18 de nov de 2018

Escola, Liberdade e República


Comemoramos neste 15 de novembro que passou quase 130 anos de nossa República. Regime que se propagou pelo mundo baseado nas ideias do Iluminismo. No antigo regime, valia a vontade de uma só pessoa, e não havia alternância no poder, na medida em que a sucessão era definida em âmbito familiar. Na República, o poder não se cristaliza na mão da mesma família e até a maioria deve respeitar e conviver com os desejos de outros grupos, num ambiente de pluralidade de ideias.

Aqui no Maranhão, vivemos um nascimento tardio desta República, pois o coronelismo de traços coloniais muito se alongou, adentrando no século 21. Infelizmente, contudo, superamos um desafio e já estamos às voltas com outras ameaças, notadamente esse assustador ressurgimento do fascismo, em vários quadrantes do mundo.

Essa ameaça é muito bem identificada pela ex-chanceler norte-americana Madeleine Albright no recém lançado livro "Fascismo, um alerta". Albright aponta a proliferação no mundo de um novo tipo de líder que "diz falar por uma nação ou grupo, não se preocupa com os direitos dos outros e está sempre disposto a usar de violência ou qualquer outros meios necessários para atingir seus objetivos".

A prevalecer esse tipo de liderança, teremos sistemas políticos apenas formalmente republicanos, mas na prática esvaziados de sentido material. Vemos isso por meio de ameaças à liberdade de opinião, por exemplo com discursos de ódio e medo contra jornalistas ou professores.

Propostas como “Escola Sem Partido” são visceralmente anti-republicanas, na medida em que tolhem a ideia de “governos moderados”. Com efeito, se não há possibilidade de opinião, inexiste pensamento crítico e prevalece a vontade unilateral das instâncias de mando.

Consentâneo com o primado republicano, o artigo 206 da Constituição Federal determina a "liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;" além de garantir o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" no país. Foi com essa base teórica e normativa que, na semana dedicada à República no Brasil, editei Decreto orientando a rede estadual de ensino a respeitar a livre manifestação de pensamento e opinião, essencial para que a sociedade não seja atropelada por propósitos despóticos.

Como muitas vezes costuma acontecer, uma bandeira se levanta justamente para se encobrir uma batalha por seu revés. Pois o que pregam os arautos da Escola Sem Partido que não determinar politicamente o que devem falar alunos e professores?

Começam tempos em que é preciso estar atentos a riscos colocados à República. Que tenhamos força e coragem, como recomendam as Sagradas Escrituras (Josué, 1).

Flávio Dino é governador do Maranhão
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Padrão Bolsonaro de comunicação desorienta a mídia


O jornal O Estado de S.Paulo demite uma cronista por ter criticado as propostas do então candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Toma essa decisão depois de vê-lo eleito, numa atitude nítida de subserviência. A TV Gazeta demite quase toda a equipe de jornalismo e amplia o aluguel ilegal de sua grade de programação para a Igreja Universal, apoiadora do próximo governo.

A Folha de S.Paulo, depois da derrota do seu candidato no primeiro turno, parece sem rumo. Chama o gesto repulsivo do presidente eleito, simulando o uso de armas, ao lado do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, de simples gesticulação. Quem ele ameaçava? Os juízes ou os trabalhadores? Essa resposta a Folha não deu.

O caso da Veja é ainda mais curioso. Depois de se tornar um panfleto golpista, tentando derrubar o presidente Lula, evitar a eleição de Dilma Rousseff e contribuir para tirá-la da Presidência, sai com uma capa crítica ao projeto que pretende censurar a atuação dos professores em salas de aula, tão a gosto do presidente eleito. Será uma tentativa de recuperar a credibilidade perdida? É difícil acreditar, ainda mais diante da situação econômica da Abril e a dispensa de centenas de funcionários. Um caso para ser acompanhado de perto.

São apenas alguns exemplos da situação dos meios de comunicação tradicionais neste momento pós-eleitoral. Todos eles apostavam numa candidatura palatável para os seus interesses empresariais mas não encontraram quem a encarnasse.

De repente se viram às voltas com uma realidade inesperada. Têm pela frente um governo que os despreza, que assusta muitos dos seus leitores, ouvintes e telespectadores, mas do qual não podem se afastar totalmente, como sempre acontece no Brasil. Afinal a dependência das verbas publicitárias oficiais e de outros favores governamentais é muito grande.

O uso do WhatsApp nas eleições foi decisivo para a definição dos resultados. Sobre isso não há dúvida. Mas esse sistema de mensagens não operou sozinho. Foi apenas o último passo de uma sequência iniciada muito tempo antes e operada pelos meios de comunicação tradicionais.

Criminalizaram a política abrindo espaços para o surgimento de aberrações desde o pleito municipal, há dois anos, ampliando-se agora com as eleições do presidente da República, de alguns governadores e de vários parlamentares.

A corrupção tornou-se um prato cheio. O Jornal Nacional diariamente tinha como imagem de fundo desse noticiário um duto por onde jorrava muito dinheiro. As TVs nos restaurantes, bares, lojas, salas de espera de consultórios e de hospitais, mesmo sem som, inculcavam as imagens da corrupção nas cabeças de quem olhasse para as telas.

Nada de novo. As massas que saíram às ruas insufladas pela TV para apoiar o golpe de 2016 levantavam as mesmas bandeiras, como sempre ocorre em qualquer parte do mundo quando a direita tenta chegar ao poder por vias transversas.

No caso do Brasil, além da corrupção o outro tema sensível explorado eleitoralmente é o da segurança, sobre o qual rádio e TV deitam e rolam. Num país em que morrem assassinadas por ano mais de 60 mil pessoas, o assunto não pode mesmo ser desprezado.

O problema é a forma como ele é abordado. Os programas policialescos que ocupam amplos horários das emissoras em todo o país pregam ainda mais violência como solução. Claro que para as emissoras não interessa acabar com a violência. É ela que dá picos de audiência e garante boas receitas publicitárias. Daí a transformação de dramas do cotidiano em espetáculos mórbidos.

Especialistas nesse tipo de programa, as redes Record e Bandeirantes foram contempladas com entrevistas exclusivas do candidato vencedor antes das eleições. Ele é o representante mais bem acabado da ideologia veiculada pelos programas policialescos.

Com sua retórica limitada, o capitão reformado balbucia chavões repetidos pela TV desde a época em que Jacinto Figueira Junior era o "Homem do Sapato Branco" na TV Cultura de São Paulo, àquela altura propriedade de Assis Chateaubriand. "Direitos humanos para humanos direitos" ou "bandido bom é bandido morto" não são novidade, fazem parte da história da televisão brasileira.

A contribuição da mídia tradicional para o resultado das eleições não fica por ai. A "facada de Juiz de Fora", ainda a espera de uma investigação jornalística mais aprofundada, foi o ponto de virada da campanha eleitoral.

Tanto que um dos filhos do candidato proclamou uma vitória em primeiro turno logo após a agressão e apressou-se em dizer que o ferimento era superficial. Estava estabelecido o álibi para tirar o militar da reserva de todos os debates previstos com os demais candidatos.

Sabia ele e os seus apoiadores mais próximos do desastre que seria um confronto cara-a-cara com seus adversários. No único evento desse tipo em que participou, na Rede TV, foi destruído pela candidata Marina Silva, ao discutir sobre o papel da mulher na sociedade.

No segundo turno as emissoras cancelaram os debates sob a alegação de que não poderiam fazê-lo só com um candidato. Embora a Rede Globo tenha feito exatamente isso no Distrito Federal onde um concorrente se ausentou. Dessa forma criou-se uma situação inédita na história das campanhas presidenciais brasileiras.

O candidato Fernando Haddad, disposto ao debate, foi excluído da TV. O outro candidato escondeu-se do confronto mas falou sem contestação em longas entrevistas para a Record e a Bandeirantes. A justiça eleitoral fez vistas grossas para a ilegalidade e a democracia, nesse momento, sofreu um duro golpe.

Resta saber o que temos pela frente. Os meios tradicionais estão desorientados. O novo governo mostra-se inclinado a desprezá-los, jogando todas as suas fichas nas redes sociais e a eleição não interrompeu esse processo. As mensagens continuam circulando, refutando críticas e exaltando as confusas decisões do "governo de transição".

Os meios convencionais, fragilizados em sua credibilidade e no seu caixa, terão muita dificuldade para se recuperar. A saída mais cômoda é a adaptação à nova ordem, como já mostrou a Rede Globo com uma entrevista apresentada no Fantástico com o candidato eleito.

O que já não era bom em termos de comunicação democrática tende a piorar. Torço para estar errado.

Laurindo Lalo Leal Filho
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A personalidade autoritária como base do cotidiano | Flávio Ricardo Vassoler


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Silly is beautiful!

A glorificação da idiotice é a tática mais contundente de dominação das massas no novo Brasil. Ser cretino e espírito de porco está na moda. Ou você compartilha esse modo “cool” de ser ou você está fora. Ser petista, por exemplo, é “out”: pensa demais, argumenta demais, tem valores demais – e… chora demais! Mimimi não está na moda!

Esse fenômeno, na verdade, não é novo. A felicidade-dumb já vem de longe, numa classe média consumista que adora mostrar o que tem, mais do que mostrar o que sabe.

Lembro-me de quando estava no ensino médio que, mal Jô Soares apresentava um novo número humorístico em seu “Planeta dos Homens”, estavam muitos, já no dia seguinte, a imitar suas frases feitas: “o macaco tá certo!” Causava-me irritação essa chatice da recorrente reprodução acrítica do programa por um monte de gente homogeneizada pela Rede Globo. Parecia tudo papagaio.

Não se tratava, em absoluto, de um problema de gente inculta, de poucos meios para estudar. Não. Essa idiotice vinha da classe média endinheirada e se espalhava por escolas particulares, como a que eu frequentava como bolsista, clubes, praias de Zona Sul do Rio de Janeiro e sítios na serra de Teresópolis. Era a fina flor que, em plena ditadura militar, se distraía com esse humorzinho televisivo bobo, enquanto nada se falava de torturas e mortes nos porões do Dops e do Doi-Codi.

Afinal, a vida com os Alfa-Romeo Ti4, com a casa de praia em Angra dos Reis e com caríssimas viagens para o exterior era tão bela… “eu te amo meu Brasil, eu te amo… meu coração é verde, amarelo e azul…”.

De lá para cá, a alienação dessa gente só piorou e se disseminou entre os pretendentes a classe emergente. A rede mundial de computadores aprimorou a homogeneização da mentalidade de espírito de porco. As redes sociais, com sua dinâmica de narcisismo virtual, provocam reações impulsivas de muitos que ali “postam”, sem qualquer preocupação dialógica. Buscam apenas resposta rápida para suas imbecilidades impensadas. Quanto mais expedita a reação na rede, maior o deleite ególatra. O sonho desse tipo de cretino é provocar a onda perfeita de “shitstorm” e mensagens politicamente incorretas que causam comoção virtual têm elevado potencial de encapelar os debates. As barbaridades vão se banalizando e acabam por ingressar na cultura política do mundo real.

Existe visível efeito “spill-over” da agressividade das redes sociais no discurso do cotidiano. Parece que muitos não se dão mais conta do tamanho dos absurdos que disseminam mundo afora. Criou-se verdadeira contracultura da imbecilidade em massa. Há quem compete na propensão de escandalizar com assertivas sem pé nem cabeça. Ser racional, nesse contexto, é ser chato, é estragar a brincadeira.

Se tudo não passasse de brincadeira de mau gosto, seria um problema menor. Corrigia-se com uns puxões de orelha próprios para meninos travessos. Mas o caráter epidêmico da idiotice em rede passou a contaminar o discurso oficial, paralisando o diálogo político. Assiste-se a um general de pantufas, agora vice-presidente eleito, a elogiar o fim do trabalho de médicos cubanos no Brasil, pois seu chefe, o capitão de pantufas eleito presidente, vai entrar na história por os ter livrado do trabalho forçado, como a Princesa Isabel, que aboliu a escravidão no Brasil!

No legislativo, vê-se uma deputada com semblante irado – claramente fora de si – propor projeto de lei a proibir educação sexual nas escolas, como se fosse, ela, a secretária de ensino fundamental do Ministério da Educação. Não interessa. O debate precisa de “speed” e levar o assunto a um debate entre especialistas pedagógicos só toma tempo; melhor uma iniciativa impensada que faça marola e irrite os “liberais”. Não há diálogo. Há invectiva, há ofensa e ataque.

Do mesmo modo parlapeteia o prospectivo chanceler indicado pelo presidente eleito que quer fuzilar “toda a petralhada do Acre”: a mudança climática é um mito criado pelo “marxismo cultural” e a Europa é um espaço culturalmente vazio… a esquerda não quer que crianças nasçam – e coisas do gênero. Há pouco tempo atrás, um funcionário público que adotasse esse tipo de discurso na função que exercesse seria candidato certo à aposentadoria compulsória por demência. Mas hoje, na era do non-sense, um sujeito desses tem excelentes perspectivas na carreira diplomática!

Enquanto isso, os verdadeiros problemas do país são postos de lado, como mimimi de “comunistas” que perderam a vez. Vale é surfar nas ondas de “shitstorm”, a movimentarem a sociedade sem rumo, como num frenesi de ódio e ranger de dentes, em marcha na direção do abismo. Políticas públicas? Para quê? Isso é torrar dinheiro para sustentar vagabundo que não quer se virar sozinho! O negócio é acabar com a “corrupção” da esquerda, com a liberdade de ensino e pesquisa, com os direitos humanos, com a igualdade de gêneros, mesmo que morram uns milhares de inocentes… afinal, não se faz omelete sem quebrar ovos!

O besteirol se tornou a arma mais mortal contra a razão e contra a democracia inclusiva. E ele tem método, pois deslegitima de modo brutal o discurso sobre direitos. É hora de reagir se quisermos minimamente conservar o humanismo construído no mundo do pós-guerra e seu senso comum de solidariedade, tolerância e responsabilidade coletiva. Do contrário, iremos em transe, feito lunáticos, para nossa destruição – e achando bom!

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
No DCM
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Uma igreja, dois papas: a "guerra" entre Bento e Francisco

Ao contrário do previsto, Bento não se enclausurou num convento para nunca mais ser visto ou ouvido, e, de acordo com uma análise publicada na revista Vanity Fair, não se inibe de mandar recados e arregimentar tropas. Mais uma pedra no sapato de Francisco, sem mãos a medir face à tempestade do abuso sexual.


A guerra entre conservadores e liberais no seio da Igreja Católica não é de agora, decerto. Mas é a primeira vez na história da instituição em que cada um dos lados tem um papa - vivo. E se um deles tem o cognome de “emérito”, a verdade é que, se houve quem pensasse que iria passar o resto da vida em recolhimento e oração, “desaparecendo" do mundo dos vivos, enganou-se. Bento nunca saiu do Vaticano e nem sequer se mantém em silêncio.

É isso que evidencia a revista Vanity Fair, num longo artigo publicado nesta terça-feira, no qual o jornalista e escritor britânico John Cornwell, autor de várias obras sobre os meandros da igreja católica e sobre papados – entre elas Hitler's Pope -The secret story of Pius XII (O Papa de Hitler - A História Secreta de Pio XII, 1999), e A Thief in the Night - The Mysterious Death of Pope John Paul I (Um ladrão na noite - A morte misteriosa do Papa João Paulo I, 1989) - descreve vários episódios reveladores de, no mínimo, um mal-estar entre os dois pontífices. “Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo”, escreve Cornwell.

"Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo"

E prossegue: “Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua renúncia. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário do que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo lugar, continuando a aceitar ser tratado por ‘sua santidade’, a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco.”

É, considera o jornalista, uma situação para a qual é difícil encontrar precedentes. “Com que podemos comparar esta circunstância de uma igreja com dois papas? Estamos nos domínios dos arquétipos e do mito. Pensemos no Rei Lear, que deu todo o poder mas se manteve perto para controlar, resultando em desastre, ou no fantasma em Hamlet. A mera presença de um ex papa já seria o suficiente para pôr em causa a força de espírito e a independência de Francisco desde o primeiro dia.”

"O meu papa é Bento", diz Salvini

Poderia o simpático João XXIII, pergunta Cornwell, “ter iniciado a reforma do Concílio Vaticano Segundo se Pio XII, o seu autocrático predecessor, estivesse a observar, lugubremente, de uma janela vizinha? E iria João Paulo II abanar a árvore apodrecida da União Soviética se o angustiado e hesitante Paulo VI , que chegou a ponderar uma concordata com Moscou, o estivesse puxando pelo braço?”

"Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua resignação. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário dos que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo sítio, continuando a aceitar ser tratado por 'sua santidade', a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco."

O escritor acha que não: “Qualquer que seja a direção do papado, esquerda ou direita, para o melhor ou o pior, é a iniciativa única e exclusiva de um papa de cada vez que lhe confere suprema autoridade e poder. O segredo da unidade católica é a lealdade, em todas as circunstâncias, ao único supremo pontífice vivo. A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século 16, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano.” E cita o historiador Diarmaid MacCulloch, da Universidade de Oxford: “Dois papas é a receita para um cisma.”

Ainda por cima, dois papas com visões tão diferentes. Desde que João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ou, nas palavras de Cornwell, “fiscalizador chefe da doutrina, em 1981, o então cardeal Joseph Ratzinger defendeu uma Igreja Católica menor, limpa de imperfeições. A visão de Francisco é diametralmente oposta: quer uma igreja aberta, acolhedora, misericordiosa para com os pecadores, hospitaleira face aos estranhos, respeitosamente tolerante de outras fés. Procura encorajar os que duvidam, consolar os feridos, e trazer de volta os excluídos pela respetiva orientação. Compara a igreja a um hospital de campanha para os espiritualmente doentes.”

"A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século XVI, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano."

As trincheiras são tão óbvias que se consubstanciam em tshirts: Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna e líder do partido de extrema-direita Liga (antes Liga Norte), que se notabiliza pelas suas posições xenófobas, foi fotografado em setembro de 2016 com uma em que se vê a cara de Francisco com ar horrorizado com o escrito "O meu papa é Bento". É normal: se Francisco passa a vida a apelar ao acolhimento de refugiados, Salvini quer vê-los todos pelas costas. Mas será normal que, estando vivo e a observar, Bento não rechace este tipo de apoio? Tanto mais que, como Cornwell frisa, o papa "reformado" continua a opinar e a fazer-se ouvir - quer diretamente quer através de outros.

Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna de Itália e líder do partido de extrema-direita Liga, em 2016, mostrando uma Tshirt que diz "O meu papa é Bento"

"Um ofício papal alargado" ou "só um papa"?

Um desses outros é o seu secretário, o arcebispo alemão Georg Gänswein. Este, que vive na atual residência do papa emérito - a qual, conta Cornwell, fora um convento para 12 freiras contemplativas no tempo de João Paulo II e que Bento mandou renovar e preparar (luxuosamente, parece) quatro meses antes de anunciar a sua renúncia - declarou em maio de 2016 que Francisco e Bento representam um único ofício papal "alargado", com um membro "ativo" e um "contemplativo". Francisco, terá rejeitado a ideia de imediato: "Só há um papa."

Desde essa altura, diz Cornwell, a relação entre o papa investido e o emérito ter-se-á deteriorado. Em julho de 2017, no enterro do cardeal conservador (e crítico de Francisco) Joachim Meisner, arcebispo emérito de Colónia, Gänswein leu uma carta de Bento. Esta contém, no entender do autor do artigo da Vanity Fair, uma frase que pode ser considerada muito desestabilizadora do pontificado do atual papa. Nesta, Bento diz que Meisner estava convencido de que "o Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar." Para Cornwell, Bento parece estar a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se.

"O Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar", diz Bento. Está a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se?

Mas não fica por aqui: em setembro último, Gänswein deu uma palestra na biblioteca do parlamento italiano por ocasião do lançamento da tradução italiana do livro The Benedict Option (A opção de Bento), do escritor americano Rod Dreher, descrito por si mesmo como um "conservador empedernido". O livro defende que a civilização ocidental, nomeadamente os EUA, se encaminham para um tempo de caos e negritude, uma nova idade das trevas, e que o caminho é voltar aos ensinamentos de Bento de Núrsia, o fundador dos monges beneditinos. Gänswein explicou à audiência que a crise de abuso sexual na Igreja Católica é a idade das trevas da instituição, o 11 de setembro católico. Um paralelismo que foi interpretado por Dreher como significando que o salvador atual é o papa emérito.

Cornwell encontra outros sinais de perversidade - não é muito difícil perceber para onde pende o seu coração na disputa que descreve - na conduta de Bento, até antes de renunciar. Refere por exemplo o facto de em 2012, pouco antes de anunciar a sua inesperada decisão, ter nomeado o bispo conservador Gerhard Ludwig Müller para o lugar que fora seu sob João Paulo - ou seja, designando um conservador de linha dura para fiscalizador da doutrina (num ministério que está também encarregado de investigar casos de abuso sexual) do qual o seu sucessor teria dificuldade em retirá-lo sem parecer desrespeitador - de facto, Francisco só o substituiu em 2017. E não só nomeou Gänswein como seu secretário pessoal como também chefe de gabinete do papa - o que significa dirigir a residência papal no palácio apostólico, onde é suposto os papas viverem e trabalharem. Tal, frisa Cornwell, permitiria ao secretário e homem de confiança do papa emérito monitorizar toda a atividade do novo pontífice.

O que significa que a decisão de Francisco de não ocupar as luxuosas instalações que há séculos são a casa dos papas pode ter também tido a ver com dar a volta a Bento e Gänswein - pelo menos na interpretação de Cornwell. Assim, instalou-se na modesta Casa Santa Marta, onde ficam os clérigos que visitam o Vaticano. Permite a Gänswein que organize receções nos aposentos papais para reis e chefes de Estado, mas o resto do tempo está fora do alcance do secretário de Bento.

É possível um cisma?

Frisando que, aos 91 anos, cinco após resignar, Bento parece manter vigor físico e mental, Cornwell interroga-se sobre os motivos da sua resignação. E sobre que estratégia terá em vista. Será que um cisma, ou seja, a divisão da Igreja Católica em duas, é possível?

Certo é que, conclui o jornalista, se assiste a um impasse. Francisco está cada vez mais isolado e acossado por escândalos sucessivos; a presença de Bento e as suas intervenções não ajudam, pelo contrário.

É tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, mas também há motivo para acreditar que Francisco tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

Mas se, argumenta Cornwell, é tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, aquele que resignou sem deixar o palco, aquele cuja mera existência mina a autoridade de Francisco, também há motivo para acreditar que este último tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

E explica: "Desde os primeiro dias do papado, falou de forma a sugerir que procura, que provoca, que pede uma mudança massiva numa autoritária, dogmática teimosamente inamovível Igreja que mostra os seus frutos amargos nos milhares de jovens fiéis abusados em todo o mundo católico. Uma purga drástica dos privilégios obstinados, do secretismo, da riqueza, do tradicionalismo, da falta de transparência e de controlo, pode ser a condição necessária de um novo começo."

Fernanda Câncio
No Diário de Notícias
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Mourão será um vice que vai mandar (+ vídeo)

Será ele o presidente em dois anos?


Bolsonaro avalia Mourão como ‘gerente’ do governo

A nova estrutura do Palácio do Planalto, que está sendo desenhada pela equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro, prevê que a pasta da Casa Civil passe a ter uma outra atribuição e deixe de coordenar os ministérios do governo. Esse trabalho passaria a ser feito pelo vice-presidente eleito da República, general Hamilton Mourão. A ideia é liberar o futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, para a articulação política com o Congresso, já que a Secretaria de Governo – que desempenha esse papel atualmente – será extinta.

Na visão do núcleo mais próximo do presidente eleito, a articulação política e a abertura de um canal de ligação de Bolsonaro com os parlamentares vai demandar tempo e esforço em um cenário de votação de projetos considerados fundamentais pela nova gestão.

A estrutura do Planalto no governo Bolsonaro daria mais poderes ao general Mourão – que durante a campanha eleitoral deu declarações polêmicas e, por isso, chegou a ser desautorizado pelo então presidenciável do PSL – e pode acentuar as diferenças entre os grupos político e militar que cercam o presidente eleito.

Na avaliação de aliados, como o governo será comandado por um militar reformado do Exército, que pensa na hierarquia, a visão é de que todos os ministros têm o mesmo nível e não aceitariam cobrança de resultado de outro titular de “igual estatura”. Colocar Mourão à frente da coordenação da Esplanada seria uma forma de dar ao vice-presidente eleito ascendência sobre os demais titulares do primeiro escalão para cobrar resultados. (...)

Em tempo: Lauro Jardim, aquele colonista do Globo que acompanhou passo-a-passo a fulminante carreira do banqueiro André Esteves, diz nesse domingo 18/XI: "Profecia baiana" - valendo-se de décadas no trato de políticos, Emílio Odebrecht tem dito que o general Hamilton Mourão se tornará o Presidente da República em menos de dois anos".

No CAf

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Bolsonaro diz no Twitter que a verdade é a arma do crescimento da esquerda

Aroeira
A pretexto de divulgar o vídeo de um puxa-saco, Jair Bolsonaro acaba de postar uma nota no Twitter. Ele queria atacar a esquerda, certamente, mas, pela dificuldade que ele e sua equipe têm com a língua portuguesa, acabaram fazendo um elogio. O texto:

“O presidiário corrupto, Bolsonaro e as mulheres! Infelizmente, a narrativa montada é sempre a oposta! Seguimos adiante para a aplicação de melhores condições de vida aos brasileiros. Jamais esqueçamos a verdade, pois esta é arma do crescimento da esquerda!”

“A verdade é a arma do crescimento da esquerda!”


No DCM
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A Internacional da Direita

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/11/957868-a-internacional-da-direita.html

A evidência de que o plano de governo só começa a ser elaborado agora, os desatinos em política externa, a negligência parlamentar e até mesmo as dúvidas sobre o êxito do programa econômico ultraliberal (apesar da crença do mercado) despertam dúvidas em alguns (esperança para outros) sobre sua duração. Bola de cristal ninguém tem mas uma coisa é certa: a extrema direita que ele representa é tosca e áspera mas está se organizando para um reinado longo e articulado internacionalmente.

O filho do presidente eleito com mais pretensões ao papel de ideólogo e articulador internacional do clã, Eduardo Bolsonaro, anunciou ontem pelo Twitter que a tal Cúpula Conservadora das Américas vai mesmo acontecer. Será no dia 8 de dezembro em Foz do Iguaçú e terá o patrocínio da Fundação Indigo de Políticas Públicas, do PSL, e do Centro de Estudos de Seguridade, criado por professores liberais da Unifesp. O evento chegou a ser adiado, para que Bolsonaro dele pudesse participar já empossado, mas agora vai acontecer mesmo antes da posse. A mensagem não menciona sua presença, dizendo apenas que o site do evento (www.cupulaconservadora.com.br) em breve divulgará os nomes dos participantes das quatro mesas redondas. “É chegada a hora de organizarmos nossa ideias, as bandeiras e diretrizes para um mundo melhor, onde o indivíduo será o protagonista e não mais o coletivo ou o Estado”, diz o deputado mais votado da história eleitoral do país.

Da cúpula deve surgir um organismo que congregue partidos ultraconservadores de diferentes países das Américas, numa espécie de contraponto ao odiado Foro de São Paulo, associação dos partidos de esquerda latino-americanos criada nos anos 90 por iniciativa de Lula, Fidel Castro e outros líderes regionais.

A ascensão da direita é um fenômeno mundial, que muitos pensadores atribuem ao aumento das desigualdades produzidas pelo capitalismo global financeirizado, gerando legiões de despossuídos que, desiludidos com a democracia, com a falta de soluções para seus problemas, aderem a projetos e líderes autoritários de direita ou extrema-direita. Bolsonaro tem sido apontado como um imitador de Trump ou comparado a Duterte, das Filipinas, e ainda ao húngaro Viktor Orban, mas é fato que nenhum deles fez carreira política, por anos a fio, defendendo a ditadura, a tortura, a discriminação de negros e gays e, já eleito, a prisão e exílio de seus adversários políticos. A negligência foi dos líderes dos partidos de esquerda, do centro e da direita democrática, que poderiam ter lhe imposto limites com bases nas leis de defesa do Estado Democrático de Direito, hoje tão anêmico. Não poderia ter havido indulgência, por exemplo, com a apologia à tortura, inclusive na sessão de votação do impeachment de Dilma.

E há outras diferenças em relação aos dois. Duterte, um torcionário, move uma sangrenta guerra às drogas e aos criminosos comuns em geral. Trump tem inimigos externos: a China, o globalismo, os imigrantes, e dá caneladas até nos aliados históricos europeus. O bolsonarismo elegeu como inimigo essencial o PT e a esquerda, e tudo o que a ela for vinculado, como os médicos cubanos. Criou fantasmas morais-culturais, como um comunismo fora de tempo e lugar e a “ideologia de gênero”, além de índios, negros e gays. Essa guerra cultural, que tira o foco do essencial e coloca no acessório, continua sendo alimentada pelas redes sociais.

A extrema-direita tupiniquim é intelectualmente rudimentar e alguns quadros do futuro governo exibem um despreparo gritante para os cargos que ocuparão. O superministro Guedes pode ser doutor em economia, mas desconhece procedimentos básicos da gestão pública (em que nunca atuou), como o fato de ser o orçamento aprovado na legislatura anterior ao ano fiscal. O futuro chanceler espanta o mundo ao escrever que a mudança climática é uma trama marxista. Mas aguardemos, pois Deus pode ser ainda brasileiro e propiciar ao país um governo exitoso e longo.

É acreditando que extrema-direita veio para ficar que Eduardo Bolsonaro prepara a Cúpula Conservadora das Américas e pensa na I Internacional Reacionária.
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Já se vê que Bolsonaro faz o que se pode esperar dele

O governo Bolsonaro já começou. Para o mundo, foi assim reconhecido quando o Egito cancelou a visita de um ministro brasileiro, não em represália ao governo Temer, mas à hostilidade de Bolsonaro ao mundo muçulmano.

No plano interno, a ruptura do acordo com Cuba e com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), para médicos cubanos suprirem a carência médica pelo Brasil afora, não foi motivada pelo governo Temer. Deu-se por exigências de Bolsonaro contrárias à continuidade do convênio e hostis a Cuba e à Opas.

Por esses primeiros passos de governante, já se vê que Bolsonaro tem uma qualidade: não decepciona. Faz o que se pode esperar dele. No caso, para autenticidade ainda maior, foi uma providência que castiga "o lombo" (no dizer de Bolsonaro) dos mais necessitados.

São os 24 milhões que contam com médicos cubanos. Entre eles, as populações de numerosos municípios que dispuseram de um médico pela primeira vez. Não o terão por muito tempo.

Se há em torno de 2.000 vagas no Mais Médicos, que jamais conseguiu contratar o esperado número de brasileiros, é vazio o anúncio de concurso para 9.000 substitutos dos médicos cubanos.

A única possibilidade estaria em aumento substancial dos quase R$ 12 mil de salário, o que não entra no orçamento de 2019 nem na cabeça de Paulo Guedes.

E a saúde pública não figurou na campanha de Bolsonaro, como não há conhecedores da área no pessoal que faz a alegada montagem de um governo.

O aumento é outro. Substancial, sim, 16% para os juízes. Dele beneficiário, assim como sua filha, o ministro Luiz Fux espera que Temer o assine, em vez do veto por muitos cobrado, para afinal dar fim ao auxílio-moradia também dos juízes. Ou, sem o aumento, nada extinguirá. Se as aparências não traem, há uma imoralidade imortal nesse dá cá, toma lá. Outra vez, sem que se possa falar em decepção.

Com moradia própria e recebedor do auxílio para aluguel, Sergio Moro perde isso que não é só privilégio e não receberá o aumento que é. Antecipou, de janeiro para amanhã, a troca de poderes para tê-los maiores e sobre mais gente. A antecipação explicada: "Houve quem reclamasse que eu (...) não poderia sequer participar do planejamento de ações do futuro governo", mesmo em férias.

A suscetibilidade a uma crítica fica mais interessante se lembrado que Moro estava sob avaliação do Conselho Nacional de Justiça, pela divulgação, seis dias antes das eleições, de um velho depoimento de Antonio Palloci prejudicial a Fernando Haddad.

Há a expectativa de que Moro venha a ter cedo, no Ministério da Justiça, papel semelhante ao que adotou na Lava Jato. Por ora, está só com o ministro Luís Roberto Barroso o exame do uso empresarial das redes sociais na campanha, em favor de Bolsonaro.

O assunto é grave, não só por causa de Bolsonaro. As respostas artificiosas dos aplicativos a Barroso sugerem a existência de problemas. E WhatsApp, Facebook, Google, Twitter e Instagram já se envolvem com tentativa de obstrução da Justiça, levando Barroso a exigir respostas sérias.

Se o ministro do Supremo e do Superior Eleitoral der ao caso a importância comprovada nos EUA, é provável que a Polícia Federal entre nas investigações. Sob a orientação ministerial de Moro. O risco de decepção poderia ser apenas com Barroso.

Janio de Freitas
No fAlha
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Crime de guerra


Em uma sociedade racional e sob o signo da Justiça, o presidente Bolsonaro e seus auxiliares deveriam ser julgados, condenados e presos por “crime de guerra”. O que fizeram, ao romper unilateralmente o contrato do programa Mais Médicos, não tem outro nome, senão um criminoso atentado contra a saúde pública do Brasil. Em surto, e de forma irresponsável, ele voltou a “explodir quartéis” em nome de seus interesses, agora políticos.

O rompimento com a solidária mas também altiva Cuba, motivado por um deformado caráter ideológico, tem a intenção de avançar no servil alinhamento aos EUA. Objetivo reforçado, no mesmo dia, com o anúncio do novo ministro de Relações Exteriores, um “servo” confesso de Trump e suas ideias. Não por acaso, a principal funcionária do Departamento de Estado dos EUA para a América Latina, Kimberly Breier, elogiou a decisão de Bolsonaro.

Hoje, não resta mais dúvida que o Brasil está sob severo bombardeio de uma “guerra híbrida” imperialista desde, pelo menos, 2013. Um ataque motivado por interesses econômicos e geopolíticos dos EUA, ao qual se somaram as agências de fake news e os lacaios internos. As manifestações “coloridas”, a operação Lava Jato, o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a última eleição, manipulada desde fora, são provas disso.

Os crimes de guerra acontecem quando ocorrem violações dos direitos humanos em épocas de guerras ou conflitos. Além de contrários ao programa desde seu início, os novos governantes sabem das dificuldades corporativas para deslocar médicos brasileiros ao interior. Assim, não existe razão objetiva, racional, que justifique tal atitude, a não ser a traição à Pátria e o desprezo ao seu povo, inclusive àqueles que o elegeram.

Fernando Rosa
No Senhor X
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17 de nov de 2018

E o Exército? Onde está o Exército?

https://segundaopiniao.jor.br/

A locução “militar na ou da reserva” situa-o em posição especial na estrutura das ocupações. Um jogador de futebol estar na reserva significa manter-se na ativa, à disposição dos superiores técnicos e administrativos quando convocado à titularidade. Mas ao final da carreira não vai ocupar uma reserva permanente; ele passa à condição de ex-jogador de futebol.

Professores, dentistas, engenheiros e outras tantas profissões liberais estão sempre na ativa, nunca na reserva, mas, ao final da carreira, não se tornam reserva (é bastante rara a convocatória de um médico que “já não exerce a profissão”, como se diz) nem tampouco se tornam algum “ex”. Estão aposentados. Não existem ex-advogados, ex-arquitetos, ex-farmacêuticos e dezenas de outros profissionais. Continuam com a identificação profissional preservada, mas inabilitados para retornar à ativa.

Militares são profissionais exóticos. Enquanto na ativa, preenchem posição clara na estrutura ocupacional: responsáveis pela eficácia dos dispositivos constitucionalmente atribuídos; essencialmente, o resguardo, em última instância, das instituições civis, e a defesa da segurança e soberania nacionais. Segurança e soberania nacionais são bens públicos clássicos, ou seja, não podem ser usufruídos ou capturados por grupos ou segmentos sociais privados, são parte indissociável da dieta de todo cidadão, independente de credo, ideologia, status social ou renda pessoal.

Ao passar para a reserva, os militares não perdem a condição de militar, tal como os profissionais liberais, mas não se aposentam, como estes. Não existe a ocupação de militar aposentado. Os militares permanecem como futebolistas ativos, embora na reserva, prontos a retornar à vida produtiva, se requeridos. Só que, ao contrário de jogadores reservas, não lhes é permitido voltar como militares propriamente ditos, de coturno e armas na cintura. Não havendo outra ocupação designada, reaparecem como avatares civis.

Ilusão. Não existem ex-militares. Por baixo dos ternos e gravatas protocolares permanecem os blusões verde oliva, ornamentados com os galões de tempos vividos, mas não idos. Com a psicologia reptiliana de militar, o presidente eleito resiste a aceitar o equilíbrio e a solenidade litúrgica do cargo, mantendo o linguajar belicoso, o gestual rude e a distribuição de poderes entre delegados de um governo de ocupação. Resta por decifrar se o Exército está ciente do jogo para o qual está sendo gradativamente arrastado.
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Sobre o Mais Médicos


Pequeno guia para não falar bobagem sobre o Mais Médicos

Ponto 1 – O PMM não é um programa de contratação de médicos. É um programa global de fortalecimento da atenção básica no país e, para isso, conta com três eixos: infraestrutura (requalificação das unidades básicas para que tenham a estrutura necessária para o atendimento); readequação e expansão da formação médica (revisão dos currículos das universidades visando focar na medicina preventiva e não curativa, além de ampliar e descentralizar a oferta de vagas em cursos de medicina, prioritariamente pela rede pública) e, finalmente, o provimento emergencial de médicos (ou seja, “contratação” de médicos).

Ponto 2 – Os médicos do programa, todos eles, saem, depois de dois anos, com um título de especialização. Assim sendo, o médico do PMM não tem vínculo empregatício, pois integra um programa de formação em serviço. Logo, não faz sentido falar em CLT.

Ponto 3 – Os médicos cubanos atuam, em sua maioria, em locais em que brasileiros não querem atuar. Quando as vagas do programa são abertas, os primeiros a ser chamados nos editais são os médicos brasileiros formados no Brasil (com CRM); depois, os chamados intercambistas individuais, médicos brasileiros formados no exterior (importante notar aqui que são médicos que não têm CRM. Logo, não passaram pelo revalida que o presidente eleito quer forçar os cubanos a passarem). Só em caso de não preenchimento das vagas anteriores é que os médicos cooperados (no caso, os cubanos) são convocados.

Ponto 4 – Os médicos estrangeiros chegam não apenas para ocupar vagas que os brasileiros não querem ocupar (o que também é verdade), mas porque a formação médica atual não consegue atender à demanda de médicos no país.

Ponto 5 – A formação cubana em saúde é referência no mundo. Durante o governo Obama até os EUA tinham desenvolvido parcerias na área. A ELAM, escola de medicina da ilha, forma profissionais do mundo inteiro, incluindo brasileiros. Ainda assim, quando chegam ao Brasil, os médicos passam por um período de acolhimento, no qual são capacitados sobre o funcionamento do SUS, temas de saúde e português. Ao final desse período ainda passam por uma prova de admissão final. Logo, a revalidação demandada é surreal.

Ponto 6 (e talvez um dos mais importantes) – Os termos da cooperação são pactuados entre a Organização Pan-Americana da Saúde e o Ministério da Saúde de Cuba. Ninguém é “escravo” ou “obrigado a trabalhar” no Brasil. Os médicos recrutados são, em sua maioria, profissionais que já tiveram atuação humanitária em diversos países do mundo (como a crise do ebola na África ou países centro-americanos. Cerca de 25 mil profissionais atuam fora do país atualmente.

16 de novembro de 2018

Lara Stahlberg é Mestre em Brasil em Perspectiva Global pelo King’s College London. Tema da dissertação: International cooperation and health policy: An analysis on the design and implementation of the Mais Médicos Programme in Brazil.



Médico cubano responde a Bolsonaro

Bolsonaro Diz:

“Atualmente, Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares. Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu o presidente.

Eu respondo: Bolsonaro meu filho, quando o Sr diz que Cuba fica com meu salário eu só penso nas siguente questões:

1-Eu aceitei os términos de um contrato por livre y pessoal determinação.

2-Ciente de que com esse dinheiro minha mãe, irmãos, sobrinhos, primos, tios , vizinhos ,famílias todas tem garantido o cuidado de sua saude. Sem pagar nada .

3-Ciente que minha formação como médico e graças a criação de Universidades públicas em todo o território Nacional. Onde filhos de Pedreiros, Advogados, Fazendeiros, Faxineiras, empregados dos Correios, médicos , etc... compartilham a misma sala de aulas sem discriminação por sexo, cor, ideologia, ou riqueza. Isso Bolsonaro chama-se igualdade. Ciosa que Sr não conhece Porque não existe num país onde a corrupção e os privilégios políticos acabam com a riqueza do Brasil.

3-Eu tenho o coragem de trabalhar para o povo brasileiro ainda sem perceber esse salário que o Sr fala. Porque eu não trabalho só por uma questão economica. Eu trabalho porque gosto da minha profissão , por que jamais vou ficar rico a costas dos pobres. Porque jamais vou usar a política como médio de vida. Porque jamais vou enganar os pobres com falsas promessas. Porque jamais vou plantar o ódio e discriminação no coração de ninguém. Porque vou pensar bem as coisas antes de falar para não ter que fazer como você (pedir desculpas todos o dias pelas loucuras que fala)

4-Eu posso sim trazer alguém de minha familia. Não trouxe porque Sr Bolsonaro o pobre tem que ter prioridades na vida e para mim a prioridade e ajudar minha família mas que comprar um passagem aérea sabendo que em casa temos outras necessidades e prioridades.

5- Sei também que o Sr conta com o apoio de uma pequena parte de meus colegas que por motivaçãoes políticas e economicas acham melhor se enriquecer de dinheiro e não de amor, experiência, valores morais , patriotismo, dignidade. Porque eu posso não concordar com meu salário lá em Cuba. Eu posso até não concordar com o sistema político da cuba. Mas também não tenho porque difamar de meu país , eu vi isso também nos brasileiros pobres que é a maioria no brasil. Eles gostam de seu Brasil, daquele povinho onde eles nasceram, só que com certeza gostam que esse mesmo Brasil que eles tem no coração tenha igualdade, pobreza 0 , fome 0, discriminação 0, violência 0, corrupção 0, saúde e educação de qualidade. Mas ainda assim no Brasil imperfeito eles gostam de seu país .

6- O Sr diz que os cubanos "estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Não Bolsonaro, o que realmente viola os direitos humanos e privar aos pobres do Brasil do acesso a Saúde por não concordar com outras ideologias polícias. Porque o Sr quer mudar as regras sem perguntar aos beneficiários do programa se realmente os cubanos fazem o trabalho do jeito que tem que ser. Porque aqui no Brasil a gente tem preceptores Brasileiros, a gente está fazendo um curso em Medicina familiar , tudo baixo a supervisão de excelentes profissionais brasileiro. A gente não está lá em qualquer canto fazendo as coisas a capricho não. Agora vem você a dizer que nós estamos fantasiados de médicos. Aqui o único fantasiado é o Sr é todos os que apoian sua absurda visão da realidade. O Sr só está lutando pelos privilégios das minorias. Lamentável! Sim. Sr Bolsonaro o que resulta lamentável e ver como um cara sem conhecimentos de nada apenas só de armas consegue se eleguir presidente . E ainda assim mais lamentável ainda foi ver alguns pobres elegir você. Deus tome conta dos pobres. Deus tome conta do Brasil.

7-Quem estudou na época dos livros, quem estudou na época que as pesquisas eram feitas nos livros e não no Google ou na internet merece respeito.

Quem lutou pela vida e chorou pela morte de uma pessoa ou de uma criança merece respeito.

Quem foi lá onde para muitos e o Fim do mundo para cuidar dos doentes merece respeito.

Quem ficou longe da família para devolver o sorriso de um idosso ou uma criança merece respeito.

aie e para tirar o chapéu viu

Absurdo que 66 países no mundo estão se beneficiando de nossa labor e vem você a chamar de fantasiados. Pior ainda duvidar de que alguém queria ser atendido por cubanos.

Peço respeito pelos meus colegas.

Peço respeito a livre escolhia de meu povo.

Peço respeito para os pobres.

Peço respeito para a Medicina Pública.

Peço também o Sr estudar o que significa amor ao próximo.

O que significa Pátria.

O que significa dignidade.

O que significa diplomacia.

O que significa Medicina familiar.

O que significa igualdade

O que significa respeito de pensamento

O que significa ser o presidente dos brasileiros pobres também é não só dos ricos e poderosos.

Saúde é longa vida para O Sr. Você pode passar a História do Brasil como um bom presidente. Isso vai depender muito de você. A história vai lhe cobrar.

Deus abençoe você é seu povo.

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Facebook censura blogueira cubana por causa do Mais Médicos

Facebook censura publicaciones sobre Mais Médicos en Brasil

Facebook ha censurado mi perfil https://www.facebook.com/norelys.ma.3 por la siguiente publicación:
"Llamar esclavos a gente libre es perverso, pero de ahí se monta una feroz campaña mediática. Los millones de marginados brasileños no importan y #MaisMedicos les parece ofensivo a sus eminencias ricas de #Brasil. Ofrecer a los galenos cubanos una relación monetaria capitalista para atacar a #Cuba es el verdadero interés político de #Bolsonaro y así complacer a #USA y a sus amigotes como #MarcoRubio Hoy los medios y redes atacan con el salario de los cubanos, que ninguno de ellos o ellas fue obligado."
 Aquí inserto el código de la publicación que dice que solo yo puedo verla porque ¡incumple las normas de Facebook!

Da risa que atribuyan a desnudos o actividad sexual. Ver para creer.

Esta censura de Facebook porque hablo de médicos cubanos, del programa #MaisMedicos y de la actitud de Jair Bolsonaro, me permite explicar que los ataques al salario de los médicos cubanos se inscribe en la lógica capitalista en que el estado salva a los bancos, mientras los deudores hasta se suicidan.

Mientras, en Cuba, a lo antedicho, es de añadir que el socialismo cubano redistribuye la riqueza par asegurar la mayor justicia social posible. De eso son conscientes los hombres y mujeres cubanas que salvan vidas en la noble profesión de médicos del cuerpo y el alma.

Estas son las capturas de pantalla del proceso censurador de Facebook.




Norelys Morales
No Isla Mía
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Esta mulher tem o poder de anular toda a Lava Jato


Ela é Meire Poza, contadora do doleiro Alberto Youssef. Poza apresentou à Justiça documentos que comprovam sua participação extraoficial (portanto, ilegal) nos primórdios da Operação Lava Jato, o que pode anular toda a Operação, como aconteceu anteriormente com a Castelo de Areia e a Satiagraha.

Mensagens do celular de Meire Poza
A defesa de Meire juntou aos autos as conversas que ela mantinha no celular com os delegados Márcio Anselmo e Eduardo Mauat, os agentes federais Rodrigo Prado Pereira e outro identificado apenas como "Gabriel PF" e o procurador da República Andrey Borges, todos com atuação na Lava Jato.

Nas mensagens, Anselmo surge como um dos principais interlocutores. Ele solicitava informações sobre empresas e personagens ligados a Youssef. Pelo WhatsApp ela fornecia dados como registros de transferências entre empresas e até o modelo do carro de uma amante do doleiro.

Meire também recebia no celular informações dos bastidores da operação.

Em 1º de julho de 2014, dia em que foi deflagrada a 5ª fase da Lava Jato, a contadora recebeu uma foto de João Procópio Almeida Prado, ex-funcionário de Youssef, cabisbaixo, num gabinete vazio. O lugar é semelhante às salas da Superintendência da PF do Paraná. Procópio foi preso naquela data.

No dia seguinte, ela recebeu uma fotografia tirada de dentro de um carro da PF em que Procópio está no banco traseiro.[Fonte: Folha]
É a famosa tese da maçã podre que contamina todo o processo. Isso aconteceu anteriormente com as Operações Satiagraha e Castelo de Areia, com provas abundantes e robustas de corrupção milionária, mas que foram anuladas, uma pela participação informal de agentes da ABIN, outra porque o início da Operação foi baseado em denúncia anônima. Todas as provas foram anuladas e destruídas.

A Lava Jato pode ir pelo mesmo caminho, como eu denunciei aqui lá atrás, há quase quatro anos. Confira:


Antônio Mello
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O fakenews da privatização da Eletrobras



A economia é a maior fonte geradora de fakenews.

A jogada é simples. Como o cidadão comum não tem muita noção de valores, de proporção, montam-se jogadas em cima de números irrelevantes, visando preparar as grandes tacadas para os espertos.

É o caso da tentativa de privatização da Eletrobras.

Apenas o valor físico da capacidade de geração da Eletrobrás pode chegar a R$ 350 bilhões. Somando-se o custo imaterial das concessões, se chegaria aos R$ 700 bilhões. Empresas elétricas nacionais, de países de parque elétrico muito menor, como Espanha, Portugal e França, valem esse valor, conforme pode-se conferir no Xadrez da venda da Eletrobras.

A Eletrobras é empresa-chave para a segurança energética brasileira, pelo fato de ser grande geradora de energia barata, pois que proveniente de hidrelétricas já amortizadas.

No entanto, seu controle está sendo colocado a venda por R$ 12 bilhões. Chegou-se a esse valor através de uma manipulação, levando em conta apenas o valor contábil da empresa.

Nenhuma empresa é vendida por seu valor contábil, mas pelo seu fluxo futuro de resultados. O fluxo de resultados da Eletrobras é em cima de energia barata, vendida em contratos para as distribuidoras.

O que os espertos pretendem é simples:
  1. Vende o controle por uma ninharia.
  2. No momento seguinte, descontrata-se a energia. Ou seja, em vez de entregar a energia para distribuidoras, em contratos de longo prazo, permite-se que a energia seja colocada no mercado à vista.
  3. Esse movimento produzirá dois desastres no setor. O primeiro, a explosão das tarifas. O segundo, a explosão no mercado de energia livre, já que a Eletrobrás exerce um papel regulador e moderador de tarifas.
  4. Lucros astronômicos não apenas para quem comprar, mas para os sócios privados atuais: grupo Jabbur e 3G, de Jorge Paulo Lehman. Sem investir um centavo, o valor de sua participação se multiplicará por dezenas de vezes.
Explicamos várias vezes que uma das formas mais utilizadas de fakenews são as informações econômicas descontextualizadas.


Incluiu no Projeto de Lei Orçamentária os R$ 12 bilhões da venda do controle da Eletrobras. E, agora, diz que se a Eletrobras não for vendida, o governo terá que retirar o dinheiro de outras áreas. E, portanto, "quem paga é a população", como afirmou o inefável João Amoedo, em seu Twitter.

Vamos, primeiro, às informações sobre valores.

Para o próximo ano, há uma previsão de receita fiscal da ordem de R$ 3,4 trilhões de reais. Vamos comparar os dois valores da maneira correta:


A comparação não está muito clara? Vamos transformá-la em gráfico:


Ou seja, vende-se um patrimônio público dezenas de vezes mais valioso, cria-se um quadro de aumento expressivo das tarifas de energia (bancado por todos os consumidores), em troca de uma receita correspondente a 0,35% do orçamento previsto.

O segundo fakenews é a história de que a União terá que investir na Eletrobras. Trata-se de um sofisma recorrente, que pode ser manifestação de ignorância ou de má-fé. Amoedo não é ignorante em matéria financeira.
  1. O setor privado vai investir se houver retorno do investimento.
  2. Havendo retorno, há várias maneiras da Eletrobras conseguir se financiar no mercado. A forma mais usual de financiamento de investimentos de longo prazo é estimar o fluxo de resultados futuros e converter em títulos que são vendidos no mercado.
  3. Ao sugerir que o investimento na Eletrobras será retirado do orçamento público, Amoedo mostra ter tanto conhecimento do orçamento público quanto seu colega Paulo Guedes. São valores que não se misturam.

Luís Nassif
Agência Xeque
No GGN
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Marginais vermelhos

Jair Bolsonaro bem que poderia plagiar o Fernando Henrique Cardoso que, ao ser eleito presidente, pediu para esquecerem tudo que ele tinha escrito como sociólogo e dito como político, no passado. Fernando Henrique fez uma bem humorada – e mal compreendida – alusão à diferença entre teoria e prática em qualquer governo, mas a piada o perseguiu por toda a sua administração. Bolsonaro pediria para esquecerem suas frases mais explosivas e suas posições mais radicais para poder fazer um governo de união nacional, respeitando a Constituição, os direitos humanos, a pluralidade política, o aleitamento materno etc. Que esquecessem que um dia ele lamentara publicamente que a ditadura (que, segundo ele, nunca existiu) não matara o Fernando Henrique quando tivera a oportunidade, que ele defendia a tortura, que seu ídolo era um torturador notório... Isso sem falar nas suas opiniões conhecidas sobre mulheres e gays e outras minorias.

O problema é que o passado do Bolsonaro é mais recente do que o do Fernando Henrique Cardoso, mais difícil de esquecer. O discurso que ele fez para o telão da Avenida Paulista foi uma semana antes da eleição, e não tinha nada de conciliador ou de contrito. Era ameaçador. Prometia uma faxina no País. Quem não estivesse com o seu governo que se preparasse para deixar o Brasil ou ir para a cadeia. Também seriam banidos da Pátria o que ele chamou de “marginais vermelhos”. Cheguei a ficar preocupado. O que seriam marginais vermelhos? Eu sou um marginal, na medida em que crônicas são notações e comentários na margem das notícias, uma espécie de pichação literária, e eu faço crônicas. E torço pelo Internacional, que é vermelho. Já me vi correndo da polícia para não ser preso e banido da pátria, gritando:

– Eu sou Grêmio! Eu sou Grêmio!

Mas não. Deduzi que “marginais vermelhos” é o nome genérico da esquerda brasileira, dado por Bolsonaro. Imagino que haveria uma graduação de acordo com a periculosidade de cada esquerdista e sua punição. Vermelho: desterro. Roxo: prisão. Rosa (se não for gay): trabalhos forçados. Rosa (se for gay): prisão domiciliar com tornozeleira. A verdade é que a esquerda brasileira está curiosa para saber por quem será tratada daqui pra frente, pelo novo Bolsonaro da união nacional ou pelo velho Bolsonaro do comício da Paulista.

Luís Fernando Veríssimo
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Como o Alzheimer afeta quem vive na periferia?

Demora no diagnóstico e precariedade da infraestrutura das cidades penaliza ainda mais os portadores mais pobres da doença, envolvendo a família inteira

Vanusa do Nascimento largou o emprego como técnica de enfermagem para cuidar da mãe Valderice, diagnosticada com Alzheimer
Valderice do Nascimento ainda trabalhava como empregada doméstica quando começou a se esquecer das coisas. Vez ou outra a patroa reclamava do fogo aceso à toa. Vanusa, uma das filhas de Valderice, assumiu os cuidados da mãe e a levou ao médico. Não deu outra. Valderice estava com Alzheimer. Vanusa abandonou o emprego de auxiliar de enfermagem e se mudou para a casa da mãe na Brasilândia, zona norte de São Paulo.

As histórias de Vanusa e Valderice e de outras quatro famílias estão registradas no documentário “Alzheimer na periferia”, lançado no dia 4 de setembro em São Paulo. E representam um pequeno recorte de um quadro em crescimento no Brasil e no mundo: o dos pacientes com Alzheimer.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 47 milhões de pessoas acima de 60 anos no mundo tem algum tipo de demência – a maioria delas com Alzheimer. Até 2050, com o envelhecimento da população, esse número deve triplicar. Só no Brasil, a estimativa é que 1 a 1,5 milhão de idosos sofram com a doença.

Não é qualquer enfermidade. O Alzheimer afeta a família toda. Por ser uma doença neurológica de caráter progressivo, aos poucos (num período que pode se estender de dois a 20 anos) a memória do paciente se esvai. E alguém precisa assumir as rédeas da vida dele.

Assim como Vanusa, Paulo Sadex também largou a rotina para cuidar da tia Leonor. “Me mudei para cá e tudo mudou. Já tive uma vida bem ativa. Infelizmente, hoje não dá”. Ele se lembra de uma vez que saiu para comprar cigarro, perto de casa, e quando voltou a tia estava em prantos porque não conseguia encontrá-lo.

Quando se trata de famílias da periferia, os desafios só aumentam. A começar pelo risco de desenvolver Alzheimer. Segundo estudos, além do histórico familiar e idade, outro fator de risco é a baixa escolaridade (perfil da maioria dos idosos de periferia). Como tendem a não praticar trabalhos intelectuais, com poucos estímulos cerebrais, a demência se desenvolve com maior facilidade.

Além disso, não há qualquer infraestrutura que facilite a mobilidade desses pacientes em casa e no bairro onde moram. “No documentário, você percebe que não há qualquer adaptação nas casas nem para um idoso saudável. Cheio de escadas. Imagine, então, para um idoso doente”, conta Jorge Félix, autor do argumento do documentário e especialista em envelhecimento populacional.

E há ainda a dificuldade em chegar ao diagnóstico. Segundo Vera Caovilla, uma das fundadoras da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), em alguns cantos do País a primeira consulta pelo SUS demora meses – ou até dois anos. “Um tempo atrás, aqui na capital paulista, o atendimento com o clínico geral demorava de 6 a 8 meses”, explica.

Essa demora toda impede o início rápido do tratamento – e, por vezes, até impossibilita o recebimento de remédios custeados pelo governo. “É um critério deles, se a doença estiver já em estágio avançado, não entregam os medicamentos”, conta Caovilla. O Alzheimer tem três estágios – no mais avançado, o paciente quase não tem mais autonomia, mal consegue se comunicar ou se locomover e pode apresentar incontinência urinária e fecal.

“Normalmente os velhos já são deixados de lado na área da saúde e atendimento. Velho demenciado, então, é pior ainda”, critica Caovilla. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil tinha, em 2016, a quinta população mais idosa do mundo. Até 2030 teremos mais idosos do que crianças de zero a 14 anos. Tudo isso tem um custo alto. Segundo dados do IBGE, 75,5% dos idosos têm doenças crônicas e 70% dependem do SUS.

Os pontos altos do SUS

Ainda assim, nem tudo funciona tão mal no sistema público de saúde. Espalhados pelo País, as unidades da Saúde da Família incluem, entre outros projetos, o Programa Acompanhante de Idosos (PAI) e os Centros de Referência em Atenção à Saúde do Idoso.

Em São Paulo, existem os Centros de Referência do Idoso - os CRIs. Foi lá que Vanusa fez cursos para aprender a cuidar melhor da mãe. E onde vai frequentemente para conversar com outras cuidadoras. “Você se sente bem quando conversa com as pessoas que têm as mesmas coisas. É muito bom. Hoje na volta já vim tranquila, estava tão bom que por mim eu tinha ficado mais um pouco”, relata Vanusa, no documentário, após voltar de um desses encontros.

Quase todos os personagens contam unicamente com a assistência do SUS. Maria José Pereira cuidou do marido Daniel durante todas as etapas de desenvolvimento da doença. Buscava fraldas e remédios de alto custo em uma Unidade Básica de Saúde. “Também pego leite do governo e tudo mais que eu tiver direito, vou atrás”, contou. O marido faleceu neste ano.

Serviços básicos que ainda garantem um pouco de cuidado à população mais pobre. “O problema é que, na prática, ainda não funciona para todo mundo, porque nem todos lugares possuem centros com equipes médicas que vão até a casa dos pacientes”, explica Caovilla. E, no fim das contas, cuidadores sofrem tanto quanto os pacientes. “É um impacto econômico que recai na família. É preciso levar mais equipamento e estrutura médica para as periferias”, completa Félix.

Carol Castro
No CartaCapital
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O presidente da bolsosfera


Bolsonaro fez 57,7 milhões de votos mas sua preocupação mesmo é agradar aos seus seguidores no Twitter. Ele tem 2,4 milhões de followers na rede social. Considerando robôs, perfis duplicados e abandonados, gente que segue o homem por dever de ofício ou pra passar raiva, há menos eleitores e fãs de fato do que o número sugere.

Antes de virar o presidente do Brasil, Bolsonaro virou o presidente do Twitter. O que é a indicação desse novo ministro das Relações Exteriores se não uma lacração para as massas de arrobas embriagadas de capitão? Ernesto Henrique Fraga Araújo “quer ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, definiu-se o próprio em um blog que, à primeira, segunda e terceira leitura, tive dificuldades para entender se aquilo tudo era escrito a sério ou se nosso novo ministro é uma versão do Tiririca que cursou faculdade.

Ele escreve em seu blog, por exemplo, que o aquecimento global é predominantemente uma “ideologia da mudança climática, o climatismo”. E garante: “O climatismo diz: ‘Você aí, você vai destruir o planeta. Sua única opção é me entregar tudo, me entregar a condução de sua vida e do seu pensamento, sua liberdade e seus direitos individuais. Eu direi se você pode andar de carro, se você pode acender a luz, se você pode ter filhos, em quem você pode votar, o que pode ser ensinado nas escolas. Somente assim salvaremos o planeta. Se você vier com questionamentos, com dados diferentes dos dados oficiais que eu controlo, eu te chamarei de climate denier e te jogarei na masmorra intelectual. Valeu?”

Então você só estava caminhando com papel de bala no bolso pra jogar na lata de lixo adequada, tentando ser um bom cidadão, e nem sabia que o climatismo queria sua alma. Jogue uma latinha de Coca Cola no chão e liberte-se.

O governo tuiteiro lacrador de Bolsonaro vem sendo construído há muitos anos. Suas sementes estão espalhadas pela rede e podemos buscar cada uma delas diante de cada fato novo gerado pela máquina de memes que é seu gabinete de transição. A última delas foi o caso dos médicos cubanos.

Em 2013, ele tuitou que tinha acionado a justiça contra a importação dos médicos da ilha. Voltou ao assunto de modo crítico em 2014, 2016, 2017 e 2018. Aplaudido e inebriado pela endorfina dos RTs e likes, disse em agosto desse ano que expulsaria os médicos se ganhasse as eleições. Reafirmou que faria isso “com uma canetada”. Depois de eleito, foi ainda mais longe, e ameaçou cortar relações diplomáticas com Cuba. A ilha se antecipou e, antes de ser expulsa, resolveu repatriar seus doutores.

Visivelmente abalado com a decisão cubana, Bolsonaro foi ao Twitter (claro) e tuitou: “Atualmente, Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares. Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”

O uso da expressão abominada pelo bolsonarismo raíz me causou espanto. Abri o TweetDeck e fiz uma busca no perfil oficial @jairbolsonaro: digitei “direitos humanos” entre aspas.

Bolsonaro usou as duas palavras combinadas exatas 53 vezes desde janeiro de 2013, quando falou pela primeira vez sobre o assunto no Twitter. Teve 55 retuítes e dois likes. As palavras associadas a “direitos humanos” em todas as suas manifestações desde então vão de “CANALHADA dos direitos humanos” a “ESTERCO DA VAGABUNDAGEM”, assim mesmo em letras maiúsculas.

Sabem quantas vezes ele usou as palavras em tom positivo? Só uma, justamente quando resolveu madreteresamente defender os direitos humanos dos médicos cubanos. Teve 16 mil retuítes e 89 mil likes. Lacrou para os seus 2 milhões de seguidores, enquanto mais de 20 milhões de pessoas na vida real temem ficar sem médico já em janeiro. Mas tudo bem se vai tudo bem no Twitter da bolsosfera.

Leandro Demori
No The Intercept
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