25 de ago de 2016

Senadores amorais





Gleisi resumiu tudo: o Senado não tem a menor autoridade moral para julgar Dilma

A senadora Gleisi Hoffmann sintetizou, na abertura do julgamento final do impeachment no Senado, a grande questão nacional.

Que autoridade moral têm os senadores para julgar Dilma?

Nenhuma.

E quem aparece para defender a autoridade dos senadores? Ele mesmo, o derrotado nas eleições, o corrupto blindado a partir de quem decorreu todo o projeto do golpe: Aécio.

Aécio, o rei das delações. O amigo dos donos da mídia. Aquele que deu dinheiro público para empresas de mídia de sua família quando governador de Minas. Aquele que construiu um aeroporto privado em terras da família.

Aquele que pilhou Furnas durante anos e anos.

Aquele que fugiu até de um teste de bafômetro por não estar em condições de enfrentar a verdade.

Não.

O Senado não tem moral para julgar Dilma.

Muito menos o Câmara tinha moral para aprovar o impeachment. Era Eduardo Cunha no comando. Era um sindicato de corruptos na função de juízes.

Eram os 260 deputados que Eduardo Cunha disse que mantinha à base de propinas.

Não. Ora, todos sabemos que este Congresso foi eleito com o dinheiro da plutocracia. Foi o pior Congresso que o dinheiro pode comprar.

O Senado não tem moral. Assim como a Câmara não tinha.

E ainda assim Dilma está à beira do patíbulo.

Aécio conseguiu dizer que os senadores estão ali como “juízes”.

Ora, ora, ora.

Juízes?

Carrascos é a palavra. Juiz julga. Carrasco executa. Isto não é julgamento; é um circo, é uma farsa, é uma monstruosidade disfarçada de tribunal.

É uma vergonha o que está ocorrendo.

O Senado não tem a menor condição moral de julgar Dilma.

O resto é silêncio, para evocar as grandes palavras de Shakespeare.

Paulo Nogueira
No DCM



Em novo recorde de baixaria, Caiado acusa Lindbergh no Senado de cheirar cocaína


A sessão de julgamento do processo de impeachment foi suspensa devido a troca de ofensas entre senadores. No meio do embate, o líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), falou para o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) fazer um antidoping e não ficar “cheirando”. A confusão começou quando a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) falava.

Ela afirmou que os senadores não tinham moral para fazer o julgamento da presidente devido às diversas acusações que existem contra vários deles.

— Qual é a moral que vocês tem? — afirmou Gleisi.

A frase irritou senadores pró-impeachment. Caiado levantou-se e citou indiretamente as acusações contra o ex-ministro Paulo Bernardo sobre fraude em empréstimos consignados.

— Eu não sou ladrão de aposentadoria — disse Caiado, com o dedo em riste.

Na discussão acalorada, Gleisi respondeu a Caiado.

— Você é de trabalhador escravo.

Lindbergh interveio chamando o senador do DEM de canalha e citando o senador cassado Demóstenes Torres, que foi aliado de Caiado.

— Demóstenes é que sabe da sua vida — afirmou o petista.

Caiado ficou ainda mais irritado e atacou Lindbergh.

— Tem que fazer antidoping. Fica aqui cheirando não – disse Caiado.

A sessão foi suspensa por alguns instantes pelo ministro Ricardo Lewandowski para acalmar os ânimos.
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Associação de juízes acusa Gilmar de obstruir Justiça


O presidente da Associação de Magistrados do Brasil, João Ricardo Costa, criticou duramente o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, depois que ele acusou a força-tarefa da Lava Jato de tentar vazar informações para constranger o ministro Dias Toffoli.

"É lamentável que um ministro do STF, em período de grave crise no país, milite contra as investigações da Operação Lava-Jato, com a intenção de decretar o seu fim, e utilize como pauta a remuneração da magistratura. O ministro defende financiamento empresarial de campanha e busca descredibilizar as propostas anticorrupção que tramitam no Congresso Nacional, ao invés de colaborar para o seu aprimoramento", diz trecho de nota da AMB assinada por seu presidente João Ricardo Costa.

Gilmar disse que vários juízes de instância inferior ganham até R$ 100 mil por mês, burlando o teto constitucional de R$ 33,7 mil. Ele afirmou ainda que "cada um faz seu pequeno assalto".

"Nós estamos contrários a essa postura dele de obstaculizar a Operação Lava-Jato, de criar factoides contra a magistratura brasileira, como ele fez, usando adjetivos grosseiros, não cabidos a um ministro do Supremo Tribunal Federal", disse Costa, ao jornalista André de Souza, do Globo. "Nos incomodou muito, nos causou perplexidade esse tipo de postura do ministro. Ele já tem o costume de se manifestar em matérias, inclusive, que são afeitas à sua jurisdição, o que não é aceitável como postura de um magistrado."

"Essa manifestação dele vem num contexto em que ele começa a atacar a Operação Lava-Jato, dizendo que ela tem que terminar, sustentando que medidas anticorrupção que tramitam no Congresso são medidas inadequadas, chegando a adjetivar de cretinos aqueles que fizeram a proposta. Quando o país precisa de medidas dessa ordem, o ministro Gilmar tem defendido financiamento de campanha (empresarial), que é uma fonte para a corrupção, e ele coloca os vencimentos da magistratura, até de forma genérica, completamente equivocada do que é a realidade, no sentido de nos atingir, porque nós estamos muito focados nessa questão da corrupção no país", pontuou ainda o presidente da AMB.

No 247
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Laerte Coutinho fala sobre sua charge do golpe


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Ensaio geral: o Melô da Melação na Lava Jato, veja com Gilmar e Janot


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Toots, Sérgio e Luan

Diziam (com algum exagero) que só duas coisas produzidas pela Bélgica valiam a pena: a cerveja e o Toots Thielemans. Toots tocava harmônica, a popular gaitinha de boca, como ninguém, e morreu esta semana, com 94 anos, em Bruxelas. Ele começou tocando guitarra no início dos anos 40 e, depois, passou para a harmônica. O violão e a guitarra são instrumentos, digamos, íntimos, que você toca com eles perto do coração. Toots quis uma intimidade ainda maior e preferiu a gaita, o único instrumento de sopro em que a espiração é tão sonora quanto a inspiração – salvo o assovio, o primeiro instrumento humano que Toots também dominava. Ele foi um dos melhores improvisadores do jazz, tocou com todos os grandes e gostava muito da música brasileira. Uma das melhores faixas do seu CD The Brazil Project é uma interpretação da sua composição Bluesette, que reúne uma espécie de linha de frente de instrumentistas e cantores brasileiros, como João Bosco, Caetano Veloso e outros. E uma raridade, Chico Buarque cantando em inglês. Mesmo que não tivesse feito mais nada — e fez de tudo —, Toots Thielemans mereceria todas as honras e homenagens póstumas que lhe serão feitas só por ter composto Bluesette. É o que será tocado no seu enterro, não duvido. Numa versão andante majestosa.

Por falar em coisas boas (e no Chico), está sendo lançada pela Companhia das Letras uma edição crítica de Raízes do Brasil com todo o texto histórico de Sergio Buarque de Holanda e mais ensaios, sobre a obra, de gente como Antonio Candido. Muitas das teses revolucionárias, para a época do seu lançamento (1936), de Raízes do Brasil foram questionadas e, pelo menos uma, a do brasileiro como um ser cordato, não resiste a um inventário das nossas violências nestes 80 anos, mas o livro permanece extraordinariamente atual. Extraordinário, também, é o esmero da Companhia das Letras, que nos presenteia com edição com capa dura, belíssima.

* * *

Uma injustiça flagrante na convocação para a seleção brasileira do Tite foi a ausência do Luan, um dos melhores da seleção olímpica. Tite nem pode dizer que não o viu jogar: estava presente em todos os jogos da olímpica. Só não viu o que todo o mundo viu, até colorados.

Luís Fernando Veríssimo



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Excessos de autoritarismo da Lava Jato são problema institucional

Uma hipótese, um tanto óbvia, veio já no ataque inicial do ministro Gilmar Mendes ao "vazamento", maldoso e injusto, de referência na Lava Jato ao ministro Dias Toffoli, do Supremo. "É necessário investigar os investigadores" da Lava Jato — repetiu Mendes essa frase sua do ano passado, agora completando a observação de que procuradores da Lava Jato estão em choque com Toffoli, por eles atacado até em artigo. Entre hipóteses possíveis, porém, viceja em círculo judicial aparentemente estreito uma menos fácil e mais excitante que a de Mendes.

A delação afinal aceita por Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, poderia ser a mais promissora, mas já as discussões iniciais mostraram-se tão problemáticas quanto as de Marcelo Odebrecht. Muito afável, prestativo e de acesso simples, Pinheiro teria com que inundar a Lava Jato de informações e esclarecimentos. E, esperavam os procuradores, obsessão acima de todas, o que buscam em vão sobre a propriedade do sítio e do apartamento atribuída a Lula. Léo Pinheiro foi decepcionante para a Lava Jato nas preliminares sobre a futura delação: não admitiu que o sítio e o apartamento sejam de Lula.

Era muito fácil a previsão de que implicar um ministro do Supremo, em mais um "vazamento", daria oportunidade a sustar o acordo de delação premiada com Léo Pinheiro. Além de não dizer o que desejavam, o possível delator e seu manancial de informações por certo desvendariam pessoas e grupos não incluíveis na mira acusatória da Lava Jato. Criar o caso e, suspenso o acordo de delação, deixar Léo Pinheiro calado: está feito.

A hipótese de Gilmar e a outra não se excluem, talvez se completem. Em ambas, aliás, confirma-se que Léo Pinheiro paga pelo que não disse e não fez. Com toda a certeza, não é o autor do "vazamento", inexistindo qualquer motivo para a punição que o procurador-geral Rodrigo Janot lhe aplicou, e só a ele, cassando-lhe o direito de buscar o mesmo benefício dado a tantos delatores.

Se o "vazamento" é algo tão grave, definido como crime por Gilmar Mendes e motivador do ato extremado de Janot, à pergunta "a quem interessa?" emenda-se outra: por que tanto consentimento, por tanto tempo, para atos agora qualificados de "excessivos", "inaceitáveis" e "abusos de autoridade"?

O Conselho Nacional do Ministério Público manteve-se impassível diante da torrente de "vazamentos" que os tornou costume característico da Lava Jato. O Conselho Nacional de Justiça teve a mesma indiferença, em relação ao chefe da Lava Jato, juiz Sérgio Moro. O procurador-geral chegou a emitir uma nota com advertências sobre os excessos, mas recuou na aplicação dos seus conceitos à prática. Esses comportamentos constituíram uma carta branca para a Lava Jato e sua prepotência.

Até um leigo, como sou, anteviu que os excessos de autoritarismo da Lava Jato, uma vez consentidos, cresceriam em número e em grau de gravidade. E viriam a ser um problema institucional. São.

Léo Pinheiro de nada acusou Dias Toffoli, nem insinuou. Mas, se a substância não fere o Supremo, o "vazamento" o atinge pela intenção inequívoca de sua forma maldosa, desonesta mesmo. Dizem que vão investigar a procedência do "vazamento" ou "vazamentos". Quem a conhece são jornalistas. A Polícia Federal já pretendeu exigir de jornalistas a indicação de suas fontes. À Lava Jato só falta algo nessa linha, para um aparente atestado de bom comportamento contra a acusação de "abuso de autoridade". Iniciada por indignado Gilmar Mendes, aquele que reteve por ano e meio uma decisão importante do Supremo, enquanto expunha em público o teor do voto engavetado. Um abuso de autoridade escancarado.

Janio de Freitas
No fAlha
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24 de ago de 2016

Informativo Paralelo #14 — Mídia Independente - 9 anos do Portal Desacato


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Amorim: 'Não se pode excluir um país porque você não gosta da política dele'

Em entrevista, o ex-ministro das Relações Internacionais Celso Amorim falou sobre o impasse em relação à sucessão na presidência do Mercosul e os efeitos do impeachment de Dilma

Ministro das Relações Exteriores do governo Luiz Inácio Lula da Silva e da Defesa na gestão Dilma Rousseff, Celso Amorim assumiu em junho o comando do Conselho de Administração da Unitaid – agência internacional dedicada a facilitar o acesso de populações pobres a medicamentos para o combate à aids, tuberculose e malária.

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Amorim, que esteve recentemente no Recife para participar de um evento em comemoração aos 70 anos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), falou sobre o impasse em relação à sucessão na presidência do Mercosul, os efeitos - no país e no exterior - do julgamento da presidenta Dilma Rousseff no processo de impeachment e seu possível afastamento definitivo da Presidência, bem como sobre a política externa em vigor, não se furtando, inclusive, de comparar o estilo de 'fazer política externa' dos dois governos a quem serviu como chanceler.

Sobre a presidência do Mercosul, Amorim, que já foi representante permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Organização Mundial do Comércio (OMC), teceu críticas em relação à postura do Brasil no caso e defendeu o diálogo como a melhor forma de se chegar a um consenso. “Você não pode ter uma atitude de exclusão de um país porque você não gosta da política dele”, disse, ao se referir à oposição do Brasil à transferência da liderança do bloco econômico sul-americano para a Venezuela.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida à Agência Brasil:

Como o senhor vê o atual momento do Brasil em meio a um processo de impeachment da presidenta Dilma e a mudanças na política externa?

Primeiro, vamos esperar até o final, a gente nunca pode abandonar todas as esperanças. Mas pensando na hipótese mais provável, que haja o impeachment, eu acho que isso causa um certo trauma tanto interno quanto externo. Interno porque é uma mudança muito grande de política, já se viu isso. Claro que há toda a argumentação em relação às acusações contra a presidenta Dilma que, a meu ver, não justificaria um impeachment. Mas, além disso, vejo um grande trauma porque não é um impeachment em relação a uma pessoa, mas a um projeto político. Vamos ter um momento longo, esses próximos dois anos pelo menos, com muita tensão social. E com decisões que podem afetar o futuro a longo prazo por um governo que a rigor não foi eleito, então isso é muito preocupante.

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, em seu discurso de posse, anunciou mudanças nos rumos da política externa brasileira. Como você analisa esse momento?

O caso mais emblemático atualmente é essa questão da presidência da Venezuela no Mercosul. Não vou defender o que está se passando na Venezuela, mas eu acho que nessas questões você tem que agir pela persuasão, pelo diálogo, junto com outros países, como o Brasil já fez. Quando o Brasil criou o grupo de amigos da Venezuela não eram amigos do Hugo Chávez (presidente da Venezuela de 1999 a 2013). E ele foi induzido a fazer o que não queria. Não só chamar um referendo revocatório, mas ter inclusive observadores internacionais. Isso foi feito através da conversa, da associação com outros países, Estados Unidos, Chile. E agora não, é uma atitude muito condenatória que tem um efeito muito grave para o Mercosul porque, na realidade, você está desrespeitando um artigo básico, que é o fato de que a presidência do Mercosul passa de um país para o outro por ordem alfabética. Em nenhum lugar diz que é por consenso. As decisões do Mercosul são por consenso, mas a passagem da presidência de um país para o outro não requer decisão. Você não pode fazer um referendo para mudar a ordem do alfabeto. A próxima era a Venezuela, então teria que assumir.

Você não pode ter uma atitude de exclusão de um país porque você não gosta da política dele. Esse é o aspecto mais forte. A Argentina e o Uruguai brigaram muito por causa das papeleiras (impasse com fábricas de papel ocorrido em 2006). Mas nunca a Argentina objetou ao Uruguai de assumir, ou vice-versa. Outro argumento usado é que a Venezuela não poderia presidir o Mercosul porque não cumpriu as suas obrigações. Se for assim, nenhum país pode assumir a presidência porque nenhum país cumpre totalmente suas obrigações. A Venezuela pode estar mais atrasada, mas vamos discutir, persuadir, fazer até um cronograma. O resultado do diálogo a gente não sabe qual é, mas você tem que ter a vontade de dialogar.

E na parte comercial?

Na parte comercial eu teria que distinguir o que fala o chanceler José Serra, outras pessoas do governo e o que fala parte da mídia, quando diz 'Ah, o Brasil não pode se isolar do mundo, tem que fazer outros acordos', como esse da parceria Transpacífica (acordo de livre comércio entre os 12 países banhados pelo Oceano Pacífico). Se o Brasil fosse participar desses acordos ele teria que fazer concessões muito grandes, inclusive em áreas que até o governo Fernando Henrique – quando José Serra era o ministro da Saúde – apoiou com muita força, como uma política de combate a aids. Não vou entrar em questões técnicas, mas esses acordos têm cláusulas que vão além do acordo de propriedade intelectual da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para colocar em termos simples, fica mais difícil produzir remédios genéricos para a população. Obriga a pagar patentes muito caras. Tem outras coisas: dificuldade para compras governamentais, que é um instrumento necessário de política industrial. Há vários outros aspectos.

E nenhum dos Brics assinou esses acordos, não é o Brasil que está isolado. Eu acho que o Brasil não tem razão para assinar, deve continuar lutando para ter um acordo na OMC, eu sei que é difícil, e vai fazendo outros acordos com países em desenvolvimento. Você pode até negociar com a União Europeia, eu não sou contra, desde que as ofertas sejam compatíveis, desde que não haja um cerceamento à nossa política de saúde, às nossas políticas industriais. Você lê muito os empresários dizerem que há uma desindustrialização do país. Bem, se formos entrar cegamente nesses acordos posso garantir que a desindustrialização vai se acelerar. Pode ser que alguns empresários se beneficiem porque eles acabam se tornando representantes de indústrias estrangeiras aqui, mas o conteúdo de produção local certamente vai diminuir muito.

O governo interino tem demonstrado uma tentativa de reaproximação com os Estados Unidos. Como isso pode mudar as relações do Brasil com esse país?

Primeiro, os Estados Unidos são uma incógnita porque eles vão ter uma eleição complexa. Mas deixe-me dizer: o Brasil nunca esteve afastado dos Estados Unidos. O Brasil não se submeteu a uma agenda que não era nossa, e que era a agenda da Área de Livre Comércio das Américas, proposta dos EUA recusada por governos latino-americanos (Alca). Todos aqueles problemas que eu mencionei em relação aos mega acordos internacionais já existiam na Alca. Não poderíamos ter compras governamentais, programas sociais seriam limitados pela extensão da questão de patentes. Não vou entrar em detalhes, mas é uma coisa muito parecida. Mas o Brasil e os Estados Unidos trabalharam juntos durante muito tempo na OMC. Nós atuamos juntos tentando fazer com que a União Europeia abrisse mais sua agricultura. O presidente Bush esteve aqui duas vezes, colocou na cabeça um capacete da Petrobras. Fizemos acordo de etanol para valer, para cooperação com terceiros países. Até em termos políticos tivemos uma relação muito boa.

E um comentário que eu queria ter feito antes: a questão do Mercosul, Unasul, não é só comercial, é uma questão política. O Brasil está inserido nessa região, e temos esse fato que é quase único no mundo, senão único, de um país que tem dez fronteiras e não temos nenhum conflito, nenhuma ameaça de conflito. Mas não é de graça, tem que renovar isso todo dia numa política de compreensão. E eu temo que uma política que deixe de lado – 'ah não, solidariedade é bobagem, não temos porque ajudar a Bolívia, isso é bolivarianismo, não sei o quê' – eu temo que nos coloque numa situação de atrito com esses países e tenha até um efeito econômico negativo. Não só com relação à integração sulamericana, mas nossa aproximação com a África, com o mundo árabe, etc.

Como o processo de impeachment pode afetar a imagem do Brasil no cenário internacional, a médio e longo prazo?

O Brasil é um país muito grande, uma economia muito importante. É muito difícil qualquer país dizer que não quer ter relações com o Brasil por causa da maneira como houve a mudança de governo. É claro que vai haver dificuldades, inibições. O próprio John Kerry, atual secretário de estado dos EUA, esteve aqui, mas houve 40 parlamentares do Partido Democrata que protestaram. Esse relativo desapreço pelas relações Sul-Sul pode afetar diretamente nossos interesses. Porque entre as grandes economias a que mais cresce é a indiana. A chinesa dizem que cresce pouco mas é 6% ao ano. Se considerar a África como um país – claro que é artificial isso, mas é um cálculo para ter uma ideia – ela seria o quarto parceiro comercial. Viria acima da Alemanha. Então não é um mercado que você possa dizer que não há interesse. Sem falar que tem muitas empresas brasileiras lá.

E sem falar também em outros aspectos que as pessoas podem achar que sejam superficiais, que tudo que não era comércio era blá-blá-blá. Isso é uma falta de percepção. O Brasil tem hoje uma grande penetração econômica em Moçambique, já tínhamos feito um centro cultural que sobreviveu à guerra civil. Fizemos uma fábrica de antirretroviriais. Tudo isso gera uma boa vontade no governo, no povo, que se você considerar tudo isso secundário, blá-blá-blá, você acabará perdendo essas chances. Pessoas falam muito para estudar o custo-benefício, mas você não tem como saber imediatamente. O exemplo de Moçambique: você faz uma fábrica de antirretrovirais num país paupérrimo. Como você vai fazer uma relação de custo-benefício? Você vai fazer isso porque é bom! Agora ao mesmo tempo aquilo predispõe a população favoravelmente para você.

Houve uma discordância do senhor com a presidenta Dilma Rousseff na condução da política externa? Quando ela deu posse ao então ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o senhor deu entrevista falando que era preciso recuperar a moral dos embaixadores, o prestígio da pasta. O atual ministro também fala em penúria financeira...

Eu tenho grande respeito pela presidenta Dilma. Acho que nunca tive discordância com ela em relação a posições. Pode ter havido um ou dois casos menores, que acontece. Mas eu costumava dizer o seguinte: a política externa do presidente Lula ia ser ativa e altiva. Em matéria de altivez, a política da presidenta Dilma seguiu o mesmo padrão. Inclusive quando houve o caso de espionagem dela própria, na nossa área de energia. Ela cancelou a visita aos Estados Unidos. Propôs uma resolução importante na ONU, junto com os alemães, que até hoje tem repercussão. Outra coisa importante que ela não criou sozinha, mas consolidou, foi a criação do banco dos Brics. Agora, por razões que eu nem tenho condições de julgar, ela deu um pouco menos de ênfase aos temas exteriores do que o governo Lula. Uma questão de temperamento, de vocação, talvez ela já estivesse preocupada com a crise econômica que se anunciava. E isso acabou se refletindo em problemas estruturais no Ministério de Relações Exteriores, o que eu pessoalmente lamento. Mas ela não mudou a orientação, não fechou nenhuma embaixada nem falou em fechar.

Existe uma necessidade de recomposição do orçamento?

Isso eu reconheço que existe. As nossas embaixadas na África mesmo, nenhuma delas foi fechada, mas poderiam ter tido lotação maior. Nós, no governo do presidente Lula, tínhamos feito um projeto para aumento dos quadros diplomáticos de 400 pessoas, depois para aumentar mais 400. O Congresso aprovou, mas nunca foi implementado. Na África você poderia ter continuado com essa política, porque, em alguns lugares, ter uma pessoa só é muito pouco. Não é que não faça nada, faz. Mas faria melhor se tivesse um ou dois auxiliares.

O senhor assumiu no fim de junho a presidência do Conselho de Administração da Unitaid, agência especializada na gestão de medicamentos para combate à Aids, à tuberculose e a malária em países pobres. Já conseguiu perceber quais são os maiores desafios?

A Unitaid tem feito coisas muito boas. Ela ajudou a financiar um projeto para formulação pediátrica para aids. É muito interessante porque não é que ela vai agir na pesquisa de ponta para descobrir uma nova molécula, porque isso está fora da capacidade orçamentária, mas ela pode agir no sentido de ter um desenvolvimento de um setor que não está atraindo os laboratórios privados. A organização está estudando agora uma participação financeira para uma vacina para a malária, que seria a primeira. Talvez o grande desafio seja manter as contribuições e se possível aumentar. Com as condições atuais do mundo, há uma competição por recursos. Pretendo fazer visitas aos principais contribuintes. Países que já contribuíram mais e estão contribuindo pouco. Embora os recursos tenham sido suficientes, você tem que ter uma previsibilidade a longo prazo.

Ampliar o número de países doadores é um desafio? E tem também a zika, os recursos estão muito direcionados para o vírus.

Certamente seria interessante atrair a China, a Rússia, a Alemanha, os países desenvolvidos do Ocidente. Mas também não se pode querer fazer tudo de uma vez, porque a Unitaid funciona de maneira muito harmoniosa. E com relação à zika acho que é uma oportunidade sim. Tem muita gente interessada na zika. E há também na Unitaid preocupações que se ligam a algumas das consequências da zika, que é a saúde materna e dos recém-nascidos.

Para terminar, como esse momento do país pode influenciar na Unitaid?

Eu pretendo manter com o governo uma relação profissional. Estou dirigindo um organismo internacional que o Brasil ajudou a fundar e que se alinha com políticas de saúde, como o combate à aids. Então não creio que vá haver problemas. Também vai depender: se esses cortes orçamentários que estão anunciados passarem, todos os setores vão ficar preocupados, saúde, inclusive. Seria ruim o Brasil perder essa participação, porque é uma voz forte. Provavelmente, a voz mais forte de um país em desenvolvimento. Mas não creio que vá perder.

Sumaia Vilela
No RBA
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José Serra: Besta é ele

O ministro (sic) José Serra: tentando se converter numa espécie de Theodore Roosevelt tupiniquim
Chefiado com mão de ferro por José Serra, o exuberante Barão da Mooca, nosso MRE dedica-se com afinco a destruir a política externa altiva e ativa que foi decisiva para superação da nossa vulnerabilidade externa

A especialidade do ministério Temer é a destruição. Como um bando de hunos, dedica-se a pilhar o Estado e a implodir tudo o que foi feito com anos de trabalhos duro.

Ciência sem Fronteiras, FIES, Prouni, Minha Casa Minha Vida, SUS, Cultura, etc., tudo está sendo “revisto”, reduzido ou simplesmente destruído, de modo a que sobre dinheiro para pagar juros e a conta fisiológica do golpe. No ínterim, dedicam-se também a perseguir os que defendem a democracia ou os que tinham algum laço com o governo anterior. Afinal, os hunos, além de violentos, eram mesquinhos.

Nesse festival macabro de destruição de políticas e programas, há um ministério que tem destaque: o Itamaraty. Chefiado com mão de ferro pelo exuberante Barão da Mooca, o nosso MRE dedica-se com afinco a destruir a política externa altiva e ativa que foi decisiva para superação da nossa vulnerabilidade externa e a elevação do nosso protagonismo internacional.

Quiçá tentando se converter numa espécie de Theodore Roosevelt tupiniquim, em apenas 100 dias nosso chanceler já distribuiu golpes de seu “grande porrete” para tudo quanto é lado.

Agrediu a Nicarágua e El Salvador por questionarem o golpe. Promoveu assaltos verbais contra a Unasul pelo mesmo motivo. Ameaçou o Caribe e a África com fechamentos de embaixadas, ofendendo países amigos que também abriram embaixadas no Brasil. Distribuiu pródigos coices contra o Mercosul e a integração regional, sem esconder seu desprezo por nossos vizinhos e sua intenção de recolocar o Brasil na órbita estratégica dos EUA.

Esse grande diplomata, um talento nato, conseguiu a fantástica proeza de brigar com o pequenino Uruguai, pois foi até Montevidéu tentar comprar o voto dos uruguaios para excluir a Venezuela do Mercosul.

Seus porretaços e coices são complementados com adequados zurros. Assim, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) criticaram a transformação da Controladoria-Geral da União (CGU) em ministério e a troca de comando da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Barão da Mooca afirmou que: "Isso não tem pé nem cabeça, nem importância. A maioria não sabe sobre o que está falando”. A ONU e a OEA não sabem o que estão falando. Mas ele sabe.

Sabe tanto que, na sua visita ao México, ofendeu em público a chanceler mexicana com uma piadinha misógina. Sabe tudo de diplomacia o nosso Roosevelt.

Agora, entretanto, o Roosevelt tupiniquim se superou. Após receber documento oficial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA pedindo informações sobre o processo do impeachment sem crime, ele afirmou, com grande tato, que o documento é “besta e malfeito” e que "o Brasil não tem que responder nada”.

O zurro surpreendeu pelos decibéis e pela ignorância em assuntos comezinhos de política externa.

A Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos da OEA, mais conhecida como Pacto de San José, foi promulgada na nossa ordem jurídica interna em 6 de novembro de 1992. Portanto, desde aquela data, ela tem força de lei no país. Além disso, em 1998, mediante a Mensagem nº 1070, enviada ao Congresso em regime urgência, o Brasil passou a reconhecer, como obrigatórias e vinculantes, as sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que é o órgão judicial que protege os direitos previstos na citada convenção. Saliente-se que os Estados que fazem parte da Convenção não são obrigados a reconhecer tais sentenças. Tal reconhecimento é facultativo. Assim, foi o governo tucano ao qual Serra serviu que tomou a decisão de reconhecer, como obrigatórias, tais sentenças.

Se a Corte decidir que houve violação aos direitos protegidos pela Convenção, ela determinará, através de sentença, “que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados”. Ademais, a Corte poderá exigir dos Estados Partes a reparação das consequências ou o pagamento de indenizações às vítimas.

Portanto, a Corte da OEA pode, sim, pedir explicações ao Brasil. E o Brasil, graças a uma decisão tomada no antigo governo do nosso chanceler, está obrigado a responder. Mais: o Brasil está obrigado a cumprir as sentenças da Corte.

Observe-se que, pelo artigo 48 da Convenção, a solicitação de informações tem de ser enviada ao Governo do Estado, que será o responsável pela resposta.

É inacreditável que a diplomacia brasileira tenha caído tão baixo em tão pouco tempo. Mesmo para o folclórico ministério do governo golpista, trata-se de um recorde de inabilidade e incompetência. Como agravante, Serra agora terá de lidar com a greve dos servidores do MRE, agredidos em seus direitos trabalhistas.

Chamar o documento da Corte da OEA de “besta e malfeito” é o cúmulo da diplomacia asinina do coice.

Malfeita, muito malfeita, foi a sua nomeação para o Itamaraty. Trata-se de um caso clássico de “o homem errado no lugar errado”.

E o documento da Corte da OEA não é “besta”. Besta é ele.

Marcelo Zero
No Opera Mundi
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O jornalismo de guerra matou Geneton muito antes do aneurisma fatal

Não foi feito para estes tempos no jornalismo
Dos jornalistas que conheci em meus anos de Globo, entre 2006 e 2008, Geneton Moraes Neto foi quem mais me impressionou, pessoal e profissionalmente.

Geneton trabalhava no Fantástico, e detestava o que fazia.

Era de uma geração em que jornalistas de talento estavam nos jornais e nas revistas. Televisão era, para ele, uma mídia de segunda linha.

Ele dedicou um livro que escreveu a seus herois: Paulo Francis e Henfil, Ivan Lessa, Millôr Fernandes, Sérgio Augusto, Ziraldo, Jaguar, Fausto Wolff — o time que no Pasquim despertou sua “paixão pelo jornalismo”.

Ninguém da televisão entrou na lista de Geneton.

Houve um sentimento de simpatia instantânea de mim por ele, e ouso dizer que a recíproca foi verdadeira.

A mídia revista ainda não estava tecnicamente morta nos dias em que nos conhecemos. Concebemos, na editora Globo, uma “Revista do Fantástico”, da qual Geneton foi um dos maiores entusiastas.

Era sua chance de escrever mais, muito mais que as esquálidas linhas de textos de tevê.

A crise das revistas abortou o projeto depois de alguns números, mas nossas conversas não cessaram. Tentei levar Geneton para a Época, mas no meio das negociações me desentendi com auxiliares dos Marinhos e deixei a Globo.

Mantivemos contato, agora mais esgarçado. Seguiamo-nos no Twitter, e uma vez ele me avisou que eu grafara errado o nome de Ali Kamel num texto. Escrevi Kamell, com dois eles.

Pensei bastante em Geneton nos últimos tempos, desde que soube que ele sofrera um aneurisma que acabaria por matá-lo nesta semana, aos 60 anos.

O jornalismo de guerra da Globo, e não só dela, matou Geneton.

Desde que a mídia plutocrática começou sua campanha contra Lula, Dilma e o PT jornalistas como ele foram sendo encostados nas redações.

Não tinha serventia quem não fizesse o que os patrões desejavam. Geneton não foi o único esquecido. Foi um entre tantos. Mas foi um dos mais talentosos entre os excluídos.

Não era um jornalista para caçar vazamentos de procuradores com brutal interesse político. Não era um jornalista para manter aceso um caso abjeto a qualquer preço, como o Triplex de Lula.

Portanto, não servia mais para nada.

O jornalismo de guerra era e é para Merval, Kamel, Míriam Leitão, Sardenberg, Escosteguy.

É para alguém como Erick Bretas, que aceita colocar o avatar de Sergio Moro no seu Facebook e conclamar os seus seguidores a marchar pelo golpe.

Fora da Globo, é para Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, Augusto Nunes e Marco Antônio Villa, entre tantos outros que ascenderam a postos de destaque na condição de fâmulos dos patrões.

Era um romântico do jornalismo, como mostra sua dedicatória aos caras do Pasquim. Sonhava melhorar o mundo, e não simplesmente defender do jeito que fosse os interesses e as causas dos barões da imprensa.

Numa homenagem tocante nas redes sociais,  Caetano Veloso tocou na essência de Geneton. “Geneton era um repórter adolescente quando o conheci. Gostei dele imediata e imensamente. Depois, fiquei tão impressionado com a honradez que ele demonstrou ao publicar nosso diálogo (eu tinha dito alguma coisa que soaria picante se fosse usada por um jornalista ordinário, e ele, tendo entendido o sentido respeitoso com que foi dito o que eu disse, nem publicou a frase arriscada), fiquei mesmo tão grato à sua grandeza que, para deixar para trás um período de dois anos em que me recusava a conceder entrevista a qualquer veículo da imprensa (muita agressão gratuita e muita inverdade oportunista se lia nas páginas dedicadas à música), escolhi falar com ele, e só com ele, para reiniciar um diálogo normal com a confusão dos cadernos B. A impressão que o garoto pernambucano me causara e a percepção de sua inteligência honesta só fizeram crescer ao longo dos anos. Se o jornalismo brasileiro tem algo de que se orgulhar, Geneton o representa melhor que ninguém – se não for exemplo único. Eu o adorava. Fiquei tristíssimo hoje ao saber que ele tinha morrido. Eu nem sabia que ele estava doente. Como disse Fernando Salem, essa é “a notícia que mata a notícia. Quando morre um verdadeiro jornalista a verdade fica triste.”

Pouco depois da Globo, a montagem do DCM me absorveu por completo, e nos distanciamos.

De vez em quando, imaginava como seria bom sentarmos numa mesa de bar e conversar sobre os descaminhos do jornalismo.

Mas era uma coisa complicada. Para pagar as contas, e por falta de alternativa profissional, ele permaneceu na Globo, na qual por razões óbvias sou persona non grata.

Ficou em mim a memória doce de um jornalista que reunia caráter e talento, um homem que não foi feito para estes tempos, uma vítima colateral do jornalismo de guerra que vigora no Brasil.

Paulo Nogueira
No DCM
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