18 de jul de 2019

O “lindão” Carlos Fernando precisa vir à público pedir desculpas por ter ficado calado até hoje

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Dos novos diálogos da ‘vazajato’ revelados hoje, uma conversa entre Deltan Dallagnol e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima é altamente reveladora (como se tudo o mais não fosse).

“O que vejo agora é um tipo de barganha onde se quer jogar para a plateia, dobrar demasiado o colaborador, submeter o advogado, sem realmente ir em frente. Não sei fazer negociação como se fosse um turco. Isso até é contrário à boa-fé”, escreveu Carlos Fernando.

“A boa-fé nos acordos de colaboração premiada deve ser interpretada de forma a ter em consideração o équo e concreto balanceamento dos direitos e dos deveres das partes no que abrange a investigação e a condução do processo criminal”, explica Andrea Marighetto, professor e advogado, doutor em Direito pela Universidade de Roma La Sapienza.

Sergio Moro impunha condições para aceitar delações. Muitas vezes exigindo que o colaborador ficasse preso durante um ano, no mínimo.

As mensagens hoje divulgadas demonstram que já havia procuradores incomodados com a postura de Sergio Moro (impondo penas até que o delator confessasse o desejado) e com a subserviência do chefe da força-tarefa.

Para chegar onde chegou, está mais do que evidente que Moro atropelava a tudo e a todos, e subordinado é subordinado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mas Carlos Fernando dos Santos Lima deixou a operação Lava Jato em setembro de 2018. Continuou conivente. E aí?

A nova compilação de diálogos traz um Deltan profundamente submisso, que não dá um passo sem consultar Moro ou então desestimulando seus subordinados que reivindicassem uma autonomia mínima.

“Carlos, eu apoiei todos os acordos que vc fez. Essa autonomia não está existindo em nenhum setor”;

“A título de sugestão, seria bom sondar Moro quanto aos patamares estabelecidos”;

“Podemos até fazer fora do que ele colocou, mas tem que falar com ele sob pena de ele dizer que ignoramos o que ele disse”;

“Carlos Vc quer fazer os acordos da Camargo mesmo com pena de que o Moro discorde? Acho perigoso pro relacionamento fazer sem ir FALAR com ele”.

Estas foram as mensagens enviadas por Deltan para Carlos Fernando (a quem chama de ‘lindão’) quando a interferência de Moro já dava sinais que transbordaria a legalidade. O papel de Deltan sempre foi o de escudeiro do juiz.

Um escudeiro ameaçador. O que quis dizer com ‘perigoso’?

“O procedimento de delação virou um caos. Creio que se a sua divisão de serviço pressupõe que eu e Januário estamos encarregados dos acordos, eles devem ser tratados por nós (…) Eu desejo que sejam estabelecidas pautas razoáveis, e que eu e Januário possamos trabalhar com mais liberdade”, pedia Carlos Fernando.

Em vão. A cada passo da equipe, Deltan pedia a benção ao todo poderoso: “Vejo vantagens pragmáticas de homologar por aqui, mas não quisemos avançar sem sua concordância. Podemos prosseguir”, escreveu ele a Moro.

Dava para trabalhar assim? A própria equipe enxergava “barganha”, “jogar para a plateia”, além de uma ingerência irregular do juiz que julgaria (não há redundância aqui).

Mesmo não sendo ‘noviças virgens’ (palavras do lindão), alguns procuradores percebiam que andavam fora da linha. Por que não gritaram?

Esse comportamento acabou por se diluir e Moro teve caminho livre para alcançar seus objetivos. Todos eles, mesmo os mais improváveis. Pergunte a qualquer juizeco de primeira instância qual a possibilidade ele vê em tornar-se ministro da Justiça num espaço de 3 ou 4 anos.

Moro permanece com a ladainha de que não reconhece as mensagens como autênticas. Mas a quantidade de delatores que agora admite terem sido coagidos e o cruzamento cronológico dos fatos com as mensagens, irá demandar um pouco mais de criatividade na justificativa ‘hacker’.

Mauro Donato
No DCM
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"Diga quem é o advogado que representou delatores da Camargo Correa", afirma Tacla Durán a Moro


Ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Durán, voltou a cutucar o ministro da Justiça, Sergio Moro, sobre o esquema que ele denunciou sobre o favorecimento de advogado amigo do ex-juiz da Lava Jato nas delações premiadas.

Em um post em sua página nas redes sociais, Tacla Durán questionou: "'Russo' [apelido de Moro ente os procuradores] já que você acaba de admitir o ilícito de que estabeleceu condições PRÉVIAS p/ homologar esse acordo em conluio com @deltanmd, diga quem é o advogado que representou esses delatores da Camargo Correa".

Ele se refere a novos trechos revelados da Vaza Jato revelados em reportagem da Folha de S. Paulo, que mostram que em mensagens privadas trocadas por procuradores da Operação Lava Jato em 2015, o então juiz federal Sergio Moro interferiu nas negociações das delações de dois executivos da construtora Camargo Corrêa cruzando limites impostos pela legislação para manter juízes afastados de conversas com colaboradores.

Durán, que foi advogado da Odebrecht, acusa advogados ligados a Moro de pedirem dinheiro em troca de benefícios na Operação Lava Jato. Documentos bancários encaminhados ao Ministério Público da Suíça, comprovam que no dia 14 de julho de 2016, Tacla Duran realizou um pagamento de US$ 612 mil - feito por meio de um banco em Genebra - para a conta do advogado Marlus Arn, em uma conta do Banco Paulista.

Tacla Duram já havia revelado que havia sido vítima de uma extorsão de US$ 5 milhões. Na ocasião, ele afirmou que pagou “para não ser preso” e para que seu nome não fosse envolvido nas delações premiadas de outros investigados pela Lava Jato (leia no Brasil 247).



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A parcialidade judicial: de como (só) a vergonha poderá nos redimir

“É inadmissível que o Estado, para reprimir um crime, por mais grave que seja, se transforme, ele mesmo, em um agente violador de direitos fundamentais”. (...) “A investigação, acusação e punição de crimes em situação alguma podem se confundir com uma cruzada moral ou se transformar num instrumento de perseguição de qualquer natureza.” Nota da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão – órgão do MPF.

A expressão “cruzada moral” usada na nota da epígrafe emitida por membros do MPF me fez viajar de volta alguns anos, para o interessante livro de Kwame Appiah, O Código de Honra, em que mostra como algumas práticas envergonhantes foram abandonadas a partir do constrangimento que causavam. O constrangimento é uma arma poderosa. Por isso é que criei um verbete chamado constrangimento epistemológico no meu Dicionário de Hermenêutica.

Explicando o Código de Honra de Appiah: durante mais de mil anos os pés das meninas chinesas eram atados, para que não crescessem e ficassem pequenos e delicados, em torno de 7,5 centímetros. A prática durou mais de mil anos e acabou em rápidos 20. Appiah pesquisou e descobriu que outros países estavam se inteirando desse hábito chinês e o repudiavam. Isso constrangeu enormemente os chineses. E foi decisivo.

Assim também ocorreu com os duelos na Inglaterra. Se a prática de atar os pés era vergonhosa, a dos duelos passou a ser vista como ridícula e patética. E ambas acabaram. Ele diz também que, no Brasil, a escravidão no início era normal, depois, num curto período ficou "menos normal" e, em seguida, algo abjeto, a ponto de netos não entenderem como seus avôs foram capazes de escravizar. No século XIX, um funcionário chamado Kang consegue convencer o establishment chinês de que a prática de atar os pés era, além de todos os males, ridícula e envergonhante. E o fez comparando outros povos que não amarravam pés.

Talvez no Brasil as péssimas práticas de não levarmos a sério a Constituição possa um dia ser revertida porque ela — essa prática — envergonha-nos (ou deveria envergonhar-nos!) e, porque, para outros povos, soa como ridícula. E isso deverá nos causar constrangimentos de tal monta que abandonaremos essa prática. Quem sabe? Quem sabe abandonamos as “cruzadas morais” e nos voltemos ao Direito?

Prego há anos que essa “prática de substituir o direito pela moral” deve ser enfrentada. Cruzadas morais são abomináveis. Deveria envergonhar-nos a justificação da tese de que os fins justificam os meios. Essa tese é uma vergonha para o Direito.

Sim, deveria envergonhar a todos o fato de que juristas, jornalistas e jornaleiros justificam as práticas de Dallagnol e de Moro depois que estes acabaram com o princípio da imparcialidade judicial.

Deveria envergonhar a comunidade jurídica um Procurador fazer blague com o fato de estar ganhando tantos “k” (em um momento, já tinha ganho, em alguns meses, mais de 200 ks- líquidos, confessou) ministrando palestras conseguidas graças à fama da Lava Jato. Também deveria envergonhar a todos o fato de Moro postar no twitter que tudo o que estão dizendo dele e de Dallagnol são bobagens (sic) e que nada de anormal ocorreu.

Deveria envergonhar-nos o fato de um procurador pedir dinheiro público (R$ 38 mil) para uma campanha publicitária a ser feita por uma empresa privada. Também deveria envergonhar-nos o fato de o juiz dizer que sim, esse valor era possível. E a campanha foi ao ar. Quem pagou, não se sabe.

Deveria causar vergonha a todos os utentes o fato de um Procurador “convocar” reunião com o juiz e delegado para planejar operações. Tudo combinado-conjuminado.

Deveria envergonhar-nos o fato de um juiz sugerir ao MP o tipo de prova que deveria produzir. Ou avisá-lo acerca do fim do prazo processual. E a procuradora responder “que esqueceu da prova”, mas, avisada por Moro e Dallagnol... Enfim, deveria causar vergonha o fato de se justificar esses fatos como sendo normais (sic), como se no restante do país juízes e membros do MP se comportassem desse modo conjumínico. Remeto o leitor, de novo, à nota do PFDC do MPF citada na epígrafe.

Deveria envergonhar a todos os juristas um procurador da república se transformar em bandeirinha do juiz, fazendo bajulações que envergonham a Instituição do Ministério Público. Pior: deveria envergonhar-nos o fato de a Procuradora Geral da República, em vez de investigar a conjuminância, fazer nota de apoio, comprometendo a história institucional do MP. Assim, agindo, Raquel Dodge fez a opção pelo fator “The Dark Side of The Law”. Os duelos continuam e os pés continuam a ser atados, se me permitem a analogia. E não causam constrangimentos.

Isso tudo está dentro de um contexto, no qual o homo juridicus pindoramensis trocou o Direito pela moral e pela política. O homo juridicus bateu panelas e ganhou um Bombril. Falta agora terminarem com o exame de ordem e dispensar a fiscalização da OAB. Gol de mão? Vale... e não vale. Se for a favor do nosso time, grande juiz. Se for contra, deve ser esfolado. Direito? Ah, pra que direito? – “Não me venha com garantias”. Até um famoso sociólogo do Direito escreveu – é reincidente, porque é a segunda vez que o faz - que as formalidades processuais são nefastas ao Direito. Isso deveria envergonhar-nos, certo?

Vivemos uma espécie de tenentismo jurídico e isso deveria envergonhar-nos, porque estamos canibalizando aquilo que foi feito para nos proteger. Cruzadas morais são tenentistas, diria Werneck Viana.

Tudo é velho e nada aprendemos. No Império, a Constituição abolira em 1824 a pena de açoites. O Código de 1830 instituiu açoites. E o Código valeu mais do que a Constituição. Novidade? Qual é a diferença para hoje? Nem mesmo os códigos cumprimos. Isso deveria nos envergonhar, pois não?

Por isso, minha insistência e minha luta contra as práticas predatórias do direito, do mesmo modo que o funcionário Kang denunciava a prática dos pés atados na China. Raquel Dodge poderia ter acabado com a prática, porém resolveu continuar duelando. Peço, pela enésima vez: vamos estudar Direito. E que o respeitemos. Para isso, proponho uma hermenêutica ortomolecular, para expulsar os “radicais livres” da “livre interpretação”, “do moralismo” e “do subjetivismo”.

Vamos resistir? A democracia está se esvaindo... Em nome do Direito, estamos acabando com o próprio Direito. O Direito se canibalizou.

De novo: nada disso é gerado espontaneamente. Ninguém é filho de chocadeira. Quando, logo depois de 88, os professores acharam que “agora o juiz boca da lei está morto” e “chegou a vez do juiz dos princípios”, a derrocada começou. Quando o primeiro professor de cursinho inventou o resumo do resumo e depois veio outro professor com resumão facilitadão e quejandos e quejandinhos, iniciamos a descida. Quando os concursos foram transformados em quiz shows, quando a OAB terceirizou o exame de ordem, Tribunais, Ministérios Públicos etc., apostaram no modelo decoreba e ninguém fez nada, a “conquista” se consolidou.

E quando a doutrina começou a fazer apenas glosas de julgados e um Ministro disse “não me importa o que diz a doutrina”, a derrota já estava anunciada. A última torre caíra. Predadores exógenos e endógenos, atacando por meio de ponderações, neoconstitucionalismos, realismos retrôs... completa(ra)m o dramático quadro.

Noutra frente, quando o primeiro advogado, humilhado, não reclamou da negativa de transcrição na ata do julgamento do ato autoritário do juiz, quando a doutrina ficou silente em face dos descumprimentos das leis e da Constituição e quando a comunidade jurídica se transformou em torcedora, admitindo quebra da legalidade por interesses próprios e apoiando cruzadas morais, já não havia possibilidade de retorno.

Mas havia ainda uma pequena resistência. Lutávamos. “- Não tá morto quem peleia, dizia uma ovelha no meio de dez cães famintos”, metáfora aplicável aos teimosos que, como eu, acredita(va)m no Direito. Só que, então, vieram as revelações da relação conjumínica entre juiz e acusação na Operação Lava Jato. Era o que faltava para a derrota suprema do Direito. Eles venceram e o sinal se fechou. Dito de outro modo, os pezinhos das chinesas, os duelos... constrangeram... porém, os diálogos do Intercept, não. Eis o busílis.

No direito brasileiro, continuamos a atar os pés e a duelar. E até escravizar, se me entendem a metáfora.

Portanto, falta termos vergonha das iniquidades e assumirmos que ninguém está acima da lei. E que só a Constituição salva. Nem Moro, nem Dallagnol, nem ninguém está acima da lei. E que, sem imparcialidade, a justiça morre.

Por isso, só nos salvaremos se tivermos vergonha. Só a vergonha redime. Só a CF salva, recado que – acho – agora até deverá ser bem compreendido por Flávio Bolsonaro, quem, se antes berrava contra o STF, agora, com a recente decisão do Ministro Toffoli, viu e percebeu, finalmente, o quanto as garantias são importantes...! Nada como um dia após o outro!

O que ensinaremos nas faculdades? Que tudo isso é normal? Será possível fazer isso sem que nos envergonhemos?

Será que — lembrando O Código de Honra — se envergonharmo-nos do que está ocorrendo, poderemos mudar esse quadro em alguns anos? Ou vamos ficar de pés atados, se me entendem a alegoria?

Como palavra final, meus cumprimentos à PFDC do MPF... por saber envergonhar-se!

E reconheço que as razões para a crise do Direito e da Política são, obviamente, mais complexas. Neste curto espaço hebdomadário, considerei os pontos que mais explicitam a fragilização da Constituição e do conjunto de garantias. Afinal, a Constituição deveria constituir-a-ação dos juristas. No mínimo deles.

 é doutor em Direito (UFSC), pós-doutor em Direito (FDUL), professor titular da Unisinos e Unesa, membro catedrático da Academia Brasileira de Direito Constitucional, ex-procurador de Justiça do Rio Grande do Sul e advogado.

No ConJur
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17 de jul de 2019

Ilude-se quem vislumbra vida curta de Bolsonaro no governo

Chegará o dia em que a maioria da sociedade vai querer vê-lo pelas costas, mas não é agora.

É estranho constatar que alguém tão completamente desprovido de qualidades quanto Jair Bolsonaro ocupe o cargo de presidente da República. Muita gente nem acredita.

Não sem razão, pois é mesmo chocante que ele tenha vencido uma eleição majoritária no Brasil, país que, até há pouco tempo, era saudado mundo afora pelos avanços sociais.

Não apenas vencido, mas que faça o lastimável governo que, dizem alguns, chefia.

A incredulidade levanta duas suposições.

A primeira é que ele talvez não seja o completo idiota que parece – por trás das aparências se esconderia um espertalhão.

A segunda é que o tamanho de sua incompetência fará com que sua permanência no cargo seja breve.

É extraordinário, mas permanece a dúvida a respeito da incapacidade mental de Bolsonaro (e, por extensão, daqueles que orbitam em seu entorno), apesar de ele estar no cargo há quase seis meses.

O tempo deveria ser suficiente para um veredicto.

Na oposição, muita gente ainda imagina que o ex-capitão e alguns de seus companheiros se fingem de burros e malucos para assim disseminar a confusão e dificultar a compreensão do que fazem.

Bolsonaro, os patéticos filhos, os ridículos ministros, os desmiolados inspiradores, todos estariam acumpliciados no estratagema.

A algaravia que fazem não passaria de uma cortina de fumaça para confundir os cidadãos, enquanto realizam seus objetivos políticos e perseguem as metas de sua agenda econômica.

A dificuldade em aceitar que o bolsonarismo é exatamente o que vemos, que nada existe por debaixo dos panos e que os incompetentes parecem ser incompetentes porque o são (assim como os idiotas), talvez decorra de um equívoco a respeito da última eleição.

A vitória de Bolsonaro não é prova de sua sagacidade e superioridade em relação aos derrotados.

Ele não venceu por ser, de alguma maneira, “melhor” que esses, o que, por motivos evidentes, os deixaria arrasados. Pior do que Bolsonaro ninguém quer ser.

Não cabe, no entanto, tirar essa lição do resultado eleitoral de 2018.

É fato que o ex-capitão venceu, mas isso não quer dizer que tenha sido uma vitória limpa ou legítima.

Ao contrário, ela só veio em razão de uma sucessão de golpes, a começar pela proibição da candidatura de Lula, promovida por ninguém menos que um bolsonarista, futuro ministro do dito-cujo.

Os derrotados perderam porque ele trapaceou, fugindo do debate democrático e se escondendo atrás de uma suspeitíssima junta médica. Ganhou porque arranjou aliados para financiar ilegalmente uma guerra suja nas redes sociais para destruir a imagem do candidato petista.

Ninguém precisa inventar que Bolsonaro foi competente para não se sentir incompetente.

Vencer o pleito não o tornou melhor do que antes. Continua a não passar de um medíocre, cercado de medíocres, fazendo um governo medíocre. Para dizer o mínimo.

A segunda suposição é que um governo tão ruim quanto o de Bolsonaro só pode ter vida curta. Que alguém vai tirá-lo de cena em breve para limpar o Palácio do Planalto e arrumar a bagunça.

Várias opções para essa função de higienização foram cogitadas desde a posse. De todas, a principal aponta para os militares, pois o vice é um general do Exército. Mas há quem aposte que o Congresso, pelas mãos do presidente da Câmara, ou o “mercado” (incluindo seus porta-vozes na mídia), decretando sua desconfiança definitiva no governo, poderiam abreviar o pesadelo.

Equivoca-se quem pensa assim, por três motivos. O primeiro é o mais evidente: Bolsonaro e os bolsonaristas estão encantados com o poder e só deixarão seus postos quando forem enxotados.

Pelo segundo motivo, é remota a hipótese de que sejam forçados a sair a curto prazo.

A maioria da opinião pública por enquanto considera prematura a destituição de Bolsonaro, pois, de acordo com o senso comum, “ainda é cedo”: para aqueles com baixo interesse por política e pouco informados, seis meses são insuficientes.

Chegará o dia em que a maioria da sociedade vai querer vê-lo pelas costas, mas não é agora.

O terceiro é óbvio: aqueles que o colocaram lá supõem que ele ainda tem serventia.

Não se iludem com o personagem, mas acreditam que podem dele se aproveitar. Bolsonaro está à disposição para fazer o serviço sujo do ultraliberalismo, mesmo que canhestramente, a seu modo.

A variável crucial é o comportamento da maioria. À oposição, cabe a responsabilidade de esclarecê-las, mostrando os descalabros que o governo comete e lhes oferecendo outra opção, sem permitir que a crítica seja apresentada como fruto de qualquer rancor pela derrota eleitoral.

Bater boca com Bolsonaro é jogar o jogo que ele quer, pois é a única coisa que ele sabe fazer.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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Moro e Toffoli: 2 juízes e 1 único propósito

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Como é fácil entender o regime de exceção instaurado no Brasil.

Em julho de 2018, Moro abandonou as férias em Portugal, decerto financiadas com os cachês de palestras, e interferiu na PF, no MPF, no TRF4 e no STF para impedir, a qualquer preço, inclusive o da ilegalidade, o cumprimento da ordem judicial expedida pelo desembargador Rogério Favreto que mandava libertar Lula do cativeiro da Lava Jato.

Em junho de 2019, sob a presidência do Dias Toffoli, o STF entrou em férias para adiar, pela 3ª vez, a votação do habeas corpus sobre a suspeição do Moro – cujas evidências de suspeição são aterradoras – para manter Lula preso [aqui].

Hoje, 16 de julho de 2019, foi a vez do Toffoli abandonar seu justo e merecido direito a  férias para livrar Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz de investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha etc etc.

A guarda pretoriana do regime de exceção não tem sossego. Nem férias a turma consegue tirar.

A engrenagem do regime de exceção segue azeitadíssima e funcionando a pleno, a despeito das revelações do Intercept que comprovaram documentalmente que o sistema judicial brasileiro está totalmente contaminado e foi capturado por lógicas estranhas ao Estado de Direito, para dizer diplomaticamente.

A profecia do Jucá se confirmou: “Com o Supremo, com tudo …”.

Jeferson Miola
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A Polícia Federal de Moro comanda... a Polícia Federal... E Procuradores criticam a Lava Jato



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16 de jul de 2019

“Aha, uhu o Toffoli é nosso”: STF dá abraço hétero em Flávio Bolsonaro, Queiroz, as milícias etc etc

Bolsonaro com Tofolli, senadoras e deputadas federais: pacto
O presidente do STF, Dias Toffoli, acolheu pedido da defesa de Flávio Bolsonaro — o Zero 1 – e suspendeu as investigações em curso que tenham como base dados do Coaf e da Receita Federal sem autorização prévia da Justiça.

Responsável pelo plantão no recesso do Judiciário, assinou a decisão na segunda, dia 15, mas o conteúdo foi divulgado um dia depois.

Numa canetada, liberou geral a vida de corruptos e milicianos.

No fim de 2018, o Coaf apontou operações bancárias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Verificou-se movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, amigo da família, ex-factotum  de Flávio à época ele era deputado estadual.

Em janeiro, Luiz Fux já havia mandado suspender investigação instaurada pelo Ministério Público contra Queiroz e o ex-chefe.

Ao retornar das férias de janeiro, o relator Marco Aurélio Mello negou o pedido do senador.

Os bolsonaristas não precisam se incomodar em fechar o Supremo.

Não precisou, como pediu Eduardo num vídeo famoso, um cabo e um soldado para o serviço.

Em maio, Toffoli participou de um café da manhã no Palácio da Alvorada em que Bolsonaro defendeu um “pacto” entre os três poderes da República para aprovar reformas, especialmente a da Previdência.

Ora. Isso é papel do Executivo e do Legislativo.

Posou para fotos patéticas com Jair e Joice Hasselmann fazendo coraçãozinho com as mãos.

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) chamou atenção, inutilmente, para a necessidade de manter independência e resguardar a “imparcialidade” do Poder que ele representa.

“É muito bom termos aqui a Justiça ao nosso lado”, falou Bolsonaro, num de seus abraços héteros.

Toffoli é santo de casa e faz milagre. In Toffoli we trust.

Kiko Nogueira
No DCM
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Sob os céus de Brasilia, o strip moral dos poderes

Por aqui, tudo é concentrado, sem a diluição que a distância impõe nos grandes centros. Os poderes se encontram nos restaurantes, nos gabinetes, nos salões dourados dos três Poderes, com a chocante contraste em relação à miséria nacional


O panorama, visto de Brasília, é mais desanimador ainda. Estou desde ontem aqui, para uma palestra na Fundação João Mangabeira e, à noite, para o lançamento do meu livro – “Walther Moreira Salles, banqueiro e embaixador e a reconstrução do Brasil” -, às 19 horas no Carpe Diem.

Brasília é a síntese maior da perda de rumo nacional. Por aqui, tudo é concentrado, sem a diluição que a distância impõe nos grandes centros. Os poderes se encontram nos restaurantes, nos gabinetes, nos salões dourados dos três Poderes, com a chocante contraste em relação à miséria nacional.

Tem-se, por aqui, de forma clara, o mapa da perda de rumo nacional.

O álibi Lava Jato servia para tudo, era melhor do que o ipê roxo que, dizia-se, curava de câncer a dor de dente. Serviu para a imprensa se auto justificar e mergulhar de cabeça no pior período de antijornalismo da sua história; para Ministros do Supremo abrirem mão das convicções nas quais montaram para serem indicados ao cargo e cair no samba vivendo o papel de salvadores da moral; para o Ministério Público abandonar sua vocação garantista e se tornar um explorador de escândalos.

Agora, cai a noite e sob os céus de Brasília a divulgação das conversas pela Vazajato tira dos principais personagens as vestes da hipocrisia, com as quais cobriam suas partes pudendas.

As instituições viraram fumaça e seus integrantes estão nus. Baixaram a cabeça para todos os abusos e, agora, quedam inertes, sem esboçar nenhuma reação ante o strip tease moral da Nação.

Perdeu-se completamente qualquer referencial de moral, qualquer senso de pudor.

* Juízes e promotores defendem interferências de Moro na Lava Jato, enquanto jornais de todo o mundo se escandalizam.

* Veículos relevantes, como Estadão e Globo, escondem a notícia.

* A tentativa de colocar a COAF para investigar Glenn Greenwald foi enfrentada por um procurador do Tribunal de Contas da União, porque a Procuradoria Geral da República não se manifestou.

* Um Ministro do Supremo, Luiz Fux, vai falar para um evento de uma instituição financeira, informa que será o próximo presidente do Supremo e apoiará todas as propostas econômicas do distinto patrocinador que lhe garantiu o cachê polpudo.

* Nos jornais, mentes mais sensíveis escandalizam-se com a indústria de palestras de Deltan Dallagnol. E como ficará a indústria de palestras do Ministro Luis Roberto Barroso que, primeiro, aderiu à Lava Jato por receio, e, depois, se tornou praticante do empreendedorismo judicial defendido por Deltan?

É um panorama tão contristador, que os personagens nem ousam atitudes minimamente dignas. Tome-se o caso de Raquel Dodge. Era nítido que não seria reconduzida no cargo de PGR. Tinha, então, a oportunidade histórica de resgatar a imagem do MPF, com um final de mandato altivo, independente, de defesa da Constituição, dos direitos, contra os abusos praticados nesse saque diuturno contra o Brasil. Não teria a recondução, como não terá. Mas sairia com a biografia consagrada. Em vez disso, preferiu se curvar ao ogro, tão submissa quanto Sérgio Moro, abrindo mão da votação na lista tríplice para tentar ganhar a confiança de Bolsonaro.

A mídia que cobrava insistentemente a autocrítica do PT está presa ao seu passado, à banalização dos escândalos, ao protagonismo político, e a perda de credibilidade no bojo de uma crise universal dos modelões tradicionais de mídia.

A crise dos jornais se alastra por todos os cantos. Há notícias de passaralhos no Valor Econômico, ceifando os salários mais caros – justamente dos jornalistas que ajudaram a criar a reputação do jornal. Época, que voltou a fazer bom jornalismo, se sustenta com o apoio da mãe Globo. O Globo, que tentou se reciclar, volta e meia é derrubado pelo pacto do diabo firmado com a Lava Jato, que impede essa mea culpa disfarçada de outros veículos.

Mas a foto da home mostra que o enxugamento das redações cobrou um preço alto. As manchetes principais permanecem na home durante todo o dia, sem renovação.

Jornalistas que surfaram na onda, e se valeram do empreendedorismo da Lava Jato, como seus porta-vozes oficiosos, discretamente estão saindo da cobertura e se escondendo atrás de temas menos comprometedores.

Folha e Veja tentam, em um esforço desesperado, recuperar o jornalismo perdido.

Aliás, é comovente as tentativas de Veja, desde André Petry, de recuperar parte da imagem daquela que foi o mais influente órgão da imprensa e escrita por muitas décadas, jogada ao esgoto pelos próprios donos.

Luís Nassif
No GGN
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Perto do fim


Não se trata mais de culpa ou inocência, mas do tamanho do abismo sobre o qual o País, governado por uma turba de desqualificados, está prestes a ser jogado.

A julgar pela fuga de Sérgio Moro e o silêncio da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, estamos todos por conta própria, à espera de uma mega crise institucional provocada por uma paralisia política próxima da estupidez.

Apoiado por mentirosos, dentro e fora do governo, Sérgio Moro se mantém escorado no hacker imaginário, um delírio com fôlego cada vez mais curto e, por isso mesmo, com terrível potencial para se transformar em tragédia: apoiadores do ex-juiz falam na prisão de um laranja disposto a confessar adulterações nas mensagens do Telegram.

Trata-se de cinismo, além de um flerte com perigo, mas talvez Moro, chefe da Polícia Federal, com o apoio de Bolsonaro, esteja mesmo disposto a dobrar a aposta contra o bom senso e a democracia.

Ele, aliás, como de resto, o mundo todo, sabe que as mensagens são verdadeiras e que, embora ainda esteja razoavelmente blindado, sua atuação como chefe de fato da Lava Jato, em conluio com o Ministério Público, é o fim da linha para suas ambições políticas.

Mais ainda: a possibilidade real da anulação das sentenças da Lava Jato, uma a uma, em efeito cascata, farão dele um alvo fácil dos muitos inimigos que fez, ao longo dos últimos anos, e não só na esquerda.

Nessa toada, vai acabar como muitos outros salvadores da pátria criados pela Casa Grande para conter a força do povo e destruir lideranças populares: caído, moralmente mutilado e, finalmente, esquecido.

O julgamento histórico é cruel e, em tempos de redes sociais globais, cada vez mais rápido.

Leandro Fortes, jornalista
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Que a merda em que afundam não lhes seja leve


Sem corrupção, grossa, farta e porca, Moro, Dallagnol e seus pistoleiros dos tribunais seriam nada, ninguém, zero. Seriam farrapos humanos tristes, perdidos e infelizes.

Todos os dias, Moro, Dallagnol e os milicianos judiciais despertam, levantam e se ajoelham ao pé da cama, agradecendo ao Papai do Céu a graça alcançada por viverem em meio à corrupção grossa, farta e nauseabunda.

Se todos vivessem num mundo em que existisse justiça, democracia e bem-estar, com renda dividida e comida na mesa, Moro, Dallagnol e os caçadores de recompensas dos data vênia seriam zés-ruelas. Passariam despercebidos como fiapos de gente medíocre, sem metafísica e sem ideias.

Moro, Dallagnol e os abutres de terninhos e pretinhos básicos provincianos tentaram transformar pessoas, reputações, empregos, projetos e sonhos em carniça bichada a pavimentar a boa fama de suas carreiras, negócios e esticadas a Cancún, Las Vegas e Miami, sonho dourado de todo moralista de arrabalde.

Moro, Dallagnol e a quadrilha das primeiras, segundas e terceiras instâncias acordam, almoçam, jantam e dormem corrupção. Estão tão entranhados, que secretamente torcem para que ela aumente. Sempre.

Salve Moro, Dallagnol e a equipe de capitães do mato que brandem todos os códigos legais como pastores picaretas chacoalham a Bíblia para conspurcá-la. Eles viveram momentos de plena felicidade e êxtase ao longo dos últimos anos.

Salve Moro, Dallagnol e o rebotalho juramentado que os acompanha! Eles agora estão no palco nus, com as partes de fora, sem maquiagem, sem disfarces e sem mais nada, na inteireza de sua repugnância moral.

Que a merda em que afundam não lhes seja leve.

Gilberto Maringoni
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A ‘jabalândia” de Deltan & cia no Ceará


Monica Bergamo, na Folha, põe uma cereja cearense na história da lucrativa exploração de prestígio de Deltan Dallagnol, que empresariou a Operação Lava Jato para lhe render um bom dinheiro “por fora” em palestras e eventos.

Numa quinta-feira à noite, 20 de julho de 2017, o ubíquo procurador estava em Fortaleza, ensinando aos empresários cearenses as virtudes da honestidade.

Mas como a vida não é só feita de sacrifícios, além dos “30 k” – a maneira pela qual se refere ao cachê de R$ 30 mil por cada palestra nas mensagens trocadas com Sergio Moro – Dallagnol arrancou também passagens de avião e hospedagem para sua mulher e filhos no caríssimo hotel e complexo de lazer aquático Beachpark – coisa de R$ 1 mil a diária para o resto do final de semana.

“Eu pedi pra pagarem passagens pra mim e família e estadia no Beach Park. As crianças adoraram”, disse Dallagnol. “Além disso, eles pagaram um valor significativo, perto de uns 30k [R$ 30 mil]. Fica para você avaliar.”

Uma beleza!

Deltan deve ter gostado, pois repetiria a dose, um ano depois, em outubro de 2018, agora às custas do plano de saúde Unimed, seção Fortaleza, palestrando sobre ““Ética e luta contra a corrupção”.

Além da ideia dada a Sérgio Moro que pegasse também o “bocão”, Dallagnol deixa nas mensagens uma cândida observação: de que o abuso não vai dar problemas:

“Não sei se você viu, mas as duas corregedorias —[do] MPF [Ministério Público Federal] e [do] CNMP [Conselho Nacional do Ministério Público]— arquivaram os questionamentos sobre minhas palestras dizendo que são plenamente regulares”.

Plenamente, Deltan, plenamente.

Fernando Brito
No Tijolaço
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