21 de mar de 2019

Ruim para Bolsonaro: prisão de Temer poderá atingir Reforma da Previdência, diz Almeida


A prisão do ex-presidente Michel Temer nesta quinta-feira, por ordem do juiz federal Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, poderá impactar diretamente o andamento da Reforma da Previdência apresentada pelo atual presidente, Jair Bolsonaro, segundo um analista ouvido pela Sputnik Brasil.

De acordo com o cientista político Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Brasilis, o governo Bolsonaro não tem nada a celebrar pela prisão de Temer, sobretudo em um momento de muitas incertezas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.

Na opinião de Almeida, Temer – que foi várias vezes presidentes da Câmara antes de assumir o país, em 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff – é bem visto junto aos deputados e que a sua detenção, embora não tão surpreendente, pode afetar a forma com que eles enxergam o atual governo.

"A prisão dá para os políticos uma certa visão de que eles estão desprotegidos pelo governo. O juiz Bretas e, quando era juiz, o [atual ministro da Justiça Sérgio] Moro também foi um dos mais atuantes quanto às prisões por escândalos de corrupção, então quem está no Congresso olha e pensa: 'olha, o ministro da Justiça é o Sérgio Moro, o Bretas está prendendo no Rio, eu vou dar uma parada nas conversas que eu estava tendo com o governo para me certificar de que eu não corra risco, enfim, que outras figuras do sistema não corram risco'. Então isso é muito ruim para o funcionamento normal da política no Brasil", explicou.

Quem também foi preso nesta quinta-feira foi outro alto dirigente do MDB, o ex-ministro Moreira Franco. Para Almeida, não se deve esquecer que, ao lado de Temer e Franco, outro ex-ministro – Eliseu Padilha – era uma peça fundamental na articulação junto ao Congresso, e o atual governo Bolsonaro terá de apresentar respostas aos parlamentares atuais.

"Essa trinca é uma trinca que tem muita conversa com deputados. Quer dizer, acho que uma das mensagens que vão chegar aos deputados é que para apoiar o governo será preciso, em algum grau… acredito que eles vão ser libertados por algum habeas corpus, mas dali para frente da parte do governo será preciso algum grau de confiabilidade de que o governo irá agir, fará gestões no sentido de impedir novos fatos dessa natureza", avaliou.

O diretor do Instituto Brasilis ainda criticou a atual postura que se vê no combate à corrupção no Brasil, que privilegia, em sua visão, a velocidade ante a sustentabilidade.

"O que nós estamos vendo com esse certo voluntarismo é o sistema político estar todo em risco, inclusive deixando de tomar decisões importantes para o funcionamento da sociedade. Acredito que a Reforma da Previdência agora entra em uma zona de perigo muito grande, muito grave, e a gente fica se perguntando: a corrupção acabou por conta disso ou vai acabar por conta disso tudo?", questionou.

"As obras no Brasil estão paradas, estamos em uma recessão difícil de sairmos dela, talvez uma eventual não aprovação de qualquer que seja a Reforma da Previdência vai contribuir para o país ficar nesta péssima situação em que se encontra, então a gente precisa pensar os benefícios e os malefícios daquelas atitudes. Quer dizer, o combate à corrupção poderia e deveria estar sendo feito, mas de uma maneira um pouco mais lenta, gradual, e incremental", concluiu Almeida.

Denúncias e investigações contra Temer

O ex-presidente Michel Temer responde a um total de 10 inquéritos – cinco deles estavam no Supremo Tribunal Federal (STF) e foram remetidos à primeira instância, diante do fim do foro privilegiado do emedebista.

O caso que está com o juiz Marcelo Bretas trata das denúncias do delator José Antunes Sobrinho, dono da Engevix, que disse à Polícia Federal que pagou R$ 1 milhão em propina, a pedido do coronel João Baptista Lima Filho (amigo de Temer), do ex-ministro Moreira Franco e com o conhecimento do presidente Michel Temer.

Em nota, o Ministério Público Federal (MPF) informou que foram identificados a prática de crimes de cartel, corrupção ativa e passiva, lavagem de capitais e fraudes à licitação através de contratos fictícios da Engevix. O pedido de prisão preventiva se fez necessário, segundo o MPF, porque os crimes continuavam em "plena operação".

Em nota, o MDB lamentou as detenções e disse esperar que a presunção de inocência e liberdade de defesa sejam respeitadas.

"O MDB lamenta a postura açodada da Justiça à revelia do andamento de um inquérito em que foi demonstrado que não há irregularidade por parte do ex-presidente da República, Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco. O MDB espera que a Justiça restabeleça as liberdades individuais, a presunção de inocência, o direito ao contraditório e o direito de defesa", diz o texto.

Michel Temer foi o 37º presidente da República do Brasil. Ele assumiu o cargo em 31 de agosto de 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff, e ficou encerrou o mandato em dezembro do ano passado. Ao longo do mandato, conseguiu barrar duas denúncias de corrupção na Câmara.

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Advogado alvo de operação contra fake news diz que foi vítima de 'montagens toscas'

Adriano Argolo teve um aparelho de celular apreendido
O advogado Adriano Argolo, alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal, na manhã desta quinta (21), em um inquérito que investiga propagação de fake news e ameaças contra integrantes do Supremo Tribunal Federal, disse que foi vítima de “montagens toscas”. A operação ocorreu na casa dele, em Guaxuma, Litoral Norte de Maceió.

Em entrevista ao programa Balanço Geral, da TV Pajuçara, o advogado, que já integrou o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral em Alagoas, disse que viu as mensagens que levaram ao cumprimento do mandado e, segundo ele, são postagens que ele não fez no Twitter.

“Uma montagem grosseira. Eu tenho perfil no Twitter e faço críticas contundentes ao ‘status quo’ do Brasil atualmente. Sou crítico da operação Lava Jato, sou contra inclusive a CPI da Lava Toga [para investigar o STF], e hoje fui surpreendido por esse mandado”, afirmou.

Argolo disse que a Polícia Federal chegou à casa dele por volta das 6h. Policiais teriam tentado pular o muro, mas sem sucesso, até que ele teria aberto a porta. Foi levado da casa um aparelho de celular. “Não tenho armas, não tenho drogas, não tenho documentos comprometedores. O delegado me mostrou posts meus no Twitter que eu não escrevi”, declarou.

O advogado afirmou ainda que é filiado ao PT e é de esquerda. “Tenho orgulho desse mandado porque é o numero 1 dessa investigação”, disse na entrevista.

No Thn1
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Pesquisas mostram que eleitor já conhece a verdade. E se libertará


"Conhecereis a verdade e ela vos libertará". Quem diria que o presidente Jair Bolsonaro visse voltar contra si a palavra que ele tanto explorou, como discurso fácil, na campanha eleitoral. O então candidato repetiu tanto João 8:32 que, ao que tudo indica, a verdade está sendo conhecida e se materializa em forma de pesquisa de opinião pública.

E as últimas pesquisas são elucidativas: conhecido o governo, com apenas dois meses e 20 dias, a verdade começa a surgir, de maneira implacável. E o eleitor já dá sinais de que abandona o eleito. Daqui a pouco se libertará.

A pesquisa mais recente saiu ontem, a do IBOPE, constatou a ampliação do grupo daqueles que acham o governo Bolsonaro um horror. Cresceu de 11% a 24% o universo dos que responderam "ruim" ou "péssimo". Já os que ainda acreditam na gestão do "mito" e a consideram "boa" ou "ótima", não são mais 49% e caíram para 34% dos que responderam ao levantamento. É bom já ir se acostumando, pois, o governo é carro de ladeira abaixo.

Mas, não é para menos. Trata-se de um governo atrapalhado, sem dono, com ministros bizarros e filhos mandões, que faz os brasileiros passarem uma vergonha atrás da outra. Se o governo tivesse começado há uma semana, a viagem da comitiva bolsonariana aos Estados Unidos já seria, por si, motivo suficiente para despencar qualquer popularidade.

O que o "presidente-amigo" fez na presença do ídolo dele, o topetudo Donald Trump, consolidou a posição de vanguarda ocupada pelo Brasil no ranking da chacota mundial. Bolsonaro demonstrou ao mundo como é fácil acabar com a reputação de um país e jogar sua soberania no lixo.

Evidentemente, a viagem patética à terra do Pateta não é determinante na derrocada de Bolsonaro nas pesquisas. A queda brutal e significativa é pelo conjunto da obra que vem sendo construída passo a passo, trapalhada a trapalhada, vergonha a vergonha, de primeiro de janeiro para cá.

A patacoada americana só piora muito as coisas.

Gilvandro Filho, Jornalista e compositor/letrista, tendo passado por veículos como Jornal do Commercio, O Globo e Jornal do Brasil, pela revista Veja e pela TV Globo, onde foi comentarista político. Ganhou três Prêmios Esso. Possui dois livros publicados: Bodas de Frevo e “Onde Está meu filho?”
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Maia vs Moro

Maia vai à guerra e diz que Moro é “funcionário de Bolsonaro”


Com todas as desculpas que disse ter apresentado hoje aos militares, o “Maia vai à guerra” que este blog apontou ontem sobre as declarações do presidente da Câmara era a mais evidente das verdades.

Hoje ele repete a dose e reage ao pedido de Sérgio Moro para abreviar a tramitação do pacote proposto pelo “justiceiro de Curitiba” engrossando o caldo:

[Moro?]O funcionário do presidente Bolsonaro? Ele conversa com o presidente Bolsonaro e se o presidente Bolsonaro quiser ele conversa comigo. Eu fiz aquilo que eu acho correto [sobre a proposta de Moro]. O projeto é importante, aliás, ele está copiando o projeto direto do ministro Alexandre de Moraes. É um copia e cola. Não tem nenhuma novidade, poucas novidades no projeto dele”

Maia, mordido com a onda de ataques e xingamentos que lhe fazem os seguidores de Bolsonaro nas redes sociais desancou o ex-Super-Homem de Curitiba:

“Eu sou presidente da Câmara, ele é ministro funcionário do presidente Bolsonaro. O presidente Bolsonaro é quem tem que dialogar comigo. Ele está confundindo as bolas, ele não é presidente da República, ele não foi eleito para isso. Está ficando uma situação ruim para ele. Ele está passando daquilo que é a responsabilidade dele. Ele nunca me convidou para perguntar se eu achava que a estrutura do ministério estava correta, se os nomes que ele estava indicando estavam corretos”.

Sérgio Moro, positivamente, não é mais um intocável. E não adianta ir chorar para o chefe, ele está endurado em Maia para que a reforma da Previdência ande. E, ainda que não estivesse, tenho lá minhas dúvidas se moveria uma palha pelo ex-juiz.

Fernando Brito



Mensagens de Moro por whatsapp durante a madrugada provocaram fúria de Rodrigo Maia

Após ser chamado de "funcionário de Bolsonaro" por Maia - que classificou o projeto de lei anticrime como um "copia e cola" - na noite desta quarta-feira (20), Moro emitiu nota na tentativa de colocar panos quentes, dizendo que seu projeto é "inovador e amplo", salientando que "o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais"


Pelo Whatsapp, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, abriu mais uma fissura na relação do governo Jair Bolsonaro (PSL) com o Congresso Nacional, desta vez com ninguém menos que Rodrigo Maia (DEM/RJ), presidente da Câmara e responsável por pautar projetos de total interesse do governo, como a reforma da Previdência.

Após ser chamado de “funcionário de Bolsonaro” por Maia – que classificou o projeto de lei anticrime como um “copia e cola” – na noite desta quarta-feira (20), Moro emitiu nota na tentativa de colocar panos quentes, dizendo que seu projeto é “inovador e amplo”, salientando que “o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais”.

A resposta ríspida de Maia foi provocada por mensagens enviadas por Moro no fim da noite de terça-feira (19) e que entrou na madrugada de quarta-feira (20). Em tom de cobrança, o ministro implorava celeridade no pacote anticrime, acusando Maia de descumprir um acordo e lamentando a criação de um grupo de trabalho para analisar o projeto.

Irritado, Maia pediu a Moro respeito e afirmou que era ele o presidente da Câmara, cargo que tem a atribuição de definir a pauta de votações da Casa.

Horas depois, partidários do governo Bolsonaro nas redes sociais começaram a fustigar Maia, principal aliado do presidente da República na votação da reforma.

A aliados, o deputado disse que o ministro estava sendo inconveniente pelo gesto e que não havia descumprimento nenhum de acordo.

Maia afirmou ter acordado com o Palácio do Planalto que priorizaria na pauta da Câmara a aprovação da reforma da Previdência, considerada crucial para a gestão de Jair Bolsonaro, e que na sequência colocaria o texto de Moro para tramitar.

No Fórum



Moro tem de aprender que não é mais Deus


Uma vez, durante o primeiro governo de Brizola, perguntei ao comandante dos Bombeiros como era a estrutura para manter impecáveis aqueles velhos caminhões vermelhos, de 40 ou 50 anos, que a corporação mantinha, enquanto os carros. no serviço público, se degradavam em quatro ou cinco anos . E a resposta veio, bem simples: “Brito, nos Bombeiros tem cadeia”.

Moro perdeu a cadeia e enfrenta dificuldades em colocar em curso a máquina de perseguição que sonhou montar no Ministério da Justiça.

Quis bancar o reizinho, correndo a encaminhar seu “pacote anticrime” antes da reforma da Previdência e deu-se mal, vendo-o ser fatiado e relegado à fila. Partiu para a intimidação do Supremo e tomou uma derrota significativa. Levou uma “enquadrada” do “chefe” Bolsonaro com o episódio da demissão da suplente de um conselho.

Assim, cheio de riscos e arranhões, saiu amassado de sua imprudente tentativa de reagir ao “banho-maria” em que Rodrigo Maia colocou  seu “pacote” e, em meio aos conflitos já duríssimos da reforma previdenciária, despachou cobranças, via Whatsapp, ao Presidente da Câmara.

A traulitada de ser chamado de “funcionário do Bolsonaro” é destas que deixa os danos visíveis a todos.

Se me perdoam o segundo aforismo do dia, quem não sabe calar, não sabe falar.

Não há escada mais difícil de descer que a da soberba e não está fácil para Sérgio Moro entender que decaiu da condição de deus onipotente que ostentou durante os anos de Lava Jato.

O fato de a ele tudo ser permitido, em razão de sua missão de destruir Lula, e o medo que inspirava em todos em que ousassem opor-se ou mesmo colocar reparos em suas ações atrabaliárias: eram “corruptos” ou, com muito favor, “defensores dos corruptos”.

Agora, divulgou um áudio respondendo a Maia, como você pode ver abaixo.

Como disse outro dia um ministro do STF, pode espernear à vontade.

Não tem mais a cadeia, não tem mais a mídia.

Ficou só com o apelo “padrão Cunha” de que “Deus abençoe esta grande nação”.

Mas ele não é mais Deus.


Fernando Brito
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PF está chegando perto dos mandantes da Morte de Marielle


Fontes com acesso às investigações do caso Marielle informaram o GGN que as investigações estão convergindo para três pessoas:
  • Jorge Picciani – ex presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro
  • Domingos Brazão – ex presidente do Tribunal de Contas do Rio.
  • Paulo Mello – sucedeu a Picciani como presidente da Alerj
os três são influentes nas áreas dominadas por milícias.

Luís Nassif
No GGN
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Xadrez da contagem regressiva para a queda de Bolsonaro

Mesmo assim, aceitou-se abrir mão de vantagens objetivas do comércio, das quais nem economias mais potentes, como a China, abrem mão. E tudo porque El Refundador gosta de Coca Cola, hambúrguer e da Disneyworld.


Peça 1 – as aventuras de um provinciano na corte do Tio Sam

A história do século 20 está coalhada de mandatários caricatos, seja no mundo real ou do cinema. Especialmente nos Estados Unidos, depois que se tornaram a economia mais poderosa do planeta, a figura do ditador (ou mandatário) terceiro mundista, deslumbrado, caricato, tornou-se um dos pratos prediletos no ramo das comédias grotescas nacionais.

Poucos personagens se igualaram ao show de ridículo de Jair Bolsonaro, El Refundador – o estadista que deu ao Brasil a refundação tão alardeada pelo Ministro Luís Roberto Barroso – nesta viagem à corte do Tio Sam.

 
Seus assessores principais o trataram como idiota. É o caso do Ministro da Economia Paulo Guedes dizendo em público que El Refundador “tem culhões” para segurar o aumento do gasto público. Lembra a história do desafio do “duvide-o-dó”, dos tempos de moleque. Ou, para os homens de negócios americanos, afirmando que El Refundador gosta de “Coca Cola e hambúrguer”, a única característica do modo de vida americano assimilada por ele. Esqueceu de falar da Disneyworld, CIA e FBI e da indústria de armas.

Tratar o presidente da República como idiota é uma falta total de respeito institucional pelo cargo, ainda que ele se comporte como um idiota, encantado pelo fato de Trump ter oferecido seu número particular de celular para ele. Trump nem precisou pedir reciprocidade porque a NSA já possui a agenda completa dos celulares das autoridades brasileiras.

O show se tornou completo com as investidas do filho número 3, as comemorações pelo Twitter do filho número 2, e o amuo do Ministro das Relações Exteriores por ter sido preterido na visita ao Salão Oval.

Nem Idi Amin, em seus tempos áureos, protagonizou tal vexame.

Peça 2 – o toma-lá-dá-lá

Não se ficou apenas no assassinato da imagem do país. As negociações bilaterais nada ficaram a dever às miçangas com que os conquistadores portugueses conseguiram cativar os silvícolas.

El Refundador aceitou isenção de tributos para importação de trigo e de suínos em troca de nada. Aceitou abrir mão das salvaguardas da Organização Mundial do Comércio (OMC) para nações em desenvolvimento em troca do apoio dos EUA para o ingresso do país na OCDE (a organização que reúne as maiores economias do planeta).

Não há um ganho efetivo sequer nesse ingresso. A OCDE atua no monitoramento das condições econômicas do país-membro, para torna-lo mais apetecível aos investimentos externos. É um monitoramento a mais nas políticas públicas. Tudo o que sugere pode ser feito de forma voluntária pelo país, sem se submeter a nenhum monitoramento. E só aderem países com multinacionais fortes, precisando de espaço para ampliar seu poder, não um país cujas multi foram destruídas por uma ação conjunta da Lava Jato com o Departamento de Justiça dos EUA, com base em uma legislação da OCDE.

Mesmo assim, aceitou-se abrir mão de vantagens objetivas do comércio, das quais nem economias mais potentes, como a China, abrem mão. E tudo porque El Refundador gosta de Coca Cola, hambúrguer e da Disneyworld. Entregou a base de Alcântara aos Estados Unidos, sem impor nenhuma condição de transferência de tecnologia. Tudo de mão beijada, apenas pela honra de aparecer em uma foto com Trump.

O evento comprovou a total incapacidade de El Refundador de defender o interesse nacional.

Peça 3 – a visita à CIA

A visita de Sérgio Moro à CIA, com o Refundador e tropa, é a comprovação fática da influência externa na Lava Jato.

Numa ponta, submete-se os sistemas de inteligência brasileira ao monitoramento da CIA, como ocorreu com a Lava Jato. Na outra, a política econômica ao monitoramento da OCDE. E, como recompensa, a divisão do butim das imensas multas aplicadas às empresas brasileiras, por esse conluio de Sergio Moro, Lava Jato e Departamento de Justiça.

As explicações de Moro para a visita não explicaram nada. A história de que foi tratar de narcotráfico não bate. O departamento de narcotráfico é o DEA, não a CIA. Nem bate a história das informações sobre organizações criminosas. A CIA trata de terrorismo, e de espionagem em outros países, não da influência das milícias nos governos nacionais.

Peça 4 – a queda na popularidade

Tem-se, neste Xadrez, então, três peças demonstrando a falta absoluta de uma estratégia de governo, de estatura mínima para defender interesses nacionais.

Ao mesmo tempo, as últimas pesquisas de opinião mostram o desabamento da imagem de El Refundador junto à opinião pública. O público pode demorar para entender desdobramentos de decisões econômicas. Mas os feitos do número 3 no Twitter, os vídeos pornográficos, as tolices diárias, ajudaram a acelerar o desmanche da imagem do número 0.

É impossível esperar dele qualquer mudança de estratégia, sequer qualquer esboço de estratégia política. É um tosco. A perda da popularidade é a antessala da perda de mandato.

Peça 5 – o fim do medo

Há dois pontos centrais que ajudarão a marcar o final de Bolsonaro, o breve.

O primeiro, a constatação das cortes brasilienses de que a escandalização com o governo não se resume a eleitores desiludidos, mas às próprias Forças Armadas. À esta altura, não há como o Alto Comando não se dar conta dos riscos de se deixar o país nas mãos desses desatinados. Especialmente à medida em que vai ficando claro o envolvimento do clã com milícias digitais e milícias criminosas.

O segundo, é o fim da blindagem da Lava Jato, com a explicitação dos interesses menores na criação da fatídica fundação de direito privado.

O ponto de inflexão foi a reação do STF (Supremo Tribunal Federal) contra o jogo de chantagens das milícias digitais e os ataques de procuradores nas redes sociais, com a decisão do presidente Dias Toffoli de mandar investigar a origem dos ataques. Por aí se quebrará a parte mais ostensiva da influência dos bolsonaristas-lavajateiros, com suas ameaças digitais.

No dia em que se contar a história da Lava Jato, aliás, ficará claro os movimentos de chantagem contra quatro ministros da corte – não necessariamente da parte da Lava Jato, mas das milícias de direita que se formaram em torno dela e que ajudaram a impulsionar o impeachment.

Há indícios de que pelo menos quatro Ministros se submeteram às pressões:


Luís Roberto Barroso – com o dossiê envolvendo sogra e esposa e investimentos imobiliários em Miami. Depois do aggiornamento de Barroso, não mais se falou do tal dossiê.

Luiz Edson Fachin –farta documentação (inclusive fotográfica) do trabalho realizado pela JBS em favor da sua eleição para o cargo, passando pelo empréstimo do jatinho da empresa para as visitas a senadores em seus estados de origem, e festividades típicas da corte brasiliense. A mudança de Fachin foi radical. E o dossiê não apareceu.

Carmen Lúcia – a casa que adquiriu, sub-avaliada, de um vendedor próximo a Carlinhos Cachoeira. O episódio mereceu uma nota em uma coluna de O Globo. Depois que a Ministra se alinhou ao punitivismo, o caso sumiu dos jornais.

Luiz Fux – é o tal Ministro que está sendo agora alvo de ameaças, conforme indicado dias desses por Gilmar Mendes, e não Barroso, como supus. As investigações da Lava Jato Rio estão indo a fundo no sistema judicial e nos escritórios de advocacia. Semana sim, semana não, há uma nota em jornal com insinuações sobre a delação do ex-governador Sérgio Cabral.

Nem se julgue que sejam cúmplices de atos criminosos. Foram subjugados unicamente com a ameaça sobre suas reputações. Abriram mão de convicções tratando reputação púbica – isto é, a serviço do público – como um ativo privado.

Nada disso ajudará a segurar a enchente quando o caso das milícias e de Marielle Franco for finalmente desvendado.

Luís Nassif
No GGN
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Em troca de nada

É fácil imaginar o que no Brasil sucederia a Lula, Dilma, Sarney ou Itamar se um deles fizesse uma pequena parte das entregas, em troca de absolutamente nada, de Jair Bolsonaro a Trump. Nem é preciso considerar, na comparação hipotética, o espetáculo de subserviência e bajulação — palavras da imprensa americana — dado em nome do Brasil. A comitiva brasileira, sem exceção para os generais, em momento algum se lembrou, um mínimo que fosse, de que representava um país cuja degradação ainda não arruinou a sua dignidade internacional — a última reserva.

Além das concessões substanciais, como importar trigo americano em desrespeito ao acordo que nos traz o trigo argentino, e de comprometimentos no jogo dos organismos internacionais, Bolsonaro e Paulo Guedes renegaram as muitas vantagens da filiação brasileira à OMC, Organização Mundial do Comércio. Como presente de consolação, o governo Trump promete (sem dar garantia) apoiar a entrada do Brasil na OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Da qual já se recebe a colaboração mais útil.

Simbólica das promessas que enrolaram as concessões brasileiras, ficará para a crônica histórico-anedótica. É a promessa de que Trump "se esforçará" para ver, por desejo seu, o Brasil na Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Para isso, teria duas hipóteses. Dadas as possíveis dificuldades para levar o Brasil até o Atlântico Norte, Trump pode ceder ao velho desejo americano inspirado pela Amazônia e fazer do Brasil o que fez do Alasca.

Apesar de situado no lado oposto ao Atlântico Norte, esse extremo das Américas integra a Otan desde que declarado estado americano. Na verdade é colônia, como os próprios Estados Unidos estabeleceram, por exemplo, para as "províncias ultramarinas" de Portugal na África. Com o correto argumento de que a dominação de território desconexo é própria de colônia, não de estado nem província, ou lá o que nomeiem.

A outra hipótese, menos própria para o estilo Trump, seria propor aos países europeus da Otan uma condição estatutária nova, para abrigar o Brasil. Ao que os europeus dariam duplo não. Mais nos gabinetes fechados, e ainda assim sonoros, do que às claras, entre os europeus e o governo americano a Otan é causa de crise grave. Os primeiros agem para a criação de uma Otan só europeia, cansados das exigências custosas do sócio, aliás, maior produtor de armas do mundo. Trump, por seu lado, acusa países europeus de atraso deliberado das contribuições financeiras, o que ninguém nega.

A importância dada por Trump ao encontro com Bolsonaro ficou exposta em seu convite à presença de Eduardo Bolsonaro. Criticada aqui e ridicularizada nos Estados Unidos, a presença foi muito boa. Mostrou que a natureza do encontro na Casa Branca, definida por Trump, foi apenas social. Entre duas pessoas que são presidentes, não entre dois presidentes no exercício de suas responsabilidades. Uma visita que levou muito, entregou mais do que levou e nada trouxe.

A não ser um motivo de curiosidade. Nossa. Não consta ter havido, jamais, a visita do presidente de um país ao centro de informação e de ações sigilosas de outro, ainda mais à monstruosa CIA. Por que isso se deu com Bolsonaro, é pior do que não sabido. Muito pior.

Janio de Freitas
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20 de mar de 2019

Popularidade vai parar de cair quando “Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro”


A única maneira de deter a queda de popularidade no curto prazo é Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro, o que implicaria em buscar o centro, diminuir de forma dramática a taxa de conflito, buscar zerar os ruídos políticos, procurar agregar, e passar a falar repetidamente para todo o país para gerenciar as expectativas (esperanças) dos eleitores.

O ótimo + bom do Governo Bolsonaro caiu 15 pontos, o regular aumentou oito pontos e o ruim péssimo aumentou 13 pontos. A série de dados em três meses mostra o fenômeno da queda com clareza: o eleitorado deixa de avaliar ótimo e bom, passa pelo regular e termina no ruim e péssimo.

Como a queda da avaliação positiva é rápida, espera-se que por inércia ela continue caindo no próximo mês. Há muitos motivos para uma trajetória dessa natureza, o principal é que o país continua em crise econômica e o governo – seu principal comunicador, o presidente – não “vende” esperança no futuro.

Quando Temer assumiu após Dilma a sua popularidade subiu em relação à antecessora. Era um sinal de que o eleitorado tinha esperança em dias melhores. Porém, como não veio a melhoria, nem o governo se comunicou com a população mostrando que estava se esforçando para que as coisas melhorassem, a popularidade de Temer entrou em queda.

Pode ser que Bolsonaro conheça a mesma trajetória. É importante ressaltar que o Presidente não compreende o seu papel de comunicador na atual posição, ao menos não deu sinais que assim o faz. Bolsonaro não fala para a maioria do eleitorado, não gera esperança em dias melhores e continua evitando as situações midiáticas espontâneas. Não parece que isso será modificado. Ele continua se comportando como deputado federal, falando para um conjunto restrito de eleitores.

O que é uma tarefa difícil, aprovar a reforma da previdência, ficará mais ainda. Os deputados não vão querer votar a favor de algo impopular defendido por um governo impopular, liderado por um presidente sem compostura no cargo.

O beneficiário direto da queda de popularidade do presidente é o PT, porque disputou o segundo turno com Bolsonaro. Há uma parcela de eleitores que jamais votará no PT, eles correspondem a 25% do total. Eles nunca votaram no partido, portanto, não podem ser classificados como anti-petistas. Eles simplesmente dão sustentação social, política e eleitoral à direita e centro-direita. O PT é beneficiário porque volta a ser visto como opção de poder pelos eleitores de centro, aqueles puco ideológicos e muito pragmáticos, que não guardam ressentimentos do passado e desejam dias melhores no futuro.

A única maneira de deter a queda de popularidade no curto prazo é Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro, o que implicaria em buscar o centro, diminuir de forma dramática a taxa de conflito, buscar zerar os ruídos políticos, procurar agregar, e passar a falar repetidamente para todo o país para gerenciar as expectativas (esperanças) dos eleitores. Tudo é possível, mas nem tudo é provável.

Alberto Carlos Almeida
No GGN
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PF dá sequencia ao "lawfare" praticado contra Lula e seus familiares.


"O relatório produzido pela autoridade policial não tem qualquer implicação processual e muito menos afasta a garantia constitucional da presunção de inocência em favor do ex-Presidente Lula e de seu filho Luis Claudio.

Trata-se de mero documento opinativo, com enorme fragilidade jurídica e distanciamento da realidade dos fatos, que dá sequencia ao "lawfare" praticado contra Lula e seus familiares.

Lula jamais solicitou ou recebeu, para si ou para terceiros, qualquer valor da Odebrecht ou de outra empresa a pretexto de influir em ato da ex-Presidente Dilma Rousseff ou de qualquer outro agente público. Tampouco teve qualquer atuação nas atividades da TOUCHDOWN, empresa de titularidade de seu filho Luis Claudio que organizava um campeonato nacional de futebol americano.

Luis Claudio, por seu turno, comprovou serem mentirosas as afirmações de delatores da Odebrecht. A empreiteira jamais suportou os custos de fornecedores da TOUCHDOWN. Especificamente no caso do grupo CONCEPT, referido por tais delatores, Luis Claudio apresentou o contrato de prestação de serviços firmado com a TOUCHDOWN e comprovou ter feito todos os pagamentos dos honorários contratados e das despesas incorridas durante a prestação dos serviços.

Espera-se que o Ministério Público Federal de São Paulo, a quem cabe a análise do material, siga a lei e encerre o caso em relação ao ex-Presidente Lula e a Luis Cláudio, tendo em vista que eles não praticaram qualquer ato ilícito."

Cristiano Zanin Martins
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Parlamento da Alemanha pede expulsão do embaixador dos EUA


Parlamento alemão pede que o embaixador estadunidense seja declarado "persona non grata". O embaixador pretende imiscuir-se nos assuntos internos da política alemã.

O embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell
O vice-presidente do parlamento alemão, Wolfgang Kubicki, pediu ao Ministério do Exterior que se declare como "persona non grata" o embaixador dos Estados Unidos da América na Alemanha, Richard Grenell, por recentes atos de ingerência nas políticas internas do país europeu.

A solicitação se deve a uma publicação do funcionário estadunidense na conta oficial de sua embaixada no twitter, na qual mencionou que os atuais orçamentos da Defesa alemã são preocupantes para os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

“Se um diplomata estadunidense atua como um alto comissariado de uma potência de ocupação, ele terá que aprender que nossa tolerância tem seus limites”, assegurou o vice-presidente do Parlamento alemão, referindo-se aos comentários do embaixador.

Kubicki assinalou que, a continuar a ingerência de parte dos EUA, sobre assuntos internos da Alemanha, lhe caberá enfrentar sérias consequências.

Sendo os EUA membro da OTAN, o presidente Donald Trump, tem qualificado o organismo de obsoleto e já questionou os aportes de outros países membros - como também a ONU - por serem "menores em comparação aos dos EUA". A esse respeito ameaçou em reduzir o aporte estadunidense na organização.

No Telesur
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Bolsonaro mandou Xi tomar ali...

"Viés ideológico" vai quebrar a agro indústria brasileira

Eles se entendem e quebram o Brasil
Estava no fim a entrevista coletiva em que ficou claro que Bolsonaro e Trump combinaram invadir a Venezuela.

Um repórter perguntou a Bolsonaro se ele pretendia manter relações comerciais com a China (o maior parceiro comercial do Brasil e dos EUA).

- O Brasil pretende manter relações comerciais com todo mundo, mas não com viés ideológico.

Trump o cumprimentou com entusiasmo e os dois viraram as costas para ir embora, quando alguém berrou para Trump: como vai o acordo dos EUA com a China?

Trump se virou e disse que a China vai muito bem...

Na verdade, os EUA e a China estão perto de fechar um acordo comercial.

Nele está previsto que a China trocará a soja que comprava do Brasil para os Estados Unidos.

Já que o Brasil (os bolsonários) equipara a China a meliantes e contraventores do comércio mundial...

Trump manda o Bolsonaro esculhambar a China, mas faz acordo com a China.

E o Brasil destrói o que tem de melhor: a agro-indústria...

Em tempo: se alguém souber o que é "comércio com viés ideológico" ganha uma dúzia de laranjas do Queiroz - PHA
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Ao romper com países parceiros na OMC e se aliar aos EUA na OCDE, Brasil terá prejuízo histórico


Em sua viagem aos EUA, Bolsonaro e seu ministro da economia, Paulo Guedes, pediram apoio ao presidente Trump para que o Brasil possa ingressar na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Trump condicionou o apoio dos EUA à pretensão brasileira à renúncia do Brasil em continuar a receber tratamento especial e diferenciado previsto para países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Pelas regras do GATT/OMC, os países considerados em desenvolvimento podem desfrutar de um tratamento especial e diferenciado que assegure a eles assegure certas flexibilidades no cumprimento das regras internacionais de comércio.

Esse tratamento especial inclui seis tipos de regras: 1) medidas destinadas a aumentar as oportunidades de comércio para países em desenvolvimento; 2) medidas de salvaguardas para proteger os países em desenvolvimento; 3) flexibilidade para cumprimento dos compromissos e para políticas; 4) períodos de transição mais longos para adaptação aos acordos; 5) direito ao provimento de assistência técnica para lidar com disputas comerciais; 6) medidas específicas para países muito pobres (LDCs).

O Brasil usava e ainda usa de tais medidas para proteger sua economia, ter acesso mais amplo a mercados e para desenvolver e manter políticas específicas destinadas à promoção de seu desenvolvimento.

De um modo geral, o tratamento especial e diferenciado permite ao Brasil: praticar tarifas de importação mais altas, ter tempo de transição mais longo para se adaptar a quaisquer novas regras da OMC, ter a possibilidade de, em negociações comerciais, não assegurar a reciprocidade plena às ofertas de países desenvolvidos, ter a possibilidade de acesso mais facilitado ao mercado dos países desenvolvidos e, sobretudo, preservar espaços para a implementação de políticas destinadas à promoção do desenvolvimento, como políticas de industrialização, de desenvolvimento regional, de ciência e tecnologia.

A própria OMC reconhece a existência de 183 cláusulas distintas, distribuídas entre os vários acordos da organização, que protegem os interesses de países em desenvolvimento.

Saliente-se, contudo, que os países desenvolvidos também conseguiram assegurar flexibilidades em áreas de seu interesse, como agricultura, por exemplo. Assim, o mercado de produtos agrícolas tem, nos países desenvolvidos, a proteção de uma montanha de subsídios, bem como de regras bastante liberais para a imposição de barreiras sanitárias e fitossanitárias, que impedem ou dificultam a exportação dos países em desenvolvimento competitivos nessa área, como o Brasil.

Mesmo assim, os países desenvolvidos e, em especial, os EUA, vêm tentando estabelecer novas regras que limitem o tratamento especial e diferenciado previsto nos acordos da OMC.

Dessa forma, os EUA apresentaram proposta na OMC, pela qual membros em desenvolvimento da organização não poderiam ter tratamento especial se forem membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ou candidatos a entrar na entidade; se forem membros do G-20; se forem classificados como países de "alta renda" pelo Banco Mundial; ou se forem responsáveis por mais de 0,5% do comércio mundial de mercadorias.

Aplicando-se tais critérios da proposta americana, ficariam automaticamente excluídos do tratamento especial e diferenciado Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Turquia, Arábia Saudita, África do Sul Coreia do Sul, Chile, Brunei, Egito, Hong Kong, Israel, Kuwait, Malásia, Nigéria, Filipinas, Qatar, Cingapura, Taiwan, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Vietnã.

Obviamente, o objetivo principal dessa ofensiva norte-americana não é o Brasil. O objetivo principal é a China, com a qual o governo Trump deflagrou uma guerra comercial e econômica.

Na OMC, China, Índia e África do Sul, nossos parceiros de BRICS, partiram para uma contraofensiva. Esses países, entre outros contra-argumentos, enfatizam que o principal indicador de desenvolvimento não seria o valor do Produto Interno Bruto (PIB), como querem os EUA, mas sim o PIB per capita. O PIB per capita de países e blocos tipicamente desenvolvidos, como EUA, Austrália, Canadá e União Europeia oscila dentre US$ 33 mil a quase US$ 60 mil. Já no caso da China, Índia e Brasil, ele fica em torno ou abaixo de US$ 10 mil. Os países em desenvolvimento destacam ainda o enorme fosso que os separa dos desenvolvidos nos mais variados campos, incluindo áreas nas quais os ricos se beneficiaram de flexibilidades nas regras internacionais no passado.

É preciso considerar, ainda, que, mesmo com esse tratamento especial e diferenciado, foram os países em desenvolvimento que mais abriram seus mercados, após a Rodada Uruguai da OMC. Com efeito, entre 1990 e 2009, tais países aumentaram suas importações em 10,5% ao ano, ao passo que os países desenvolvidos aumentaram suas importações, no mesmo período, em apenas 5,8% ao ano.

Em passado recente, o Brasil teria se somado a essa contraofensiva liderada pelos BRICS na OMC. Contudo, o Brasil de Bolsonaro preferiu somar-se aos EUA, nessa ofensiva contra os países emergentes na OMC.

Ao aceitar renunciar a esse tratamento especial e diferenciado na OMC, como contrapartida a um apoio duvidoso dos EUA para entrar na OCDE, o Brasil rompeu com seu compromisso histórico de defesa das posições dos países em desenvolvimento e, particularmente, com seus parceiros do BRICS.

Esse é, portanto, o primeiro grande prejuízo para o Brasil, em função de tal decisão. Um grande prejuízo diplomático e geopolítico. O Brasil aliou-se aos EUA, contra os países emergentes e os BRICS, numa disputa crucial na OMC. Essa nova posição do Brasil não será esquecida em votações na OMC e em outros foros internacionais.

Quanto aos prejuízos econômicos e comerciais, é muito difícil quantificá-los a priori. Mas pode-se argumentar, sem medo de errar, que eles deverão ser extensos, propagando-se, no médio e longo prazos, a todos os setores econômicos: agricultura, indústria e serviços.

Assim que o Brasil renuncie a esse tratamento recebido na OMC, haverá pressões insustentáveis para que o nosso país reduza sua proteção tarifária em toda a TEC (Tarifa Externa Comum). Isso criará um problema político adicional: terá de haver negociações com os nossos parceiros do Mercosul para que se proceda a essas reduções, pois o Brasil participa de uma união aduaneira com esses países.

Mas, independentemente dessa negociação, a redução das tarifas efetivamente praticadas ou consolidadas (tarifas máximas permitidas) deverá acarretar prejuízos de monta, especialmente para os nossos setores industriais que não possuem ainda muita competitividade.

Observe-se que o Brasil pratica tarifas médias ponderadas de cerca de 11% em suas importações, e tem tarifas consolidadas na OMC de cerca de 35%. Já a maior parte dos países desenvolvidos pratica tarifas médias ponderadas de apenas 3%. O tamanho potencial do tombo é, pois, enorme.

Além disso, o Brasil deverá perder todas as preferências tarifárias de que hoje desfruta nos mercados dos países desenvolvidos.

Ou seja, perderemos mercado externo para nossas exportações e, ao mesmo tempo, abriremos nosso mercado interno para as exportações de outros países.

Outro grande problema que tal decisão acarretará tange à perda das flexibilidades quanto à implementação de políticas de industrialização, de desenvolvimento regional, de ciência e tecnologia, etc., particularmente aquelas referentes ao acordo de subsídios e medidas compensatórias. De agora em diante, ficaremos mais expostos a ações de outros países contra nossos programas industriais na OMC e receberemos tratamento mais rigoroso nos panels daquela organização.

Por certo, o Brasil não receberá nenhum benefício dessa renúncia. É por isso que China, Índia e muitos outros países em desenvolvimento não abrem mão desse tratamento especial e diferenciado e resistem a ofensiva dos EUA, destinada a enrijecer a elegibilidade para dele desfrutar. Ninguém abre mão de tratamento especial, nem no plano interno, nem no plano externo. Até mesmo a Coreia do Sul, mesmo sendo membro da OCDE e bem mais desenvolvida que o Brasil, não abre mão do tratamento especial e diferenciado que desfruta n OMC.

Os defensores da proposta de Trump, aceita por Bolsonaro sem nenhum estudo prévio, argumentarão, porém, que os inegáveis prejuízos com a renúncia ao tratamento especial e diferenciado na OMC seriam compensados pelo ingresso do Brasil na OCDE.

Engano. Em primeiro lugar, porque o apoio dos EUA às pretensões brasileiras não é suficiente. Os países europeus também teriam de concordar. Isso será difícil.

Estão na fila para entrar na OCDE, da América Latina, Colômbia e Costa Rica. Após a entrada desses países, a prioridade será, para os europeus, permitir o acesso de outros países do Leste europeu, não o do Brasil.

Em segundo lugar porque, mesmo que consiga entrar na OCDE, os prejuízos serão maiores que eventuais benefícios.

E o que é a OCDE? É uma organização que reúne 35 países, a grande maioria nações plenamente desenvolvidas, com algumas exceções, como México e Turquia, por exemplo. Criada em 1961, a partir da experiência da Organização para a Cooperação Econômica (OECE), organização constituída para gerir o Plano Marshall, a OCDE é também conhecida como o “Clube dos Ricos”, pois seus membros, basicamente os EUA, os países europeus, Japão, Coreia, Canadá e Austrália, produzem mais da metade do PIB mundial.

Seu objetivo político e econômico fundamental é o de promover as virtudes da “economia de mercado”, que ela associa indissoluvelmente à “democracia” e aos “direitos humanos”. Em seu site oficial, constam como suas prioridades atuais “restaurar a confiança no mercado e nas instituições que o fazem funcionar” e “reestabelecer finanças públicas saudáveis como base para o crescimento econômico sustentável”.

Assim, trata-se de uma organização comprometida com os valores, os princípios e as teses neoliberais, bem como com o funcionamento desregulado do capitalismo financeirizado, tal qual convém a um “Clube dos Ricos”.

Portanto, a adesão do Brasil, se concretizada, não virá de graça. A OCDE só aceitará o Brasil após uma avaliação rigorosa de suas políticas e de suas práticas. Caso julgue necessário, a OCDE demandará as devidas correções de rumo.

Na prática, o pedido do Brasil será submetido a um grande número de comitês, que avaliarão a adequação do nosso país às suas regras e recomendações.

O Comitê de Investimentos, por exemplo, avaliará se o Brasil está conforme com suas determinações de que os países-membros estejam comprometidos com a liberação da movimentação de capitais, com a inexistência de restrições a pagamentos e transferências ao exterior (nada de controle de capitais e de câmbio), a liberalização dos serviços financeiros ao capital internacional, a proteção efetiva e rígida, para além do que determina o acordo TRIPS da OMC (TRIPS plus), da propriedade intelectual (nada de quebra de patentes), etc.

Por sua vez, o Comitê de Seguros e de Pensões Privadas avaliará, entre outras exigências, se o Brasil já assegurou a eliminação de barreiras à participação do capital internacional nos fundos de pensões. A relação com a Reforma da Previdência é óbvia.

E por aí vai.

O irônico é que o Brasil já tira proveito da OCDE, sem arcar com essas imposições e custos políticos. Com efeito, nosso país participa como observador da OCDE e se utiliza de alguns de seus programas, como o do PISA, que mede a qualidade da educação no mundo. Também já aderiu voluntariamente a algumas de suas convenções, como a “Convenção sobre o Combate da Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais”.

Então, por que insistir na adesão?

Em primeiro lugar, porque os governos pós-golpe, que se manietaram com a emenda constitucional do congelamento dos investimentos públicos, querem usar a OCDE como plataforma para atrair investimentos externos e inserir-se “nas cadeias globais de valor”. A OCDE daria, segundo eles, “um selo de qualidade” ao Brasil para a atração desses investimentos. Ora, isso é mito. O ingresso na OCDE não assegura fluxo de investimentos, especialmente de investimentos diretos. Esses investimentos só virão, independentemente do ingresso do Brasil na OCDE, caso o país volte a crescer de forma sustentada, algo que não ocorrerá, caso sigamos as determinações ortodoxas e neoliberais daquela organização.

A bem da verdade, o objetivo principal dessa adesão à OCDE é político. A finalidade pretendida pelo novo tzar da economia, Paulo Guedes, é blindar a sua opção ultraneoliberal em um acordo internacional de difícil reversão. Se o Brasil aderir à OCDE, ficará comprometido, sine die, com todas as exigências neoliberais dessa organização. Futuros governos, mesmo discordando dessa opção, ficariam obrigados a obedecer às diretrizes liberais ortodoxas emanadas da OCDE.

Na realidade, com a decisão tomada em Washington, a blindagem seria dupla. De um lado, renunciaríamos à proteção assegurada pelo tratamento especial e diferenciado na OMC. De outro, nos comprometeríamos, mediante o ingresso na OCDE, com os princípios neoliberais e de gestão ortodoxa da economia defendidos pelo “Clube dos Ricos”.

Mas a coisa vai além disso, que já não é pouco. Essa adesão formal ao “Clube dos Ricos” significa, do ponto de vista político e diplomático, que o Brasil renuncia definitivamente a sua política externa anterior e se submete aos desígnios estratégicos dos EUA e aliados e às demandas do mercado financeiro globalizado.

Com tal adesão, o Brasil sinaliza ao mundo que abre mão de ser um líder mundial dos países em desenvolvimento. Sinaliza que renuncia as suas parcerias estratégicas com países emergentes. Mostra que abre mão de um papel de relevo no BRICS. Sinaliza que renuncia a ideia de ter um espaço próprio e independente no concerto das nações.

Na realidade, essa adesão ao “Clube dos Ricos” é uma capitulação política e diplomática. É uma demonstração de submissão ideológica.

Saliente-se que, durante o governo Lula, quando o Brasil era respeitado no concerto das nações, fomos convidados a entrar na OCDE. Não pedimos. Fomos convidados. Se não formalmente, de forma pública e inequívoca.

Com efeito, o secretário-geral da OCDE na época (2009) afirmou, em entrevista à Folha de São Paulo (15.07.2009): "'Sobre a possibilidade de o Brasil se tornar parceiro formal da OCDE, só depende do país. As nossas portas estão abertas”. Mantega agradeceu, mas polidamente recusou, assinalando que Brasil não estava disposto a seguir as regras do bloco.

Bons tempos.

Marcelo Zero
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Estive em 26 universidades dos EUA e ninguém pensa duas vezes antes de definir Bolsonaro: “fascista”

Ativistas norte-americanos e brasileiros protestam contra a visita do presidente Jair Bolsonaro,
em 17 de março de 2019, na Lafayette Square, em frente a Casa Branca, em Washington, DC. Eric Baradat/AFP/Getty Images
No domingo, dia 17, Bolsonaro embarcou para os Estados Unidos para se reunir com empresários e o presidente Donald Trump. Com razão, ele anda preocupado com sua imagem pública de racista e ditador lá fora. Para mudar isso, o governo trocará o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral, “que não estaria vendendo uma boa imagem do Brasil no exterior”.

Será que vai funcionar? Minha andança recente pelos Estados Unidos me passou a impressão de que a tentativa será em vão.

Nos últimos dois meses, passei por uma espécie de peregrinação pelas universidades norte-americanas, em um giro acadêmico que teve uma agenda de grande amplitude: foram 26 universidades, 35 palestras e dezenas de encontros com jornalistas, ativistas, estudantes e coletivos organizados em defesa da democracia. A ideia do tour surgiu logo após as eleições, quando a professora Érika Larkins, diretora do Brazil Program da Universidade Estadual de San Diego, convidou-me para explicar (com base em minhas pesquisas e de Lúcia Scalco) o fenômeno da extrema direita e a ascensão de Jair Bolsonaro para os “gringos”, sob uma perspectiva crítica.
Deparei-me com uma comovente solidariedade internacional.
Dias antes de partir, quando a notícia de minha viagem saiu nos meios de comunicação, deparei-me com a habitual ignorância bolsonarista. Nas redes sociais, fui chamada de vagabunda, burra e terrorista que viajaria com o dinheiro público para difamar Bolsonaro – mesmo que estivesse divulgado que eu estava sendo financiada pelas universidades norte-americanas, um homem disse que, quando eu voltasse para Santa Maria, Rio Grande do Sul, cidade onde leciono, eu iria ser pega na rua para “tomar um laço” (sic).

Ao contrário da truculência bolsonarista, ao longo dessa intensa jornada, deparei-me com uma comovente solidariedade internacional. Os departamentos a que visitei estavam muito sintonizados com a situação brasileira, denunciando o fascismo (expressão que eu raramente uso em contexto acadêmico, mas que era amplamente empregada pelos professores que apresentavam a minha palestra) e as ameaças à democracia.

Rosana Pinheiro Machado, autora do texto, durante palestra na Universidade de Columbia, em Nova York.
Rosana Pinheiro Machado, autora do texto, durante palestra na Universidade de Columbia, em Nova York.
Foto: Reprodução/Facebook Rosana Pinheiro Machado
Em cada lugar que eu passava, intelectuais e estudantes conheciam as frases misóginas e racistas de Bolsonaro. Eu havia preparado slides no qual – antes de falar da minha pesquisa propriamente dita –, eu apresentava algumas das infames frases do presidente. Mas não foi preciso passá-los porque simplesmente os estudantes, das mais variadas nacionalidades, já conheciam sua retórica criminosa. Em minha palestra no Texas, um estudante japonês, antes mesmo da fala, veio me dar um abraço e disse que sentia muito pelo Brasil ser governado por um presidente que dizia coisas “tão feias”.
Ao menos nas universidades dos Estados Unidos, o bolsonarismo covarde é constrangido por sua própria debilidade.
Na academia norte-americana, os desvairados que por aqui me atacam não têm vez. Isso acaba constrangendo os próprios brasileiros bolsonaristas que por lá tentam agir. Por exemplo, na Universidade de Arizona, após anunciarem minha palestra, uma brasileira mandou um e-mail para o departamento dizendo que todo mundo deveria ir morar em Cuba ou na Venezuela. Alguns professores debocharam do ocorrido, outros ficaram sem entender muito o que uma coisa tinha a ver com a outra. Também teve uma bolsonarista, que não era estudante daquela universidade, que foi à palestra. Alguns estudantes me alertaram que ela poderia se manifestar agressivamente. Todavia, diante do debate em alto nível, ela simplesmente se calou.

Já mais para o fim do giro, na Universidade de Columbia, em Nova York, um jovem, que não era estudante da universidade, foi o primeiro a pedir a palavra e me perguntou se eu sabia os dados de aprovação da população brasileira em relação ao aborto e às armas (minha palestra não era sobre isso e eu claramente vi que era uma pergunta armadilha). Quando eu fui responder, ele, tremendo, ligou o gravador. Fiquei tensa evidentemente, e respondi que existiam muitos números, que minha fala não era sobre isso e devolvi a pergunta: “mas por que você está me perguntando isso? Qual a sua opinião?” Ele, atrapalhando entre o gravador e as respostas prontas que tinha escrito no celular, perdeu-se um pouco na tentativa de me encurralar.

Muitos bolsonaristas ficaram quietos ao final em diversos lugares, pois talvez esperassem uma palestra cheia de chavões ideológicos de uma ativista de esquerda que foi lá para “falar mal do presidente”. Mas encontraram uma análise acadêmica bem diferente disso.

Com esses exemplos, meu ponto é simplesmente assinalar que, ao menos nas universidades dos Estados Unidos, o bolsonarismo covarde é constrangido por sua própria debilidade. No total, respondi a 280 perguntas e comentários. Ainda que minha palestra tivesse sido focada em uma pesquisa antropológica bastante específica, a audiência não se restringia ao escopo da pesquisa e comentava sobre os mais variados aspectos da política brasileira.

Os especialistas em América Latina, especialmente de uma geração mais sênior, destacavam mais a Lava Jato e o impeachment de Dilma Rousseff como fatos decisivos na orquestração da eleição de Bolsonaro.

Já que nos Estados Unidos, o debate sobre preconceito na eleição de Trump é muito forte, o comentário mais dirigido a mim (em quase todas as universidades) foi que o voto de Bolsonaro era um ataque misógino — do angry white man, como destaca o livro de Michael Kimmel –, que havia se manifestado desde o impeachment de Dilma Rousseff. Lá, há uma grande discussão sobre o papel do racismo como um elemento motivador na eleição de Trump – após eleger um negro, parte da população não aceitaria eleger uma mulher como Hilary Clinton.

Os estudantes mais jovens, por sua vez, pareciam estar mais interessados em saber sobre personalidades específicas, principalmente Marielle Franco. Foi emocionante o fato de que, ao menos em um circuito específico lá fora, passei dois meses conhecendo pessoas que admiravam sua memória e estavam se organizando para o ato em 14 de março, um ano de sua morte.

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Atos em homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada por milicianos em 
14 de março de 2018, em diferentes cidades dos Estados Unidos. 
A segunda foto é do ato organizado pelo Grupo Re-Existir, de Santa Cruz, na Califórnia.
 Fotos:Reprodução/Facebook Rosana Pinheiro Machado
Emocionou-me ver o tamanho de coletivos organizados pela democracia brasileira por todo o país (de estudantes e não estudantes) e como esses grupos estão se organizando numa rede maior, encabeçada pelo brasilianista James Green. Somente em Nova York, existem dezenas de grupos, fazendo atividades, mesas e vigílias pela democracia ou por Marielle, por exemplo.
Nos circuitos de vida crítica nos EUA, Bolsonaro não tem vez.
A Califórnia foi um lugar interessante. Reduto bolsonarista, recebe muitos imigrantes trabalhadores e também estudantes brasileiros ricos. Em Los Angeles, Bolsonaro fez 90% dos votos. O que se contrasta com um estado progressista, berço da cultura hippie e do progressismo de Berkeley. Neste mesmo estado, Marielle está muito presente na memória dos estudantes norte-americanos de diversos cursos, provavelmente em função da ampla rede internacional que produz materiais e vídeos para manter vivo o seu legado. Estudantes norte-americanos vinham falar comigo e diziam que sentiam muito por meu país (e que eles entendiam porque também estavam nesse cenário!) e alguns até me perguntavam se eu sabia onde encontrar camisetas e adesivos da Marielle Franco. Uma jovem, ao ouvir esse questionamento, expressou: “Marielle no século 21 é o que o Che Guevara foi no século 20”.

Bolsonaro pode trocar embaixador, por se reunir com o Trump, pode pagar jornalistas, pode usar de todo o poder que tem em mãos, mas ele não mudará sua imagem porque, no fim das contas, ela reflete o que ele é. Suas palavras violentas ecoam no mundo todo. Ele pode até delirar coisas do tipo “universidades são dominadas pelo marxismo cultural” — como disseram seus bots em meu Twitter quando anunciei que escreveria esta coluna —, mas a verdade é que jornalismo e universidades ainda importam na formação da opinião pública. E Bolsonaro pode desprezar as universidades brasileiras, mas sabe o fetiche que as elites brasileiras cultivam pelas norte-americanas.

Nos circuitos de vida crítica nos EUA, Bolsonaro não tem vez. De modo orgânico, por meio de um clamor global por justiça, a verdade é que é hora de “ouvir as Marias, Mahins, Marielles e Malês”.

Rosana Pinheiro-Machado
No The Intercept
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Como a internet está matando a democracia

Jamie Bartlett é autor do livro “O povo vs tecnologia: como a internet
está matando a democracia – e como podemos salvá-la”, em
tradução livre
Foto: Arquivo pessoal
“Fomos muito ingênuos”, adverte o pesquisador e jornalista inglês Jamie Bartlett. Para ele, nos primórdios da internet “havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional.”

Não foi o que aconteceu, e segundo ele a radicalização atual nem era tão difícil de prever. Para Bartlett, os grupos radicais chegaram antes à internet por estarem fora dos jornais e do mainstream. “Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais”, explica. “Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes.” Como resultado, somos expostos a argumentos emocionais radicais e acabamos xingando e vociferando nas redes sociais.

Autor do recém-lançado livro The people vs tech: How the internet is killing democracy and how we save it (O povo vs tecnologia: como a internet está matando a democracia – e como podemos salvá-la, em tradução livre), ainda inédito no Brasil, Bartlett faz parte da Demos, um think tank britânico que reúne especialistas em educação e tecnologia para pesquisar temas relacionados à política.

Em entrevista à Pública, Bartlett fala sobre a radicalização promovida pelo ambiente online, desinformação, campanhas digitais e outros perigos da rede para a democracia.

Mas, mais do que constatar os problemas, o pesquisador propõe soluções para avançarmos junto com a tecnologia. Entre elas, um departamento governamental dedicado a fazer uma auditoria de algoritmos e uma base de dados pública, com registros instantâneos, de toda propaganda eleitoral publicada nas redes. Leia a entrevista a seguir:

O surgimento da internet, e depois das redes sociais, veio com a expectativa de uma maior democratização da informação e do debate público. Ao longo do tempo, essa ideia desapareceu. Pesquisadores, incluindo você, mostram que, ao contrário de democratizar, o ambiente virtual potencializou discursos radicais e extremistas. Por que isso aconteceu?

A primeira coisa que precisamos entender é por que fomos tão ingênuos no início. Havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional. Eu penso que boa parte da razão para essa crença veio do fato de que a maioria das pessoas por trás dessa tecnologia são pessoas da costa oeste dos Estados Unidos, da Califórnia. Pessoas extremamente liberais e grandes defensoras dos poderes naturais da livre informação e alienados das reais questões do mundo. E isso é só uma das explicações. Foi uma ingenuidade criar essas expectativas. As pessoas assumiram que a internet e as redes sociais seriam extremamente livres e que não haveria controle sobre as informações que estariam ali. Ninguém pensou nas consequências.

Mas, olhando com mais atenção, era possível ver que não seria bem assim. Na maioria das novas tecnologias, são as pessoas mais radicais, marginais e até criminosos que primeiro aprendem suas possibilidades. Eles têm essa vantagem, pois, na maioria das vezes, os mais autoritários se consideram excluídos, então dedicam boa parte de sua vida a novas técnicas e tecnologias.

O que eu descobri foi que, se você observar grupos de extrema direita, e até alguns grupos radicais de esquerda, na maioria das democracias, são eles os primeiros usuários de novas tecnologias. Neonazistas, por exemplo, encontraram maneiras de usar as redes sociais para espalhar suas mensagens, porque eles são determinados e não tinham outra forma de fazer isso. Se você os tira da mídia tradicional, é natural que eles procurem outros meios.

Adicione a isso o fato de que em troca da gratuidade das redes sociais nós damos a elas [as empresas de tecnologia] nossos dados. Assim elas tornam essas plataformas ambientes viciantes, para que fiquemos mais tempo lá, fornecendo ainda mais dados. E nossa tendência é clicar naquilo que for mais extremo, radical, inacreditável, pessoal.

Isso deixou as pessoas mais radicais, ou foram os extremistas que se tornaram mais fortes?

Boa pergunta. Eu acho que os radicais cresceram nas plataformas digitais porque tinham essa vantagem de serem usuários há mais tempo. Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais – não exatamente extremistas, mas somos exponencialmente expostos a conteúdos radicais e apelativos. Não temos a intenção de falar sobre essas temáticas, mas elas nos são apresentadas. Assim, quando entramos nessas plataformas, gritamos uns com os outros, discutimos sobre coisas pequenas, discordamos sem ao menos escutar o outro lado. Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes. E o resultado é que nos tornamos mais extremos.

E como Trump, nos EUA, e Bolsonaro no Brasil se beneficiaram desse ambiente polarizado?

Na minha opinião, esses políticos se baseiam em frases de efeito e soluções simplistas. E é exatamente isso que funciona nas plataformas de redes sociais. Discursos populistas sempre foram apelativos. Sempre se trata de apelar para o emocional, tratar problemas complexos com soluções fáceis.

As redes sociais são excelentes ambientes para amplificar essas mensagens porque não são tratadas como nos jornais, por exemplo. Com as notícias, temos que nos sentar e pensar sobre o que lemos. Não somos guiados por emoções. Mas nessas plataformas, sim. Quando compartilhamos conteúdos, esperamos respostas, curtidas, então é mais provável que publiquemos conteúdos que nos fazem sentir raiva ou animação do que conteúdos profundos e reflexivos.

Você acredita que essa radicalização impulsionada pelas redes é igual para a direita e para a esquerda?

É uma pergunta muito difícil de responder. Eu acredito que o discurso político que funciona nas redes pode ser tanto de direita quanto de esquerda.

Qual é o papel da desinformação nesse processo de radicalização online?

O problema não é a desinformação em si, mas o fato de haver diversas categorias de notícias falsas nas redes, e todas elas causam um efeito importante.

Na internet você acha todo e qualquer tipo de informação, verdadeira ou falsa. Há aquelas postadas por veículos de notícias e as que são apenas histórias de pessoas e também podem ser confiáveis. E há aquelas que são ruins e mentirosas. Ninguém sabe qual é verdadeira e qual é falsa. Então, no que as pessoas confiam quando não sabem no que acreditar é simplesmente em suas próprias intuições e emoções. Você confia no personagem que você acha que combina mais com você e fala coisas que você acredita. E isso é mais um elemento que beneficia os populistas porque eles geralmente são melhores em convencer as pessoas.

Não é simplesmente a desinformação pela desinformação, é que a informação circula em bolhas. Na rede você encontra dados e estatísticas para embasar qualquer opinião que você tenha. Cada um tem seus próprios fatos. E eles não estão exatamente certos, mas na internet é possível encontrar tanta coisa que existe informação para o que você quiser, tudo que valide sua opinião.

E estar envolvido em tanta informação assim é mais preocupante que as próprias notícias falsas. Por que é isso que faz com que as pessoas não saibam no que acreditar e parem de prestar atenção nos jornais para guiarem-se apenas pelos sentimentos. E é também isso que está tornando os políticos mais radicais, porque ninguém mais tem a autoridade sobre a verdade ou sobre os fatos.

No seu livro, você fala muito sobre o disparo de mensagens na campanha de Donald Trump com a ajuda de dados fornecidos pela empresa Cambridge Analytica. Você pode explicar como essa empresa ajudou Donald Trump, que não era do meio político, a ganhar as eleições nos EUA?

A tecnologia usada não era única ou inovadora, e vem sendo usada por publicitários há muito tempo. Eles basicamente identificaram pessoas que acreditavam que eram mais suscetíveis de serem convencidas pela campanha. O que eles fizeram foi construir perfis detalhados de milhões de americanos usando dados disponibilizados publicamente na internet. Esses dados, que podem ser comprados, incluem coisas como o valor da sua casa, que carro você tem, que revistas assina e muito mais. Eles pegaram o máximo de informações das pessoas que conseguiram e dividiram elas em grupos, enviando conteúdo mais provável de convencê-las.

Além de eleições, essa tecnologia pode influenciar outros aspectos da nossa vida. Somos bombardeados com anúncios personalizados, é como se as empresas soubessem mais de nós que nós mesmos. Como isso afeta a democracia?

Para mim, o maior problema é a popularização dessas técnicas de publicidade com dados, especialmente quando não há regulação. Significa que qualquer um pode dizer que seu opositor está trapaceando.

Qualquer um que perder uma eleição pode dizer que o adversário está usando dados de pessoas indiscriminadamente e manipulando eleitores com publicidade. E isso compromete a integridade de qualquer pleito. Quando você usa essas técnicas, na cabeça das pessoas, isso compromete a integridade de uma eleição.

Você não acha que a popularização dessas técnicas de publicidade vai fazer as pessoas questionarem suas escolhas e atitudes online?

É o seguinte: ninguém acha que foi influenciado por um anúncio. Nunca. As pessoas sempre falam: “Ai, isso não me afeta”. Mas, então, por que os publicitários investem tanto nas redes sociais? Por que eles já testaram e viram que realmente funciona.

Uma das razões pelas quais eu escrevi meu último livro foi para tornar as pessoas mais conscientes da maneira como seus dados estão sendo usados. E eu acho que as pessoas estão cada vez mais preocupadas.

Você vê um crescimento em outras formas de usar a internet?

Sim, eu vejo. Acho que está crescendo e melhorando. No Reino Unido, nós temos VPN [redes privadas individuais], que nos dá mais proteção de dados, e significa que empresas só conseguirão coletar nossos dados se dermos autorização, e isso nos dá o direito de pedir nossos dados de volta também. Já existem empresas que ajudam as pessoas a recuperar seus dados de outras empresas, novas redes sociais estão surgindo. Então, existem pequenas iniciativas nesse sentido. Eu não sei se vai funcionar, ou se vai fazer muita diferença, mas eu vejo melhora.

Existem maneiras de minimizar os efeitos dessa falta de privacidade online sem ser pela via completamente anônima e criptografada. No seu livro, uma das soluções que você sugere é o policiamento dos algoritmos. Você pode explicar como isso funcionaria?

Sim. O que podemos fazer é criar formas de controle democrático sobre os sistemas que possuem nossos dados pessoais. Uma das maneiras de fazer isso é da mesma maneira que fiscalizamos nossas instituições como escolas, serviços de saúde etc., para garantir que eles estejam funcionando. Com os algoritmos isso não é feito. Ninguém sabe se certos tipos de notícias estão sendo privilegiados pelos algoritmos, por exemplo. Eu não tenho a exata solução para isso, mas eu acho que é preciso criar um sistema de fiscalização.

A lógica é: se há um poder, é preciso criar um sistema de fiscalização.

Sim, mas isso precisaria ser feito pelo poder público, e os políticos que temos atualmente mostram muito pouco conhecimento sobre as questões do ambiente digital. Prova disso foi a audiência realizada com Mark Zuckerberg no Congresso americano. Você acha que essa equipe é capaz de formular políticas públicas eficientes nesse sentido?

Eu acho que é possível. Não é preciso ser um engenheiro de computação para pensar em soluções para esses problemas digitais. Eu só acho que é preciso disposição e investimento. Por que não seria possível instalar um departamento para fiscalizar algoritmos? Para mim parece possível e plausível, apesar das dificuldades.

Mas os problemas que temos são urgentes. Como cidadãos, o que podemos fazer?

O que eu mais tenho dito é que precisamos olhar nosso comportamento online como um passo. Eu acredito que temos o dever, como cidadãos, mais importante do que votar, de refletir sobre nosso comportamento online. Que dados estamos criando? Com quem estamos compartilhando? Que plataformas estamos usando?

Porque, toda vez que compartilhamos nossos dados, estamos contribuindo para a sociedade de controle que vivemos atualmente.

E as plataformas? Você acha que elas devem ser mais bem reguladas? De que maneira?

Sim. Eu acho que há regulações que podemos criar. A mais fácil delas seria definir essas empresas como publicitárias e investigá-las para combater oligopólios e promover a livre concorrência. Não pensá-las como plataformas de redes sociais.

Temos que ficar atentos às aquisições que essas empresas fazem, porque muitas vezes elas compram plataformas menores antes mesmo que estas se tornem competitivas. Então, temos que bloquear esse tipo de compra.

E há algumas outras coisas, como regular o conteúdo que circula nesses lugares, como o discurso de ódio. E multá-las caso não removam esses conteúdos.

Que outras medidas legais precisam ser tomadas na sua opinião?

Devemos atualizar as legislações eleitorais urgentemente, porque elas estão ultrapassadas. Uma das coisas que eu proponho é que todos os anúncios usados em campanhas eleitorais devem ser publicados em tempo real num banco de dados público para todos verem. Eu acho uma medida importante e fácil de ser implementada. Acho que isso pode aumentar a confiabilidade das eleições.

E também precisamos melhorar de uma maneira geral o sistema educacional, porque nenhum dá a verdadeira atenção para o estudo dos problemas de desinformação, deep fakesfake news. E as pessoas convivem com isso todos os dias. Portanto, precisamos de uma drástica melhora na maneira como ensinamos media literacy [alfabetização midiática]. Estamos muito atrasados.

Ethel Rudnitzki
No Pública
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