24 de jul de 2016

10 regras para não ser um idiota em debates


O estudo das argumentações e as maneiras de aperfeiçoar um debate filosófico têm seus conhecimentos advindos do campo da Lógica, na Filosofia.

Você é livre para expressar suas ideias e defendê-las, mas é necessário saber defendê-las de maneira correta. Para que ideias sejam aceitas é necessário saber mostrar que as mesmas são — plenamente — válidas.

Para defendermos uma opinião ou um possível fato utilizamos premissas e argumentos.
As premissas são pontos de partida para um raciocínio. As bases de uma tese, necessárias na formação de um argumento. Para cumprirmos com um raciocínio correto é necessário estar atento a dois detalhes: 1 – As premissas devem ser verdadeiras. 2 –  O argumento deve ser válido para que a conclusão se siga das premissas, caso contrário teremos uma inconsistência.

Segue um exemplo:

Nada existe, se A não existir.

Mas B pode existir sem que A exista.

(A afirmação acima consiste na falácia Non Sequitur.)

Falácias são erros de raciocínio formal que visam enganar as pessoas a fim de fazê-las aceitarem ideias, persuadindo-as de maneira um tanto desonesta (quando proposital). Para as evitarmos devemos estar atentos à forma que raciocinamos problemas e soluções.

Disse Schopenhauer, em sua obra incompleta sobre dialética erística, publicada postumamente:

"Como em qualquer disputa, em uma discussão o que está em ação não é o desejo pela verdade, mas o desejo pelo poder. E o ser humano, que não é um ser especialmente nobre, revela seu lado mais sombrio: a vaidade e a hipocrisia triunfam. Desafiar uma convicção soa como desvalorizar a personalidade; uma refutação é considerada acusação de inferioridade  intelectual. Portanto, cada um se agarra desesperadamente às suas afirmações; mesmo aqueles que duvidam da legitimidade de sua causa, fazem todos os esforços para, pelo menos, parecer vitoriosos. Assim atacam muitas vezes de maneira intencional, e outras tantas vezes de forma parcial ou completamente passional com todos os tipos de truques e subterfúgios dialéticos. E eles são numerosos e variados, mas repetem-se por toda parte: nas conversas diárias e nas polêmicas dos jornais, em debates parlamentares e em processos judiciais; e até mesmo em discussões acadêmicas, deparamos hoje com os mesmos truques e subterfúgios utilizados há séculos." [1]

Para conseguirmos manter uma boa postura em meio a debates é necessário aprender algumas regras básicas, como segue:

Regra n° 1: Seja sensato. 

Sensatez é de suma importância nesses momentos. Quando perdemos a sensatez em meio a discussões passamos a utilizar da emoção, e, por conseguinte não conseguiremos acessar e transmitir as ideias de maneira plenamente racional/lógica. Você não pode ser emotivo e nem tentar — desesperadamente — despertar o senso emotivo de seu oponente de debate, pois isso demonstra uma certa preocupação em fazer com que ele veja as coisas pelo lado emocional, e não o racional. E quando você faz isso de maneira apelativa está cometendo uma falácia lógica.

Há uma falácia bem comum chamada de Ad Passiones (apelo à emoção) que é mais ou menos assim:

João é contra a redução da maioridade penal.

Já a Maria, sua amiga, não.

Maria ao tentar desesperadamente defender sua ideia profere a seguinte frase: “Quando você for assaltado ou alguém da sua família for morto por um menor de idade, você vai concordar comigo”

Mas veja bem… A discussão sobre a maioridade penal é algo delicado a ser analisada com cautela tendo em vista conhecimentos jurídicos, conhecimentos no campo da Sociologia, Psicologia etc. Maria, ao proferir isto, esqueceu que leis não são feitas para satisfazer o desejo de vingança de vítimas (desejos emocionais), e sim tentar trazer ordem à sociedade.

Ao apelar para o emocional de João Maria tenta com que ele mude de opinião ao deixar a emoção falar mais alto. Então qual seria o correto? O correto seria Maria explicar de maneira racional como a aplicação de tal lei seria positiva para sociedade, apresentando seu argumento embasado por dados verídicos de — por exemplo — psicologia juntamente de estatísticas, ou outras coisas que validem de maneira racional o seu interesse. E mesmo que não fosse capaz de embasar com dados científicos, que pelo menos defenda de maneira racional aquilo que é melhor para a sociedade.

Assim como João não pode defender sua tese na base da ‘pena’, Maria não pode fazer o mesmo por ‘revolta’.

Regra n° 2: Respeite o coleguinha.


Quando estamos numa discussão temos como foco ideias e argumentos. O nosso oponente de debate não tem que ser julgado. Se o seu colega disser que o Reino Unido fez bem ao separar-se da União Européia por motivos X, Y e Z, você não deve dizer que ele é um xenófobo safado e analfabeto, e sim mostrar a ele que os motivos X, Y e Z podem estar errados por motivos N, P e Q, cujos quais você terá que explanar. Num debate você precisa fazer o oponente analisar as ideias dele e não esquecer tudo e focar em suas características físicas ou psicológicas. Ok?

Atacar o oponente de debate quando se deveria atacar argumentos é algo chamado de Ad hominem, uma falácia também muito comum que contribui com o desrespeito e ódio (e não gera avanço intelectual nenhum, né não?)

Regra N° 3: Lembre-se que autoridades intelectuais não são oniscientes


No filme “Deus não está Morto” o professor ateu Jeferry ao discutir com seu aluno cristão, Josh, defende a não existência de Deus alegando que Stephen Hawking não acredita em Deus. Algo do tipo: “Stephen Hawking é um dos maiores gênios vivos e não acredita em Deus. Você está dizendo que Stephen Hawking está errado??”

Você JAMAIS deve tentar validar algo usando palavras de alguém importante, a menos que essas palavras sejam os argumentos consistentes utilizados por tal pessoa para defender algo.

Por exemplo:

Você não deve dizer que X é verdade porque um pesquisador de Harvard disse que é, e sim dizer que X é verdade porque o trabalho de um pesquisador de Harvard consistiu em analisar A, B e C, chegando à conclusão que X é verdade por N motivos. Ok?

O nome desta postura nada racional chama-se: Apelo à autoridade. E claro, também é uma grande falácia.

Regra N° 4: Não atribua dicotomias às idéias alheias

“Somente petistas falam mal do Bolsonaro.”

“Você não é comunista? Ahh. Então você acha o capitalismo um regime perfeito?”

As pessoas precisam entender que existem diversas opiniões pra diversos assuntos.

Não vivemos num regime bipartidário para dizer que fulano é tucano por falar mal do PT.

Não vivemos num mundo dividido entre marxistas e capitalistas. Há anarquistas, libertários, fascistas, sócio-democratas, comunistas e mais outras ideologias espalhadas por aí também.

Não vivemos num mundo dividido entre fãs do Windows Phone e fãs do Android. Há quem curte o IOS e há quem não curte smartphones.

Não vivemos num mundo dividido entre pessoas que preferem criar cachorros e pessoas que preferem criar gatos. Há quem prefira criar os dois ou até mesmo lagartixas (duvido nada hehe).

O que estou tentando dizer é: Antes de sair julgando um perfil ideológico com base em algumas poucas informações, tente entender mais um pouco. Conhecer mais as ideias que pretende atacar.  Não vá passar vergonha atacando aquilo que pode nem existir (como uma ideia x na cabeça de seu coleguinha).  Não crie falsas dicotomias.


Regra N° 5: Não jogue para alguém as suas responsabilidades

Sempre que for afirmar algo esteja ciente que é sua E SOMENTE SUA a responsabilidade de apresentar as provas.

Se você disser que a alquimia funciona e que consegue transformar outros metais em ouro, é você quem deve provar isto, e não apenas dizer “Duvida? Prove que eu não consigo!”

Conspiracionistas afirmam coisas absurdas com frequência, pois sabem que é quase impossível refutar uma afirmação conspiratória. Mas esquecem-se que eles devem apresentar as evidências e não sentar e falar besteiras enquanto esperam pela refutação. Eis a diferença da ufologia, para a astrobiologia, pois enquanto a primeira afirma que et’s existem e estão nos visitando e bagunçando nossas plantações, a segunda afirma que há uma possibilidade de haver vida extraterrestre, e, portanto a mesma deve ser pesquisada.

NUNCA afirme algo que não é capaz de provar. A responsabilidade está em suas mãos, e tentar fugir dela desta forma é praticar a falácia da inversão do ônus da prova.

Regra N° 06 – A verdade não é democrática

Por muitos anos durante a antiguidade, era considerável plausível e inquestionável o fato que a Terra era o centro do universo e tudo girava ao seu redor.  Até que Copérnico, ao colher a sementinha da ideia plantada por Aristarco de Samos passou a questionar tal afirmação levantando a hipótese do heliocentrismo. Galileu ao criar seu telescópio em 1609 passou a facilmente conseguir refutar a hipótese geocêntrica, ao observar Júpiter e descobrir seus satélites naturais. [2]

Muitas pessoas acreditavam no geocentrismo, mas isso NUNCA validou tal hipótese.

O fato de muitas pessoas acreditarem em algo significa apenas que muitas pessoas acreditam em algo, e só. Não é um número grande de crenças que validam alguma hipótese, e sim as evidências que devem seguir tal fato.

Então quando quiserem mostrar que algo é real, ou que estão certos ao afirmarem algo, não diga que devemos acreditar no que você diz porque muitas e muitas pessoas partilham da mesma ideia.

Numa rodinha de amigos um pode conseguir persuadir o outro, se combinar uma mesma mentira com a grande maioria.

Ao apelar para um número grande de pessoas enquanto afirma algo você comete a falácia ad populum.

A Terra nunca deixou de ser atraída pelo Sol por conta da crença de quem nela habita. E assim permanecerá.

Regra N° 07 – Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias

Você sabe por que este site tem o nome “Bule Voador”?

Num artigo chamado “Existe um Deus?”,[1] Russell escreveu:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados — em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.

Ateus não agnósticos e teístas cristãos proferem com frequência: “Não existe um Deus!” ou “Há um Deus”, mas ambos caem na falácia da negação ao tentar explicarem-se, pois o ateu não provará que Deus não existe, e o mesmo ocorrerá com o cristão no que se trata da existência do divino imaterial. É necessário ter em mente a diferença de afirmar que ''x não existe'', e afirmar que "não há indícios suficientes para a existência de x", deixando claro que como consequência a este fato,  teremos a descrença como fato compreensível de um ponto de vista lógico.

Portanto, não afirme com tanta veemência aquilo que não poderá provar. Lembre-se da regra n° 05.

Regra n ° 8 – Não se sinta ofendido numa discussão plenamente racional

Se você estiver participando de uma discussão que atende a todas as regras básicas de uma discussão saudável e plenamente sensata, e mesmo assim se sentir ofendido quando atacam suas ideias (com argumentos construtivos) há algo de errado com você!

Quando você passa a permitir que suas ideias se tornem quem você é, e entranhem-se em você, dificilmente você passará a conseguir o que se espera de uma boa discussão: uma síntese.

Para cada tese, haverá uma antítese, e só assim formaremos uma síntese. Porém se você é a sua tese, você não suportará ser contrariado, pois na sua cabeça isso é uma espécie de desrespeito.

Cito o exemplo de alguns religiosos que não suportam ver pessoas falando mal de algumas coisas não tão legais que as religiões podem trazer à vida das pessoas.

Ou ativistas sociais que se revoltam ao ver alguém atacar alguns pontos negativos de certas posturas do aspecto social-ideológico.
Isso não é saudável.

Antes de entrar numa discussão sobre determinado assunto, certifique-se de que está completamente desgrudado de suas ideias. Para que só assim você consiga não ter medo de mudar de opinião. E nisso seguiremos com a próxima regra:

Regra n° 9 – Não tenhas medo de mudar de opinião a partir de novas evidências.

Sócrates é considerado o pai da filosofia porque fez com que as pessoas pensassem sobre coisas até então ‘’inúteis’’ como alguns conceitos do cotidiano: como o amor, a política, a felicidade, a ética entre outros.

Trouxe ao mundo o espírito da filosofia: O amor e a busca pelo saber.

Hoje em dia há várias e várias fontes de conhecimentos, dos mais diversos tipos.  Mas ainda há aqueles que sentem medo de se desapegar do conhecimento mais agradável (porém falso) em troca do verdadeiro e — talvez — não tão confortante.

Se tu tens ao teu lado vários Sócrates que podem fazer com que tu repenses sobre teus conceitos acerca da economia, política, religião e outras coisas, ou se tu tens acesso ao Google que é capaz de te apresentar um mundo de dados, por que permanecer preso numa gaiola se pode ser livre para voar e contemplar o mundo e o conhecimento que nele se encontra?

Esteja sempre em busca da verdade. Ignore suas ideias absurdas, já refutadas ou simplesmente mentirosas para renovar sua cabeça com coisas limpas, verídicas e até mesmo mais interessantes.

Não permaneça preso às ideias. Permaneça preso à verdade.

Regra n° 10 – Apresente motivos. Não apresente Deus.

Na Bíblia temos a história de Moisés e os 10 mandamentos divinos de Deus para os homens. E nesses mandamentos encontramos alguns conselhos importantes para a nossa existência tornar-se mais agradável. Por quê? Porque há motivos para tal. Exemplificarei abaixo:

Não devemos praticar o adultério por contribuir com a desconfiança e a infelicidade de um casal.

Não devemos roubar por não termos o direito de invadir o espaço alheio e tirar proveito do trabalho das pessoas, pois isso as prejudica injustamente.

Devemos respeitar nossos pais para que haja um bom convívio no núcleo familiar.

Em Eutífron, Sócrates defende o ‘’correto’’ como sendo aquilo que os deuses mandam. Mas ele mostrou que este não pode ser o fundamento último da ética. Recomendou que devemos distinguir duas possibilidades: ou os deuses têm boas razões para o que ordenam, ou não. Se não, então as suas ordens são meramente arbitrárias — os deuses são como tiranos mesquinhos que mandam as pessoas fazer isto ou aquilo apesar de não terem boas razões para tal. Esta é uma heresia que os crentes não estão dispostos a aceitar.

Mas você pode estar se perguntando: O que isso tem a ver com o tema do texto?

Bom... Se você é aquela pessoa que enquanto discute, defende seu discurso de ódio e profere sentenças desrespeitosas, e quando questionado fala que está apenas dizendo o que Deus ordena ou algo do tipo, saiba que você está tendo uma postura bem insensata. Se quiser defender seu discurso baseando-se na bíblia, procure os argumentos nela, ou pelo menos use alguns adequados. Nem a sociedade e nem seu adversário de debate são obrigados a acatarem o discurso arbitrário de sua religião. Procure bons motivos para defender o que defende, ou permaneça calado.

Vivemos num mundo moderno, iluminado principalmente por filósofos do séc XVIII. Então não pense e nem aja como um ignorante da idade média preso à escuridão intelectual. Aprenda a utilizar as suas capacidades cognitivas para manter-se numa evolução constante. Discutir de maneira correta, enquanto aprende e compartilha opiniões e informações é um ótimo meio de evoluir intelectualmente.

Então encerro este texto com uma frase curta que pode te fazer refletir um pouco:

Não seja um idiota!

Matheus Carlos
No Bule Voador
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Deportação de físico argelino violou todas as leis

A revista Época, dos irmãos Marinho, preparou a extradição
Adlène Hicheur, argelino professor da UFRJ, protesta contra operação da Polícia Federal e diz que vai recorrer

Adlène Hicheur passa a maior parte do tempo dentro da casa dos pais. Vienne é uma simpática e histórica cidade francesa. Mas a beleza do local não faz diferença neste momento.

A mente do físico argelino está focada no que ele chama de armadilha montada no processo de sua deportação do Brasil para França.

Na última sexta-feira, dia 15, o professor da UFRJ foi levado às pressas pela Polícia Federal de seu apartamento na Tijuca para o aeroporto internacional do Rio. Foi obrigado a embarcar para a França contra sua vontade, sem direito a recorrer.

Escoltado por três policiais federais dentro do avião até Paris, ele foi entregue lá como uma espécie de encomenda à polícia francesa.

A deportação assinada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, foi qualificada por especialistas como arbitrária, recheada de ilegalidades, uma expulsão ilegal disfarçada de deportação sumária sem direito à defesa.

A deportação é feita para o país de origem ou de procedência do estrangeiro, ou para outro que consinta recebê-lo e só poderá ocorrer se o estrangeiro não se retirar do Brasil voluntariamente depois de ser regularmente notificado.

Ele não pode ser devolvido para onde haja ameaça à sua vida ou liberdade por motivos de raça, nacionalidade, religião ou opinião política, de acordo com a Convenção Interamericana de Direitos Humanos.

Na tarde de quarta-feira, 20, Hicheur se permitiu fazer uma caminhada às margens do Rio Rhône. Mas nem isso consegue relaxá-lo. Ele não queria estar ali. “Me entregaram ilegalmente à França. Eu pedi para ir para a Argélia e tinha esse direito. Meu visto brasileiro foi tirado com o passaporte argelino e não com o francês. Foi pior que uma deportação ilegal. Foi uma entrega que violou todas as leis!”, protestou, em entrevistas pelo Skype.

Hicheur entrou no Brasil como argelino e saiu como francês: a PF carimbou sua saída do Brasil no passaporte francês, mas seu visto de entrada está estampado no passaporte argelino.

Hicheur não queria ir para a França. Era claro que ele corria o risco de ter sua liberdade restringida devido à lei de emergência decretada após atentados terroristas. Foi o que ocorreu. Ele é obrigado a se apresentar três vezes por dia a uma delegacia, deve informar toda a sua movimentação fora de casa e está proibido de deixar a cidade.

Tudo isso porque seu passado, que ele tanto quer enterrar, insiste em persegui-lo.

O cientista foi preso em 2009, condenado por associação com terrorismo em 2012 e logo libertado, sem mais nada dever à Justiça.

Foi um caso polêmico no qual contou com apoio de colegas cientistas.

Seu advogado, Patrick Baudouin, ex-presidente da Federação Internacional das Ligas de Direitos Humanos, vai recorrer da decisão francesa que restringiu sua liberdade.

O uso do termo “deportação” é exdrúxulo, critica Vanessa Berner, professora de Direiro da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Direitos Humanos.

“A deportação é feita para o país de origem ou de procedência do estrangeiro, ou para outro que consinta recebê-lo e só poderá ocorrer se o estrangeiro não se retirar do Brasil voluntariamente depois de ser regularmente notificado. Ele não pode ser devolvido para onde haja ameaça à sua vida ou liberdade por motivos de raça, nacionalidade, religião ou opinião política, de acordo com a Convenção Interamericana de Direitos Humanos”, explicou ela.

“Hicheur foi ilegalmente expulso do país, com cometimento de diversas arbitrariedades sem fundamento jurídico claro por parte das autoridades brasileiras. Ele pode recorrer ao Judiciário contra os atos arbitrários cometidos pelo Poder Executivo e pela Polícia Federal visando retornar ao Brasil”, constatou a especialista.

Nos últimos dias, Hicheur trabalhava em seu segundo artigo acadêmico em seis meses. O artigo, para a conceituada revista Physical Review Letters, apresentará uma descoberta feita sobre o processo de desintegração de uma rara partícula subatômica, “Bc”. A análise foi feita durante pesquisa de um dos seus alunos de mestrado na UFRJ.

Na sua cabeça ainda martela a frase de um dos policiais que o levava de seu apartamento na Tijuca até o aeroporto: “Não concordo com o que estão fazendo com você. Sei que você tem um trabalho importante em nosso país”. Hicheur é uma usina de ideias, dizem seus colegas.

“Eu tenho planos de criar novos cursos e discussões sobre desenvolvimento sustentável, novas energias, e tratamento do câncer usando feixes de prótons e íons de carbono”, explicou. Seu processo de renovação de contrato de trabalho por mais um ano na UFRJ já havia sido aprovado e ele vai continuar, mesmo de longe, colaborando com o CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear) e com a UFRJ. “Não vou deixar a minha paixão”, afirmou. Seus colegas brasileiros e europeus estão solidários e alguns já foram visitá-lo em Vienne.

Hicheur foi tratado como uma espécie de “encomenda” especial do Brasil para a França. Alguns de seus colegas lembraram das trocas ilegais de presos na Operação Condor, organizada pelas ditaduras militares latinoamericanas. “Fiquei chocado. Foi na prática uma extradição ilegal, sem julgamento”, protestou Ignácio Bediaga, presidente da Rede Nacional de Física de Altas Energias, que estava no aeroporto ao lado do Reitor da UFRJ, Roberto Leher, e da vice-reitora, Denise Nascimento.

Os policiais federais disseram a ele que a deportação sumária era uma decisão política do Ministro da Justiça. A nota do ministério, no entanto, afirma que a decisão acata uma recomendação da PF, que indeferira o pedido de prorrogação de sua autorização de trabalho no país. Mas este pedido continha um erro burocrático e havia sido substituído por outro, que ainda está em análise no Ministério do Trabalho.

A reportagem enviou uma série de perguntas à assessoria de imprensa do Ministério da Justiça, questionando a forma como o físico foi forçado a deixar o Brasil e levado para a França, mas a resposta se limitou à nota lacônica acima.

“No aeroporto, tentaram, em vão, me fazer assinar um depoimento no qual eu reconhecia que estava ilegal no Brasil”, contou. Mas Hicheur já tinha o protocolo do processo de renovação da permissão de trabalho. “A PF havia me informado dias antes que eu estava legal com o protocolo em mãos”, disse.

A PF também deu uma informação errada ao advogado do Sindicato dos Professores da UFRJ, que procurava recorrer da decisão do ministro na sexta-feira. A PF avisou que o avião havia saído às 22h, antes do horário previsto. Não era verdade. “O avião saiu às 23h”, contou Hicheur.

O advogado entrou com um pedido de habeas corpus no STF para suspender a deportação sumária e aguarda a decisão. As testemunhas que estavam com Hicheur no aeroporto ouviram um policial comentar com outro sobre Hicheur: é aquele que a França havia pedido.

Florência Costa
No Viomundo
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“A intolerância política contaminou os ambientes e a UFRGS não ficou fora disso”

Edilson Nabarro: “Estamos vivendo uma agudização dos atos de intolerância dentro de um contexto mais geral
de crescimento da intolerância no país”.
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) viveu nos últimos meses alguns preocupantes episódios envolvendo denúncias de racismo, homofobia, machismo, intolerância e discriminação. A agressão sofrida por Nerlei Fidelis, estudante cotista indígena de Medicina Veterinária na UFRGS, na madrugada do dia 20 de março, em frente à Casa do Estudante, no centro de Porto Alegre, acendeu o sinal de alarme. Mais recentemente, um coletivo de mulheres denunciou uma série de casos de agressões, por parte de colegas, que estariam sofrendo dentro da Casa do Estudante. Além disso, um grupo de seguidores do deputado federal Jair Bolsonaro é acusado de intervir de forma agressiva e ameaçadora em atividades relacionadas à agenda de direitos humanos.

Preocupada com este cenário, a reitoria da UFRGS acolheu proposta feita pela Coordenadoria de Acompanhamento do Programa de Ações Afirmativas e criou o Comitê contra a Intolerância e a Discriminação, que acompanhará essas denúncias e promoverá debates sobre esses temas dentro da universidade. Diretor do Departamento dos Programas de Acesso e Permanência da UFRGS, o sociólogo Edilson Nabarro foi encarregado de coordenar o comitê que pretende, entre outras coisas, fazer um mapeamento das denúncias de intolerância e discriminação dentro da universidade e trabalhar em conjunto com outras instâncias da instituição para que esses casos não fiquem apenas no plano da denúncia.

Em entrevista ao Sul21, Edilson Nabarro fala sobre a dimensão do problema e sobre o papel que o comitê pretende desempenhar. “Estamos vivendo uma agudização dos atos de intolerância dentro de um contexto mais geral de crescimento da intolerância no país. A intolerância política contra a agenda dos direitos humanos contaminou os ambientes e a UFRGS não ficou fora disso”, assinala.

Como nasceu a ideia de criar o Comitê contra a Intolerância e a Discriminação na UFRGS?

Edilson Nabarro: Antes de responder essa questão, permita-me fazer uma nota biográfica que explica a minha relação com o tema e com o comitê. Eu sou sociólogo formado pela UFRGS há alguns anos e sou técnico-científico dessa universidade há 30 anos. Fui pró-reitor de assuntos estudantis entre 2008 e 2012 e atuei na comissão especial que elaborou o programa de cotas da UFRGS em 2006. A minha vinculação com os temas da diversidade e do racismo vem também do movimento negro. A incidência do racismo e de outras formas de discriminação nas organizações não é um tema novo. O racismo institucional não é enfrentado pela maioria das organizações. Mais recentemente, estamos vivendo uma agudização dos atos de intolerância dentro de um contexto mais geral de crescimento da intolerância no país. A intolerância política contra a agenda dos direitos humanos contaminou os ambientes e a UFRGS não ficou fora disso.

Em função desse cenário, avaliamos que era preciso ter uma resposta institucional a esse problema. Há muitos anos vêm sendo tomadas iniciativas institucionais na universidade relacionadas a esse debate sobre a diversidade, racismo contra negros e indígenas, homofobia, machismo e violência contra a mulher. Mas em função da agudização dos atos de intolerância e racismo. Em relação ao racismo, muito se faz em termos de denúncia do preconceito. O preconceito é a antessala da discriminação direta, da violência subjetiva e da violência física. Não faltam leis para punir o racismo. O Estado brasileiro, especialmente depois de 1988, começou a criar dispositivos institucionais para combater a desigualdade e a discriminação racial, como conselhos com a participação da comunidade negra, secretarias e departamentos, Dia da Consciência Negra, entre outros.

"Em 2015, tivemos 74 denúncias de racismo, homofobia e outras formas de intolerância envolvendo estudantes, técnicos e professores".
“Em 2015, tivemos 74 denúncias de racismo, homofobia e outras
formas de intolerância envolvendo estudantes, técnicos e professores”.
Por muito tempo, e ainda hoje, se cultivou esse mito de que não existe racismo no Brasil. Aqui, ninguém é racista. Quando ocorre um caso de racismo em uma organização a tendência é ela dizer que não concorda e repudia essa prática, mas nada faz de concreto. Foi neste contexto que surgiu a ideia de criar o comitê. Ele não nasce com a intenção de resolver todos os casos de racismo, intolerância e discriminação dentro da universidade nem pretende substituir órgãos e instâncias já existentes e que também trabalham com esses temas. O comitê não cuidará de processos administrativos de responsabilização de pessoas que praticam tais atos. Para isso, já existem instâncias dentro da universidade que possui um código disciplinar para tratar tais condutas. As penalidades previstas neste código preveem, no caso dos discentes, advertência, suspensão e, nos casos mais graves, desligamento. Esses processos administrativos, é importante assinalar, têm, obrigatoriamente, o rito do contraditório.

A primeira coisa que procuramos fazer no comitê é justamente definir o nosso nível de competência para não se justapor a outras instâncias da universidade. Somos um comitê vinculado ao gabinete do reitor e temos uma conexão com a Ouvidoria que é quem recepciona todas as denúncias. O que ficou combinado é que todas as denúncias que envolvam racismo, homofobia, xenofobia, intolerância e correlatos serão encaminhadas para o setor onde teriam ocorrido esses casos e também para o comitê. A primeira coisa que pedimos para a Ouvidoria é que nos enviasse todas as denúncias feitas em 2015. Tivemos 74 denúncias de racismo, homofobia e outras formas de intolerância envolvendo estudantes, técnicos e professores. Nós vamos classificar esses casos para ver onde estão ocorrendo, a natureza do incidente, quem são os envolvidos, etc., para termos um mapa mais claro do que está acontecendo.

Hoje não existem estatísticas organizadas sobre esses casos?

Sim, a ideia é mapear a especificidade desses casos e, principalmente, o que está sendo feito a partir das denúncias. Nós vamos atuar no acompanhamento desses casos e ver qual o tipo possível de intervenção que pode ser feita para além dos procedimentos administrativos já previstos. O comitê é formado por dez integrantes. Nós temos um caso singular que vai nos desafiar que é essa denúncia recente feita por um grupo de alunas que moram na Casa do Estudante. Tivemos também o caso do Nerlei (estudante indígena agredido em frente à Casa do Estudante), que foi muito simbólico, além de denúncias de racismo que até então não chegavam formalmente para nós.

Para se abrir um processo de investigação é preciso ter, em primeiro lugar, a caracterização do fato e sua contextualização: onde ocorreu, quando, a presumível autoria e a vítima. Se não há esses elementos não tem como abrir um processo. Nem sempre isso é simples. No caso do coletivo de mulheres da Casa do Estudante, elas informaram que o amedrontamento inibe a denúncia. O que também contribui para inibir a denúncia é a ausência de uma garantia institucional de que o fato será encaminhado e a vítima será protegida.

Comitê vai acompanhar também denúncias feitas por coletivo de mulheres da Casa do Estudante da UFRGS. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)
Comitê vai acompanhar também denúncias feitas
por coletivo de mulheres da Casa do Estudante da UFRGS.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
No documento apresentado à Reitoria propondo a criação do comitê, lembramos que o Brasil é signatário de vários tratados internacionais, cujos signatários têm a obrigatoriedade de apurar esse tipo de denúncias. As nossas organizações públicas e privadas têm a responsabilidade de tomar medidas quando defrontadas por esses casos. Não adianta simplesmente repudiar e condenar sem tomar nenhuma medida concreta. No âmbito da UFRGS pretendemos desenvolver ações preventivas e pedagógicas junto à comunidade universitária, incluindo professores, técnicos e alunos. Vamos promover cursos de capacitação na área de direitos humanos para professores que estão ingressando na instituição. Queremos promover também ações relacionadas ao acolhimento dos calouros, criando alguns eixos de prevenção. Todas essas ações pedagógicas e preventivas, porém, não dão uma resposta imediata.

Parece que o próprio comitê já experimentou uma dose desse crescente clima de intolerância. Como foi esse episódio?

No primeiro evento que nós fizemos no Campus do Vale, com a professora Natalia Pietra, do IFCH, apareceram alguns seguidores do deputado Bolsonaro, um deles estudante da UFRGS. Um deles se apresentou como sendo policial. Fizeram intervenções para tentar minar o evento, dizendo que deveríamos instruir as alunas para irem armadas para o Campus, que aumentou o número de estupros porque os negros estavam estuprando as mulheres brancas e outras coisas do tipo. Depois disso, a palestrante do evento começou a sofrer um ataque nas redes sociais. Já houve inclusive uma reunião com o futuro reitor Rui Oppermann para tratar de providências junto à Polícia Federal.

Há relatos de gente andando armada e fazendo ameaças dentro da universidade…

Sim. Estamos começando a fazer um monitoramento disso. Como eles estão aparecendo em vários eventos, estamos orientando a segurança da universidade a acompanhar essas reuniões para dar a devida proteção, pois esses elementos estão na antessala da violência física. Por enquanto, estão no nível do amedrontamento e da ameaça. No dia da instalação do comitê, que teve uma palestra magistral do Marcos Rolim, eles estavam lá. Não conseguiram intervir porque limitamos a atividade à fala do palestrante. Eles não falaram, mas depois quiseram tirar fotos conosco, o que não permitimos. Usam uma metodologia fascista e não são poucos, No Campus do Vale, há um clima de amedrontamento.

A ideia é que o serviço de vigilância da UFRGS comece a identificar a presença desses elementos em eventos na universidade. Já tomamos essa providência semanas atrás em um evento que debateu problemas de indígenas e quilombolas lá na Engenharia, mas eles não apareceram. Estamos promovendo conversas contra a intolerância e a discriminação. Fizemos a primeira que debateu como combater a cultura do estupro. Vamos fazer outras nessa linha do “como”: como melhorar o acolhimento indígena, como enfrentar o racismo, etc. A ideia é um subir um degrau a mais do plano da denúncia, adotando ações mais propositivas. Queremos avançar também na organização da tipologia desses incidentes e acompanhar junto à Ouvidoria as providências que já estão sendo tomadas e, onde não estão sendo tomadas, por que não estão. Queremos localizar onde estão os pontos críticos.

Marco Weissheimer
No Sul21
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Negócios em família do governador tucano

Como sempre ironizam muitos internautas, basta pertencer ao PSDB para nunca ser investigado, condenado e, muito menos, preso! A jornalista Catia Seabra publicou na Folha desta quarta-feira (20) mais uma denúncia escabrosa envolvendo um exótico grão-tucano, o governador Simão Jatene, do Pará. A denúncia não mereceu maior destaque no jornal e, logo em seguida, sumiu de suas páginas. Em outros veículos da mídia falsamente moralista, o escândalo nem sequer foi pautado. Vale conferir e arquivar a reportagem, que reproduzo abaixo em alguns dos seus trechos:

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Filho de governador do Pará fornece combustível à PM do Estado

Por Catia Seabra

O filho do governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), é sócio de dois postos de gasolina que fornecem combustível para as frotas da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Estado. Uma das unidades de Alberto Jatene, conhecido como Beto, é o Auto Posto Verdão, que foi o que mais vendeu para a PM do Pará entre janeiro de 2012 e outubro de 2014, somando R$ 5,02 milhões no período. Esse número corresponde a 9% do consumo global de combustível da PM paraense em quase três anos, que foi de R$ 55 milhões. Outro posto pertencente ao filho do governador, o Girassol, arrecadou, a partir de 2013, R$ 52,9 mil com abastecimento de carros da PM, segundo inquérito civil a que a Folha teve acesso.

Em 2014, durante a disputa pelo governo estadual, o Ministério Público instaurou inquérito para apurar acusações feitas por adversários de Jatene que afirmavam que o tucano, então candidato à reeleição, beneficiava o filho. O governo afirma, no entanto, que os postos de Beto não prestam serviço direto para o governo do Pará, já que o abastecimento das frotas do Estado é gerenciado por uma distribuidora. Apesar do argumento, o promotor de Justiça Militar, Armando Brasil Teixeira, e o procurador Nelson Pereira Medrado propuseram, em maio deste ano, uma ação civil pública de improbidade administrativa contra Jatene e seu filho, além da secretária de Administração do Pará, Alice Viana.

A peça pede ressarcimento do dano, perda de função pública e suspensão de direitos políticos dos envolvidos. Com base no inquérito, a ação se estende ainda à Distribuidora Equador de Produtos de Petróleo, a responsável pela venda de combustível ao governo. O fornecimento é feito com uso de um cartão magnético do governo usado pelo motorista, chamado "Petrocard". A Secretaria de Administração é a responsável pela licitação, mas cada área tem um contrato direto com a empresa, fixando o limite orçamentário para gastos. O governo questiona a legitimidade da ação do Ministério Público sob alegação de que não houve aval da Procuradoria-Geral de Justiça — Jatene tem foro privilegiado. Na última sexta-feira (15), a juíza da 4ª Vara da Fazenda, Katia Parente, intimou o Ministério Público a remeter a ação ao procurador-geral.


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Propina da cervejaria e outros crimes

Esta não é a primeira denúncia contra o governador do Pará. Em junho passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente decidiu retomar um antigo processo contra grão-tucano. No inquérito 465, que tramita há quase 11 anos, ele é acusado pelo Ministério Público de cometer crime tributário por anistiar dívidas de ICMS de uma cervejaria na ordem de R$ 83 milhões. Segundo a denúncia, houve também crime de corrupção passiva por Simão Jatene ter recebido propina da Cervejaria Paraense (Cerpasa). O julgamento foi retomado, mas até hoje não houve qualquer sentença e o tucano segue livre e solto, disparando suas bravatas “éticas”.

Já no final de 2014, o mesmo STF analisou outra denúncia contra o governador tucano — que também não deu em nada. Neste caso, o inquérito de número 2939 tramitava desde 2002. Segundo o Diário do Pará, ele se referia aos crimes cometidos na campanha eleitoral daquele ano e envolvia dois personagens centrais: o próprio Simão Jatene e a sua filha. “Naquele ano, Izabela Jatene até foi presa pela Polícia Federal quando coordenava a distribuição de vinte mil cestas básicas com propaganda de candidatos tucanos e que seriam doadas aos eleitores pobres em troca de votos, o que configura crime eleitoral”. Como afirma o jornal paraense, a filha do governador é “uma pessoa de pouco apego às leis”.

Num caso mais recente, ela novamente foi denunciada. “Izabela Jatene foi flagrada numa gravação da Polícia Civil, feita com autorização judicial, dizendo que iria buscar um ‘dinheirinho’ junto as 300 maiores empresas do Pará. O diálogo foi travado com o subsecretário de Administração Tributária da Secretaria da Fazenda, Nilo Noronha. Agora, como antes, ela atuou como peça de uma engrenagem maior, movida por forças políticas poderosas para beneficiar eleitoralmente o pai, Simão Jatene. Em 2002, o escândalo veio a público quando a PF encontrou as vinte mil cestas básicas na sede da empreiteira Engeplan, na época pertencente a Flexa Ribeiro, hoje senador pelo PSDB”.

A relação promiscua de Simão Jatene com seus filhos e parentes, que caracteriza um estranho caso de nepotismo tucano, já foi alvo de um artigo postado neste blog em março de 2013, que reproduzo abaixo:

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Simão Jatene e o nepotismo tucano

Por Altamiro Borges

A seletividade da mídia é algo impressionante. Qualquer suposta irregularidade num governo que não reza da sua cartilha partidarizada vira manchete e é alvo de comentários ácidos dos “calunistas” amestrados. Já quando um escândalo atinge um partido aliado da mídia, o silêncio é quase absoluto. Nesta semana veio à tona que o governador do Pará, o tucano Simão Jatene, “emprega” pelo menos sete parentes em cargos de confiança, além da ex-mulher e da ex-cunhada. O nepotismo rende mais de R$ 100 mil mensais aos apaniguados.

A Folha, que adora o denuncismo barato, até registrou o caso, mas sem maiores destaques. Segundo a reportagem de Aguirre Talento, todos esses cargos públicos foram preenchidos sem concurso. “Nas folhas de pagamento há, por exemplo, filho, nora, genro e cunhada de Simão Jatene... No Pará, essas nomeações acompanham o crescimento da hegemonia do PSDB local. A lista das indicações aumentou com a recente eleição de Zenaldo Coutinho (PSDB) para a Prefeitura de Belém”.

O repórter afirma que a ex-mulher do governador, Heliana Jatene, assumiu o comando da Fumbel (Fundação Cultural de Belém), e sua cunhada Rosa Cunha, a Companhia de Desenvolvimento da Área Metropolitana. “Ambas com salário de R$ 15 mil”. Outro indicado foi o filho do tucano, Alberto Jatene, “que ganha R$ 14 mil como assessor jurídico do Ministério Público do Tribunal de Contas dos Municípios. A procuradora-chefe do órgão, Elisabeth Massoud, é vizinha da família do governador em uma casa de praia”.

Procurado pela reportagem, Alberto Jatene criticou a proibição da contratação de parentes. “O sobrenome virou uma chaga. Papai me diz: 'Beto, eu queria te ter aqui me assessorando, mas não dá'". Já a nora do governador, Luciana Jatene, é coordenadora do gabinete do desembargador Cláudio Montalvão das Neves, com salário de R$ 10 mil no Tribunal de Justiça. Em 2011, o TJ foi investigado porque a mulher do desembargador, Rosa das Neves, virou assessora especial do governo paraense, mas o caso não deu em nada.

Apesar da gravidade da denúncia, o tucano Simão Jatene afirmou que nenhum dos casos citados na matéria configura nepotismo ou qualquer tipo de irregularidade. Será que a mídia seletiva dará melhor tratamento ao escândalo? O tema ganhará as manchetes dos jornalões, será capa da revista Veja ou será motivo de duras críticas na TV Globo? A conferir! E a oposição demotucana, sempre tão preocupada com a ética, fará críticas públicas ao governador tucano? A conferir, também!

Altamiro Borges
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Regulamentação da Mídia | Justificando Entrevista Yuri Carajelescov


O Justificando Entrevisa recebe o Professor da Fundação Getúlio Vargas Yuri Carajelescov para uma conversa sobre assunto que é tabu no Brasil: a regulamentação da mídia audiovisual, a qual está sob controle de 05 famílias alinhadas a uma uniformidade de pensamento e com amplo poder.

Por isso, falar sobre regulamentação de um oligopólio - faixa de mercado nas mãos de pouquíssimas pessoas - é algo delicado quando os maiores afetados são empresas com capacidade incrível de difundir sua opinião, no caso taxando essa medida de "censura". Yuri alerta, no entanto, que atualmente não há mais censura estatal, mas sim privada, como quando linhas editoriais das próprias empresas de comunicação barram um material por não atender aos fins privados e comerciais - "Quem censura os meios de comunicação são os próprios meios de comunicação, que são dominados por interesses muito claros".

São empresas que usufruem do espaço público do ar, pois captam e exploram campos eletromagnéticos finitos. Para poderem fazer isso, em tese, deveriam participar de licitações, mas a realidade brasileira mostra que as licenças são renovadas infinitamente, de forma parecida, como lembra Yuri, às sesmarias, isto é, direitos hereditários sobre bens públicas.

Na Argentina, o governo resolveu abrir a caixa preta e participar do debate sobre regulamentação das empresas de telecomunicação. "Para haver isso, houve uma ampla discussão. Para você ter uma ideia, quando o projeto foi apresentado ao Congresso argentino, para levá-lo simbolicamente foram 50 mil pessoas à frente do Parlamento" - lembra Yuri. No Brasil, a legislação é de 1962, com alguns remendos feitos durante a Ditadura militar, uma das grandes responsáveis pelo oligopólio da mídia, sob o pensamento de unificação de um país.

A unificação, no contexto brasileiro, ocorre numa mídia que pensa em sintonia. "Você muda de canal, o comentarista, mas a linha é basicamente a mesma. Ou seja, esses meios de comunicação formados por empresas familiares que ja estão arraigadas há muitos anos, são, na verdade, uma forma de manutenção do próprio status quo. Não há essa pluralidade de vozes, você não liga a televisão e vê o movimento do sem teto fazendo um debate amplo e franco, por exemplo" - critica o Professor sobre o oligopólio midiático.

No tempo em que a entrevista foi concedida, a principal pauta é o impeachment de Dilma Rousseff. Na avaliação do Professor o impeachment é resultado da agenda dessas empresas em eleger a corrupção como tema principal, mas uma corrupção bem específica, a partir de "frames", recortes. "Vamos discutir corrupção deste governo. Do governo passado, nem pensar. Então a mídia fez o recorte". Nessa agenda, heróis são eleitos, lembrados por Yuri na figura de Joaquim Barbosa, no passado, e Sérgio Moro, no presente, além dos vilões, nas pessoas de Lula, Dilma, PT e etc.

Yuri lembra a frase de Roberto Marinho sobre esses recortes da mídia, quando disse que "muito mais importante do que eu mostro no Jornal Nacional é o que eu não mostro no Jornal Nacional". Para ele, contraditoriamente, o uso de recortes para atender a interesses privados é uma forma de corrupção, uma vez que corromper se colonizando a opinião pública com interesses que são particulares, mas que são apresentados de uma forma muito sutil - conclui.

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Por dentro das redações: o papel dos donos em decisões como a do Datafolha

O patrão sabe de tudo previamente
Vi algumas pessoas se perguntando quem é o responsável pela fraude da Folha no Datafolha.

O editor executivo Sérgio Dávila ou o editor e dono Otávio Frias?

A pergunta traduz um desconhecimento de como funcionam as empresas jornalísticas.

As decisões realmente importantes, no campo da política e da economia sobretudo, são todas elas dos donos.

Isso quer dizer que a culpa no Datafolha foi de Otávio Frias. Dávila foi, é verdade, cúmplice. Mas não mais que isso.

Muitas vezes os proprietários fingem que não têm nada a ver com certas decisões que provocam repulsa.

Roberto Civita gostava de atribuir maldades da Veja aos “meninos” da redação. Essa desculpa era costumeira quando RC ia a Brasília pedir favores do governo e topava com queixas sobre absurdos que a revista publicara.

Mas, como Dávila, os meninos eram apenas cúmplices. Nenhuma decisão editorial relevante da Veja, principalmente nos anos de jornalismo de guerra contra Lula e o PT, foi tomada por alguém que não fosse Roberto Civita.

Os editores jamais o afrontaram. Praticaram invariavelmente a famulagem.

João Roberto Marinho, da Globo, faz a mesma coisa. Num trecho de uma conversa gravada, ele é citado como tendo atribuído aos jornalistas da Globo certas coisas.

Não é verdade. A linha editorial da Globo é controlada rigidamente pela família Marinho, e por ninguém mais.

Numa reunião semanal, João Roberto conversa com os principais editores e jornalistas da casa. Nesse encontro são definidos por João Roberto, em nome de seus dois irmãos, os parâmetros da cobertura política da Globo.

Deste papel — o de definidores das diretrizes — os barões da mídia nunca abdicam. Os jornalistas que os cercam sabem que não sobreviverão se desafiarem as vontades dos patrões.

No jornalismo de guerra que caracterizou a imprensa brasileira pós-PT, a obediência aos Marinhos, Frias e Civitas virou um atributo obrigatório entre chefes de redações.

No caso do Datafolha, para voltarmos ao princípio da conversa, são zero as chances a fraude não ter sido vista e aprovada previamente por Otávio Frias.

Dávila, o editor executivo, oscilou apenas entre a cumplicidade e a famulagem.

Paulo Nogueira
No DCM
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O futuro no passado

Poucas previsões para o futuro feitas no passado se realizaram. O mundo se mudava do campo para as cidades, e era natural que o futuro idealizado então fosse o da cidade perfeita. Mas o helicóptero não substituiu o automóvel particular e só recentemente começou-se a experimentar carros que andam sobre faixas magnéticas nas ruas, liberando seus ocupantes para a leitura, o sono ou o amor no banco de trás. As cidades não se transformaram em laboratórios de convívio civilizado, como previam, e sim na maior prova da impossibilidade da coexistência de desiguais.

A ciência trouxe avanços espetaculares nas lides de guerra, como os bombardeios com precisão cirúrgica que não poupam civis, mas não trouxe a democratização da prosperidade antevista. Mágicas novas como o cinema prometiam ultrapassar os limites da imaginação. Ultrapassaram, mas para o território da banalidade espetaculosa. A TV foi prevista, e a energia nuclear intuída, mas a revolução da informática não foi nem sonhada. As revoluções na medicina foram notáveis, certo, mas a prevenção do câncer ainda não foi descoberta. Pensando bem, nem a do resfriado. A comida em pílulas não veio — se bem que a nouvelle cuisine chegou perto. Até a colonização do espaço, como previam os roteiristas do “Flash Gordon”, está atrasada. Mal chegamos a Marte, só para descobrir que é um imenso terreno baldio. E os profetas da felicidade universal não contavam com uma coisa: o lixo produzido pela sua visão. Nenhuma previsão incluía a poluição e o aquecimento global.

Mas assim como os videntes otimistas falharam, talvez o pessimismo de hoje divirta nossos bisnetos. Eles certamente falarão da Aids, por exemplo, como nós hoje falamos da gripe espanhola. A ciência e a técnica ainda nos surpreenderão. Estamos na pré-história da energia magnética e por fusão nuclear fria.

É verdade que cada salto da ciência corresponderá a um passo atrás, rumo ao irracional. Quanto mais perto a ciência chegar das últimas revelações do Universo, mais as pessoas procurarão respostas no misticismo e refúgio no tribal. E quanto mais a ciência avança por caminhos nunca antes sonhados, mais leigo fica o leigo. A volta ao irracional é a birra do leigo.

Luís Fernando Veríssimo
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Um mesmo fotógrafo filmou os atentados no momento exato

Tanto em Nice como em Munique estava lá um mesmo fotógrafo para filmar os atentados no momento exato

Os fatos

Entre Nice, no sul da França, e Munique, no sul da Alemanha, há uma distância de 800 quilômetros, 3 países e os Alpes para cruzar. Entre um e outro dos atentados recentes, 8 dias de lapso. Em ambos, estrategicamente posicionado para fotografá-los e filmá-los, no exato momento em que aconteciam, um mesmo fotógrafo, como se sua presença ali já tivesse sido planejada previamente. Os vídeos foram postados no Tweeter e largamente disseminados. Essa coincidência é apenas a ponta do iceberg.

O fotógrafo chama-se Richard Gutjahr, apresenta-se como free lancer, estudou na Alemanha, viveu na França e nos Estados Unidos e... é casado com Einat Wilf, ex-oficial do exército israelense, ex-assessora de política exterior do premier Shimon Peres e reconhecida agente do Mossad, o serviço secreto de Israel.

Dados e coincidências foram tornados públicos por Kevin Barrett, no site Veterans Today, logo após o atentado em Munique. Tão rápido que é como se Richard Gutjahr estivesse, ele mesmo, sendo igualmente monitorado.

Para além dos fatos

O portal de notícias iraniano HispanTV noticiou hoje que as coincidências em torno de Richard Gutjahr representam, na verdade, os rastros do Mossad em ambos os atentados, e lembrou outra curiosa coincidência: a data do recente atentado de Munique (onde em 1972 a delegação olímpica de Israel foi vítima de um atentado) corresponde ao 72º aniversário do primeiro atentado de falsa bandeira cometido por agentes israelenses na Cisjordânia, passando-se por árabes, em que 92 pessoas foram mortas.

Para o portal iraniano, ambos os atentados na Europa, com todas as incongruências em torno da sua real autoria, seriam, na verdade, operações encobertas de Israel para promover um clima de insegurança e de anti-islamismo no continente.

Demasiada teoria da conspiração? Ou apenas demasiadas coincidências?

Ricardo Cavalcanti-Schiel
No GGN


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Globo diz que fraude da Folha é invenção de “blogs pró-Dilma”


Os correspondentes internacionais estão experimentando na própria pele o que os blogueiros vem passando há anos.

Críticas à imprensa corporativa, que numa democracia deveriam ser consideradas como algo que ajuda a própria imprensa a se aperfeiçoar e, sobretudo, como um incentivo à a liberdade de imprensa, são quase criminalizadas no Brasil.

Olhe como a Globo tratou a denúncia de fraude da Folha, fraude que consistiu em esconder números de sua própria pesquisa e divulgar uma interpretação diametralmente oposta ao realmente apurado.

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A denúncia da fraude da Folha foi feita pelo ganhador do Pullitzer, principal prêmio de imprensa nos Estados Unidos, o jornalista que enfrentou o serviço secreto mais poderoso e mais perigoso do mundo, a NSA, para divulgar informações vazadas por Edgar Snowden.

O jornalista, Glenn Greewald, publicou não apenas uma, mas duas reportagens denunciando a fraude.


Em seguida, a denúncia foi repercutida pelo El País, principal jornal da Espanha e um dos maiores jornais do mundo (conservador, diga-se de passagem).


O jornalista americano Alex Cuadros, um tuiteiro ativo, autor de um best-seller elogiado pelo New York Times sobre o Brasil (o livro Brazillionaires), resolveu entrar na polêmica, e postou uma série de comentários críticos à Folha e à imprensa brasileira. São comentários argutos, refinados, que mereciam ser objeto de reflexão. Eu reproduzo alguns deles aqui.

Observe que Cuadros é um cara que quer acreditar na imprensa brasileira.  Não é um blogueiro político (como eu) já traumatizado por anos de análise das manipulações da mídia. Ele inicialmente atribui a fraude a uma infelicidade qualquer do editor, a um erro de julgamento de jornalistas tomados de paixão partidária.

É um naïf.

Percebe-se claramente a evolução de sua perplexidade. O final da história, que conto depois das imagens abaixo, é divertido.

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Depois de comentários tão inteligentes, qual o resultado? A Globo publica matéria atribuindo a crítica à Folha a uma polêmica levantada por "blogs pró-Dilma".

E aí, o moderado e crédulo Alex Cuadros, não mais consegue conter sua irritação.

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Eu traduzo esse último tweet: "Para a Globo: reduzir as críticas a essa pesquisa manipulada a blogs "pró-Dilma é maniqueísta e equivocado. Eu não sou pró-Dilma!"

Bem vindo, Alex!

E relaxa, companheiro. Para esses caras, qualquer crítica às suas mentiras é coisa de "petralha", "pró-Dilma", "simpatizante do PT".

O Otavinho Frias não chamou a jornalista britânica, que fez críticas à imprensa brasileira num seminário em Londres de "militante do PT"?

Deslegitimar os críticos é a maneira que eles — os plutocratas da mídia — encontraram para continuar manipulando as notícias.

E, Alex, infelizmente dá certo! Vide a perseguição aberta do governo Temer aos blogs, após uma verdadeira campanha de guerra movida por reportagens na Folha, na Globo, no Estadão, na Veja, no Antagonista, contra a publicidade estatal na imprensa progressista.

Além do mais, não sei se você já percebeu, mas tá rolando um golpe de Estado no Brasil...

Ops, desculpe, essa história de golpe também deve ser coisa de "blogs pró-Dilma".

Miguel do Rosário
No Cafezinho
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Teoria conspiratória? A crítica da ombudsman da Folha ao ‘sumiço’ das perguntas no Datafolha


A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, relata, na sua coluna de hoje,  a história do “desaparecimento” da pergunta da pesquisa Datafolha sobre o desejo de 62% dos brasileiros de que se convoquem novas eleições, extirpada na divulgação feita pela Folha, para dizer que “50%dos entrevistados”  queriam a continuidade de Michel Temer.

A questão, como se sabe, foi levantada por Glenn Grenwald e Erick Dau, no The Intercept.  Com o trabalho deles, este Tijolaço pôde colaborar, descobrindo o relatório original (ou quase) da pesquisa onde consta a pergunta e a tabulação das respostas que revelam a “abdução” de resultado que contradizia as conclusões que o jornal apresentava para a pesquisa.

O relato é quase correto, como você verá no texto, que reproduzo ao final.

No entanto, a análise, de novo, é omissa: o erro, como vai se mostrar adiante, pontualmente, na narração da ombudsman, mostra que é inveraz a alegação, já por si insustentável, de que o jornal resolveu “desconsiderar” a pergunta. 

Não é o certo: ele a eliminou deliberadamente, para sustentar a versão que apresentou aos leitores. Não é, pois, questão de erro ou incompetência, mas de imposição da versão conveniente para o jornal em prejuízo da verdade dos fatos.

Paula diz, com grifos meus:  

Para alimentar teorias conspiratórias, revelou-se que o Datafolha colocou em seu site mais de uma versão do relatório da pesquisa polêmica, sendo que em só uma delas constavam as duas perguntas. O instituto explica que faz um relatório completo para a Redação, mas divulga no site apenas o que saiu no jornal. No caso, o primeiro documento continha, por falha, título sobre a pergunta 14, ausente do relatório por não ter sido usada.

Não, Paula.

O documento que continha “por falha” o título (na verdade, subtítulo) sobre 60% desejarem nova eleição não é o primeiro.

Tanto que o arquivo que o contém, como cansei de destacar aqui, desde o primeiro post, terminava com um “v2”, o que indica, óbvio, que era a segunda versão. Difere do primeiro documento, — aquele  que  contém a pergunta, de número 14 e aos seus resultados, bem como a de número 11, que indaga sobre a legalidade ou ilegalidade da condução do processo de impeachment.

Mesmo este documento — a versão 2, que recuperamos, a mais completa —, já tem um “descarte” de perguntas — cujo conteúdo, agora, passou a ser indispensável revelar. Faltam vir à tona oito perguntas: 4, 5, 15, 16, 17, 20, 29 e 34, como registrou a jornalista Leticia Sallorenzo que, neste blog, antes da descoberta, sistematizou e questionou o sumiço de perguntas.

Ou seja: na melhor das hipóteses, teríamos eu admitir que as perguntas eliminadas neles não tivessem “interesse jornalístico”. Mas a própria ombudsman registra (o grifo, outra vez, é meu) que participou da elaboração de questionários e que neles não entram perguntas ociosas:

Quando secretária de Redação e editora de Política, participei da elaboração de incontáveis questionários de pesquisas Datafolha. Com a limitação técnica de quantidade de perguntas, cada uma precisa ser muito bem pensada e escolhida. Não há justificativa para colocar uma pergunta e depois ignorá-la.

As oito perguntas ainda “sumidas”  (Paula fala de uma; os fatos mostram que são oito, ainda) representam um quinto das perguntas formuladas!

Os fatos estão documentalmente estabelecidos.Revelá-los foi jornalismo, não algo  “para alimentar teorias conspiratórias”, como ela escreve.

Paula diz que “a questão central está na acusação de o jornal ter omitido, deliberadamente, que a maioria dos entrevistados (62%) pelo Datafolha se disseram favoráveis a novas eleições presidenciais, em cenário provocado pela renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer.”

Pois a  questão central, permito-me dizer,  não é mais “se”, mas “por que” se fez a extirpação das perguntas e das repostas e colocou-se apenas aquelas que pareciam indicar o sentido oposto.

E esta questão está para ser respondida por quem faz a crítica do episódio.

A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso.

Não foi o caso de não se preocupar em “explorar os diversos pontos de vista que o material permitia”, mas o de deliberadamente omitir do conhecimento público. E o deliberado também se prova, quando está claramente estabelecido que se fez uma segunda versão do relatório para eliminar as perguntas e os resultados das respostas.

Não foi a “lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso”, tanto que a equipe do Datafolha que elaborou o resumo descritivo colocou em dois parágrafos, logo a seguir à abertura da análise, o que as perguntas “abduzidas” revelavam da opinião dos entrevistados.  E não as considerou “irrelevantes”, tanto que mencionou seu resultado no subtítulo que, esquecidos de mudar na versão “ajustada”, deu a pista para a revelação de sua existência.

Não houve um simples erro, casual e desatento. Houve uma ação para eliminar informação que o próprio Datafolha considerou relevante, ao ponto da analisa-la e levá-la ao subtítulo de seu relatório.

E o nome disso é fraude, em bom português.

Fraudou, foi apanhada e, em lugar de assumir que alguém agiu errado e corrigir-se, saiu-se com explicações também fraudulentas.

A Folha errou e persistiu no erro

Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha

Fundado em 1983, o instituto de pesquisas Datafolha, pertencente ao Grupo Folha, acumulou um patrimônio de qualidade técnica, arrojo de abordagem e interpretação de dados isenta. Sua credibilidade foi construída em trabalho conjunto com a Redação. Introjetou-se de tal forma no jornal que uma crítica antiga à Folha é a de ser um jornal “data-dependente”.

Dito isso, é preciso reconhecer que a semana que passou foi amarga para o Datafolha e para a Folha.

Desde que assumi o mandato, nenhum assunto mobilizou tanto os leitores. Do total de mensagens recebidas desde quarta-feira, 62% foram críticas e acusações ao jornal.

Variavam de fraude jornalística e manipulação de resultados a pura e simples má-fé, passando por sonegação de informação e interpretação tendenciosa.

A questão central está na acusação de o jornal ter omitido, deliberadamente, que a maioria dos entrevistados (62%) pelo Datafolha se disseram favoráveis a novas eleições presidenciais, em cenário provocado pela renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Optou por destacar que 50% preferiam a permanência de Temer à volta de Dilma, em questão que, mesmo sem haver essa hipótese, 3% disseram defender novas eleições.

As perguntas 11, 13 e 14 do questionário do Datafolha (leia a seguir) tornaram-se objeto de vigorosa controvérsia.

Os sites The Intercept, do jornalista Glenn Greenwald, e Tijolaço, do jornalista Fernando Brito, acusaram a Folha de “fraude jornalística com pesquisa manipulada visando alavancar Temer”.

Em trabalho complementar, comprovaram que o jornal omitira da reportagem e do questionário divulgado no site do Datafolha questão proposta aos entrevistados sobre a convocação de novas eleições.

Outra pergunta também foi omitida. Esta pedia aos entrevistados que avaliassem se o processo de impeachment está seguindo as regras democráticas e a Constituição: 49% disseram que sim; 37% que não.

Para alimentar teorias conspiratórias, revelou-se que o Datafolha colocou em seu site mais de uma versão do relatório da pesquisa polêmica, sendo que em só uma delas constavam as duas perguntas. O instituto explica que faz um relatório completo para a Redação, mas divulga no site apenas o que saiu no jornal. No caso, o primeiro documento continha, por falha, título sobre a pergunta 14, ausente do relatório por não ter sido usada.

Diante da polêmica, Folha e Datafolha optaram por divulgar link para o relatório completo.

Reveladas as omissões e estabelecida a confusão, o editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila, disse que o resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não pareceu especialmente noticioso, por repetir uma tendência, além de o jornal considerar tratar-se de cenário político pouco provável.

Leitores discordaram: “A Folha me pareceu escapar pela tangente, com respostas vagas”, disse Eduardo Ottoni. “Os argumentos chegam a ser até um insulto à inteligência do leitor”, afirmou Márcia Meireles. “A Folha errou, é tão grave assumir seus erros?”, questionou.

A ombudsman resumiu as críticas dos leitores ao editor-executivo. Dávila argumentou que “o único cenário concreto à frente é o Senado decidir se Dilma Rousseff volta a exercer o cargo de presidente da República ou se Michel Temer continua a exercê-lo. Não há terceira opção além dos dois desfechos possíveis. (…) Faz parte da boa prática jornalística não publicar o que é pouco relevante”.

Dávila lembrou que a Folha frequentemente publica uma fração das pesquisas, “nunca sua íntegra”.

Discordo em muitos pontos do editor-executivo. Quando a Folha, em editorial de Primeira Página em 3 de abril, defendeu a renúncia de Dilma e de Temer e a convocação de nova eleição, também esse não era um cenário provável.

Se a possibilidade de dupla renúncia não era mais levada em conta, por que então a questão foi incluída na pesquisa? O questionário já foi elaborado nesse cenário. A repetição de tendência como argumento para não publicar o resultado é incoerente com a prática do jornal por anos a fio.

Quando secretária de Redação e editora de Política, participei da elaboração de incontáveis questionários de pesquisas Datafolha. Com a limitação técnica de quantidade de perguntas, cada uma precisa ser muito bem pensada e escolhida. Não há justificativa para colocar uma pergunta e depois ignorá-la.

Na crítica que circula diariamente na Redação, questionei a abordagem da pesquisa, feita pelo jornal, subaproveitando temas políticos, ao destacar em manchete o otimismo com a economia. Reveladas as omissões, lamentei a forma como o jornal enfrentou a polêmica. Sugeri que reconhecesse seu erro editorial e destacasse os números ausentes da pesquisa em nova reportagem.

A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso.

A reação pouco transparente, lenta e de quase desprezo às falhas e omissões apontadas maculou a imagem da Folha e de seu instituto de pesquisas. AFolha errou e persistiu no erro.



Fernando Brito
No Tijolaço
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