18 de set de 2018

Infecção golpista

http://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/09/7235-infeccao-golpista.html

As declarações feitas pelo candidato Jair Bolsonaro numa transmissão ao vivo em rede social são graves, são preocupantes e deviam ter sido rebatidas pelos demais candidatos. Resumidamente, ele prevê que vai perder no segundo turno por conta de uma fraude da urna eletrônica que o PT já teria armado. E com isso, revela sua disposição para contestar o resultado e a legitimidade do pleito, deixando no ar a possibilidade de um golpe contra a suposta fraude, que poderia ter a participação militar.

No final do vídeo ele dirige um agradecimento aos que o apoiam na Marinha, no Exército e na Aeronáutica, “como cidadãos e não como instituição”. A saudação veio depois das graves declarações, para deixar bem claro com quem ele conta para resistir. Quando Bolsonaro foi esfaqueado, no dia 6, o comandante do Exército, general Vilas Boas, declarou que o ataque poderia comprometer a legitimidade do pleito: se Bolsonaro ficasse impedido de participar da campanha, poderia atribuir a isso uma eventual derrota, assim como, se ganhasse, os outros poderiam dizer que ele foi favorecido pela vitimização.

Ontem, o candidato a vice na chapa de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, pediu que fossem relevadas as declarações de um homem fragilizado, que quase morreu. Externou confiança no sistema. “O jogo é este, vamos jogar e ganhar no primeiro turno. Quem vencer, venceu. Só tenho pena do Brasil se o PT vencer”

Só pode estar no jogo quem confia no sistema de votação e apuração. Por isso os demais candidatos deviam ter repelido as declarações de Bolsonaro, questionando por antecipação a lisura do pleito. Mas, entre eles, apenas Geraldo Alckmin contestou Bolsonaro. O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, também lembrou que o presidenciável do PSL nunca reclamou da urna eletrônica nas sete vezes em que se elegeu deputado.

Mais que sandices

Bolsonaro disse coisas muito graves, que não podem ser relevadas só porque sofreu um atentando e está visivelmente debilitado. O que ele disse expressa a percepção de segmentos militares e civis que gravitam em sua órbita. Não são de agora suas críticas a uma suposta vulnerabilidade da urna eletrônica. Disse ele que “a narrativa agora (a partir das últimas pesquisas) é a de que perderei no segundo turno para qualquer um. A grande preocupação não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no segundo turno existe, talvez até no primeiro”. E ainda: “O PT descobriu o caminho para o poder: o voto eletrônico”. Para ele, o partido disporia de programas que poderiam inserir uma média de 40 votos em cada urna, em todo o país. Antes, afirmou que Lula, podendo fugir, e contando com proteção de ditaduras estrangeiras, só pode ter se entregado porque tinha um plano B. O plano da fraude, para eleger Haddad, que o indultará. Não apenas o PT mas todos os candidatos deveriam repelir tão graves afirmações sem a apresentação de indícios ou provas, que buscam desqualificar, por antecipação, a eleição de que o país precisa tanto para sair do beco em que se encontra.

Na semana passada, em corajosa e honesta autocrítica, o senador Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB, reconheceu três erros cometidos por seu partido, que ajudaram a fomentar a crise política. Primeiro, a contestação do resultado da eleição de 2014, quando Aécio Neves, derrotado por Dilma, pediu recontagem dos votos e a impugnação da chapa Dilma-Temer, abrindo a porta para a instabilidade política. Depois, seguindo o comando de Eduardo Cunha, o partido participou da sabotagem ao governo Dilma, que tentava corrigir seus próprios erros econômicos. O terceiro teria sido participar do governo Temer.

O que Bolsonaro faz agora é mais grave, ao colocar sob dúvida uma eleição que ainda nem aconteceu, num ambiente em que, diferentemente de 2014, os militares voltaram a dar pitacos na política.
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Nota Oficial - UFRJ


Resposta ao jornal O Globo

Em editorial publicado nesta segunda-feira (17/9/18), o jornal O Globo ofende a comunidade científica mundial e, em particular, a brasileira, ao chamar a UFRJ e a Uerj de instituições falidas. A vulgaridade e a violência contra as instituições demonstram o tempo de irracionalismo e violência vivido no Brasil de hoje. Desconsiderando a ética e a verdade, O Globo tem contribuído com a propagação de fake news em prol de seus interesses particularistas.

São muitos os exemplos de manipulação que poderíamos citar, mas voltemos à edição do dia 6/9. Enquanto afirmava em editorial que a Universidade havia recusado, há trinta anos, uma oferta de US$ 80 milhões do Banco Mundial para supostos projetos no Museu Nacional, o jornal trazia, na página 16, o desmentido oficial do próprio Banco, informando que a proposta não prosperou em virtude de circunstâncias externas à UFRJ.

Não existe falência da UFRJ e, seguramente, da Uerj. No mês passado, a Universidade Federal do Rio de Janeiro foi apontada pelo ranking de Xangai como a melhor universidade federal do Brasil. Por dois anos consecutivos, a UFRJ aparece no ranking universitário do jornal Folha de São Paulo como a melhor do país. É responsável por cerca de 10% dos programas de pós-graduação com qualidade internacional, conceitos 6 e 7 da Capes e seus cursos de graduação estão entre os melhores do Brasil, conforme resultados do Enade e do MEC.

Estamos falando da instituição que ajudou o país a descobrir o pré-sal, que investigou prontamente a correlação entre zika e microcefalia. A UFRJ equivale a uma cidade. Os seus campi recebem mais de 70 mil pessoas por dia. Possui mais de mil laboratórios e cinco hospitais de ensino. Apenas um deles, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, realiza cerca de 300 mil atendimentos ambulatoriais e seis mil cirurgias por ano. Seus estudantes da graduação e da pós-graduação estão entre os mais bem formados, com complexas atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Importante destacar, também, que a expansão universitária veio acompanhada do crescimento da UFRJ, com novos cursos, novas matrículas, novos programas de pós-graduação e a criação de dois novos campi.

A UFRJ é uma instituição capaz de assegurar um padrão de qualidade conforme todos os melhores indicadores, além de ser referência no país, mesmo com os brutais cortes orçamentários sofridos nos últimos quatro anos, o que levou a instituição a operar em déficit. Em 2014, o orçamento da UFRJ era de R$ 434 milhões; neste ano, foi de R$ 388 milhões.

O editorial desta segunda-feira volta a insinuar que os gastos com pessoal são crescentes, acima da inflação, o que não é verdade. Em 2014, as despesas com pessoal correspondiam a R$ 2,73 bilhões; em 2018, a R$ 2,66 bilhões. O jornal O Globo fala em excesso de servidores, mas inclui no cálculo da folha os aposentados e pensionistas, induzindo o leitor a erro a partir de premissas erradas. Caso observasse a metodologia internacionalmente aceita da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), não utilizaria no custo corrente da instituição as despesas com aposentados e pensionistas (gastos previdenciários). Como a observação metodológica já foi exaustivamente explicada ao jornal, o leitor somente pode concluir que não há compromisso com a verdade.

Quase 70% dos estudantes das universidades federais do país possuem renda per capita abaixo de 1,5 salário mínimo, portanto não teriam as mínimas condições de incluírem pagamento de mensalidade em suas contas mensais. A defesa com a gratuidade da educação é um imperativo ético para o futuro do país. Assim, a forma correta de corrigir as injustiças sociais passa por uma reforma tributária progressiva que incida sobre renda, patrimônio e capital.

Seria muito importante que o editorial explicasse o que quer dizer com aparelhamento partidário. A UFRJ é uma instituição autônoma em relação aos partidos, aos credos religiosos e aos interesses particularistas presentes no Estado e no mercado. Esse é um valor sólido da instituição. Ilações que atribuem a opção partidária constitucionalmente assegurada a todos os cidadãos à manipulação político-partidária da instituição novamente desrespeitam a instituição. A UFRJ é ciosa de sua autonomia e jamais permitiria ser manipulada partidariamente.

A UFRJ, como as demais universidades, presta contas à sociedade por diversos meios, como órgãos de controle e, sobretudo, pelo que a instituição assegura à sociedade brasileira. A UFRJ tem orgulho de afirmar que o seu principal indicador de eficiência na aplicação dos gastos são os seus resultados auspiciosos e reafirma que a melhor forma de debater o tema da universidade brasileira é com estudos rigorosos, portanto com o abandono de ideias preconcebidas. Antes de olhar para seus próprios interesses, cada sujeito deve mirar os melhores anseios e possibilidades de futuro. Esse é o debate que a UFRJ anseia e reivindica.

Reitoria da UFRJ
17/9/2018
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Mulambos e Calabares


O candidato a vice do capitão Bolsonaro, o general Mourão, em sua mais recente aparição pública mostrou definitivamente ao que veio na campanha eleitoral. Segundo noticiou a mídia em geral, o general Mourão chamou os países emergentes de “mulambada”, em especial os africanos, asiáticos e latinos, e disse que sua “chapa” é contrária a política Sul-Sul de Lula. As esclarecedoras palavras evidenciam preconceito e ignorância geopolítica, confirmando um indisfarçável alinhamento aos interesses norte-americanos.

O que disse o general Mourão, segundo a mídia:

– “Partimos para aquela diplomacia que foi chamada de Sul-Sul, e aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoe o termo, existente do outro lado do oceano e do lado de cá que não resultaram em nada, só em dívidas, e estamos tomando calote”, afirmou, referindo-se à política externa dos governos petistas, que priorizou países africanos, asiáticos e sul-americanos”.

Um dos grandes acertos da política internacional do governo Lula foi, em boa hora, aprofundar relações multilaterais no âmbito Sul-Sul, ou seja, com países da África, China e Índia, além dos países da América do Sul, Central e Caribe. O Brasil é um dos principais protagonistas da criação de uma das grandes obras da moderna geopolítica mundial, o BRICS (Brasil – Rússia – Índia – China – África do Sul). Um articulação política, econômica e de mercados para além da submissão ao imperialismo norte-americano, o que incomoda o general Mourão e seus partidários, desde os tempos do governo Geisel.

Também correta e positiva para o Brasil foi a politica de integração regional construída por Lula, revertendo um clássico distanciamento do país com os vizinhos latino-americanos. Um conjunto de iniciativas que, seguindo a orientação do general Mourão, seriam revistas, colocando os países na mira do intervencionismo dos Estados Unidos, a exemplo da ameaça contra a Venezuela. A traição aos valores nacionais e das próprias FFAA de solidariedade internacional já chegou ao ponto de trazer o exército inimigo para dentro da Amazônia, com objetivo de agredir um país fronteiriço.

Vejamos, mais uma vez, o que pensava o general Ernesto Geisel, então presidente, das teses sobre a “mulambada”, na época esposadas pela turma do general Silvio Frota, que hoje tentam ressuscitar nas palavras do general Mourão:

– “O mesmo problema surgiu quando reatei as relações com Angola. A mesma história: “É um país comunista, os Estados Unidos estão subsidiando a revolução contra o governo de Angola, e nós somos solidários com os Estados Unidos!”. Respondi: “Não, neste ponto eu não sou solidário. Acho que os Estados Unidos não têm o direito de fomentar a revolução em outro país. Não concordo com este posicionamento. E tem mais: Angola é fronteira marítima com o Brasil. Nossa fronteira oriental é toda a costa oeste da África. Então, não vamos ter relações com um país fronteiriço!. Além disso, Angola é descendente de Portugal, fala como nós, a mesma língua. E há outro interesse: as perspectivas são de que o litoral angolano tenha petróleo, e nós poderemos obter suprimento em Angola”. Respondiam: “Mas o governo é comunista!”. E eu: “É, é subsidiado pela Rússia, mas a revolução que existe em Angola é subsidiada pelo americano. O americano está financiando uma revolução lá dentro!”. A Unita, até hoje, ainda é subsidiada pelo americano em armamento, em munição e dinheiro e tudo mais. “Que direito têm os Estados Unidos de intervir no país e lá provocar uma revolução?. Não temos nada com isso, não temos nada com a Unita. No passado, sempre transacionávamos com Angola, e agora temos interesse em trazer petróleo de lá”. Foi outra discussão. Eu dizia: “Vocês têm de abrir os olhos, o mundo é outro!. Vocês não podem ficar nesse círculo estreito!”. Eles engoliram a solução, mas evidentemente, resmungando.

* Ernesto Geisel, na sua biografia organizada por Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, editada pela Fundação Getúlio Vargas.

Pelo que disse o general Mourão, os “resmungos” atuais não são contra Lula e sua acertada política de relações internacionais mas, na verdade, contra o próprio general Ernesto Geisel, aliás alvo de suas críticas – e, não por acaso, da CIA, recentemente. O que Lula fez foi dar prosseguimento ao pensamento de Geisel, que não só reatou relações com Angola, na situação relatada por ele, mas também com a China, contra a vontade da linha dura. Ao contrário dos candidatos à “guarda pretoriana do Império“, Lula e a política externa praticada em seus governos tem compromisso com o Brasil e os brasileiros, da mesma forma que Geisel, a seu tempo.

O que pretendem os atuais herdeiros do general Silvio Frota, o chefe da linha dura da ditadura. com a política de isolamento internacional do Brasil e o alinhamento automático e submisso aos interesses políticos e econômicos norte-americanos? Imaginam que a indústria, o agronegócio nacional vai se submeter às sobre-taxas, sanções ou aceitar as retaliações norte-americanas, no atual estágio da guerra comercial mundial? Acreditam que, a essas alturas, o povo aceitará a política de recolonização selvagem, sob o chicote de capitães do mato, imposto pelo imperialismo decadente?

As palavras do general Mourão traduzem a negação da história do Exército Nacional, parido na “Guerra Brasílica”, no século XVII, que uniu índios, negros e portugueses – ou seriam “mulambos”? – em defesa da integridade do território nacional, que expulsou os holandeses. Com esta visão exposta pelo general, por certo não teriam vez em seu Exército heróis daquela batalha como o índio Felipe Camarão, e sua esposa Clara Camarão, o negro Henrique Dias ou o português André Vidal de Negreiros. O Brasil é resultado da união das três raças, e muitas outras que aqui aportaram, contrariando frontalmente a xenofobia e o racismo que tentam impor.

O Brasil está no epicentro de uma grande batalha mundial, exigindo patriotismo, sabedoria e coragem de seus dirigentes para defender a soberania e a independência nacional e impedir a rapinagem das nossas riquezas e do nosso povo. O Brasil tem vocação para tornar-se uma grande Nação, fato que pode ser sintetizado atualmente na dimensão que assumiu o presidente Lula perante o mundo. As eleições no Brasil que se aproximam, portanto, são o principal acontecimento político mundial desses tempos, em que os brasileiros rejeitarão os novos Calabares e afirmarão a soberania nacional e popular.

* Mulambo é uma palavra de origem africana, usada durante o período escravagista no Brasil para se referir aos negros e ao modo como se vestiam.

Fernando Rosa & Felipe Camarão
No Senhor X
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Bolsonaro, Soberania e Alcântara

Corria o já longínquo ano de 2001. Na época, eu trabalhava como assessor para política externa e defesa nacional na Liderança do PT na Câmara dos Deputados e acompanhava todas as sessões da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) naquela casa.

Foi exatamente nessa época que a CREDN recebeu a Mensagem nº 296, de 2001, do Poder Executivo, a qual encaminhava ao Congresso Nacional o texto do “Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América sobre Salvaguardas Tecnológicas Relacionadas à Participação dos EUA nos lançamentos a partir do Centro Lançamento de Alcântara”, o famigerado Acordo de Alcântara.

Foi designado Relator da matéria o saudoso Deputado Waldir Pires, homem de profunda cultura jurídica e um grande patriota. Educadíssimo, modesto e um verdadeiro gentleman, como só os grandes homens são, o Doutor Waldir Pires me concedeu a honra de elaborar para ele seu parecer sobre o tema.

Estudamos minuciosamente o assunto e o Doutor Waldir conversou longamente com grandes especialistas na matéria.

Elaborei para ele um pormenorizado voto pedindo a rejeição do Acordo, por ser ele atentatório à soberania nacional, inteiramente assimétrico e colocar o programa espacial brasileiro em estreita dependência do programa espacial norte-americano. Na realidade, o objetivo não manifesto do acordo era mais impedir que o Brasil desenvolvesse seu próprio veículo lançador e cooperasse com países como a China, na operação da sua base de lançamentos. Mas isso é tema para um longo artigo.

O fato é que o parecer do Doutor Waldir, muito bem fundamentado, caiu como uma bomba na CREDN. O governo ficou em polvorosa, pois o parecer desmontava, com lógica cartesiana, todos os argumentos oficiais para a aprovação do Acordo. Os deputados, mesmo os governistas, ficaram impressionados e passaram a considerar improvável ou muito difícil a aprovação do ato internacional.

Fora do Congresso, a repercussão foi também muito grande, especialmente na área militar. Agora, que o Doutor Waldir infelizmente se foi, posso me permitir uma indiscrição. Ele me confidenciou que havia recebido uma mensagem do General Alberto Cardoso, então Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, expressando sua aquiescência com a posição contrária ao Acordo de Alcântara. Os militares de então trabalhavam, discretamente, pela rejeição do ato internacional. Queriam manter o controle da base e desenvolver o veículo lançador de satélites.

O governo reagiu exercendo muita pressão sobre os deputados da base. Surgiu, então, a estratégia de apresentar um voto que, em vez de pedir a rejeição pura e simples do Acordo, acolhesse todas as críticas ao texto e propusesse sua aprovação com supressões, modificações e ressalvas. O Doutor Waldir negociou com todos os partidos e apresentou um parecer aditivo que propunha uma série de modificações profundas ao texto do ato internacional.

A estratégia tinha duas vantagens:

a) Agregava apoio à posição crítica ao Acordo.

b) Elevava o papel do Congresso Nacional na apreciação de atos internacionais, na medida em que propunha alterações ao texto negociado pelo Executivo.

Na prática, sabíamos que as alterações que estávamos propondo, embora necessárias para preservar a soberania nacional, eram de tal ordem que jamais seriam aceitas pelo governo brasileiro da época e, muito menos, pelo governo americano. Sabíamos que, se aquele parecer fosse aprovado, o Acordo, tal como redigido, estava enterrado.

No dia da sessão de votação, fomos surpreendidos por uma série de elogios ao trabalho do Doutor Waldir Pires. Todos os partidos, sem exceção, manifestaram total apoio ao parecer do Doutor Waldir. Mesmo o PSDB e o PFL (hoje DEM) expressaram seu entusiasmo com o parecer. O mínimo que se disse é que a sessão era histórica, que o parecer era primoroso, que nenhuma outra Comissão teria capacidade de derrubar o trabalho que seria ali aprovado, como de fato aconteceu. Formou-se, assim, uma grande frente suprapartidária contra o Acordo de Alcântara.

Entretanto, chegou a hora de manifestar seu voto um deputado de perfil, por dizê-lo de forma eufemística, extremamente discreto, que só abria a boca, em geral, para defender pautas corporativas de militares e a finada ditadura. Nunca o vimos, naquela comissão, expressar opinião relevante sobre os grandes temas internacionais ou apresentar algum relatório ou projeto expressivo.

Para nossa surpresa, as Notas Taquigráficas da Câmara registraram para a história a seguinte manifestação:

“O SR. DEPUTADO JAIR BOLSONARO – Louvo a competência do Deputado Waldir Pires, mas por outras razões que, no momento, preservo-me de citar, voto contrariamente ao projeto”- Câmara dos Deputados, CREDN, Notas Taquigráficas, 31/10/2001)

Ficamos um tanto perplexos. Sabíamos que a maior parte das Forças Armadas queria a rejeição do Acordo e apoiava, por conseguinte, a proposta do Doutor Waldir Pires. Pensávamos que o referido deputado estava alinhado com essa posição. Ficamos mais perplexos ainda com a recusa do deputado em explicitar as razões que o tornavam a única voz discordante de uma grande frente pela soberania nacional e pelo programa espacial brasileiro.

Na época, imaginamos que o voto podia ser resultado de alguma implicância ideológica contra o PT ou contra o Deputado Waldir Pires, que fora figura proeminente no governo João Goulart.

Na perspectiva atual, contudo, talvez aquele voto faça algum sentido maior.

Com efeito, depois de ter batido continência à bandeira americana em Miami, Bolsonaro vem externando sua admiração a Donald Trump e sua intenção de alinhar a política externa brasileira e, portanto, a política de Defesa do Brasil, à geoestratégia global dos EUA.

Como Trump, Bolsonaro quer reduzir os compromissos do Brasil com as mudanças climáticas e a proteção aos direitos humanos. Como o imprevisível Trump, Bolsonaro e seguidores veem com desconfiança o multilateralismo e instituições como a ONU, associadas, em suas mentes delirantes, a uma “conspiração socialista global”. Também veem com muitas reservas as alianças estratégicas com países emergentes e o papel dos BRICS.

Recentemente, seu vice, o pitoresco General Mourão, o Ariano, associou a exitosa vertente Sul-Sul da diplomacia ativa e altiva a uma aproximação à “mulambada” de lá (África) e cá (América Latina), que só teria “atrasado o Brasil”. O povero não sabe que foi a “mulambada” de cá e lá (América Latina e outros países em desenvolvimento) que absorveu, entre 2010 e 2015, cerca de 60% das nossas exportações de manufaturados. Os países desenvolvidos, o pessoal loiro e de olhos azuis, de quem Mourão parece tanto gostar, compraram somente 40% dos nossos produtos industrializados.

A verdade é que o grupo de Bolsonaro ainda vive nos jurássicos tempos da Guerra Fria, ainda acredita na superioridade da raça ariana, ainda acha que existe uma “conspiração comunista global” e, portanto, ainda enxerga no alinhamento automático com os EUA uma salvação contra as terríveis ameaças dos “comunistas”, dos “quilombolas” e da “mulambada”.

Dentro dessa perspectiva macarthista, sobrevivente da Guerra Fria e da ditadura, aquele voto estranho do Deputado Bolsonaro contra a frente pela soberania nacional criada na CREDN, por ocasião da votação do Acordo de Alcântara, faz sentido. É possível que não tenha sido mero capricho político.

Afinal, para quem bate continência à bandeira americana e admira Trump, a defesa da soberania, a defesa da nossa base, deve ser coisa de “comunista” ou de “mulambos”.

Marcelo Zero
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Noam Chomsky no Barão de Itararé — assista

O professor Laurindo Leal Filho cumprimenta Chomksy, na sede do Barão do Itararé
Foto Luiz Carlos Azenha

Chomksy: Uma emissora que defendesse a derrubada do governo (como a Globo no Brasil) não seria tolerada nos Estados Unidos

Dentre os vários títulos informais concedidos ao linguista Noam Chomksy está o de Sócrates dos Estados Unidos, uma tarefa que desempenhou “nas sombras” por mais de meio século — ou seja, fora das páginas do New York Times e longe das lentes das redes ABC, NBC ou CBS.

Aos 89 anos de idade, ele é também uma espécie de ombudsman da hipocrisia ocidental, região compreendida aqui como os EUA e seus aliados europeus.

Foi essa a tarefa que Chomsky desempenhou na noite da segunda-feira, 17, ao se encontrar com blogueiros, jornalistas e ativistas na sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, no centro de São Paulo.

Chomksy começou sua palestra com um resumo da perversa supressão de informações que testemunhou ao longo de décadas nos Estados Unidos, patrocinada pelas mega corporações que vendem notícias e produzem na população estadunidense o que chamou, citando Gramsci, de “senso comum hegemônico internalizado”.

Seriam limites invisíveis não só ao que as pessoas podem dizer, mas pensar — um gulag intelectual forjado pela censura e autocensura.

Deu dois exemplos, relativos à guerra do Vietnã e à invasão do Iraque.

No primeiro caso, a opinião mais à esquerda era a do jornalista Anthony Lewis, do New York Times, que atribuía o início do conflito à “tentativa desajeitada de fazer o bem” dos Estados Unidos.

Quando a tentativa colapsou, nos anos 70, Lewis dizia que o custo seria muito alto para que os norte-americanos “impusessem a democracia e a liberdade ao Vietnã”.

Chomsky contrastou isso com as pesquisas de opinião segundo as quais 70% dos norte-americanos entrevistados consistentemente diziam que a guerra do Vietnã era “imoral”, não um erro como sustentava Lewis — pesquisas cujos resultados foram majoritariamente suprimidos da mídia e do debate sobre a guerra nos Estados Unidos.

No caso da ocupação do Iraque, a opinião mais à esquerda foi do próprio presidente Barack Obama, que descreveu o conflito como um “erro estratégico”.

Chomsky lembrou que foi exatamente assim, como um “erro estratégico”, que generais de Hitler descreveram a desastrada tentativa de abrir duas frentes na Segunda Guerra Mundial, contra a Europa Ocidental e a União Soviética.

Não é preciso dizer que o paralelo entre o que diziam os generais nazistas e Obama nunca foi traçado pela mídia nos Estados Unidos.

Outras pesquisas de opinião

Chomsky utilizou outros exemplos sobre a contradição entre o resultado de pesquisas de opinião e a opinião publicada — num dos casos, da mídia altamente concentrada e direitista da América Latina.

Relatou que, no Chile, estranhou o antichavismo de intelectuais locais, justamente quando pesquisas de opinião do Latinobarómetro, baseado em Santiago, registravam que os venezuelanos estavam entre os maiores apoiadores da democracia e de seu governo, ao lado dos uruguaios.

A oposição a Hugo Chávez havia, assim, penetrado no “senso comum” dos chilenos, mal informados pela imprensa local.

Exemplos de antichavismo epidérmico não faltam no Brasil.

Aqui, lembra o Viomundo, mesmo um doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, como Celso Rocha de Barros, ao atacar ideias bolsonaristas na Folha de S. Paulo, fez uma comparação bizarra.

O colunista, lembrando a proposta do vice de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, de fazer uma Constituinte de notáveis, escreveu:

Segundo o plano de Mourão, essa Constituição depois teria que ser aprovada por referendo. Nada contra referendos, mas, se você segue o noticiário sobre a Venezuela, já viu para onde isso vai.

Uma bobagem, já que a realização de referendos está prevista na Constituição da Venezuela, aprovada com amplo apoio popular: transcorrido metade do mandato, cumpridas determinadas regras, o governante pode enfrentar um referendo revogatório, uma medida eminentemente democrática.

Chávez, aliás, enfrentou um referendo revogatório, com o potencial de apeá-lo do poder — e venceu.

Outro exemplo de Chomsky refere-se à pesquisa Gallup feita em 2013, sobre qual país do mundo era a maior ameaça à paz mundial.

Nos Estados Unidos, os mais citados foram o Irã e a Coreia do Norte.

No resto do mundo, os Estados Unidos ganharam de lavada como “a maior ameaça à paz”.

Os resultados da pesquisa Gallup não foram divulgados na mídia corporativa dos Estados Unidos — e o instituto de pesquisas nunca mais incluiu a pergunta em seus levantamentos.

A Globo e o Brasil

Em sua palestra, Chomsky disse que os governos de esquerda da América Latina nunca de fato suprimiram a imprensa, como quiseram fazer parecer os barões midiáticos da região.

Ele lembrou que foi convidado por um amigo a visitar a Nicarágua quando o governo sandinista era acusado de limitar a tinta de impressão disponível para o diário La Prensa, o de maior circulação.

Porem, em sua investigação, Chomksy constatou que o jornal defendia abertamente os contras, guerrilheiros que promoviam guerra civil contra o governo sandinista com apoio militar dos Estados Unidos.

Chomsky disse que, nas mesmas circunstâncias, nos Estados Unidos, os donos do La Prensa provavelmente seriam colocados diante de um pelotão de fuzilamento, por apoiar a derrubada de um governo eleito instalado na Casa Branca.

Quando perguntando por que o presidente Lula não enfrentou a Globo no Brasil quando estava no poder, sem citar a emissora Chomsky disse que este é um padrão dos governos de esquerda em toda a América Latina: nunca de fato ameaçaram a mídia hegemônica.

Reafirmou que emissoras que promovessem ou tentassem promover a derrubada de governos jamais seriam toleradas nos Estados Unidos ou nos países aliados europeus — como o Reino Unido e a França.

Os donos destas emissoras, frisou, seriam no mínimo presos.

Os EUA e a América Latina

Chomsky não acredita numa invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos, embora as tentativas de sabotagem e subversão sejam conhecidas desde o golpe contra o governo Hugo Chávez.

Segundo ele, uma invasão vai além da capacidade de Washington.

Para fazer uma comparação histórica, lembrou que o golpe de 64 no Brasil foi planejado nos Estados Unidos e descrito pelo então embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, como a maior “vitória para a democracia” da metade do século passado.

Dois anos antes, em 1962, o presidente John Kennedy havia determinado que os exércitos da América Latina deveriam mudar de prioridade, da defesa do Hemisfério (herança da Segunda Guerra Mundial) para a doutrina de segurança nacional, ou seja, combater o próprio povo.

Tal era o grau de comando de Washington sobre seu “quintal”, frisou Chomksy.

Nos últimos 15 anos, no entanto, ele acredita que a América Latina esteve livre do “controle total direto” dos Estados Unidos, como se viu nos anos 60 e 70.

A ONU e Lula

Sobre a decisão do Brasil de desconhecer liminar do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que pediu a autoridades brasileiras que permitissem ao ex-presidente Lula concorrer ao Planalto, Chomsky disse acreditar que não haverá consequências internacionais.

Os Estados Unidos, lembrou, desprezam o Conselho e a própria ONU.

Destacando o “excepcionalismo” dos Estados Unidos quanto às regras internacionais, Chomsky apontou para a lei aprovada pelo Congresso norte-americano que permite aos Estados Unidos resgatar com uso de força militar qualquer soldado estadunidense que porventura for submetido à Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda.

Na Europa, a lei é conhecida jocosamente como “Lei da Invasão da Holanda”.

Governo socialista nos Estados Unidos

Chomsky afirmou que não vê no horizonte a eleição de um governo socialista nos Estados Unidos, embora o democrata Bernie Sanders se defina como socialista.

Segundo ele, a opinião pública moveu-se tão à direita nos EUA que hoje um governo social democrata moderado provocaria arrepios nos conservadores.

Um governo como o do general Eisenhower, por exemplo, poderia muito bem ser taxado de “socialista”, ironizou Chomsky.

Ele afirmou, no entanto, acreditar na construção de instituições socialistas dentro da ordem capitalista — como cooperativas e empresas controladas por trabalhadores, o que vem acontecendo nos Estados Unidos.

Pacto suicida

Chomsky falou em sua apresentação sobre a gravidade da crise ambiental.

Justamente no momento em que o aquecimento global ameaça, em duas gerações, provocar um aumento de dez metros de altura nas marés, a sociedade capitalista decidiu “maximizar o uso de combustíveis fósseis”.

Segundo ele, os bancos internacionais abriram os cofres para financiar a exploração petrolífera, mesmo diante da ameaça de extinção dos humanos.

O lucro acima de tudo, “sejam quais forem as consequências”, embala o que Chomsky chamou de “pacto suicida” do capitalismo.

Bolsonaro e a Economia

Um dos entrevistadores perguntou a Chomsky sobre os juizes e promotores brasileiros que foram treinados nos Estados Unidos e agora servem à Operação Lava Jato.

Ele traçou um paralelo com os economistas da região que foram treinados na Universidade de Chicago com as ideias de Milton Friedman — os “Chicago Boys”.

Coube a eles, por exemplo, implantar o plano econômico do governo Pinochet, no Chile, à base de torturas, assassinatos e desaparecimentos.

Foi um projeto piloto do neoliberalismo, que colapsou nos anos 80 e ganhou, então, o apelido irônico de “Chicago Road to Socialism”, estrada de Chicago rumo ao socialismo.

Chomsky encerrou a resposta com a lembrança de que o economista que mandará no Brasil, se Jair Bolsonaro for eleito, será um “Chicago Boy”, Paulo Guedes.

“Vocês podem imaginar o que viria por aí”.

Luiz Carlos Azenha

Assista a partir do minuto 43:

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Fernando Haddad, candidato de Lula, em entrevista na rádio CBN


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Breno Altman: sem povo na rua, o presidente eleito nem toma posse

"A ameça militar atinge cada vez mais a vida política do Brasil". Este é o alerta do jornalista Breno Altman, que expôs sua análise política semanal na TV 247, comentando também o episódio da facada que atingiu o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL), além do possível fracasso da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) representando o partido do golpe, que não decola nas pesquisas. 

Observando o esfaqueamento do candidato Jair Bolsonaro, ocorrido em Juiz de Fora (MG), Altman considera necessário separar o que é um fato da sua repercussão. "O ataque contra Bolsonaro não é uma invenção, as informações médicas são legítimas, de fato ele ficou entre a vida e a morte, assim como foi um maluco que o feriu", argumenta. 

No entanto, Altman ressalta que a repercussão da facada foi manipulada, citando as fake news com montagens relacionadas a Bolsonaro. "A partir do fato, seus aliados começaram a se movimentar para extrair feitos políticos do esfaqueamento", observa. 

Partido do golpe fracassado 

Altman classifica a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), representando o partido do golpe, como "insustentável". "O tucano não tem para onde correr, restou a ele um discurso desconfiável de pacificação do País, colocando-o em cima do muro", afirma. 

Ameaça militar 

Nesta semana, o comandante geral do Exército Brasileiro, General Villas Bôas, declarou ao jornal Estado de S.Paulo que a legitimidade do próximo presidente eleito poderá ser questionada caso Lula fosse candidato, além de dizer que o parecer da ONU garantindo os direitos políticos do ex-presidente não deve ser acatado.

"Villas Bôas deveria ser preso, afastado e demitido de sua função, após a entrevista que concedeu. Ele cometeu um crime que fere a Constituição e deveria ser punido", defende Altman. 

O jornalista ressalta que a participação política dos militares vêm aumentando no Brasil. "O Exército é a última linha de defesa da burguesia brasileira", expõe. 

O general da reserva Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro, declarou à Globo News que pretende fazer uma missão de paz na Venezuela. 

"Eu não desconsidero que o Exército brasileiro se envolva em uma aventura na Venezuela, financiado pelos EUA, para derrubar o governo legítimo de Nicolás Maduro. A posição das forças armadas hoje é de entreguismo, satélite dos interesses imperialistas", condena.

Altman ressalta ainda que, sem a mobilização popular, não haverá nem a posse do presidente eleito. "A batalha que se trava no Brasil é crucial, o resultado eleitoral terá que ser defendido nas ruas, general Mourão deixou claro que os militares estão disputando a tutela do regime democrático brasileiro", alerta.
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Forças Armadas ensaiam bote final contra a democracia

 Alerta importante 


Nunca fui de dar crédito a teorias conspiratórias com base em suposições, conjecturas e teses especulativas. Mas quando a realidade bate à porta é diferente. Nesses casos o melhor a fazer é se preparar para enfrentar a tormenta.

O sentimento nacionalista, que marcou sucessivas gerações das forças armadas brasileiras, foi banido da caserna. Lideradas por generais, almirantes e brigadeiros da ativa, e insuflados pelos radicais fascistas da reserva que gravitam em torno do Clube Militar, as tropas hoje se colocam na linha de frente dos defensores da rapinagem do patrimônio nacional.

Que ninguém se iluda: os militares se mantiveram em silêncio diante do fim da lei de partilha do petróleo, que resultou no crime de lesa pátria da entrega do pré-sal às petroleiras estrangeiras, por um único e simples motivo: a cúpula das três armas está sintonizada com os interesses imperialistas como nunca antes na nossa história.

Igualmente o ultraneoliberalismo do governo golpista de Temer conta com forte apoio fardado. O antipetismo visceral e doentio, que tomou o lugar do anticomunismo de outrora entre os oficiais de baixa e de alta patente, explica a passividade ante o fim da CLT (coisa que nem a ditadura ousou fazer) imposto pela reforma trabalhista, o congelamento dos gastos públicos por 20 anos, o projeto de reforma trabalhista e tudo que é modalidade de roubo dos direitos do povo.

E o moralismo udenista presente hoje nas forças armadas é seletivo e tem viés político-ideológico. Por isso, só enxergam corrupção em Lula e no PT. A roubalheira generalizada promovida pela gangue que ocupa o governo da República depois do golpe de estado não incomoda nem um pouco. Não é por acaso que o inominável capitão nazista, antes rejeitado pelo alto oficialato, hoje é o candidato da maioria esmagadora dos militares.

Como Temer é essencialmente um governante frouxo e rejeitado pela quase unanimidade do povo brasileiro, o comandante do Exército, general Villas Bôas, não se peja em dar opiniões políticas, pressionar o STF para manter Lula preso e, absurdo dos absurdos, posar como chefe de um poder supremo e despótico avisando que os quartéis não aceitam a candidatura de Lula.

Em qualquer democracia minimamente consolidada, que tem como um de seus pilares fundamentais a subordinação das forças armadas ao poder civil, Villas Bôas seria demitido e preso. No Brasil, o monopólio midiático, pedra angular da ditadura de novo tipo que vivemos, reverbera suas declarações com a maior naturalidade.

Só não vê quem não quer: os militares se preparam para não aceitar uma eventual e cada dia mais possível vitória de Fernando Haddad. Primeiro integrarão, junto com o Judiciário corrompido e a mídia, uma força tarefa voltada para impedir a todo custo que isso ocorra, com farto apelo a ameaças, denúncias, chantagens, calúnias e toda sorte de baixarias e sujeiras. Se nada disso der certo, tentarão uma intervenção direta ou apoiarão uma manobra antidemocrática qualquer para impedir a posse do candidato do Lula.

Desde já, cabe à esquerda e às forças democráticas investirem na mobilização do povo, única força capaz de não permitir que o fiapo de democracia que ainda nos resta seja arrebentado de vez.

Bepe Damasco, jornalista
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17 de set de 2018

Macri planeja fugir da Argentina


Na Casa Rosada, eles já estão em pânico, todos os dias falam sobre a saída de Macri, diante da possibilidade do default da Argentina.

Macri quer sair o mais rápido possível porque usar a corrupção do judiciário para perseguir a Cristina não está funcionando muito como um elemento de distração e alienação social.

Seus conselheiros mais otimistas dizem que colocarão Cristina na cadeia para distrair a opinião pública, mas ninguém acredita no Poder Judiciário da Argentina.

Para Macri, os assessores já lhe estão organizando uma linda casa em Roma para seu auto exílio.

O FMI não confia mais em Macri e hesita em continuar emprestando dinheiro a ele.

Na Argentina, Macri já aboliu vinte ministérios, incluindo saúde e trabalho, o país já é institucionalmente decapitado.

Enquanto o juiz Bonadío destrói muros e rouba objetos valiosos na casa de Cristina Kirchner no sul, a Argentina perde a soberania monetária todos os dias.

A televisão hegemônica não quer falar sobre a fuga de Macri, mas ela já começou a criticá-lo, de modo que a direita possa colocar um sucessor que defenda a especulação financeira.

Pode ser o presidente de transição da Argentina, o novo chefe da Suprema Corte, o juiz corporativo Carlos Rosenkratz.

Outro candidato da direita seria Sergio Massa, um aliado incondicional das corporações, mas que se disfarça de peronista.

Outro aspirante poderia ser o grande traidor do peronismo, o senador Miguel Angel Pichetto.

A Argentina sangra e não temos que esquecer os elogios da TV Globo para Macri quando este começou seu governo.

Na Argentina todos os dias as pessoas extraem seus dólares dos bancos.

Das reservas miseráveis ​​de 50.000 milhões de dólares, apenas 14.500 são do Banco Central, o restante é dos cidadãos argentinos, o Banco não pode vendê-los para impedir o aumento do dólar.

Os espetáculos de corrupção judicial não podem mais distrair os argentinos.

O juiz Bonadio não só destruiu as paredes da casa de Cristina, também roubou pinturas, bastões presidenciais de Nestor e Cristina, e uma espada que era uma réplica, uma de Simon Bolívar.

Macri quer fugir urgente da Argentina, ele sofrerá uma chuva de processos pelos assassinatos de Santiago Maldonado e Rafael Nahuel.

Macri tem também lavagem de dinheiro e organização criminosa com os serviços de inteligência e alguns juízes do Judiciário para montar processos judiciais de perseguição a opositores.

Todos os seus ministros têm dólares em paraísos fiscais, eles não querem repatriá-los, sabendo do colapso econômico que está se aproximando na Argentina.

Guillermo Gomez é jornalista
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Tony Garcia diz que Rossoni pediu R$ 5 mi para registrar voto pró-Cunha (+vídeo)


O empresário e ex-deputado estadual Tony Garcia acusou o deputado federal Valdir Rossoni (PSDB-PR), ex-secretário-chefe da Casa Civil de Beto Richa, de pedir R$ 5 milhões para votar a favor do arquivamento do pedido de cassação do deputado Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara, em junho de 2016. 

O acordo de delação premiada de Tony Garcia subsidiou a decisão de prender o ex-governador Beto Richa. "Eu tinha falado para ele [Beto] que o Rossoni tinha pedido cinco milhões pra mim, pra votar com o Eduardo Cunha na coisa da Comissão de Ética lá. Eu tinha falado pra ele. Não escondo de ninguém, o Eduardo Cunha era meu amigo. O Rossoni, fui lá no dia da votação, o Rossoni votou com o Eduardo para presidente e depois, quando veio o negócio da Comissão de Ética, aconteceu isso e eu falei pro Beto. Ele disse que eu podia cuspir na cara dele se um dia ele trouxesse o Rossoni", diz Garcia.

Por onze votos a nove, a Comissão de Ética aprovou o parecer pela cassação de Cunha. Rossoni votou a favor do relatório. Em sua delação, Garcia não explica se o acerto foi concretizado e se o dinheiro foi pago.

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Para Alberto Almeida, pesquisas indicam vitória de Haddad sobre Bolsonaro


O gráfico acima mostra a disputa de segundo turno entre Lula/Haddad versus Bolsonaro. A simulação da pesquisa é com Lula até antes da linha vermelha vertical, e depois dela é com Haddad. Todas as pesquisas com exceção da última são do Datafolha. A última é a pesquisa MDA que foi divulgada hoje.

Note que Datafolha e MDA coletaram os dados, respetivamente, nos dias 13 e 14, e 12 a 15. Isso quer dizer que a coleta do MDA começou um dia antes e terminou um dia depois do Datafolha.

O Bolsonaro do MDA e do Datafolha é idêntico nas últimas três pesquisas feitas com o nome de Haddad versus Bolsonaro. Contudo, houve uma pequena diferença entre Datafolha e MDA na última pesquisa no que diz respeito ao percentual do Haddad. Essa pequena diferença está na margem de erro. A rigor, a rigor, todas as pesquisas são iguais. O que aprendemos com elas é que há votos que eram do Lula e que em vez de terem ido para o Haddad foram para o Bolsonaro. É algo normal e compreensível. Coloquemo-nos no lugar do eleitor, ele pensa assim: “ora, o Lula saiu, não é mais candidato, aí vem uma pesquisa e me pergunta em quem eu vou votar, digo o nome do candidato mais falado na mídia (justamente por causa da facada)”. Esse nome mais falado é o do Bolsonaro.

A proporção de eleitores que não conhecem o Haddad é 35% dentre as mulheres, 41% dos eleitores com ensino fundamental, 39% dos eleitores com renda inferior a 2 SM e 35% dos eleitores do Nordeste. Ou seja, ele vai crescer muito ainda.

Só sabem que o Haddad é o candidato do Lula 45% das mulheres, 32% de eleitores com ensino fundamental, 40% de eleitores com renda até 2 SM e 50% do Nordeste.

Votariam em quem Lula apoiar 36% das mulheres, 49% dos eleitores com ensino fundamental, 46% com renda até 2SM e 49% do Nordeste.

Uma forma de torná-lo conhecido rapidamente é apresentando propostas de grande impacto simbólico. Algo como: aumento real do salário mínimo de X%, geração de 13 milhões de empregos.

Haddad ganha de Bolsonaro de 45% a 33% entre as mulheres, de 41% a 35% no ensino fundamental, de 45% a 33% entre até 2 SM e de 50% a 30% no Nordeste.

Alberto Carlos Almeida
No GGN
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Desajustado é o senhor, general


Você que, como eu, foi criado pela mãe ou pela avó, porque seu pai morreu cedo ou porque  o casal separou-se, fique sabendo: você é, para o General Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, é um “desajustado”.

“A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, mas sim mãe e avó. Por isso, é uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narco-quadrilhas”.

A diplomacia e as relações comerciais com os países do hemisfério Sul significa “nos ligarmos com toda a mulambada, me perdoem o termo, do lado de lá e de cá do oceano na diplomacia Sul-Sul”.

E os direitos humanos – aqueles da Declaração Universal – são “para humanos direitos”. Para os que o sr. Mourão considera “tortos” vale tortura, assassinato, privação de água, de comida, de diretos? Seus  heróis podem matá-los, naturalmente depois de submetê-los a civilizatórios paus-de-arara?

Quem sabe a Convenção de Genebra, que protege o inimigo estrangeiro capturado de ser submetido a torturas físicas ou psicológicas ou execuções a sangue-frio também não seja obra de esquerdistas infiltrados nos Exércitos do mundo inteiro em 1929?

O general vai se mostrando à altura – ou devo dizer às profundezas? – de seu chefe, o ex-capitão Bombita.

É estarrecedor que seja isso o que o Exército Brasileiro queira apresentar à Nação como mentalidade de seus mais altos oficiais, entre os quais esteve Cândido Rondon, com o seu “morrer se preciso for, matar, nunca”?

Declarações cheias de misoginia e brutalidade, por enquanto. Deus nos livre do que mais, amanhã…

Fernando Brito
No Tijolaço
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Os gorilas estão saindo da toca

O general, a tortura e o golpe, num programa de TV que foi a síntese de um Brasil que precisa de luz


Estarrecedora.

Foi a manifestação do general Luiz Eduardo Rocha Paiva durante um programa da Globonews, na sexta-feira (vídeo abaixo).

Os pontos que ele defende:

– Os militares podem intervir nos poderes da república independentemente de ser acionado pelo Executivo, Legislativo ou Judiciário.

  – Devemos ter uma nova Constituição, mas a palavra final deve caber a uma comissão de notáveis (a  comissão prepara o texto, vai para o Congresso, que discute, e volta para a comissão. Foi o que ele disse).

– O relatório da Comissão da Verdade não tem credibilidade alguma, porque só investigou os abusos cometidos pelas forças armadas.

O general passeava tranquilamente com seu discurso obscurantista quando o advogado José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, fez uma observação, um pouco tímida diante da gravidade do que era dito:

“Me desculpa, general, mas é muito perigoso o que o senhor está dizendo”.

O general manteve sua posição:

“Vai fazer o quê? Vai esperar o esfacelamento da nação? (…) Você vê hoje que o STF é dividido por dentro.”

Como se não houvesse divergência também na Suprema Corte dos Estados Unidos…

O tema do debate era o papel das forças armadas na democracia, e se discutia o auto golpe admitido pelo general Hamilton Mourão, candidato a vice na chapa de Bolsonaro.

O professor Wanderley Messias da Costa, da USP, tentou dissociar Mourão da opinião majoritária no Exército:

“O general é um ponto fora da curva, nesse aspeto. Por uma razão, ou por falta de leitura, ou por falta de debate, ou por alguma coisa da cultura política dele, não permite que ele avalie a complexidade que é o Brasil hoje, que não comporta esse tipo de análise simplória, eu diria que, até de certo modo, oportunista”, disse o professor.

O general discurdou.

“Não, é uma pessoa muito preparada (…). É uma pessoa de índole democrática”, afirmou.

José Carlos Dias lembrou que participou da Comissão Nacional da Verdade durante dois anos e meio e visitou muitos locais onde houve tortura e tomou depoimentos impressionantes.

“Foram revelações de violências praticadas. Acho que devemos dar um basta para que não voltemos a viver isso”, afirmou, diante do olhar direto do general.

Dias prosseguiu, em referência a uma declaração do vice de Bolsonaro:

“Me preocupa quando eu vejo saindo dos lábios de um militar de alto nível a afirmação de que o major Ustra foi um herói. Isso é gravíssimo. O Ustra foi indiscutivelmente o maior torturador, pelo que eu apurei, e eu advoguei muito na defesa de preso politico, foi o maior torturador que eu ouvi falar deste país”, disse Dias.

O general parecia disposto a não deixar nada sem resposta e apontou o que ele considera falhas no relatório da comissão. Pelo decreto que a criou, deveriam ter sido apurados violações de direitos humanos entre 1946 e 1988. Mas só houve aprofundamento dos casos da ditadura militar. Foi quando disse que o relatório não tinha credibilidade.

“É a sua opinião, general”, disse o advogado, que lembrou que as violações ocorridas em setores da luta armada foram punidas..

“Minha e de muita gente”, rebateu, a respeito da sua opinião.

Dias descreveu o conteúdo de um dos depoimentos, em que um major descreve como os torturadores agiam — arrancavam unhas e dentes, e queimavam os corpos ou jogavam no mar.

O general não se constrangeu.

“Todos os que combateram a luta armada, eles são muito bem considerados no Exército. Alguns violaram os direitos humanos? Sim, mas também os que estavam do outro lado violaram”, disse.

Rocha Paiva, como fez questão de frisar, não expressa um pensamento pessoal. Ela está presente no Exército, e o mais grave é que ela não se limita a uma interpretação sobre o que ocorreu no passado.

Está ativa e de olho no resultado das próximas eleições, como o general da reserva observou ao responder a uma colocação da apresentadora do programa sobre como seria a reação das forças armadas diante de um cenário de segundo turno, em que se enfrentariam Bolsonaro e Haddad.

“Uma coisa é o Haddad aqui em cima, o Lula aqui em cima. Mas quem dá a linha ideológica, perigosíssima, do PT está aqui embaixo. É José Dirceu, era o Marco Aurélio Garcia, o Pomar, porque eles estão implantando no país uma revolução silenciosa, que é a revolução gramscista, ocupando todos os espaços. O fato de o PT não estar no poder não significa que tenha perdido poder. O perigo para mim é: O Haddad vai estar aqui em cima, é paz e amor, mas aqui embaixo eles vão estar mobiliando e realizando a revolução gramscista”, afirmou.

Depois de treze anos no governo, o PT deu provas de que fez exatamente o contrário do que afirma o general.

O exemplo mais siginficativo: Nomeou um grande número de magistrados nas cortes superiores, seguindo prerrogativa constitucional.

Manteve o rodízio, e atendeu ao critério republicano para nomear o procurador geral. Foi sempre o primeiro da lista, ao contrário do que fizeram Temer agora e Fernando Henrique Cardoso nos seus oito anos de governo.

Para muitos, o PT foi de um republicanismo suicida, pois, quando houve o movimento para tirar Dilma sem crime de responsabilidade, o Judiciário não impediu.

E na prisão de Lula, fruto de uma condenação sem provas, o princípio da presunção de inocência foi violentado, e o STF não quis sequer julgar uma ação proposta pela OAB, relatada por Marco Aurélio Mello, para restabelecer a constitucionalidade do artigo do Código de Processo Penal que garante a liberdade dos brasileiros até o trânsito em julgado das sentenças.

Nesses casos, não se espera favorecimento ao PT, mas a observação de regras constitucionais. Nem isso o PT conseguiu, o que mostra que ele não tinha poder nem quando era governo.

O general diz palavras que parecem saídas da boca de um discípulo de Olavo de Carvalho.Com suas declarações sobre constituição escrita por notáveis, auto golpe e a tortura, Paiva Rocha indica caminho oposto ao da soberania do voto popular.

É preocupante, perigoso, como disse José Carlos Dias, ele mesmo preso um dia durante a ditadura, pela acusação de que era um advogado que defendia os direitos humanos.

Um absurdo completo, que parece voltar à cena agora, nestes dias de golpe em curso.

O que disse o general na Globonews é assustador. Tão assustador que, enquanto ele falava, chamava a atenção o cenário do programa — uma coincidência, claro —, escuro, com luzes amareladas em foco, como se fosse um local de interrogatório.

Desde que as instituições brasileiras aceitaram atalhos para o poder, com a formação do condomínio entre Temer e o PSDB que retirou Dilma do Planalto, o Brasil está neste lusco-fusco parecido com o do cenário do programa da Globonews.

Luz, o Brasil precisa de luz.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Ficha Limpa só vale pro Lula e TSE libera Garotinho pra concorrer


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acaba de confirmar a argumentação de que a Lei da Ficha Limpa só vale pro Lula. Anthony Garotinho, que é condenado em órgão colegiado por improbidade administrativa e que, segundo a Lei da Ficha Limpa não poderia ser candidato, recebeu uma liminar do TSE que suspende a sua inelegibilidade. A obra prima foi do ministro Og Fernandes.

Garotinho está na terceira posição mas, ainda mantém chances de seguir ao segundo turno pelo governo do estado do Rio de Janeiro, pelo PRB. Assim como Lula, concorre a um cargo executivo e da mesma maneira tem uma condenação em órgão colegiado e deveria ter sido impedido de concorrer ao governo do estado se o TSE fosse tão “sério” como afirmou ser com Lula. Juridicamente a condição de Garotinho é similar ao do ex-presidente.

A Justiça entendeu que Garotinho desviou R$ 234 milhões da Secretaria de Saúde do Rio entre os anos de 2005 e 2006, quando sua mulher Rosinha Matheus era a governadora. A condenação diz que ele cometeu ato de improbidade administrativa com lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito de terceiros.

“Está evidenciado o perigo na demora, tendo em vista o prejuízo irreparável que o autor sofrerá, caso tenha seu nome excluído da urna eletrônica a menos de um mês para a realização do pleito. Saliento que, nos termos do art. 16-A da Lei nº 9.504/97, o candidato cujo registro esteja sub judice poderá prosseguir na campanha eleitoral – inclusive com o nome e foto na urna eletrônica – até o julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral em única ou última instância”, afirmou o ministro Fernandes na decisão de hoje.

Vale lembrar que a decisão da CDH-ONU em favor de Lula tem como base, justamente, o mesmo argumento que Og Fernandes utilizou para liberar Garotinho do cumprimento da Lei da Ficha Limpa. Ou seja, o dano irreparável ao réu, caso seja considerado inocente nas instâncias superiores, o tempo não reteoagirá e a eleição terá passado, tornando o dano ao réu irreparável, dado que a possibilidade de inocência é juridicamente real.

É, parece que o judiciário está se acostumando a morder o próprio rabo.

No A Postagem
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Bolsonaro, Globo, Instituto Millenium unidos por Paulo Guedes: farsa neoliberal da ultradireita


Bolsonaro tem ganhado expressão eleitoral graças à desesperança de parte da população que, por conta da imensa crise orgânica que assola o país, enxerga nele uma expressão de algo distinto da política tradicional. Por “tradicional”, entende-se partidos capitalistas da ordem, que são considerados, corretamente, como corruptos. Na percepção dessa parcela que passou a apoiar Bolsonaro, o reacionário, homofóbico e racista candidato acabaria com a desordem instaurada na política com repressão e, ainda, acabaria com a corrupção, o que supostamente possibilitaria que a arrecadação pública fosse destinada às demandas do povo. Reside aqui uma ilusão de que Bolsonaro teria “pulso firme” para dar aos políticos tradicionais o que merecem. Nada mais falso. 

Se chegar a se constituir como governo, Bolsonaro será um serviçal a serviço dos mesmos e velhos interesses dos capitalistas. Um neoliberal com um porrete, mas, mesmo assim, como qualquer um dos políticos aos quais ele diz ser contrário, um neoliberal. Para além da sua patente dificuldade em concatenar palavras e ideias, e da elevação da já praticada violência estatal contra negros, trabalhadores e LGBTs, Bolsonaro reproduzirá completamente tudo o que tem marcado a política dos capitalistas no Brasil. A prova disso tem nome e sobrenome. A face “ilustrada” de Bolsonaro atende pelo nome de Paulo Guedes. Velho conhecido e chegado de monopólios como a Rede Globo, considerada “comunista” por grande parte dos eleitores de Bolsonaro, Paulo Guedes é um tipo ideal de representação da velha política neoliberal, ainda que mais profunda, com menos autonomia ainda para o país e mais farra para os banqueiros.

Nisso se revela um dos engodos de Bolsonaro. Voltemos à teoria marxista. Em um dos seus mais conhecidos conceitos teóricos, o de revolução passiva, o marxista italiano Antonio Gramsci abarca um complexo cenário histórico no qual se destaca a particularidade da revolução burguesa italiana com o Risorgimento, que assume dimensões nucleadas em torno da Restauração posterior à derrota de Napoleão, entre os anos de 1815 e 1830. Isso desencadeou aspirações nacionais e populares que não tomaram a forma de revoluções abertas, como se deu em 1848. Mas foram fortes o suficiente para impelir a classe dominante tradicional a fazer um acordo com a emergente burguesia nacional, a fim de desarmar o movimento popular que se gestava, levando esse processo a dar lugar a um Estado liberal monárquico na Itália. Em outras palavras, uma modernização conservadora.

O fascismo, por sua vez, integra o arcabouço conceitual das revoluções passivas. Isso porque se tratou de uma reação da classe capitalista italiana contra a revolução socialista, em especial a Revolução Russa, na qual se promovia uma determinada centralização econômica, mas contra o socialismo. Foi com o fascismo que os capitalistas puderam, em meio à enorme crise que se abateu sobre a Itália, aprofundada pelo crack de 1929, reencontrar sua unidade para a sustentação do capitalismo. A base econômica do fascismo estava ancorada na propriedade privada, mas era gerida por um “Estado forte”, violentamente repressor contra os trabalhadores. O Estado fascista, em nome dos interesses do capital financeiro, apoia-se na classe média arruinada pela crise econômica e instrumentaliza essa base contra as organizações da classe trabalhadora. Muito embora o fascismo tenha sido, portanto, um recurso dos capitalistas para salvar a propriedade privada dos meios de produção, por emergir de uma situação de crise econômica aguda e para ganhar a sua base social de classe média arruinada e vingativa, recorreu-se tanto na Itália quanto na Alemanha ao recurso ideológico de se lançar contra o liberalismo econômico e, discursivamente, contra o capital especulativo e bancário. Assim o fascismo defendia o intervencionismo estatal, para gerar a ordem, repressiva, contra a noção de livre mercado dos liberais.

Essa noção perpassou parte dos discursos e posicionamentos de Bolsonaro, ainda que de forma muitas vezes confusa, por conta do caráter obtuso tanto de suas ideias quanto da sua capacidade de expressá-las. Se, por um lado, é absolutamente claro o clamor dele por um Estado forte contra os trabalhadores, inclusive não poupando odes à ditadura militar e ao fechamento do Congresso caso eleito, do ponto de vista econômico, quando questionado, Bolsonaro não hesitou em afirmar que não precisava entender dessa área para se candidatar. Até que nomeou Paulo Guedes como eventual ministro da economia. Uma demonstração de que Bolsonaro não é apenas um ignorante em assuntos econômicos, mas um oportunista político que não teve qualquer problema em assumir uma face neoliberal, cuja declaração de que “o trabalhador terá que escolher se quer direitos sem emprego ou emprego sem direitos” é uma expressão cabal.

Paulo Guedes é graduado em Economia pela Universidade de Chicago. Simplesmente, o berço das vertentes teóricas contemporâneas do neoliberalismo, como Milton Friedman e George Stigler. Eles defendem as vertentes mais radicalizadas de privatização e um laissez-faire praticamente total na economia, englobando, evidentemente, o ataque e a retirada de todos os direitos sociais. Seus preceitos econômicos balizaram o Consenso de Washington e toda a ofensiva neoliberal de Margaret Thatcher e Ronald Reagan bem como a cartilha tradicional de instituições internacionais como o Banco Mundial e o FMI. Ademais, são da Escola de Chicago as diretrizes econômicas da ditadura de Pinochet, abertamente reivindicada por Paulo Guedes, em consonância com a escolha política atual de Bolsonaro.

Condizente com essa formação, Paulo Guedes é fundador do Banco Pactual e do Instituto Millennium. Essa segunda instituição é um think tank, financiada por ninguém menos que a, considerada “comunista” pelos eleitores de Bolsonaro, Rede Globo, além de monopólios financeiros norte-americanos, como o Bank of America Merril Lynch, para disseminar sua ideologia gerando um senso comum que lhes permita criar base de apoio às políticas de entrega das riquezas do país. Como assinala um estudo recente sobre os objetivos do Instituto Millenium:

O Instituto Millenium (Imil) foi fundado em 2005 com o nome de “Instituto da Realidade Nacional” pela economista Patrícia Carlos de Andrade. […] Patrícia Carlos de Andrade, Eduardo Viola (UnB) e Héctor Leis (UFSC) publicaram um artigo em O Estado de São Paulo no dia 13 de abril de 2005, intitulado “Revolucionando a agenda política”, no qual foi relatado o evento realizado em março. Nesse artigo, os autores diagnosticaram a existência de um vácuo onde deveria estar a direita política. “Falta-nos corrente político-cultural de direita moderna, que apresente alternativas de avanço para o País na conclusão da transição entre o forte estatismo que sempre caracterizou a sociedade brasileira e a real democracia de mercado, nunca antes experimentada”[1].

Em outras palavras, o think tank fundado por Paulo Guedes e financiado pela Globo busca retomar o velho neoliberalismo, responsável não apenas pela retirada dos direitos dos trabalhadores, como também pela crise econômica que arruinou grande parte dos eleitores de Bolsonaro. Portanto, a receita oferecida por Paulo Guedes é a mesma da defendida pela Rede Globo, Alckmin e todos os políticos dos partidos capitalistas tradicionais, com a diferença de assumir tacitamente que tal programa antipopular talvez só seja aplicável na base da bala. Em diversos artigos e entrevistas, Paulo Guedes destilou seu receituário, que se resume a privatizar todas as riquezas do país. Segundo ele, caso Bolsonaro seja eleito, uma de suas primeiras medidas seria “diminuir o passivo do país, vendendo ativos” ou, em outras palavras, privatizar, citando a Petrobras e o Banco do Brasil, o que segundo ele traria R$ 2 trilhões para a economia.

Mas o que Paulo Guedes esconde é que o lucro estimado do pré-sal encontrado no Brasil pelos especialistas do IPEA seria de US$ 10 trilhões (http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1464). Uma riqueza que se fosse completamente estatal e gerida pelos trabalhadores com controle popular poderia responder às demandas dos trabalhadores e do povo, como Saúde, Educação, e gerar empregos, além de financiar um plano de obras públicas.

Mas Paulo Guedes e Bolsonaro não estão interessados nisso. Estão interessados em garantir que aqueles que já lucram muito continuem enriquecendo. De acordo com entrevista concedida à GloboNews no final de 2017, para Paulo Guedes haveria três problemas econômicos, ao qual o governo de Bolsonaro daria as seguintes respostas.  Nas suas palavras:

Temos um passado mal resolvido, juros da dívida que revela a falta de dimensão fiscal. Levamos 14 anos para chegar à Responsabilidade Fiscal. A despesa de juros, eu herdo do passado, não tem como mudar. A única coisa que se pode fazer é vender uma estatal e reduzir a dívida assim. A única forma de atacar é reestruturar os passivos. E para isso se deve vender ativos, para reduzir o passivo. O Estado vai vender o quê? Pode vender a Petrobras. O ataque é frontal porque está com 30 anos de atraso. Tem que ser feroz nesse ataque. Por isso existem três frentes para atacar na economia. A Previdência, que a reforma resolve. Juros altos da dívida pública se resolve com as privatizações. E gastos com pessoal com uma reforma administrativa. Isso é o ataque frontal às despesas públicas[2]

Em outras palavras, Bolsonaro com Paulo Guedes fará a reforma da previdência, privatizações e demissões de trabalhadores dos setores públicos e privados. Qual a diferença com o que Temer vem aplicando e querendo aprofundar? Acerta quem responde: nenhuma, a não ser o aumento da truculência. A distinção se revela na ausência de legitimidade de Temer, que o impediu de aprovar a reforma da previdência. Se contrastamos com o programa dos neoliberais tradicionais do PSDB, encontramos ainda maiores correspondências. Não se trataria de uma revolução passiva de inspiração fascista, mas de mais neoliberalismo em escala ampliada com base na força bruta.

Para a juventude, na qual Bolsonaro detém 15% de intenção de votos graças à proscrição de Lula garantida pela Lava Jato, o plano é o mesmo. Paulo Guedes defende uma chamada carteira de trabalho “verde e amarela”, que nada mais é que a desregulamentação total de qualquer direito trabalhista para a juventude. Segundo essa política, o jovem e o capitalista seriam “livres” para chegar a um acordo sobre o regime de trabalho. Essa demagogia discursiva neoliberal quer apresentar a nefasta noção de que seriam equivalentes em poder de negociação um jovem de 17 anos e um capitalista dono de um monopólio.

Sobre a questão do combate à corrupção, novamente vem à tona a farsa de Paulo Guedes, por essa via também de Bolsonaro. Recentemente, soube-se que Paulo Guedes foi citado em um processo da Justiça Federal como sendo o beneficiado de um esquema fraudulento que levou a perdas milionárias da Fapes, fundo de pensão dos funcionários do BNDES, na Bolsa de Valores. Segundo consta em levantamento disponível na página do Congresso em Foco, Paulo Guedes enriqueceu em dois dias com R$ 600 mil por operações na Bolsa com ações fraudulentas, em um esquema que lhe renderia, no total, R$ 5 milhões. Isso não é necessariamente uma novidade. O neoliberalismo atroz do qual Paulo Guedes é um representante exímio foi a plataforma econômica responsável pelas maiores fraudes do capitalismo moderno, vide a própria crise capitalista internacional de 2008 baseada na especulação sem fim de ativos podres do mercado imobiliário norte-americano.

A modo de conclusão, cabe ressaltar que, como assinalou Trotski em suas análises sobre o surgimento do fascismo nos anos de 1930, esse é o produto da desesperança das classes médias arruinadas que se levantam contra os velhos partidos. É a expressão da “penúria dos pequenos proprietários sempre perto da falência, de seus filhos universitários sem emprego nem clientes”. No entanto, como demonstra Paulo Guedes, Bolsonaro não será um remédio aos males que esses setores sofrem, mas o aprofundamento das causas que o gerou, sendo distinto dos partidos tradicionais fundamentalmente pela elevação da repressão estatal e aprofundamento dos ataques aos direitos democráticos. Cabe aos trabalhadores à frente da juventude, dos negros e dos LGBTs, forjarem uma saída anticapitalista, que coloque as imensas riquezas deste enorme país a serviço de uma resposta profunda. Há que se lançar com paixão na construção dessa alternativa, que pode se apresentar como o partido da esperança revolucionária.

[1] SILVEIRA, Luciana. Os think tanks e o liberalismo econômico no Brasil – estudo de caso do Instituto Millenium. Disponível em (http://www.anpocs.com/index.php/encontros/papers/38-encontro-anual-da-anpocs/spg-1/spg19-1/9308-os-think-tanks-e-o-liberalismo-economico-no-brasil-estudo-de-caso-do-instituto-millenium/file)

[2] Entrevista de Paulo Guedes à GloboNews (https://www.youtube.com/watch?v=AhlWYtxyLgo)

Simone Ishibashi
No Ideias de Esquerda
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A falsa guerra de ciristas e petistas


À medida em que se aproxima o final do 1º turno das eleições, é natural a radicalização entre seguidores dos dois candidatos favoritos ao posto de guerreiro da civilização contra a ameaça Bolsonaro.

Mas seria importante que as cabeças mais esclarecidas, de lado a lado, impeçam a radicalização e a demonização do adversário de agora, que poderá ser o aliado de amanhã.

Haddad e Ciro representam o lado mais racional e criativo das políticas públicas, e estão do mesmo lado. Tem ideias claras sobre os diversos temas. E estilos diferentes de implementação.

Qualquer que seja eleito, se terá a garantia de interrupção do processo de desmonte da economia e das grandes negociatas administradas por Eliseu Padilha, Moreira Franco e Michel Temer.

Ambos buscarão um pacto de governabilidade, mas, aí, com estilos diferentes.

Há um diagnóstico claro sobre os problemas enfrentados pela democracia no país.

O mais grave deles é o fato de as instituições estarem completamente fora de lugar, com procuradores e juízes atuando politicamente, militares dando pitacos em política, o Supremo exposto a Ministros oportunistas, que cavalgam as ondas do caos institucional. E, coroando tudo, uma crise econômica gigantesca.

Seja quem for o eleito, enfrentará o maior desafio político desde a eleição de Tancredo Neves.

Na largada, Ciro Gomes traz a vantagem de não estar estigmatizado pelo antipetismo que, hoje em dia, move os poderes e a mídia. Assumiria o poder com toda a energia, inibindo a atuação dos inimigos da democracia.

No entanto, o jogo é insidioso e não é corrida de cem metros: é maratona que exigirá anos para a consolidação do poder democrático. O pico do poder e da popularidade de um presidente é no primeiro dia de mandato. Depois, há uma corrosão, no caso brasileiro acentuada crise e pelo papel deletério das Organizações Globo – que, definitivamente, entraram em um jogo sem saída.

Aqui, um parêntesis.

Haverá material de sobra para os historiadores do futuro, de como a falta de consciência sobre seu próprio poderio transformou a Globo em uma excrescência: um poder de Estado, sem ser Estado. Nessa escalada suicida, só haverá dois desfechos possíveis para esse jogo. Ou ela se torna poder definitivo, mudando a sede do governo para o Projac, ou será definitivamente enquadrada pelo poder político, assim que houver uma reorganização. Não haverá outra saída possível.

Como não há precedentes da história de um grupo de mídia assumindo o controle de um país, pode-se supor que seus dirigentes foram tomados pelo mais perigoso dos porres:  a miragem da onipotência que, aliás, parece ter atingido todo seu corpo de jornalistas. (clique aqui).

Se Ciro entusiasma na partida, há dúvidas sobre a estratégia de chegada. O enfrentamento, de peito aberto, de uma relação imensa de adversários – do poder político (PMDB/PSDB), partido da Justiça, poder militar e, por tabela, a mídia – lança dúvidas sobre os resultados do jogo no médio prazo. Seja qual for o resultado, se manterá o país conflagrado.

No caso de Haddad, o jogo é outro. Terá dificuldades na partida, devido ao antipetismo radical. Mas toda sua estratégia será em direção a uma grande coalisão que reponha o primado do poder político e permita a reconstrução gradativa das instituições. Para tanto, Haddad terá que contar com a assessoria dos quadros petistas mais experientes, como Jacques Wagner, Sérgio Gabrielle, Ricardo Berzoini, todos orientados por Lula.

Não há condições, a priori, de definir qual estratégia é mais viável. No primeiro dia de governo Haddad, o Partido do Judiciário reabrirá a caçada aos quadros dirigentes petistas. E não há como avaliar, agora, quais as concessões que serão necessárias para a consolidação do poder do Executivo.

Com Ciro, o jogo de desgaste será a médio prazo com a receita de praxe: escandalização de qualquer problema administrativo, superexposição de qualquer deslize verbal. Um de seus trunfos é o discurso anticorrupção. Como será trabalhado pela mídia, quando confrontado com outro discurso seu, o de impor limites aos abusos da Lava Jato e do Judiciário? E quando PSDB, PMDB e centrão se unirem no Congresso contra ele?

De tudo o que foi exposto, só há uma certeza: ambos, Ciro e Haddad, fazem parte do mesmo campo. E não podem deixar que o fragor dos últimos dias de campanha inviabilize uma futura aliança.

Luís Nassif
No GGN
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