19 de abr de 2018

No dia do Índio, a festa é Agro: entenda a disputa entre indígenas e ruralistas


No aniversário de 75 anos da criação do dia do Índio no Brasil, os povos indígenas seguem sob um processo de resistência. Com o avanço dos acordos de Michel Temer com os ruralistas, a Sputnik Brasil explica o que esperar da situação indígena no país.

"Desde o começo os povos indígenas entendem que o atual governo brasileiro é um governo golpista, que não tem legitimidade nenhuma para propor qualquer tipo de reforma ou qualquer tipo de política pública que vise retirar os direitos, não só dos povos indígenas, mas de toda uma coletividade", afirmou em entrevista à Sputnik Brasil o advogado e indígena Luiz Eloy Terena, um dos assessores do Associação Nacional dos Povos Indígenas, a APIB.

Luiz é um dos organizadores do Acampamento Terra Livre, que levará milhares de lideranças indígenas para Brasília pelo 15º ano consecutivo com o objetivo de cobrar as autoridades pela garantia dos direitos dos povos indígenas.

Assim como aconteceu em 2017, esse ano o Acampamento Terra Livre será organizado com atividades na Esplanada dos Ministérios, entre os dias 23 e 27 de abril. Para o acampamento, são esperadas lideranças dos povos indígenas e ativistas que defendem os direitos desse grupo. A ideia é levar adiante as pautas e reivindicações indígenas. Entre elas, a busca por políticas de Saúde e o protesto contra empreendimentos que ameaçam os territórios indígenas, como atividades de mineração.

"Além de ter a plenária instalada na Esplanada dos Ministérios, as lideranças vão estar visitando também os ministérios, o Congresso Nacional, a AGU e o gabinete dos Ministros do STF, porque nós temos ali alguns processos que são importantes para o movimento indígena e que a qualquer momento pode ser pautado pelo STF. Então as lideranças vão estar fazendo essa incidência política no poder Judiciário, além do Executivo e do Legislativo", antecipa Luiz Eloy à reportagem.

Entre as principais bandeiras levantadas pelo movimento indígena brasileiro, segue a demarcação de terras indígenas, que desde o ano passado está com seus processos completamente paralisados, ao mesmo tempo que cresce a violência no campo. Esse será o principal tema no acampamento de 2018, um movimento de protesto que já existe há 15 anos.

"Esse ano o Acampamento Terra Livre espera aproximadamente 4 mil lideranças indígenas. O tema é ‘Unificar a luta em torno de um Brasil indígena'. As comunidades vão estar trazendo as suas demandas. A principal delas é a demarcação das terras indígenas".

Se em 2017, as lideranças foram recebidas com gás lacrimogêneo na capital do país, este ano as expectativas também não são das melhores. Com o prosseguimento da crise política, a violência no campo novamente bateu recordes, e entre as principais vítimas assassinadas, seguem estando os indígenas.

No dia do Índio, os avanços da bancada ruralista lembram a História

Em 1997, as ruas de Brasília se acenderam de forma funesta. O fogo vinha de cima sobre o corpo do líder Pataxó Galdino Jesus dos Santos. Os assassinos, 5 homens de classe média, disseram à imprensa da época que se tratava de "uma brincadeira". Eles teriam pensado que "era apenas um mendigo".

O caso infeliz ganhou fama, e segue na memória popular brasileira como um exemplo de crueldade com a população indígena. O crime aconteceu na madrugada de 20 abril, dia seguinte ao dia do Índio.

A data foi criada em 1943 pelo governo do presidente Getúlio Vargas através do decreto-Lei 5540/43 como forma de homenagear a herança histórica indígena no Brasil. Várias obras, como "O Povo Brasileiro", de Darcy Ribeiro, afirmam que a população indígena era maior que a população portuguesa no momento em que os lusitanos pisaram pela primeira vez na terra brasilis, e atestam sua fundamental importância para a cultura do país.

Após o massacre da colonização e o início da miscigenação, centenas de povos autóctones sobreviveram ao Brasil, e hoje vivem sob proteção constitucional, com direitos garantidos a terras tradicionais, como disposto no capítulo VIII, artigos 231 e 232 da Carta Magna, com direitos como a demarcação de terras "tradicionalmente ocupadas". Pelo menos, é o que deveria estar acontecendo.

Em 2017, o governo federal assinou parecer da Advocacia Geral da União (AGU) para apoiar os ruralistas e suas pautas. No total, a AGU, apontou a paralisação de 748 processos de demarcação de terras que estavam em andamento no país. Temer, assim, mudou o entendimento da Constituição Federal, apontando que as terras indígenas seriam direito destes povos apenas se eles já as ocupavam em 1988, assumindo a proposta de Marco Temporal da AGU. Esse entendimento tem apoio de parte dos ministros do STF. O parecer seria parte da negociação feita pelo Congresso para barrar denúncias contra o presidente, ainda em 2017.

"Isso é uma coisa que está clara para todas as lideranças indígenas do Brasil. Nós sabemos que hoje no Brasil a principal pauta, a principal luta do movimento indígena é pela demarcação dos territórios tradicionais. E nos governos anteriores, nós já tínhamos uma desaceleração do processo de demarcação de terras indígenas, um enfraquecimento sistemático da FUNAI, que é o órgão oficial do Estado brasileiro que trata da política indigenista, e no governo Temer nós tivemos isso de forma mais clara", afirma Luiz Eloy Terena.

O advogado indígena aponta que a situação não é apenas de paralisação, mas de reversão de algumas demarcações. "Primeiro que no que diz respeito aos processos demarcatórios, nós temos agora uma total paralisação dos processos. Além de paralisação, quer dizer, não demarcar nenhum território, nós estamos vendo acontecer a reabertura de procedimentos que estavam já consolidados, e até mesmo a anulação de terras já demarcadas e consolidadas, como foi o caso da terra indígena em São Paulo, dos Guarani no Jaraguá".

Segundo um relatório de 2016 da Organização das Nações Unidas (ONU), os povos Indígenas brasileiros sofrem os maior risco desde a assinatura da Constituição de 1988, o que mostra que problema vinha de antes, e que vem se aprofundando.

"Além disso, nós estamos observando como a bancada ruralista está se apropriando da FUNAI, o órgão que deveria defender o direito dos povos indígenas. Tudo isso sob uma moeda de troca. O Michel Temer para se manter no poder necessitava dos votos da bancada ruralista e com isso ele usou os direitos dos povos indígenas como moeda de troca. Então isso está bem claro para nós", reflete o advogado Terena.

"Essas pessoas sentem mais liberdade para eliminar lideranças que estão lutando pelo direito à terra"

Na terça-feira (18), um relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mostrou um levantamento assustados. Segundo a organização, 2017 foi o ano mais violento contra as populações do campo desde 2003, o que inclui populações indígenas. Além dos 70 mortos ao longo do ano, contra 63 do ano anterior, a organização suspeita de mais um massacre de 10 indígenas isolados no Vale do Javari, no Amazonas.

Para a Comissão, esse quadro caracteriza uma criminalização dos movimentos sociais.

"Eu concordo com a CPT. Há uma criminalização dos movimentos indígenas, dos sem-terra, dos quilombolas, dos povos tradicionais. E essa criminalização, ela é permanente o processo se intensificou com o golpe, que destituiu o governo Dilma", apontou Bernardo Mançano Fernandes em entrevista à Sputnik Brasil. Bernardo é geógrafo e pesquisador da Universidade Estadual Paulista, a UNESP, e trabalha há mais de duas décadas analisando a situação dos povos do campo no Brasil.

Bernardo Fernandes lembra que a situação já foi muito mais grave durante a Ditadura, em que milhares de indígenas forma mortos durante esse período. A situação depois atingiu outros picos durantes os governos Collor e Sarney. Em 1987, lembra o professor, o número de morto foi de 160.

Para ele, a situação continuava grave, mas melhorando. No entanto, o quadro político do país após o golpe de 2016 deu um empurrão na violência contra os povos do campo, segundo o professor.

"Os latifundiários que sempre tiveram uma prática assassina de mandar matar trabalhadores sem-terra, indígenas e quilombolas para poder se apropriar das suas terras, dos seus territórios, eles agora estão mais ousados", afirma o professor Bernardo. Para ele, o governo Temer tem "financiado muitas das demandas e das políticas da classe ruralista", o que teria influência na violência no campo, pois "essas pessoas sentem mais liberdade para eliminar lideranças que estão lutando pelo direito à terra", disse.

Uma das formas desse incentivo que a parceria de Temer com os ruralistas teria assumido, é justamente criar um impasse para o não reconhecimento de terras indígenas através da medidas governamentais.

Em 2017, por exemplo, Temer não criou nenhum assentamento para a reforma agrária, revertendo os avanços na área de forma inédita e brusca. Informações do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mostram que pela primeira vez desde 1995, nenhuma família foi assentada, o que seria um desejo antigo de latifundiários e ruralistas.

Mas afinal, o que é a demarcação de terras e por que os ruralistas são contra?

Segundo a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão estatal responsável pela política, gestão e pesquisa sobre os povos indígenas do Brasil, as áreas demarcadas, ou Terras Indígenas, são áreas de propriedade da União que seriam habitadas pelos povos indígenas para sua reprodução física e cultural segundo seus usos, costumes e tradições. Segundo o órgão, 462 dessas terras já estariam ocupadas no país. Essa, portanto, seria uma forma diferente de posse, que não deveria se confundir com a propriedade privada.

"E nós temos também que os povos indígenas estão reivindicando seu territórios tradicionais. Então não se trata de qualquer pedaço de terra, de um espaço físico. Então não adianta propor, por exemplo, transferir os Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul para terras nos Amazonas, em outros territórios. Porque não é isso, os povos indígenas estão reivindicando seus territórios tradicionais, o que é justamente de onde vem sua origem, sua tradicionalidade", afirma Luiz Eloy Terena, da APIB.

Porém, grupos políticos como a Frente Parlamentar da Agropecuária, a bancada dos ruralistas, a maior bancada do Congresso Nacional, com pelos menos 162 deputados, advoga que essas terras não são produtivas, e pretendem mudar o entendimento constitucional sobre o assunto.

"Cada vez mais, eles tentam ganhar o apoio popular, o apoio da população, com o argumento de que esses povos têm muita terra e não são produtivos. Eles tentam fazer uma comparação com as grandes corporações que produzem monocultivos de soja, cana, monocultivo de árvores, e tentam dizer que essas terras precisam ser tornadas produtivas", lembra o pesquisador Bernardo Mançano Fernandes, que continua: "E aí eles impedem que a população compreenda que as terras desses povos, elas têm outra finalidade, elas não são terras para a produção de commodities, elas são terras para a produção da vida".

O advogado Luiz Eloy Terena, da APIB, também desmonta a tese ruralista. "Na verdade isso é uma falácia da bancada ruralista em nome de um suposto desenvolvimento. Pegamos, por exemplo, o estado do Mato Grosso do Sul, em que nós temos uma presença muito forte do Agronegócio e é um estado em que nós temos muitos conflitos também por questão da demarcação das terras indígenas. Se hoje a FUNAI demarcasse todas as terras reivindicadas pelos Guarani-Kaiowá e pelos Terena, por exemplo, daquele estado, não chegaria nem a 2% de todo o território daquele estado. E isso se revela na maioria dos estados da federação brasileira", argumenta o advogado.

O que é o Marco Temporal que os ruralistas querem impor às Terras Indígenas?

A tese do Marco Temporal, que foi construída pelos ruralistas, é uma tese que afirma que os índios só teriam direito às terras que eles já estivessem ocupando no dia 5 de outubro de 1988, que é a data em que foi promulgada a Constituição.

Luiz Eloy Terena discorda dessa avaliação. "Nós sabemos que isso não está no texto constitucional, muito pelo contrário. A Constituição quando vem e reconhece esses direitos que ela chamou de direito originário, ela não traz nenhum tipo de requisito temporal e não traz essa restrição, pelo contrário, ela traz um direito originário".

Para o advogado, essa tese não leva em conta sequer o período histórico brasileiro em que se assentaria o Marco Temporal. A data de assinatura da última constituição federal, ocorre pouco tempo depois da Ditadura Militar, período considerado de grande repressão no campo, devido às políticas adotadas pelo governo para a proteção e a unidade do território nacional.

"Então essa interpretação de alguns juízes e até alguns Ministros do STF é uma tese que restringe direitos, porque nós sabemos que muitas comunidades indígenas não estavam em suas terras no dia 5 de outubro de 1988 justamente porque foram despojadas de seus territórios. Aliás, a gente estava acabando de sair de um período da ditadura militar. E nós sabemos quantas comunidades foram despojadas, ou seja, expulsas de seus territórios, em grande maioria pelo braço estatal. Quem deveria proteger essas comunidades, retirou essas comunidades", lembra Luiz Eloy.

A ideia de controle sobre as vastas áreas do país passava pela identidade e pelo sentimento nacionalista, ao qual identidades como a indígena e a negra eram consideradas ameaças. O censo de 1970, por exemplo, não apresentava opções de cor ou raça para as pessoas, o que se repetiu durantes diversos recenseamentos ao longo desse período.

Qual é a importância da FUNAI nisso tudo?

A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) nasceu durante a Ditadura Militar, em 1967 e é o principal órgão indigenista do Estado brasileiro. Ela tem como papel a pesquisa, "a identificação, a delimitação, a demarcação, regularização fundiária e registro das terras indígenas".

Segundo o advogado Terena, Luiz Eloy, atualmente o movimento indígena defende a FUNAI, que já foi criticada por sua atuação. Para ele, uma FUNAI fraca econômica e politicamente, afeta a vida dos povos indígenas, principalmente no que tange à sua pauta principal, que é a demarcação de terras. No entanto, o movimento indígena é crítico da forma a FUNAI atua agora. Segundo ele, há em curso um "aparelhamento" da FUNAI, com pessoas indicadas pela bancada ruralista para defender seus interesses.

"O exemplo claro nós tivemos no ano passado, quando o presidente Toninho foi exonerado porque não seguiu a cartilha da bancada ruralista, e nós estamos vendo isso acontecer novamente de forma explícita com o presidente Franklimberg, como foi noticiado ontem, e nós tivemos acesso ao documento encaminhado pela bancada ruralista, em que mais de 200 parlamentares assinam pedindo a exoneração dele, e indicando uma outra pessoa que é mais aberta aos interesses da bancada ruralista", afirma Luiz Eloy.

Ainda na terça-feira (17), o presidente Michel Temer decidiu exonerar o presidente da FUNAI, Franklimberg Ribeiro de Freitas. Segundo o jornal Estado de São Paulo, 40 deputados e senadores teriam pedido a demissão de Franklimberg pelo fato de que ele "não tem colaborado com o setor".

Para o advogado, essa situação é uma clara evidência de que Michel Temer teria negociado os direitos indígenas em troca de votos e apoio da bancada ruralista. Luiz acredita que para além da FUNAI, a mesma situação esteja se repetindo na Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).

Quais as perspectivas dos povos indígenas para os próximos anos?

A forte pressão, a enorme violência e o estreitamento do horizonte político no Brasil fazem com que o professor e pesquisador da UNESP, Bernardo Mançano Fernandes tenha uma perspectiva pessimista sobre o futuro próximo.

"Olha, a perspectiva que nós temos hoje é a pior possível, porque as forças conservadoras estão crescendo cada vez mais. As forças progressistas estão em refluxo. E o que eu estou vendo é o aumento da resistência dessa população [indígena], só isso. Nós não temos hoje no cenário político, uma perspectiva de mudança dessa tendência violenta", aponta. Para ele, o quadro no Brasil chega ao ponto do genocídio rural e urbano, o que segundo o professor, deve ser denunciado o máximo possível nas redes sociais, uma mídia alternativa e acessível.

"[Isso] está representado no assassinato da Marielle, que está representado no assassinato de tantos jovens nas áreas rurais brasileiras e nas áreas urbanas brasileiras, jovens lideranças, jovens que estão lutando contra esse processo de genocídio, esse processo de criminalização. Nós estamos vivendo uma verdadeira guerra no nosso país, e é fundamental que as pessoas tenham o bom senso de ser contra esse processo", conclui.

O advogado indígena Luiz Eloy, também aponta uma direção de luta e denúncia. Apesar de enxergar as dificuldades, ele mantém o otimismo em relação à resistência. "Isso para nós é claro. É continuar resistindo, seja no campo ou na cidade, porque nós também temos populações indígenas já no contexto urbano. E os povos indígenas têm se organizado, através do movimento para estar pautando as suas demandas", aponta.

Luiz Eloy convida para os debates do Acampamento Terra Livre, e aponta que os indígenas se manterão firmes na defesa dos direitos: "Então […] um dos temas que vai ser debatido também pelas lideranças indígenas é pensar o Brasil a partir de tudo isso que está acontecendo, de violações de direitos e de garantias fundamentais, e lutar pelas liberdades democráticas. Aqueles direitos que estão na Constituição, os povos indígenas sempre tiveram o compromisso de defender, então isso a gente vai continuar fazendo".





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Estudo mostra que ignorantes em política tem mais “certezas”


Estudo publicado pela importante revista Political Psychology, dos Estados Unidos, indica que as pessoas que menos entendem de Política tendem a ter mais certezas de seus pontos de vista, e consideram os adversários menos informados, mesmo quando estes são muito mais conhecedores do assunto.

O autor da pesquisa é o professor-assistente da Universidade de Maryland, em Baltimore, Ian Anson, que submeteu um questionário a 2.606 eleitores norte-americanos, via internet. Ele usará esses dados para estruturar uma pesquisa mais ampla e feita pessoalmente. Sua tese baseia-se no conhecido Efeito Dunning-Kruger, uma teoria que afirma que as pessoas com pouco conhecimento sobre um tópico tendem a ser mais confiantes em suas opiniões.

O questionário continha perguntas que deveriam ser fáceis para o cidadão-médio dos EUA, que costuma dar opiniões sobre Política nas redes sociais e na vida real. “Quantos anos dura o mandato de um senador? Qual o nome do Secretário ministro)  da Energia? Qual o partido mais contrário ao sistema público de Saúde (Health Care)? Que partido controla a Câmara de Representantes deputados federais)? E quais os quatro programas que recebem mais investimentos do Governo?”

As respostas indicam “a falência do discurso político nos Estados Unidos”, segundo o autor. “Os adeptos de um partido com menor conhecimento factual sobre Política, ficam mais convictos de seus pontos-de-vista quando veem o mundo cheio de pessoas com pensamento diferente”. Isso explicaria, por exemplo, o medo que as pessoas de direita no Brasil sentem de uma “invasão comunista” ou da chegada de refugiados sírios ou haitianos. Os direitistas mais primários consideram todos eles “inimigos” que irão mudar nossos sistema político, social e cultural – e reagem com o discurso de ódio e até agressões físicas.

Outra característica identificada é que os menos informados tendem a considerar os “do outro lado” menos conhecedores do que eles, mesmo quando confrontados com questionários com respostas certas, superiores as suas próprias!

O autor cita como exemplo de um fanático deste tipo o presidente Donald Trump, que costuma falar com absoluta certeza sobre assuntos que ignora completamente. E que não ouve ninguém que saiba mais ou pense diferente de sua visão preconceituosa.

Antonio Barbosa Filho é jornalista e editor do valepensar.net
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Entre Vistas - Marilena Chaui


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Direita se faz de burra para espalhar terrorismo no caso Gleisi-Al Jazeera



Ayres Britto, homem da mídia e do "mensalão" tucano, é o novo porta-voz do jogo sujo da Lava Jato - https://www.youtube.com/watch?v=AOpk1...
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O sectarismo da direita brasileira


A massiva propaganda oficial e seus tentáculos midiáticos embutiram – de forma desonesta – o conceito torpe de que as forças progressistas ou de esquerda são radicais, e, portanto, perigosas e subversivas à ordem social.

Narrativas oficiais são objetos repugnantes de embustes, de narrativas indecorosas sobre a inversão dos fatos, em um claro e vergonhoso processo de manipulação e alienação da sociedade brasileira.

A análise da história, desprovida de paixões, demonstra de forma inconteste a brutalidade, a sanha violenta e o indecoroso cinismo e hipocrisia da elite brasileira.

Nascida da luta de classes, tem suas gêneses no impetuoso processo colonialista e no extermínio das populações indígenas que, com todos os requintes de insanidade, davam a senha de qual seriam as edificações na construção do Brasil.

Escravagista, não titubeou em açoitar e se locupletar do comércio vexatório dos africanos. Haja vista que fomos um dos últimos países a abolir a escravatura.

Não obstante, usou a Proclamação da República como golpe contra a monarquia, que ousou libertar seus escravos.

Mas antes de nos tornarmos República, no século 19, muito sangue correu em território pátrio gerado pelos conflitos da época, como por exemplo: A Confederação dos Tamoios, a Inconfidência Mineira, a Cabanada, Canudos, entre outros.

Utilizando-se como estratégia marginalizar ou caricaturar os que se indignavam, a elite brasileira não hesitou em recorrer às mais atrozes violências; uma vez que o projeto de uma sociedade resignada jamais fez parte de alguma negociação.

Os pêndulos da balança alteraram-se com a Revolução de 30 e o comando de Getúlio Vargas, que no poder, afronta a direita brasileira dando direitos às classes trabalhadoras, e promove o primeiro processo de industrialização no Brasil. E assim, é aplicado, em companhia do desenvolvimento em nosso país, o conceito de soberania nacional.

Evidentemente que as forças conservadoras e radicais patrocinaram uma verdadeira campanha difamatória, com calúnias e insultos contra Vargas; desestabilizaram o país e levaram Vargas ao suicídio.

João Goulart, ex-presidente da república que sofreu o golpe civil-militar de 1964, também sofreu com esta radicalidade. Os mesmos métodos utilizados contra Vargas, agora dez anos depois, se aplicam a Jango, depondo-o do cargo de presidente constitucional.

Com Dilma Rousseff não foi diferente; porém, mais sofisticado. Com o protagonismo de seus filhos ilustres, como os senhores Eduardo Cunha, Michel Temer e a cumplicidade togada, rasgaram a Constituição e deram mais um golpe.

Assim age a direita brasileira.

Não vacila na defesa de seus interesses, e não tem o menor pudor em violentar e radicalizar, para se manter em berço esplêndido.

Resumindo, a direita é violenta, antidemocrática e cínica.

Henrique Matthiesen é Bacharel em Direito e Jornalista
No Jornalistas Livres
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Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil

Ana Amélia Lemos, Aécio Neves e José Ivo Sartori.
Foto: Divulgação/Igo Estrela
O Rio Grande do Sul não cansa de passar vergonha na cena nacional. O mais recente capítulo desta saga vexaminosa foi protagonizada pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). A ex-colunista política e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília ficou incomodada com uma entrevista que a presidenta nacional do PT, a senadora Gleise Hoffmann (PT-PR), concedeu à rede Al Jazeera, onde, entre outras coisas, definiu a condição de Lula como a de um preso político, trancafiado na carceragem da Polícia (política) Federal, em Curitiba. “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!” – disse Ana Amélia Lemos em sua conta no Twitter. O imaginário da senadora não hesitou em associar a Al Jazeera ao Estado Islâmico.

Não se tratou de um deslize ou escorregão verbal. Em ano eleitoral, Ana Amélia Lemos vem flertando abertamente com a extrema-direita gaúcha que saiu definitivamente do armário. Recentemente, rasgou elogios, durante uma convenção estadual do PP (partido que, nunca é demais lembrar, é herdeiro da nada gloriosa Arena, principal sustentáculo da ditadura civil-militar criminosa instalada no país apos o golpe de 1964), Ana Amélia Lemos fez uma homenagem às cidades que “botaram a correr a caravana de Lula”. “Atirar ovo, levantar o relho, para mostrar onde estão os gaúchos”, bradou a patriótica senadora no encontro que definiu a pré-candidatura do deputado federal Luiz Carlos Heinze ao governo do Estado nas eleições (se é que ocorrerão) de 2018.

Heinze tem o mesmo DNA de Ana Amélia Lemos. Em uma audiência pública realizada em novembro de 2013 no município de Vicente da Fontoura, região norte do Estado, o atual pré-candidato do PP alinhou seus adversários na categoria do “tudo que não presta”: quilombolas, índios, gays, lésbicas…”. Na mesma ocasião, ele sugeriu a ação armada dos agricultores para enfrentar a turma do “tudo que não presta”. “O que estão fazendo os produtores do Pará? No Pará, eles contrataram segurança privada. Ninguém invade no Pará, porque a Brigada Militar não lhes dá guarida lá e eles têm de fazer a defesa das suas propriedades”, disse o parlamentar. Pará, Estado de Eldorado de Carajás, onde 19 sem terra foram assassinados pela Polícia Militar no dia 17 de abril de 1996.

Luiz Carlos Heinze e Ana Amélia Lemos não são pontos fora da curva. Fazem parte de um mecanismo (para usar uma palavra da moda) que ganhou espaço no Rio Grande do Sul nas últimas décadas, graças, entre outras coisas, à máquina de propaganda construída pela RBS, uma das corporações midiáticas filiadas à rede Globo, que se agigantaram durante a ditadura. Ana Amélia Lemos, aliás, foi Cargo em Comissão (CC) do próprio marido, já falecido, o senador biônico Octávio Omar Cardoso, em 1986, acumulando essa função com o cargo de chefe da Sucursal da RBS, em Brasília.  Na época, Ana Amélia era diretora da sucursal da RBS, em Brasília, assinando uma coluna no jornal Zero Hora. A jornalista mudou-se para Brasília em 1979, acompanhando seu então marido Octávio Omar Cardoso, suplente do senador biônico Tarso Dutra (falecido em 1983), e efetivado no cargo em 1983, exercendo-o até 1987. Na capital federal atuou como repórter e colunista do jornal Zero Hora, da RBS TV, do Canal Rural e da rádio Gaúcha. Em 1982, foi promovida à diretora da Sucursal em Brasília.

Em agosto de 2003, em um artigo profético, o então deputado estadual Flavio Koutzii afirmou: “a extrema-direita brasileira mora nos Pampas”. Em sua introdução, o artigo lembrou uma antiga (e atual) lição de Albert Camus: “denominar incorretamente alguma coisa aumenta o grau de infelicidade no mundo”. Em tempos, onde o absurdo se combina com o surrealismo e a mentira, é saudável o esforço por denominar corretamente as coisas. O hino rio-grandense, entoado nos estádios de futebol do Estado com um ufanismo irrefletido e catatônico, diz “sirvam as nossas façanhas de modelo à toda terra”. Quais são as nossas façanhas mesmo? Fazer apologia do racismo, do escravagismo, do machismo, da homofobia, da xenofobia?

Neste mesmo momento, o Rio Grande do Sul é governado por um governador e um partido obscurantistas que propõem como caminho para o desenvolvimento do Estado a extinção de todas as fundações responsáveis pela produção de inteligência. Então, não parece exagero dizer, a partir desta combinação de obscurantismo, preconceito, intolerância e ignorância, que o RS se tornou a vanguarda do atraso no Brasil.

Os “gordos de caminhonete” – na feliz expressão cunhada por Vanessa Patriota – que abundam no Rio Grande do Sul e em outros estados onde o agronegócio deitou suas raízes, gostam de apontar os estados do Nordeste e do Norte como expressão do atraso no país. Na verdade, é a expressão de um mundo invertido. O lugar mais atrasado e retrógado do Brasil situa-se hoje no extremo sul do País. Não expressa, necessariamente, a consciência da maioria da população, mas é o reflexo de uma cultura de autoritarismo, oportunismo e ignorância quem vem sendo alimentada com regularidade nas últimas décadas. Essa cultura não é motivo de orgulho nem de comemorações. As verdadeiras façanhas desta terra ainda estão soterradas por um entulho de ignorância, truculência, machismo e racismo.

Marco Weissheimer
No RS Urgente
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Não é burrice. É o obscurantismo em marcha


Ontem, resisti à tentação de acompanhar a “zoação” nas redes sociais com o fato de, por falar a rede de televisão Al Jazeera, uma das mais importantes emissoras do mundo, ser acusada por uma notória direitista, a senadora Ana Amélia, de que exortava “o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!”.

Achei que era apenas mais uma expressão “folclórica” da direita, no padrão das que asistimos todos os dias, partidas dos Magno Malta, dos Malafaia e Bolsonaro, ou de um daqueles deputados da tatuagem de hena.

Como estupidez contagia e essa gente quer é “causar” dizendo tal tipo de asneira, achei que era, como dizia minha avó, mais um “traque” verbal desta turma.

Infelizmente, é pior que isso.

Agora cedo, no Estadão, revela-se que “a Procuradoria-Geral da República instaurou procedimento preliminar para analisar a possibilidade de abrir inquérito sobre um vídeo gravado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), para a TV Al-Jazira”. A iniciativa partiu  da “titular da Secretaria Penal da PGR, subprocuradora Raquel Branquinho.”

O disparate teria tido origem na pataquada de um deputado bolsonarista, Major Olímpio, que apresentou à PGR documento em que diz que  a emissora “alcança regiões em que há concentrações de diversos grupos terroristas, colocando em risco também a segurança nacional do Brasil”. O mesmo argumento serve, claro, para a CNN e para a BBC que, tanto quanto a Al Jazeera, transmitem para dezenas de paízes no mundo inteiro.

Não é possível acreditar que seja apenas burrice e desinformação sobre a emissora árabe. É, como disse na tribuna do Senado a própria Gleise, “má-fé e desvio de caráter”. Aos quais, ao dar seguimento, a Procuradoria Geral da República se associa, embarcando neste disparate.

Depois não adianta fazer cara de indignação quando os brutamontes espancam o sírio que vende quibe e esfirra na barraquinha.

É assim que o nazismo, racista e xenofóbico, se espalha.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Etcetera, etcetera

Por dentro, fora as partes óbvias, mulher não é muito diferente de homem. Anatomicamente, portanto, a mulher não tem mistério para o homem. Ali fica o coração, ali o fígado, ali (onde mesmo?) o pâncreas... Igualzinho a nós. Não é verdade que elas tem glândulas secretas que a medicina ainda não se animou a examinar a fundo, como as que determinam o seu comportamento em shoppings. Temos (mais ou menos) as mesmas glândulas.

Mas um componente da mulher continua a desafiar a compreensão dos homens: sua bolsa. Sabemos muito pouco do seu conteúdo e estamos constantemente nos surpreendendo com o que sai lá de dentro. E quando pedimos explicações, elas despistam.

O cérebro feminino não é biologicamente diferente, que eu saiba, do cérebro masculino e uma bolsa de mulher não deveria ser diferente de qualquer outro meio de guardar e transportar coisas, mas as surpresas se repetem. As bolsas femininas parecem ter acessos a mundos, mananciais, veios e fornecedores inacessíveis ao pensamento ou à mão do homem. De onde elas tiram tudo aquilo?!

É uma pergunta que nos atormenta desde o momento em que a Eva não só teve a ideia de comer a fruta proibida como produziu - de onde, meu Deus? - a faca para descascá-la e uma toalha para estender na grama, e nunca mais fomos os mesmos.

* * *

Li que um japonês inventou um aparelho que, adaptado à coleira, traduz o latido do cachorro. O cachorro late ou rosna e aparece numa telinha o que ele está tentando dizer para o seu dono. “Quero comida”, “Preciso fazer pipi”, “Troca de canal”, “Gostei do seu cabelo assim”, etc. O mercado para a invenção é enorme, só a julgar pelos donos de cachorro que conheço. Finalmente eles vão poder não apenas falar, mas dialogar com seus cachorros, trocar ideias, saber o que eles pensam da vida e dos homens. Há o risco, claro, da contestação inesperada. Do dono dizer “Senta” e o cachorro responder “Contextualiza”. Mas o interpretador de cachorros chega para preencher uma profunda necessidade humana. Gênio.

* * *

Novas técnicas criam novas superstições e novos temores. Recomenda-se que mulheres com silicone passem pelos detectores de metais dos aeroportos de costas, senão os seios podem explodir e o silicone derreter. Guardar o Viagra numa cesta com ovos frescos por uma noite e fazer o sinal da cruz antes de ingeri-lo aumentam sua eficácia. Etcetera, etcetera.

Luís Fernando Veríssimo
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Barbosa e PT são dois possíveis fatores de configuração diferente da eleição

Até que Joaquim Barbosa decida se é ou não é, os pré-candidatos e a disputa pela Presidência não passam de assunto para conjecturas ociosas. Enquanto o PT não souber se é só petista ou parte de uma concepção ampla, nem a decisão de Joaquim Barbosa abriria às conjecturas sem sentido o caminho para impressões com fundamento e avaliações analíticas. O ex-ministro e o PT são os dois possíveis fatores de uma configuração da eleição presidencial diferente das anteriores, no pós-ditadura.

Variar entre 9 e 10%, no Datafolha, comprova o potencial incomum de Joaquim Barbosa. Convém notar que esse aparecimento segue-se a anos de (boa) vida discreta, sem frequência pública nem sequer do simples nome. E esse nome é confrontado, quando registra o seu índice de apoio imediato, com pretendentes que trazem apoios ainda da campanha de 2014, como Marina Silva. Ou estão há meses em campanha tão intensa quanto ilegal, caso de Bolsonaro, a figurinha fácil na imprensa.

Embora menos do que Joaquim Barbosa, o PSB, agora seu partido, também está indeciso quanto à candidatura. A ala paulista batalha pela ausência de candidato próprio do partido e por apoio a Geraldo Alckmin. Para quem leva "socialista" no nome, querer o conservador Alckmin na Presidência não surpreenderia, dado o precedente do ex-PCB/PPS atrelado ao neoliberal PSDB, mas seria outra perda de oportunidade de reconstrução.

Caso as decisões de Joaquim Barbosa e do PSB coincidam pela candidatura, o sobe e desce nas pesquisas deve alterar-se em pouco tempo, e bastante, em decorrência da imagem feita entre os conservadores exaltados pelo então juiz do mensalão. E não só: o vislumbre de um negro, o primeiro, na Presidência deve ser forte e justo atrativo para uma faixa eleitoral larga e mista.

O PT, por sua vez, precisa mesmo esperar maior clareza sobre o futuro de Lula. O provável erro está no otimismo, como estaria no pessimismo. A espera, porém, precisa de limite, mesmo que para pensar só no petismo. Chegará o momento em que convirá decidir, em definitivo, entre aprisionar-se com Lula ou escolher um dos seus para substituí-lo, como já propõem alguns.

Há, no entanto, outra escolha a ser feita. Esta, entre ser apenas petismo ou pensar a partir de uma estratégia programática anticonservadorismo. O que significaria aderir, senão mesmo lançar, ao entrelaçamento dos partidos e movimentos defensores dos pontos básicos contra as desigualdades econômicas e sociais, pelo desenvolvimento e por reformas da Previdência e outras, mas com caráter democrático. Como candidato, um petista ou não.

A tradição do que quer que se autointitule de esquerda é a divisão: o enfrentamento das "esquerdas" entre si com prioridade sobre o seu enfrentamento aos adversários de princípio. Pelo tempo e pelo mundo afora, os PCs foram os grandes artífices e propagadores da norma, e o PT não escapou do legado geral. Está agora diante do seu teste mais importante. Dividido, naturalmente.

Janio de Freitas
No fAlha
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