25 de jun de 2017

O tríplex e chácara serão devolvidos a União?

Divisão da sociedade brasileira tem nome e é "Lula condenado", ou para muitos irresponsáveis “Lula na cadeia”

Marisa e Lula
Ricardo Stuckert
Desde quando a Presidenta Dilma teve inicio a contagem regressiva para deixar o Palácio da Alvorada após se consumar o impeachment pelo Senado ficou evidente, para parcela significativa da Sociedade Brasileira que ali se consumava a primeira parte do Golpe. Dolorido para alguns que ainda não tinham se apercebido da trama, confortante para outra parcela comemorando o feito. O passo seguinte, obviamente para esse lado “vencedor” era conseguir inviabilizar a candidatura Lula para 2018. Hoje passados pouco mais de 12 meses a situação se apresenta outra. Apesar de esperado, o caos prenunciado há muito mais tempo pela Revista Carta Capital com a manchete a respeito de Eduardo Cunha – “O senhor Caos”, vivemos o avesso do avesso do avesso como diria o poeta Caetano. Qual o próximo ato?

A cartada que vem ai não se traduz apenas na substituição de um mandatário por outro, como no caso Dilma-Golpe parlamentar. O que se coloca em pauta nesse momento é o confronto social e político de duas metades da população brasileira. De um lado os vencedores com o produto do roubo ainda por dividir e de outro a expressiva maioria desta mesma população a cada dia mais empobrecida a procura de uma saída de como e até quando sobreviver. Essa divisão tem nome – Lula condenado, ou para muitos irresponsáveis “Lula na cadeia”. Não se trata de um caso parecido como Mandela, que na juventude optou pela luta revolucionária pegando em armas contra um regime opressor, até porque não tinha alternativa. Por consequência preso, não impedido, no entanto de atuar, como se viu, a partir do cárcere. Agora estamos diante de um senhor de 70 anos, cuja vida política e física já se consumiu. Corremos o risco de vê-lo morrer numa cela comum. E ai o Ato final torcida?

E ai que além de Luís Ignácio Lula da Silva não ter vinte e poucos anos, como Mandela no tempo de sua prisão, é preciso lembrar os motivos pelos quais Lula corre risco nesse momento – justamente porque se dedicou a construir um Brasil justo, popular, democrático e por essa razão criou contra si a ira de seus algozes. E quem são os personagens antagonistas, instrumentos para essa anomalia, ou mesmo essa covardia? Dois medíocres operadores do Direito que por motivos ainda não suficientemente esclarecidos se colocam no papel de traidores da Nação, ou até mesmo autores intelectuais da tragédia política e econômica que se aproxima se tamanha crueldade de consumar. Falamos de um promotorzinho aprendiz de Calvino e um juizinho de merda carola, com poder inimaginável que a Constituição “Cidadã” lhes contemplou. Inimaginável que a Carta Magna da Nação brasileira não tenha previsto casos de tamanha injustiça, recurso em grau superior que possa impedir esse erro. Pouco importa para os vencedores nesse luta hipócrita. No Direito Penal brasileiro, que antecede obviamente Constituição Brasileira, existem dois fatores predominantes – sem corpo não tem crime de morte, salvo quando entregue a cães famintos; sem produto do roubo não há furto ou roubo. Quais são os produtos do roubo na versão estúpida da dupla? Um apartamento e uma chácara e suas melhorias inclusas. Qual é a parte lesada? O patrimônio da União (da Petrobrás se preferirem). O que acontece com o que foi roubado quando se comprova um roubo? É devolvida a vítima. A pergunta é obvia – O tríplex e chácara serão devolvidos a União?

É claro que essa possibilidade não se cogita e tanto faz. Até lá 2018 estará concluído e Lula até poderá voltar pra casa, ou seus despojos entregues a família. Esse é o desfecho dessa tragicomédia bufa. Quem sabe uma tragédia latino americana em três atos, parodiando Sófocles.

Jair Antonio Alves
No GGN
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Vista suas galochas, o brejo está logo ali!

Como o Brasil passou de uma situação de ciclo virtuoso, com o Estado atuando na economia através de políticas de aumento do salário mínimo e ampliação de benefícios sociais, para um ciclo contrário, de recessão econômica, perda de direitos e renda, com aumento da desigualdade e pobreza

Manifestação contra as reformas trabalhistas e previdenciária. Brasília, 24 de maio de 2017.
Foto: Tiago Macambira
Em entrevista aos Jornalistas Livres o pesquisador Emilio Chernavsky, autor da tese de doutorado pela USP “No mundo da fantasia: uma investigação sobre o irrealismo na ciência econômica e suas causas”, conta um pouco da recente história econômica no Brasil e faz um alerta em relação à contra-reforma trabalhista que está em tramitação no Senado:

“Individualmente, para cada unidade produtiva, reduzir o custo de salários pode ser interessante. Mas se todos fizerem isso, cai a demanda da economia e não vai ter mais para quem vender.”

O pesquisador ainda elucida como o país passou de uma situação de ciclo virtuoso, em que o Estado interveio positivamente na economia através de políticas de aumento do salário mínimo e ampliação de benefícios sociais, por exemplo; para um ciclo contrário, de recessão econômica, com perda de direitos e renda, aumento da desigualdade e pobreza.

Achávamos que canções como “Brejo da Cruz” de Chico Buarque, que aborda a miséria, a exclusão, o sofrimento, a fome de crianças e a total ausência do Estado nas periferias mais pobres do Brasil, fosse ficar no plano da arte e da história. Jamais pensaríamos que os meninos desassistidos dos Brejos da Cruz espalhados pelo Brasil fossem novamente perder o mínimo de dignidade conquistada nos últimos 13 anos.

O menino da canção “Brejo da Cruz”, de Chico Buarque (1984), escapou da fome, da pobreza, foi à escola, cresceu, andou de avião, teve um filho. Agora este pai jardineiro, na tentativa de proteger o futuro do filho e aflito com sua lembrança sombria do brejo de sua infância de fome, encontra-se com a cruz na frente do brejo do Congresso Nacional. Virou Jesus. E ninguém pergunta de onde essa gente vem. (leia a letra da canção no final da entrevista)

Jornalistas Livres: De onde surgiu essa pauta da reforma trabalhista? Por que a reforma trabalhista enviada ao congresso era mais enxuta e só depois foi ampliada com emendas oriundas da CNI (Fiesp), CNT e FEBRABAN? Foi uma janela de oportunidade dentro do golpe? Ou o golpe foi pra isso mesmo?

Emilio Chernavsky: Foi a janela de oportunidade para realizar o “sonho de consumo” das federações patronais.

Nos últimos anos (desde 2003), o mercado de trabalho foi ficando cada vez mais apertado; os patrões perderam um poder de barganha para o trabalhador de uma forma que ele nunca tinha tido dentro dessas regras (Constituição de 1988), principalmente de 2005 até 2014.

Por quê?

Emilio Chernavsky: Você tem uma dinâmica virtuosa em que o aumento do salário mínimo, regulado por lei, conduz à expansão da renda no mercado de trabalho e também fora dele, via transferências da previdência. Isso aumentou a demanda interna na economia que, ao aumentar a procura por trabalho, diminuiu o desemprego. Com desemprego menor, o trabalhador tem condições de exigir salários maiores, que lhe permitem consumir mais, realimentando o ciclo de expansão da demanda. Esse ciclo virtuoso interno foi ainda ajudado por outro, de origem externa, o chamado boom das commodities que, ao aumentar seus preços e volumes, permitiu a entrada da moeda estrangeira (como o dólar), necessária para pagar as importações que também cresciam e, ao aumentar a oferta, ajudavam a controlar os preços no país.

Além da mudança das regras de aumento do salário mínimo, os governos do PT tomaram outras medidas que ajudaram a aumentar a renda do trabalhador e as transferências da previdência. São importantes nesse sentido, por exemplo, o esforço da formalização com a criação do MEI (micro empreendedor individual), e a facilitação no reconhecimento de direitos com mudanças regulamentares e a expansão de agências do INSS. Ou seja, ao mesmo tempo em que se aumentava o valor dos benefícios com a elevação do salário mínimo, aumentava-se também o número de pessoas com direito aos benefícios; dando impulso à demanda interna na economia.

Trocando em miúdos, esse dinheiro fruto do contínuo aumento do salário mínimo e das transferências previdenciárias vai ser gasto direta e indiretamente com o pequeno comércio (padaria, mercado, cabeleireiro, restaurante, loja de sapato, confeitaria, bicicletaria, pequenas fábricas e empresas de serviços)?

Isso! Comércios, serviços… que acabam tendo que contratar mais gente. Inclusive a indústria que atende ao mercado nacional cresceu muito naqueles anos. As pessoas começaram a comer mais, comprar geladeiras pra guardar alimentos, máquina de lavar, carro…

Aí então você entra naquele famoso ciclo virtuoso…

E com dois motores iniciais: a demanda externa e as políticas de expansão dos benefícios sociais e de aumento do salário mínimo. Por conta disso, o desemprego caiu e o salário aumentou ininterruptamente de 2003 (início do governo Lula) até o fim de 2014. Então, o que aconteceu? Os trabalhadores com mais poder de barganha podiam sair de um emprego ruim e mudar para um melhor, caso as condições de trabalho e o próprio salário não melhorassem. Essa situação foi favorecendo o lado do trabalhador e, com o crescimento da economia, também dos empresários até 2010 – 2011 – e alguns setores até 2014.

Além disso, os jovens começaram a entrar cada vez mais tarde no mercado de trabalho, a estudar mais, a querer melhores salários; tivemos também uma mudança demográfica e as mulheres passaram a ter filhos um pouco mais tarde e com isso não mais se submetiam a qualquer trabalho.

Com esse aumento relativo do poder de barganha dos empregados e o consequente aumento do salário, as margem de lucro foram encolhendo desde 2010 / 2011, ainda que o lucro tenha em muitos casos se mantido alto. Com a queda, o empresário, principalmente do setor de serviços em que o custo da mão de obra impacta mais na redução de seus lucros, vai querer ver salários menores…

Suponha que eu seja um pequeno empresário… Em um primeiro momento, reduzir os salários vai-me fazer bem, mas, num segundo momento, isso fará bem para a economia de modo geral?

Individualmente, pra cada unidade produtiva, reduzir o custo dos salários pode ser interessante. Mas se todos fizerem isso, cairá a demanda da economia e não haverá para quem vender. E com a redução dos custos de salários, com a reforma trabalhista e a redução das aposentadorias, prevista pela reforma previdenciária, a queda da demanda vai se aprofundar ainda mais.

Logo, efetuar essas reformas é dar um tiro no próprio pé….

Apoiar reformas draconianas nessas áreas em um momento em que o mercado de trabalho se encontra deprimido é um tiro no pé, já que vai reduzir a renda de muitos entre os próprios apoiadores. Os empresários tiveram anos de ouro e muitos ganharam muito dinheiro ao mesmo tempo em que muitas empresas foram criadas. E muitos, especialmente parte daquele novo pequeno empresariado que não tinha vivido longos tempos ruins como tivemos no passado, considerava que essa situação seria permanente. Ao perceberem que não é, e nos últimos anos verem seus lucros cair, a única solução que lhes ocorreu foi a que pareceu fazer sentido do ponto de vista individual. Daí apoio a essas medidas.

Se o trabalhador e o empresário (pequeno e médio) perdem com essa reforma, a quem ela interessa afinal?

Parte das empresas vai quebrar, mas de alguma forma vão continuar a existir empresas prestando serviços e produzindo. E as que ficarem, sobreviverão a custos menores e com taxas de lucro maiores.

E com isso vai aumentar a importância econômica dos oligopólios?

Você tem sim uma forte tendência à concentração dos mercados em muitos setores e, quando se reduz seu tamanho, que é o que tende a acontecer em muitos casos, os mercados tendem a se oligopolizar.

E o que ocorrerá em relação à formalização do mercado de trabalho?

Provavelmente, haverá uma formalização em determinados setores, mas o próprio trabalho formal tende a se precarizar, já que as reformas trabalhistas são em sua essência precarizantes, facilitando as demissões e reduzindo a remuneração.

É como se precarizasse as relações de trabalho da classe C sem ainda ter formalizado as relações das classes D e E.

É uma boa analogia.

E todas essas alterações propostas farão o emprego aumentar? Com essas novas flexibilizações de horários de serviços, o empresário vai poder contratar mais?

Vai poder, mas dificilmente o fará. Com o fim da hora extra (ou banco de horas individual) e com essa situação de crise, o trabalhador vai trabalhar o quanto ele conseguir. Dessa forma o empregador não vai precisar, num primeiro momento, contratar novos empregados para responder a um hipotético aumento da demanda.

Como fica a segurança jurídica nas relações trabalhistas? Não tende a diminuir?

Nosso sistema jurídico é custoso e gera incerteza. O sistema tributário é muito confuso, regressivo e também incerto, pois dá muita discricionariedade à fiscalização. A crítica liberal que aponta nossa excessiva burocracia é verdadeira. Isso é custo. E tendo todos esses custos, uma indústria mais velha, redução da escala produtiva e com a logística um tanto problemática não iremos concorrer, por exemplo, com a China, ainda que os custos trabalhistas cheguem a ser o mesmos que os praticados naquele país. Em resumo é isso: vai haver diminuição do mercado interno, aumento da pobreza e aquele pequeno empresário que defende essa precarização do trabalho vai dançar. E as contas públicas vão piorar muito, pois a arrecadação vai continuar caindo ou ficará estagnada..

E além disso tudo teremos uma situação inédita no país, em que a próxima geração que entrará no mercado de trabalho terá uma situação muito mais difícil que seus irmãos ou amigos mais velhos que, por exemplo, obtiveram bolsas de estudo para entrar na universidade, participaram de programas de habitação, não tiveram que entrar tão cedo no mercado de trabalho etc.



Brejo da Cruz

(Chico Buarque)

A novidade

Que tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

Alucinados

Meninos ficando azuis

E desencarnando

Lá no Brejo da Cruz

Eletrizados

Cruzam os céus do Brasil

Na rodoviária

Assumem formas mil

Uns vendem fumo

Tem uns que viram Jesus

Muito sanfoneiro

Cego tocando blues

Uns têm saudade

E dançam maracatus

Uns atiram pedra

Outros passeiam nus

Mas há milhões desses seres

Que se disfarçam tão bem

Que ninguém pergunta

De onde essa gente vem

São jardineiros

Guardas-noturnos, casais

São passageiros

Bombeiros e babás

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

São faxineiros

Balançam nas construções

São bilheteiras

Baleiros e garçons

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

Tiago Macambira
No Jornalistas Livres
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Pesquisa mostra que bancada evangélica está ‘em profundo desacordo’ com suas bases

“A bancada evangélica tem sido uma das bases de sustentação do governo Temer na aprovação das reformas, mas está em profundo desacordo com o que pensam os grupos religiosos”, disse ao Sul21 o professor Pablo Ortellado, da USP, um dos coordenadores de pesquisa realizada na Marcha para Jesus, em São Paulo.
Ainda que tenha no Congresso uma das bancadas mais vinculadas ao governo de Michel Temer, a população evangélica no Brasil não está necessariamente de acordo com os projetos mais polêmicos do Executivo – e tampouco tem posicionamentos morais fatalmente conservadores, ao contrário de sua presumida representação parlamentar. Pelo menos no que se refere aos dois milhões de pessoas, de acordo com organizadores, que participaram da Marcha para Jesus, em São Paulo, há matizes inesperados, quando considerado o senso comum a respeito de pessoas que frequentam igrejas neopentecostais no país.

Sobre os cortes governamentais em áreas como saúde e educação – uma das prováveis consequências da chamada PEC do Teto –, por exemplo, quase 92% têm opinião desfavorável; 86,6% acham que quem começou a trabalhar cedo não deve ter um limite mínimo de idade para se aposentar. Esses são resultados de uma investigação realizada por grupos de pesquisa da USP e da Unifesp.

“A bancada evangélica tem sido uma das bases de sustentação do governo Temer na aprovação das reformas, mas está em profundo desacordo com o que pensam os grupos religiosos”, disse ao Sul21 o professor Pablo Ortellado, da USP. Ele, ao lado de Esther Solano (Unifesp) e Marcio Moretto Ribeiro (USP), coordenadores da pesquisa, descobriram que para além dos posicionamentos divergentes quanto a temas mais vinculado à economia, os evangélicos estão também inseridos na tendência de opinião de descrédito em relação aos políticos.

A desconfiança tampouco varia se o político é evangélico ou não. “O Feliciano, o bispo Crivella, por exemplo, grandes lideranças evangélicas, têm o mesmo nível de desconfiança que lideranças católicas como, por exemplo, o Geraldo Alckimin. Bolsonaro tem o mesmo nível de desconfiança. De 50 a 60% das pessoas não confia nada em nenhum desses políticos que a gente citou”, explica Ortellado. O ponto fora da curva se dá no caso do ex-presidente Lula, cuja desconfiança é consideravelmente maior: o valor verificado foi de 84% de quem participou da pesquisa. 76,9% das pessoas entrevistadas disseram não se identificar com nenhum partido político, e, entre quem se identifica com alguma agremiação, a mais citada é o PSDB, seguido de PT e PSC.

Embora os resultados aferidos na Marcha para Jesus não representem necessariamente a opinião de toda a população evangélica no país – o evento é organizado há quinze anos pela Igreja Renascer, uma das mais conservadoras entre as neopentecostais –, a constatação principal é de que esse grupo não tem grandes diferenças de opinião, a respeito desses temas, do que a média dos brasileiros.  55% das pessoas que foram à caminhada são fiéis da Renascer, instituição que está, inclusive, por trás do Partido Social Cristão – a agremiação à qual se filiou o deputado federal Jair Bolsonaro. Os outros 45% estão dispersos em várias outras denominações evangélicas como a Assembleia de Deus, a Igreja Batista ou a Universal – e há até uma parte considerável de católicos. Ortellado ressalta que o fato de a Marcha ser realizada em São Paulo – “o PT tem um índice de rejeição muito alto aqui”, lembra – influencia nos resultados, que não podem ser automaticamente transferidos para todo o país.

Talvez os dados mais surpreendentes, entretanto, refiram-se às opiniões morais do grupo pesquisado. “O balanço geral é que são meio parecidos com o resto do Brasil, um país um pouco conservador, sobretudo no que diz respeito a aumento das punições a criminosos. Esse grupo não é diferente disso. Inclusive em temas que se esperava grande conservadorismo, como, por exemplo, o papel das mulheres, ele é relativamente progressista”, observou Ortellado.


“Em temas que se esperava grande conservadorismo, como, por exemplo, o papel das mulheres, ele é relativamente progressista”, diz Ortellado, sobre grupo de cristãos entrevistados na Marcha para Jesus.

Por exemplo: 63,4% das pessoas pesquisadas acham que a polícia é mais violenta com os negros do que com os brancos; sobre a frase “a escola deveria ensinar a respeitar os gays”, 77,1% dos entrevistados disseram que concordam; 70,5% acham que cantar uma mulher na rua é ofensivo; e 63,8% acham que não se deve condenar uma mulher por ter relações sexuais com muitas pessoas.

Há, todavia, divisões temáticas nas quais as pessoas pesquisadas se mostraram mais conservadoras, como em relação ao papel dos direitos humanos, o aborto, o programa Bolsa-Família e o feminismo. Em todos esses casos, o número de pessoas que têm opiniões menos progressistas é de pelo menos 65%. Sobre a pena de morte, por exemplo, as opiniões ficaram tecnicamente empatadas.

Evangélicos versus conservadores versus esquerda institucional

O questionário, ainda que com sutis diferenças, foi aplicado também em dois outros eventos políticos paulistanos: o ato do dia 26 de março – protesto pró-Lava Jato organizado sobretudo por grupos como o MBL e o Vem pra Rua – e o ato do dia 31 do mesmo mês – contrário às reformas da Previdência e trabalhista.

“O grande achado é que a Marcha para Jesus e as passeatas anti-corrupção são meio parecidos com o resto do Brasil. Eles não são muito coerentes, são mais ou menos conservadores e têm poucos pontos de identidade. Os grupos anti-corrupção, por exemplo, são mais punitivistas do que a média da população. Os grupos evangélicos têm uma opinião mais forte sobre o papel da religião na educação e na política. No resto  eles são parecidos com o Brasil”, identifica Ortellado.
[A esquerda] é muito coerente ideologicamente e muito distante do resto do Brasil. Ela é muito organizada, intelectualizada e coesa, a um ponto tal que se distancia muito do país em termos de opinião.
O grupo que foi à marcha pela Lava Jato, por exemplo, tende a ser mais liberal no que diz respeito a algumas pautas morais – como a permissão para fumar maconha, a interferência da religião na legislação do país, o aborto e a concordância à afirmação de que “dois homens devem poder se beijar na rua sem serem importunados”, por exemplo. No caso da relação entre cor de pele e violência policial, porém, há maior tendência à negação. Outra surpresa é que quase 75% das pessoas pesquisadas, no caso do 26 de março, é contrária à reforma da Previdência proposta pelo governo Temer.

As pessoas que foram à marcha do dia 31 de março, ao contrário, têm opiniões bastante distintas dos dois outros grupos. Nesse caso, 83% disseram se identificar com opiniões de esquerda. A metade se diz “muito feminista” e apenas 17,6% declarou-se “nada feminista”. Um número muito menor – um terço dos entrevistados – disse não se identificar com nenhum partido político, e, entre quem se identifica, as agremiações mais citadas são PT e Psol.

Outra diferença relevante é a composição social de cada um dos eventos. Ortellado, sobre a Marcha para Jesus, diz que há uma distribuição “muito parecida com o resto de São Paulo, que é um ligeiramente diferente do resto do Brasil. Não é muito pobre nem muito rica, tem uma distribuição parecida com a pirâmide brasileira”. Os dados mais divergentes com o resto da população brasileira foram encontrados no campo das esquerdas e da marcha anti-corrupção, cujos participantes tendem a ser mais ricos e escolarizados do que a média nacional.

Gregório Mascarenhas
No Sul21
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Uma craca chamada Temer

"Apoio condicionado" cheira a traição


Embora haja ratos que já se preparam a pular do navio, o presidente ilegítimo resiste. Ao partir para o exterior, exibe sua fé no paradoxo

Michel Temer insiste e resiste. Daqui não saio. É possível traduzir assim o sentimento dele. Por duas vezes, empolgado pelo aconchego do poder, chegou a ameaçar: “Não renuncio”. Posteriormente, reafirmou: “Só saio se me matarem”. Dramático sobre sua própria situação, é bom resguardar o manto da dúvida.

O Congresso, no qual ele se apoia, já manda fortes sinais de rebeldia, como o ocorrido na derrota sofrida pelo governo durante a votação da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. “Vamos ganhar no plenário”, foi esta a resposta curta de Temer para explicar o fracasso. Para evitar outro revés, Temer usou a truculência, a sinalizar para quem votar contra ele, seja deputado, seja senador, e ordenou a caça aos funcionários indicados por parlamentares infiéis. O presidente ilegítimo agarra-se ao poder assim como as cracas no casco do navio, com poder para retardar a navegação.

Dá-se, porém, que Temer já não sabe mais se pode contar com a solidez da base governista. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) fazia a seguinte análise: o governo conta com 413 deputados divididos em duas categorias, 240 na de apoio consistente e 173 de apoio condicionado. No Senado, o governo conta com 65 nomes, sendo 54 de apoio consistente e 11 de apoio condicionado. Apoio condicionado, como se sabe, ameaça trazer ao nariz um vago odor de traição.

Incide sobre os aliados a pressão da opinião pública, alcançada pelos reflexos das delações à Lava Jato e do longo e patético diálogo travado à noite entre Michel Temer e Joesley Batista, da JBS, no porão do Palácio do Jaburu. O encontro, gravado pelo empresário, virou delação e contém várias passagens condenáveis por lei. E deu no que deu.

Serviu-se dela Rodrigo Janot, o procurador-geral da República que anda à espera de o STF julgar o pedido de prisão para Aécio Neves e enquadra Temer nos crimes de organização criminosa, corrupção passiva, prevaricação e obstrução da Justiça. Em ação contrária às cracas, há ratos pulando do navio.

Temer aposta na perspectiva da eleição de 2018 para manter o PSDB sob controle, mas os tucanos estão desunidos, como se sabe, em relação à continuidade de seu apoio. Até o prefeito paulistano interferiu. João Doria Junior invocou o “termômetro da agonia” do governo, que numa escala de 1 a 10 “hoje seria 8”.

Temer não ouviu o alerta. Com um discurso otimista, sem convencer quase ninguém, postou nas redes sociais uma mensagem antes de viajar para fora do Brasil. Nela afirma: “Os criminosos não ficarão impunes no País”. O professor professa sua fé no paradoxo. Ou Freud explica?

Maurício Dias
No CartaCapital
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Dallagnol estava junto com Dória em Palestra, onde Dória chamou Lula de “cara de pau” e Dilma de “anta”


O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), fez declarações polêmicas durante palestra neste sábado (24) no Expertxp 2017, evento da XP Investimentos que reúne empresários e investidores do mercado financeiro, realizado no Transamerica Expo Center, na cidade de São Paulo.

Ao tecer críticas sobre os governos petistas, o tucano chamou a ex-presidente Dilma Rousseff de “anta” e o ex-presidente Lula de “cara de pau”. As declarações foram proferidas enquanto Doria falava de sua motivação para concorrer à prefeitura da capital paulista.

“Quando me perguntam qual foi a minha grande motivação para disputar as prévias do PSDB e a prefeitura, eu respondo: ‘Quem ama o Brasil, não pode achar que depois de 13 anos de PT, de Lula e Dilma, o Brasil pode voltar para essa gente’. Não dá. Eu lembrava do Lula e da Dilma falando aquelas bobagens. Aquelas asneiras da Dilma. Uma anta”, afirmou, sendo aplaudido pelos mais de três mil empresários do setor financeiro que participam do evento.

“Desculpa, Dilma, mas você é uma anta mesmo”, reafirmou. Ao falar sobre Lula, Doria ironizou o petista. “O Lula com aquela arrogância, com aquele discurso de ‘Nunca antes na história desse país’. Aí o Lula tem a cara de pau de voltar no Congresso do PT e dizer que é preciso modernizar o país. Oh, Lula, faça-me o favor. Modernizar o quê? Só se for modernizar a tornozeleira eletrônica”, disse, sendo novamente aplaudido pelo público do evento.

Além de Doria, o Expertxp 2017 contou com participações do coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, e do presidente do conselho do Itaú, Roberto Setubal. Em maio deste ano, o Itaú fechou a compra de 49,9% do capital total da XP Investimentos pelo valor de R$ 6,3 bilhões.




Doria é 'covarde' e promove discurso de ódio, diz Pimenta


O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) criticou neste domingo, 25, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), em em evento promovido pela XP Investimentos chamou a presidente eleita Dilma Rousseff de "anta".

"Somente um covarde se dirige a alguém que não está presente em um ambiente, atacando gratuitamente está pessoa que não pode se defender. Somente um imbecil sem caráter se dirige a uma mulher usando as palavras q o #MeninoMalufinho usou contra Dilma em um evento em SP", atacou Pimenta em sua página no Twitter.

O parlamentar do PT também criticou quem apoia os ataques de João Doria. "Não menos imbecís são os que aplaudiram está ignomínia. Promover discurso de ódio provoca violência, estimula preconceitos e conflitos. O #MeninoMalufinho é uma espécie de Bolsonaro de butique. Um fascista com grife.Tenta ser uma alternativa, como representante da escória", disse Pimenta.







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O “homem forte” de um presidente fraco


Tudo o que o Brasil não precisa agora é que surja, num ambiente de governo fraco, uma sombra que sugira qualquer “solução militar” para a degradação do poder civil.

E, infelizmente, ela surgiu.

Nos jornais deste domingo, o personagem em ascensão é o general Sérgio Etchegoyen que, além da “rata” de identificar o chefe do posto da CIA  no Brasil, assumiu, segundo a imprensa, o controle da Polícia Federal.

Além do perfil que O Globo lhe faz hoje, chamando-o de “homem forte do Governo Temer”  é o personagem de Eliane Cantanhêde, no Estadão, no texto sobre “um outro personagem que cresce à direita

Consta que Etchegoyen é quem avalia a troca ou não do diretor-geral da PF, Leandro Daiello. Ele nega. Consta que assumirá o Comando do Exército, caso seu amigo, o prestigiado general Eduardo Villas Boas, decida voltar para casa. Ele nega. Consta que pôs a Abin a bisbilhotar os telefones do ministro Edson Fachin. Ele nega. E consta que ele está cada vez mais poderoso. Ele nega veementemente. Mas… só o fato de ter de negar tantas coisas ao mesmo tempo já diz muito. 

No perfil que o jornal dos Marinho faz, um dos pontos interessantes é o de que Etchegoyen  “era chefe do Estado-Maior do Exército, indicado pelo Comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, para ser seu número dois”.

Espera-se que o general não siga o exemplo do presidente a que serve em matéria de lealdade.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Curso - Estudos Latino-Americanos - Módulo II - Aula 1


Aula com Nildo Ouriques, do departamento de Economia e Relações InternacionaisHistória/UFSC, na Pós-Graduação em Serviço Social. - Crítica ao Eucentrismo, CEPAL e Pensamento Econômico Estruturalista.


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O liberal e meritocrata Dallagnol morreria de fome se não sugasse o Estado


E o Dallagnol, hein?

Revoltado com quem "sempre usou o Estado para obter vantagens"... Como ele diz.

Daí descobrimos que ele é sustentado pelo estado como MP, ganhando aí uns 30 mil por mês mais penduricalhos...

Não contente, ele dá palestras sobre "corrupção", aproveitando-se do seu cargo. Interessante é que quanto pior ele pintar a corrupção no seu trabalho (criminalizando, vejam só, palestras) mais dinheiro ele faz dando "palestras". De 30 a 40 mil "porcada". Fazia mais de 90 mil por mês só aproveitando-se do cargo e das informações privilegiadas.

Mas não contente com tanto uso do estado para enriquecer, ele ainda pega o dinheiro que faz em função do estado, para entrar num programa social destinado a pessoas de baixa renda em que ele toma o lugar delas, ganha financiamento subsidiado, de novo, pelo Estado, para comprar apartamentos do Minha casa, minha vida. Apartamentos que, vejam só, depois de ele quitar com a grana que ganha do Estado ele revende por 2 ou 3 vezes o preço para aquelas mesmas pessoas que não tiveram chance de conseguir os financiamentos que ele conseguiu, claro, por "sorte".

E depois vai para a igreja dizer-se bom cristão ou para a televisão vociferar contra o uso do estado para enriquecimento dos outros, claro.

Basicamente, se você tirar o Estado, Dallagnol morre de fome. E, pasmem, ele é o ídolo dos protofascistas liberais brasileiros. Aqueles que odeiam o estado e adoram a meritocracia.



Fernando Horta
No Esquerda Caviar
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Roquenrol

O aniversário do Sergeant Pepper, dos Beatles, me pôs a pensar no meu currículo roqueiro. Posso dizer que conheço o roquenrol desde antes de ele nascer, ou pelo menos antes de se chamar assim. Morávamos em Washington e eu ia muito a concertos de “rhythm and blues”, onde geralmente era o único branco na plateia, e lembro quando as primeiras músicas de “r&b” começaram a pular a barreira racial e ser tocadas em programas de rádio para brancos. Em seguida, começaram a aparecer grupos brancos tocando mais ou menos a mesma música com o nome novo. A expressão “rock and roll”, com sua conotação sexual, também vinha da cultura negra, mas foram os grupos brancos que a capitalizaram. Como Bill Halley e seus Cometas, que fizeram a trilha sonora do filme Blackboard Jungle, que levou jovens à loucura e provocou quebra-quebras em muitas cinemas do mundo, e gravaram o Rock Around the Clock, espécie de hino inaugural do movimento.

A base do roquenrol era a progressão harmônica do “blues” e uma das suas raízes estava no “blues” branco, misturado com música caipira, do Sul dos Estados Unidos, de onde saíram Jerry Lee Lewis e Elvis Presley. O “rhythm and blues” negro continuou a existir e gerou muitas das formas que o roquenrol tem hoje, mas foi o roque branco nascido há 60 anos da encampação da música popular negra que tomou conta do mundo e o domina até hoje. Ajudou o fato de que, junto com o roque, começava a existir o Jovem como consumidor diferenciado, e não só de música. Um mercado que também domina o mundo até hoje.

Acompanhei o roquenrol até os Beatles se separarem. Lembro que os Beatles e os Rolling Stones representavam correntes adversárias dentro do universo do roque. Os dois grupos vinham da mesma origem proletária, mas os Beatles tinham se sofisticado e, com o álbum do Sgt. Pepper, enveredado para uma coisa mais intelectualizada enquanto os Stones se mantinham fiéis ao “backbeat” básico e à pura energia hormonal, a mesma que atrai os jovens até hoje, embora eles já pareçam as suas própria múmias.

Quando os Beatles acabaram, me desliguei. Fui ouvir meu jazz, minha bossa e meus barrocos, e só tenho prestado atenção quando o roque se transforma em fenômeno psicossocial e a atenção é inescapável - como no caso das apresentações dos Stones. Uma ocasião para refletir sobre estes 60 anos e a durabilidade daquele ato de apropriação, quando os “blues” ficaram brancos. Sem falar, claro, na eternidade do Mick Jagger.

Luís Fernando Veríssimo
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89% dos jovens confiam um pouco ou não confiam na imprensa

Desconfiança nas instituições aumenta. Na Presidência da República e no Congresso, apenas 3% confiam muito. Mas imprensa também não sai bem na foto


Pequisa Datafolha publicada neste final de semana mostra que praticamente todas as instituições brasileiras vêm perdendo confiança da população. Na Presidência da República e no Congresso Nacional, apenas 3% confiam muito. O próprio jornal Folha de S.Paulo aponta que: “o quadro espelha a impopularidade do ocupante da cadeira, Michel Temer (PMDB), cuja aprovação atingiu o menor nível em 28 anos, 7%, como mostrou pesquisa publicada neste sábado (24)”.

Porém a própria imprensa não sai tão bem na foto. No geral, 22% disseram confiar muito, 49% um pouco e 28%, não, absolutamente. Entre os mais jovens, até 24 anos, só 10% confiam, 48% confiam um pouco e 41% não confiam. Se forem somados os índices de confia um pouco e não confia , chega-se a 89% dos entrevistados.

Dado preocupante da sondagem para a democracia é que enquanto as representações políticas, partidos e imprensa caem de avaliação, a instituição com mais confiança hoje são as Forças Armadas. Cerca de 40% confiam muito e 43% confiam um pouco.

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