26 de mai de 2016

Censura prévia: Justiça retira matérias do blog e proíbe falar do DPF Moscardi

 Blog Censurado 

Em decisões proferidas respectivamente em 30 de março (que só tomamos conhecimento dia 10 de maio) e 5 de maio (da qual recorremos sem notificação oficial) o 8º e o 12º Juizados Especiais Cíveis de Curitiba, a pedido dos delegados federais Erika Mialik Marena e Mauricio Moscardi Grillo, ambos da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal no Paraná (SR/DPF/PR) determinaram a suspensão de 10 reportagens publicadas neste blog. A juíza do 8º Juizado Especial, Vanessa Bassani, foi além e proibiu

Ação Moscardi - Liminar 12 Juizo Especial detalhe
Através de um Mandado de Segurança impetrado junto à Turma Recursal dos Juizados Especiais do Estado do Paraná, os advogados Rogério Bueno da Silva, Tarso Cabral Violin e Thaisa Wosniack, do escritório Rogério Bueno, Advogados Associados, pedem a cassação da liminar do 12º Juizado Especial que obriga a retirar nove matérias do blog. Eles deixam claro que a determinação judicial “incorre em cerceamento nítido da liberdade de expressão” garantida pela Constituição Federal. A mesma medida será impetrada contra a decisão do 8º Juizado. Os advogados destacam ainda que,
de maneira clara e acintosa, o blog do Impetrante está sendo alvo de censura, inclusive na modalidade de censura prévia, quando proíbe a publicação de novas matérias envolvendo o Requerente (delegado Maurício Moscardi Grillo), vulnerando de maneira acintosa os princípios da liberdade de imprensa”. 
O viés político da Lava Jato – Para Bueno da Silva, o objetivo dos delegados é “sufocar” os jornalistas que fazem críticas às práticas adotadas na Operação Lava Jato. Nesse sentido, o delegado Igor Romário de Paula também ingressou com uma ação contra o jornalista Luís Nassif, editor do JornalGGN. As três ações foram impetradas pela advogada Márcia Eveline Mialik Marena, irmã da delegada Érika. Escolheram o Juizado Especial Cível, para terem a opção do fórum. Com as ações correndo em Curitiba, os jornalistas, além das despesas com a defesa, terão gastos com os deslocamentos. Todos pedem indenização mais alta permitidas: R$ 35.200, em cada ação, a título de Direito de Imagem.

Eles, porém, desconhecem a solidariedade. Diversos blogueiros já fizeram uma vaquinha para ajudar a pagar a nossa defesa que, por sinal, teve um preço altamente simbólico por parte do escritório de advocacia. Com esta ajuda, pagamos as custas dos Mandados de Segurança.

No processo contra Nassif, a advogada também requereu a suspensão da reportagem Com excesso de poder, a Lava Jato pode ter virado o fio, publicada em 2 de fevereiro, no JornalGGN. Mas, a juíza Sibele Lustosa, do 6º Juizado Especial, não a atendeu. Leia, a propósito: Ao tentar censurar Nassif, delegado confessa viés político da Lava Jato.

Os delegados Érika, Igor (centro) e Moscardi movem ação de indenização por Direito de Imagem contra este blog e o JornalGGN, de Luís Nassif.
Os delegados Érika, Igor (centro) e Moscardi movem ação de indenização por
Direito de Imagem contra este blog e o JornalGGN, de Luís Nassif.
Revel sem intimação - Na ação proposta pela delegada Érika, a defesa do blog preocupou-se, inicialmente, em recorrer ao juiz Nei Roberto de Barros Guimarães, do 8º Juizado Especial, para derrubar a decretação da revelia do responsável pelo Blog, pelo não comparecimento à audiência de conciliação. A ausência foi provocada pelas próprias autoras da ação – advogada e delegada – que ofereceram ao juízo um endereço onde o jornalista que responde por esta página não reside desde agosto de 2014. Somente no dia 17 de maio é que ele tomou ciência da audiência que deveria ter ocorrido seis dias antes.  Por isso, os advogados pediram a anulação de tudo o que foi feito a partir da expedição do mandado de intimação.

Declaração de Chapultepec – Já com relação à liminar do 12º Juizado Especial que determinou a retirada de matérias do blog, os advogados lembram na petição apresentada à Turma Recursal que isto fere a Constituição e colide com decisões do Supremo Tribunal Federal.

O direito de liberdade de expressão é um direito fundamental, que se mostra como corolário da dignidade da pessoa humana, representando, de outra parte, fundamento necessário à sobrevivência do Estado, por isso, a restrição ao direito de se expressar livremente representa um exercício de violência, por parte de quem promove a censura, seja o Estado ou o próximo, na medida em que viola a abrangência totalizante da dignidade da pessoa humana”, diz a inicial do Mandado de Segurança.

Oa advogados recorrem ainda à Declaração de Chapultepec, cidade do México na qual a Conferência Hemisférica sobre liberdade de Expressão, em março de 1994, elaborou uma carta de princípios endossada por chefes de estado, juristas e entidades ou cidadãos comuns. O Brasil referendou esta carta no Governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1996. Em 2006, Luís Inácio Lula da Silva reafirmou a adesão do país. A declaração deixa claro que:
Uma imprensa livre é condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade. Não deve existir nenhuma lei ou ato de poder que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa, seja qual for o meio de comunicação. Porque temos consciência dessa realidade e a sentimos com profunda convicção, firmemente comprometidos com a liberdade“.
E prossegue:
A censura prévia, as restrições à circulação dos meios ou à divulgação de suas mensagens, a imposição arbitrária de informação, a criação de obstáculos ao livre fluxo informativo e as limitações ao livre exercício e movimentação dos jornalistas se opõem diretamente à liberdade de imprensa“.
Colisão com o Supremo – A mesma declaração serviu ao ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2001, ao reformar, em decisão monocrática, o entendimento do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que havia condenado o jornalista Paulo Henrique Amorim, em uma ação movida pelo banqueiro Daniel Dantas. Ao rever o decidido, o ministro reafirmou a posição do Supremo contrária a qualquer hipótese de censura ou cerceamento da liberdade de imprensa,mesmo se tratando de críticas jornalisticas.
Celso de Mello - Foto Ascom-STF
Ministro Celso de Mello: “o direito de criticar, sobrepõe-se
a eventuais suscetibilidades que possam revelar as figuras públicas”
“Ninguém ignora que, no contexto de uma sociedade fundada em bases democráticas, mostra-se intolerável a repressão estatal ao pensamento, ainda mais quando a crítica – por mais dura que seja – revele-se inspirada pelo interesse coletivo e decorra da prática legítima de uma liberdade pública de extração eminentemente constitucional (CF, art. 5º, IV, c/c o art. 220).
Não se pode desconhecer que a liberdade de imprensa, enquanto projeção da liberdade de manifestação de pensamento e de comunicação, reveste-se de conteúdo abrangente, por compreender, entre outras prerrogativas relevantes que lhe são inerentes, (a) o direito de informar, (b) o direito de buscar a informação, (c) o direito de opinar e (d) o direito de criticar.

A crítica jornalística, desse modo, traduz direito impregnado de qualificação constitucional, plenamente oponível aos que exercem qualquer atividade de interesse da coletividade em geral, pois o interesse social, que legitima o direito de criticar, sobrepõe-se a eventuais suscetibilidades que possam revelar as figuras públicas, independentemente de ostentarem qualquer grau de autoridade”.
Impedimento ao trabalho – A defesa do blog, lembrou ao Tribunal Recursal que “caso permaneça hígida a decisão judicial, tal como lançada no feito de primeiro grau, o Impetrante estará tolhido de exercer sua atividade profissional, como Jornalista Investigativo, na medida em que se encontra, por força de ordem judicial, impedido de mencionar o nome do Autor, e por via transversa a corporação estatal que o mesmo integra, criando óbice completo a qualquer reportagem que o Impetrante resolva fazer acerca da operação Lava-jato”. Em seguida, finaliza:
Em se perdurando a decisão ora atacada, se terá afronta ao Estado Democrático de Direito, notadamente ao direito a informação e a liberdade de expressão“.
Com as decisões judiciais, as seguintes reportagens tiveram a veiculação suspensa:

Lava Jato, cai o delegado das mordomias do Paraná  (08/04);

Carta aberta ao ministro Eugênio Aragão (22/03);

Novo ministro Eugênio Aragão brigou contra e foi vítima dos vazamentos (16/03);

Policia Federal sem verba para a Luz, mas com mordomias (11/02);

Lava Jato: Moro reacendeu as suspeitas do grampo ilegal na PF (23/01)

Investigações da Lava Jato: dois pesos e duas medidas (30/12)

Lava Jato: surge nova denúncia de irregularidade (06/12)

Lava Jato: DPF delega investigação do vazamento (02/12)

Grampo da Lava Jato: aproxima-se a hora da verdade (21/11)

Lava Jato: surgem mais grampos na PF-PR. “Grampolândia”? (04/11)

Liminar do juiz Nei Roberto de Barros Guimarães, do 8º Juizado

Ação Erika - Liminar 8 Juizo Especial 1


Ação Erika - Liminar 8 Juizo Especial 2

Liminar da juíza Vanessa Bassani do 12º Juizado

Ação Moscardi - Liminar 12 Juizo Especial 1
Ação Moscardi - Liminar 12 Juizo Especial 2

Marcelo Auler
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Pepe Escobar vê na NSA a raiz do impeachment de Dilma


Em entrevista ao canal de mídia alternativo francês “Le Cercle des Volontaires”, o jornalista investigativo Pepe Escobar diz que a queda da presidente Dilma Rousseff decorre do desejo norte-americano de tomar as riquezas do pré-sal e que tudo começou com os grampos da NSA contra a presidente Dilma Rousseff.



(com legendas em português)
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José Serra: o chanceler do oportunismo


Dos integrantes do gabinete interino do interino presidente Michel Temer, José Serra é o de mais longa trajetória política e o que mais cargos importantes já ocupou. Foi deputado nacional, ministro do Planejamento e da Saúde, governador de São Paulo — o Estado mais rico do Brasil — e prefeito da cidade de São Paulo. Disputou a presidência em duas ocasiões e foi amplamente derrotado. Primeiro, por Lula da Silva, em 2003. Depois, em Dilma Rousseff, em 2010. Em 2014, foi eleito senador, cargo que ocupava quando nomeado chanceler por Temer.

Sua origem política foi o movimento estudantil. Serra foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) durante o governo de Jango Goulart (1961-1964), e um dos fundadores da AP (Ação Popular), ativa e poderosa organização de esquerda da época. Em 1964, quando o golpe instaurou no Brasil uma ditadura que duraria 21 anos, Serra foi preso. Se exilou, primeiro na Bolívia, depois na França, e logo no Chile. Com o golpe de Pinochet, ele se refugiou na Embaixada de Itália — é filho de italianos —, e em seguida se exilou nos Estados Unidos.

Sua trajetória, um tanto comum em nossas esquerdas, é a de uma guinada radical à direita mais dura. E essa mudança, em seu caso particular, foi reforçada por dois aspectos de sua personalidade: uma ambição e um oportunismo cujas gigantescas dimensões são inversamente proporcionais aos seus escrúpulos.

Serra atua nas sombras e é conhecido por ser bastante vingativo. Adepto feroz da teoria de dividir para dominar, o chanceler interino e um especialista em dividir companheiros para ampliar seu espaço de manobra.

Durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, seu amigo desde os tempos do exílio chileno, Serra quis ser ministro da Fazenda. No primeiro, teve que se contentar com a pasta do Planejamento. No segundo, insistiu em que seu objetivo era a Fazenda, e novamente ficou sem ela, foi destinado à Saúde. Chegou a conquistas de grande importância, como a quebra de patentes internacionais e a entrada dos genéricos no país e desenhou uma política de combate à AIDS que foi considerada referência. Seus amigos e familiares, por outro lado, obtiveram duvidosos contratos milionários junto à indústria farmacêutica.

A flexibilidade de princípios de Serra se mostrou em todo o seu esplendor durante a disputa presidencial com Dilma Rousseff, em 2010. Enquanto alimentava nas sombras uma campanha junto aos setores conservadores da Igreja contra sua oponente, acusada de ateia e comunista, ele fazia campanha junto às paróquias, e chegou comungar seis vezes num só dia.

Declarando-se feroz opositor do aborto, insinuou que Dilma era favorável a essa política. Por acaso, se esqueceu que sua esposa, a chilena Mónica Allende, havia praticado um aborto de um filho seu — fato que foi conhecido durante a campanha.

Quando o golpe institucional destinado a destituir Dilma Rousseff começou a ganhar força, seu partido — o PSDB, derrotado quatro vezes consecutivas pelo PT nas presidenciais — titubeou em subir no carro da conspiração parlamentar-judicial-midiática. Atuando nos bastidores e com oportunismo, como é do seu mais conhecido feitio, Serra se aliou aos golpistas. Seus rivais no partido, o senador Aécio Neves (derrotado por Dilma nas presidenciais de 2014) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (derrotado por Lula em 2006), se mantiveram à margem, buscando tatear melhor o cenário.

Assim, Serra se transformou no vínculo entre o PSDB, Michel Temer e os demais conspiradores. Quando Alckmin e Aécio se uniram ao golpe, era tarde: o espaço principal já estava ocupado.

Uma vez mais, Serra, economista de formação, tentou se apoderar do Ministério da Fazenda. E novamente não conseguiu. Tentou o do Planejamento, e nada. Ficou com um nada desprezível prêmio de consolo, o Ministério de Relações Exteriores. Estreou na pasta com uma guinada radical na política implantada por Lula, e mantida por Dilma. Do sue passado de esquerda, surgiu um fidelíssimo paladino do neoliberalismo mais extremo.

Tão logo soube do afastamento de Romero Jucá, devido a uma confissão que surgiu no noticiário brasileiro como uma verdadeira autópsia do golpe que ele nega existir, o chanceler voou rapidamente de volta a Brasília. Antes, claro, filtrou aos meios de comunicação o rumor de que era a principal opção de Temer para ocupar o posto de Jucá, ou seja, o desejado Ministério do Planejamento.

Até a noite de ontem, nada. Mas Serra, conhecido por ser um noctívago, sabe esperar. Enquanto se desvela, ele conspira. E, se não consegue outra vez o cargo no Planejamento, saberá impor suas novas ideias na política externa brasileira.

Esta é uma péssima hora para a América Latina.

Eric Nepomuceno
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Se há alguma justiça poética numa trama imunda, é que Aécio morreu

Comido, digerido e vomitado
Se há uma justiça poética nesta trama sórdida do golpe é a seguinte: quem mais saiu desmoralizado dele é Aécio.

Ele foi comido, para usar uma expressão dos áudios gravados que viralizou.

Não vou escrever, vou gritar: bem feito, Playboy!

Aécio é agora nacionalmente conhecido como covarde. Renan falou de seu medo diante da delação de Delcídio, de sua paúra em saber se havia mais coisas que o incriminassem — como se as que houvesse não fossem bastantes.

Depois Renan tentou remediar e transformou a medo em “indignação”, e aqui peço uma pausa para gargalhadas.

O mesmo Renan que carimbou na testa botocada de Aécio a palavra covarde definiu Dilma como dona de uma “incrível bravura pessoal”.

Aécio merece o final patético de sua carreira. Com a proteção da mídia, notadamente da Globo, ele era um corrupto que conseguia passar por moralista, a exemplo de seu tutor FHC.

O grau de proteção de Aécio na mídia pode ser avaliado nisto: o editor de política do Globo em Brasília, Paulo César Pereira, é seu primo. Um jornalista de Brasília familiarizado com Paulo César disse ao DCM: “Ele passa imediatamente ao Aécio tudo que os repórteres lhe contam.”

E, evidentemente, suprime coisas negativas para o primo.

Não é tudo. Paulo César é casado com uma das principais repórteres da GloboNews, Andrea Saadi. Aécio é padrinho de casamento dos dois.

Isto é o jornalismo à Globo, aos Marinhos — isentão.

O conforto majestoso em que Aécio vivia diante de uma imprensa que massacrava seus adversários acabou por culpa dele mesmo.

Aécio foi a peça inicial a partir da qual as demais peças do golpe se movimentaram. Ao se comportar como o pior perdedor da história do Brasil, ele começou um processo que acabaria por engoli-lo.

Repito: fez-se aí justiça poética.

O esquema de propinas de Furnas, que ele comandou por muitos anos sem que ninguém o incomodasse nem na imprensa e muito menos na Polícia Federal, surgiu com inédito destaque na delação de Delcídio.

Até então, ele, com sua hipocrisia descarada, dizia que era invenção dos adversários. (O DCM produziu, há pouco, um documentário com evidências esmagadoras.)

Apenas para lembrar, lembremos que Delcídio, sobre Furnas, colocou Aécio e Dilma em situações opostas, como fez agora Renan. Disse que a raiz do boicote de Eduardo Cunha a Dilma residiu no fato de ela varrer a corrupção ancestral de Furnas, e enxotar um homem de Cunha.

Aécio fez sua campanha toda presidencial com a fantasia demagógica de homem puro. Cada frase sua continha a palavra corrupção, atirada contra uma mulher que é, ao contrário dele, íntegra e honesta.

Não tivesse ele feito o que fez, em 2018 seria certamente o candidato do PSDB à presidência. E poderia contar com um eventual desgaste do PT para chegar — pelos votos — ao Planalto.

Mas ele desencadeou um processo que simplesmente liquidou uma carreira que sempre dependeu da supressão, por seus comparsas entre os barões da imprensa, de uma vasta coleção de delinquências.

Os sonhos presidenciais de Aécio estão tão mortos quanto seu tio Tancredo. Ele já foi comido, digerido e vomitado.

Grito mais uma vez: bem feito, Playboy.

Paulo Nogueira
No DCM
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Wagner: o país quer saber do que Aécio tem medo


Diante das referências ao senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, nas conversas entre o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, e os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, o ex-ministro Jaques Wagner (PT) cobrou respostas sobre o caso.

"É a segunda vez apenas nesta semana que o nome de Aécio Neves surge em circunstâncias no mínimo suspeitas. O candidato derrotado procurou Renan Calheiros para saber se haveria alguma coisa a mais contra ele na Lava Jato. Segundo Renan, o tucano estaria com medo. O Brasil, então, quer saber: do que tem medo Aécio Neves? O país aguarda respostas", afirmou.

No áudio divulgado ontem pela Folha, o presidente do Senado diz a Machado que foi procurado pelo tucano que queria saber mais informações sobre a delação do ex-senador Delcídio Amaral. "Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa'", contou o peemedebista.

Já na primeira conversa divulgada pela Folha, na qual Machado fala com Romero Jucá, o ex-presidente da Transpetro diz que "o primeiro a ser comido vai ser o Aécio" numa referência à operação Lava Jato. "O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio?", diz. "Caiu [a ficha]. Todos eles. Aloysio, Serra, Aécio", completou Jucá.

"Romero Jucá e Sérgio Machado sabem. Qual é o esquema em que senador Aécio, citado cinco vezes por delatores da Lava Jato, está envolvido? Agora o Brasil também quer e tem o direito de saber: O que foi feito para que Aécio Neves fosse eleito presidente da Câmara em 2001?", questionou Jaques Wagner anteontem.

Até o momento, Aécio não se pronunciou.

No 247
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O grande golpe dentro do golpe


O problema dos bandos organizados é que sempre alguém trai.

Normalmente a traição vem como  contraveneno.

Sentindo-se abandonado, o parceiro vira traidor.

O PMDB deu o golpe no PT.

Parceiros no petrolão, o PMDB saltou fora quando viu o companheiro nas garras da justiça.

Num golpe mirabolante, o PMDB deixou de ser parceiro de corrupção para ser salvação moralizadora do país. Foi uma jogada de mágico. Um truque sem precedentes.

Michel Temer assumiu a presidência da República e montou um “machistério” de suspeitos.

A casa não demorou a cair.

Sentindo-se abandonado, Sérgio Machado procurou os donos do partido para avisar que, se não o protegessem, entregaria todo mundo. Certo que seria traído, gravou as suas conversas.

O resultado é o que sabemos: Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney dão o serviço.

Confessam a preparação do golpe, que batizam de impeachment, comprometem militares e ministros do STF (todos suspeitos) e afirmam que tudo farão para obstruir o trabalho da justiça.

O pior cego é o que tapa sol com peneira.

Procura-se desesperadamente alguém de verde e amarelo batendo panela contra a corrupção.

Que houve?

Parece que a munição de Sérgio Machado ainda não terminou.

A pergunta que quer gritar é esta: o STF vai mandar prender Jucá, Sarney e Calheiros por tentativa de obstrução de justiça? O ministro Gilmar Mendes já avisou que não viu crime nas gravações.

Os jornalistas da Globo também não.

É isso que se chama de seletividade?

Jucá é o Zé Dirceu do Temer.

Machado é o Roberto Jefferson da vez.

A cereja do bolo do golpe é o parlamentarismo.

Voto em lista fechada e parlamentarismo.

Dispensa-se o eleitor de escolher nomes.

Fica tudo na mão daquela turma confiável que o país conheceu em 17 de abril.

O herói brasileiro por excelência é o traidor.

Graças a ele os salvadores da pátria são desmascarados.

Uma boa notícia: o ministro da Educação recebeu o intelectual Alexandre Frota, que levou ideias para o setor. Agora, podem ter certeza, vai. O “machistério”, como andam dizendo, terá como slogan “pátria ejaculadora”. O problema é que é a moralização foi um jato precoce que já acabou.

Viva a traição!
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A minha liberdade custou sangue


Um samba de resistência ao golpe

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PMDB confirma: Impeachment é Golpe

Os golpistas







Leia a transcrição das conversas entre José Sarney e Sérgio Machado:

Primeira conversa

Sarney - Olha, o homem está no exterior. Então a família dele ficou de me dizer quando é que ele voltava. E não falei ontem porque não me falou de novo. Não voltou. Tá com dona Magda. E eu falei com o secretário.

Machado - Eu vou tentar falar, que o meu irmão é muito amigo da Magda, para saber se ele sabe quando é que ela volta. Se ele me dá uma saída.

Machado - Presidente, então tem três saídas para a presidente Dilma, a mais inteligente...

Sarney - Não tem nenhuma saída para ela.

Machado -...ela pedir licença.

Sarney - Nenhuma saída para ela. Eles não aceitam nem parlamentarismo com ela.

Machado - Tem que ser muito rápido.

Sarney - E vai, está marchando para ser muito rápido.

Machado - Que as delações são as que vem, vem às pencas, não é?

Sarney - Odebrecht vem com uma metralhadora de ponto 100.

Machado - Olha, acabei de sair da casa do nosso amigo. Expliquei tudo a ele [Renan Calheiros], em todos os detalhes, ele acha que é urgente, tem que marcar uma conversa entre o senhor, o Romero e ele. E pode ser aqui... Só não pode ser na casa dele, porque entra muita gente. Onde o se nhor acha melhor?

Sarney - Aqui.

Machado - É. O senhor diz a hora, que qualquer hora ele está disponível, quando puder avisar o Romero, eu venho também. Ele [Renan] ficou muito preocupado. O sr. viu o que o [blog do] Camarotti botou ontem?

Sarney - Não.

Machado - Alguém que vazou, provavelmente grande aliado dele, diz que na reunião com o PSDB ele teria dito que está com medo de ser preso, podia ser preso a qualquer momento.

Sarney - Ele?

Machado - Ele, Renan. E o Camarotti botou. Na semana passada, não sei se o senhor viu, numa quinta ou sexta, um jornalista aí, que tem certa repercussão na área política, colocou que o Renan tinha saído às pressas daqui com medo dessa condição, delações, e que estavam sendo montadas quatro operações da Polícia Federal, duas no Nordeste e duas aqui. E que o Teori estava de plantão... Desculpe, presidente, não foi quinta não. Foi sábado ou domingo. E que o Teori estava de plantão com toda sua equipe lá no Ministério e que isso significaria uma operação... Isso foi uma... operação que iria acontecer em dois Estados do Nordeste e dois no sul. Presidente, ou bota um basta nisso... O Moro falando besteira, o outro falando isso. [inaudível] 'Renan, tu tem trinta dias que a bola está perto de você, está quase no seu colo'. Vamos fazer uma estratégia de aproveitar porque acabou. A gente pode tentar, como o Brasil sempre conseguiu, uma solução não sangrenta. Mas se passar do tempo ela vai ser sangrenta. Porque o Lula, por mais fraco que esteja, ele ainda tem... E um longo processo de impeachment é uma loucura. E ela perdeu toda... [...] Como é que a presidente, numa crise desse tamanho, a presidente está sem um ministro da Justiça? E não tem um plano B, uma alternativa. Esse governo acabou, acabou, acabou. Agora, se a gente não agir... Outra coisa que é importante para a gente, e eu tenho a informação, é que para o PSDB a água bateu aqui também. Eles sabem que são a próxima bola da vez.

Sarney - Eles sabem que eles não vão se safar.

Machado - E não tinham essa consciência. Eles achavam que iam botar tudo mundo de bandeja... Então é o momento dela para se tentar conseguir uma solução a la Brasil, como a gente sempre conseguiu, das crises. E o senhor é um mestre pra isso. Desses aí o senhor é o que tem a melhor cabeça. Tem que construir uma solução. Michel tem que ir para um governo grande, de salvação nacional, de integração e etc etc etc.

Sarney - Nem Michel eles queriam, eles querem, a oposição. Aceitam o parlamentarismo. Nem Michel eles queriam. Depois de uma conversa do Renan muito longa com eles, eles admitiram, diante de certas condições.

Machado - Não tem outa alternativa. Eles vão ser os próximos. Presidente: não há quem resista a Odebrecht.

Sarney - Mas para ver como é que o pessoal..

Machado - Tá todo mundo se cagando, presidente. Todo mundo se cagando. Então ou a gente age rápido. O erro da presidente foi deixar essa coisa andar. Essa coisa andou muito. Aí vai toda a classe política para o saco. Não pode ter eleição agora.

Sarney - Mas não se movimente nada, de fazer, nada, para não se lembrarem...

Machado - É, eu preciso ter uma garantia

Sarney - Não pensar com aquela coisa apress... O tempo é a seu favor. Aquele negócio que você disse ontem é muito procedente. Não deixar você voltar para lá [Curitiba]

Machado - Só isso que eu quero, não quero outra coisa.

Sarney - Agora, não fala isso.

Machado - Vou dizer pro senhor uma coisa. Esse cara, esse Janot que é mau caráter, ele disse, está tentando seduzir meus advogados, de eu falar. Ou se não falar, vai botar para baixo. Essa é a ameaça, presidente. Então tem que encontrar uma... Esse cara é muito mau caráter. E a crise, o tempo é a nosso favor.

Sarney - O tempo é a nosso favor.

Machado - Por causa da crise, se a gente souber administrar. Nosso amigo, soube ontem, teve reunião com 50 pessoas, não é assim que vai resolver crise política. Hoje, presidente, se estivéssemos só nos três com ele, dizia as coisas a ele. Porque não é se reunindo 50 pessoas, chamar ministros.. Porque a saída que tem, presidente, é essa que o senhor falou é isso, só tem essa, parlamentarismo. Assegurando a ela e o Lula que não vão ser... Ninguém vai fazer caça a nada. Fazer um grande acordo com o Supremo, etc, e fazer, a bala de Caxias, para o país não explodir. E todo mundo fazer acordo porque está todo mundo se fodendo, não sobra ninguém. Agora, isso tem que ser feito rápido. Porque senão esse pessoal toma o poder... Essa cagada do Ministério Público de São Paulo nos ajudou muito.

Sarney - Muito.

Machado - Muito, muito, muito. Porque bota mais gente, que começa a entender... O [colunista da Folha] Janio de Freitas já está na oposição, radicalmente, já está falando até em Operação Bandeirante. A coisa começou... O Moro começou a levar umas porradas, não sei o quê. A gente tem que aproveitar ess... Aquele negócio do crime do político [de inação]: nós temos 30 dias, presidente, para nós administrarmos. Depois de 30 dias, alguém vai administrar, mas não será mais nós. O nosso amigo tem 30 dias. Ele tem sorte. Com o medo do PSDB, acabou com el,e no colo dele, uma chance de poder ser ator desse processo. E o senhor, presidente, o senhor tem que entrar com a inteligência que não tem. E experiência que não tem. Como é que você faz reunião com o Lula com 50 pessoas, como é que vai querer resolver crise, que vaza tudo...

Sarney - Eu ontem disse a um deles que veio aqui: 'Eu disse, Olhe, esqueçam qualquer solução convencional. Esqueçam!'.

Machado - Não existe, presidente.

Sarney - 'Esqueçam, esqueçam!'

Machado - Eu soube que o senhor teve uma conversa com o Michel.

Sarney - Eu tive. Ele está consciente disso. Pelo menos não é ele que...

Machado - Temos que fazer um governo, presidente, de união nacional.

Sarney - Sim, tudo isso está na cabeça dele, tudo isso ele já sabe, tudo isso ele já sabe. Agora, nós temos é que fazer o nosso negócio e ver como é que está o teu advogado, até onde eles falando com ele em delação premiada.

Machado - Não estão falando.

Sarney - Até falando isso para saber até onde ele vai, onde é mentira e onde é valorização dele.

Machado - Não é valoriz... Essa história é verdadeira, e não é o advogado querendo, e não é diretamente. É [a PGR] dizendo como uma oportunidade, porque 'como não encontrou nada...' É nessa.

Sarney - Sim, mas nós temos é que conseguir isso. Sem meter advogado no meio.

Machado - Não, advogado não pode participar disso, eu nem quero conversa com advogado. Eu não quero advogado nesse momento, não quero advogado nessa conversa.

Sarney - Sem meter advogado, sem meter advogado, sem meter advogado.

Machado - De jeito nenhum. Advogado é perigoso.

Sarney - É, ele quer ganhar...

Machado - Ele quer ganhar e é perigoso. Presidente, não são confiáveis, presidente, você tá doido? Eu acho que o senhor podia convidar, marcar a hora que o senhor quer, e o senhor convidava o Renan e Romero e me diz a hora que eu venho. Qual a hora que o senhor acha melhor para o senhor?

Sarney - Eu vou falar, já liguei para o Renan, ele estava deitado.

Machado - Não, ele estava acordado, acabei de sair de lá agora.

Sarney - Ele ligou para mim de lá, depois que tinha acordado, e disse que ele vinha aqui. Disse que vinha aqui.

Machado - Ele disse para o senhor marcar a hora que quiser. Então como faz, o senhor combina e me avisa?

Sarney - Eu combino e aviso.

[...]

Machado - O Moreira [Franco] está achando o quê?

Sarney - O Moreira também tá achando que está tudo perdido, agora, não tem gente com densidade para... [inaudível]

Machado - Presidente, só tem o senhor, presidente. Que já viveu muito. Que tem inteligência. Não pode ser mais oba-oba, não pode ser mais conversa de bar. Tem que ser conversa de Estado-Maior. Estado-Maior analisando. E não pode ser um [...] que não resolve. Você tem que criar o núcleo duro, resolver no núcleo duro e depois ir espalhando e ter a soluç... Agora, foi nos dada a chave, que é o medo da oposição.

Sarney - É, nós estamos... Duas coisas estão correndo paralelo. Uma é essa que nos interessa. E outra é essa outra que nós não temos a chave de dirigir. Essa outra é muito maior. Então eu quero ver se eu... Se essa chave... A gente tendo...

Machado - Eu vou tentar saber, falar com meu irmão se ele sabe quando é que ela volta.

Sarney - E veja com o advogado a situação. A situação onde é que eles estão mexendo para baixar o processo.

Machado - Baixar o processo, são duas coisas [suspeitas]: como essas duas coisas, Ricardo, que não tem nada a ver com Renan, e os 500, que não tem nada a ver com o Renan, eles querem me apartar do Renan...

Sarney - Eles quem?

Machado - O Janot e a sua turma. E aí me botar pro Moro, que tem pouco sentido ficar aqui. Com outro objetivo.

Sarney - Aí é mais difícil, porque se eles não encontraram nada, nem no Renan nem no negócio, não há motivo para lhe mandar para o Paraná.

Machado - Ele acha que essas duas coisas são motivo para me investigar no Paraná. Esse é io argumento. Na verdade o que eles querem é outra coisa, o pretexto é esse. Você pede ao [inaudível] para me ligar então?

Sarney - Peço. Na hora que o Renan marcar, eu peço... Vai ser de noite.

Machado - Tá. E o Romero também está aguardando, se o senhor achar conveniente.

Sarney - [sussurrando] Não acho conveniente.

Machado - Não? O senhor que dá o tom.

Sarney - Não acho conveniente. A gente não põe muita gente.

Machado - O senhor é o meu guia.

Sarney - O Amaral Peixoto dizia isso: 'duas pessoas já é reunião. Três é comício'.

Machado - [rindo]

Sarney - Então três pessoas já é comício.

[...]

Segunda conversa

Sarney - Agora é coisa séria, acho que o negócio é sério.

Machado - Presidente, o cara [Sérgio Moro] agora seguiu aquela estratégia, de 'deslegitimizar' as coisas, agora não tem ninguém mais legítimo para falar mais nada. Pegou Renan, pegou o Eduardo, desmoralizou o Lula. Agora a Dilma. E o Supremo fez essa suprema... rasgou a Constituição.

Sarney - Foi. Fez aquele negócio com o Delcídio. E pior foi o Senado se acovardar de uma maneira... [autorizou prisão do então senador].

Machado - O Senado não podia ter aceito aquilo, não.

Sarney - Não podia, a partir dali ele acabou. Aquilo é uma página negra do Senado.

Machado - Porque não foi flagrante delito. Você tem que obedecer a lei.

Sarney - Não tinha nem inquérito!

Machado - Não tem nada. Ali foi um fígado dos ministros. Lascaram com o André Esteves.. Agora pergunta, quem é que vai reagir?

[...]

Machado - O Senado deixar o Delcídio preso por um artista.

Sarney - Uma cilada.

Machado - Cilada.

Sarney - Que botaram eles. Uma coisa que o Senado se desmoralizou. E agora o Teori acabou de desmoralizar o Senado porque mostrou que tem mais coragem que o Senado, manda soltar.

Machado - Presidente, ficou muito mal. A classe política está acabada. É um salve-se quem puder. Nessa coisa de navio que todo mundo quer fugir, morre todo mundo.

[...]

Sarney - Eu soube que o Lula disse, outro dia, ele tem chorado muito. [...] Ele está com os olhos inchados.

[...]

Sarney - Nesse caso, ao que eu sei, o único em que ela está envolvida diretamente é que ela falou com o pessoal da Odebrecht para dar para campanha do... E responsabilizar aquele [inaudível]

Machado - Isso é muito estranho [problemas de governo]. Presidente, você pegar um marqueteiro, dos três do Brasil. [...] Deixa aquele ministério da Justiça que é banana, só diz besteira. Nunca vi um governo tão fraco, tão frágil e tão omisso. Tem que alguém dizer assim 'A presidente é bunda mole'. Não tem um fato positivo.

[...]

Sarney - E o Renan cometeu uma ingenuidade. No dia que ele chegou, quem deu isso pela primeira vez foi a Délis Ortiz. Eu cheguei lá era umas 4 horas, era um sábado, ele disse 'já entreguei todos os documentos para a Delis Ortiz, provando que eu... que foi dinheiro meu'. Eu disse: 'Renan, para jornalista você não dá documento nunca. Você fazer um negócio desse. O que isso vai te trazer de dor de cabeça'. Não deu outra.

Machado - Renan erra muito no varejo. Ele é bom. [...] Presidente, não pode ser assim, varejista desse jeito.

[...]

Sarney - Tudo isso é o governo, meu Deus. Esse negócio da Petrobras só os empresários que vão pagar, os políticos? E o governo que fez isso tudo, hein?

Machado - Acabou o Lula, presidente.

Sarney - O Lula acabou, o Lula coitado deve estar numa depressão.

Machado - Não houve nenhuma solidariedade da parte dela.

Sarney - Nenhuma, nenhuma. E com esse Moro perseguindo por besteira.

Machado - Tomou conta do Brasil. O Supremo fez a pedido dele.

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Mouro

Compraram um cachorro para cuidar da casa. Depois de tantos roubos e arrombamentos, depois de tantos ataques ao seu patrimônio, a família decidiu que só um cachorro resolveria. Mas um cachorro de verdade, treinado para pegar ladrões, não apenas espantá-los. Nada parecido com um cachorrinho antigo da família, chamado Frufru, um inútil que morrera de susto ao ver um gato.

Mouro — deram-lhe o nome de Mouro por causa da sua assustadora cor preta — era um cachorro especial. Quando entrava alguém na casa, ele corria para cheirar o recém-chegado. Isso causou o primeiro problema com Mouro na casa. Um dia, a filha chegou com um namorado e o cachorro, depois de cheirá-lo, derrubou-o no chão e sentou em cima do seu peito, como se esperasse a chegada de reforços para dominá-lo. Descobriram depois que o namorado carregava maconha no bolso. O namorado foi aconselhado a nunca mais aparecer na casa e foi corrido para rua pelo Mouro, sob protestos da filha.

Mouro não dormia. Passava a noite rondando pelo jardim da casa ou dentro da própria casa. Mais de uma vez, quando levantava no meio da noite para fazer xixi, o dono da casa quase tropeçara no cachorro, cuja cor preta o tornava invisível no escuro. E a dona da casa se queixava dos sustos que levava, cada vez que o cachorro entrava, silenciosamente, na cozinha, farejando os cantos.

– Esse cachorro está começando a atrapalhar a nossa vida — disse a mulher.

– Você está maluca? — disse o marido. – O Mouro é formidável. Apareceu algum ladrão por aqui depois que ele chegou? Nenhum.

– E o que o Mouro fez com o meu primo Artur, expulsando-o da nossa casa e correndo atrás dele pela rua?

– É, mas depois se soube que o Artur está envolvido num negócio de propina. Ele deve ter farejado alguma coisa.

– Mas ele é que está mandando na nossa casa?

– Não exagera.

– Qualquer dia, ele cheira você e descobre aquele seu rolo com a Receita...

– Você acha?

Luís Fernando Veríssimo
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