6 de jul de 2015

Como preparar a resistência a um golpe

Vira-latas golpistas estão nas ruas
Tenho visto pessoas aflitas com a possibilidade de um golpe reacionário ser praticado no Brasil, mas quero ao mesmo tempo dar a esperança de que este golpe não ocorrerá, também alertar para que todos estejam prontos para uma reação imediata caso ocorra uma ruptura institucional.

Primeiro entendamos qual é a estratégia golpista e como ela tem procurado instalar o clima do golpe. Em segundo lugar, compreendamos como agir a fim de não deixar o golpe acontecer e caso aconteça, como revertê-lo. Por fim, que fique claro que não existe nada na história que é dado até que aconteça e mesmo o que acontece pode ser um fator aglutinador de resistência.

As forças interessadas no golpe atualmente são exatamente as mesmas que o fizeram em 1954 e 1964. São os meios comunicações hegemônicos (Globo, Veja, Folha, Estadão, etc), as grandes empresas multinacionais (em especial as petrolíferas concorrentes da Petrobrás), o imperialismo dos Estados Unidos (que não aceita a integração latino-americana e o BRICS) e a direita golpista (fascistas, ultraliberais e fundamentalistas religiosos). Este consórcio perdeu as eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014 e está disposto a ir às útlimas consequências com o golpe para barrar o projeto de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda que, aos trancos e barrancos, ainda é o que de melhor o cenário político nacional é capaz de oferecer.

A estratégia golpista tem sido experimentada de várias formas. A tentativa de invalidar as eleições, a rejeição das contas do governo pelo TCU ou da campanha de Dilma pelo TSE, alguma delação "premiada" que mesmo virtualmente associe a operação "Lava Jato" ao governo ou qualquer outro tipo de pretexto. Tudo isto está fácil com o Congresso controlado pelo PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que ainda têm o vice-presidente Michel Temer (os três na linha de sucessão). Muito provavelmente eles tentarão o golpe da mesma forma usada em Honduras ou no Paraguai, via legislativo ou judiciário. Vale lembrar que a mesma embaixadora dos Estados Unidos em Assunção na ocasião da deposição de Lugo, está hoje alocada em Brasília.

Mas um golpe sem apoio de parcelas significativas da população não se sustenta. Por isto vem o bombardeio dos meios de comunicação. Neste fim de semana, estava uma chuva tremenda, a estrada cheia de lama e o ônibus largou todos os passageiros no meio do caminho. Todos ficaram indignados, mas um senhor surpreendeu-me dizendo: "culpa dessa Dilma que essa estrada está deste jeito". Por sorte recordei-o de que quem deveria cumprir este papel era o prefeito e, depois de um certo conflito mental, parece que o senhor aceitou que nem todos os problemas políticos do mundo são culpas do bode expiatório fabricado pela mídia: a presidente e seu partido (Hoje, o bode espiatório chama-se Dilma. Ontem chamou Jango e anteontem seu nome era Getúlio). Este é um típico exemplo da desinformação propagada pela mídia.

E assim funciona a onda da ignorância: espalham por todos os meios que a culpa é de uma pessoa e de um partido. Enquanto só falam deles, todos os outros roubam à vontade, tocam o terror nos poderes legislativos e judiciários, fazem os piores crimes de descaso com a população no nível municipal e estadual, mas sempre nos fazem lembrar que a culpa é do bode expiatório. Os outros partidos, em especial o PSDB e o PMDB, podem roubar à vontade que ficam blindados pela mídia. E é exatamente por isso que interessa a eles o golpe.

Depois das manifestações "contra a corrupção com a camisa da CBF", a direita golpista mostrou sua cara. Mas seu intento de seguir mobilizada fracassou com o discurso do ódio prevalecendo na pauta. No entanto, várias ações fascistas isoladas têm proliferado como agressões a membros do partido da presidente e mesmo ataques à suas sedes. Isto, infelizmente, não tem sido enfrentado por parte do governo, que parece inerte perante tantas agressões. Além de ter uma péssima política de comunicação social, o governo tem agido de forma burocrática com despachos de gabinete sem travar o debate na sociedade, o que dificulta a resistência. Mas mesmo assim, é preciso lutar para que o golpe não ocorra e caso ocorra, ele precisa ser revertido, denunciado seus autores punindo-os devidamente.

É preciso construir uma frente ampla em defesa da democracia com partidos, movimentos sociais e a sociedade civil organizada. Também deve-se avançar na luta antifascista e na formação ideológica das forças populares e democráticas. Este caldo é fundamental para resistir a uma eventual quebra da institucionalidade democrática. Vale lembrar que existem muitos exemplos de contragolpes que foram não apenas bem sucedidos, mas principalmente reverteram as limitações do governo anterior e repactuaram as forças políticas do país num sentido mais progressista.

De fato, é preciso ter claro que este golpe não visa melhorar o país, tampouco salvá-lo de qualquer coisa. Ele simplesmente pretende barrar os avanços sociais da última década que foram importantes, mas pequenos. Porém, foram o suficiente para despertarem o ódio das elites que sempre entregaram nossos recursos naturais ao imperialismo e sempre tiveram por projeto a submissão do Brasil ao grande capital estrangeiro. Ou seja, trata-se de um golpe para mudar tudo, desde que tudo fique como está.

Portanto, transformemos a crise em oportunidade. Ao invés de caírmos num pessimismo ou autoflagelo da esquerda, estejamos com a certeza de que vale a pena lutar e resistir. Não esperemos uma reação do governo. Tomemos as ruas e as redes com palavras de ordens consequentes. Derrotar o fascismo, o golpismo e o entreguismo é dever e honra desta geração. Lutemos de cabeça erguida para que fique registrado nos anais da história não apenas que esta geração não fugiu à luta, mas que ela foi vitoriosa em garantir a democracia.

Professor Thomas de Toledo
No Esquerda Caviar
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O STF vai lavar as mãos diante do golpe de Cunha contra o povo e a Constituição? Ministros, coragem!


Em 2003, na primeira edição do Brasil de Fato, Celso Furtado disse: “Lula deve ter coragem se quiser conter a desagregação que ameaça o Brasil”.

Hoje, na minha maior e pura imaginação e com devoção e respeito ao professor, diria que esta seria a mesma observação que ele faria aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em períodos de  esgarçamento da democracia, o Poder Judiciário é colocado em xeque face ao seu papel de guardião da democracia. No período da ditadura de 1964, até certo momento, o STF foi um alento diante das violações,mas com o AI-5, foi castrado na sua atribuição de órgão que compõe o sistema dos três poderes, independentes e harmônicos. Ministros fizeram suas escolhas e por esta razão alguns foram cassados ou se afastaram. São ícones da nossa história, como o Ministro Evandro Lins e Silva.

Hoje, como  nunca, é necessário que o STF seja a expressão maior de um poder da República, um órgão da soberania nacional, entendido na perspectiva da subordinação ao povo, nos termos do ordenamento jurídico democraticamente construído.

A “polis” determinou na Constituição Federal qual é a sociedade que almeja, sob quais princípios, fundamentos e patamares éticos. Nenhum juiz ou legislador pode substituir essas diretrizes pelas suas.

Mas, no período de um mês, tivemos dois episódios, da maior gravidade, que demonstram que os legisladores, querem tratorar a Constituição e substituir o povo, que deveriam representar.

Refiro-me às PECs da menoridade e do financiamento empresarial de campanha eleitoral, que instauraram um período sombrio no Poder Legislativo. Vários juristas já anteviam o agravamento desta situação ao subscreverem o Manifesto em Defesa da Constituição e do Parlamento, registrando a importância de manutenção de um Legislativo íntegro.

Nestas dois casos, o que tivemos foi um golpe do legislativo contra o povo, dos mais abjetos, na medida que rompeu com a regra da Constituição, que só pode ser mudada dentro do estabelecido pelo sistema democrático.

A Constituição não permite a reapreciação de um projeto de lei em determinado lapso temporal , e assim o fez para a necessária estabilidade legislativa, fundamental para a existência da democracia. O Poder Legislativo é um dos tripés do Estado Democrático de Direito, que só poderá existir se mantida a dignidade do processo legislativo.

Pois bem, o que foi feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e muitos outros violadores do processo legislativo que o seguiram, diante de um resultado que não os agradava? Maquiaram uma proposta, dando o nome de “aglutinativa”, usando a proposta rejeitada, suprimindo parte dela, para colocar novamente em votação, o que é absolutamente vedado.

Admitir que projetos rejeitados fossem recortados e novas emendas apresentadas, infinitamente, até que se chegasse ao resultado pretendido — sabe-se lá Deus com que tipo de persuasão! — não é o que determina e almeja a Constituição.

Cabe agora ao Supremo Tribunal Federal colocar as coisas nos trilhos, nos processos que lhe são apresentados. Medidas devem ser tomadas rapidamente, pois o povo e a democracia não pode ficar à mercê do tempo ou mesmo da vontade particular dos ministros.

O Supremo Tribunal Federal tem processos em suas mãos e todos cidadãos esperam uma resposta, com a urgência e magnitude de tudo o que está envolvido.

Em relação ao financiamento de campanha, passou da hora do STF decidir a ADI proposta pela OAB, que discute o financiamento empresarial (Ministro Gilmar Mendes disse que devolveria em junho, mas não devolveu; e no mês de julho o STF não julga ADI em razão do recesso). Se o julgamento tivesse sido realizado, o Legislativo já saberia o patamar definitivo sobre o tema.

A urgência é aflitiva, pois em breve teremos eleição em todas as cidades e o Supremo precisa dizer que empresas não podem financiar campanha eleitoral, como já afirmou a maioria dos ministros. Se o STF não julgar, coonestará com o que ocorre em relação ao sistema eleitoral, admitindo que milhões e milhões e milhões de reais sejam despejados pelas empresas nas mãos dos nossos futuros políticos.

Também necessário que a ação (mandado de segurança) referente à violação do procedimento legislativo seja julgado o mais rápido possível, para que diga, como órgão jurisdicional que detém a última palavra, se valeu ou não a segunda votação que foi feita.

No que diz respeito à PEC da menoridade, imprescindível que seja proposta ação perante o STF.

O Supremo Tribunal Federal é o responsável para que a Constituição Federal não se torne letra morta. A ele cabe a manutenção da higidez constitucional, a afirmação do Estado Democrático de Direito, o que não se concretizará pela omissão, segurando processos.

Muitas outras ações no STF estão paradas há muitos anos. Entre elas, a da demarcação de terras indígenas, cuja omissão traz um flagelo inominável aos povos indígenas, e a que pede a realização de auditoria da dívida pública brasileira (como determinado na Constituição).

O Supremo Tribunal Federal é o responsável para que a Constituição Federal não se torne letra morta. A ele cabe a manutenção da higidez constitucional, a afirmação do Estado Democrático de Direito, o que não se concretizará pela omissão, segurando processos.

Muitas outras ações no STF estão paradas há muitos anos. Entre elas, a da demarcação de terras indígenas, cuja omissão traz um flagelo inominável aos povos indígenas, e a que pede a realização de auditoria da dívida pública brasileira (como determinado na Constituição).

Diante desse quadro, preocupadíssima, pergunto: O STF vai lavar as mãos diante do golpe de Eduardo Cunha e muitos outros violadores contra o povo e a Constituição

Na democracia não dá para lavar as mãos. É preciso ter coragem.

Engana-se Eduardo Cunha se pensa que é dono do brinquedo, da bola. Ele não é dono do poder, o poder pertence ao povo.

Kenarik Boujikian, magistrada no Tribunal de Justiça de São Paulo e  cofundadora da Associação Juízes para a Democracia
No Viomundo
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Oportunidades iguais a pessoas com deficiência fortalecem democracia, afirma Dilma

Dilma: nova lei define pena de reclusão de um a três anos para quem discriminar pessoas com deficiência.
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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A mídia comanda o retrocesso

Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Roussef aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de gasolina de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país, mas todos os cidadãos e, principalmente, as mulheres, no Brasil e no mundo. A metáfora visual é a de uma penetração sexual, de um estupro.

Essa afronta não é um caso isolado. Pelo contrário, a passividade das principais autoridades do país tem autorizado uma série de crimes, contra a democracia e contra a dignidade humana.

Por trás de gestos mais raivosos, tresloucados e imbecilizados, foi tecida uma competente estratégia de propagar o ódio e promover a agitação social necessária à aplicação de um golpe de estado para o qual só parece faltar o acerto de data. Mais que um golpe contra o resultado das urnas, seria um golpe contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64.

Some-se a isso uma intolerância religiosa que era até então desconhecida no país e que hoje grita seus slogans medievais muito além dos púlpitos, nos parlamentos e nas emissoras de rádio e tevê.

Depois da quarta derrota eleitoral à presidência, os setores mais conservadores da sociedade brasileira perceberam que, pela via democrática, suas chances de ascender ao Palácio do Planalto tornaram-se remotas. Se não foi possível convencer pelo voto, importantes setores da mídia, do parlamento e do judiciário desenharam nova estratégia.

Os principais veículos de comunicação passaram a desenvolver, diariamente, uma estratégia que consiste em omitir o que há de positivo no país e exagerar na análise pessimista. Mais que isso: o que poderia ser uma excelente oportunidade para desnudar como funciona o esquema de financiamento de campanhas políticas e o uso da máquina pública e de empresas estatais para troca de favores — em todas as esferas, federais, estaduais e municipais — resultou em uma justiça caolha, uma mídia manipuladora e um Congresso Nacional retrógrado, centrados no objetivo de criminalizar um único partido, um único governo e, especialmente, Lula e Dilma.

O festival de imagens agressivas vem sendo produzido há muito tempo. Um dos casos mais recentes ocorreu na coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo (29/6/2015), que pôs a cabeça degolada da presidenta Dilma em uma bandeja. O título acompanha o “primor” da ilustração: “Em jogo, a cabeça de Dilma”.

O jornal Correio Braziliense publicou no dia 8/9/2014, na capa, uma foto de Beto Barata em que uma metralhadora é apontada contra a face da presidenta, durante desfile militar de 7 de Setembro.

O mesmo truque de angulação — usado à exaustão e, portanto, já sem nenhuma originalidade — deu a Wilton Júnior (O Estado de S. Paulo) o Prêmio Esso de Fotografia de 2012. Ilusoriamente uma espada trespassa o corpo da presidenta durante uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Se alguns dos principais veículos de comunicação, por repetidas vezes, simulam que a presidenta deve ser executada — e aí não há nenhuma possibilidade de inocência nessa metáfora de “morte à presidenta” —, porque deveríamos estranhar que essa convocação à “malhação de Judas” não encontraria campo fértil em meio a milhares de internautas ávidos por exibir toda a sanha reacionária e a falta de escrúpulo no debate político? Por que nos surpreenderíamos com tantos cartazes pedindo a volta da ditadura em passeatas que a mídia louva como a fina flor da democracia? Por que nos espantaríamos com as bancadas evangélicas, da bala e do latifúndio a vociferar contra os direitos humanos?

Houve quem tenha se recusado a reproduzir, nas redes sociais, a imagem sórdida de uma mulher, de pernas abertas na boca do tanque de combustível de um automóvel.  Compreendo e louvo a tentativa de evitar a banalização da cena. Inclino-me, no entanto, na direção contrária, por uma razão: não podemos deixar de ver, compreender e estar alerta contra o que ameaça destruir a dignidade humana. Ver para não se iludir sobre o crescimento da barbárie. Ver para denunciar o ódio que cega tantas pessoas que se consideram humanas, amorosas.

Estranhamente, começaram a surgir, também na internet, os indignados contra quem se indignou. Houve muitas críticas aos que optaram por mostrar as imagens anexas aos textos de protesto a esse ato de misoginia. Boa parte dos críticos não atacou os autores da fotomontagem que escandalizou o país. Preferiu desviar o foco do debate, para tentar atingir apenas aqueles que se disseram profundamente impactados pelo ato vil.

A imagem é grosseira e não cabe banalizá-la com reproduções gratuitas e comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil, e acordem a tempo de evitar o pior. Há uma profusão de atentados à democracia e à dignidade humana. E, por serem desferidas contra o atual governo, contra Lula, Dilma e o PT, não faltam incentivadores desse ódio que brota de nossas raízes racistas, conservadoras e elitistas.

Há coisas que precisam ser vistas. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios. Algumas imagens têm o poder de alertar contra a fera humana, sempre numa tênue fronteira entre civilização e barbárie.

A imagem que repugnou o país é somente o ápice de uma ação que tem os donos da mídia como principais articuladores. É um movimento que também grita contra os direitos humanos, que não se conforma com a inclusão social, não se importa em entregar as riquezas e o futuro do país aos interesses do capital internacional, não se importa com uma justiça de duas caras, dois pesos e duas medidas, que não aceita as mudanças que ocorreram nos últimos anos beneficiando sobretudo os mais pobres. Essa imagem é só uma amostra do nível de degradação a que estaremos expostos se as forças reacionárias dominarem novamente o Brasil.

Celso Vicenzi
No Viomundo
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Não vai haver golpe, e aqui estão as razões

Ela vai até 2018
Cansei.

Cansei do clima de derrota, de desolação, de paranoia que se alastrou pelos círculos progressistas nas redes sociais.

É como se o golpe fosse uma coisa inevitável.

Não poderia haver coisa mais errada.

Não vai haver golpe. Repito. NÃO vai haver golpe. Lamento as maiúsculas, mas são necessárias neste caso.

2015 não é 1954 e não é 1964.

As circunstâncias são diferentes, completamente diversas — exceto pela vontade da direita de subverter o resultado das urnas e a democracia.

Alguns pontos:
  • Não vivemos numa Guerra Fria. Os Estados Unidos, consequentemente, não têm marines prontos para despachar para o Brasil para defender os golpistas de direita;
  • Não existe, no Brasil, um exército mobilizado para colocar os tanques nas ruas. Foi tão funesta a experiência dos militares no poder — 21 anos de poder e uma desastrosa obra em todos os campos, da política à economia, para não falar da questão social — que não existe a mais remota chance de uma segunda aventura dos generais por séculos.
  • Nem Jango e nem Getúlio tiveram a internet como contrapartida para o massacre da mídia.
  • Mesmo com o desgaste dos anos e de alianças bisonhas, o PT tem uma base social que ninguém pode subestimar. O Brasil entraria numa convulsão, e a direita sabe disso. Toda a raiva acumulada pela campanha de ódio da direita se traduziria em ódio na mesma medida da esquerda, e o país poderia virtualmente entrar numa guerra civil.
Por tudo isso, e por outras coisas que tornariam este artigo interminável, não vai haver golpe.

O que a direita quer, com sua gritaria histérica e alucinada, com suas ameaças tonitruantes e vazias, é manter os progressistas acoelhados, imobilizados até 2018.

E está conseguindo.

Espinha ereta: é isto que está faltando para os progressistas.

Coragem.

E discernimento.

Nestes dias, amigos no Facebook compartilharam, amedrontados, uma nota do Painel da Folha em que estava, segundo eles, o “roteiro do golpe”.

O Painel é feito pela mulher de um assessor de Aécio, e ex-editor da Veja.

Levar a sério?

Faz meses, anos, que a Veja afirma que o governo petista vai cair. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.

É a vontade da Veja, porque um presidente amigo prolongaria com dinheiro público a vida da Abril, agonizante.

Só que entre a vontade da Veja e a realidade vai uma distância enorme.

Mas os progressistas parecem desconsiderar, e entram em pânico.

O medo imobiliza, e este é o principal problema para os progressistas.

Você sente desânimo para dar a melhor resposta para a gritaria conservadora: sair às ruas.

É nas ruas que a batalha vai ser ganha ou perdida. E não estou falando em golpe, mas em 2018.

Termino com Montaigne.

Num de seus melhores ensaios, ele afirmou: “Meu maior medo é ter medo.”

Os progressistas estão com medo — e a hora é para adultos, não para meninos assustados.

Paulo Nogueira
No DCM
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Eduardo Cunha e o contrato insuficiente

Neste momento, não há quem não esteja intrigado com a desfaçatez de Eduardo Cunha ao driblar a Constituição pra conseguir aprovar a emenda que reduz a idade penal no Brasil de 18 para 16 anos. Quer dizer, há: mas somente aqueles que são radicalmente favoráveis a ela. Por outro lado, OAB e a parte derrotada do Congresso já anunciaram que vão recorrer ao Supremo para denunciar a reapresentação do texto, com apenas algumas pequenas alterações, menos de 24 horas após o primeiro resultado, que não havia atingido o número necessário de votos para sua aprovação.

A manobra é vedada pela carta magna, justamente porque, se possível, permitiria a sondagem antecipada de votos dissonantes no plenário — já que eles são públicos — e eventuais práticas coercitivas de convencimento para a virada pouco tempo depois.

Neste momento, são muitas as perguntas: como isso foi possível? Ninguém pode barrá-lo? O que explica o tamanho da aceitação de uma gambiarra com a maior referência legal do país?

Em Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, Christian Dunker oferece uma importante ferramenta pra desvendar esse embaraço. De acordo com o psicanalista, o modo de vida que proliferou no Brasil a partir dos anos 70 contribuiu significativamente para a dilatação do contrato social que nos rege, diante do reconhecimento de uma falência generalizada do espaço público.

É no interior dos muros dos condomínios que a vida que não funcionou lá fora pode dar certo. Verdade seja dita, este é um dos ingredientes da ascensão do neoliberalismo no Ocidente a partir de então, quando todos os aspectos da vida passaram a ser incorporados pelo mercado, inclusive a segurança e a felicidade. "Porque aqui é domingo todos os dias", seduz um dos anúncios de lotes à venda.

Entre "iguais", a sensação de segurança aumenta exponencialmente. Por "iguais", entenda-se: aqueles que podem pagar pelo conforto de uma vida paralela a comum, aquela perigosa do lado de lá do muro. Mas, segundo Dunker, o sonho do domingo repetido virou pesadelo. E é Freud quem explica: entre semelhantes, as pequenas diferenças se avolumam, produzindo o que ele chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Daí a sensação de que o contrato social precisa ser constantemente refeito, atendendo pequenos e insignificantes conflitos, potencializados, no entanto, pela igualdade de condição entre os diferentes.

É o que ajuda a explicar o crescente fenômeno dos justiçamentos, que aumentaram brutalmente nos últimos anos junto com a ideia de que o número de leis no país é insuficiente e só contribui para a insegurança. Com a proposta de redução da maioridade penal não é diferente: não resolve, em nenhum país resolveu, mas a medida funciona como uma espécie de morfina pro sofrimento daqueles que se contaminaram com a paranoia de que a delinquência juvenil é o retrato da impunidade no país.

Nas redes sociais, assim como houve no próprio Congresso durante a sessão que aprovou a emenda, Cunha é ovacionado como um líder corajoso que desafiou o PT e a bancada dos Direitos Humanos. Ainda que legalmente errado, está moralmente certo diante do imaginário popular e, neste caso, a Constituição é vista somente como uma barreira, um impasse, uma burocracia. Cunha reproduz aquilo que Christian Dunker aponta como uma tendência no Brasil entre muros: é preciso alguém que ande à margem da lei pra que a lei seja restabelecida. Está longe de ser aleatória a presença do personagem de Batman nos últimos protestos por intervenção militar no país.

Aconteceu há pouco com Joaquim Barbosa e se repete com Cunha a materialização de um sentimento que está nas ruas e que precisa ser compreendido pra que o estado de direito não se dissolva de vez. Mais do que a idade penal, o que está em jogo é a democracia e tudo o que de mais importante ela garante, inclusive o direito de comemorar a sua derrocada.

Murilo Cleto
No Blog do Miro
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PSDB quer dar um Golpe (só de) branco!



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Não somos nazistas: Judeus e petistas

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Dilma e o PT: mirem-se no exemplo daquelas pessoas de Atenas

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/dilma-e-o-pt-mirem-se-exemplo-daquelas-pessoas-de-atenas/


A “Folha” abriu de forma curiosa o texto em que noticia a vitória do NÃO na Grécia: “em um resultado surpreendente…” De fato, o rechaço ao programa liberal imposto aos gregos foi surpresa — mas apenas para quem se baseia nas agências de notícias internacionais e nos comentaristas da GloboNews.

Acontece que o mundo real não aboliu a política.

Vejamos: o ajuste ultraliberal imposto à Grécia nos últimos 5 ou 6 anos foi aceito pelo PASOK (histórico partido de centro-esquerda, que se desmoralizou e perdeu base social justamente por ter cedido ao FMI e à União Europeia/UE). Humilhados, os socialistas do PASOK tiveram que ser substituídos por um governo “técnico” liderado por Samaras (e este seguiu na mesma linha ultraliberal).

O ajuste provocou uma tragédia social. O resultado veio nas urnas. O partido Syriza ganhou em 2014, dizendo que romperia com o ajuste liberal.

O que fizeram os banqueiros, o FMI e os burocratas da UE? Disseram assim: danem-se as urnas, o programa liberal não muda, e deve ser aplicado seja qual for o vencedor nas urnas. É como se a democracia tivesse sido substituída por uma tecnocracia econômica que diz o que é bom pra todos nós.

O Syriza não aceitou a chantagem. Não foi tampouco “juvenil” nem panfletário. Sentou à mesa, tentou negociar. Diante da arrogância europeia, resolveu consultar o povo. O referendo de domingo foi um reforço no mandato popular que o Syriza já possuía.

O paralelo com o Brasil é evidente. Claro que a crise grega é dez vezes mais grave. O Brasil não adotou um ajuste tão severo como o imposto a Atenas. Ok. Mas o paralelo serve para entender a questão democrática.

Dilma foi eleita dizendo que não cederia à chantagem do “mercado” e cunhou a famosa frase: “nem que a vaca tussa”. Passada a eleição, virou as costas para o programa vencedor.

É como se  o Syriza tivesse aceito a chantagem da UE…

Dilma cedeu à chantagem liberal, desagradou sua base eleitoral, e não ganhou o outro lado que já a detestava.

Em fevereiro isso já estava claro. Foi o que escrevi há cinco meses (clique aqui para ler o texto completo):
O PT manterá alguma capacidade para ser força aglutinadora (uma entre várias forças) de uma nova Frente de Esquerda — que parece ser a saída para se enfrentar o novo ciclo histórico?

O Quinto Congresso do partido, que acontece este ano, terá papel definitivo. Se o PT seguir amortecido, incapaz de se renovar como força aglutinadora do bloco popular, terá selado seu destino.

O tempo dos acordos e do “reformismo fraco” está encerrado. Sem renovação imediata, o PT não vai “acabar” (como afirmou Marta, de forma açodada e oportunista), mas definhar. Nesse caso, o PT não seria derrotado pelo “mar de lama” — como afirmam mervais e colunistas toscos na revista da marginal. Mas pela falta de capacidade de reagir à agenda conservadora, e pelo fato de não propor um novo modelo de desenvolvimento alternativo ao neoliberal.

O PT, se não reagir, abrirá caminho para sua pasokização (PASOK é o partido socialista grego, que costumava ter um terço dos votos, e depois de trair os trabalhadores com um programa ultraliberal, teve menos de 5% na última eleição).

A esquerda, nesse caso, terá que encontrar outras instrumentos políticos para enfrentar a ofensiva conservadora — que tende a se tornar ainda mais dura nos próximos anos.

Esse processo, na verdade, já se iniciou. Mas não está definido.
De lá pra cá, não houve reação. Dilma afunda em 10% apenas de ótimo/bom. E a direita prepara-se para avançar num golpe paraguaio. Quem defenderá Dilma nas ruas, agora?

Reparem que, para o PSDB de São Paulo e Eduardo Cunha, o ideal seria prolongar a agonia do governo Dilma. Mas a inação governista pode levar a um desfecho mais rápido. Se Dilma cair num golpe, Temer assumiria para completar o mandato (e aprofundar o ajuste)? Ficaria com a pecha de traidor, e talvez atraísse para o PMDB a ira popular por um ajuste que levará a desemprego e recessão…

Outra saída: Dilma e Temer seriam derrubados, e haveria novas eleições.

Reparemos que, na teoria, há mais de 60% de brasileiros insatisfeitos com a forma de Dilma governar. Mas Aécio, o “grande líder da oposição”, aparece com 35% dos votos se uma nova eleição ocorresse hoje.

Isso significa que a base lulista (em boa parte) abandonou Dilma, mas não se bandeou para o tucanato. Uma nova eleição pode ser a chance dessa base se reorganizar — em outros termos.

Por isso, a direita ainda titubeia. Nova eleição não significa (necessariamente) vitória de Aécio — apesar de isso ser possível.

Ninguém deve-se iludir. A marcha do golpe começou. E o certo é que Dilma, com esse ajuste liberal, não sobrevive. Isso está claro.

O PT, se mantiver a subserviência ao governo, vai virar um PASOK.

Uma nova frente de esquerda (incluindo a imensa base petista, combativa e disposta a romper com o liberalismo de ocasião) parece ser a melhor ferramenta para quem pretende manter as conquistas dos últimos 12 anos, e aprofundar as reformas.

Isso precisa ser feito agora. De forma rápida. Com coragem, sem devaneios panfletários.

Alguns, nas redes sociais, se irritam quando digo isso. “Ah, você deveria defender a Dilma!”

Defendo a Democracia — sim — e rechaço golpismo. Defendo um programa de reformas, que foi vitorioso nas urnas em 2014. O governo Dilma é que deixou de defender esse programa. Esse é o no da questão. Não adiante brigar com os fatos.
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