dias atrás, de seu equivalente brasileiro, Daniel Iliescu, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).
“O que você acha do Brasil e do governo brasileiro?”, pergunta a reportagem, em espanhol precário.
“O Brasil é um bom exemplo para o Chile, tem um governo progressista muito bem visto”.
“E da presidenta Dilma?”
“Sou militante comunista e conheço o passado militante dela, vejo ela com simpatia.”
“Qual o saldo das manifestações no Chile até agora?”
“Logramos despertar a consciência política, o assunto passou a ser discutido dentro das casas, como não se fazia há décadas.”
Horas depois, com mais calma, Camila dará um depoimento mais completo, em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Presidida por uma ex-líder estudantil, Manuela Dávila (PCdoB-RS), a comissão realiza a audência em solidariedade aos chilenos.
“A legislação chilena regulamenta o direito de manifestação pacífica nas ruas, sem necessidade de autorização prévia, e mesmo assim a polícia, completamente militarizada, tem combatido os estudantes e trabalhadores com violência, usando gás lacrimogêneo, que, no nosso país, é considerado arma de guerra”, conta Camila.
“Já são quatro vítimas fatais desde o início dos protestos e pelo menos 500 pessoas presas de forma ilegal. Temos relatos também que indicam a prática de tortura, inclusive com choque elétrico e abuso sexual de menores.”
A criminalização dos movimentos sociais, tratados como os causadores da violência que assola o país, também incomoda a militante. “Todo o movimento organizado chileno sofre com a violência psicológica provocada pelo discurso político do governo, que nos acusa de sermos culpados pelas mortes e ferimentos dos nossos próprios companheiros”, relata.
Para Camila, a rápida adesão do Chile ao neoliberalismo, na ditadura Pinochet (1973-1990), liquidou com o sistema de proteção social do país e colocou em risco o acesso dos cidadãos a direitos considerados fundamentais nas sociedades democráticas. “Hoje, no Chile, a educação é tratada como um bem de consumo qualquer, e não como um direito social”, diz.
“A situação dos estudantes brasileiros é melhor do que a dos chilenos porque eles conseguiram uma interlocução real com a sociedade e com o governo. E, com isso, obtiveram conquistas, mesmo que pequenas. No Chile, só agora conseguimos construir uma pauta conjunta com a sociedade. Nosso modelo educacional está falido, obsoleto e isso incomoda a maioria das famílias chilenas. Só uma parcela muito pequena da população tem acesso à educação gratuita”, afirma a estudante de geografia.
Segundo ela, das cerca de 3,5 milhões de matrículas na educação básica, metade está atrelada ao sistema de subvenção estatal, por meio de créditos educacionais. “Só as famílias muito pobres têm direito à educação pública. A classe média, que é a maioria, recebe bolsas do governo. Com isso, o governo investe o pouco dinheiro que destina à área no setor privado. E há, aí, um claro conflito de interesses, porque muitos políticos são também os proprietários do sistema privado de educação”, esclarece.
A estudante afirma que a situação é ainda pior nos demais níveis. No ensino médio, as instituições privadas abarcam metade dos alunos. No superior, o índice chega a 80%. “Apenas 20% dos estudantes universitários estão nas instituições públicas, mas mesmo assim têm que pagar pelo ensino. Não existe mais educação superior gratuita no Chile. E os custos são altíssimos. Um curso em uma instituição pública chega a custar US$ 5 mil por mês”, afirma Camila.
Para garantir que uma pequena parte das famílias de classe média e baixa tenha acesso à educação, o governo oferece subvenção, por meio de um complicado sistema de crédito, que os alunos têm que pagar posteriormente. Os juros são altos e inviabilizam a quitação para recém-formados que disputam a tapas uma vaga no mercado de trabalho do país: estudantes das universidades públicas pagam 2% de juros ao ano e, das particulares, 5,8%. “Com esse sistema, os alunos pagam de três a quatro vezes o preço do curso”
Para ela, o problema principal, entretanto, é a concepção de educação que prevalece no atual governo. “As instituições públicas têm que se autofinanciar e, para isso, não apenas cobram mensalidades, como entram no jogo de oferecer o ensino que o mercado quer. Não há uma formação humanística, crítica, que estimule a prática democrática, mas apenas uma formação tecnicista, mercadológica. Por isso, necessitamos de reformas profundas, e não apenas de mais recursos para a área”.
Na noite de quarta (31/08), Camila encerra a visita ao Brasil. Tem de voltar logo ao Chile, para um encontro com o presidente Sebastian Piñera.
*Matéria alterada para correção de informação. Em função do atraso na reunião da UNE com a presidenta, Camila não participou do encontro, por estar em audiência pública na Câmara.
André Barrocal e Najla Passos
Foto: Uma das principais líderes do movimento estudantil chileno,Camila Vallejo, participa da Marcha dos Estudantes, organizada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em Brasília (Foto: Wilson Dias - ABr)
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Quem o povo escolhe?

As declarações de Dilma Rousseff de que “queremos que, a partir deste momento, comecemos a ter no horizonte a possibilidade de redução de juros no Brasil” foram o bastante para que comece uma “onda” de que a presidenta está colocando o Banco Central sob “pressão política”.
Previsões sobre o futuro dos juros, os bancos fazem toda a semana e nem por isso alguém reclama que o façam, até porque é parte essencial de seu negócio.
A presidenta querer que o país tenha “no horizonte a possibilidade de redução de juros no Brasil” está longe de ser ilegítimo ou anti-institucional, como sustentam a mídia e os comentaristas econômicos. Porque o Banco Central é uma instituição que, com toda a independência técnica, conduz uma política, a monetária, diretamente ligada ao desempenho da economia do país e, por conseguinte, à vida de seus cidadãos.
A declaração da presidente nada tem a ver, senão, com isso. É parte das responsabilidades de um governante zelar para que a nação que representa entre em retração econômica, que pessoas percam os empregos, que a indústria e os serviços se afundem e só uma parcela ínfima de pessoas sejam premiada com juros altos e lucros gigantes.
O Governo estivesse defendendo um esparramo de gastos irresponsáveis, está sinalizando com austeridade, com moderação nos gastos menos importante. A receita cresceu num ritmo muito superior à despesa e mesmo a redução dos investimentos ocorreu, além do que ocorre normalmente nos primeiros meses de governo, pela paralisação de grandes projetos viários onde houve suspeita de que o dinheiro estivesse sendo mal gasto.
O Banco Central tem elementos técnicos para parar a alta de juros e começar a reverter este processo. Nossa inflação não é de demanda – isto é, porque o povo está comprando muito – mas de três outras fontes.
A primeira, a cambial, onde assistimos uma guerra especulativa que sobrevalorizou nossa moeda e, para que isso não nos coloque em risco, nos obriga a comprar uma montanha de dólares. As reservas internacionais brasileiras, uma espécie de “colchão” para atenuar efeitos de crises mundiais sobre nossa economia subiu, de 1º de janeiro até meados de agosto, nada menos que US$ 64 bilhões. Esta guerra cambial gasta só mais em três meses que um mês da guerra do Afeganistão custa aos Estados Unidos, que lá gastam US$ 16 bilhões mensais! Porque a diferença manter este dinheiro, captado através de títulos públicos, em aplicações internacionais chega a US$ 19 bilhões por trimestre.
A segunda origem de nossa inflação, este ano, é a crise do etanol, de longe o maior ingrediente na alta de preços captada pelo IPCA – índice oficial da inflação, que beira os 7% acumulados em 12 meses. Não foi provocada por demanda, mas por falta de oferta, provocada pela falta de investimentos dos produtores e pela corrida às exportações de açúcar, em 2009 – quando se “desovaram” todos os estoques do produto e no ano passado, que fizeram a produção ser desviada do etanol.
E a terceira causa, a mais difícil de combater, foi o efeito da pressão exercida insistente e avassaladoramente pelos meios de comunicação de que estávamos vivendo uma explosão inflacionária de graves proporções. Isso atuou sobre os pequenos agentes econômicos de uma maneira perversa, provocando aumentos generalizados em pequenos serviços e comércios, com a natural reação de se protegerem de uma maré de desvalorização do dinheiro. A operação de “hedge” da pensão da esquina é aumentar R$ 1 no prato feito.
Além do mais, o gráfico publicado ontem aqui mostra que a curva de acumulação de aumentos de preços, tomadas na economia como um todo e não apenas na ponta do consumo, como faz o IPCA – mostra que temos, sim, uma desaceleração –e forte – na conta acumulada em 12 meses.
Para recordar, veja a curva, abaixo.
A baixa dos juros não é um atropelo técnico imponderado. Não é uma irresponsabilidade ou um voluntarismo econômico descalçado da realidade.
Porque aos fatores internos se somam os externos, dos quais ninguém já duvida, de uma retração da economia mundial que vai se refletir nos preços de nossos produtos de exportação que, caindo no mercado de commodities mundial, pressionarão menos os preços internos.
O Banco Central tem e deve ter toda a autonomia de como e, no ajuste fino dos prazos, quando fazer. Mas não tem a autonomia de decidir o que fazer. Esta responsabilidade, porque vital para o país, é daquele a quem o povo escolheu para governá-lo e conduzir o Brasil.
Um Presidente da República não pode ser um títere a quem cabe conduzir para lá e para cá um “sacerdote” do Deus Mercado, com sua mão já nem tão invisível.
Os avanços que, históricamente, este país conseguiu fazer ocorreram todos quando, num momento de refluxo mundial, tivemos coragem e decisão de remar na direção inversa. Foi assim na 2ª Guerra Mundial, quando começamos a deixar de ser prisioneiros da cafeicultura, foi assim na “marolinha”, quando nos voltamos para o mercado interno.
Quem não tem coragem de furar a onda, é levado por ela. E o Brasil não vai deixar que este período de expansão que vivemos, este momento de desenvolvimento com inclusão social inédito que atravessamos, vá morrer na praia.
Fernando Brito
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Se for crime, puna!

Bom seria se, seguindo o exemplo vindo do Reino Unido, o país aproveitasse para reexaminar o papel e regulamentação da mídia, visando fortalecer nossa democracia
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Há poucos meses ficou provado que o tabloide News of the World, de propriedade do australiano Rupert Murdoch, um magnata das comunicações, há anos promovia escutas telefônicas ilegais de pessoas influentes na política britânica. Por causa da prática criminosa o seu proprietário teve que fechar o tabloide, prestar esclarecimentos no parlamento e viu alguns diretores e jornalistas da empresa serem presos. O pedido de desculpas do magnata e todo seu poderio econômico e político foram insuficientes para evitar sua condenação na opinião pública. O escândalo, com repercussão mundial, fez com que a população continuasse exigindo a punição dos responsáveis pelo crime e que o país promova um reexame amplo do papel e da regulamentação da mídia no Reino Unido.
Nessa semana, aqui no Brasil, a revista Veja, da Editora Abril, está nas bancas com uma matéria de capa acusando o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, como sendo o poderoso chefão, dentro do PT e que conspira no governo Dilma. O conteúdo da reportagem não vai além do estilo panfletário e completamente dissociado da verdade, como costumeiramente a Veja trata todas as organizações que divergem da concepção político-ideológico da família Civita, proprietária da revista. A reportagem não tem um fiapo de informação, é só opinião, como afirma o jornalista Paulo Henrique Amorim. Não merece credibilidade uma vez que, como é sabido, a Veja mente.
Mas a forma como a reportagem foi construída merece sim a atenção da opinião pública brasileira. Como está registrado em Boletim de Ocorrência (BO) numa delegacia de polícia da Capital Federal, o repórter da revista tentou invadir o quarto do hotel onde Dirceu se hospeda.
Talvez agora a Veja saiba a diferença entre as ações de invadir e de ocupar. Tudo indica, ainda em investigações preliminares, que para ilustrar o que chama de reportagem, o jornalista instalou ilegalmente uma câmera para obter imagens dos hospedes e freqüentadores do hotel. Não há limites ao escárnio com que a semanal dos Civita trata o Estado de Direito. O sentimento de completa impunidade lhe permite praticar um jornalismo que confabula com a ilegalidade.
A mídia em geral, em colusão com a prática criminosa da revista, não dedicou uma linha para informar a opinião pública do fato ocorrido. Uma abismal diferença de quando houve a quebra do sigilo da declaração de imposto de renda de um político tucano. Essa é a liberdade de imprensa defendida pelos proprietários dos meios de comunicação. Liberdade para filtrar os acontecimentos, amplificando ou escondendo os fatos, de acordo com seus interesses próprios.
A ficha corrida da Veja é tão extensa quanto de longa data. Um grupo empresarial que cresceu sob a sombra protetora da ditadura militar, tanto aqui quanto na Argentina. Que não hesita em atacar a honra das pessoas, da forma mais vil, para atingir seus objetivos, como fez com o delegado da Policia Federal Paulo Lacerda, responsabilizado, nas páginas da revista, por ter grampeado os celulares do então presidente do STF Gilmar Mendes, e alguns parlamentares. Em momento algum apareceu o áudio dessa gravação ou qualquer outra prova de que havia ocorrido o grampo. Lacerda perdeu seu cargo na Policia Federal, a revista e seus capangas– usando palavras de um inflamado discurso do Ministro do STF Barbosa – da mentira montada permanecem completamente impunes.
O próprio presidente Lula foi vítima do exercício da mentira nas páginas da publicação do Grupo Abril. Hora o acusaram de ter vínculos econômicos com as Farcs, grupo revolucionário da Colômbia, hora de ter contas secretas em paraísos fiscais. Novamente, nada foi provado e repetiu-se a impunidade.
Até quando a população brasileira vai ser desrespeitada por essa forma de fazer jornalismo da família Civita? Quantas vezes ainda veremos essa revista abrir sua caixa de maldades, durante um processo eleitoral, às sextas-feiras, para abastecer o Jornal Nacional da Rede Globo e tentar influir determinantemente no resultado eleitoral, sem que as autoridades tomem quaisquer providências? A palavra está com quem tem o dever de apurar e, se comprovado, punir as práticas criminosas, inclusive as da mídia.
Bom seria se, seguindo o exemplo vindo do Reino Unido, o país aproveitasse para reexaminar o papel e regulamentação da mídia, visando fortalecer nossa democracia. Daquele país, em artigo de Martin Wolf publicado no Financial Times, vêm indicativos da necessidade de rever as leis de privacidade e difamação; regulamentação da imprensa; concentração da propriedade por veículos e sobre diferentes mídias; papel da mídia pública; financiamento público da mídia em geral e da produção de notícias em particular. Já seria um começo a ser seguido pelo nosso país. Se a distância ou a língua britânica servem de empecilho junto às autoridades, por que não seguir o exemplo da vizinha Argentina com sua Ley de Medios? Com a palavra o Ministro das Comunicações. Mas antes, com palavra o Ministro da Justiça, no caso da tentativa de invasão de um quarto de hotel na Capital Federal.
Editorial do jornal Brasil de Fato
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Ética e credibilidade de uma profissão

Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.
Desde o dia 7 de julho pp. a Comissão de Ética (CE) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) tem em suas mãos um pedido de abertura de processo por violação do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros contra o jornalista Gustavo Ribeiro da sucursal de Brasília da revista Veja. O pedido foi protocolado por um dos membros da comissão que redigiu o novo Código de Ética em vigor desde 2007 (disponível em http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf) e também um dos fundadores do Movimento Pró-Conselho de Comunicação Social no Distrito Federal (MPC), o jornalista Antonio Carlos Queiroz.
O pedido original tinha por base a matéria intitulada "Madraçal no Planalto" sobre a Universidade de Brasília e seu reitor, publicada na Veja com data de capa de 6 de julho.
Tanto do ponto de vista técnico como ético, a referida matéria é um exemplo acabado de mau jornalismo. Editorializada e adjetivada, a matéria não cumpre as regras elementares básicas do jornalismo e foi desmentida por “fontes” cujos nomes nela aparecem, além de ter recebido repúdio quase unânime da própria comunidade acadêmica da UnB (cf. http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=5317). Mais ainda. Uma das “fontes” e articulador da matéria de Veja, conhecido adversário político do atual reitor, publicou em seu blog o seguinte post:
"Parabéns à revista VEJA por este inestimável serviço ao Brasil, mostrando o que faz o reitor Zé do MST (ligado ao PT) com a educação superior no país. Está agora na hora da oposição (DEM, PSDB e PPS) colocar a boca no trombone! - PS: Ajudei a VEJA com essa reportagem (tem uma declaração minha na 4. página), eu e mais de 20 professores, lógico que apenas alguns apareceram" [cf. cienciabrasil.blogspot.com post de 3 de julho).
Jornalista não sindicalizado
No dia 9 de agosto pp. a CE respondeu ao jornalista Antonio Carlos Queiroz informado haver decidido pela não abertura do processo tendo em vista que Gustavo Ribeiro “não é filiado ao SJPDF”.
Trata-se de um equívoco da CE de vez que a filiação aos sindicatos da categoria não é requisito para o exercício profissional e o Código de Ética, por óbvio, se aplica a toda a categoria, não somente aos jornalistas sindicalizados. Aliás, está escrito no próprio CE:
Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Parágrafo único - Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
O equívoco da CE motivou um recurso impetrado pelo jornalista Antonio Carlos Queiroz no SJPDF solicitando a reconsideração da decisão.
Reincidência
Enquanto se aguardava uma resposta da CE ao recurso, o mesmo jornalista Gustavo Ribeiro, aparece novamente como um dos responsáveis por matéria aparentemente envolvendo práticas ilícitas, publicada na mesma revista Veja com data de 31 de agosto pp. Trata-se, como se sabe, de matéria de capa sob o título “O Poderoso Chefão” sobre o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que padece dos mesmos vícios da matéria anterior sobre a UnB. O jornalista está agora sendo formalmente acusado de tentativa de invasão de domicílio e falsidade ideológica pelo Hotel Naoum de Brasília, onde escritório de advocacia associado ao ex-ministro José Dirceu mantém um apartamento alugado.
Naturalmente o novo episódio envolvendo o jornalista Gustavo Ribeiro provocou o encaminhamento de um “agravo” à CE do SJPDF.
O que está em jogo?
Apenas algumas semanas depois do escândalo provocado pelas revelações de ações criminosas do tablóide “News of the World” na Inglaterra, o tipo de jornalismo reiteradamente praticado pela revista Veja acende uma perigosa luz amarela no campo da comunicação.
O Grupo Abril, ao qual pertence a revista Veja, criou recentemente o IAEJ – Instituto de Altos Estudos em Jornalismo que, em parceria com a ESPM, oferece o Curso de Pós-Graduação com Ênfase em Direção Editorial “um programa sem precedentes no Brasil, (que) tem a ambição de contribuir para a melhoria da imprensa no país” (cf. http://www.espm.br/Candidato/Cursos/SP/Pages/jornalismodirecaoeditorial.aspx).
Por óbvio, matérias como as referidas acima não são publicadas sem o conhecimento da direção da revista e, portanto, não são de responsabilidade apenas dos jornalistas envolvidos. Trata-se de uma determinada visão de jornalismo e de seu papel que confrontam toda a retórica liberal sobre a liberdade de imprensa na democracia.
Está na hora das organizações sindicais darem o primeiro passo e aplicarem exemplarmente o Código de Ética da profissão se pretendem zelar pela dignidade profissional mínima que sustente a credibilidade dos jornalistas.
E está mais do que na hora dos próprios empresários de mídia e do Estado brasileiro dialogar sobre a inadiável necessidade de uma ampla e democrática regulação do setor. Não dá mais para “fazer de conta” que no Brasil é diferente do resto do mundo e que aqui a mídia será sempre um poder acima de todos os outros.
A ver.
Venício Lima
Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.
Na Carta Maior
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Senador tucano paga mico e foge do Senado

Foi desastrosa a participação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) na audiência pública do Senado Federal, realizada nesta terça-feira, 31, para ouvir o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, sobre o Plano Nacional de Banda Larga.
Disposto a confrontar Bernardo sobre o uso do avião “King Air” de propriedade da Sanches Tripoloni, empreiteira que executa o Contorno Norte de Maringá (PR), Álvaro Dias perguntou se no dia 10 de fevereiro de 2011 o ministro teria usado a aeronave para ir a Feira Agropecuária de Cascavel.
— Não, senador Álvaro, não estive na Feira de Cascavel neste ano, até me convidaram, lamentei muito não ter condições de ir — disse Bernardo, acrescentando que esteve lá no ano anterior. — É isso, 2010, tentou emendar Álvaro Dias, mas Bernardo o interrompeu de novo:
— Em 2010, senador, eu estive lá em um avião da FAB, Força Aérea Brasileira, disse o ministro.
Visivelmente desapontado, o tucano afirmou que considera seu “direito fazer ilações, em seu papel de Oposição. O ministro retrucou: reconhece o papel da Oposição, mas não acha correto que se faça ilações para atacar a honra alheia.
"As pessoas tem de se ater aos fatos, falar a verdade”, disse Bernardo. Ele bateu duro naqueles que plantam notas anônimas nos jornais, valendo-se do chamado "off". Álvaro Dias apressou-se a dizer que não era o autor das notas passadas aos jornalistas, mesmo sem ter sido acusado disso.
O que mais surpreendeu os presentes, contudo, foi o fato de o tucano retirar-se antes de ouvir mais uma resposta do ministro à uma questão que ele havia formulado. Em gesto de má educação, o senador levantou-se e deixou a reunião sem sequer se despedir do ministro.
O “mico” sobre o uso do avião foi o segundo momento de constrangimento do senador. Antes, Bernardo havia mostrado cópia da emenda da bancada paranaense solicitando ao Poder Executivo a realização do Contorno da Rodovia de Maringá. O primeiro signatário da emenda, ou seja, o autor da proposta, é o senador Álvaro Dias.
Antes que a emenda, de 2007, fosse do conhecimento público, o senador tentava atribuir interesse na empreitada apenas a Bernardo para fazer ilações sobre sua honra. Bernardo era ministro do Planejamento quando os recursos orçamentários foram liberados e a rodovia foi incluída no PAC. Acontece que isso só ocorreu porque toda a bancada do Paraná pressionou o governo.
Álvaro Dias saiu desmoralizado da audiência. Bernardo o silenciou com a verdade. E a mídia que serviu de mensageira das falsas notícias? Será que os jornalistas que publicaram inverdades em “off” não deveriam perguntar a si mesmos se as baixas vendas de jornais não estarão relacionadas a essa persistente subserviência aos que usam o anonimato para sabotar os fatos? Afinal, das duas, uma: ou se está a serviço dos velhacos ou ao serviço dos leitores.
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Corrupção: a indignação no lugar errado

A rejeição ao pedido de cassação da deputada federal Jaqueline Roriz alimentou a indignação de parte da população, especialmente dos setores médios, cansados com os casos de corrupção. É revoltante o país ter uma deputada federal, que foi flagrada em um vídeo recebendo um maço de dinheiro com 50 mil reais.
No entanto, a maioria dos deputados votar contra a sua cassação não pode ser considerada uma surpresa para ninguém. Cada dia que passa fica mais claro que existe uma distância das ações dos parlamentares e partidos e os anseios da sociedade brasileira. Aconteceu a mesma coisa na votação pela flexibilização do Código Florestal. A maioria da população se manifestou em pesquisas de opinião contra mudanças na legislação ambiental, mas mesmo assim os deputados aprovaram o projeto que atende apenas o interesses do agronegócio.
O problema é que o sistema partidário brasileiro não tem correspondência com frações de classes sociais ou setores organizados da sociedade. Cada partido representa interesses bem específicos, que não tem conexão com a vontade política das grandes faixas da população. Claro que tem partidos com perfis políticos mais ou menos claros, mas isso não significa que exista uma relação mais orgânica.
Por isso, há uma geleia geral que pode confundir em alguns episódios DEM com PSOL ou PSB com PR. O que determina a ação desses partidos não é uma base social de interesses homogêneos, que deveria orientá-los, mas questões que estão fora da relação partido-sociedade, que passam pela pura e simples disputa por postos no Estado.
A absolvição de uma deputada comprovadamente corrupta é consequência da crise do sistema político, que enfrentamos desde a implementação do neoliberalismo no mundo e no Brasil. Os protestos que pipocam pelo mundo, como em Londres, na Grécia, na Espanha, no Chile, são fruto da falta de respostas da política institucional (os partidos, os parlamentos e os governos) aos problemas concretos que afetam a população mais pobre. Daí explodem protestos que os governos não sabem como responder (quando sabem, é com repressão).
O neoliberalismo teve duas consequências que desorganizaram a própria forma de fazer política nas democracias ocidentais: enfraqueceu os instrumentos de intervenção na economia dos Estados-nacionais e deu ao sistema financeiro internacional uma relativa autonomia política. Com isso, diminuiu a efetividade política das democracias e das disputas eleitorais.
Independente de quem ganha as eleições, quem determina a ação do Estado são os bancos, as bolsas e os diversos tipos de fundos de investimentos. Nessa quadro, não existe uma diferença de projetos políticos (embora haja diferenças de procedimentos e prioridades) das gestões do Estado dos partidos mais à esquerda e mais à direita. Há alguma diferença marcante dos governos do conservador David Cameron, na Inglaterra, e do socialista José Luiz Rodríguez Zapateiro, na Espanha?
No Brasil, enfrentamos o mesmo fenômeno, embora as consequências sejam diferentes. Por isso, a dificuldade geral de compreender a natureza dos governos de Lula e Dilma, os limites impostos para a ação do Estado, as alianças criadas para a sua sustentação e os interesses de classe representados. E quem tentar compreender esses governos a partir do quadro político formado no Congresso Nacional não terá êxito, justamente porque a atividade dos partidos não corresponde aos interesses das frações de classe.
No quadro de falta de efetividade da política institucional e autonomização do sistema financeiro, o espaço de realização dos interesses das classes é o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Aí, sim, será possível observar quem está ganhando ou perdendo na disputa entre as frações de classe. E o resultado é desanimador, porque o sistema financeiro está ganhando de goleada.
O governo federal, Estados, municípios e estatais desviaram R$ 91,9 bilhões para o pagamento de juros da dívida, o chamado superávit primário, entre janeiro e julho. Para comparação, esse valor é maior do que o orçamento do Ministério da Saúde (em torno de R$ 60 bilhões) e mais do que o dobro do orçamento do Ministério da Educação. Só no mês de julho, o governo reservou para pagar os bancos, especuladores e fundos (estimados em 30 mil rentistas) que têm títulos da dívida pública R$ 13,8 bilhões.
A meta do superávit primário do ano era R$ 117,9 bilhões, mas o governo federal anunciou que vai ampliá-la em R$ 10 bilhões por causa da crise internacional do capitalismo, que afeta os Estados Unidos e a Europa. Dessa forma, o governo tenta construir um cenário favorável para que o todo poderoso Banco Central baixe a taxa de juros Selic, que incide justamente sobre os títulos da dívida pública.
Aí podemos observar os limites da política institucional e a autonomia do sistema financeiro, que se cristaliza na “independência” real do Banco Central. O governo federal se mostra sem poder para determinar a queda dos juros e aumenta o superávit primário para “influenciar” aqueles que, de fato, definem a política monetária…
Enquanto cresce a indignação de setores da sociedade com os casos de corrupção do Congresso Nacional e do governo federal, os setores rentistas continuam dirigindo a economia brasileira e a política institucional cada vez mais se distancia da sociedade brasileira… Ou seja, a indignação está no lugar errado.
O que teria resultados políticos efetivos é a conversão dessa indignação com a corrupção em um movimento político por mudanças na política econômica, que fortaleça o Estado diante do sistema financeiro, e por uma reforma política profunda, que reorganize a política institucional no país. Saídas que não toquem nessas questões serão como tratar uma pneumonia com tylenol: pode até melhor as dores, mas não vai resolver os problemas.
Carlos Bandeira, jornalista
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O que define o discurso jornalístico?

O que define o discurso jornalístico? Já ouvi de mais de um jornalista experiente, não sem um misto de constrangimento e surpresa, que jornalista reporta, relata o que está acontecendo, como se tal operação fosse suscetível de um software que descrevesse a realidade de forma indiscutível. Quem já fez uma pauta jornalística na vida, uma só, sabe que isso não existe. Não há tal coisa como um relato objetivo de um acontecimento, com exceção de eventos banais que garantem a objetividade, não por sua característica, mas sim por sua relativa irrelevância: se o Chevette placas XX-4536 bateu num poste é possível sim descrever esse fato de forma objetiva, mas isso define o que seria um “discurso jornalístico”? O discurso jornalístico padece de uma arrogância cultural que talvez derive, em boa parte, de sua proximidade com o poder.
Há alguns filmes míticos sobre jornalismo e jornalistas que exibem um pouco as raízes dessa arrogância, filmes como Cidadão Kane (de Orson Welles) e a Montanha dos Sete Abutres (de Billy Wilder). Há tentações profundas que acompanham o trabalho jornalístico: a busca do “furo” a qualquer preço, a pretensão da exclusividade, a sedução do poder que é tão mais forte quanto mais perto dele se está. A combinação dessas tentações com o mito do relato objetivo produzem monstrengos dos mais variados tamanhos e naturezas. A transformação dos veículos de comunicação em grandes corporações só vem agravar esse quadro, com a consequente transformação dos e das jornalistas em empregados que não se reconhecem como tais. Quando transformados em celebridades, então, a situação só se agrava.
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Audiência #folhaXfalha: jornal mente e revela seu lado Otavinho Vader em texto raivoso

mimimimi
A forma que a Folha encontrou pra noticiar hoje a aprovação da audiência pública ontem na Congresso Nacional sobre a censura que promove contra o blog Falha de S.Paulo, que a parodiava e criticava, é digna de aula de jornalismo. Em 13 linhas o jornal conseguiu cometer omissões, mentiu e destilou todo seu rancor, bem ao estilo Otavinho Vader. Mas é assim que a gente gosta, quando as máscaras começam a cair. Vamos lá:
1ª MENTIRA: O jornal diz que nosso blog, “a pretexto de criticar o jornal, vinha utilizando o logotipo”. OI? É exatamente o contrário! Nós usávamos um logotipo parecido com o da Folha para criticá-la. Por quê raios nossa intenção seria original usar o logo –e não criticar o jornal??
2ª MENTIRA: Nós não usávamos o logo. Essa afirmação da Folha é mentira. Nós usávamos o NOSSO logo, o da FALHA. Ele era parecdio, mas NÃO ERA o logo do jornal. Inclusive no processo assinado pela censora da Folha, a advogada Taís Gasparian, ela nunca fala que usamos logo, e sim um logo PARECIDO. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
OMISSÕES: O jornal não cita o nome do blog que censuraram, mas acho você sabe qual é… também esconde o nome do deputado federal que teve culhão para convocá-los ao Congresso Nacional, mas a fAlha informa: é Paulo Pimenta (PT-RS). Também não cita que serão convidados para explicar a censura o dono do jornal, Otávio Frias Filho, seu editor-executivo, Sérgio Dávila, a advogada-censora Taís Gasparian e o secretário de redação Vinicius Mota.
DISTORÇÕES DA REALIDADE: O jornal afirma que “a Justiça determinou que o blog não use mais o logo nem endereço semelhante na internet”. Traduzindo para a vida real: “A mando da Folha, a Justiça cassou o blog Falha de S.Paulo, ameaçou seus criadores com multa e os impediu de continuar fazendo a paróida (que era semelhante ao que fizem e fizeram CQC, Casseta & Planeta, Pasquim, Ziraldo, a própria Folha e mais centenas de etc)”.
MAIS ALGUNS PINGOS NOS IS
R$ 10 mil por dia? Tá boa??
Danos morais é pra quem tem moral...
JORNAL DO FUTURO (sic) QUER NOS ARRANCAR DINHEIRO, INTIMIDANDO OUTROS “ATREVIDOS”. Sim… é feio falar assim né? Mas está lá na ação da censora da Folha (ao lado). Eles não apenas pediram uma multa de 10 MIL REAIS POR DIA caso continuássemos com nosso blog como agora estão com um processo de 88 páginas em nossas costas pedindo DINHEIRO a título de indenização por danos morais (o juiz que vai decidir o valor, em caso de vitória da Folha).
JURISPRUDÊNCIA QUE PODE SER ABERTA É TÃO HORROROSA QUE SE VOLTA CONTRA A PRÓPRIA FOLHA. O processo que a Folha move contra nós é inédito no Brasil. Por isso mesmo está tendo tanta repercussão inclusive fora do País, e agora motivou essa audiência no Congresso Nacional. O que o jornal não leva em conta é que sua ação é TÃO tosca, TÃO anti-liberdade de expressão, vai TÃO na contramão do que é o mundo e a internet hoje que, em caso de vitória, eles estarão criando uma jurisprudência que pode se voltar contra eles mesmos. Veja, por exemplo, a charge do Angeli abaixo, publicada no “Jornal do Futuro” poucos dias depois deles nos censurarem:
Logo alterado para fins de paródia, o mesmo “crime” que cometemos. Vai advogados do Mc, Donald´s, parte pra cima da Folha com a MESMA ação que eles usaram contra nós!
ENFIM, NÃO DÁ PRA DOURAR A PÍLULA.
A Folha censurou sim, e está arcando com as consequências desse ato condenável. Pedimos por favor para que todos os que se importam com liberdade de expressão ajudem a denunciar essa baixaria do jornal. A notinha de hoje tenta minimizar o caso, fala em “pendência judicial”… Pendêncial judical uma OVA! (pra não usar outro termo que gere novo processo). Trata-se de uma clara agressão a toda internet brasileira, à democracia e aos princípios que o próprio jornal hipocritamente afirma defender.
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