17 de fev de 2018

Sobre a intervenção Federal na segurança pública do Rio de Janeiro


1 – O Brasil é um país extremamente violento. Em números absolutos é o país que mais mata no mundo. No ranking elaborado pela ONG mexicana, Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, que goza de reputação internacional, detre as cidades mais violentas do mundo, o Brasil tem 19. Mas nenhuma dela é o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro é uma cidade violenta, mas existem várias cidades mais violenta do que o Rio dentre as cidades brasileiras;

2 – Durante o Carnaval de 2018, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública RJ, 16 dos 27 indicadores de segurança caíram em relação ao Carnaval de 2017. O indicador de homicídios, por exemplo, caiu 14,81% e o de roubos teve uma queda de 9,85%. Um dos grandes problemas do Rio, como todo mundo sabe, é a guerra entre facções do crime organizado. Mas esta guerra existe em vários estados e em várias prisões de outros estados. Em São Paulo, onde não há essa guerra, o crime organizado tem muito mais amplitude e força do que no estado do Rio de Janeiro;

3 – A intervenção Federal na Segurança Pública no Rio de Janeiro não se justifica. Ela tem um caráter eminentemente político e visa encobrir o fracasso do governo Temer na reforma da previdência e dar uma sobrevida a esse governo moribundo. Governo que perdeu o sentido de existência mesmo para aqueles setores que apoiaram o golpe. Ao buscar essa agenda da segurança pública para sobreviver, ela funciona como uma espécie de balão de oxigênio para um governo que vive os seus estertores;

4 – A intervenção expressa uma inescrupulosa utilização das Forças Armadas, não para garantir segurança aos cidadãos, mas para atender objetivos políticos inescrupulosos de um governo ilegítimo. As finalidades das Forças Armadas não se orientam para a Segurança Pública e elas nem tem preparo para isto. A violência e a falta de segurança pública estão imbricadas num complexo de causas que não serão superadas pela via da força militar;

5 – A intervenção na Segurança Pública do Rio não tem força para inviabilizar as eleições gerais de 2018, mas ela pode causar perturbações no processo eleitoral. A tese de que pode haver uma suspensão das eleições é coisa da esquerda medrosa, acuada e sem estratégia para enfrentar esse governo ilegítimo e golpista;

6 – De duas uma: essa intervenção, pelo seu caráter puramente político, ou não dará em nada ou será um tiro no pé que o próprio governo se deu. No mais, essa intervenção é mais uma faceta da guerra contra os pobres que se trava neste país.

Aldo Fornazieri, diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de SP desde 2006
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Intervenção no Rio é “barata voa”. E, por que o Rio? Porque tem Jornal Nacional




A professora Jaqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública na Universidade Federal Fluminense, foi a fundo na entrevista imperdível que concedeu à Globonews.

Por óbvio, não mencionou o Jornal Nacional, que é por nossa conta.

“Barata boa”, resumiu, sobre a intervenção militar improvisada do governo Temer.

Importante, a partir do depoimento dela, relatar alguns episódios que testemunhei como repórter e que, espero, possam ajudá-los a formar opinião.

Início dos anos 2000. Sou repórter da TV Globo no Rio de Janeiro.

Fui apresentado a um projeto piloto do que, mais tarde, viriam a ser as UPPs, já no governo Cabral.

A presença permanente de policiais no alto de um morro.

Negar território ao tráfico, diziam. Fazê-lo com investimentos sociais.

Pouco depois, testemunho um tiroteio na favela do Jacarezinho, no Rio. Um tiroteio, digamos, cenográfico, já que ninguém atirava de volta.

As cenas são exibidas no Jornal Hoje. A Globo substitui o uso de ‘suspeitos’ por ‘bandidos’, nos textos jornalísticos.

Aqueles investimentos sociais prometidos, de fato nunca vieram.

A Globo tinha grande intimidade com Josias Quintal, o secretário de segurança pública de Garotinho.

Tanto que, quando Fernandinho Beira Mar é preso na Colômbia, viajamos num jato do governo estadual para encontrá-lo em Bogotá.

Em retrospectiva, política. Pura política.

Já em São Paulo, depois de exercer o cargo de correspondente nos Estados Unidos, vou à Colômbia para tratar de segurança.

Visitamos presídio de segurança máxima. Em Medellin, os teleféricos construídos para transportar a população pobre aos bairros ricos da cidade.

Na base das torres, serviços antes negados à população. Mas, Pablo Escobar permanece popular.

É que ele “prestava serviços” à população mais pobre de maneira que o estado colombiano nunca prestou.

Eleição de Barack Obama, em 2008, nos Estados Unidos.

Na pré-campanha, Samantha Powers ajuda a escrever a plataforma para a América Latina. É simpática aos líderes sul americanos que combatem a pobreza.

Mas, quando Obama se torna oficialmente o candidato do Partido Democrata, a plataforma surpreendentemente muda.

A ênfase é em combater o crime organizado. Deduzo, por minha própria conta, que o objetivo é exportar armas e tecnologia de fabricantes norte-americanos às polícias latino americanas.

Por volta de 2010. Vou à fronteira do Brasil e Paraguai para reportar sobre os Barões da Maconha.

Não é coincidência que os mulas sejam de municípios com baixíssimo IDH.

A suspeita é de que policiais sejam avisados antecipadamente sobre os carregamentos que vão atravessar a fronteira e utilizar as rodovias brasileiras.

Eventualmente, uma apreensão aparece com grande destaque na TV.

O juiz local reclama que os presos são sempre os peixes pequenos, não há combate eficaz à lavagem de dinheiro das quadrilhas, que envolvem gente “de bem” graúda.

2013. Vou ao Maranhão como repórter para falar sobre a ‘exportação’ do crime organizado ao Nordeste brasileiro. O PCC chegou.

Visitamos Pedrinhas antes da grande rebelião. Os relatos consistentes são de que o crime organizado migrou do Sul em direção ao Nordeste.

O “barata voa” de que fala Jaqueline Muniz na entrevista.

Num presídio do centro de São Luís, os presos pagam a agentes penitenciários para sair à noite, às escondidas.

Fazemos o flagrante. É o exemplo da ‘contaminação’ do aparato de segurança pelo crime.

2014. O repórter Dario de Medeiros faz, com a ajuda dos leitores do Viomundo, uma contundente análise sobre o fracasso das UPPs cariocas. E do avanço das milícias, que ajudam a eleger governantes.

Cai em mim a ficha de que o Brasil vive a mexicanização da segurança pública: a parceria entre o crime organizado e a polícia está institucionalizada, na ausência de investimentos sociais e de boas condições salariais para os servidores.

As UPPs, escreve Dario, servem a um ‘projeto de cidade’ que cria corredores para a especulação imobiliária.

Um projeto autoritário de cidade da Globo, denuncia o deputado Marcelo Freixo.

2017. Faço a rota do Solimões, onde a Família do Norte disputa o controle do tráfico de cocaína e skunk com o PCC.

Os presídios locais já estão todos controlados pelo crime organizado.

Na falta consiste de recursos e de uma política nacional séria de combate ao crime, com mais inteligência e menos pirotecnia, os locais partem para uma acomodação com os chefões.

Amazônidas se ressentem do fato de que a Polícia Federal desembarca gente do Sudeste, sem nenhum conhecimento ou respeito pela cultura local, para combater o crime.

Os presídios estão abarrotados, inclusive com gente que aguarda julgamento e, enquanto isso, faz universidade do crime. A maior parte está presa por associação ao tráfico.

Em Coari, o delegado local me conta sobre o assalto à delegacia de polícia em que trabalha.

Conclusões:
    1. Investimento em programas sociais mitigadores, redistribuição de renda, taxar os de cima para investir nos de baixo;
    2. Descriminalização das drogas;
    3. Investimento em inteligência;
    4. Tirar da cadeia os soldadinhos do crime organizado, cujas famílias ficam reféns dos chefões;
    5. Dignidade salarial para os agentes de segurança.
Não há solução mágica. Requer dinheiro. Longo prazo.

Faltou explicar: por que o Rio de Janeiro e não, digamos, o Ceará?

Porque a intervenção no Rio de Janeiro rende mídia. Repercute. Sai no Jornal Nacional.

E, ao sair no Jornal Nacional, pode ser utilizada para fins políticos.

Como eleger um Bolsonaro light. Quem sabe um Temer, ou um Alckmin apoiado pelo Temer, ou uma eleição adiada em nome da ordem, agora que já alcançamos o progresso.

Como começa a gente sabe, nunca sabe como — e quando — termina.

Pulso firme. Para tudo ficar exatamente como está.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Antes da prisão, reitor da UFSC apontou irregularidades na conduta de corregedor que o delatou


Segundo a Folha, um mês antes de ser preso pela Operação Ouvidos Moucos, que apura desvios no programa Educação à Distância (EaD) na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o então reitor Luis Carlos Cancellier enviou ofício à Controladoria-Geral da União denunciando o corregedor-geral da universidade, Rodolfo Hickel do Prado, em duas investigações.

O depoimento de Prado à Polícia Federal foi o motivo central da prisão de Cancellier, em 14 de setembro, acusado de obstruir uma investigação na UFSC.

A Ouvidos Moucos é comandada pela delegada Erika Mialik  Marena, que liderou a Lava Jato, em Curitiba. Ela pediu a prisão do reitor por cinco dias e seu afastamento da UFSC, o que foi aceito pela juíza Janaína  Cassol. Ele foi solto no dia seguinte pela juíza Marjorie  Freiberguer, que disse não haver provas de ameaça à investigação. A restrição de entrar na UFSC foi mantida.

No dia 2 de outubro o reitor se jogou do sétimo piso de um shopping de Florianópolis. Levava um bilhete no bolso: “A minha morte foi decretada quando fui banido da Universidade!!!”. Ele não é apontado como suspeito de desvios.

No documento enviado à CGU, que fiscaliza a universidade, Cancellier justifica a retirada de dois processos que tramitavam na corregedoria. O primeiro dizia respeito à expulsão de um aluno. O reitor aponta que a norma interna determina que “punições disciplinares a discentes são processadas e julgadas nos colegiados de curso”.

A outra investigação era referente à concessão de bolsas de estudo pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação, para o EaD, caso investigado em sigilo pela PF.

Cancellier diz que “a avocação [ato de trazer para a reitoria] ocorreu em razão de obstáculo à solução da questão investigada, com prejuízo a esta universidade”.

Ele relata que Prado requisitou documentos à Capes e se reuniu com seu presidente. A Capes também montou uma comissão para apurar o caso e solicitou ao corregedor informações. Prado recusou-se a repassar dados, argumentando sigilo. Cancellier protestou. “O compartilhamento de informações sigilosas carrega consigo o dever de sua manutenção”, disse.

Prado foi exonerado no início de fevereiro da UFSC. Seu histórico inclui assédio moral, sexual, calúnia, difamação, hostilidade e comportamento persecutório.

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Depoimento de Barusco a Moro explicita a farsa da Lava Jato e a perseguição a Lula




Este vídeo explica a Lava Jato e a perseguição a Lula.

Mostra como os procuradores delimitaram a operação aos anos do governo Lula.

Em depoimento, Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, reconhece que recebia propina desde 1996.

Mas, quando foi elaborar uma planilha de propinas após fechar uma delação com o MPF, o documento começava em 2003.

No final do interrogatório, o juiz Sergio Moro tenta consertar a situação, mas fica pior a emenda que o soneto.

Kiko Nogueira
No DCM
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Nassif: A intervenção no Rio e o papel da Globo


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Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra


Nota de resposta à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás

Espíritas que somos, os abaixo-assinados, tornamos pública a nossa desaprovação a diversas opiniões que foram expostas no vídeo que circulou essa semana nas redes sociais, e que depois foi retirado do Youtube.

Declaramos que elas não nos representam e não representam o espiritismo, pois são apenas opiniões pessoais de seus autores, e que, em nosso entender, carecem de fundamento teórico e científico.
Aliás, médiuns e oradores não têm autoridade para falar em nome do espiritismo.
Ninguém tem essa autoridade, nem mesmo instituições federativas.

O espiritismo é uma ideia livre, cuja maior referência é Kardec

Mas cujos livros também não podem ser citados como bíblia.

Para manifestarmos ideias e posições do ponto de vista espírita, segundo a própria metodologia proposta por Kardec, temos de dialogar com a ciência de nosso tempo, usar argumentos racionais e adotar de preferência posturas que estejam de acordo com os princípios básicos da ética espírita, que são os da liberdade de consciência, amor ao próximo, fraternidade, entre outros.

O movimento espírita brasileiro está longe da unanimidade em todos os temas, sobretudo os que se referem a questões contemporâneas e, por isso, é importante delimitar as posições, para deixarmos claro que declarações como as que foram feitas neste vídeo não representam o espiritismo.

Dessa forma, rebatemos alguns pontos da referida entrevista:

  1. Divaldo referiu-se à República de Curitiba e a seu suposto “presidente”, Sérgio Moro. Não existe uma República de Curitiba, pois segundo nossa Constituição só há uma República a ser reconhecida em nosso território, e é a República Federativa do Brasil.

    E a referência a um juiz federal de primeiro grau como o Presidente desta acintosa República é um grave desrespeito ao Estado, à nação brasileira, atribuindo a tal república poderes inexistentes em nossa Constituição.

    Além dessa nociva postura marcadamente messiânica e de culto à personalidade, pode dar a entender que o restante do povo brasileiro não presta e que não há pessoas boas espalhadas pelo Brasil dando o melhor de si.
  2. Divaldo chama esse mesmo juiz de “venerando” – o que é altamente questionável, dadas as críticas de grandes juristas nacionais e internacionais à parcialidade desse juiz e a seus atos de ilegalidade, que feriram a Constituição, e às notícias que correm na mídia de seu conluio com determinados segmentos e partidos.
  3. Divaldo assume uma postura claramente partidária, contrária ao PT – o que é de seu pleno direito, mas nunca em nome do espiritismo – fazendo, porém, uma crítica rasa, com uma miscelânea conceitual, chamando o governo desse partido de marxista e assumindo um discurso próprio da polarização extremista, manipulada e sem consistência que invade nossas redes sociais e nossa vida política, contribuindo para os momentos de incertezas e de medos em que vivemos.
  4. Há uma fala extremamente problemática que se refere à chamada “ideologia de gênero”. Não existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores fundamentalistas da Igreja Católica e depois adotado pelas Igrejas Evangélicas. Existe sim uma área de pesquisa no mundo que se chama “Estudos de Gênero” – que teve influência de Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Judith Buttler. Os “Estudos de Gênero” se dedicam a procurar entender como se constitui a feminilidade e a masculinidade do ponto de vista social, se debruçam sobre questões de orientação sexual, hétero, homo, transsexualidade – ou seja, todos fenômenos humanos, que estão diariamente diante de nossos olhos. Podemos concordar com algumas dessas conclusões, discordar de outras, deixar em suspenso outras tantas. Esse olhar é muito recente na história e ainda estamos apalpando questões profundas e complexas – e em nosso ponto de vista espírita, não é possível ter plena compreensão delas sem a chave da reencarnação. Uma abordagem puramente materialista jamais vai dar conta do pleno entendimento do psiquismo humano. Mas estamos muito longe de ter gente reencarnacionista competente, fazendo pesquisa séria, para dialogar com pesquisadores com abordagens meramente sociológicas ou psicológicas. Então, nós espíritas, não temos ainda melhores respostas que os outros e não podemos, por cautela, seguir a cartilha dos setores conservadores mais radicais de generalizar esses estudos sob o termo, usado aqui pejorativamente, de ideologia, para desqualificá-los como “imoralidade ímpar”. Parece-nos que uma dose de humildade científica, prudência filosófica e bom-senso faria bem a todos nesse ponto, especialmente quando o domínio sobre os corpos e a sexualidade sempre foi um ponto central para as religiões ocidentais.
  5. Divaldo revela também completo desconhecimento dessa área de estudos de gênero, alinhando-a ao marxismo e ao comunismo. As grandes lideranças desses estudos estão nos Estados Unidos e na Europa. Aliás, os estudiosos desse tema encontram-se em diversas correntes de pensamento, desde marxistas até pós-modernos de diferentes matizes e até liberais. Ao fazer isso, mais uma vez, mostra a adesão a um discurso pronto, midiático, que ressoa nos setores evangélicos e católicos mais radicais, que primam por taxar qualquer ideia ou debate que lhes desagrade com o termo “comunista” – um grande espantalho generalizante, simplista e esvaziado de sentido, mas que tem sido eficaz, ao longo dos tempos, para dar forma a medos sociais e, assim, orientar o ódio e o ressentimento das pessoas contra certos alvos.

Por fim, deixamos aqui as seguintes afirmações:

  • Nenhum médium ou orador pode falar em nome de todos os espíritas ou em nome do espiritismo. Isso é, por si só, desonestidade intelectual;
  • Quando um espírita, sobretudo se tem influência sobre a comunidade, manifesta uma ideia ou uma opinião, tem por dever se informar sobre os temas de que está falando, usar referências confiáveis e estar em consonância com a lógica, com a ciência e com o bom senso.
  • Deve também, preferencialmente, defender os direitos dos mais fragilizados socialmente, no caso, as mulheres, as crianças, os membros da comunidade LGBT+, que são objeto dessas discussões dos estudos de gênero, justamente por estarem vulneráveis a todo tipo de violência e desrespeito em nossa sociedade, além dos negros e negras, as juventudes periféricas e as pessoas com deficiência.
  • Não deve alimentar discursos de ódio partidário e nem medidas punitivas contra quem quer que seja: nossa bandeira é a da educação, da fraternidade entre todos e da paz, comprometidos com a democracia, a justiça social e a regeneração da sociedade.

Abaixo Assinaram:

Adriana Jaeger Santos, RS
Agnes Vitória Cabral Rezende, MT
Alana de Andrade Santana, BA
Alessandro Augusto Arruda Basso, SP
Alessandro Cesar Bigheto, SP
Alexandre Mota, SP
Alexandro Chazan, SP
Álvaro Aleixo Martins Capute, MG
Carlos Augusto Pegurski, PR
Carlos Sérgio da Silva, SP
Claudia Gelernter, SP
Claudia Mota, SP
Cynthia Maria Fiorini Santos, SP
Dalva de Souza Franco, SP
Dalva Radeschi, SP
Dennylson de Lima Sepulvida, SP
Dora Incontri, SP
Douglas Neman, SP
Eduardo Alves de Oliveira, SP
Eduardo Lima, CE
Erica de Oliveira, SP
Felipe Gonçalves, SP
Felipe Sellin, ES
Fernando Fernandes, SP
Franklin Felix, SP
Gilmar da Cunha Trivelatto, SP
Glauco Ribeiro de Souza, SP
Hélio Ribeiro, MG
Izaias Lobo Lannes, MG
João Carlos de Freitas, SP
Jandyra Abranches, ES
Juçara Silva Volpato, ES
Leandro Piazzon Correa, SP
Litza Amorim, SP
Lorisani Marisa de Leão de Souza, RS
Luciano Sérgio Ventin Bomfim, BA
Luis Gustavo Carvalho Ruivo Andrade, SP
Luis Márcio Arnaut, SP
Luziete Maria da Silva del Poggetto, SP
Marcel Pordeus, CE
Marcelo Henrique Pereira, SC
Marcos Wilian Silva MT
Maristela Viana França de Andrade de Aragarças GO
Maristela Viana França de Andrade, GO
Maurício Zanolini, SP
Murilo Negreiros, SP
Patrícia Imperato Malite, SP
Pedro Camilo, BA
Raphael Faé, ES
Roberto Colombo, SP
Samantha Lodi, SP
Sebastião do Aragão, SC
Sérgio Aleixo, RJ
Silvia Bueno, SP
Sinuê Neckel Miguel, RS
Suzana Leão, RS
Tatiane Braz Comitre Basso, SP
Thiago Rosa, SP
Tiago Fernandes, PR
Vinicius Lara, MG
Willan Silva, ES
Yuri David Esteves, SP

Veja o trecho da declaração de Divaldo a esse respeito na no Congresso de Goias






No GGN
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Intervenção no Rio: péssima reprise!

Charge de Latuff, originalmente publicada em CartaCapital, 2010.
Foi em 1994, mas especificamente, no final do mês de novembro. O Rio experimentou, mais uma vez, a intervenção militar para combater a violência urbana, que de organizada nada tem. Já aconteceram em 1992, quando forças militares assumiram o comando a pretexto da Eco-92.

Repete-se agora o gesto de desespero. Mas, não por conta de alguma situação aflitiva na segurança em si. Nada aconteceu de diferente que justifique a explicação simplista de que ocorreu uma “metástase” como disse, na tarde desta sexta-feira (16/02), o presidente golpista, Michel Temer. A não ser que ele faça relação com o desfile da Paraíso do Tuiuti, no domingo de carnaval.

Na realidade, de crime organizado, no Rio, o tráfico não tem nada. Digo isso, desde quando era repórter de O Dia (1994/200), ou mesmo no meu tempo de Estadão (2006/2011), período em que escrevi, a pedido do amigo Pedro Paulo Negrini, o capítulo “Organizações Criminosas no Rio de Janeiro“, no livro Enjaulados (Editora Gryphus, 2008), em coautoria com Negrini e Renato Lombardi. Fossem organizados os traficantes que armados dominam os morros, não haveria força policial a contê-los.

Na verdade, crime organizado no Estado do Rio se conheceu um, muito bem articulado: a quadrilha do PMDB (ou, hoje, rebatizado de MDB) comandada por Jorge Picciani, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha e tendo como apoiadores (colaboradores?) Moreira Franco e o próprio Temer. O prejuízo que eles causaram nos últimos anos foi bem maior do que o sacrifício que o tráfico impõe às famílias cariocas, em especial, e fluminenses, de um modo geral. Basta ver que por falta de apoio financeiro e investimentos sociais nas áreas que, antes dominada, tinham sido retomadas, o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ruiu. Evaporou-se.

Temer assina intervenção militar no Rio: a história se repete
(Foto: Beto Barata/Presidência da República)

Convocar as Forças Armadas para assumir a segurança do Rio não é a solução. Já se fez isso antes. Muitas vezes. Sem jamais se resolver o problema. Criaram-se outros. Elas ajudaram, sim, em projetos integrados. Quando da retomada de áreas antes dominadas, por exemplo. As mesmas áreas que os governos do partido de Temer não souberam manter. Por ganância.

Para o aumento da violência no Estado – como de resto no país – também contribuíram as medidas do próprio governo Temer.  Na medida em que ele congelou investimentos sociais, provocou o aumento da massa de desempregados e impôs  uma mudança da legislação trabalhista que tem tornado mais precários os empregos.

Entregar ao Exército (ou Forças Armadas) a segurança de uma cidade, como já ocorreu, não é solução e gera temores. Mais ainda todo um Estado. Já nem se tratada de superstição, suspeita ou pré-conceito. Mas puro conhecimento.

Os exemplos, se saíram das memórias das pessoas, podem ser vistos nos arquivos dos jornais. Os mesmos que, muito provavelmente, neste sábado podem estar estampando loas à decisão,. Fingem não ver que não passa de uma jogada para tentar desviar o foco negativo de um governo impopular. Por este ângulo – desvio do foco – entende-se o efeito Tuiuti.

Graças à onda de demissões de bons profissionais, trocados por novatos com salários menores e menos experiência, a chamada grande mídia hoje não tem memória. Poucos relembrarão os momentos dolorosos que a população carente carioca passou quando do uso de militares para tentar garantir a ordem enfrentando quadrilhas armadas. Com armas que, como todos sabem, muitas vezes obtiveram com a ajuda de policiais corruptos e políticos da mesma índole. Mas são quadrilhas que jamais se organizaram. Tanto que lutam entre si.

No dia 25 de novembro de 1994, dois mil homens ocuparam o Borel e 
derrubaram o “Cruzeiro” que, segundo O Globo, fora colocado pelo Comando Vermelho.

Um exemplo de recorrerem – por questões políticas, até – às Forças Armadas ocorreu em novembro de 1994. Naquele mês, Marcello Alencar – que no ano anterior rompeu com Leonel Brizola e filiou-se ao PSDB – elegeu-se governador. Eleito, mas não empossado, quis tripudiar o governo pedetista e pressionou o presidente Itamar Franco. Este acabou por impor ao Rio, governado por Nilo Batista, do PDT, as tropas federais para “garantir a ordem pública”.

Tal como repete agora Temer, em uma jogada que tanto pode ser em busca de melhor popularidade como para esconder a falta de apoio para a tão prometida reforma da previdência. Promessa que jamais será cumprida com o decreto assinado na sexta-feira.

Pode não ter sido a “intervenção”, como a decretada por Temer, mas no fundo aquela e várias outras experiências no decorrer deste 24 anos foi como se fossem. Na realidade, as Forças Armadas assumiram o controle da segurança. Em 1994, criou-se uma situação que Arnaldo César já narrou aqui em Temerosa trapalhada. Vale, porém, relembrar alguns episódios.

O que Temer não mencionou na sua fala à nação e que sempre foi cobrado da União, é que o seu governo cortou verbas da Polícia Federal e das Forças Armadas que deveriam se encarregar, por exemplo, da vigilância nas fronteiras. Por lá é que entram drogas e armas.

Na época de Itamar, ele entregou ao general de Brigada Roberto Jugurtha Câmara Senna – até por recusa de generais mais antigos na patente – a chamada “coordenação da operação conjunta de combate ao crime no Rio”. A Folha de São Paulo, então, noticiou: “A Folha apurou que os generais mais antigos do Exército não queriam ser indicados para a coordenação do órgão criado ontem pelo presidente Itamar. O posto é visto como “um abacaxi“” – General fez segurança da Eco 92 (Edição de 2/11/1994).

No dia 23 daquele mesmo mês, uma quarta-feira, ao cercarem o morro da Mangueira, no bairro de Benfica, Zona Norte do Rio, os homens do Exército chegaram a revistar crianças e até mamadeiras de bebês, como alardeou, protestando, no dia seguinte, o insuspeito O Globo.

Na sexta-feira, 25, sob o comando direto do general Câmara Senna, e sob aplausos da grande mídia, dois mil soldados ocuparam os morros do Borel e da Casa Branca, que são contíguos, na Tijuca, Zona Norte do Rio. À noite, quem entrasse não saía mais. Ou seja, suspenderam o direito de ir e vir.

Na edição de sábado (26/11), O Globo, que em editorial da primeira página cumprimentava a Operação “pela prova de flexibilidade mostrada pelos militares em face da necessidade de correções de rumos“, referindo-se à suspensão das revistas em crianças, comemorava a ocupação dos dois morros na véspera, quando os militares derrubaram “o cruzeiro erguido pelo Comando Vermelho“.

Em 1994, sob aplausos da grande mídia, o Exército subiu o Borel e deixou um rastro de torturas. 
Quem se recordará disso hoje?

Já na segunda-feira, ao informar a saída dos militares do morro no domingo, no mesmo jornal surgiram as primeiras denúncias de torturas. Partiram, principalmente, de duas freiras, missionárias do Sagrado Coração de Jesus – Maria do Rosário Porto e Tereza de Jesus Cavalheiro.

Foi nessa mesma segunda-feira, 28 de novembro, que pelo jornal O Dia, subimos o Borel e caminhamos pelo alto do morro, descendo pela Chácara do Céu, já no bairro do Andaraí.

O que reportamos  no jornal de terça-feira (cuja edição não conseguimos localizar nos arquivos de O Dia) foram diversos casos de espancamentos e torturas cometidos, inclusive, na sacristia da pequena igreja São Sebastião, no alto do morro. Ali, também funcionavam, à época, uma creche e um ambulatório. Marcas de sangue ainda permaneciam por lá. Algumas vítimas, escondiam-se em suas casas.

Do então padre Olinto Pegoraro, da Ordem de São Camilo, que dedicou a maior parte da sua vida de sacerdote ao trabalho social naqueles morros, soubemos que o cruzeiro derrubado pelos militares não era obra dos traficantes. Foram os fiéis da igreja que, em 1979, o ergueram. Em direção ao cruzeiro, a comunidade católica fazia suas procissões e Vias Sacras. O padre, após abandonar a batina dedicou-se apenas às aulas de Ética na UERJ.

Um dia depois de subirmos o Borel, na terça-feira, em uma Kombi de O Dia, retornamos ao morro. Levamos junto, entre outros, o deputado federal Miro Teixeira (na época, PDT), o então procurador República dos Direitos dos Cidadãos, Gustavo Tepedino, Luiz Bazílio, pelo Grupo Tortura Nunca Mais. Confirmaram tudo o que o jornal noticiara naquela manhã. Entrevistaram vítimas. Constataram sangue ainda na sacristia da igreja, bem como em um dos bancos ali usados. Ouviram, por fim, a versão do padre Olinto sobre o cruzeiro que o Exército havia relacionado aos traficantes.

Levado pelo jornal O Dia ao morro do Borel, o procurador Gustavo Tepedino determinou a instauração 
de três investigações, cujos resultados são desconhecidos.

Naquele dia, cinco das vitimas acabaram encaminhadas à Polícia e foram levadas ao Instituto Médico Legal, onde foram constatadas “agressões”, como o próprio O Globo noticiou.

Em uma carta encaminhada ao general Câmara Senna, o padre Olinto falou em 15 pessoas vítimas de torturas, inclusive com choques elétricos e afogamentos em uma cisterna.

Tepedino, como procurador da República, já na quarta-feira despachou ofícios determinando a instauração de inquéritos pelas Auditorias Militares federal e estadual e ainda pela Polícia Civil. Relatou o que viu ao então procurador-geral da República, Aristides Junqueira. Como noticiou O Globo, ele buscava o paradeiro de um preso durante a Operação que não tinha sido mais localizado.

Parte do que viu no morro naquela terça-feira, o deputado Miro Teixeira relatou ao ministro do Exército, general Zenildo de Lucena, na quarta-feira, em uma sessão da Comissão de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados,à qual também compareceu o general Câmara Senna. Queixou-se, inclusive, da derrubada do cruzeiro, obtendo do ministro a promessa de que o símbolo religioso seria recolocado no alto do morro, tudo conforme relatado em O Globo de 1 de dezembro.

A nova cruz, com 10 metros de altura, 4,7 m de largura, pesando 700 quilos, foi recolocada com ajuda de um helicóptero da FAB no dia 17 de dezembro, como noticiou a Folha da S. Paulo. Sobre os torturados não se ouviu mais falar, até por desinteresse da imprensa e dos jornalistas, entre os quais o autor desta reportagem. Caiu no esquecimento.

Em 1 de dezembro, O Globo divulga as promessas do ministro do Exército, Zenildo de Lucena, 
feitas na véspera, a Miro Teixeira. No dia 17 do mesmo mês, a Folha acompanhou a 
recolocação do cruzeiro.

Toda essa movimentação de tropas, porém, teve resultado pífio. Nenhum traficante maior chegou a ser pego. Também a quantidade de drogas apreendidas foi pequena. Em nada influenciou no problema da violência da cidade e daquela região do Rio de Janeiro. Serviu sim para queimar a imagem dos militares.

O tráfico no Borel só foi enfrentado corretamente quase 16 anos depois, em abril de 2010, quando, com tropas apenas da Polícia Militar, sete comunidades na região – Borel, Casa Branca, Morro da Cruz, Chácara do Céu, Catrambi, Indiana e Formiga – foram ocupadas militarmente, no preparo para a instalação da UPP. Não houve confronto, trocas de tiros ou qualquer outro incidente. A parti daí, passou a ser outra história.

As lições de 1994, das diversas outras operações de Garantia da Lei e da Ordem e ainda a da ocupação pacífica em 2010, porém, não parecem compreendidas pelos atuais governos do Estado e Federal. Voltam a recorrer às Forças Armadas, o que gera sérios riscos à população – em especial a mais carente, moradora das áreas de conflito, apesar de decorridas mais de duas décadas desde as primeiras Operações Militares no Rio. Mas, as Forças Armadas continuam sendo tropas de segurança à Nação, não preparadas para Segurança Pública.

Mas não apenas os moradores de áreas conflituosas correm riscos. Também as forças militares, que não servem a este tipo de ação, poderão sofrer com a missão que o presidente golpista lhes deu. Não devem resolver a questão da violência. Que, por sinal, segundo o Comandante Militar do Leste, o general Walter Braga Netto, que a partir de agora e até 31 de dezembro, responde pela segurança pública do Estado do Rio, a situação não é tão grave como falam. Em comentário que fez aos jornalistas no Palácio do Planalto, logo após a assinatura do decreto determinando a intervenção, declarou que “há muita mídia” na crise de segurança local.

Também não será recorrendo aos militares que o presidente golpista resolverá seu problema maior: a falta de legitimidade. Esta, só mesmo com a renúncia. Mas isto não passa nem por sua cabeça, nem pela dos seus asseclas. Portanto, ele deve se preparar espiritualmente. Outras manifestações como a gerada pelo desfile da Paraíso da Tuiuti surgirão. Provavelmente, já neste sábado (17/02), no próprio Sambódromo, quando do desfile das escolas vencedoras.

Marcelo Auler
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Lewandowski: Contribuição ao debate em torno da intervenção federal no RJ


Este artigo sobre intervenção federal, de autoria do ministro do STF Ricardo Lewandowski, foi publicado em março do ano passado no jornal O Globo. Hoje, com o tema de volta à vida do país, a assessoria do ministro encaminha o artigo por ser didático, o que pode contribuir com o debate em torno da medida adotada por Temer.

Além disso, o ministro é autor de livro cujo título é "Intervenção Federal", e é professor titular da USP na cadeira de Teoria do Estado.

Leia o artigo a seguir.

Intervenção federal como necessidade

Uma federação assegura aos seus membros as vantagens da unidade preservando a respectiva diversidade. Esse equilíbrio é mantido por instrumentos que vão desde a solução de dissenções internas por um tribunal especializado até à intervenção do governo central nas unidades federadas.

A ação interventiva é limitada no tempo e ao objetivo de preservar a associação. Quando não se amolda a tais condições torna-se abusiva. Embora configure corretivo drástico, há situações em que se mostra necessário.

Neste momento em que algumas unidades da federação passam por inusitada crise institucional, três das várias hipóteses constitucionais que autorizam a intervenção despertam maior interesse: “por termo a grave comprometimento da ordem pública”, “reorganizar as finanças” e “garantir o funcionamento de qualquer dos poderes”.

No primeiro caso, a intromissão somente é legítima caso a desordem não possa ser debelada pelas autoridades locais ou se estas não queiram fazê-lo. No segundo, ela é permitida quando a desorganização financeira de um ente federado extrapola seu território colocando em risco a estabilidade dos demais. À União não é dado permanecer impassível em tais circunstâncias, cumprindo-lhe solucionar o problema.

A intervenção é decidida pelo Presidente da República, independentemente de apreciação prévia do Congresso ou Judiciário. Porém, se exorbitar de suas atribuições, incorre em crime de responsabilidade.

Ela é empregada também para assegurar o funcionamento de qualquer dos poderes, evitando que sejam coagidos ou impedidos de exercer suas funções. A falta de repasse de verbas orçamentárias para o regular funcionamento deles consubstancia pressuposto de intervenção. Aqui a ação do Presidente não é livre, dependendo de solicitação dos poderes coactos ou impedidos. Se a constrangimento afetar o Judiciário, a requisição partirá do Supremo Tribunal Federal.

A intervenção efetiva-se por decreto, que especificará a amplitude, o prazo e as condições de sua execução, nomeando, se couber, um interventor. O ato é submetido à apreciação do Congresso dentro de 24 horas. Quando em recesso, será convocado extraordinariamente. Também são auscultados o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional. A Constituição, na vigência da intervenção, não poderá ser emendada.

O decreto independe de aprovação parlamentar para ter eficácia, produzindo efeitos desde sua edição. Caso rejeitado, a intervenção passará a ser inconstitucional. Se o Presidente, apesar disso, persistir na medida estará cometendo crime de responsabilidade.

A intervenção não destitui as autoridades eleitas, ainda que estas tenham cometido falta grave ou algum ilícito. Cessados os motivos da intervenção, elas voltarão aos seus cargos, salvo impedimento legal.

Tal como o estado de sitio ou de defesa, a intervenção federal constitui providência excepcional, admitida em situações em que a paz social ou a governabilidade do país não possam mais ser asseguradas por medidas convencionais.

Ricardo Lewandowski é ministro do Supremo Tribunal Federal e professor titular de Teoria do Estado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
No GGN
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Evangélicos são usados pela CIA em países com população inculta


Em 1953, a CIA tinha um problema. Precisava se livrar de líderes cujos países não tinham televisões e existia apenas um rádio para cada 50 pessoas. Como começar uma revolta popular na Guatemala, por exemplo?

A imensa maioria das pessoas era analfabeta, então jogar panfletos não iria funcionar. Rádio e Televisão não existiam e o país era grato a Jacobo Arbenz que levava a cabo a primeira reforma agrária e leis de proteção ao trabalho.

Havia, entretanto, um arcebisbo na Guatemala, chamado Mariano Rossell y Arellano, que tinha inclinações fascistas. O problema é que não se tinha muito contato com ele. Então a CIA mobilizou o Cardeal Francis Spellman de Nova Yorque. Em menos de 30 dias após os contatos, TODAS as dioceses da Guatemala leram uma carta pastoral conclamando um levante "anticomunista" contra o presidente. TODAS no mesmo dia e nos dias subsequentes. Em todas as missas.

No Vietnam, eles tinham o mesmo problema. População iletrada e sem meios de comunicação de massas. A CIA pagou curandeiros e feiticeiros a fazerem "previsões" sobre as pragas que cairiam sobre Ho-Chi-Min (líder comunista do norte), incitando a população a fugir em direção ao sul.

Na mesma época, foi detectado um imenso movimento de sindicalização de trabalhadores portuários na Itália. Trabalhadores pobres, sem muita instrução que acabavam se sindicalizando e aumentando a força dos anarquistas e comunistas italianos. A CIA financiou, apoiou e inclusive recebeu líderes das máfias nos EUA. Desde que eles acabassem com os "sindicatos" teriam um local para se refugiarem em caso de "problemas" na Itália.

No Oriente Médio, o movimento nacionalista e laico parecia se aproximar dos soviéticos. A CIA financiou e apoiou os regimes autoritários religiosos como na Arábia Saudita e derrubou o laicismo com Mossadegh.

O grande problema era como fazer a mensagem chegar nas populações pobres? Era preciso evitar a Igreja católica, pois se é verdade que alguns dos seus membros eram totalmente fascistas, era uma instituição sólida e com um lastro de intelectualidade não desprezível.

Era preciso criar uma "religião" nova. Que unisse o amor pelo dinheiro, a falta de moral qualquer e que fosse cristã, para se opor ao ateísmo comunista. Uma religião em que os chefes não tivessem muito conhecimento do que pregam ou qualquer força moral, para questionarem o que faziam. Uma nova religião em que os líderes pudessem ser tão afeitos ao "ao vil metal" que o suborno fosse visto como uma coisa normal, uma "oferta". Uma religião em que o apelo aos mais pobres viesse do irracional e do medo. Que fosse descentralizada e, por isto, mais baratas em seus preços para veicular determinadas mensagens em determinados momentos...

Não é estranho que "Deus" ordene que seus pastores ajam como débeis mentais somente em países com pouca escolaridade? Que os demônios apareçam, babem, gritem, pulem e revirem os olhos sempre em localidades com imensa maioria de pessoas sem o ensino médio completo? A França ou a Holanda são locais que os demônios não gostam?



Fernando Horta
No Esquerda Caviar
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Precisamos falar sobre a Globo

Foto: José Cícero da Silva/ Agência Pública
Além de discutir a concentração de audiência e de propriedade de mídia no país, entrevista traz bastidores de ex-editora do Jornal Nacional e ex-repórter do jornal O Globo

A primeira Conversa Pública de 2018 trouxe para centro do debate o Grupo Globo e os impactos econômicos, sociais e culturais que o conglomerado tem no Brasil. A entrevista realizada na Casa Pública, no Rio de Janeiro, foi conduzida pela jornalista e escritora americana Julia Michaels. Os entrevistados foram Beth Costa, secretária-geral da Fenaj e ex-editora do Jornal Nacional, Ruben Berta, do The Intercept e ex-repórter do O Globo, e Mônica Mourão, do Intervozes.

Julia Michaels – Gostaria que a Mônica, do Intervozes, que fez um estudo muito interessante sobre os donos da mídia no Brasil, falasse sobre a Globo.

Mônica Mourão – A pesquisa se chama “Quem Controla a Mídia no Brasil”. É um projeto da Repórteres Sem Fronteiras realizado em dez países, e o Brasil foi o 11º. A pesquisa analisou 50 veículos, e o critério de escolha foi a audiência. Dos 50 veículos, nove são ligados a grupos religiosos e nove, ao Grupo Globo. A gente tem aí duas forças muito grandes concentrando a mídia no país: a quantidade de audiência dos veículos das Organizações Globo está em primeiro lugar e é maior do que a soma do segundo, terceiro, quarto e quinto lugares juntos. Esse monitoramento no caso do Brasil traz o alerta vermelho de prejuízo para a democracia devido à concentração.

É uma concentração econômica, é uma concentração de audiência e, podemos dizer, uma concentração cultural se a gente pensar na forma como o Grupo Globo se coloca na sociedade. O grande desafio de falar sobre esse tema é não ficar – principalmente eu, que também sou nordestina – como aquele personagem do Tá No Ar que é um cara nordestino de esquerda que fica esculhambando a Globo. A gente precisa refinar os nossos argumentos. Não dá para simplesmente dizer: “Fora, Rede Globo. O povo não é bobo”. A gente tem que olhar com um pouco mais de cuidado para o que significa essa concentração midiática no Brasil. E o problema, digamos, da concentração midiática não é exclusividade da Globo. A gente fala dela porque tem uma robustez econômica, de audiência, de verbas publicitárias que se sobrepõe aos outros grupos. Mas ela, obviamente, pôde crescer e chegar a esse ponto por existir pouca regulação e menos ainda fiscalização do que é feito. Portanto, essa concentração é fruto, na verdade, de todo um sistema econômico e político.

Natalia Viana – Em 2014, a Globo tinha uma rede nacional de 118 TVs afiliadas e a receita foi US$ 7 bilhões. Segundo o The Economist, era o terceiro grupo midiático que crescia mais rápido no mundo.

Mônica Mourão – A Globo tem cinco emissoras que são Globo: Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte – está no limite de acordo com a legislação. Mas o domínio de audiência se dá por meio das 123 redes afiliadas. E a gente sabe que a relação da “cabeça de rede” com as afiliadas é uma relação extremamente desigual.

Eu sou professora e dou uma matéria que se chama “Mídia Regional”. Nela, os estudantes tentavam atualizar o monitoramento que o Intervozes fez há alguns anos, e a grade de programação das afiliadas é quase igual a da “cabeça de rede”. Mesmo o que tem de diferente segue um padrão. Ou seja, a gente tem o Bom Dia RJ, tem o Bom Dia Ceará, tem o Bom Dia SP. E se reproduz na estética e na linha editorial. Então, esse domínio está presente, principalmente, a partir do sistema de afiliadas, que faz com que a emissora consiga estar dentro da lei, porém ocupando espaço no Brasil inteiro.

Julia Michaels – Eu gostaria muito de ouvir a Beth e depois o Ruben, que lá trabalharam, sobre como é decidida a pauta na Globo? Se tem um viés e, se tiver, qual é.

Beth Costa – Os interesses regionais também são muito fortes na questão da propriedade dos meios que vem da falta de regras para esse setor desde a Constituinte. A Globo está dentro e fora da lei ao não respeitar a Constituição no quesito de propriedade dos meios. E ela muito menos obedece ao capítulo da Comunicação Social da Constituição que trata do papel social de um meio de comunicação, principalmente rádio e TV, que é uma concessão do Estado. É como a saúde pública, a escola, a educação. A radiodifusão no Brasil é uma concessão do Poder Executivo e, portanto, teria que estar submetida a regras e leis porque presta um serviço público. Aliás, agora tem uma medida provisória do Temer que diz que não precisa mais ser concessão, mas autorização. Ou seja, nem passar pelo Congresso Nacional precisa mais. Não tem audiência pública, não tem transparência. Se passar essa norma, desobedecendo à Constituição, pode ser que a Globo tenha que ser submetida apenas a nada.

Julia Michaels – Como era quando você trabalhou lá?

Beth Costa – Trabalhei 22 anos. A definição das pautas e o que entra no ar e o que não entra obedece à lógica “eu boto no ar o que acho interessante para mim como grupo econômico”. Os jornalistas da Globo podem negar, mas existe. Como sindicalista e dirigente sindical da Federação Nacional dos Jornalistas [Fenaj], que criou o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, acredito que o jornalismo e o jornalista têm que dialogar com a sociedade porque o produto do trabalho dele é um produto social.

A gente poderia perder horas falando sobre a teoria da manipulação e como se faz a manipulação. A gente sabe que a Rede Globo, imbricada na questão cultural, é muito inteligente, e não se pode subestimar o seu grupo dirigente, que é muito bem preparado. Quando assumi o Sindicato dos Jornalistas em 1987, fiz uma reunião sindical na Globo para entender o seguinte: qual seria o papel do sindicato numa empresa que, naquela época, pagava o maior salário, tinha as melhores condições de trabalho, os melhores equipamentos, Fundo de Garantia, ou seja, uma empresa corretíssima. Na época, eu era casada com um psiquiatra. Quando cheguei em casa depois da reunião, falei: “Meu bem, essa reunião na Globo era mais pra você do que pra mim”. Porque as pessoas não conseguiam aliar os problemas éticos internos que tinham com o que elas faziam com a questão sindical. Achavam que o sindicato só tinha que ir até salário, condições de trabalho, e não se entrar no mérito, na ética do que cada um produz. As pessoas diziam: “Eu chego em casa, eu tinha que tomar uma dose de uísque, agora eu tomo três, eu tenho que me embebedar antes de dormir, eu tenho que me drogar”. O grande problema é que a definição das pautas obedece a interesses particulares, e não sociais, não de prestação de serviço público. A Rede Globo não presta um serviço à sociedade. Quando eu estava no Jornal Nacional, se apresentou a pauta do Luz para Todos como algo que o ex-presidente Lula iria inaugurar um poste no meio do nada. “Mas, se está levando energia elétrica para as cidades onde não existe, isso não é notícia?” “Ah, não vou fazer propaganda para o governo. O governo, se quiser fazer propaganda, que pague.”

Na parte do jornalismo, é a direção que dá as normas. Desde a campanha do Collor, o caçador de marajás, desde o debate Lula-Collor, desde sempre…

Então, a família e os proprietários, que não são proprietários, mas concessionários, tratam as emissoras, principalmente na parte de radiodifusão, como se fosse propriedade privada. Se você tem uma escola particular, você está submetido às diretrizes do MEC. Você pode até ganhar dinheiro com uma escola privada, com um hospital privado, mas você está submetido a regras gerais que trazem benefícios para a sociedade.

Para Mônica Mourão é preciso refinar os argumentos. 
Não dá para simplesmente dizer: “Fora, Rede Globo. O povo não é bobo”.

Rubem Berta: Em 95% do tempo fiz coisas que considero boas e reportagens
de que me orgulho. Mas admito que existiu aqueles 5% vagabundos.

Beth Costa: A definição das pautas obedece à lógica “eu boto no ar o que 
acho interessante para mim como grupo econômico". 

Julia Michaels – Ruben, quero fazer uma pergunta específica sobre a cobertura que O Globo fez do ex-governador Sérgio Cabral, atualmente preso. Eu sentia um noticiário com apoio irrestrito à pacificação que não mostrava as contradições.

Ruben Berta – Vocês talvez tenham uma visão mais macro do que a minha. O que posso passar de mais relevante é a experiência de alguém que fez parte daquela engrenagem durante um período muito grande. Eu fui repórter e o que posso dizer, talvez não agrade, mas em 95% do tempo fiz coisas que considero boas e reportagens de que me orgulho. Mas admito que existiu aqueles 5% vagabundos. Houve dois períodos na minha passagem no Globo que foram especialmente críticos. O período do Sérgio Cabral e o das manifestações de 2013.

2013 foi um período muito difícil de estar como repórter do jornal O Globo. O jornal fez uma capa desastrosa, emblemática, chamando as pessoas de vândalos. E, para quem estava na rua, foi muito triste ver aquilo. A gente ficou muito na linha de frente. Uma coisa importante de as pessoas entenderem é que houve uma mistura muito grande, que ainda se perpetua, que é entre o profissional e a empresa. Não necessariamente eles se misturam. Então, naquele período se criou um clima de animosidade em que você já ia para a rua num alto nível de estresse. Não menos de três vezes voltei para a casa e chorei: “Meu Deus, eu não estou conseguindo cumprir minha função”, pensava. Quem estava lá dentro da redação não me ouvia, o que eu passava era simplesmente ignorado. E lá fora, na rua, eu era o jornalista da mídia golpista que tinha que apanhar. E, talvez, tenha sido o período em que eu tenha sentido mais, realmente, uma distância entre a cúpula da redação e quem estava na rua acompanhando.

Eu não sei se O Globo, especificamente, sendo mais crítico à gestão Sérgio Cabral, mudaria alguma coisa no quadro que a gente vê no Rio de Janeiro, mas o fato é que houve uma omissão, sim, e muito séria. O Cabral, não sei exatamente por que motivos, isso não chegava pra gente, era um tema que pouco podia ser falado. Para você ir à frente com uma denúncia contra o Cabral, você tinha que ter algo, enfim, o tal do “batom na cueca”, que era uma coisa difícil. E, às vezes, mesmo quando se tinha “batom na cueca”, era embarreirado. Havia um clima de que o Rio estava próspero e a gente não podia acabar com essa prosperidade do Rio. O que eu não posso deixar de ressaltar também é que assim, em grande parte do tempo, eu tive até uma certa liberdade, fiz reportagens relevantes. Mas a coisa vai um pouco de acordo também e, mais especificamente no Rio, com quem está no poder. O Globo era um jornal na gestão Garotinho e virou outro jornal na gestão Cabral. Isso é claro. Então, sentia-se isto: acabou a gestão Garotinho, então agora se parou de fazer jornalismo investigativo. Um pouco também na gestão Eduardo Paes. Ah, a gestão Eduardo Paes, menos jornalismo investigativo. Crivella? Opa, mais jornalismo investigativo.

Beth Costa – Todo o meu trabalho na Rede Globo foi como editora de noticiário internacional. Eu acho que só por isso é que eu durei tanto tempo. Na minha área, as grandes restrições, como vocês devem imaginar, sempre foram Venezuela e Cuba. Então, nessas áreas, às vezes nem era eu que fazia a matéria para evitar brigas e discussões. Era o meu colega que dividia a edição de noticiário internacional. E eu tinha muita liberdade com os correspondentes também. A pauta era decidida, a relação muito boa, mas era assim: Europa, Estados Unidos e, quando chegava na América Latina, é que tinha problemas com esses dois países. E tinha realmente orientações para como cobrir, como editar as matérias.

Mariana Simões – Rubem, eu queria que você comentasse como você passou de O Globo para o The Intercept e se as pessoas olham você como se fosse “uma alternativa”.

Ruben Berta – Tem gente que ainda vê a mídia independente como uma coisa menor. Muitos assessores de imprensa estão mais interessados se vai sair uma notinha no Ancelmo Gois ou no Lauro Jardim do que se sairá uma matéria mais profunda na mídia independente. Existe esse desafio de a gente se consolidar e de ir ganhando aos poucos esse respeito e credibilidade. Acho que a gente tem que fazer um pouco de autocrítica também. Como hoje a internet tem um zilhão de opções, há algumas coisas que são mais sérias, menos sérias e, às vezes, as coisas que não são tão sérias acabam ganhando uma audiência maior do que as coisas que são mais sérias. Você gritar que a Globo é golpista, isso dá mais audiência do que você fazer uma matéria mostrando que a Fecomercio, que era comandada por um cara superduvidoso, vinha financiando a Infoglobo há muito tempo, mas talvez isso não tenha um impacto tão grande quanto você gritar que a Globo é golpista.

Alexandre Caroli – A minha pergunta é em relação à ética profissional. Será que a gente vai ter que conviver agora com essa impossibilidade de ter uma diversidade ideológica, de pensamento, de visão de mundo, em qualquer redação? 

Beth Costa – O tema é interessante, mas é bastante complexo. Primeiro, vamos voltar ao fundamento do nosso debate. Para esse tipo de posicionamento acontecer, a gente tem que acabar com o monopólio da mídia. Ele é antidemocrático, é antiprofissional, é explorador. Então, o jornalista é contratado para produzir para um veículo e o que ele faz é usado em qualquer dos veículos do grupo. A Globo pode ser que não tenha mais o lucro de antes, mas não tenham dúvidas que ela não tem prejuízo. Ela está sempre no azul. Eu sempre briguei, como profissional e como sindicalista, que não se pode obrigar um jornalista, um trabalhador, quando entra, cruza a portaria da emissora, a deixar de lado tudo que aprendeu. Sua mãe falou: “Não pode mentir, não pode roubar”, e aí, de repente, você entra e é obrigado, não digo a mentir, porque a Globo é muito esperta nos modelos de manipulação, mas você bota o foco no terciário, e não no principal. Você escreve de uma maneira que não se questiona nada e dá um jeito na hora da edição. Por exemplo, eu estava na Globo na época da discussão das cotas.

Se vendia a pauta assim: “Vamos fazer uma cobertura bem equilibrada, três contra e um a favor”. E esse um a favor, que era brilhante, você nunca usava o melhor momento e o melhor argumento dele na entrevista. Além de ser só um, o editor não tinha o trabalho de ir lá: “Bom, qual é o momento em que ele consegue elaborar melhor o argumento a favor?”. Certamente não era esse trecho da entrevista que aparecia no noticiário.

A Globo tentou me demitir várias vezes, nunca conseguiu. Então, quando eu pedi demissão, pedi que me mandassem embora para eu não perder os 22 anos que estive lá. Eu fui comer um lanche. Atrás de mim, em uma mesa, tinha dois jovens e um que estava lá havia uns dois anos e o outro que estava chegando. Disse: “Olha, você está chegando, aqui é ótimo para trabalhar. Agora, eu tenho um conselho para te dar. O segredo aqui é o seguinte: você faça tudo que te pedirem sem contestar”. Era o segredo para ficar na Globo! Um jovem de 23 anos!

Ruben Berta – Na verdade, hoje o que se prega é o discurso da isenção. Acho que, mais do que nunca, na mídia corporativa, o que se vende é o discurso da isenção. Você tem que ser isento. E é um discurso que eu tenho questionado. Já me questionava estando lá e que me questiono aqui fora. Eu acho que sim, é um dever nosso de jornalista tentar procurar a isenção, tentar ouvir todos os lados. Mas isso não quer dizer que nós sejamos seres sem opinião. É meio surreal você tentar convencer as pessoas de que você é um robô que reproduz as notícias exatamente, enfim, de uma forma matemática, em que cada elemento ali ganha um determinado espaço. Acho que nem as pessoas querem isso.

Ciro Barros – Queria que vocês se colocassem quanto a uma crítica recorrente de quem diz que falar em democratização dos meios de comunicação seria uma forma de censura?

Mônica Mourão – A gente no Intervozes tem uma grande preocupação em separar regulação de censura. Regulação significa colocar regras, existir regras para um determinado setor que, no caso, além de ser importante economicamente, também é simbolicamente. E a existência de regras faz parte da democracia. Se a gente olhar países democráticos da Europa, ou os próprios Estados Unidos, ou aqui do nosso lado, a Argentina, que depois sofreu até um revés em relação a isso, existem leis para dizer “olha, tem que ter limite de propriedade etc.”. A Dilma, na sua segunda campanha, falava assim: “O melhor controle é o controle remoto”. E depois falou: “Vamos fazer uma regulação econômica da mídia, e não de conteúdo, porque conteúdo é censura”. Na verdade, já existe regulação de conteúdo prevista na Constituição. Quando a Constituição fala que rádio e TV têm que dar prioridade para conteúdo educativo, cultural, regional, tudo isso que não é cumprido, até porque falta uma lei que regulamente isso, ou seja, diga como isso deve ser cumprido, está se falando de conteúdo. Regulação de conteúdo não é censura porque significa “existem regras”, ou seja, eu não posso passar um casal transando às 14h da tarde, porque vai ter criança vendo televisão. A censura é: “Olha, antes de você veicular, eu tenho que ver se isso pode ser veiculado ou não”. Ou é dizer: “A priori, você não pode falar de tal assunto”. Regulação de conteúdo não é isso, é ter regras para o conteúdo, que são importantes para que a gente tenha mais diversidade e também respeito a crianças e adolescentes que estão em situação de desenvolvimento. E é importante que não estejam expostos a qualquer tipo de conteúdo em qualquer horário.





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