31 de ago. de 2011

A ciência do palavrão

Estudo compila centenas de apelidos dados aos órgãos genitais e demonstra o quanto a histórica repressão sexual se reflete na linguagem popular
Pode procurar, pelo menos uma meia dúzia de sinônimos tanto para pênis quanto para vulva (inclusive aqueles considerados “palavrões”) aparecem em dicionários como Houaiss. O vocabulário popular do brasileiro para designar seus órgãos sexuais, porém, é muito mais criativo. São pelo menos 408 palavras para o masculino, e no mínimo 494 para o feminino. A conta foi feita pela psicóloga Eliane Rose Maio em sua pesquisa de doutorado na Unesp em Araraquara e se encontra no inusitado O Nome da Coisa.
Além dos nomes mais “clássicos”, as genitálias ganharam alcunhas curiosas pelo país afora, como “Bin Laden”, “Elvis Presley” e “Máquina Mortífera”. Entre as mulheres, resiste uma certa meiguice, com “lindinha”, “menininha” e até “donzela”. E o humor reina entre 229 expressões para designar relação sexual coletadas na pesquisa: “Estacionar o fusca na garagem”; “unir o útero ao agradável”; “virar o zoinho”; “tchaca tchaca na butchaca”.
A pluralidade de nomes tem origem histórica e remete à repressão sexual. Analisando o tema ao longo do tempo, Eliane avalia certos comportamentos (como a disseminação da história de Adão e Eva e do momento em que se envergonham de sua nudez) e encontra no puritanismo e no vitorianismo, correntes que ganharam força ao longo dos séculos 17 e 18, as razões que, indiretamente, levaram à criação de tantos substantivos.
Em comum, esses movimentos tiveram a determinação de um conjunto de normas sociais que ditavam costumes relacionados à vida afetiva e sexual, reprimindo grandes demonstrações de emoções e pregando que a relação carnal deveria ser restrita ao casamento – e, no caso do vitorianismo, apenas para fins de procriação. Como consequência, ocorreu a sexualização de atos antes considerados neutros, como o uso de perfumes e a busca pelo conforto das camas.
Na busca por códigos para conversar sobre o que era considerado tabu e também por meios para disfarçar a sexualidade (principalmente para crianças), os diminutivos e nomes de animais se tornaram algumas das principais categorias de palavras utilizadas.
A autora também nota que o androcentrismo – ou seja, a valorização do homem – também pode ser notado por essa análise: para o homem, há uma tendência a se criar nomes que demonstram força e virilidade, enquanto a genitália feminina ainda recebe adjetivos que denotam suavização e até mesmo vergonha.
Durante o doutorado em educação escolar, Eliane contou com a colaboração de 4.916 voluntários de seis Estados do país – grupo composto basicamente por pais e professores, 65,3% sendo mulheres – , que foram convidados a listar a forma como se referiam a pênis, vulva, relação sexual e masturbação. As palavras foram fornecidas por escrito, em anonimato.
Apesar do apelo comercial da ideia de listar “os nomes das coisas”, a autora não se restringe a analisar os vocábulos e discute, posteriormente, o papel das escolas na educação de crianças e jovens brasileiros. Para o cenário atual, supostamente de mais liberdade sexual, ela questiona se a repressão não foi substituída, por exemplo, pelo “dever do orgasmo”, ou seja, se não se criou uma padronização da forma como se devem satisfazer os desejos.
Mais do que simplesmente enriquecer o vocabulário sexual do leitor, a obra traz um estímulo para se discutir no país o progresso da educação sexual. E, ao explorar um tema já bastante abordado nos últimos anos, evita cair na mesmice, tratando-o de um modo interessantemente raro e, usando palavras da própria autora, “por que não dizer, divertido?”.

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